sexta-feira, 24 de abril de 2009

Montalto de Jesus: 1863-1927

Montalto de Jesus sempre foi a favor de um maior desempenho por parte de Portugal nas oportunidades comerciais que a China parecia oferecer. Numa conferência dada à Sociedade de Geografia de Lisboa em 1911, lamentou a apatia de Portugal em relação a Macau, atribuíndo esta falta de iniciativa ao governo do antigo regime monárquico: "infelizmente um dos maiores males do paiz é a falta de inciativa e cooperação nacional, o tétrico pessimismo dos tempos idos. O regime monárquico nao só arruinou o país: esmoreceu na alma nacional a confiança, o arrojo indispensavel á vida comercial, deixando o povo quasi morto em marasmo e obscurantismo econòmico..." Jesus, Montalto de, in Portugal e Macau. Problemas Económicos e Políticos, Lisboa, Tipografia Universal, 1911
Carlos Augusto Montalto de Jesus em 1921
Historiador e publicista, correspondente da Sociedade de Geografia e da Royal Asiatic Society, Montalto de Jesus teve uma vida trágica. Acabou por falecer na miséria em Hong Kong, onde nascera, por ter escrito uma história de Macau considera insultuosa pelo Governo do Território. Foi a segunda edição de Historic Macao, de 1926, (a primeira é de 1902) que lhe valeu a prisão e o consequente exílio. o livro viria a ser apreendido e queimado, qual heresia, lembrando os antigos autos de fé da Inquisição.
Na segunda edição de Historic Macao acrescenta vários novos capítulos. Foram precisamente esses últimos capítulos que o transformaram instantaneamente, de herói nacional que era, num reles traidor. A segunda edição surge num tom acutilante contra os portugueses: "Fundamentalmente, a ruína de Macau deve-se às duplas e perpétuas falhas, quer de Portugal quer da China, bem como às catas tróficas maquinações de Hong Kong, sobretudo nos primeiros tempos desta colónia..."
Para salvar do previsível golpe final a triplamente vitimada colónia, que já fora a "pérola do Oriente", Montalto prossegue: "a não ser que, providencial mente, aconteça algo de inesperado, o enfraquecido Macau terá de ir à deriva na maré de azares onde navega, até se afundar por completo; ou, mais tarde ou mais cedo, Portugal terá de passar a sustentá-lo como um peso morto; ou, melhor dizendo, como um justo castigo pela negligência e mau governo sistemáticos ao longo dos tempos. É este, infelizmente, o triste destino que espera esta colónia portuguesa, que sempre foi auto-suficiente, cujo nobre brasão heráldico é o próprio brasão nacional e cuja divisa é 'Não Há Outra Mais Leal'. Na História da Colonização dificilmente poderemos encontrar outro caso de cruel expiação e de lealdade mal recompensada semelhante a este. A civilização bem pode ficar perplexa perante tal ironia do destino, tão pacientemente suportada durante séculos de martírio. Mas é óbvio que só uma catástrofe poderá despertar a nação sonolenta (Portugal) para o seu senti do do dever, perante a severa lógica dos factos e a Nemesis do destino em plena actividade.
Completamente desiludido com o Governo de Macau, Montalto tinha, simultaneamente, uma visão utópica da Liga das Nações, a qual, no seu entender, poderia salvar Macau da ruína total. A Liga das Nações é fantasticamente idealizada como sendo um verdadeiro presente dos deuses, e Montalto deposita nela total es perança de uma intervenção messiânica. Montalto nunca sonhara que a abandonada e velha "pérola do Oriente" viria a ser retomada pela China no final do século. Se assim fosse, talvez tivesse acrescentado outro capítulo, exigindo à China que prestasse a Macau a consideração devida.
O último capítulo foi, portanto, considerado como uma úlcera no conjunto do livro, e um claro desafio à impotente administração portuguesa. Como era inevitável, enfureceu o Governo de Macau, sobretudo por Montalto fustigar implacavelmente os portugueses. Estes sabiam tão pouco sobre Macau, preocupavam-se tão pouco e eram tão incompetentes quanto a ir de encontro aos desejos de Macau, que mais valia arriar a bandeira portuguesa e o Território passar a ser administrado pela Liga das Nações. O Governo de Macau condenou imediatamente a segunda edição, que considerou "herética", "apreendeu toda a edição e queimou-a em público. "Todos os que tivessem comprado um exemplar receberam ordens para o entregar, a fim de ser destruído".

Quer Ljungstedt quer Montalto foram considerados traidores pelas autoridades portuguesas. O primeiro era sueco e o segundo cidadão de Hong Kong, mas ambos escreveram em inglês sobre a História de Macau. Era óbvio que a versão em inglês se destinava não só aos leitores portugueses como também a um público mais vasto. Convém referir que a palavra "história", em português, significa não só o relato de acontecimentos históricos, como também qualquer narrativa, e o mesmo sucedia na língua inglesa até ao século XIX.
Qualquer obra, quer se trate de um relato de factos reais, quer de uma narração fantasiosa, tem como destino ser censurada ou reprimida se não estiver do lado do governo vigente.

Walter Benjamin observa que a História é "um instrumento das classes dominantes". A História não só tende a reflectir o poder dominante, como também se ajusta ao vencedor e à ideologia da ordem legítima. Não surpreende minimamente que o livro de Ljungstedt tenha sido estigmatizado e fosse impiedosamente atacado, simplesmente porque a História que escrevera não celebrava os feitos dos Portugueses, mas revelava a insuportável "verdade". No entanto, em 1992, a sua obra foi, finalmente, encarada como uma inestimável fonte para o estudo da História de Macau (graças ao Monsenhor Manuel Teixeira), e a sua reputação reabilitada. Passou, assim, a ser um traidor que se transformou em herói, autor da primeira História de Macau em inglês. Apesar de Montalto ter sido, no passado, condenado como herói que se transformou em traidor devido à fúria provocada pela segunda edição, a sua obra é indispensável para o estudo da permanência Portuguesa desde os primeiros anos do século XVI até ao princípio do século XX.
Após a Declaração Conjunta Sino-Portuguesa de 1987, Macau passou a ser alvo duma atenção sem precedentes, quer por parte dos Chineses, quer dos Portugueses, relativamente aos seus 400 anos de História e à sua cultura sincrética. No passado, a História de Macau escrita em língua chinesa era com frequência considera da como um capítulo ou uma parte da História da província de Cantão; mas, em Julho de 1988, foi publica da em Hong Kong a obra Aomen Shilue (《澳門記略), uma breve História de Macau, em caracteres chineses clássicos. A China também não perdeu tempo em publicar (em caracteres chineses simplificados), Aomen Sibainian (《澳門四百年), relativa aos 400 anos da História de Macau, em Setembro de 1988. Por ironia, o autor de Aomen Sibainian admitiu, no Epílogo, nunca ter estado em Macau, e ainda que a sua pesquisa a nível de arquivos poderia não ser completa. Parece ter tido um súbito fervor de escrever a História de Macau. Quer Aomen Shilue quer Aomen Sibainian foram publicadas pelos Chineses, o que poderá representar um monólogo no seio da perspectiva chinesa.
Em 1992, o Padre Benjamim António Videira Pires publica também um livro em português, Os Extremos Conciliam-se, (《殊途同歸--澳門的文化交融》)que abarca os 400 anos da História de Macau e a formação da sua cultura, contribuindo para dar uma perspectiva dialógica, apresentando uma visão de Macau distinta da chinesa; e o leitor pode ouvir uma voz diferente. O que é notório na obra de Pires é, em primeiro lugar, o facto de este reiterar que, segundo alguns registos oficiais e uma carta do governador de Macau datada de 1846, Macau fora de facto dado a Portugal "para sempre", e que "não era necessário pagar uma renda anual". Isso teria sido decretado pelo imperador Jiajing, da dinastia Ming (1522-1566), cerca de 1557, num documento de posse de terras chamado "chapa de ouro". Infelizmente, o paradeiro deste documento era um enigma, e ter-se-ia provavelmente perdido nos princípios do século XIX.
Para além disso, Pires salientava que aquando da publicação, em 1832, de An Historical Sketch, por Ljungstedt, o referido documento já estaria perdido. Porém, parece pouco convincente que uma prova tão importante de um "presente" se tivesse extraviado. Em segundo lugar, no final do mesmo capítulo, Amaral era saudado como um "herói" por ter forçado, com sucesso, os Chineses a abrirem mão da renda exigida, e por ter expulsado a Alfândega Chinesa da cidade Cristã (Macau). Mas os incidentes do assassínio de Amaral pelos Chineses e a invasão de Beishaling por Mesquita foram totalmente omitidos. Também a sórdida história do tráfico de cules em Macau está omissa na sua História. Finalmente, o passado colonial é, no texto de Pires, estranhamente mediatizado, e a sua História de Macau embelezada, sendo expurgada dos acontecimentos indesejáveis. A sua empatia com o Governo de Macau é claramente visível.

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