Mostrar mensagens com a etiqueta curiosidades. Mostrar todas as mensagens
Mostrar mensagens com a etiqueta curiosidades. Mostrar todas as mensagens

segunda-feira, 21 de setembro de 2026

Postal da "Se Cathedral" enviado para Cuba em 1923

Na imagem um postal ilustrado da Sé Catedral de Macau durante o início da década de 1920, exibindo a fachada lateral e a torre sineira equipada com o seu relógio. A estrutura representada corresponde à versão neoclássica do edifício edificada em meados do século XIX, anterior à remodelação que teve lugar em 1937 e que alterou em parte a traça exterior. Na margem inferior da imagem, uma legenda impressa a vermelho "Se Cathedral, Macao".
Do ponto de vista da história postal, atente-se à clareza das marcas de circulação. No canto inferior direito encontra-se afixado um selo de 6 avos obliterado pelo carimbo octogonal do CORREIO CENTRAL - MACAU com a data de 23 de Agosto de 1923. A acompanhar a estampilha, destaca-se um carimbo circular de trânsito e chegada com a inscrição HABANA, CUBA, datado de 22 de Setembro de 1923, o que comprova que esta correspondência demorou exactamente um mês a viajar entre Macau e as Caraíbas.

terça-feira, 25 de agosto de 2026

Marco toponímico Conselheiro Borja

As traseiras das Ruínas de S. Paulo foram durante muitos anos um depósito improvisado de artefactos que o progresso obrigou a retirar dos locais originais. É o caso deste marco toponímico com a inscrição em português e chinês fotografado na década 1960:
Governo Conselheiro Borja 路政參布 (Rua/Travessa Conselheiro Borja)
Em Macau existe uma avenida, uma rua e uma travessa com o seu nome.
Custódio Miguel Borja (1849-1911) foi governador de Macau e Timor entre 16.10.1890 e 24.03-1894. Nesse âmbito foi também Ministro plenipotenciário de Portugal na China, Japão e Tailândia.
Seria exonerado a 10 de Novembro de 1893:
"Hei por bem exonerar o capitão de fragata supranumerario da armada conselheiro Custodio Miguel Borja do logar de governador da provincia de Macau e Timor para que fôra nomeado em decreto de 2 de abril de 1890 e que serviu com zêlo e intelligencia O ministro e secretario d estado dos negocios da marinha e ultramar assim o tenha entendido e faça executar."
Seguiu-se José Maria de Sousa Horta e Costa, nomeado novo governador no mesmo dia:
"Attendendo ás circumstancias que concorrem no capitão de estado maior de engenheria do exercito de Portugal José Maria de Sousa Horta e Costa hei por bem nomeal o para o logar que se acha vago de governador da provincia de Macau e Timor O ministro e secretario d estado dos negocios da marinha e ultramar assim o tenha entendido e faça executar."

quarta-feira, 12 de agosto de 2026

Anúncio "Pedido de desculpas"

Anúncio publicado na imprensa chinesa de Macau em Junho de 1965 onde uma empresa pede desculpas públicas pela ruptura de stock do refrigerante Fanta (traduzido na época como "Fanta Orange Juice" / 發達橙汁), devido ao enorme sucesso de vendas.

道歉啓事
敝公司監製之發達橙汁
自銷售以來,荷蒙社會各界一致愛護,銷路超乎預算,故以往數天曾供不應求,有勞貴顧客函電催速,殊深歉仄。 爲酬雅意,特電美國廠方盡速空運發達橙汁原材料到澳,由卽日起將源源不斷供應。特此道歉,並敬申謝悃。
澳門可口可樂汽水廠敬啓 電話:三五〇五 三五八八

Tradução/Adaptação
Anúncio de Desculpas
O Fanta Orange Juice produzido sob a supervisão da nossa empresa, desde o início das suas vendas, tem recebido o apoio unânime de todos os sectores da sociedade. As vendas superaram em muito as nossas estimativas, razão pela qual a oferta não conseguiu satisfazer a procura nos últimos dias. Lamentamos profundamente o incómodo causado aos nossos estimados clientes que nos contactaram por carta ou telefone para solicitar o envio rápido do produto.
Em retribuição pela vossa preferência, enviámos um telegrama urgente para a fábrica nos Estados Unidos para que transportassem, por via aérea e o mais rapidamente possível, os ingredientes originais do Fanta Orange Juice para Macau. A partir de hoje, o fornecimento será retomado de forma contínua. Apresentamos aqui as nossas sinceras desculpas e os nossos profundos agradecimentos.
Atenciosamente, Fábrica de Refrigerantes Coca-Cola de Macau Telefone: 3505 / 3588

Nota:
"發達橙汁" (Fanta): Hoje em dia, a Fanta é universalmente conhecida na China e em Macau como 芬達 (Fēndá). No entanto, neste anúncio antigo, usaram o nome 發達 (que se lê Fāt-daht em cantonense, soando muito parecido com "Fanta", mas com o significado auspicioso de "ficar rico" / "prosperar").

sábado, 8 de agosto de 2026

Douglas DC-6B "Macau"

O Douglas DC-6B baptizado "Macau" (matrícula 6707) é uma aeronave que pertenceu à Força Aérea Portuguesa (FAP). Adquirido em 1961 foi usado na Guerra Colonial nos Transportes Aéreos Militares. Após ser abatido ao serviço militar, a partir de 1982 passou a ser usado como avião de treino da PSP - Polícia de Segurança Pública.
Ilustração criada por IA a partir de foto de outro aparelho com matrícula 6702

Na base da Unidade Especial de Polícia (UEP) em Belas (Lisboa), serviu para o treino de assaltos, situações de sequestro e resgate de reféns. Em Novembro de 2020, devido ao desgaste e antiguidade, a carcaça foi desmantelada e devolvida à FAP. O "Macau" seria então recolhido para ser preservado e restaurado pelo Museu do Ar da Força Aérea Portuguesa.

quarta-feira, 5 de agosto de 2026

Placas toponímicas da Praça Luís de Camões

Imagem acima - recriada por IA - mostra uma placa toponímica antiga

Já no século 20 e antes de 1999
Nas imagens diferentes placas toponímicas - das mais antigas para as mais recentes - da Praça Luís de Camões, um topónimo que remonta à segunda metade do século 19 quando o governo abriu ao público o Jardim Luís de Camões.
Como em outros casos, a designação em chinês nada tem a ver com o nome em português. 白鴿巢前地 significa Largo do Ninho das Pombas Brancas (Pa Kap Chao):
白鴿巢 - ninho das pombas brancas
前地 - largo/praça
Placa toponímica após 1999

A tradição oral indica que na origem do nome está o facto dos primeiros donos da propriedade terem uma predilecção especial por pombos tendo milhares destes animais. Acrescento mais um elemento para o assunto. No início do século 19, não muito distante do que viria a ser o jardim, existiu um aviário gigantesco pertencente a Thomas Beale. Talvez este faco explique que algumas fontes refiram o nome em chinês como "Pak Liu Chao", ou seja, "Ninho dos Cem Pássaros"...

quarta-feira, 22 de julho de 2026

Uma antiga inscrição no "Hospital da Santa Caza da Mizericordia"

ESTE HOSPITAL DA SANTA
CAZA DA MIZERICORDIA
MANDOU FAZER LUIS COE
LHO SENDO PROVEDOR
NO ANNO DE 1747.
Em português corrente, "Este hospital da Santa Casa da Misericórdia mandou fazer Luís Coelho sendo provedor no ano de 1747."
Numa leitura individual e sem contexto a inscrição em pedra induz em erro. Na verdade refere-se a uma reconstrução do referido hospital. Uma das várias reconstruções de que foi alvo o hospital fundado no século 16 (1569) por D. Belchior Carneiro como Hospital da Misericórdia, sendo o primeiro hospital de medicina ocidental da Ásia
Principais reconstruções ao longo dos tempos:
1640; 1747; 1887; 1912-1913; 1938-39; década 1980/90. 
O antigo hospital alberga desde 1999 o Consulado de Portugal.

segunda-feira, 13 de julho de 2026

Brasão de Armas na Porta do Cerco

Entre a ideia e a concretização do Museu Camões passaram tantas décadas que muitas peças do património arquitectónico - que pelas mais diversas razões tiveram de ser retiradas dos locais originais - foram sendo depositados em espaços como as traseiras das Ruínas de S. Paulo e a Fortaleza do Monte.
Aquando da Implantação da República em 1910 (Portugal) muitos dos símbolos monárquicos que estavam em edifícios/monumento foram retirados*. Foi o caso do escudo heráldico português que estava ao centro no topo do arco da Porta do Cerco. Tudo indica que foi removido para a Fortaleza do Monte. De uma fotografia de 1987 ali tirada identifiquei o que me parece ser o referido brasão. Tem a bordadura com os castelos e o interior preenchido com as "quinas". 
O escudo está danificado, apresentando uma fractura horizontal proeminente na rocha que pode ter ocorrido aquando da remoção e/ou transporte. A fotografia maior é do período anterior a 1910 vendo-se a bandeira da monarquia.

 

A disposição heráldica apresentada (quinas laterais na vertical e não inclinadas) foi fixada em Portugal no final do século XV (reinado de D. João II, em 1481). No entanto, o estilo da pedra, a textura e os elementos decorativos esculpidos na parte superior sugerem que se trata de uma obra produzida entre os séculos XVIII e XIX (períodos barroco e neoclássico). Ora a Porta do Cerco foi construída em 1870/71 pelo que considero a hipótese provável. Mas poderá ter tido outra origem...
* No caso da toponímia a Rua Nova Del Rei passou a denominar-se Rua Cinco de Outubro.

terça-feira, 7 de julho de 2026

Uma placa toponímica especial

É uma das artérias mais conhecidas de Macau. A placa toponímica reflecte as especificidades de alguns nomes de ruas no território. Neste caso, o nome em português nada tem a ver com o nome em chinês.

Transcrição dos Caracteres (da direita para a esquerda, de cima para baixo):
Coluna da direita: 亞美打利庇盧 (À-měi-dǎ-lì-bì-lú)
Coluna da esquerda: 大馬路(新馬路) (Dà mǎlù (Xīn mǎlù))

Tradução e Significado:
亞美打利庇盧 (Àmei dǎlì bìlú): Transliteração fonética para chinês do nome "Almeida Ribeiro" 
大馬路 (Dà mǎlù): Significa literalmente "Grande Avenida" ou "Estrada Principal".
(新馬路) (Xīn mǎlù): Significa "Estrada Nova" ou "Avenida Nova". É o nome popular e mais comum pelo qual os habitantes de Macau conhecem esta famosa avenida.

PS: esta placa é recente; antigamente não existia a transliteração fonética para chinês de "Almeida Ribeiro".

quinta-feira, 25 de junho de 2026

"La Belle de Macao"

Na imagem a capa do livro de romance policial "La Belle de Macao", publicado na colecção "Rafale" em 1955 pela Éditions de la Seine. A obra foi escrita por Diego Michigan.
A capa apresenta uma ilustração estilo pin-up típica dos romances policiais franceses da década de 1950. O livro é um exemplo da literatura pulp francesa com temática de crime e aventura.
Diego Michigan é um pseudónimo colectivo utilizado na época por vários autores literários - entre os quais se incluem a escritora francesa Françoise d'Eaubonne, o autor belga Gérard Prévot, Henri Certigny e André Duquesne - dedicados à produção de romances populares de gangsters para a referida editora.
Livro de bolso típico da época, estamos perante um "thriller" policial caracterizado por uma atmosfera noir, ritmo acelerado e intriga internacional. O enredo mistura crime, suspense e espionagem com o exotismo característicos da cidade de Macau.
A ilustração da capa expõe os elementos visuais característicos do género policial pulp e de espionagem do período pós-guerra, destacando uma personagem feminina com feições ocidentais com uma sombrinha oriental, sentada num riquexó tradicional, enquanto em segundo plano surgem um homem com vestes chinesas.
O género literário pulp têm origem nos EUA (incluindo em revistas) onde marcou toda a primeira metade do século 29. Distinguem-se por uma estética e uma estrutura narrativa concebidas para o consumo rápido e o entretenimento imediato. Visualmente, eram livros de bolso impressos em papel económico de polpa de madeira (daí o nome pulp...), vendidos a preços muito baixos em bancas de rua e estações de comboio. As capas eram deliberadamente provocantes, exibindo ilustrações vibrantes e exageradas que misturavam armas, violência e figuras sensuais de femmes fatales envoltas em fumo de cigarro. Para atrair o público que idolatrava o cinema policial americano, os autores europeus escreviam a um ritmo industrial e utilizavam frequentemente pseudónimos anglo-saxónicos ou exóticos, como o nome "Diego Michigan" sob o qual Françoise d'Eaubonne publicou.
No plano literário, estas obras caracterizam-se por uma escrita directa, desprovida de grandes floreados, onde o foco reside inteiramente numa acção frenética e cheia de reviravoltas. Os diálogos são curtos, cínicos e repletos de calão urbano, moldando personagens moralmente ambíguas, como detectives solitários e criminosos perigosos. Os enredos exploravam de forma ousada o submundo do crime, do jogo e do contrabando, transportando o leitor para cenários obscuros ou localizações exóticas e misteriosas que acentuavam o clima de perigo internacional.
Em Portugal este género ficou conhecido como literatura de cordel. A lendária Colecção Vampiro (lançada em 1947 pela editora Livros do Brasil) capturou perfeitamente o espírito estético e comercial do pulp noir e do hardboiled americano.
Existem dezenas de títulos deste género relacionados com Macau. Em breve retomo o tema.

quinta-feira, 18 de junho de 2026

Placa de granito da antiga Igreja da SCM

No antigo Leal Senado - actual Instituto para os Assuntos Municipais - existem alguns 'objectos' que não fazem parte da história do edifício tendo sido recolhidos de diversos locais de Macau aos longo dos tempos e pelas mais diversas razões.
Um desses exemplos - e sobre o qual recebo por vezes questões dos leitores - é uma placa de granito que está incrustada numa parede no acesso ao jardim. Esta placa pertencia à antiga igreja da Santa Casa da Misericórdia, localizada ali bem perto e onde está actualmente a SCM, a primeira instituição de beneficência de Macau. A remoção fez-se aquando da demolição da igreja por volta de 1883. Na imagem pode ver-se a Virgem Maria com as mãos ao peito, em sinal de prece pelos pobres e aflitos. Ao lado tem os anjos que seguram o manto, símbolo da protecção aos crentes e da benevolência e compaixão de Nossa Senhora.
PS: O sino que se vê na imagem é o da capela que existia no edifício do Leal Senado.

segunda-feira, 15 de junho de 2026

Clube Militar distinguido com Menção Honrosa no Platinum Clubs of the World

O Clube Militar de Macau foi distinguido com uma menção honrosa na lista Platinum Clubs of the World para o biénio 2026-2027 em Junho último.
A instituição fundada em 1870 com a designação Grémio Militar foi reconhecida entre os melhores clubes privados globais na categoria de "Clube de Cidade", de uma lista que inclui clubes de Golfe e Iatismo, num processo de selecção que envolveu especialistas de 22 países.
Vista panorâmica ca. 1875/1880

A menção honrosa coloca o Clube Militar de Macau a par de instituições de renome internacional, como o Harvard Club of New York City, nos Estados Unidos, o Bangkok Club, na Tailândia, e o Royal Selangor Club, na Malásia.
A lista Platinum Clubs of the World é actualizada bienalmente e inclui 300 clubes nas categorias de golfe, cidade e iatismo.
Grémio Militar em construção num detalhe de uma fotografia ca. 1868/69 por John Thomson


sábado, 13 de junho de 2026

"Landing Place St Antonio Macao"

Esta ilustração é rara e tem a legenda "Landing Place St. Antonio Macao", ou seja "Cais em Santo António, Macau". 
Na imagem pode ver-se uma pequena embarcação a aproximar-se de um 'pavilhão' com arquitectura chinesa e ao fundo a igreja de Santo António. É muito provavelmente do século 18 tal como o mapa abaixo que permite perceber o quanto o Porto Interior - antes das obras de aterros - estava tão perto da igreja de Santo António que fica junto ao Jardim Luís de Camões.
Em linha recta a perspectiva mostrada corresponde 
à actual Rua do Tarrafeiro numa extensão de cerca de 500 metros.

terça-feira, 9 de junho de 2026

Antigos "Cruzeiros"

A presença de cruzeiros (grandes cruzes de pedra ou madeira) no adro ou em frente às igrejas é uma tradição profundamente enraizada na Europa e muitos países espalharam esse hábito pelos então territórios conquistados um pouco por todo o mundo. Portugal não foi excepção. Em Macau embora muitos já tenham desaparecidos, ainda existem alguns.
Entre os que desapareceram pela voragem do tempo contam-se o do Largo do Senado junto à Igreja de Misericórdia e o que ficava junto à Igreja e Convento de S. Francisco. A cruz é o elemento simbólico do cristianismo. Sendo o seu elemento mais universal assinala o sagrado sobre o profano. Para além da função religioso tinham também um função Social e de identidade, assumindo-se como "ponto de encontro" por excelência de um determinado local. Eram o centro da vida social da aldeia ou vila (em frente à igreja principal) e era ali que se discutiam negócios, que se davam novidades e se tomavam decisões comunitárias.
Entre os cruzeiros que ainda hoje se podem encontrar em Macau estão os do Largo da Sé (embora numa versão moderna pois o anterior estava danificado), junto à igreja de S. Lázaro, da igreja do Carmo (Taipa), Igreja S. Francisco Xavier (Coloane), Ermida da Penha, Igreja de Santo António, etc...
No adro da igreja de Santo António com a inscrição "1638"

O do adro da Igreja de Santo António afere que a construção da igreja na actual localização é datável de 1638, data inscrita no cruzeiro de pedra existente no adro. Embora a primitiva construção seja anterior. É mesmo a mais antiga de Macau remontando ao final do século 16.
A referida construção de pedra e cal e estilo neoclássico sofreu inúmeras remodelações, nomeadamente, em 1810 e 1876

A razão da sua construção resulta da combinação de funções religiosas, sociais e até práticas, funcionando como a sagração do espaço público. O cruzeiro funcionava como uma extensão do altar para o exterior. Marcava o limite entre o mundo profano (a rua) e o mundo sagrado (a igreja). Ao colocar uma cruz na frente do edifício, toda a praça ou adro passava a ser considerada solo sagrado, preparando o fiel espiritualmente antes de ele cruzar o umbral da porta.
Cruzeiros assinalados num 'mapa' do século 17

Muitas vezes, as igrejas eram pequenas demais para acolher multidões em festas populares. Assim os padres pregavam junto ao cruzeiro - púlpito ao ar livre - para que todos na praça pudessem ouvir. Eram também usados em procissões e vias-sacras com uma escala, uma "estação" onde se rezava e entoavam cânticos.
Cruzeiro junto à Igreja/Convento de S. Francisco: pintura 1812

Assumindo a função de protecção espiritual acreditava-se que a cruz protegia a comunidade contra pestes, tempestades e "más energias". Alguns exemplares foram erguidos enquanto "marcos de piedade", fruto de promessas de famílias ricas ou por ordens religiosas (como os Franciscanos ou a Ordem de Cristo) para incentivar a oração dos transeuntes.
Em tempos antigos, os cemitérios situavam-se junto aos adros das igrejas e aí o cruzeiro servia como um monumento central de oração pelas almas ali enterradas.

segunda-feira, 8 de junho de 2026

Os "religiosos de Santo Agostinho" e os 'frescos' da Ermida da Guia

22 de Agosto de 1589
Os religiosos de Santo Agostinho tomaram n'este dia posse do convento de Nossa Senhora da Graça, em Macau, que já antes haviam fundado os padres hespanhoes da mesma ordem, os quaes o cederam por determinação d'el rei D. Fellipe I intimada pelo governador da India Manuel de Sousa Coutinho. Affirmam alguns manuscriptos que no anno de 1591 se mudou o local do convento para onde se vê ainda formoso alto da cidade de onde se descobre toda a Praia Grande e o mar. Querem outros que só fosse a mudança de algumas portas e não de todo o corpo do convento por se não encontrar noticia nem vestigios do que se pretende dar por mais antigo.
in Commemorações da historia de Macau e das relações da China com os póvos christãos
Curiosidade:
A ermida da Guia é dedicada a Nossa Sra. das Neves. Durante trabalhos de restauro em 1996 foram descobertos alguns 'frescos', incluindo o desenho de uma águia bicéfala. Ainda hoje continua por esclarecer a origem deste 'fresco'. A águia bicéfala é frequentemente associada à Igreja Ortodoxa ou a impérios do Leste Europeu. No entanto, a sua presença na Capela de Nossa Senhora da Guia pode ser explicada por três hipóteses principais que os historiadores têm debatido:
Hipótese Agostiniana: Esta é a mais provável e encontra paralelo numa pedra gravada com um símbolo semelhante e pode ser visto do antigo Leal Senado. A águia bicéfala é um símbolo da Ordem de Santo Agostinho. Embora a capela não fosse formalmente gerida pelos agostinhos, a influência visual desta ordem na Ásia era imensa no século XVII, e o símbolo representa a elevação espiritual e a visão divina.
União Ibérica (1580–1640): O período em que as pinturas foram feitas coincide com a época em que os reis de Espanha (Habsburgo) também eram reis de Portugal. A águia bicéfala era o símbolo heráldico dos Habsburgos. Apesar de Macau manter a bandeira portuguesa, a presença do símbolo imperial em edifícios daquela época era uma forma de reconhecimento da autoridade monárquica global.
Pista Arménia: C. A. Montalto de Jesus sugeriu a presença de comerciantes arménios em Macau como a causa. Para os arménios, a águia bicéfala é um símbolo nacional e religioso antigo. Provas documentais Montalto admitiu não ter encontrado.

terça-feira, 2 de junho de 2026

Placas toponímicas da Rua dos Mercadores

Este é mais um exemplo da especificidade e riqueza da toponímia local em termos históricos. Três diferentes designações em chinês para a mesmo nome em português, a Rua dos Mercadores. Antigamente foi das mais importantes por ser a que permitia a entrada no chamado Bazar chinês a partir do centro histórico da cidade.
Placa 1
Português: RUA DOS MERCADORES
Chinês: 大街
Tradução literal: Rua Principal.

Placa 2 
Português: RUA DOS MERCADORES
Chinês: 大街 (營地大街)
Tradução literal: "Rua Principal do Bazar" ou "Grande Rua do Mercado

Placa 3
Português: RUA DOS MERCADORES
Chinês: 買賣街
Tradução literal: Rua de Compra e Venda (Rua do Comércio).

terça-feira, 26 de maio de 2026

"Chal fundo e chal Grande"

De acordo com o Glossário do Dialecto Macaense e outros registos do português na Ásia:
Chal (ou Chale): É um termo de origem indo-portuguesa (do marata chāl ou guzerate chāl). Designa um edifício comprido e estreito, geralmente dividido em várias habitações ou compartimentos independentes, frequentemente ocupado por artífices ou trabalhadores.
Em contextos urbanos antigos (como em Bombaim ou partes de Goa e Macau), os chals eram estruturas comunitárias com um corredor ou varanda comum.
Detalhe de "Planta Topographica da Cidade de Macáo. Levantada em 1831 e Reformada em 1838 por Candido Antonio Ozorio", oficial de infantaria e engenheiro.

Neste mapa referem-se o "Chal fundo" e o "Chal Grande". Outras referências neste detalhe do mapa:
a) Casa de D. Antónia
b) Campo de Santo António
c) Gruta de Camões
d) Horta do Pereira
e) Igreja de Santo António
f) Tarrafeiro
k) Horta da Companhia (holandesa)
j) Casa da Companhia (holandesa)
u) Cemitério britânico
h) Hospital britânico
V) Povoação de Patane
H) Chal fundo

terça-feira, 12 de maio de 2026

Rotunda Carlos da Maia / Três candeeiros / Sam Dang Chang

No post de hoje abordo mais uma das muitas curiosidades da toponímia local.

Esta imagem no final da década de 1910 retrata a Rotunda Carlos da Maia. A praça recebeu o nome de Carlos da Maia/嘉路米耶圓形地, o primeiro governador de Macau (1912-1914) após a implantação da República em Portugal. No entanto viria a ficar popularmente conhecida em cantonense como Sam Chan Dang e em português como "Rotunda dos Três Candeeiros", alusão ao poste de iluminação colocado no centro que tinha (e ainda tem) três globos de vidro. 
Após obras de renovação em 1999 foi colocado um globo de vidro extra no topo do candeeiro mas a designação não se alterou.
No início do século 20 foram construídos vários edifícios apalaçados em redor da praça - um deles era a Escola República - mas que hoje já não existem.

segunda-feira, 11 de maio de 2026

"Praya Grande from the North" e "Praya Grande from the South" a lápis e carvão

"Praya Grande from the North."
"Praya Grande from the South" 

Estes dois desenhos a "pencil and crayon" (lápis e carvão) com 20 x 35 cm fazem parte do espólio do Peabody Essex Museum (EUA). Estão referidos no livro "The marine paintings and drawings in the Peabody Museum" - de M. V. and Dorothy Brewington, publicado em 1981 - como tendo sido ofertas ao museu por Richard B. Holman em 1956. A autoria é atribuída a "TA" e datam de cerca de 1887.
TA poderá ser referência a Thomas Allom (1804-1872) uma hipótese que inviabiliza a data aproximada referida no catálogo (ca. 1887). 
Richard B. Holman (1903-1983) foi um conceituado negociante de gravuras raras e desenhos em Boston, colaborador próximo de curadores do Peabody Museum (agora Peabody Essex Museum), como Marion Brewington, que organizou as coleções de arte marítima do museu.