terça-feira, 30 de abril de 2019

Mercados municipais: final século 19

Foi a 24 de Janeiro de 1892 que o governador de Macau Custódio Miguel de Borja (1890-1894) assinou o despacho autorizando a proposta orçamental para adjudicação da construção do “Mercado Municipal de Coloane” na "villa" com o mesmo nome, a povoação da ilha de Coloane.
O mercado tinha uma área de construção de 15m x 20.5m, rodeado por um parapeito de pedra com 1.7 metros de altura e com três saídas na direcção Este, Sul e Norte respectivamente. No centro do terreno ficava o pavilhão com telhado de estrutura de treliça de madeira, suportado por quatro colunas de Doric (estilo toscano com capitel simples) com 3,5 metros de altura e sem paredes a fim de permitir uma melhor ventilação e iluminação.
O mercado seria inaugurado a 5 de Março de 1893 e designado por “Mercado Municipal Conselheiro Custódio de Borja” por sugestão da Administração do Concelho da Taipa e Coloane, sendo a cerimónia da inauguração presidida pelo próprio governador. Fica em frente ao actualmente designado como Largo do Presidente António Ramalho Eanes.
Nota: O
mercado da (Feira do Carmo) Taipa tem algumas semelhanças e data de 1886. Tal como o antigo Mercado Municipal Horta da Mitra (imagem abaixo), da mesma época, e demolido por volta da década de 1930 para dar lugar a um novo edifício inaugurado em 1939.
Mercado da Horta da Mitra: final século 19

segunda-feira, 29 de abril de 2019

Tractado em que ƒe cõtam muito por eƒtenso as couƒas da China, cõ ƒuas particularidades e assi do reyno dormuz

Tractado em que se contam muito por estenso as cousas da China, con suas particularidades, & assi do reyno dormuz composto por el. R. padre frey Gaspar da Cruz da orden de sam Domingos (...). Primeira edição 1569.

O Tratado das Coisas da China (1569-1570), de Frei Gaspar da Cruz, é uma obra histórica que relata com detalhe o primeiro contacto entre os portugueses e os chineses com enfoque nas impressões pessoais do religioso sobre a China, nomeadamente da sua estadia em Cantão. Trata-se da primeira obra impressa na Europa (Évora) sobre a China
Frei Gaspar da Cruz desenvolveu a sua actividade como missionário no Extremo Oriente. Partiu em 1548 rumo à Índia com outros companheiros e estabeleceu residências em Goa, Chaul e Cochim; visita Ceilão e parte para Malaca, onde em 1554 funda um convento da Ordem de S. Domingos; passa depois ao Cambodja em 1555-1556 e, através do Laos, chega à China em 1556, primeiro Cantão, tendo depois obtido autorização dos mandarins para se deslocar a Kuangtung. Entre 1557 e 1559 Frei Gaspar da Cruz viaja de novo rumo a Malaca e em 1560 integra um grupo de dominicanos com destino a Ormuz para pregar o Evangelho. A estadia não terá correspondido às expectativas de missionação porque o rebanho era constituído pelos soldados estacionados na fortaleza e, assim, em 1563 deixa Ormuz. Em 1564 está em Goa donde acaba por partir com destino a Lisboa onde contrai a peste vindo a morrer em Setúbal em 1570.

domingo, 28 de abril de 2019

Um visita sui generis em 1893

No final do século XIX o arquiduque austríaco Franz Ferdinand foi aconselhado pelo seu médico a mudar de ares e a viver algum tempo junto ao mar. Os problemas nos pulmões levaram-no numa volta ao mundo tendo passado por Macau em 1893.
Um teatro em Macau em 1866. Ilustração de Eduard Hildebrandt


Reza a história que durante uma recepção feita pelo governador (Custódio Miguel de Borja) este perguntou ao ilustre visitante o que mais gostaria de fazer no território ao que este respondeu que adoraria assistir a uma ópera. O governador terá hesitado por alguns momentos mas pouco depois sugeriu uma visita ao Largo do Pagode da Barra onde estava em cena uma ópera cantonense intitulada 六國大封相 / Six countries conferred a Prime Minister".
Ao que parece o arquiduque não só percebeu a história (teve um tradutor ao seu lado durante a actuação) como gostou muito tendo dito até que por certo nunca mais iria ter uma oportunidade como aquela. 
Vinte e um anos depois, a 28 de Junho de 1914, Francisco Ferdinando (herdeiro do trono austríaco) e a mulher, Sofia Chotek, seriam mortos num atentado na capital da província austríaca da Bósnia-Herzegovina.
O episódio desencadearia a Primeira Guerra Mundial.


sábado, 27 de abril de 2019

A República de Macau - História Amena


Nas imagens a primeira (1896) e segunda (1994) edições deste livro da autoria de José Gomes da Silva, médico, botânico e investigador: "A República de Macau - História Amena redigida por um dos fundadores com a colaboração de muitos efectivos e adidos".

sexta-feira, 26 de abril de 2019

Rua do Tarrafeiro: década 1970


O nome desta rua (baptizada em 1869) tem origem na tarrafa, rede de pesca de malha fina, sendo quem a utiliza o tarrafeiro ou tarrafeador. Fica perto do Porto Interior, tendo nas redondezas a rua dos Faitiões e a Rua cinco de Outubro.

quinta-feira, 25 de abril de 2019

Chinezinha: 1ª edição em 1974

“Chinesinha” é o título do livro de Maria Pacheco Borges (1919-1992) editado pela própria em 1974. Inclui sete contos:: “A viúva-noiva“; “A órfã“; “Dedicação filial”; “Mulher pequena“; “A tancareira“; “O triunfo da virtude” e “O casamento de Pak-Lin“.
A segunda edição é de 1995 (Chinesinha - imagem acima) tem prefácio da escritora Maria Ondina Braga:
"Chinesinha é um livro de contos da autoria de uma macaense – Maria Borges – cuja fina sensibilidade e poder de observação – para lá do contacto directo com chineses de Macau e a informação das suas falas conseguem prender a atenção do leitor quanto à condição da mulher da China de ontem. Mulheres nobres de coração, delicadas, e obedientes, as personagens destes contos, como aliás mandava a moral confucionista das época. E porque a autora sempre lhes empresta predicados de beleza física e de dignidade, essas jovens mulheres, aliada às maravilhosas lendas do seu país, aparentam elas próprias, graciosamente, figuras de fadas benfazejas. Rico de cor, fantasia, e também História, a Chinesinha é, sem dúvida, um livro capaz de agradar a todas as idades. Mais ainda nos dias de hoje, quando o Império do Meio do Mundo passou por profundas reformas e a situação da mulher chinesa é já outra e melhor.  Contos que Maria Borges escreveu com carinho, agilidade, e subtileza.  Uma escrita de estilo simples mas correcto, senão mesmo cuidado."

Maria Pacheco Borges - de alcunha Lolly - nasceu em Macau em 1919 e morreu em Portugal em 1992.

quarta-feira, 24 de abril de 2019

Pote de porcelana a azul cobalto: IHS

Decorado a azul cobalto sob o vidrado, este pote encomendado para o Colégio de S. Paulo, em Macau, apresenta sobre os painéis de lótus que circundam a base seis medalhões polilobados, dois dos quais com heráldica religiosa dos jesuítas: dois anjos tenentes, um de cada lado, seguram escudo oval com bordadura constituída por estilização de sol, encerrando no interior o monograma dos jesuítas, «IHS», encimado por cruz; na parte superior e inferior do escudo um querubim. Os outros ostentam respectivamente um «S» e um «P» as iniciais do colégio. Grandes ramos floridos de inspiração europeia com flores e folhas dispostas simetricamente, característicos do período de transição, separam entre si os medalhões. No ombro, sobre fundos de suásticas e motivos geométricos, quatro reservas brancas decoradas com uma lebre sobreposta a um motivo floral estilizado.
China, período de Transição, 1625-1650
Alt.: 329 mm; Larg.: 310 mm; Diâm. base: 160 mm
O aspecto solene da peça reflecte a força da Igreja em Macau e especialmente a dos jesuítas. (...) Para o seu Colégio de São Paulo, em Macau, a primeira universidade católica no Extremo Oriente, os padres da Companhia encomendaram no segundo quartel do século XVII três potes profusamente decorados a azul cobalto sob o vidrado que ostentam no registo central seis medalhões polilobados com heráldica religiosa da Companhia de Jesus e as iniciais «S» e «P», separados entre si por ramos florais de inspiração europeia.
Estes exemplares, propriedade da Casa-Museu Dr. Anastácio Gonçalves (Lisboa), British Museum (Londres) e de uma colecção particular, fazem parte das inúmeras peças destinadas ao culto e vida quotidiana do colégio.
À semelhança dos jesuítas, outras ordens religiosas nomeadamente os agostinhos e os franciscanos, encomendaram na China os seus objectos de culto e de uso diário.

terça-feira, 23 de abril de 2019

Rua do Corte Real

Inicialmente a rua ficava entre a rua do visconde de Paço D'arcos e a rua Nova do Comércio; mais tarde começou na rua Coelho do Amaral e terminava na rua de Entre-Campos. São vários os "Corte-Real" na história de Macau
António de Mendonça Corte-Real (1717-1774) foi duas vezes governador de Macau: de 1743 a 1747 e de 1761 a 1764. Era fidalgo da casa real e cavaleiro da Ordem de Cristo. Houve um outro Corte-Real... Francisco Xavier de Mendonça, governador que tomou posse em Julho de 1788 e menos de um ano depois morreu. Mas nenhum destes 'deu' o nome à rua. 
Segundo Monsenhor Manuel Teixeira  o nome da rua é alusivo a José Alberto Homem da Cunha Corte-Real, nascido e formado em direito em Coimbra. Foi nomeado secretário-geral da província de Macau e Timor (só em 1896 é que Timor viria a constituir uma província autónoma de Macau) em 1877 cargo que assumir em Julho do ano seguinte. Chegou a assumir o cargo de encarregado do governo em 1882, durante uma curta ausência do governador. Voltou a Portugal em 1884.
Reuniu uma colecção etnográfica de diversos objectos (de Macau e Timor) que foram levados para Portugal: móveis, bengalas, gaiolas, chapéus, aparelhos de pesca e outros objectos fabricados em fibras locais como bambu, junco, ola, algodão e linho.
Entre 1880 e 1882, foram enviadas remessas a partir de Macau, compostas maioritariamente por produtos dos reinos mineral e vegetal, mas incluindo alguns objectos etnográficos de uso mais comum. As remessas foram enviadas para o Museu Colonial de Lisboa (fundado em 1872) e para o Museu do Jardim Botânico da Universidade de Coimbra. Antes do envio, os objectos integraram duas exposições nas salas do Leal Senado (1880 e 1882).
A primeira exposição culminou com um discurso do advogado António Joaquim Bastos Júnior, propondo a criação de um museu municipal Na segunda, foi o próprio Corte Real, na qualidade de presidente da comissão coordenadora, a chamar a atenção da Metrópole para o desenvolvimento do comércio navegação e indústria daquelas colónias. Nas palavras de Corte de Real:
“Estes trabalhos, destinados a pôr debaixo dos olhos do paiz, do seu commercio, dos seus capitalistas, dos seus homens públicos, da sua imprensa, os objectos que constituem a riqueza natural, industrial e commercial, tanto de Macau como de Timor, haviam de por força ser um meio poderoso para desperatar attenção pública, então parece que completamente adormecida, acerca de muitas e graves questões própria e associadas d‘esta colónia theoricas e practicas, económicas e políticas, que estavam por estudar e por decidir, e facilmente acudiam ao espírito de quem reflexionasse attentamente por alguns instantes sobre a verdadeira situação d’estas duas partes tão valiosas da monarchia”
O governador, Joaquim José da Graça, partilhava a mesma ideia. “Considerando que para se reatarem os laços commerciaes entre Macau e o Reino muito convém serem conhecidas as qualidades, applicações e preços dos productos da industria e commercio d’este mercado, o que melhor se pode conseguir expondoos nos museus, destinados a reunirem as amostras das riquezas em que as colónias abundam”
Imagem: um prédio do nº 7 da rua Corte Real, já demolido...

segunda-feira, 22 de abril de 2019

Uma oferta para o Governador: 1869

Sabbado de tarde recebeu S Exa o governador em palacio uma commissâo de oito negociantes chinas encarregada de offerecer a S Exa um precioso mimo em nome da communidade chineza desta cidade. O delicado presente a que nos referimos consta de urna espada de prata e um album no gosto chinez com costas de prata de magnifico gosto e labor. Nas paginas do album acham-se gravados em caracteres chinezes mais de 200 nomes dos principaes haos e negociantes chinas de Macau e algumas sentenças de Confucio que tem applicaçao aos generosos sentimentos que os chinas apreciam e respeitam no actual tenente rei de Sua Magestade Fidelissima nesta colonia. Alem dos primorosos objectos que mencionamos consta ainda o presente de uma especie de bambinella* de seda vermelha bordada a matiz muito usada pelos chinas nas salas de recepçâo na qual em caracteres sínicos doirados se lèem os nomes de algumas cidades da Europa e da China bem como os nomes de S Ex ao Almirante Sergio* e o dos chinas residentes que neste precioso regalo tiveram em vista provar que nao passam desapercebidos os cuidados incessantes que em prol de seus legitimos interesses tem o actual governador da colonia. Damos a S Ex a os nossos sinceros parabens.
in Boletim da Província de Macau e Timor, 26 Abril 1869
*António Sérgio de Sousa, foi Governador de Macau entre 1868 e 1872. Foi durante o seu mandato (1869) que foi feito o primeiro cadastro toponímico de Macau.
** duas cortinas, geralmente apanhadas de lado e orladas com franjas ou galões, que se situam nas laterais de uma porta ou janela para adornar e sombrear o espaço interior, podendo ser encimadas por sanefa.

domingo, 21 de abril de 2019

O "Yu Yun"... Jardim das Delícias


Década 1930
O Jardim de Lou Lim Ioc era, na sua utilidade original, o jardim traseiro da mansão do abastado comerciante de Macau Lou Cheok Ji (Wa Sio), Lou Kao e, posteriormente, do seu filho Lou Lim Ioc (Hong Cheong), sendo a parte principal da mansão o local onde fica a actualmente a Escola Pui Cheng. O jardim foi desenhado pelo pintor Lau Kat Lok. Inspirado nos jardins tradicionais chineses a construção iniciou-se em 1904. Seria baptizado de Yu Yun, ou seja, "Jardim das Delícias".
Ilustração Portugueza: 1908

Década 1910
O jardim acabaria por ficar conhecido entre a população por «Jardim de Lou Kao» ou de «Lou Lim Ioc», filho mais velho de Lou Kao. O jardim foi comprado pelo governo de Macau em 1973 e abriu o público a 28 de Dezembro de 1974.
Para além da Ponte das Nove Curvas, o Jardim Lou Lim Ioc, fazendo juz aos jardins chineses tradicionais, tem no seu interior duas portas: a “porta da lua” ("Ping San Geng Hoi") e a “porta da jarra”.
Década 1970

sábado, 20 de abril de 2019

"Cathedral de Macau" no Archivo Pittoresco de 1857

Este artigo publicado no Archivo Pittoresco de 1857 aborda muito mais do que a história da Sé Satedral. Tendo por base a ilustração o autor (assina apenas como C.) refere-se aos nhonhas, às saraças, aos parses, às cadeirinhas... Fica o convite para a leitura de como era Macau em meados do século 19.
"A velha cathedral de Macau que existia no mesmo logar da nova que representa a estampa era construida de taipa, terra com cal humedecida e batida como a maior parte dos antigos edificios da cidade. Os estragos do tempo e os furiosos vendavaes ou tufões que de vez em quando assolam aquellas paragens a reduziram a tal estado de ruina que o cabido pelos annos de 1835 ou 1836 achando-se a sé vaga resolveu cessar a celebração dos oficios divinos naquella egreja e com auctorisação do governo passou a servir de cathedral a egreja do convento de S Domingos.
Este templo posto tivesse melhores condições por ser mais moderno vasto e construido de tijolo estava mal situado para aquelas funcções por causa da proximidade do basar chinez, onde sempre ha muita agitação e estrondo. Por isto começou a pensar-se no concerto da antiga cathedral muito melhor situada e contigua ao palacio episcopal. Tão reconhecida era a necessidade desta mudança que a curia romana quando expediu as bullas de confirmação do bispo de Macau D Nicoláo Rodrigues Pereira de Borja em 1843 recommendou particularmente este assumpto ao zelo daquelle prelado. Este não descurou delle conseguindo por suas representações que fosse expedida pela secretaria da marinha e ultramar em 26 de fevereiro de 1844 uma portaria auctorisando o mesmo prelado para fazer na antiga sé, de acordo com o governador da colonia, os reparos e concertos que se julgasse necessarios. Feito o competente exame ao velho edificio achou-se que não admittia concertos e resolveu-se com a reedificação. Promoveu-se subscripção entre os habitantes que produziu de seis a sete mil patacas (seis a sete contos de réis) e deu-se começo á obra em dezembro do mesmo anno de 1844 sob melhor fórma e nova orientação. 
A antiga sé tinha o frontispicio para oeste e estava como apertada entre as casas proximas e o palacio episcopal que ficava a um canto e encoberto em grande parte pela mesma sé. A nova egreja tem a frente para o norte ficando a frontaria do palacio desembaraçada e mais vistosa como mostra a estampa. 

A este tempo já o actual bispo de Macau D José da Matta tinha áquella na qualidade de bispo coadjutor e futuro do referido prelado D Nicoláo e já com idéas e diligencias concorreu para este novo plano mas ao seu antecessor é que cabe o merito de a executar pouco antes de falecer em 21 de março de 1845.
A antiga egreja achava se então quasi completamente demolida lançados alguns dos novos alicerces e feitos os ajustes de toda a obra com operarios chinezes. Foi neste estado que o novo bispo D Jeronimo tomou a direcção da obra que teve a fortuna de fazer concluir nos principios de 1850 sagrando-a elle proprio em 14 de fevereiro desse anno havendo por essa occasião sumptuosa festividade em que toda a população christã de Macau que tomou o mais vivo interesse participando com o seu bispo as alegres commoções que este sentia por ver concluido um novo templo consagrado ao verdadeiro Deus lá nesse remoto imperio da China tão entranhado ainda nas trevas do paganismo.
Muitas dificuldades houve a vencer para que a cathedral se concluisse em tão pouco tempo principalmente por escacearem os meios pecuniarios e talvez não estivera ainda hoje acabada se não fôra o poder do credito que largamente se exercita na China. Um velho chim chamado Ahon, especie de mestre ou emprezario de obras, ajustára a da reedificação da sé com o bispo D Nicoláo mas logo nos primeiros mezes do novo episcopado foi lhe declarado pelo bispo D Jeronimo que era necessario suspender os trabalhos por falta de dinheiro no que o honrado velho não consentiu continuando-os sob a confiança que lhe merecia aquele prelado de que lhe pagaria logo que podesse. Dispendeu assim adiantadas para mais de 30 000 patacas ou 30 contos de réis que depois foi recebendo em prestações devendo-se ainda algum pequeno resto aos herdeiros de Ahon quando o actual bispo saiu ultimamente de Macau. 
O velho Ahon infelizmente morreu pagão mas no leito da morte recommendava aos filhos que nas suas tribulações recorressem ao seu amigo biso de Macau que desde a mocidade bem o era tambem d elle e que em tudo seguissem seus conselhos. Fallando de Ahon é justo mencionar tambem outro chim, Francisco Volong, christão e rico negociante estabelecido em Macau, que quando se concluiu a cathedral ofereceu ao bispo D Jeronimo um jogo completo de paramentos brancos de setim bordados a ouro para funcções episcopaes que valeria para mais de mil patacas ou um conto de réis. Francisco Volong é hoje subdito portuguez. Requereu e obteve carta de naturalisação passada pela secretaria da marinha e ultramar em setembro de 1856. Já depois outro chim, appellidado Ahon, tambem se naturalisou portuguez. Julgâmos que são estes os primeiros actos de tal natureza praticados por chins e os mais insolitos e criminalmente inconcebiveis na opinião dos habitantes do celeste imperio. Renegar o seu paiz e fazer-se estrangeiro ou barbaro o que é synonymo quando os chins falam dos outros povos não tem castigo possivel na legislação chineza que estabelece a pena de morte para quem apenas sáe fóra do imperio.
Mas voltando a falar da cathedral de Macau cumpre saber que em nada concorreu para a sua reedificação a fazenda publica da provincia então em grandes apuros. Além da referida subscripção applicaram-se áquelle fim alguns fundos proprios da sé e quotisaram-se osofres que ali ha sob a administração ecclesiastica. Os reparos porém posteriormente feitos para a conservação do templo tem sido á custa do governo.
A nova sé de Macau regula nas dimensões pela egreja de Nossa Senhora da Encarnação em Lisboa e, como esta, é cheia de luz e alegre no interior. O primitivo plano foi feito por um architecto macaense chamado Thomaz d Aquino mas o proprio D Jeronimo lhe fez modificações. O travamento de madeiros que sustem o telhado é digno de solidez e engenhosa disposição e por ter ligação alguma com o tecto interior do edificio.
Entre este tecto e o telhado ha vasto espaço onde se anda á vontade em longas coxias com muita luz e ar como convem naqueles climas para evitar os estragos da formiga branca especie de caruncho ou verme roedor que ataca as traves ou quaesquer grossas madeiras succedendo por vezes caírem repentinamente os tectos e sobrados das casas onde se introduz este damninho insecto. Propaga-se tão mysteriosa e terrivelmente que apesar de muito debil e pequeno destroe ás vezes o edificio inteiro tendo a sagacidade de fazer caminhos cobertos para se internar nas madeiras cujo interior mina tão completamente que apenas lhes deixa a superficie quasi delgada como papel. Contra tal flagello não se conhece outro remedio senão a muita claridade e arejamento de todas as partes do edificio.
Numa das torres da cathedral ha um relogio que se póde chamar monumental porque commemora a elevação do senhor D Pedro V ao throno dos seus maiores. Quando em Macau se festejou este fausto acontecimento o bispo D Jeronimo suscitou a lembrança duma subscripção para compra e colocação dum relogio que utilisasse a todos os habitantes da cidade porque a cathedral está edificada na parte mais alta da povoação. A idéa foi logo acceita e applaudida e em pouco tempo subiu a subscripção a quasi 1500 patacas ou um conto e quinhentos mil réis. Concorreram com 800 patacas os subditos portuguezes residentes em Cantão, os de Hong Kong com 223 e os habitantes de Macau com o restante. 
É de notar que as subscripções de Cantão perfizeram mais de metade da total importancia de todas ellas não porque houvesse alli muitos portuguezes mas sim pela generosidade e bizarria com que nisto procederam os jovens macaenses então quasi todos empregados nas casas de commercio inglezas e americanas daquela cidade antes da queima das feitorias e dos successos que levaram ás actuaes hostilidades entre a Grão Bretanha e a China. O relogio foi expressamente feito em Inglaterra pelo acreditado fabricante Thwaites & Reed; a vista da planta e perspectiva da torre obsequiosamente e com muito primor tirada pelo macaense CA Osorio que com CV da Rocha depois mui intelligentemente dirigiu os trabalhos da colocação do mesmo relogio. Foi colocado na torre nos fins do anno passado e devia bater pela primeira vez horas á meia noite de 31 de dezembro isto é no solemne momento de começar o novo anno 1838. O relogio tem gravada a seguinte inscripção commemorativa 
RPVAD MDCCCLVII PME Que se lê REGNANTE PETRO V ANNO DO MINI MDCCCLVII POPULUS MACAENSIS EREXIT 
As figuras representadas no desenho são typos dos habitantes da cidade. Começando do lado esquerdo do espectador vê se um chin vendedor de ceias ou comidas feitas e quentes que traz em dois cestos que se separam em repartimentos pendentes duma vara de bambú a que tal modo de carregar chamam pinga e equilibrados sobre o hombro do conductor. Em seguida estão duas mulheres chins do baixo povo descalças e de pé grande, isto é, não quebrado ou reduzido á fôrma de pata de cabra como é de uso aristocratico na China. Uma dellas leva ás costas uma criança sostida numa especie de sacco á moda do paiz. Mais vão duas mulheres macaenses envolvidas nas saraças, singular mantilha ou cobertura sómente usada em Macau. E um grande panno ou coberta quadrilonga de tecido d algodão pintado de ramagens ou em listas de côres vivas e flammantes apresentando como barra certos desenhos em bicos que se podem dizer classicos porque os deve ter toda a saraça genuina. 
Mesmo as mais tafulas macaenses depois de vestidas ás vezes ricamente cobrem-se com a desgraciosa saraça que lhes envolve a cabeça e o corpo e lhes esconde o rosto quando elas querem. Já um velho bispo de Macau declamou numa pastoral contra semilhante uso dizendo que as mulheres com saraça pareciam derrabados e quanto a nós tinha razão o bom do bispo. Antigamente custavam muito caras as boas saraças comprando-se ás vezes por quarenta e cincoenta patacas ou de quarenta a cincoenta mil réis porque só vinham da India onde se faziam e pintavam com esmêro expressamente para Macau.
Hoje estampam-nas os americanos do norte e as vendem por haixo preço. Tambem são usadas saraças de seda preta para ir á igreja em occasiões solemnes e vestuario de lucto. Mais além vêem se dois parses, especie de judeus ou de povo sem patria que vive espalhado por toda a Asia. São oriundos da Persia e sectarios da antiga religião de Zoroastro ou adoradores do sol que seus ascendentes não quizeram renegar quando a Persia foi invadida pelos muçulmanos que obrigaram todos os habitantes a abraçar o mahometismo. Aquelles rigidos sectarios emigraram pelo golpho Persico e com suas grandes riquezas se estabeleceram na India. Os parses são uma bella raça de homens muito intelligentes dados exclusivamente ao commercio e em geral muito opulentos em Bombaim e Calcuttá os que vivem em Cantão e Macau são de ordinario agentes ou commissionados d aquelles. Usam de vestuario especial e é de fórma muito original o chapeo ou cobertura que trazem na cabeça. 
Vêem-se por fim na estampa de que tratâmos duas liteiras ou cadeirinhas A maior representa o bispo quando sáe em grande estado conduzido por quatro culis ou criados chinezes e outros dois com grandes umbrellas ou pára soes que vão ao lado da liteira. A mais pequena é das que se usam geralmente na cidade e que servem de vehiculos para todas as que os tem proprios ou alugados á do que se observa em toda a China. Em Macau não ha carruagens nem as ruas comportavam por serem quasi todas estreitas e lageadas. Ha porém alguns carrinhos para passear nos arredores cortados hoje por bellas estradas e onde ha sitios mui pittorescos. C. 

sexta-feira, 19 de abril de 2019

Marco toponímico nas traseiras da fachada da igreja Mater Dei

Esta fotografia é da década de 1960 nas traseiras das ruínas de S. Paulo quando naquele espaço existiam várias peças do género ali colocadas pelos mais variados motivos. Na imagem pode ver-se um marco toponímico da Av. Conselheiro Borja, governador de Macau entre 1890 e 1894. Corresponde ao istmo que no final do século 19 foi construído para ligar a península de Macau à ilha Verde. A obra ficou pronta em 1891 e o Leal Senado baptizou assim a artéria. Começa entre as Avenidas do Almirante Lacerda e de Artur Tamagnini Barbosa, em frente da Estrada do Arco e termina na Estrada Marginal da Ilha Verde. Antes o troço era conhecido por Estrada do Dique da ilha Verde. Entretanto toda a zona em redor foi aterrada. Em Macau existe ainda uma travessa com o nome do conselheiro e houve um pequeno cais na Rua da Praia Grande, frente à Calçada do Bom Jesus, onde no muro podia ler-se: "Cais do Governador Borja construído em 1898".
Borja nasceu em 1849. Em 1866 assentou praça na artilharia e depois foi para a Armada. Como guarda-marinha andou na corveta D. João I na Índia, Açores, Cabo Verde. S. Tomé e Angola. Em 1881 foi eleito deputado em Lisboa e depois nomeado governador de S. Tomé (1884), Macau e Timor (1890)  e Angola (1904). Reformou-se no posto de contra-almirante em Novembro de 1910. Condecorações: Ordem Militar de S. Bento de Avis, Leopoldo da Bélgica, Mérito Naval de Espanha, N. Sra. da Conceição, Legião de Honra da França.

quinta-feira, 18 de abril de 2019

Novas peças no Museu de Macau do CCCM

O Museu de Macau reúne um acervo de cerca de 4.000 peças de arte de várias categorias com destaque para a cerâmica, pintura, mobiliário, têxteis, documentos gráficos, numismática e ourivesaria. Para este post seleccionei algumas das aquisições mais recentes.


Pratos e caixa armoreados (na imagem a caixa com tampa) ca. 1735
Dois pratos e caixa com tampa, em porcelana da China da Companhia das Índias. A decoração é policromada com fundo adamascado, contendo as armas de Cosme Damião Pereira Pinto, fidalgo da Casa Real e Governador de Macau entre 1735-1738 e 1743-1747.
Raro jarro de porcelana ca. 1640
Jarro de porcelana azul e branco encomendado para o Colégio de S. Paulo, em Macau, fundado pela Companhia de Jesus em 1594. Tem o corpo ovoide, decorado com elementos vegetalistas e duas faixas largas: uma com representação de paisagem oriental e outra com duas caras com colares ladeadas por enrolamentos.

Travessa Navio Brilhante, CA. 1840
Travessa de um serviço mandado executar em 1840, de porcelana branca decorada com esmaltes azuis, de forma oval, com o navio Brilhante desenhado ao centro. O serviço foi encomendado pelo proprietário do navio, João António Alves, comerciante e capitão de navios, sediado em Macau, para oferecer ao tio de sua mulher, Miguel António de Sousa que, nos anos 20 ou 30 do séc. XIX, lhe emprestou o dinheiro para comprar o navio.


Caixa de chá com armas do Bispo de Macau D. Jerónimo José da Mata (1845 a 1862) em madeira lacada a negro com decoração a ouro com paisagens orientais. 


Jerónimo José da Mata, lazarista, chegou a Macau em 1825 tendo concluído os estudos no Seminário de S. José. Após a ordenação sacerdotal ficou colocado no território. Em  1845 tomou posse da Diocese. Durante o seu episcopado (até 1862) activou e concluiu a reconstrução da Sé e construiu o novo Cemitério de S. Miguel.  Em 1848, a seu pedido, as Filhas da Caridade de S. Vicente de Paulo foram para Macau e tomaram conta de albergue de Sta. Rosa de Lima.  Em 1857 partiu para Portugal e apresentou a resignação do bispado que só seria aceite em 1862.  Morreu em 1865.





Algumas destas peças foram adquiridas num leilão em 2014 e fazem parte da colecção de arte da Fundação Jorge Álvares estando expostas no  Museu de Macau do Centro Científico e Cultural de Macau, em Lisboa.

quarta-feira, 17 de abril de 2019

O Cartório e a Livraria do Colégio da Madre de Deus

Em 1742 o Vice-Provincial da China, Pe. Domingos Pinheiro (1741-1745), ordenou ao Irmão leigo João Álvares que transcrevesse os manuscritos de livros, cartas, relações, compilações e outros documentos, cujos originais se encontravam no Arquivo do Colégio da Madre de Deus, e que, directa ou indirectamente, versavam sobre a obra missionária dos Jesuítas no Extremo-Oriente. Julga-se que essa ordem foi motivada pelo desejo manifestado pela Santa Sé de examinar melhor as fontes jesuíticas sobre a tão debatida questão dos Ritos chineses. Provavelmente também influiu nessa decisão a instabilidade da situação política de Macau, após a conquista da China pelos Manchús e o pressentimento da iminência da perseguição pombalina.
O Irmão Álvares lançou-se ao trabalho árduo, auxiliado por sete copistas, desde 1744 a 1748 (Real Biblioteca da Ajuda, códice 49-V-29,f.121). Cremos que não se copiou senão aquilo que era mais importante. Além das transcrições, o Irmão Álvares organizou, completou e anotou listas dos nomes de jesuítas e doutras autoridades e várias colecções que podiam ser úteis aos que necessitassem de consultar esses documentos.
Pelos anos de 1748 ou 1749, os códices foram mandados para Portugal e guardaram-se numa das Casas dos jesuítas em Lisboa. Aí se achavam ainda, ao tempo da expulsão desses beneméritos pelo Marquês de Pombal. A 13 de Dezembro de 1758, cercou-lhes ele de tropas as casas da Capital, depois as restantes do reino e das missões. A 3 de Setembro de 1759, publicou contra eles um decreto de extermínio, confiscando-lhes todos os bens, encerrando-os nas prisões e expulsando-os do solo da Pátria. E tudo isto sem processo...
A 21 de Julho de 1773, foi assinado em Roma o Breve de supressão da Companhia de Jesus em todo o mundo, breve que foi redigido no seu original pelo ministro dos Estrangeiros de Espanha, Aranda, e imposto pela coligação das lojas maçónicas da França, Itália, Espanha e Portugal ao Papa Clemente XIV Para evitar males maiores, Sua Santidade assinou.
A 9 de Setembro do mesmo ano, o Breve "Dominus ac Redemptor" era notificado aos jesuítas encarcerados no forte de S. Julião da Barra, em Lisboa. As livrarias dos jesuítas foram enriquecer a biblioteca do novo Palácio Real, construído na Ajuda, anos após o terremoto de 1755. Aí foram parar também os códices oriundos de Macau. A catalogação demorou muitos anos a completar-se. Aqueles valiosos documentos caíram, entretanto, em completo esquecimento. Apenas em fins do século passado, se veio a saber que, na Biblioteca Real da Ajuda, havia "mais de 50 volumes das cartas escritas da Índia, da China e do Japão pelos Missionários Jesuítas ao seu Geral".
Na 2a. edição do seu livro "Saint Xavier, sa vie et ses lettres", Paris, 1900, o Pe. L. J. M. Cross, S.J., foi o primeiro erudito que correu levemente o véu que escondia o tesoiro desses códices. Pouco tempo depois, Jordão de Freitas, sábio Director da Biblioteca, principiou a aproveitar, numa série de artigos, alguns deles publicados no Archivo Histórico Portuguez, e folhetos, o copioso e inédito material.
Seguidamente, outros historiadores estrangeiros e portugueses estudaram e divulgaram parte das riquezas imensas desses códices. Foram eles Cristóvão Aires, Magalhães Sepúlveda, A. Braancamp Freire, Sousa Viterbo, Augusto da Silva Carvalho, Vítor Ribeiro, Teófilo Braga, J. A. Abranches Pinto, G. Schurhamer, S.J., D.Schilling, S.J., Schutte, S.J., Oschar Nachod, Carlos (Charles) Boxer e outros.
Em 1929, Yoshitomo Okamoto visitou vários arquivos de Portugal, entre os quais o da Ajuda, descrevendo e resumindo, no seu livro Porutogaru Wo Tazuneru ("Visitando Portugal"), de 223 páginas, entre outras colecções, os "Jesuitas na Ásia".
No N.º 428 de Novembro de 1939, ps.188-215, do Boletim Eclesiástico da Diocese de Macau, o Prof. Boxer e o Sr. J. M. Braga publicaram um estudo de 30 páginas, baseado no trabalho de Okamoto, sem contudo lhe reproduzir os comentários.
Em 1952, o Sr. J. M. Braga conseguiu ir à Europa e organizar um catálogo completo dos Códices que este investigador vem publicando, com notas valiosas, no referido Boletim Eclesiástico, a partir de Janeiro do presente ano.
A primeira parte desta colecção, "Jesuitas na Ásia", compõe-se de transcrições de livros escritos por jesuítas portugueses ou estrangeiros, que missionaram o Extremo-Oriente. Alguns desses livros foram impressos, antes da supressão da Companhia, outros depois da sua restauração em 1814, e muitos conservam-se ainda manuscritos. A maioria dos documentos são cartas e relatos, principalmente dos jesuítas, mas também de outros escritores. Os jesuítas franceses publicaram tudo o que se lhes refere. Da parte portuguesa está quase tudo inédito.
Os originais que ficaram em Macau foram confiscados, em 1762, após a expulsão dos jesuítas. O Colégio da Madre de Deus transformou-se, então, em caserna.
Em 1828, o Coronel José Aquino Guimarães e Freitas alude à livraria desse Colégio, dizendo: "O convento (aliás Colégio), onde houve uma copiosa e escolhida livraria, serve agora de habitação a robustíssimos ratos, enquanto que os livros e os documentos no velho colégio de Macau continuaram a apodrecer e a serem comidos pela traça."
No incêndio que, em 1835, queimou o Colégio e a Igreja da Madre de Deus, arderam também todos esses importantíssimos originais de livros e manuscritos. Perda irreparável, devida sobretudo à incúria e falta de espírito patriótico dos governantes de então.
Felizmente, a Providência quis que se salvassem, a tempo, as cópias guardadas nos Códices da Ajuda. Esperamos que, nos próximos anos, essa documentação vastíssima da Ajuda será desenterrada do cemitério do esquecimento, para que possamos erguer, ressuscitada à sua glória original, a acção missionária e cultural dos Jesuítas em Macau e no Extremo-Oriente. Parece-nos que o Governo desta Província se devia interessar ao máximo por fotocopiar esses códices de Lisboa e adquirir todas as obras que, com eles, se relacionam. Como para a fundação e o desenvolvimento do Brasil, assim para Macau foi absolutamente essencial a acção missionária, cultural e diplomática dos jesuítas. E esta uma verdade que nada, nem ninguém, que conheça um pouco a história de Macau, conseguirá destruir ou minimizar.
Texto da autoria de Benjamim Videira, S. J. (também ele jesuíta).

terça-feira, 16 de abril de 2019

"Relato fiel e fundamentado da história"

Já aqui referi por mais de uma vez o livro “Macau nos Anos da Revolução Portuguesa 1974-1979” (Gradiva, Lisboa, 2011), do General José Eduardo Garcia Leandro, primeiro Governador de Macau designado após a revolução de Abril de 1974. Desta vez volto ao tema dando a conhecer um pequeno excerto da nota introdutória de um livro que foi publicado segundo o seu autor tendo "como única finalidade deixar registado para actuais e vindouros interessados e investigadores o que foi a governação de Macau e muitas outras sensíveis questões associadas ao período tão difícil de 1974 a 1979, através do testemunho do seu primeiro responsável”.
António de Almeida Santos, então Ministro da Coordenação Interterritorial, escreveu no livro "Quase Memórias" (2º Vol.) que “Macau, sobretudo à época, era tudo menos fácil de governar", e o gov. Garcia Leandro, “impecavelmente sério, reflectido e prudente”, “exerceu o cargo com sabedoria verdadeiramente chinesa”.
Garcia Leandro em 1976 na Assembleia Legislativa de Macau
Excerto da introdução:
Como foi possível que eu e quem me acompanhou e ajudou tivéssemos conseguido conduzir Macau pelos melhores caminhos?
Todo o enquadramento sociopolítico era indiscutivelmente mau. Desde o processo revolucionário em Portugal (e a descolonização consequente), passando pela situação na China ― com a Revolução Cultural, o fim do maoísmo e a consequente luta pelo poder ―, os últimos anos da Guerra do Vietname até à má situação da economia mundial, ainda não recuperada do choque petrolífero de 1973. A isto, acrescia a própria (e permanente) fragilidade estrutural de Macau, ainda não totalmente reequilibrado após os incidentes do «1-2-3» de 1966. Sem esquecer a idade com que iniciei funções de Governo, o que, no início, criou alguma desconfiança (compreensível) em certos sectores mais conservadores. Também não podia contar com grande apoio de Lisboa, onde se viviam outras preocupações bem mais prementes e onde os problemas passavam por abordagens ideológicas muito marcantes e demasiado genéricas que não interessavam, nem se deviam aplicar em Macau.
 A instabilidade política nacional era muito grande. Basta lembrar que, durante o meu período de Macau, passaram por Portugal oito governos (do III ao VI Provisórios e do I ao IV Constitucionais) e cinco primeiros-ministros. Como Macau deveria ter um caminho próprio, não podia estar sujeito às consequências negativas de tanta mudança. Daí a minha visão política da questão: para controlar bem o que se ia passar em Macau, não poderia dar problemas a Lisboa, nem deixar que dali viessem instruções que pudessem prejudicar o futuro do Território. Havia, pois, que evitar a existência de poderes paralelos e, ao mesmo tempo, recusar a aplicação local de modelos desajustados. Macau não podia ser prejudicado pelo envolvimento no jogo dos partidos políticos nacionais.
 O meu Governo tinha vontade de fazer bem e de deixar um bom exemplo, trabalhando para todos os que ali viviam, sem discriminações. A população chinesa pugnava pela tranquilidade e a República Popular da China, a atravessar grandes dificuldades internas, não queria novas fontes de problemas em Hong Kong e em Macau.
 A consciência do momento difícil – se não único – que se vivia também foi sentida pelos responsáveis das comunidades locais e pelo Governo de Hong Kong. Recebi um apoio muito claro da comunidade chinesa e da Igreja Católica, e foram consolidados os mecanismos de coordenação e entendimento com o Governo da colónia britânica, ao mesmo tempo que se procurava diminuir o jugo económico que esta exercia sobre Macau.
A evolução foi boa e o crescimento económico permanente. Mas a memória é curta e hoje, em Portugal, são poucas as pessoas que têm conhecimento da situação de Macau em 1974, pensando muitos que este sempre foi uma espécie de «árvore das patacas» onde nunca existiram dificuldades económicas, políticas ou sociais.

Palacete de Santa Sancha
Acresce que o conhecimento sobre Macau sempre foi reduzido em Portugal, mesmo entre muitos responsáveis da cultura e da política. Com o passar do tempo e a nossa saída de Macau, em finais de 1999, tal vazio de informação agravou-se. Encontro-me frequentemente com pessoas que assim pensam ou que tudo desconhecem, mas que têm ideias feitas sobre Macau. Fico perplexo com o desconhecimento com que deparo, por vezes com o desinteresse em conhecer a realidade, e com os erros de interpretação permanentes. É também para deixar um testemunho factual que este livro é necessário! Mas sinto que também tenho responsabilidades por não o ter escrito mais cedo. Por tudo isto, não ficaria bem com a minha consciência e com a História se nada fizesse para ajudar a corrigir esta situação.
 Esta é a resposta à pergunta se vale a pena este trabalho mais de trinta anos depois. Crê-se que, desta forma, se contribui para um relato fiel e fundamentado da História. O tempo a todos vence, pela morte, pela mudança de gerações e pelo esquecimento, a menos que fiquem registos dos conceitos, das intenções e dos factos. E porque as pessoas envolvidas, com responsabilidades naquela época, têm vindo a morrer sem deixar registos, a memória vai desaparecendo. Daqui a dez anos, quase todos os testemunhos dessas experiências vividas terão desaparecido. Embora Macau já não esteja no centro de interesse dos portugueses, nem nas primeiras páginas dos jornais, este registo escrito é indispensável para quem queira compreender a evolução ocorrida a partir do 25 de Abril.”

segunda-feira, 15 de abril de 2019

Centenário do Corpo de Bombeiros de Macau: 1919-2019

O primeiro Regulamento dos Serviços de Incêndio de Macau foi publicado a 2 de Maio de 1883 mas já antes existiam serviços de incêndios. No texto "Os Primitivos Bombeiros de Macau" Luís Gonzaga Gomes explica: 
"Nessa época, cada rua tinha de concorrer para a manutenção dum grupo de bombeiros, que aguardavam em suas casas uns metrozinhos de mangueira, uma agulheta e uma bomba de incêndio, que consistia em uma caixa que se deslocava sobre duas rodas, tendo, num dos lados, um rudimentar maquinismo que servia para comprimir a água. Quando fosse preciso fazer trabalhar esse precioso engenho ia-se buscar água, aos baldes, nos poços ou no mar e, uma vez lançado para dentro da caixa-reservatório, o líquido extintor era comprimido pelo maquinismo, que era, por sua vez, accionado à força dos músculos de vigorosos mocetões.
Nesse tempo, existia uma combinação táctica entre os bombeiros e a população da cidade. E assim, logo que fosse dado o rebate, saíam todos os bombeiros dos seus alojamentos e o grupo que chegasse primeiro, através do dédalo das ruelas da velha cidade, recebia, como recompensa dos seus esforços, um magnífico leitão assado e dois almudes da melhor aguardente chinesa, custeados entre os moradores da rua vitimada pelo sinistro."

Principais datas da história dos bombeiros até 1976:
1851: existe a figura de inspector de fogos/incêndios; bomba no quartel do Batalhão de Artilharia de S. Francisco; estão estabelecidos os sinais de aviso de incêndio: dois tiros de canhão na Fortaleza do Monte.
1874: a bomba é transferida para o Convento de S. Domingos (imagem abaixo), edifício onde se instalou a Inspecção de Incêndios em 1883 (ao lado da igreja com o mesmo nome).
O Regulamento dos Serviços de Incêndio (publicado a 10 de Agosto de 1883) deu início à criação de um serviço organizado. Instalado no Convento de S. Domingos e constituído por um corpo activo de 60 pessoas, os serviços de incêndio possuíam quatro bombas, duas em Macau, uma na Taipa e a outra em Coloane.
1909: existem postos de incêndios junto das estações da Polícia, nomeadamente, na Rua da Caldeira, em Santo António e em Mong Há.
1914: publicação do Regulamento Orgânico da Direcção das Obras Públicas, cujo director exercia também, desde 1901, o cargo de Inspector de Incêndios.
1915: os serviços de incêndios são desvinculados das Obras Públicas e a sua reorganização fica a cabo do Major de Infantaria João Carlos Craveiro Lopes, sendo os elementos do Corpo dos Bombeiros recrutados entre os voluntários para a Polícia.
1916: Macau tem três estações - Estação nº 1 (Central) em S. Domingos, e as outras duas na Avenida do Almirante Sérgio (Estação nº 2) e Avenida Horta e Costa (Estação nº3); Taipa e Coloane também têm Postos de Incêndio.
1919: É extinta a Inspecção de Incêndios; publicação da Portaria nº 80 com o Regulamento orgânico que cria o Corpo dos Bombeiros a 26 de Abril de 1919 sendo objectivos da corporação: prevenção e socorro de incêndios, desastres e calamidades; lavagens sanitárias e regas da cidade; execução de serviços em que fosse necessária a utilização do material da corporação.
1920: aprovado o projecto para a construção de novas instalações na Estrada Coelho do Amaral, cujo quartel será inaugurado a 3 de Outubro de 1923. (imagem abaixo)
1923: Nova denominação como Corpo de Salvação Pública, saindo da dependência do Leal Senado (os serviços da cidade de Macau) e da Câmara Municipal das Ilhas (serviços da Taipa e Coloane) para regressar à dependência do Governo.
1939: o Corpo de Salvação Pública passa a ser uma corporação militarizada, transitando novamente, em 1946, para a tutela do Leal Senado (sem a brigada sanitária) e designando-se Corpo de Bombeiros Municipais.
1976: são criadas as Forças de Segurança de Macau que passaram a incluir o Corpo dos Bombeiros.

domingo, 14 de abril de 2019

"Esta é a Ditosa Pátria Minha Amada"

Depois da travessia aérea do Atlântico Sul em 1922 por Gago Coutinho e Sacadura Cabral, três aviadores portugueses aventuram-se na tentativa de escrever mais uma vez o nome de Portugal na história da aviação mundial.  A 7 de Abril de 1924 descolam de Vila Nova de Mil Fontes (está lá uma estátua a recordar esse dia) - voaram antes oriundos da Amadora - rumo a Macau. Ou sejam, por estes dias, há 95 anos, o "Pátria" rasgava os céus em direcção a Macau...
O avião escolhido foi o Breguet 16-Bn2 com motor de 300 cavalos de potência, adquirido por subscrição pública e equipado com depósitos suplementares para aumentar a autonomia. Na fuselagem tem pintado a expressão: “Esta é a Ditosa Pátria Minha Amada”.
Ao fim de vários dias de viagem, no deserto de Thur, na Índia, o Pátria acaba por se despenhar. Estava em jogo o prestígio do país e de Lisboa depressa segue a autorização para comprar outro avião para concluir a viagem. O avião escolhido foi um DeHavilland DH-9A com um motor de 450cv, comprado por 4.700 libras e baptizado de Pátria II mas com lugar apenas para dois tripulantes. Os restos do primeiro “Pátria” foram encaixotados e enviados para Lisboa e a 30 de Maio de 1924 o “Pátria II” descolou às primeiras horas da manhã, rumo a Ambala.


No dia 20 de Junho o “Pátria II” descolou de Sontai rumo a Macau a mais de 1000 quilómetros de distância No diário de bordo escrevem:  "O motor funcionava admiravelmente, o tempo conservava a transparência de um dia de Novembro, no nosso pensamento só uma ideia vivia, só uma aspiração vibrava - chegar a Macau."
E assim parecia que ia acontecer. Só que o mau tempo pregou uma partida. «Sobe o açoite furioso dos aguaceiros densos, rompemos para o Istmo de Macau, e passamos sobre a Ilha Verde e as Portas do Cerco."
Em Macau a população em peso olha para os céus e testemunha as cores de Portugal só que o vento impede a aterragem.
"São cinco minutos de voo inacreditável, indescritível, irreal. O aparelho parece levado como uma folha de árvore, na violência do furacão"
Perante a intempérie rumam a Cantão onde fazem uma aterragem forçada junto à linha férrea (que ligava a hong Kong). Avistam um pequeno campo perto de um cemitério na aldeia Sham Chun (o rio com o mesmo nome faz a fronteira em Hong Kong e a China). Na aterragem batem numa sebe e partem a hélice e o trem de aterragem. Era o fim da viagem.

O "Pátria II" na aldeia chinesa de Sham Chum (entre Cantão e Hong Kong): Junho 1924
Debaixo de chuva, Sarmento de Beires e Brito Pais procuram ajuda. Sem ninguém que os compreenda caminham até Hong Kong onde foram recebidos pela colónia portuguesa e pelo cônsul. Por esta altura a notícia do feito alcançado já se espalhara por todo o mundo. Os jornais do dia 21 de Junho de 1924 não falam de outra coisa.
"Victoria! Brito Paes e Sarmento Beires chegaram a Macau": título da primeira página totalmente dedicada ao raide da edição de 21 de Junho de 1924 do jornal brasileiro "A Noite".
Nesse dia a canhoneira “Macau” que partira do território chega a Hong-Kong. O navio tinha andado o dia anterior em buscas para encontrar o “Pátria II” que se admitia poder ter-se despenhado no mar devido ao mau tempo. No dia 23, um grupo de mecânicos desmontou o “Pátria II” e no dia 25, Sarmento de Beires e Brito Pais, chegaram a Macau a bordo da Canhoneira. No território Sarmento de Beires, Brito Pais e Manuel Gouveia foram recebidos entusiasticamente e como heróis de uma façanha nunca antes alcançada: 16.380 Km percorridos em 115 horas e 45 minutos.
Na sessão de 23 de Junho no parlamento português o feito também não passou despercebido. Na sua intervenção Jaime de Sousa diz: "Sr. Presidente: é do conhecimento de V. Exa. e da Câmara, e conhece o país inteiro, o facto extraordinário da chegada a Macau dos ilustres aviadores Brito Pais e Sarmento de Beires, que em condições tam difíceis, sob o ponto de vista material, chegaram a terras nossas no Oriente, demonstrando a sua audácia e habilidade. Há quarenta e oito horas que Portugal inteiro vibra de entusiasmo por êsse rasgo de audácia. O nosso coração de portugueses regista mais uma vez as energias duma raça."
Por via do que fora alcançado nesta sessão parlamentar acaba por ser  concedida uma amnistia aos aviadores que estavam presos em S. Julião da Barra.

Na edição de 10 de Julho de 1924 da Gazeta das Colónias escreve-se:
"Terminada a viagem dos heroicos aviadores Brito Pais e Sarmento de Beires , mal apagadas ainda as ultimas manifestações do entusiasmo, em que o País inteiro vibrou, procurámos colher sobre o valôr do brilhante raid as impressões de alguem que pudesse dar-nos uma opinião segura , imparcialmente formada nos moldes da técnica, liberta de quaisquer tendencias que pudessem desvirtua-la" (...) “A Gazeta das Colonias presta hoje as suas sinceras homenagens aos intrepidos aviadores, majores Brito Pais e Sarmento de Beires e ao seu habil e dedicado mecânico, alferes Manuel Gouveia os quais pelo brilho e pela bravura com que empreenderam e rialisaram a travessia Lisboa-Macau foram lá longe, no Extremo Oriente, aviventar o prestigio do nome de Portugal e mostrar ao mundo que na velha Raça Portuguesa ainda perduram as virtudes que a tornaram grande".

sábado, 13 de abril de 2019

“Imagens de Macau - A Visão Pessoal de 0.38”


Até 18 de Abril está patente na Galeria do edifício Paços do concelho, da Câmara Municipal do Porto, a exposição “Imagens de Macau - A Visão Pessoal de 0.38”. A mostra apresenta um conjunto de 40 desenhos do jovem autista de Macau, Leong Ieng Wai, cujas obras espelham a visão muito pessoal do artista, que retrata, com o seu traço exímio, espaços emblemáticos de Macau, desde monumentos e praças do Centro Histórico - Património Mundial da UNESCO, como as Ruínas de S. Paulo, o Templo de A-Má ou a Fortaleza da Guia, passando pelo registo da azáfama das artérias da cidade.

Os monumentos e os bairros antigos são alguns dos motivos retratados por Leong Leng Wai nos seus desenhos. No meio artístico é conhecido por 0.38, pois é essa a espessura da caneta que gosta de utilizar.
Nas imagens a fachada da igreja Mater Dei do antigo colégio de S. Paulo (vulgo Ruínas de S. Paulo) e a Ermida, Farol e Fortaleza da Guia.