Mostrar mensagens com a etiqueta anos 20. Mostrar todas as mensagens
Mostrar mensagens com a etiqueta anos 20. Mostrar todas as mensagens

terça-feira, 22 de setembro de 2026

Centenário do Sporting Clube de Macau: 1926-2026

Na edição de 11.9.2926 o jornal A Pátria informava que "Em portaria provincial, datada de 9 do corrente, foram aprovados os estatutos dêste novo clube. Os nossos parabens". Seria a 25.ª filial do Sporting Clube de Portugal. Da primeira direcção fizeram parte Henrique Nolasco da
Silva (Presidente), Francisco Borralho e Ângelo do Rosário.
A Portaria nº 172 tem a data de 8 de Setembro e foi publicada no dia seguinte no Boletim Oficial do governo da Província de Macau.
O Governador interino da Província de Macau, ouvido o Conselho Executivo, aprova, para os devidos efeitos, os Estatutos da Sociedade Desportiva «Sporting Club de Macau», que baixam assinados pelo Secretário Geral do Govêrno e fazem parte integrante desta portaria. Cumpra-se. Palácio do Govêrno em Macau, 8 de Setembro de 1926. — O Governador interino, Hugo de Lacerda. Estatutos da Sociedade Desportiva «Sporting Club de Macau» CAPÍTULO I Fins e organização 1. A sociedade «Sporting Club de Macau», organizada com o fim de desenvolver a educação física dentro desta Colónia, proporcionará aos seus sócios toda a instrução ginástica, quer individual ou colectiva, quer aplicada, e bem assim a prática de todos os jogos e desportos físicos. 2. A parte de educação física será dividida em quatro secções, regidas por um regulamento interno: 1.ª Secção — Ginástica Suéca e aplicada.
2.ª Secção — Desportos atléticos.
3.ª Secção — Jogos e desportos individuais e colectivos.
4.ª Secção — Náutica. 3. A autoridade soberana da sociedade reside na assemblea geral, reunida conforme as prescrições dêstes estatutos. (...)
Imagem criada por IA de acordo com regulamentos de 1926

De acordo com os estatutos (Cap. 17 e 18) as bandeiras e equipamentos do clube ("pavilhão e uniformes") eram:
Os pavilhões serão os seguintes:
N.º 1 — Do Club — Verde, rectangular, tendo no centro o leão do Club inferiormente semi-circundado pelas iniciais S. C. M. em branco. 
 N.º 2 — Dos teams de foot-ball — Rectângulo branco com duas faixas verdes em diagonal, tendo no meio do rectângulo, junto à tralha, o leão do Club. 
 N.º 3 — Da equipe de desportos atléticos e jogos — Rectângulo branco com o leão do Club junto à tralha. 
 § 1.º O pavilhão n.º 1 será hasteado na sede da sociedade e nos campos onde o Club concorra, em dias de festa nacional, domingos e dias de assemblea geral. Será hasteado em funeral, na sede, durante três dias, quando falecer algum sócio. 
 § 2.º Os pavilhões n.º 2 e 3 serão hasteados sempre e onde oficialmente esteja representado o Club, quer em provas de foot-ball, quer em desportos atléticos, quer em jogos individuais ou colectivos.
Imagem criada por IA de acordo com regulamentos de 1926

18. Os uniformes do Club serão: 
 1. Para foot-ball — Camisa de algodão com frente e costas alternadamente partida em duas metades, uma verde e outra branca.
colarinho e punhos pretos, bolso preto no lado esquerdo, e neste o leão do Club semi-circundado pelas iniciais S. C. M. Calção preto e meias pretas com o canhão verde e branco. 2.º Para tennis, cricket e similares — Calça, meias, sapatos e camisa branca tendo sobre o bolso o leão do Club. Quando se jogar com sweter deverá esta ser branca, sem gola, com fecho verde e preto e o leão no peito. 
3.º Para desportos atléticos, remo, ciclismo, etc. — Calção preto e camisola branca de mangas curtas e sem gola, decotada e debroada a verde, tendo no peito o leão do Club. 
4.º Para natação — Maillot preto debroado de branco tendo no peito o leão do Club semi-circundado pelas iniciais S. C. M., tudo em branco igualmente. 
 49.º O distintivo do Club será um leão em campo verde circundado por uma faixa negra com as iniciais S. C. M. 
 50.º O uso dos uniformes é obrigatório em todas as provas oficiais, em dias de festa do Club e sempre que a direcção o entenda conveniente. 
 51.º É absolutamente vedada a prática de qualquer sport, sem o uniforme apropriado. 
 52.º Os directores, membros da comissão revisora de contas, membros da assemblea geral, directores técnicos e médico, e bem assim os capitães de equipe e dos teams, usarão sobre o leão, quando na efectividade, uma estrela de cinco bicos, em ouro ou dourada.
Bandeira do "Foot-ball" segundo os regulamentos
ilustração criada por IA não garantido ser totalmente fiel ao original

Pouco mais de um mês depois, a 24 de Outubro, era "inaugurado solenemente este novo Clube que tem a sua sede na Av. Conselheiro Ferreira de almeida nº 27", segundo notícia do jornal A Pátria a 22 de Outubro de 1926.
PS:
Sugiro a leitura do artigo publicado no jornal Ponto Final de 22.9.2026 sobre o centenário do SCM. Quando joguei nos júniores do SCM no final da década de 1980 o equipamento já tinha as tradicionais listas horizontais verdes e brancas. Eram camisolas de tecido 'pesado' provavelmente da década de 1960/70. Curiosamente este equipamento surgiu também 1926. Em finais desse ano, ao assistir a uma partida de râguebi em que participava o Racing de Paris, Salazar Carreira ficou tão impressionado com as camisolas usadas por esta equipa, que levou uma para Lisboa e adaptou-a às cores do Sporting Clube de Portugal, fundado em 1906.

segunda-feira, 21 de setembro de 2026

Postal da "Se Cathedral" enviado para Cuba em 1923

Na imagem um postal ilustrado da Sé Catedral de Macau durante o início da década de 1920, exibindo a fachada lateral e a torre sineira equipada com o seu relógio. A estrutura representada corresponde à versão neoclássica do edifício edificada em meados do século XIX, anterior à remodelação que teve lugar em 1937 e que alterou em parte a traça exterior. Na margem inferior da imagem, uma legenda impressa a vermelho "Se Cathedral, Macao".
Do ponto de vista da história postal, atente-se à clareza das marcas de circulação. No canto inferior direito encontra-se afixado um selo de 6 avos obliterado pelo carimbo octogonal do CORREIO CENTRAL - MACAU com a data de 23 de Agosto de 1923. A acompanhar a estampilha, destaca-se um carimbo circular de trânsito e chegada com a inscrição HABANA, CUBA, datado de 22 de Setembro de 1923, o que comprova que esta correspondência demorou exactamente um mês a viajar entre Macau e as Caraíbas.

sexta-feira, 18 de setembro de 2026

"Primeira carreira entre Macau e Hong Kong" do Sai On

A Tung On Steamship Company foi uma importante empresa de navegação marítima criada em Hong Kong na década de 1920, tendo a sede em Queen's Road Central e um cais próprio na zona de Sheung Wan. Em 1925 a companhia operava navios a vapor emblemáticos no transporte de passageiros e mercadorias, como o SS Tung On e o SS Sai On, que asseguravam as rotas comerciais regionais entre Hong Kong, Cantão e Macau. A 25 de Julho de 1925 era publicado este anúncio na imprensa macaense dando conta do início da "Primeira carreira entre Macau e Hong Kong" do Sai On.
Anúncio de 25.7.1925

A grande rival de capitais britânicos nesta rota era a prestigiada Hongkong, Canton & Macao Steamboat Company, fundada ainda no século XIX, que dominava o transporte regular de passageiros e carga com navios a vapor emblemáticos como o SS Fatshan, o SS Sui An e o SS Kinshan. Ao lado desta, gigantes coloniais britânicos como a China Navigation Company (da Swire) e a Indo-China Steam Navigation Company (da Jardine Matheson) estendiam as suas vastas redes comerciais costeiras e fluviais a estas mesmas águas.
A Tung On Steamship Company operou de forma independente até ao início da Segunda Guerra Mundial, momento em que a sua frota foi destruída ou confiscada devido à invasão japonesa. O fim da atividade da empresa deu-se em Dezembro de 1941, durante a Batalha de Hong Kong. Para evitar que os navios caíssem nas mãos das forças japonesas que avançavam sobre a colónia britânica, o principal navio da companhia, o SS Tung On, foi afundado deliberadamente. O outro navio icónico da frota, o SS Sai On, acabou por sobreviver à guerra, mas o negócio original da Tung On desmoronou-se com o conflito. Capturado durante a ocupação japonesa e rebaptizado como Sean Maru, o Sai On continuou a navegar. Já depois do fim da segunda guerra mundial, após um grave incêndio em 1947 a carcaça foi comprada pela companhia Tai Yip Co. Ltd. e o navio foi inteiramente restaurado e modernizado nos estaleiros de Cheoy Lee regressando à rota Macau-Hong Kong em 1950 com o nome de SS Tak Shing. Em 1968 voltaria a mudar de nome - Tung Shan - e em 1974 foi vendido para sucata.

terça-feira, 15 de setembro de 2026

"Casas de habitação para funcionários públicos na Ilha da Taipa"

As actuais Casas-Museu da Taipa são um conjunto de cinco moradias construídas em 1921 ao longo da Avenida da Praia para residência dos funcionários superiores das ilhas.

O anúncio para a "Construção de casas de habitação para funcionários públicos na Ilha da Taipa" por "arrematação em Hasta Pública" foi publicado no B. O. de 15 de Janeiro de 1921.

Foto publicada no Anuário de 1927

Depois de obras de restauro nas décadas de 1980 e 1990 foram inauguradas em Dezembro de 1999 como casas-museu: Casa Macaense, Casa das Ilhas, Casa das Regiões de Portugal, Casa de Exposições e Casa de Recepções. Em 1992 foram classificadas como património arquitectónico de valor cultural

segunda-feira, 31 de agosto de 2026

"Poema do Camilo Pessanha"

No ano em que se celebra o centenário da morte de Camilo Pessanha...
Capa da primeira edição de
CLEPSYDRA / POÊMAS de Camillo Pessanha
 Edições Lusitania, 1920
Única obra poética publicada em vida do autor.

佩桑哈,卡米洛。
CLEPSYDRA / POÊMAS,里斯本,Edições Lusitania,1920年
第一版
非常罕见的版本,是作者生前唯一出版的诗作。
Em cima, um anúncio publicado em Maio de 1922 no jornal de Macau O Liberal. Embora não seja legível o livro estava à venda na Firma Tantino (agência comercial) localizada no Largo do Senado.

quinta-feira, 27 de agosto de 2026

"Yu Yee Tea": anúncio de 1925

Anúncio de 1925, em português, do "Yu Yee Tea" (ou "Yu Yee Chá"), produto comercializado por Lam Kut Cheong, com sede em Hong Kong, e recomendado para vários males como diarreia, cólicas e dores de cabeça. Inclui uma declaração (cópia) assinada por A. M. da Silva a atestar os bons efeitos do chá.
O texto começa por apresentar o produto como uma cura certa para uma vasta e diversa lista de enfermidades, que inclui diarreia, cólicas, indigestão, constipação, febre, dores de cabeça, dores de ventre e indisposição geral. Este tipo de publicidade era muito característica dos elixires e remédios patenteados da época, que prometiam resolver múltiplos problemas de saúde antes da introdução das regulamentações farmacêuticas modernas.
Para facilitar a compra, o anúncio lista vários estabelecimentos comerciais situados na prestigiada Rua San Malo, em Macau — nomeadamente as lojas Chip Seng, Wa Si e Lam Cho —, demonstrando que, embora a firma produtora Lam Kut Cheong estivesse sediada no número 23 da Gage Street, em Hong Kong, o seu mercado alvo estendia-se fortemente à colónia vizinha. A referência a San Malo é muito curioso já que se trata da transliteração fonética do nome "Avenida de Almeida Ribeiro" em cantonense.
Como estratégia de validação, a segunda metade do anúncio exibe a cópia de uma carta de recomendação dirigida à firma, assinada por A. M. da Silva, residente na Wanchai Road, número 177, também em Hong Kong. Nesta declaração o autor afirma ter tido o prazer de comprovar os maravilhosos efeitos do Yu Yee Chá no alívio de indigestões e dores, recomendando-o como um tónico indispensável que deve achar-se sempre nas casas de família devido à sua eficácia e pronto alívio. Silva destaca ainda o produto como o melhor substituto para o vulgarmente chamado "Chá-Patrício" - uma provável referência a mezinhas tradicionais ou chás caseiros fabricados localmente por compatriotas, garantindo que o Yu Yee Tea possui um efeito muito mais rápido. O uso de um testemunho com apelido de matriz portuguesa pode considerar-se uma tática comercial inteligente para atrair e conquistar a confiança da comunidade lusófona em Macau. Do ponto de vista linguístico, o documento preserva fielmente a ortografia da época, visível em grafias antigas como "diarrhea", "colica", "commumente" e "effeito".
O produto era também conhecido como Yee Yee Tong ou Er Yee Tea / 二如亭 / 二如大藥房.

quinta-feira, 20 de agosto de 2026

O fim da iluminação pública a petróleo

No "Relatório da vereação da Câmara que funcionou durante o biénio de 1924-1925" (Leal Senado), fica-se a saber que só nesses anos terminou a "iluminação a petróleo" passando a iluminação pública a ser exclusivamente "eléctrica".

"Quando a nossa vereação tomou conta da administração municipal, existia em Macau a iluminação eléctrica juntamente com a iluminação a petróleo. Esta última era incompleta, não só porque as lâmpadas eram dum poder iluminante muito reduzido, como também produziam um aspecto desagradável os postes de entena, na sua maioria carcomidos e em misérrimo estado de conservação.
Resolveu a nossa vereação substituir a iluminação a petróleo por iluminação eléctrica, instalando-se para isto as necessárias lâmpadas eléctricas.
Além disto foi instalado um grande número de lâmpadas para iluminar as novas vias públicas.
Se bem que existam ainda algumas vias que carecem dum reforço de iluminação, contudo pode considerar-se, dum modo geral, que a cidade está presentemente bem iluminada.
A vereação não descurou também a questão do alinhamento dos postes, conseguindo, por acôrdo com a Direcção das Obras Públicas, Capitania e Companhia da Luz Eléctrica e Telégrafo, suprimir um grande número de postes desnecessários, na Rua da Praia Grande, e colocando os outros debaixo dum certo alinhamento acabando assim com o mau aspecto de uma linha sinuosa de postes, alguns dos quais colocados quási no meio da rua.
Ficou combinada, por preço insignificante, a remoção dos postes da Estrada Conselheiro Ferreira de Almeida, para uma nova avenida, trabalho que não chegou a executar-se por falta do alinhamento da nova estrada. Logo que tal alinhamento fôr dado pela Direcção das Obras Públicas, o trabalho poderá imediatamente ser executado, acabando-se assim com a anormalidade de postes, no meio duma estrada estreita como é a referida. (...)

Aspecto do final da rua da Praia Grande na década 1920
Iluminação pública em 1º plano à direita
Ao fundo a 1ª versão do que é hoje uma biblioteca pública no Jardim S. Francisco

sábado, 20 de junho de 2026

"Banhos de mar" há um século

Na edição de 23 de Junho de 1926 o jornal "A Pátria" noticiava a instalação de "barracas de banho" no istmo da Ilha Verde.

Banhos de mar
Por iniciativa da Direcção do Clube de Macau, foram levantadas no istmo da Ilha Verde algumas barracas de banho de que se poderão servir os sócios que desejem exercitar-se na arte natatória. O local que nas marés cheias chega a atingir a altura de 6 metros presta-se admiravelmente para êsse fim. Ao lado das barracas foram dispostas algumas mesas e cadeiras que poderão vir a servir para jogar, tomar chá ou refrescos, etc..
O bar instalado provisoriamente na barraca terá instalações melhores se os sócios com a sua presença tornarem o local mais animado. É de esperar, pois, que os sócios e suas famílias aí acorram a passar um bocado da tarde para que se não diga que em Macau tôdas as boas iniciativas morrem.
Na época existia outra 'zona balnear' na Areia Preta. Uma notícia do mesmo jornal a 25 de Julho de 1927 refere:
Praia de banhos
Tem estado cada vez mais concorrida a praia de banhos da Areia Preta, achando-se já ali construidas várias barracas de vários clubes e de famílias particulares, vendo-se tôdas as manhãs e tardes cavalheiros e senhoras praticando o bom exercício de natação.
Informam-nos que com isto muito vêm a perder as mesas do jogo predilecto "ma-cheok".

quarta-feira, 17 de junho de 2026

Loja "A Portugueza" na Rua do Campo

No final do século 19 e início do século 20 a Rua do Campo e a Rua Central eram as principais artérias comerciais da cidade. Refiro-me aos negócios pertencentes a ocidentais, nomeadamente portugueses, já que a zona do bazar era onde se concentrava a maioria do comércio, deste caso dominado pelos chineses. 
No caso da Rua do Campo imperavam as mercearias e botequins onde os principais atractivos eram a venda de produtos portugueses, nomeadamente vinhos correntes, licorosos e enlatados.
Na imagem acima a "Loja A Portugueza" no número 50 da Rua do Campo. Em baixo um anúncio de Abril de 1911 publicado no jornal A Pátria.

Atenção !
LOJA "A Portugueza"
RUA DO CAMPO N.º 50, MACAU.
—+:0:+—
Achando-se o proprietario d'este estabelecimento em condições de competir com qualquer outro do mesmo genero, convida o respeitavel publico a não fazer qualquer acquisição sem primeiro confrontar as qualidades e preços dos generos porque aqui se vendem.
N'este estabelecimento se encontra á venda um grande sortimento de artigos tanto nacionaes como extrangeiros.
— PREÇOS SEM RIVAL —
Francisco dos Santos Ferreira.

Na Rua do Campo havia ainda no início do século 20 - entre outros estabelecimentos - a "Loja Alto Douro" (no número 22), propriedade de António Martins da Silva que garantia que "n'esta rua não há quem venda mais barato" e o "Novo Botequim Portugal" (no número 36) de João José Pedro.

PS: Note-se que a Av. de Almeida Ribeiro só ficou concluída cerca de 1918 e só a partir de então passou a constituir-se com principal artéria comercial de Macau, pela sua extensão e pelo facto de ter comércio dos dois lados da avenida.

quinta-feira, 4 de junho de 2026

Aspectos do Cais dos Vapores no primeiro quartel do século 20

Nesta fotografia dos primeiros anos do século 20 o antigo Largo da Caldeira já surge ocupado nomeadamente por um edifício onde na fachada está uma anúncio de grandes dimensões:
"COLGATE & CO. / NEW YORK / U.S.A. / ESTABLISHED 1806"
A azáfama neste troço da Rua das Lorchas é notória, nomeadamente o elevado número de jerinxás. Entre os vários elementos arquitectónicos visíveis destaco uma vista parcial da torre Prestamista na Rua do Bocage.

O topónimo Largo da Caldeira já não existe mas ficaram a Rua e a Travessa da Caldeira que permite situar este local nos dias de hoje. O prédio do anúncio da Colgate corresponde à actual Travessa 5 de Outubro.
Sendo uma zona de muito movimento em redor existiam vários restaurantes, casas de chá, hospedarias, pensões, hotéis, etc...
Junto ao muro inúmeras sampanas, pequenas embarcações vitais para a vida comercial e o transporte de mercadorias no porto interior

quinta-feira, 28 de maio de 2026

"Revolução em Portugal": Maio de 1926

Há 100 anos um golpe militar derrubava a 1.ª República em Portugal seguindo-se a instauração da ditadura militar e abrindo caminho ao Estado Novo. O principal líder dos revoltosos, foi Manuel Gomes da Costa (1863-1929).
Em Macau o jornal A Pátria dá conta dos eventos na edição de 31 de Maio de 1926 numa breve citando um telex de Lisboa com a data de 28 de Maio:
"À última hora
LISBOA, 28 — As comunicações com o interior estão cortadas.
O general comandante dos revoltosos em que estão incluídos a 8.ª divisão, a divisão do Porto e outras unidades declarou numa proclamação que vai marchar sôbre Lisboa."
Na edição de de Junho o jornal publica na primeira página uma série de artigos sobre os acontecimentos em Portugal: 
A revolução em Portugal
Cai o ministério
Lisboa, 29. — Os chefes da revolução foram ter com o sr. Presidente da República a quem pediram que formasse um Govêrno extra-parlamentar e citasse os leaders dos partidos políticos. Num comunicado, o Govêrno declara que reina absoluto sossêgo em todo o país. Os elementos revoltosos compõem-se apenas de uma divisão aquartelada em Braga e comandada nessa cidade pelo General Gomes da Costa e no Porto pelo General Peres.

Ainda na primeira página do jornal pode ler-se:
Ditadura militar em Portugal
Um govêrno sem políticos
LONDRES, 31 — O Correspondente do Daily News em Lisboa diz que o movimento revolucionário se estendeu por todo o país e que o Presidente da República conferenciou com os delegados revolucionários, consentindo em que êles governem o país.
LISBOA, 31 — A revolução acabou pelo estabelecimento de uma ditadura militar, a quinta na Europa, existindo as outras na Itália, Espanha, Grécia e Polónia. A revolução fez-se quási sem disparar um tiro. Num comunicado de sábado o Govêrno dizia que estava senhor da situação mas afinal os revolucionários marcharam sôbre Lisboa, não podendo o Govêrno opor-se-lhes por não poder dispor de transportes que lhe foram negados pelas companhias do caminho de ferro. Numa proclamação ao povo português, o General Gomes da Costa diz que o movimento revolucionário teve por fim salvar o país da ruína a que o levavam os políticos. 
Mais tarde — A revolução triunfou e o Presidente da República encarregou o chefe das fôrças revolucionárias, Comandante Mendes Cabeçadas, de formar govêrno. O comandante Cabeçadas aceitou e tomou conta de tôdas as pastas provisoriamente. Entrevistado, o sr. Cabeçadas declarou que o novo Govêrno seria composto de militares e civis sem partidos e de perfeito acôrdo com os delegados das divisões militares.
Manuel Firmino de Almeida Maia Magalhães era então o Governador (até 1 de Agosto de 1926). Seguiu-se Hugo de Carvalho de Lacerda Castelo Branco que assumiu interinamente o cargo entre 1 de Agosto e 8 de Dezembro de 1926. Antes, em Julho, já tinha sido nomeado Artur Tamagnini de Sousa Barbosa, que assumiu o cargo efectivo a 8 de Dezembro de 1926.

Na última página uma notícia informa que a informação oficial chegou ao governador de Macau no dia 31 de Maio:
Revolução em Portugal
Telegrama recebido pelo Governo de Macau, ontem de manhã
LISBOA 31-5-1926
Governador Macau
800 Circular virtude movimento militar Ministério demitiu-se ponto. Está sendo organizado novo Ministério que, comunicarei ponto. Sossêgo em todo País.
Parte da infância de Gomes da Costa e das suas irmãs, Lucrécia (1869 - ?) e Maria Amália (1871-1953), foi passada em Macau, onde o pai, recentemente promovido a tenente, se encontrava destacado.
A carreira militar de Gomes da Costa progrediu de forma fulgurante: tenente (novembro de 1889); capitão para o Ultramar (julho de 1893); capitão (janeiro de 1898); major (fevereiro de 1908); tenente-coronel (junho de 1912); coronel (junho de 1914); general graduado (maio de 1917) e marechal (setembro de 1926).
De 1893 a 1916, viveu quase ininterruptamente na Índia e em África, ao serviço do então Exército Colonial. Esteve em praticamente todas as colónias, em missões de combate, reconhecimento, inspeção e administração.
Em 1922 foi nomeado inspector Extraordinário às Colónias do Oriente e nessa qualidade esteve em Macau e no Estado da Índia. Chegou a Macau a 8 de Outubro de 1922 acompanhado do filho Carlos Nunes Gomes da Costa, como Secretário, e do Tenente Salgueiro Rego, ajudante de campo, para inspeccionar os serviços militares locais.
O jornal O Liberal informa na edição desse dia:
"É esperado hoje em Hongkong o sr. general Gomes da Costa, tendo ido áquela colonia esperalo o sr. capitão Serrão dos Reis."
Na edição de 12 de Outubro de 1922 o mesmo jornal cita o jornal O Mundo:
"O sr. general Gomes da Costa — escreve O Mundo —, cuja larga folha de serviços lhe grangeou dentro e fóra do exercito uma situação de alto prestigio, é uma das mais distintas figuras militares do nosso pais. Cooperador de Mousinho, em Moçambique, onde a sua bravura tantas vezes teve ocasião de se assinalar, o sr. Gomes da Costa tinha já um honroso e brilhante passado militar quando, com a nossa entrada na Grande Guerra, mereceu ao governo, que então geria os negocios publicos, o encargo de comandar na frente da batalha da Flandres, no sector português, o comando de uma divisão. A maneira como se houve nesse posto de enormes responsabilidades, sabem-no toda a gente e, em especial, os heroicos soldados que por ele tinham, a par de uma funda admiração, uma grande estima. Nas vesperas de uma hora, simultaneamente tragica e sublime, do 9 de Abril, o sr. general Gomes da Costa foi ainda o patriota veemente que, em tão sucessivos quanto baldados apelos, soube frizar ao governo de Sidonio Pais a critica situação das forças sob o seu comando, procurando chamar aos seus postos todos aqueles que deviam estar na linha de combate e, todavia, não estavam. A este respeito, o seu livro A Batalha do Lys, lançado á publicidade com invulgar desassombro, constitue um eloquente depoimento do seu caracter, do seu zelo militar e do seu ardente patriotismo. A missão que lhe foi recentemente cometida e que hoje o leva para longe de Portugal é mais uma distinção — e uma distinção merecida. Saudamo-lo, por isso, na certeza de que, fazendo-o, saudamos numa das suas mais brilhantes figuras o heroico exercito que se bateu na Africa e na Flandres."
Depois de um largo período de tempo em Macau - recheado de peripécias - Gomes da Costa regressaria a Lisboa em 1924.
Ficou historicamente conhecido por liderar a Revolução de 28 de Maio de 1926 e por exercer o cargo de 10.º Presidente da República Portuguesa por um curto período de tempo.

sexta-feira, 22 de maio de 2026

Enciclopédia "The Countries of the World"

Na imagem parte da página 1383 de uma enciclopédia geográfica famosa do início do século XX chamada "Countries of the World", de Robert Brown (Ed. Cassel), numa reedição feita entre 1920 e 1923- 
Sob o título "Three-Masted Junk and a Sampan off Macao" uma legenda acompanha a fotografia de John Bushby.
"The large vessel is a junk, and the smaller white-sailed vessel is a sampan. Junks are the ordinary craft of the Chinese coastwise trade, and are rigged with lug sails, often made of matting, and may have one, two, or three masts. Sampans are the usual river craft, being characterised by a matting awning over the after-part, while they can be sailed or worked with a single oar over the stern."

Tradução/Adaptação:

Junco de três mastros e uma sampana ao largo de Macau
A embarcação grande é um junco, e a embarcação menor de vela branca é uma sampana. Os juncos são as embarcações comuns do comércio costeiro chinês e são equipados com velas de carangueja (tipo lug), frequentemente feitas de esteira, podendo ter um, dois ou três mastros. As sampanas são as embarcações fluviais habituais, caracterizadas por um toldo de esteira sobre a parte traseira, e podem ser navegadas à vela ou operadas com um único remo na popa.

segunda-feira, 27 de abril de 2026

Serviço de Correios no Leal Senado

No início da década de 1920 a Estação dos Correios que existia num pequeno edifício de apenas um piso construído no final do século 19 junto ao Palácio das Repartições - onde está hoje o Hotel Metrópole - foi transferida para uma parte do rés-do-chão do edifício do Leal Senado.
Do lado direito da fachada do edifício podia ler-se em português, francês e inglês:
ESTAÇÃO CENTRAL DOS CORREIOS E TELEGRAFOS / BUREAU DE POSTE CENTRAL / CENTRAL POST OFFICE. Pode também ver-se uma pequena caixa postal receptáculo da correspondência. Destaco ainda o facto de ao centro do edifício do estar instalado um relógio.

Ao lado ainda não tinha sido construído o edifício do Teatro/Cinema Apollo. O novo edifício dos CTT seria construído em frente entre 1929 e 1931 sendo inaugurado no final desse ano.
A província de Macau faz parte da União Postal Universal a que aderiu em 1 de Julho de 1877. Além disso a província mantém acordos particulares internacionais com a República da China, Colónia britânica de Hongkong e Filipinas e serviço especial com o Japão sôbre a permutação de fundos, por serem os países que mais interessam à vida da colónia pela sua proximidade, entretendo-se assim relações mais íntimas, para o melhoramento dos serviços nas permutações postais.
A sua organização interna de acôrdo com as leis internacionais e as exigências que a civilização moderna impõe, data de 11 de Dezembro de 1902, em que foram regulamentados os serviços postais de todas as colónias portuguesas.
Porém sómente em 1912, isto é, dez anos passados até esta data, é que a pouco e pouco se tem tornado efectiva essa organização.
Na capital da província acham-se estabelecidas três estações urbanas.
A Central de Macau onde se acha instalada a Secretaria da Repartição Superior dos Correios e que é o centro principal de todo o movimento postal da Colónia. Está situada no Largo do Leal Senado no prolongamento da Avenida Almeida Ribeiro, a maior artéria da cidade, instalada ainda imprópriamente numa das dependências do dito estabelecimento municipal do Leal Senado da Câmara de Macau, na parte europeia da cidade, próxima da maioria das repartições do Estado. Está-se tratando da sua instalação em edifício apropriado, havendo vários projectos e a devida autorização para a sua construção.
Temos a Estação das Portas do Cêrco, que serve principalmente de serviço de trânsito postal atravez a fronteira, sendo do lado português servida por estafetas nacionais que entregam e recebem todo o tráfico postal permutado entre a China e entre esta grande República e Hongkong.
E por último temos a Estação de Ship-Seng, situada quási no embarcadouro do cais dos vapores de Hongkong. Esta estação apesar de ter apenas sido aberta à exploração em Abril de 1919, é hoje a segunda estação postal da província pelo seu movimento e está destinada a ser um dos grandes centros de tráfico postal pela sua grande importância no tráfico marítimo entre os portos de Macau e os da China e Hongkong, servindo não só grande parte da população marítima como a comercial que, pelas condições da sua excelente situação, dela se aproveitam para as suas rápidas transações. São ali aceites correspondências ordinárias para a China e Hongkong até 15 minutos antes da partida dos vapores e objectos registados, à mesma hora, para Hongkong e Cantão. (...)
Excerto (apenas texto) do Anuário de Macau 1921.

segunda-feira, 30 de março de 2026

Antes e agora: antiga Escola da República nº 3 na Taipa

 100 anos separam estas imagens 

Nota: as primeiras escolas públicas nas ilhas da Taipa e de Coloane remontam a 1882

terça-feira, 3 de março de 2026

Instalações da Estação Radiotelegráfica de Dona Maria II

A Estação Radiotelegráfica de Dona Maria II representa o início da era das telecomunicações modernas em Macau. Inaugurada formalmente a 12 de Junho de 1924, a estação foi instalada no topo da colina de Dona Maria II - junto ao forte com o mesmo nome - para garantir uma melhor propagação das ondas de rádio. 

Inicialmente operada pela Radio Communication Co. do Oriente, a sua entrada em funcionamento permitiu a desactivação da antiga estação de São Francisco, centralizando as comunicações sem fios do território num equipamento mais avançado para a época.
Um dos momentos mais emblemáticos da sua história ocorreu precisamente no dia da inauguração, quando o Governador de Macau, Rodrigo Rodrigues, utilizou as instalações para comunicar com os aviadores portugueses Brito Paes e Sarmento de Beires. Os pilotos encontravam-se então em Kowloon (Hong Kong), na fase final da histórica travessia aérea entre Lisboa e Macau, e a ligação rádio serviu para coordenar a recepção triunfal dos aviadores no território. 
 Torres de Transmissão da Estação Radiotelegráfica Dona Maria. 
Fotógrafo Mei Iun 

Pouco tempo depois, em Fevereiro de 1926, o Governo de Macau adquiriu formalmente todos os equipamentos e antenas da empresa privada, transformando a estação num serviço público essencial.

Ao longo dos anos 30, a estação foi o pilar da radiodifusão local, servindo de base para o que viria a ser o Rádio Clube de Macau. O local não era apenas um centro técnico, mas também um ponto de importância estratégica e militar. A infraestrutura sofreu danos severos durante a Segunda Guerra Mundial, quando a fortaleza foi bombardeada pela aviação norte-americana em Janeiro de 1945, num ataque que visava alvos estratégicos na região. Actualmente a fortaleza é um monumento preservado e um ponto turístico.

domingo, 1 de março de 2026

1 de Março de 1926

Há 100 anos, a 1 de Março de 1926, uma segunda-feira, morria na sua casa na Rua da Praia Grande às 8 da manhã, o poeta português Camilo Pessanha (1867-1926), que, em Macau, foi durante muitos anos advogado, juiz, professor do liceu e coleccionador de obras de arte.
Duas horas depois parte substancial da sociedade macaense, ainda sem saber da notícia, comparecia para a inauguração do edifício sede do BNU, muito perto da casa onde vivia Pessanha. A cerimónia contou com a presença do governador de Macau, Maia de Magalhães, do bispo D. José da Costa Nunes, "e tudo quanto Macau conta de mais distinto", segundo uma notícia do jornal "A Pátria".
Imagem criada por IA

PS: Existem em arquivo várias publicações sobre os dois temas - basta utilizar o campo de pesquisa - e em breve publicarei mais.

sexta-feira, 13 de fevereiro de 2026

Ano Novo chinês em 1926

Há 100 anos o ano novo chinês teve início a 13 de Fevereiro. Era o Ano do Tigre - também de fogo. Nesse dia um grupo de turistas passou pela cidade e registou para a posteridade o momento.
Juncos ancorados no Porto Interior na década 1920

Notícia do jornal A Pátria a 12 de Fevereiro de 1926:
Ano Novo Chinês
Grande numero de licenças para o jôgo de clu clu têm sido passadas na Secretaria Geral do Govêrno, cêrca de mil, vendo-se grande movimento nas vias públicas onde se encontram muitos estabelecimentos com artísticas decorações e reclamos engraçados.
A festa do Ano Novo representa para os chineses a mais importante e, por êsse facto, usam êles nestes dias os seus melhores vestidos o que dá um aspecto muito interessante ao movimento da cidade, especialmente nas grandes artérias, sendo o número principal desta festa o jôgo de clu clu.
Atraída por êstes tradicionais costumes, também a população não chinesa tem por hábito freqüentar os lugares de jôgo nestes dias, fazendo as suas paradazinhas, as quais por vezes atingem grossas quantias, pelo que, se tornam muito interessantes as suas fisionomias quando voltam para casa, notando-se vulgarmente mais tristeza que alegria, mas... lá está o ditado «Quem corre por gôsto não cansa.»

segunda-feira, 9 de fevereiro de 2026

Picturesque Macao: 1926

Há 100 anos era publicado "Picturesque Macao", livro da autoria de "J. Braga" (Jack M. Braga/José Maria Braga) com edição de Henrique Nolasco da Silva e impressão da Livraria Po Man Lau (Largo do Senado, 12). 
Foi escrito em inglês para atrair o público de Hong Kong e turistas que visitassem o território durante um certame que estava em preparação. A obra é ainda valorizada pelas fotografias da época que registam locais emblemáticos como a Porta do Cerco, a Gruta de Camões ou as Ruínas de S. Paulo.
Excerto:
Introduction
Actuated solely by a desire to provide an illustrated handbook with, if I may modestly say so, interesting historical references, I set myself somewhat over a year ago to collect from many sources the meagre notes which are published this day.
I claim nothing of originality in the work: it was first suggested to me by Mr. Charles Gerken, at that time editor of the “Hongkong Sunday Herald”, for publication in his paper, and I have leisurely sought for details regarding the romantic nooks of Picturesque Macao.
Early in August the publishers of this work requested me to furnish the letterpress for a number of pictures intended for exhibition at the Macao Industrial Fair in October, 1926. Though loth to present for public gaze notes but hastily assembled and necessarily incomplete, I decided to offer them for publication, despite inaccuracies and shortcomings, feeling that their deficiences would be overlooked in the practical purpose to which the writer hopes his little work of love will be applied.
There are places which once seen are never forgotten and Macao is one of them. To the jaded spirit of an over-worked body and the tortured nerves of the tired business man Macao offers its priceless possession—an unhurried quiet—an atmosphere of peace.
Tradução/Adaptação:
Introdução
Movido unicamente pelo desejo de fornecer um guia ilustrado com referências históricas interessantes — se assim posso dizer modestamente —, propus-me, há pouco mais de um ano, a reunir de diversas fontes as parcas notas que são publicadas hoje.
Não reivindico qualquer originalidade nesta obra: ela foi-me sugerida pela primeira vez pelo Sr. Charles Gerken, na altura editor do "Hongkong Sunday Herald", para publicação no seu jornal, e tenho procurado pausadamente detalhes sobre os recantos românticos da Macau Pitoresca.
No início de Agosto, os editores desta obra solicitaram-me que fornecesse o texto para uma série de fotografias destinadas a serem exibidas na Feira Industrial de Macau em Outubro de 1926.* Embora relutante em apresentar ao olhar do público notas reunidas apressadamente e necessariamente incompletas, decidi oferecê-las para publicação, apesar das imprecisões e falhas, sentindo que as suas deficiências seriam relevadas perante o propósito prático ao qual o escritor espera que o seu pequeno trabalho de amor seja aplicado.
Existem lugares que, uma vez vistos, jamais são esquecidos, e Macau é um deles. Ao espírito exausto de um corpo sobrecarregado e aos nervos torturados do homem de negócios cansado, Macau oferece a sua posse mais valiosa: um sossego sem pressas — uma atmosfera de paz.
Picturesque Macau
by J. Braga. Edited by Henrique Nolasco Da Silva
Printed and Published by
Po Man Lau, 1926

* A Exposição Industrial e Feira de Macau realizou-se de 7 de Novembro a 12 de Dezembro de 1926 numa vasta área das várzeas de Mong Ha (perto do Templo de Kun Iam Tong) atraindo 290.000 visitantes. Idealizado no governo de Carlos da Maia ocorreu já no governo de Maia Magalhães.

sábado, 27 de dezembro de 2025

Plano de arruamentos "na parte norte da Cidade" em 1921

Excerto do "Plano Geral dos arruamentos e das novas avenidas a construir na parte norte da cidade de Macau", apresentado pelo director das Obras Públicas, coronel Adriano Augusto Trigo, ao Conselho Técnico na sessão de 15 de Setembro de 1921.

Duas imagens da zona - Av. Conselheiro Ferreira de Almeida junto ao Tap Seac - não incluídas no documento referido. Pode ver-se o mesmo edifício numa fachada lateral e na fachada principal; em cima na década de 1940 e em baixo na década 1970.
Estrada da Flora
Tomando para base do alinhamento as casas já existentes no começo da estrada da Flora, e a casa do china Sun para fazer o máximo aproveitamento das árvores já existentes, pode o alargamento ir até 26m, cortando sem grande prejuízo um passeio ao longo da Avenida Vasco da Gama e um bocado saliente do jardim de Sena Fernandes. O prolongamento desta grande Avenida pode fazer-se para os dois lados: primeiro até à Montanha Russa deixando um talhão que poderia ser aproveitado para campos de jogo, e do outro até à Praia Grande fazendo-se grandes expropriações. A largura obtida dividir-se-hia da seguinte forma: Dois passeios laterais de 4m de largura com placas de relva de 4,5m; Um passeio central de 4m, e placa de relva de 2m; faixas de rolagem de 7m.

Av. Conselheiro Ferreira de Almeida
Tem de largura, actualmente, 6m, se contarmos o espaço entre as árvores já existentes na parte da Avenida entre Horta e Costa e a Avenida de Mong-Há. Mantendo o alinhamento das árvores dum dos lados a propriedade Lu Lim-ioc e as casas do Tap-Siac, tem o alargamento de se fazer para o outro lado ficando então o seguinte: 1.º Um passeio de 2,5m puxando-se as árvores contiguas ao jardim de Lu Lim-ioc ao alinhamento das outras (o que beneficia as propriedades); 2.º Uma facha de rolagem de 5m; 3.º Um passeio central de 1m com as árvores já existentes do prolongamento da Avenida Conselheiro Ferreira de Almeida, trazendo-se ao alinhamento as que existem entre a Avenida Horta e Costa e Campo de Tap-Siac; 4.ºUma faixa de rolagem de 5m; e pôr último um passeio de 2,5m com uma plantação nova de árvores. Este passeio irá cortar um prédio sem grande importância na esquina da Avenida Adolfo Loureiro e Ferreira de Almeida, e os jardins das casas dos funcionários públicos no Tap-Siac, podendo então prolongar-se esta Avenida até ao fim do Campo de Tap-Siac, aproveitando-se as árvores já existentes para o passeio central. Mais tarde poderá ainda prolongar-se até à Rua do Campo; Largura futura 16m."

sexta-feira, 26 de dezembro de 2025

O Natal há 100 anos

A 24 de Dezembro de 1925 (quinta-feira) o governador concedeu "tolerância de ponto nas repartições públicas depois da 1 hora sem prejuízo do serviço". Em jornais como "A Pátria" os inúmeros anúncios publicados atestam que a economia local vivia dias de grande dinamismo. A Avenida de Almeida Ribeiro (San Ma Lou) tinha sido inaugurada há poucos anos - ligando o Porto Interior ao Porto Exterior - e já competia com a Rua Central em termos de oferta comercial, mas a Praia Grande, ainda com a categoria de rua, mantinha-se como a grande montra fruto da localização privilegiada em redor da baía com o mesmo nome. Para além do Jardim de S. Francisco no cruzamento com a Rua do Campo, grandes firmas estavam ali instaladas tendo como vizinhos o Palácio das Repartições, o Palácio do Governo, o New Macao Hotel, e em breve, logo ao lado, também o BNU, cujo edifício sede estava quase pronto.
Um dos anunciantes era o Au Paradis des Dames, Ltda, "estabelecimento frequentado pelas pessoas chicas cá da terra" e inaugurado recentemente que oferecia "tudo o que há de melhor e de mais dernier cri de Paris, Londres e Nova-York". A oferta de produtos incluía malas de mão, carteiras, vestidos, casacões, lenços, etc... para senhoras, crianças e cavalheiros. O novo espaço da moda em moda estava localizado no piso térreo do nº 73 da Praia Grande, mesmo ao lado do edifício onde vivia então o poeta Camilo Pessanha.
Postal da década 1920 - Rua Marginal da Praia Grande - onde assinalei o Grémio Militar


Uma das notícias locais do jornal "A Pátria" tinha por título "Árvore de Natal":
Ontem, pelas 16 horas realisou-se a simpática festa da Arvore do Natal, em benefício das crianças pobres de Macau. Presidiu a Exma. Espôsa de S. Exa. o Governador, o qual também quis honrar a festa com sua presença, bem como o Exmo. Prelado de Macau e muitas senhoras e cavalheiros da mais distinta sociedade de Macau. Uma grande mesa em forma circular e que occupava o centro da plateia do teatro D. Pedro V, achava-se literalmente coberta de doces, bolos, etc. As crianças, em número de 200, entre as quais um grupo da Casa de Beneficência, foi servido um chá gordo, muito gordo mesmo. Em breve espaço, tôdas elas, chilreantes, limparam a mesa...
Em seguida, descerra-se o pano e, no proscénio, salienta-se o "Pai Natal": o velho simbólico, com a neve das barbas brancas a escorrer-lhe pelo peito. Em meio do palco a arvore do Natal esbraceja os seus ramos fosforescentes, donde pendem luminárias multicolores, balões de oxigénio, coisas várias.
O "Pai Natal" chocalha um saco que encerra os bilhetes da rifa dos brinquedos. Cada criança toma o seu bilhete e recebe um brinquedo. Estes são variados, para todos os gostos. Depois,... com o estômago bem recheado, fora o que levam no saco, as crianças ainda recebem $2,00, cada. Bela, simpática festa! Parabéns às senhoras e cavalheiros que a promoveram. Gastaram-se $854,00, mas foram muito bem empregadas."
Um dos anunciantes mais importantes na época era a Macau Electric Lighting Company, conhecida por Melco. Não só assegurava a distribuição de electricidade no território como também vendia uma parafernália de electrodomésticos que funcionavam, claro, com recurso a energia elécrica.
"Um Natal Alegre" era o mote da campanha publicitária:
"Quereis ver os vossos amigos alegres? Quereis ver satisfeitas as pessoas a quem offereceis presentes de Natal? Quereis offerecer prendas de utilidade, prendas que agradam e que podem servir por muito tempo? Já incluístes na lista dos vossos presentes alguns apparelhos eléctricos? Presentes que, além de úteis, são bonitos!
Comprai apparelhos para o vosso Natal. Lembrai-vos da utilidade e do embelezamento do vosso Lar. Lembrai-vos da comodidade que dais aos vossos amigos ou parentes offerecendo-lhes apparelhos electricos e ide ter com os commerciantes do genero e êles vos indicarão a forma de o fazerdes com facilidade; para isso também tereis sempre a Melco ao vosso dispor".