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terça-feira, 28 de julho de 2026

Fotografias raras do Monumento aos Piratas em Coloane


Ainda não existia a igreja S. Francisco Xavier
Foi construída em 1928
Ao fundo era um orfanato dirigido pelas irmãs canossianas

segunda-feira, 27 de julho de 2026

Conselho de Guerra no julgamento de piratas em 1910

Um monumento que existe em Coloane frente à igreja não passa despercebido mas imagino que a maioria das pessoas que por ali passa desconhece a sua origem. Remonta a 1910 quando ainda havia ataques de piratas...
O monumento da vitória sobre os piratas
fotografia da década 1950

Foto de Luís Almeida Pinto. 2025
A fundo a Igreja de S. Francisco Xavier
ainda não existia quando o monumento foi construído no final de 1910

A 5 de Maio de 1910 um grupo de piratas assaltou uma escola na aldeia de Tong-Hang, distrito de San-Neng, (perto de Macau) raptaram 17 alunos e um ajudante de cozinheiro e levaram-nos para Coloane, exigindo $35.000.00 de resgate. Perante o conhecimento dos factos - já em Julho - e apelos dos familiares dos sequestrados, o governador Eduardo Marques ordenou uma força militar atacar os piratas e libertar as crianças.
É assim que começa a operação militar na Ilha de Coloane. Após um contingente inicial ter sido repelido a tiro, foi mobilizada uma força composta por polícias europeus, tropas chinesas, indianas e paquistanesas, marinheiros e as lanchas-canhoneiras Pátria e Macau. 
Lancha canhoneira "Macau" na década 1910

Os combates tiveram início a 14 de Julho com o bombardeamento da orla de Coloane, prolongando-se por vários dias devido à dificuldade em diferenciar a população dos piratas e em localizar os reféns. A 19 de Julho, as tropas descobriram a primeira caverna, resgatando 11 crianças e detendo sete piratas. Nos dias seguintes, recorrendo ao uso de enxofre para forçar a saída dos ocupantes, foram invadidas outras cavernas, como a da praia de Hác-Sá, o que permitiu libertar mais crianças e capturar dezenas de meliantes.
No total, foram capturados cerca de 300 piratas e a maioria das crianças regressou para junto dos pais, enquanto as não reclamadas foram assistidas pela Santa Casa da Misericórdia e pelo Hospital de S. Rafael, acabando algumas por ser adoptadas na comunidade. 

jornal A Verdade 8.9.1910

O desfecho deu-se a 30 de Agosto de 1910 com o julgamento em Conselho de Guerra no Quartel de S. Francisco - processo que contou com a participação do jurista e poeta Camilo Pessanha -, culminando na condenação de oito cabecilhas a 28 anos de degredo em Moçambique. 
1910年路環島打擊海盜行動中逮捕的海盜

Esta fotografia mostra cinco dos piratas presentes ao Conselho de Guerra no que parece ser o pátio do Quartel de S. Francisco em Agosto de 1910. Têm de cada lado dois militares do exército português de serviço em Macau.

sábado, 4 de julho de 2026

竹灣海灘 / Praia de Cheok Van

Por estes dias o tempo convida a uma visita à praia. Aqui ficam alguns registos fotográficos da segunda metade do século 20 da 竹灣海灘 / Praia de Cheok Van, na ilha de Coloane. Ainda antes da construção da piscina pública... A última fotografia mostra a Pousada em 1973. Na ilha de Coloane havia ainda a Praia de Hác-Sá (Praia da Areia Preta).


Curiosidade:
A tradução literal é: Praia da Baía dos Bambus (竹 zhú = bambu; 灣 wān = baía; 海灘 hǎitān = praia)

sexta-feira, 1 de maio de 2026

Restaurante "Fernando" (Hac Sá): desde 1986

A história deste restaurante na ilha de Coloane (junto à praia de Hac Sa) remonta a 1978 , com umas instalações muito precárias. Começou por ser gerido por Saludes. Entre 1982 e 1986 o trepasse esteve a cargo do sr. Ricardo. A partir de 1986 - faz agora 40 anos - ainda com instalações bastante precárias passou a ser gerido por Fernando Gomes, natural dos Açores (Pico), sendo um dos restaurantes portugueses mais conhecidos do território. 
Frango no churrasco, sardinhas assadas, bacalhau na brasa, ameijoas à moda da casa, o jogo de matraquilhos e a esplanada no ambiente rodeado de árvores são os pontos fortes do "Fernando's" - 法兰度餐厅, que só fecha um dia por ano, a 1 de Maio.
Através da Agência Comercial Pico, Fernando foi quem introduziu a cerveja super bock em Macau, tornando-se 'famosos' os invólucros em esferovite para manter a bebida fria.
Na década de 1990 em alguns guias turísticos estrangeiros já se referia a fama do espaço: "One place not to be missed is the legendary Fernando's, Hac Sa Beach, Coloane" (...) "The good Portuguese food and a casual, beach-side atmosphere" (...) "Everyone in Hong Kong and Macau knows about Fernando's."
E não era para menos... Muitos clientes de Hong Kong vão de propósito a Macau só para tomar uma refeição à boa maneira portuguesa no Fernando de Hác Sá.

quarta-feira, 17 de julho de 2024

O "Saludes" em Coloane

"Olhe, senhor, se calhar de ir ao restaurante do Saludes, em Coloane, fale-lhe do Ruivo (…) Quem me dera ir no seu lugar… Não voltava mais."
O excerto é retirado de uma das "Histórias de Macau", livro da autoria de Altino do Tojal que esteve em Macau em meados da década de 1970. A fala é de um taxista quando transporta um passageiro a caminho do aeroporto de Lisboa com destino a Macau...
O taxista tinha cumprido o serviço militar no território: "Ainda hoje puxo as orelhas por não ter ficado lá ficado, como fizeram o Saludes, o Alcines e outros rapazes do meu tempo. O Saludes montou um restaurante em Coloane e parece que vive feliz com uma chinesa. Aquilo é outro mundo (...) Devia ter ficado lá com a minha chinesa (...) Agora nem sou feliz em casa nem me agrada o trabalho."

Outra referência ao restaurante no livro:
"Era um restaurante de modesta aparência, na ilha de Coloane. Pertencia a um tal Saludes - português de gema, ao que me tinham dito - e entrei ali, num abafado fluir do dia, mais pelo desejo de falar do que por vontade do estômago."
No Anuário de Macau relativo a 1978 e 1979 surge como morada do Saludes: "Povoação Interior, nº 13, Coloane."
A foto dos primeiros anos da década de 1980 é de Eugénio Novikoff Sales (à esq.) e foi tirada frente ao restaurante. Ao centro está o conhecido pintor de Hong Kong, Ha Bik Chuen. Saludes está à direita. Eugénio, também pintor, lembra-se de alguns dos pratos da ementa: "camarões fritos, bacalhau, bife a cavalo e cozido à portuguesa"...
Ainda carece de confirmação, mas tanto quanto consegui apurar Saludes começou por cumprir o serviço militar em Macau, depois foi para a polícia e mais tarde dedicou-se à restauração. Esteve ainda ligado aos primórdios do que viria a ser o hoje conhecido como restaurante Fernando's, em Hac Sa.

terça-feira, 21 de setembro de 2021

Lapsos e erros - IV

Em 1864 o alferes António Baptista Tassara foi nomeado 1.º Comandante do Posto Militar da Taipa e Coloane, tendo-se notabilizado na luta contra a pirataria. Chegara a Macau um ano antes a bordo da galera "Deslumbrante" proveniente de Lisboa comandando um contingente de militares.
A versão actual surgindo primeiro os caracteres chineses
Rua do Tassara foi o nome dado a uma rua de Coloane em Março de 1935 aludindo ao nome do militar português.. Por razões que desconheço a partir de certa altura surgiu, erradamente, como Rua da Tassara. Armando Cação explica: "Levou-me uns 2 anos para convencer a CMI a mudar o nome, até que em reunião da Câmara Municipal das Ilhas, de 7 de Março de 1997, foi decidido alterar o que estava mal e repor o nome correcto de Rua do Tassara."
As duas versões sendo que em português apenas muda o artigo enquanto em mandarim uma versão tem 3 caracteres e a outra tem 4 caracteres chineses.
Agradecimentos: pela história e pelas imagens a Armando Cação.

sexta-feira, 19 de fevereiro de 2021

Museu Natural e Agrário: Coloane

Existe desde 1997 no Parque de Seac Pai Van de Coloane, o Museu Natural e Agrário, sendo na altura o primeiro museu da ilha de Coloane. 
Do espólio fazem parte cerca de 200 peças relacionado com geomorfologia, mangal artificial, exemplares da flora e da fauna.
Em 2011 o Instituto para os Assuntos Cívicos e Municipais (IACM) anunciou a intenção de criar um museu dedicado aos “ofícios e comércio tradicionais de Coloane”.
Na altura o público foi convidado a doar peças para o espólio do museu, ou seja, toda a memorabilia da história, dos diferentes ofícios e comércio tradicionais de Coloane: salinas, secagem de peixe e produção de balichão, cultivo de ostras, apanha de algas, agricultura, pecuária, fabrico de vinho de arroz, pedreiras, construção naval, comércio por grosso e a retalho, serviços de transporte, utensílios de caça e pesca, marcas registadas, instrumentos de medida, veículos ou dispositivos de transporte, livros de contabilidade, fotografias, símbolos, anuários, declarações de impostos, anúncios, uniformes de trabalho, objectos religiosos, documentos de identificação de trabalhadores, objectos de associações laborais, bilhetes de barco, tabelas de partida e chegada de navios e embarcações, etc.

terça-feira, 13 de outubro de 2020

"A Grande Chacina" e o "Tufão Perdido no Mundo"

Nas "Efemérides da História de Macau", Luíz Gonzaga Gomes refere que a 13 de Dezembro de 1924 "Seis prisioneiros chineses que estavam trabalhando na construção duma estrada na Ilha de Coloane, tentaram evadir, agredindo de surpresa e barbaramente duas praças africanas que os estavam vigiando e, depois de as terem desarmado, dirigiram-se ao quartel, onde mataram o 1.º Sargento Manuel Ferreira da Silva que comandava o posto militar da povoação de Ká-Hó, sendo depois mortos cinco e capturado um."
O tema viria a ser capa de um semanário em Portugal, o "Domingo Ilustrado" (1925-1927) na edição de 8 de Fevereiro de 1925, com o título "A Grande Chacina de Macau". 
O jornal é o equivalente aos actuais tablóides de pendor sensacionalista. 
O caso ocorreu em Ka-Hó, na ilha de Coloane.
Escreve o jornal que “Em pleno areal de Cka–Hó, um posto numa ilha de um kilómetro quadrado, os presos insubordinaram-se, assassinando com as ferramentas do trabalho os soldados portugueses. Depois correram ao quartel e mataram o sargento comandante, ferindo mais praças. 
Por fim, no meio da carnificina, ficaram abatidos cinco dos revoltados e todos os soldados feridos e mortos”.
A ilustração, explica a publicação, é uma "reconstituição (dos acontecimentos) sobre documentos e fotos fornecidos na Sociedade de Geografia, por um oficial que já comandou este posto".


Veja-se outro exemplo da abordagem jornalística,  na mesma publicação, também sobre Macau, na edição de 3 de Outubro de 1926, mas a propósito de um tufão.
A ilustração é acompanhada do título "O Tufão que anda perdido no Mundo!" e com a seguinte legenda:
Na Metrópole, nas ilhas, em Macau, um tufão, que os homens de sciencia classificam como sendo o mesmo, produz estragos formidaveis. Quando tomará pressão normal a enorme massa de ar?
Trata-se de um tufão que assolou Macau a 25 de Setembro de 1926.
O Diário de Lisboa escreve a 28 de Setembro:
"Um violento tufão assolou esta cidade. Nem todos os juncos de pesca que estavam ao largo recolheram, receando-se que a maior parte se tenha afundado causando a perda de muitas vidas. Os estragos no litoral são relativamente pouco importantes."
O cruzador "República" viria a ser afectado pelo tufão "indo encalhar sem avaria no lôdo para as bandas da Lapa. (…) Devo no entanto informar V. Exa.ª de que este tufão foi anormal, surpreendendo os observatórios de Hong Kong e Macau, os quais só poucas horas antes da passagem do meteoro anunciaram a sua aproximação desta região. O navio continua sem a menor avaria, devendo fazer-se a primeira experiência de o flutuar no próximo dia 12 de Outubro", explica Guilherme Ivens Ferraz, Comodoro do "República", numa carta enviada a partir de Macau ao Ministério da Marinha, a 8 de Outubro desse ano.

segunda-feira, 6 de janeiro de 2020

Macau na viagem de circum-navegação do S. Gabriel

Em Agosto de 1910 o cruzador "S. Gabriel" passou por Macau na viagem de circum-navegação sob o comando do Capitão António Aluízio Jervis de Atouguia Ferreira Pinto Basto. O vaso de guerra da Marinha portuguesa partiu de Lisboa em Dezembro de 1909 rumo ao Brasil. Dali seguiu para o Pacífico, visitando o Hawai, o Japão, Xangai, Hong Kong, Macau, as Filipinas e Timor, antes de regressar a Lisboa em Abril de 1911 (ver capa de publicação da época em baixo). 

Curiosidade: no Japão registou-se um encontro com Venceslau de Morais.
Durante essa viagem o oficial (aspirante de 1ª classe) Arthur Caetano Dias (tem o carimbo com o nome) enviou este postal com uma imagem panorâmica do Porto Interior de Macau (Inner Harbour) a D. Emília Narciso Costa (namorada) em Lisboa.
O postal tem impresso “Inner harbor, Macao. Sold by Graça & Co., Hongkong, China” e manuscrito “Hong-Kong 18-8-910, Adeus Arthur”.
Edição de 30 Abril 1911 da "Occidente"
Excerto do diário do comandante Pinto Basto sobre a passagem por Macau:
"Com muito bem tempo largámos de Hong Kong para Macau pelas 8 h da manhã do dia 2 de setembro. Ao passar pelos navios de guerra estrangeiros, tocaram as suas bandas o hymno portuguez, e foi-nos feito o signal de boa viagem. Seguimos para Macau com a velocidade de 13 milhas por hora, fundeando na rada pelas 10h45m. O governador organizou em nossa honra um passeio a Colovane, no qual tomaram parte as principaes auctoridades e famílias de Macau, talvez mais de duzentas pessoas, que para ali seguiram na lancha Macau e em três outras lanchas a vapor. A nossa visita a Colovane foi interessante, por se verem ali ainda em ruinas muitas casas contra as quaes a lancha Macau teve de fazer fogo no seu ataque aos piratas. Por essa ocasião prestou aquella lancha relevantes serviços. Démos um passeio pelas ruas da povoação e realisaram-se um lunch e uma regata de embarcações chinas.
Tivemos noticias de dois tufões que das Filipinas se dirigiam para a costa da China, o que nos obrigou a demorar a nossa partida para ali. No mez de setembro os tufões são muito frequentes e pouco dias se passa sem que os observatórios anunciem aquelles temporaes. Já foi difícil o regresso a bordo e o dia 26 amanheceu com chuva, vento, e mau aspecto, motivo pelo qual resolvemos deixar a rada para procurar melhor fundeadouro, logo que possível fosse.
Vieram para bordo n´uma lancha quatorze presos, entre eles os piratas de Colovane, que a requisição do governador da província devíamos conduzir a Timor e Moçambique. O transbordo da lorcha para o navio fez-se com dificuldade n´uma das nossas embarcações e foi impossível receber-se os volumes pesados. Ás 3h 30m suspendemos e fomos procurar o abrigo na bahia de Castle Peak, ao norte da ilha de Lantao, o melhor fundeadouro próximo, onde ancorámos pelas 6h da tarde em 5 braças de fundo com 45 m de amarra. Na tarde do dia 27 seguimos para Hong Kong, onde amarrámos às 5 horas a uma boia das docas de Kowloon, depois de ter salvado ao almirante americano. (...)

quinta-feira, 2 de janeiro de 2020

Coloane, piratas e toponímia

Edição do CIT de 1977
O monsenhor Manuel Teixeira escreveu na década de 1980 um pequeno livro (não é o que está na imagem) sobre a história das ilhas (Taipa e Coloane): Taipa e Coloane. Direcção dos Serviços de Educação e Cultura. Macau, 1981. Aborda todo o século 19 e vai até meados do século 20.
A Ilha de Coloane foi ocupada militarmente em 1864 por ordem do governador José Rodrigues Coelho do Amaral, indo de eoncontro ao pedido de protecção solicitado às autoridades portuguesas pelos habitantes daquela Ilha (Taipa tinha feito o mesmo).
A primeira bateria defensiva, construída perto do templo chinês, em frente da Ilha da Montanha, é construída duas décadas depois, em 1884. Dispunha de uma só peça, um canhão de 32c, assente num rodízio, e "destinava-se a proteger as pequenas povoações vizinhas da pirataria que, escorraçada da Taipa, se tinha infiltrado naquela costa, cheia de esconderijos favoráveis às suas pilhagens".
A mais famosa utilização desta peça – e do reduto defensivo – coube paradoxalmente a um bando de piratas que se assenhoreou daquela posição e dali combateu as forças militares portuguesas. Depois de uma luta cerrada com as autoridades em Julho de 1910 foram presos e os reféns que tinham com eles, adultos e crianças, libertados
A marca da presença dos piratas na história de Coloane ficou registada para a posteridade na toponímia local onde se encontram nomes como a Azinhaga dos Piratas e a Travessa dos Ladrões.
Década 1980

segunda-feira, 16 de abril de 2018

As ilhas num folheto turístico: década 1980

Templos, praias, pousadas, estradas, fábrica de panchões, as vilas da Taipa e Coloane bem como as estradas são algumas das informações dadas num guia turístico do início da década de 1980 sobre Macau de que apresento aqui apenas a parte relativa às ilhas.
A Ponte Macau-Taipa inaugurada a 5 Outubro 1974 - imagem acima - foi decisiva para o desenvolvimento das ilhas. Antes fora o istmo - zona actualmente denominada por Cotai - a ligar as ilhas da Taipa e Coloane (imagem abaixo).
Imagem da década de 1980 antes dos aterros que transformaram esta zona.
Praia de Hác Sa (tradução: areia preta)
Na Taipa
Coloane

sexta-feira, 22 de maio de 2015

Macau, trinta anos depois

Num artigo publicado no jornal Ponto Final a 21.5.2015, António Ramalho Eanes, ex Presidente da República de Portugal evoca a viagem oficial que fez à República Popular da China há trinta anos (Maio de 1985).
Largo Ramalho Eanes em Coloane na década de 1980
Uma convivência secular cimentou entre os povos português e chinês um tipo de relação que não é, apesar de tudo, frequente na História. Ter-se-ão os nossos Estados desentendido em diversos momentos históricos, mas sempre, entre o povo português e o povo chinês, em especial em Macau, existiu um entendimento profundo. Nenhuma vicissitude realmente séria ensombrou as relações entre a China e Portugal, e nunca, entre os dois países, se registou qualquer conflito que, pela sua gravidade, originasse uma situação de guerra.
Interesses mútuos, da China e Portugal, satisfação encontraram numa pequena parcela do grande território chinês, sem quaisquer ambições portuguesas de expansão e domínio, que sempre seriam néscias. E o clima de diálogo que foi possível preservar, em todas circunstâncias, presidiria, também, ao processo de negociação, adulto, honesto e responsável. Apesar de tudo quanto se referiu, fácil nunca foi a governação de Macau dado, sobretudo, a sua situação de manifesta vulnerabilidade relativamente à Grã-China, com a qual Portugal, parco em recursos e instrumentos de acção estratégica, manteve, nas palavras do Embaixador Duarte de Jesus, “através dos séculos um diálogo assimétrico, ambíguo e, por vezes, incoerente”. Porém, Portugal foi sempre capaz de ultrapassar dificuldades e assegurar a continuação da governação do território.
No âmbito da histórica solução imperial portuguesa, a questão de Macau não se prendia, apenas – e meramente –, com a questão de devolver a administração de Macau à China, mas de encerrar o ciclo imperial com a dignidade histórica que a nossa presença no Oriente e, em especial, a nossa presença em Macau, e a acção desenvolvida no território, mereciam, exigiam, mesmo. Além de tudo isto, Macau era, ainda, de algum modo, a antecâmara das futuras relações de Portugal com a China. Mostrar, nessa antecâmara, honestidade, competência e respeito intransigente pelos compromissos bilaterais assumidos era elevar a imagem de Portugal, criar melhores condições de relacionamento futuro, e potenciar a nossa capacidade de intervenção internacional.
Creio que a importância de Macau, na história e no devir do País, exigem que se recordem alguns momentos da sua tradição. A Lei 7/74, de 27 de Julho, que reconhecia o direito à autodeterminação e independência dos territórios coloniais, e que foi comunicada à ONU pelo Ministro dos Negócios Estrangeiros, excluía Macau dos territórios coloniais portugueses, satisfazendo, assim, a posição chinesa (a China considerava Macau território seu). No seguimento lógico daquela posição se enquadra a Nota do Ministério dos  Negócios Estrangeiros de Portugal, de 5 de Janeiro de 1975, que estabelecia que “para o governo português, o de Pequim era o único representante de todo o povo chinês; que a Formosa era parte integrante da República Popular da China; que o território de Macau
poderia ser objecto de negociações, no momento considerado oportuno por ambos os governos”. Outras posições se seguiram, reiterando as posições assumidas nestas duas ocasiões.
A Constituição da República Portuguesa, (aprovada a 2 de Abril de 1976 pela Assembleia Constituinte) estabelece, no seu Artº. 52º, 2. 4., que “o território de Macau sob administração portuguesa rege-se por estatuto adequado à sua situação especial”. O texto para o estabelecimento de relações diplomáticas entre a China e Portugal, aprovado em Conselho de Ministros, a 4 de Julho de 1978, que serviu de directiva política ao processo negocial entre Portugal e a China, desenvolvido em Paris (Embaixadores Coimbra Martins, por Portugal, e Han Kehua, pela República Popular da China), define a posição de ambos os governos sobre a questão de Macau. Nesse texto se assumiu “o compromisso, de uma e outra parte, que nunca haveria iniciativa unilateral no sentido de uma modificação do status quo, nem via de abordar o problema que não fosse a negociação, em momento considerado oportuno por ambas as partes”. Havia “uma posição de princípio chinesa”, sobre Macau, “mas (…) também o reconhecimento do peso da História.” As negociações foram concluídas em Fevereiro de 1979, durante o governo do Prof. Mota Pinto.
Na visita do Vice-Primeiro-Ministro à República Popular da China, em Maio de 1984, a questão de Macau foi abordada. As autoridades chinesas admitiram, na altura, que o estatuto que iria reger futuramente Macau seria tendencialmente idêntico ao que fosse acordado, com as autoridades britânicas, para o território de Hong Kong. Posteriormente, declarações atribuídas pela Agência France Press ao Primeiro-Ministro português, durante a sua visita ao Japão, em Junho de 1984, de que “Macau continuaria a ser administrado por Portugal, mesmo depois da recuperação da soberania de Hong Kong pela China”, levantaram alguma preocupação na República Portugal da China. Mas, logo a 9 de Julho de 1984, o Governo confirmou, perante o Presidente da República, não ter havido modificação na posição portuguesa relativamente a Macau, tendo-se tratado de um erro na tradução das declarações proferidas pelo Primeiro-Ministro no Japão e que telegramas, do Ministério dos Negócios Estrangeiros, para as Embaixadas de Portugal em Pequim e Tóquio, esclareciam o assunto.
A minha visita, enquanto Presidente da República, à China, em Maio de 1985, situa-se no quadro definido e consequente situação irreversível, visto que a Portugal apenas cabia cumprir as obrigações acordadas com a República Popular da China, respondendo à responsabilidade assumida com a população de Macau, respeitando a sua dignidade e interesses, intensificando a sementeira dos seus interesses naquele território da promissora China. Na agenda de conversações, estabelecida entre Portugal e a China, para a visita, não se indicava concretamente Macau. Havia, no entanto, um ponto que se referia a interesses de âmbito comum. Seria, pois, natural que essa questão fosse aí incluída. Na preparação da visita, nomeadamente com o Governo, essa eventualidade foi abordada, e entendeu-se que era de manter o estabelecido desde sempre, nomeadamente no Acordo de Paris: a transferência de administração poder-se-ia fazer mediante discussão diplomática entre as duas partes e o acordo que viesse a ser estabelecido. A reacção de surpresa em Lisboa à notícia de que os dois países tinham decidido iniciar um processo negocial visando a transferência de Macau foi natural, por dois motivos.
Primeiro, a opinião pública portuguesa não tinha sido informada de que os chineses já tinham mostrado interesse em que o problema da administração de Macau fosse negociado, e que tal merecera a concordância governamental portuguesa (vice-presidente do governo do «bloco central»). Segundo, porque houve intervenções no Parlamento, essas menos compreensíveis, pois os parlamentares tinham obrigação de conhecer o Acordo de Paris, com o qual, aliás, se tinham congratulado.
Quando a República Popular da China propôs a Portugal encetar o processo negocial para a transferência da administração de Macau para a China, Portugal não tinha nenhuma razão, nem objectiva, nem subjectiva, nem poder, para dizer que não queria discutir a questão. O que se passou na minha visita à República Popular da China, em especial no que se reporta a Macau, consta da acta nº 9 do Conselho de Estado e elimina quaisquer dúvidas históricas, que existissem, sobre o que então se passou. No encontro com Zhao Ziyang tive ocasião de dizer que, relativamente às questões pertinentes ao relacionamento bilateral entre a República Popular da China e Portugal, abordava a questão de Macau, assinalando, desde logo, ser um problema que a História legara, quer a Portugal, quer à República  Popular da China e que me parecia que o entendimento amigável, alcançado em 1979, aquando do estabelecimento de relações diplomáticas entre ambos os países, permitia uma clara e ajustada caracterização da situação. Nos termos de tal entendimento, ficara reconhecido e assente ser Macau território chinês. No entanto, e até ao momento em que fosse definitivamente entregue à República Popular da China o exercício integral da respectiva soberania, ficaria a administração do território confiada à jurisdição portuguesa. Atenta essa situação, encontrava-se Portugal disponível para, em momento a acordar, diplomaticamente, serem encetadas conversações sobre a transferência da administração de Macau. Era convencimento de Portugal que o processo negocial seria iniciado quando as duas partes o entendessem, mas em qualquer circunstância com o objectivo e a preocupação de preservar os legítimos interesses da República Popular da China, de Portugal e de Macau.
Assim, a 13 de Abril de 1987, o governo da República Portuguesa e o governo da República Popular da China assinam uma Declaração conjunta em que estabelecem que “a região de Macau (…) faz parte do território chinês e que o Governo da República Popular da China voltará a assumir o exercício da soberania sobre Macau a partir de 20 de Dezembro de 1999”.
O acordo conseguido, “em conformidade com o princípio «um país, dois sistemas»”, honrou a República Popular da China, respeitou a dignidade de Portugal e salvaguardou os justos interesses de Macau. Justo é referir o papel do último governador português do território, General Vasco Rocha Vieira, que dotou Macau de especiais condições,  internas e internacionais, que em muito potenciaram o seu interesse para a China e contribuíram decisivamente para o sucesso da transferência, ao actuar na adequação dos diferentes subsistemas sociais (educação, saúde, justiça, etc.); ao manter um clima de dialogante abertura, legítima exigência e cuidada transparência para condições criar para um salutar relacionamento de Portugal com Macau e com a China, e de Macau com os países africanos de língua oficial portuguesa. 
O futuro reserva-nos, estou certo, caminhos de amizade e cooperação que a China e Portugal interesse têm em continuar a percorrer com mútuo proveito. 
António Ramalho Eanes

terça-feira, 21 de outubro de 2014

Coloane by Jolie Ho


Duas fotografias que retratam Coloane em meados da década de 1970 e que se mantiveram actuais praticamente até à década de 1990. Fotos (acima) do IICT: acesso à Cheock Wan e Praia de Hac Sa, destacando-se as casuarinas e o antigo campo de tiro.
Coloane's old world charms still beating strong
The boats may have left Coloane decades ago, but the island dotted with narrow lanes still offers a taste of authentic Portuguese village life
Choi Shoi-ying has been living in Coloane, one of Macau's two main islands, for 60 years.
Originally from Zhongshan , Guangdong province, the 90-year-old salted fish trader remembers how the village was once a thriving fishing port, with boats packed along its coast. "Salted fish on the island were in abundance and just piled up," said Choi, who together with her husband raised five children. "We needed to wake up at 6am to wash the fish … Then we took them outside and covered them with plastic," she said. "They had to be placed under the sun for two to three days. When it rained, there would be worms."
Those days are long gone. As Macau celebrated its 13th anniversary of the handover yesterday, long-time Coloane residents like Choi looked back to a time when the former Portuguese colony was home to many hardworking fishermen.
Another Guangzhou immigrant, Sio Yio, who has lived in Coloane since the 1970s, used to run a small Chinese restaurant on the island. The 75-year-old said: "The fishermen used to knock on my door at three or four in the morning to look for food because some of them would return from the sea in the middle of the night. We did not have to worry about our business at all." But starting in the 1980s, fishing in the area declined, Choi said. "The fishing boats went to Hong Kong instead, and some fishermen went to work in the factories," she said. Choi then decided to open a mahjong parlour. "Many policemen came to play mahjong at my place, but they are not allowed to gamble any more today."
The parlour was forced to close about 15 years ago.
Today, fishing boats are a rare sight and young people leave Coloane to look for opportunities elsewhere, largely in central Macau, some in Hong Kong and the rest on the mainland. Macau central has in recent years reinvented itself as a mega entertainment centre - the Las Vegas of the East. A quarter of the population works in the gaming and hotel industry.
But Coloane has so far maintained much of its earlier character.
With its cobblestone roads, salted fish stores, South European-style buildings and stilt houses on the water, locals still consider Coloane an ideal place to experience authentic Portuguese village life. Local delicacies such as Portuguese egg tarts as well as salted fish are also popular with visitors.
With an area of 7.6 sq km and a population of just 4,300, Coloane is located at the south-most part of Macau. Together with Taipa, it is one of the two main islands of the city.
The Portuguese name "Coloane" is derived from the Cantonese pronunciation of Gwo Lou Waan, literally means "Passing-road Ring". The name is believed to be borrowed from a place on Hengqin Island in Guangdong, located to the west of Coloane.
Historians believe the island was inhabited as early as 4,000 years ago. Until the Portuguese arrived in 1864, Coloane was mainly a sea salt farm.
The island came fully under Portuguese occupation after the country's soldiers helped villagers combat pirates in 1910. A monument commemorating a victory over pirates still stands today.
Coloane's history as a fishing village is evident in the area's Portuguese street names, such as Travessa do Balichao (meaning salted shrimp lane). Another main road is Avenida de Cinco de Outubro, or Avenue of October the fifth - the establishment date of the Republic of Portugal. Olavo Rasquinho, head of the Typhoon Committee Secretariat, a UN-linked international organisation headquartered in Coloane, has noticed a surge in tourists to the island over the past five years. "It is not easy to park cars now," said the 69-year-old immigrant from Portugal. "It's quiet and peaceful, and you can still see people getting oysters from the ocean. It's still a village itself. And the narrow streets and characteristics of some buildings remind me of some Portuguese villages."
Such is the charm of this historical neighbourhood. Sio said the island remained safe even when Macau was rife with gangland violence in the 1990s. "Coloane was and has always been a peaceful place. People could sleep on a cot in the street and it was safe," he said.
Macau lawmaker Au Kam-san said the island had been spared the rapid redevelopment that is spreading across Macau.
"Some of the land was developed by farmers during the Ming and Qing dynasties and [their descendants] have sandpaper leases in their hands … but the Macau government does not recognise these leases," Au said. He said villagers could not change the land use rights and the government dared not confront them all at once, so the island had been spared large-scale developments. "There is not yet a development plan for the whole of Coloane, which is one of the places that has changed the least in Macau," Au said.
Article by Jolie Ho published on South China Morning Post 21 December 2012

quarta-feira, 24 de setembro de 2014

"Piratas" no Diário de Notícias: 24 Setembro 1910


A segunda parte do despacho do correspondente do DN em Macau conta os pormenores da pequena guerra entre piratas chineses, refugiados em Coloane, e as tropas portuguesas estacionadas em Macau. Trata-se de uma narrativa cheia de peripécias, como num romance de aventuras de Emilio Salgari.
O bando de piratas dedicava-se à extorsão e raptou um grupo de estudantes de famílias chinesas ricas, exigindo resgate avultado, equivale a 18 contos, 18 milhões de reis, o que hoje seria uma verba a rondar 2 milhões de euros. Os reféns foram levados para Coloane e as autoridades organizaram uma operação militar envolvendo 40 soldados de infantaria. No entanto, a unidade caiu numa emboscada ao desembarcar. Na confusão, perdeu-se o controlo da fortaleza local, que os piratas ocuparam.
Após bombardeamento executado por duas canhoneiras, os piratas foram forçados a fugir para as montanhas, mas a situação complicou-se devido a um Tufão. O texto não menciona baixas e não explica a razão da população ter ajudado os bandidos que viviam do roubo. Finalmente, numa caverna das montanhas de Coloane, foram capturados 15 piratas, com 13 mulheres e 3 crianças. As autoridades conservavam detidos 70 chineses suspeitos.
Fonte: Diário de Notícias - Setembro de 2010