domingo, 20 de outubro de 2019

Um 'pequeno' exagero

Na legenda deste postal (nº 103) publicado na década de 1970 pode ler-se: "Fachada lateral do Complexo Turístico Casino-Hotel Lisboa, o edifício mais impressionante do Extremo Oriente". Manifestamente um exagero a adjectivação...
Side view of Lisboa Casino-Hotel Complex, the most exciting building in the whole Far East.

sábado, 19 de outubro de 2019

Anúncio de advogado em 1941

Curioso este anúncio publicado em Dezembro de 1941 no jornal "A Voz de Macau". Um advogado da "metrópole" (Portugal) publicita os seus serviços na então colónia de Macau indicando a morada de Lisboa. Guerra Maio viajou no final da década de 1930 pelo então denominado 'império colonial' e passou por Macau. Uma viagem sobre a qual publicarei um novo posto muito em breve.

sexta-feira, 18 de outubro de 2019

"Macao" no Atlas de Fernão Vaz Dourado

Tanto quanto se conhece até hoje a primeira referência de Macau na cartografia europeia surge num mapa da Ásia Oriental (de Ceilão ao Japão), da autoria do cartógrafo luso-indiano Fernão Vaz Dourado desenhado em 1570, cerca de 20 anos depois do estabelecimento de Macau. Dourado opta pelo topónimo "Macao" colocando-o na margem esquerda do delta do rio do Oeste. 
Detalhe da localização de Macau

Fernão Vaz Dourado (c. 1520-c.1580) foi um militar e um dos três cartógrafos nascidos e formados no Estado da Índia. As imagens são de um Atlas Universal de 1570 que inclui um total de 20 mapas.

Segundo João Carlos Garcia, da Faculdade de Letras, Universidade do Porto, "Esta é, provavelmente, a mais conhecida folha dos atlas de Vaz Dourado, não só por figurar muitas das novidades geográficas do Extremo Oriente para os europeus, como pela sua iconografia e riqueza cromática. Contudo, confirmando a circulação de imagens e modelos entre os cartógrafos europeus e os cartógrafos com actividade noutros continentes, o mapa apresenta-se como bastante semelhante ao desenhado na fol. 18, do Livro de Marinharia de João de Lisboa, de c.1560, à fol. 5 do Atlas de Bartolome Olives, de 1562, da Biblioteca Apostolica Vaticana, ou à fol. 6r do Atlas de Lázaro Luís, de 1563. Ou ainda, procurando modelos mais antigos, recordaríamos as cartas do Livro de Hidrografia de Jean Rotz, de 1542, da Escola de Diepe, de 1542; e também a área do Extremo Oriente nos grandes planisférios de Lopo Homem, de 1554, no Museo di Storia della Scienza, de Florença e de autor anónimo, de c. 1560, na Biblioteca Vallicelliana, de Roma. A imagem também perdurará no tempo, como é o caso da carta da fol. 16 do Atlas Universal de Joan Oliva, Nápoles, 1580."

quinta-feira, 17 de outubro de 2019

Macau e a "Mala Real Portugueza": 1891

Para este post escolhi os termos do "contrato provisório", efectuado a 12 de Janeiro de 1891 entre o governo e os representantes da empresa Mala Real Portugueza, para o serviço da navegação regular entre a metrópole e os portos da província de Moçambique. Apesar do âmbito do contrato referir-se a África, Macau também é referido. Até então para viajar para o território utilizava-se sobretudo os vapores das empresas francesas que faziam a rota do Oriente. A empresa tinha ao serviço os paquetes a vapor Malange, Rei de Portugal, Moçambique e Loanda. Abriu falência pouco depois em 1902. Com excepção dos navios militares que de quando em vez rumavam até Macau para o transporte de tropas (e alguns civis) o território só passou a ser servido por uma carreira marítima regular na década de 1950 inaugurada com a viagem do ministro do Ultramar, Sarmento Rodrigues no Verão de 1952.
"Aos 12 dias de Janeiro de 1891, nesta Secretaria de Estado dos Negócios da Marinha e Ultramar e gabinete do Exmº. Ministro e Secretario de Estado dos Negócios da Marinha e Ultramar, compareci eu, Francisco Joaquim da Costa e Silva, Secretario Geral do Ministério, e ali estando presentes de uma parte o mesmo Exmº. Ministro, como primeiro outorgante, em nome do governo, e da outra parte Alfredo de Oliveira Sousa Leal e António Júlio Machado, representantes da empresa Mala Real Portugueza, como segundos outorgantes, pelos mesmos foi lido na minha presença e das testemunhas adiante nomeadas, assistindo a este acto o Conselheiro Diogo António de Sequeira Pinto, servindo de Procurador Geral da Coroa e Fazenda, que concordava no seguinte contracto provisório para o serviço da navegação regular por barcos de vapor entre a metrópole e os portos da província de Moçambique :
Artigo 1.º - A empresa Mala Real Portugueza, ou qualquer entidade legalmente constituída, e que deverá ser portuguesa, para quem ela trespasse, na conformidade das leis e com autorização prévia do governo, este contracto, obriga-se a fazer o serviço de navegação regular por barcos de vapor entre Lisboa e os portos da África oriental, nas seguintes condições :
1.º - Haverá uma carreira mensal entre Lisboa e Moçambique, com escala tanto na ida como na volta, por Marselha, Port-Said, Suez, Aden e Zanzibar.
§ 1.º - A empresa poderá, em qualquer época, prolongar ate Lourenço Marques a carreira de Lisboa a Moçambique, nos vapores a esta carreira destinados.
§ 2.º - O governo terá o direito de obrigar a empresa a modificar o serviço pela forma indicada no parágrafo antecedente, desde que o rendimento da Alfândega de Lourenço Marques acuse um aumento superior ao duplo da media do rendimento dos três anos de 1888-1800; não resultando porem desta modificação nenhum novo encargo para o estado.
2.º - A empresa fará a ligação das duas costas, fazendo escala forçada por Quelimane, Inhambane e Lourenço Marques, quando a carreira principal finde em Moçambique.
3.º - A empresa fará igualmente o serviço entre Lourenço Marques ou Moçambique e Zanzibar com escala por Inhambane, Quelimane, Moçambique, Ibo e Tungue no primeiro caso e pelo Ibo e Tungue em segundo.
4.º - A empresa fará mais a ligação dos portos da costa oriental onde não tocam os outros vapores como sejam Chiloane, Sofala, Beira, Inhamissengo ou Chinde.
5º. - Os vapores destinados à carreira entre Lisboa e Moçambique não serão em número menor de três, de lotação não inferior a 3.100 toneladas de registro bruto (gross registered tonnage), classificados em 1.ª classe, com máquinas correspondentes à lotação, devendo a sua marcha, na experiência oficial, ser tal que possa assegurar uma velocidade efectiva de 14 milhas por hora, quando assim seja necessário - tendo acomodações, pelo menos, para 60 passageiros de 1.ª e 2.ª classes e 120 de 3.ª Os vapores para os serviços de ligação das duas costas e da carreira entre Lourenço Marques ou Moçambique e Zanzibar, não serão de lotação inferior a 1.000 toneladas de registro bruto (gross registered tonnage), nem de velocidade menor de 9 milhas por hora e terão acomodações para 18 passageiros de 1.ª classe, 12 de 2.ª e 45 de 3.
(...)
Art. 25.º - Fica concedido à empresa o exclusivo do transporte de passageiros e carga do estado para os portos do estado da Índia e Macau, e vice- versa, salvos os casos exceptuados no artigo 8.º deste contracto.
1.º - A empresa obriga-se a organizar o serviço mensal de ligação da costa oriental da África com a Índia, num prazo não superior a seis meses, mediante o subsídio de 6:250$500 reis por viagem redonda, se o governo assim o resolver, contando-se aquele prazo desde esta resolução.
2.º - Se o governo não tomar esta resolução ou enquanto a não tomar, e ainda depois se lhe convier, obriga-se a empresa a transportar os passageiros e carga do estado, directamente da metrópole ou dos portos da costa oriental para a Índia e Macau e vice-versa pelos vapores da carreira principal a que se refere este contracto, com transbordo em Aden, ou em outro porto de escala para os vapores de qualquer companhia nacional ou estrangeira, que tenha para ali carreiras regulares.
3.º - O governo não pagará por transporte de carga e passageiros para a Índia e Macau preços superiores aos que pagaria a qualquer empresa estrangeira das que fazem serviço para aqueles portos.
4.º - Estabelecida a carreira de Lourenço Marques ou Moçambique para a Índia, serão por ela servidos os portos da costa oriental até Zanzibar."

quarta-feira, 16 de outubro de 2019

"Macau" dos Thunders por Api Rosário

A canção “Macau” - dos "Thunders" que eu compus, quando tinha 19 anos de idade. Após uma pesquisa sobre o tema, fiquei surpreso do que tinha feito e nem tinha prestado atenção nas “pegadas” que deixei neste mundo. Passou tudo muito rápido.
- Compus as letras e a melodia da “Macau” em 1970.
- Foi gravada em disco vinil na EMI-Columbia-HK em 1971 (quarto disco dos “Thunders”).
- Antes do lançamento comercial tive uma audiência no Palácio do Governo de Macau, onde entreguei a primeira cópia vinil ao Governador Nobre de Carvalho. 
- Além de ter sida tocada nas rádios e TVs, com apresentações ao vivo dos “Thunders”, obteve uma super venda.
- Anos se passaram, e a canção foi regravada e apresentada publicamente por outras bandas e solistas, em português (versão original), inglês, mandarim, no estilo de fado e instrumental de orquestras e solo de piano.
- O show do reencontro dos “Thunders” em 2004, durante o Encontro dos Macaenses, foi realizado no Macau Tower, onde a canção arrancou lágrimas de saudades do público... e de mim também.
- A nova versão gravada pelos “Thunders” em CD foi lançada nesta data, com os membros originais do conjunto. (Lele Rosa Duque, Manuel Costa, Alex Airosa, Armando Ritchie e eu).
- Nos anos seguintes, tive audiências oficiais para a entrega do CD em Portugal, Macau e São Paulo: Presidente da República e sua esposa no Palácio de Belém em Lisboa, Embaixador da China em Lisboa, Director do Mosteiro da Arrábida, Secretaria de Negócios Exteriores da China, Cônsul da China em São Paulo, etc.
- A minha maior surpresa é de que esta canção ainda é interpretada em quase todas as festas macaenses do mundo inteiro (Macau, Hong-Kong, Brasil, Portugal, EUA, Canadá e Austrália), até o dia de hoje. Afinal de contas, são mais de quatro décadas... o início da terceira geração.
Texto de Api Rosário em Dezembro de 2015

terça-feira, 15 de outubro de 2019

Celebrações RPC: Macau, Outubro 1949

Celebrações da proclamação da República Popular da China em Outubro de 1949 no hospital de Kiang Wu.
Nas fotografias ao centro: Sun Yat Sen, fundador da República na China e o general Zhu De, comandante do Exército de Libertação Popular e líder vitorioso da guerra civil chinesa em 1949.
Celebrating RPC in October 1949 at Kiang Wu hospital at Macau. 
On the pictures:
Sun Yat Sen, founder of the republican China; Zhu De, founder of the People's Liberation Army (initially Chinese Red Army) and the military leader responsible for the victory of the PLA in the chinese civil war in 1949.

segunda-feira, 14 de outubro de 2019

Liceu de Macau: o primeiro ano lectivo

O Liceu de Macau foi criado - no papel - em 1893. Na "Carta de Lei" pode ler-se:
Art. 3.º - A instrução secundária será ministrada no Liceu Nacional de Macau, criado por esta lei.
Art. 4.º - O liceu Nacional de Macau é equiparado, para todos os efeitos, em categoria aos liceus nacionais do reino.

O "lyceu" - como se escrevia na época - seria inaugurado a 28 de Setembro de 1894 no antigo Convento de Santo Agostinho - na zona onde está actualmente a igreja com o mesmo nome e o teatro D. Pedro V - pelo governador mas sem cerimónias solenes já que a família real estava de luto. Nesse primeiro ano lectivo inscreveram-se 33 alunos: 29 rapazes e 4 raparigas. Tinham completado 4 anos de instrução primária e seguiam para mais 4 anos do curso geral do liceu onde iriam ter disciplinas como literatura portuguesa, língua francesa, língua inglesa, língua latina, matemática elementar, física, química e história natural, geografia e história.
Na edição de 6 de Janeiro do jornal "O Independente" pode ler-se:
“Pelo que vimos em alguns jornais do Reino, devem já ter sido nomeados definitivamente professores do novo Liceu de Macau os seguintes cavalheiros: O Sr. Wenceslau José de Sousa Moraes, Capitão-tenente da Armada, para reger a cadeira de Matemática; o Sr. João Albino Ribeiro Cabral, Tesoureiro geral da Província, para a cadeira de Latim; o Sr. Augusto César d’ Abreu Nunes, Director das Obras Públicas, para a cadeira de Desenho; o Sr. José Gomes da Silva, Chefe do Serviço de Saúde, para a cadeira de Introdução [lecciona a 6.ª cadeira, Física, Química e História Natural]; e o Reverendo Cónego Baltazar Estrocio Falleiro para a de Inglês”.
A 16 de Abril de 1894 o corpo docente tomou posse. Entre os professores, para além dos acima mencionados, estavam ainda João Pereira Vasco e Camilo Pessanha. Pessanha será o autor do regulamento da instituição aprovado em Agosto e José Gomes da Silva, primeiro reitor da instituição.
O espaço que albergou o Liceu era na altura usado pela guarda policial que passou para o quartel de S. Francisco.
Os exames finais de instrução primária que davam acesso ao Liceu efectuaram-se nos dias 10 e 11 de Setembro de 1894 e na edição de 10 de Outubro do jornal Echo Macaense - "Os Exames do Liceu" - ficamos a saber como foi todo esse processo.
“Funcionaram duas mesas, sendo uma composta do professor do Liceu, o Reverendo Cónego Falleiro, presidente, e dos professores de instrução primária, Rev. Pe. Alves e José Vicente Jorge e a outra, de Sr. João P. Vasco, professor do Liceu, presidente, e dos professores de instrução primária, Rev. P. Costa e Sr. Constâncio da Silva. Foram examinados e admitidos 29 rapazes e quatro raparigas” (...) Depois da instalação do Liceu, vários jovens que tinham feito os seus estudos no Seminário de S. José, requereram para fazer exames no novo estabelecimento escolar, pagando as propinas marcadas na lei. Verificaram-se os exames de algumas disciplinas, sendo uns examinandos aprovados, e outros adiados, sem dar isto lugar a queixa alguma. Aconteceu infelizmente no exame de português, 1.ª parte, que a maior parte dos examinandos foram reprovados, incluindo dois jovens que tinham sido aprovados com distinção e premiados no Seminário de S. José no 2.º ano desta mesma disciplina”.




Camilo Pessanha fez parte do primeiro corpo docente do Liceu de Macau.
Ao lado uma fotografia tirada em Hong Kong ca. 1895 por A Fong.
É um dos raros registos em que Pessanha se deixou fotografar de frente (por causa do problema nos olhos) de chapéu, camisa branca e casaco, todo aprumado, bem diferente das fotografias que viriam a ser feitas anos mais tarde, onde o professor, advogado e poeta, surge de barba desordenada e bem mais magro numa aparência doentia fruto do consumo de ópio.
Por via disto os jovens ficaram “descontentes com este veredictum do júri, que eles classificaram de injusto. Este facto despertou em nós a curiosidade, e levou-nos a ir assistir aos exames da segunda turma. Podemos asseverar que as perguntas feitas pelo júri nem eram difíceis nem caprichosas, e dos três examinandos a cujos exames assistimos, pareceu-nos que dois responderam satisfatoriamente, titubeando às vezes, como era de esperar no estado nervoso em que estavam, mas revelando conhecimento suficiente da matéria; e, com certeza, sabiam muito mais de português do que os examinandos de inglês, a cujos exames também assistimos, sabiam desta língua. A impressão que nos ficou destes dois exames a que assistimos foi, que a aprovação no exame do Liceu, tanto em português como em inglês, não tem nenhuma importância prática como garantia de que os indivíduos ai aprovados saibam qualquer destas línguas. (…) A explicação do texto e a composição são pois os critérios por onde se pode aquilatar bem o conhecimento que um indivíduo tem de qualquer língua; mas nos exames de português a que assistimos não se recorreu a estas duas provas práticas, contentando-se o júri com perguntas acerca das definições e regras de gramática e com a análise gramatical e lógica de um trecho. (…) O exame, pois, é todo teórico. Quanto ao exame de inglês, ficámos ainda mais tristes com o que vimos. (…) Basta dizer que os examinandos nem sabiam ler as palavras mais fáceis, tanto assim que o professor cónego Falleiro não cessava de corrigir a pronúncia a cada momento; e contudo foram aprovados! Foi essa injustificável indulgência no exame de inglês, e no de filosofia, que concorreu muito para exacerbar os ânimos, quando se conheceu do resultado desastroso do exame de português, porque a equidade pedia que não houvesse dois pesos e duas medidas. (…) Se é este o sistema seguido modernamente em Portugal, fique então isto de prevenção para os jovens macaenses, a fim de que, no futuro, se quiserem ser aprovados, tratem de decorar e decorar muito, até que possam repetir como papagaios, que só assim conseguirão ser aprovados, embora não tenham digerido o que decoraram”.

sexta-feira, 11 de outubro de 2019

A "Villa " do Padre Remédios

Villa Remedios à Macao (ilustração a partir de uma pintura chinesa) indica o jornal L'Illustration na sua edição de 10 de Setembro de 1859 onde inclui um texto com o título "Villa Remedios à Macao". Que vila era esta? Quem era Remédios?
António Miguel Ângelo dos Remédios, nasceu em Macau a 2 de Outubro de 1792. Foi o primogénito de António dos Remédios (1770-1841) e Rita António de Sousa Peres (n. 1772), ambos nascidos em Macau. Casados em 1791 tiveram 16 filhos. Foi capelão da Sé Catedral e administrador dos hospitais de S. Lázaro e S. Rafael (ca. 1850). Foi ainda um dos "Governadores do Bispado" durante o período de "vacância" entre 1857 e 1877. Por via deste cargo - ocupado em regime de comissão por vários padres - o padre Remédios pertenceu ao Conselho do Governo, em 1862, por exemplo.
Foi agraciado como Cavaleiro da Ordem de Na Sra da Conceição de Vila Viçosa (criada em 1818), "Padroeira do Reino". 
Traduziu do francês a obra "Da importância da oração para alcançar de Deus todas as graças, e a salvação eterna" da autoria de Santo Afonso Maria de Liguori. Impresso em Hong Kong em 1853. Morreu a 31 de Maio de 1871 com 78 anos.
Esta Vila Remédios ficava, a julgar pela descrição é, muito provavelmente, no sopé da colina da Penha, perto da fortaleza do Bom Parto.
Numa peça de teatro referida no boletim do Governo em 1862 pode ler-se: "(...) Com effeito lá se nos vão por muitos mezes os largos passeios, os bellos dias de patuscada, os jantares na Ilha Verde, na Chácara de Remédios, na Gruta de Camões, etc. (...)"
A 30 de Dezembro de 1867 no mesmo Boletim outra referência à chácara do Padre Remédios:
"No dia 23 do corrente mez a officialidade do batalhão de Macau offereceu ao seu digno commandante um jantar na chácara do sr Remédios convidando todos os officiaes das differentes armas em Macau e em effectivo serviço e alguns cavalheiros paisanos do seu trato mais intimo. Durante o jantar tocou a banda do batalhão. Sympathica como era a festa em dia tão ameno e num lugar tão agradável alegria existiu entre todos os convivas que mutuamente manifestaram afleiçáo e boa camaradagem." 
Estas vilas ou chácaras ficavam afastadas da malha urbana; eram o equivalente às actuais quintas, propriedade dos mais abastados; existiam não só na península de Macau mas também nas ilhas; algumas eram de tal dimensão que lá podia-se caçar.Algumas das chácaras em Macau: Vasconcelos (na Guia), Leitão (Praia de Cacilhas), Bom Parto,etc...
Em Março de 1868 encontramos no Boletim do Governo a referência a uma chácara, propriedade de Maximiano António dos Remédios:
"Assim os officiaes do batalhão de linha offereceram aos tres cavalheiros que vão deixar esta terra um jantar campestre de despedida que teve logar no dia 18 do corrente na chácara do honrado negociante desta praça Maximiano Antonio dos Remédios e convidaram todos os demais officiaes da guarnição, o proprietário da chácara, o presidente da camara, etc. Foi ao mesmo tempo uma verdadeira festa pelo amplexo de amisade que ali tão intimamente se estreitou e uma fonte de saudade pelo assumpto da despedida." 
in Boletim da Província de Macau e Timor: 22 Abril 1872
Villa de R. P. Remedios à Macao

La ville portugaise de Macao en Chine, vue du côté de la rade, rappelle en miniature les grandioses de Gênes et de Naples. La ligne courbe de la Praia grande, où est le débarcadère, présente une série non interrompue d'élégants palais d'architecture tropicale qui s'élèvent les uns au-dessus des autres sur le versant méridional de la presqu'île. Par-ci par-là des touffes d'une riche végétation rompent la crudité des tons très-voyants dont sont peints tous les édifices; mais, si la vue se porte dans le lointain ou sur les côtés de la ville, on ne voit plus que la nature sauvage, c'est-à-dire des montagnes granitiques en décomposition, où un gazon i rûlé et de rares arbustes résistent à l entraînement des pluies torrentielles du printemps.
Sur une de ces hauteurs, à un kilomètre à l'est de la ville, les Portugais du seizième siècle ont élevé la forteresse de la Guia, aux pieds de laquelle fut taillée en pièce l'expédition hollandaise commandée par l'amiral Reyerszoon, qui tenta de s'emparer de la colonie le 21 juin 1622. Une croix en pierre rappelle encore le lieu où le chef hollandais tomba sous le feu de la citadelle.
Sur les hauteurs opposées, à l'ouest de la ville, la solitude de la montagne n'était égayée, jusqu'à ces derniers temps, que par un ermitage dit Notre-Dame de la Pentha (du Rocher), qui est un but de pèlerinage pour les femmes de Macao à certains jours de l'année. C'est cette partie des environs de sa ville natale que le P. Remedios a eu l'heureuse idée d'embellir, en y faisant construire par les Chinois une villa de style mixte qui fait maintenant l'admiration des étrangers, et figure à juste titre au nombre des curiosités les plus remarquables du pays. Parmi les Européens qui ont visité Macao, il en est peu qui n'aient eu occasion de connaître le P. Remedios, ou même de jouir de sa généreuse hospitalité. Dégagé des vues mesquines et des préjugés de race qui, dans la plupart des colonies portugaises ou espagnoles, font du clergé indigène l'ennemi cordial des étrangers, le P. Remedios a su apprécier la supériorité européenne et lui rendre hommage en toute circonstance, tout en maintenant, à certains égards, les avantages que des qualités incontestables donnent à la nation chinoise, auprès de laquelle il a été élevé. Aussi tout le monde, sans distinction, respecte et affectionne cet homme exceptionnel, et les Chinois particulièrement lui témoignent un dévouement sans bornes, dont la construction de sa villa offre un exemple. L'emplacement choisi par le P. Remedios pour lieu de sa retraite présentait, par son escarpement, par la difficulté des abords et la nature du sol, des obstacles propres à décourager un architecte européen. Les architectes chinois, habitués à construire pour les riches de leur pays des résidences princières et fantastiques dans les sites les plus abruptes de la création, ont su tirer un parti merveilleux du Mato da Penha, en faisant un séjour délicieux là où naguère les moutons avaient de la peine à passer.
On remarquera, dans le dessin fait de la rade d'après nature par un peintre chinois, que l'architecte a ménagé habilement plusieurs terrasses qui créent de l'espace et introduisent dans la perspective une agréable combinaison de lignes. Ce à quoi le constructeur a aussi visé, c'est à donner une grande place aux vases de fleurs qui font le principal charme dans les jardins de la Chine, tant par l'éclat et la décoration de la porcelaine dont sont faits les vases et les supports, que par les riches couleurs et la suavité des fleurs odoriférantes propres au pays. Impossible de dire la vue magnifique dont on jouit de la Varanda, ou galerie couverte, qui occupe le milieu de l'étage supérieur du grand pavillon. A droite, l'île des Singes et le passage qui conduit à Canton par l'intérieur du district de Hiang-chan.
En face, le mouillage du Taïpa, où se réunissent les navires qui n'entrent pas dans le port de Macao; et, dans le lointain, les grandes iles de Lemma, trop fameûses dans les fastes de la piraterie. A gauche, l'archipel de Hong-kong, et enfin celui de Lantao, par lequel on arrive à Boca Tigris, embouchure de la rivière de Canton. Une idée un peu sombre vient cependant traverser l'esprit quand on contemple de cette position élevée le vaste espace qui se déroule devant vous, c'est de penser quelle doit y être la violence des épouvantables ouragans, nommés typhons, qui sur ces rivages brisent les vaisseaux, arrachent les arbres séculaires, enlèvent les toits des maisons comme une feuille morte, et renversent souvent les édifices les plus solides.
Mais le P. Remedios s'est prémuni autant que possible contre ce désastre, d'abord en employant des matériaux de la plus grande solidité, puis en orientant ses constructions de telle manière que les rhumbs de vent d'où la tempête souffle ordinairement avec le plus de fureur aboutissent aux angles des bâtiments, et n'ont ainsi que peu de prise.
Il nous reste à souhaiter que l'heureux créateur de ce joli domaine puisse en jouir de longues années encore pour son bonheur personnel, pour celui de ses concitoyens dont il a depuis plusieurs années la haute administration, et pour la satisfaction des étrangers qui reçoivent dans cette villa le plus cordial et le plus généreux accueil.
A cidade portuguesa de Macau na China, vista do lado do porto, lembra em miniatura as grandiosas Génova e Nápoles. A linha curva da Praia Grande, onde se faz o desembarque, tem uma série ininterrupta de elegantes palácios em estilo tropical. Aqui e ali, aglomerados de rica vegetação quebram a crueza dos tons conspícuos dos quais todos os edifícios são pintados; (...). Numa dessas colinas, um quilómetro a leste da cidade, os portugueses construíram no século XVI a Fortaleza da Guia, onde está uma peça da expedição holandesa comandada pelo almirante Reyerszoon que tentou capturar a Colónia em 21 de Junho de 1622. Uma cruz de pedra ainda lembra o local onde o chefe holandês caiu sob o fogo da cidadela.
Do lado oposto, a oeste da cidade, a solidão da montanha era iluminada, até muito recentemente, apenas por uma ermida chamada Nossa Senhora da Penha (a Rocha), que é alvo de peregrinação pelas mulheres de Macau em certos dias do ano. É nesta parte dos arredores da sua cidade natal que o padre Remédios teve a feliz ideia de mandar construir pelos chineses uma vila de estilo arquitectónico misto que agora é admirada por estrangeiros, sendo mesmo uma das maiores atracções do território. Entre os europeus que visitam Macau, são poucos os que tiveram a oportunidade de conhecer o Padre Remédios e de desfrutar da sua generosa hospitalidade. (...)
Todos, sem excepção, respeitam e amam este homem excepcional, e os chineses especialmente mostram-lhe uma dedicação sem limites, cuja construção da sua vila é um bom exemplo. A localização escolhida pelo Padre Remédios para o seu retiro tinha, pela escarpa e natureza do solo, obstáculos que desencorajariam um arquitecto europeu. Os arquitectos chineses, acostumados a construir para os ricos do seu país residências principescas e fantásticas nos locais mais abruptos da criação, souberam fazer uma parte maravilhosa do Mato da Penha.(...)
Atente-se na ilustração, feita a partir da rada, tendo por base uma pintura chinesa, que o arquitecto concebeu vários socalcos que criam espaço e introduzem na perspectiva uma agradável combinação de linhas. O que o construtor também conseguiu foi uma grande praça com flores onde sobressaem os enorme vasos típicos dos jardins chineses. (...). 
É impossível descrever a magnífica vista da varanda, ou galeria coberta, que ocupa o meio do andar superior do grande pavilhão. À direita, fica a ilha ??? e a passagem para Cantão e para o distrito de Hiang-chan. Em frente, o ancoradouro da Taipa, onde se encontram navios que não entram no porto de Macau; e, à distância, as grandes ilhas do Lema famosas entre os piratas. À esquerda, o arquipélago de Hong Kong e, finalmente, o de Lantao, pelo qual se chega à Boca Tigris, desembocadura do rio Cantão. Uma ideia uma pouco sombria surge-nos na mente quando se contempla esta vista e pensamos na violência provocada pelos terríveis tufões que assolam esta região, levando à frente navios, arrancando árvores seculares e telhados das casas como se fossem folhas mortas e até, com frequência, derrubam os prédios mais fortes.
Mas o Padre Remédios foi o mais possível preventivo contra estes desastres, primeiro empregando materiais da maior solidez, depois posicionando o edifício de tal maneira que o vento pouco atormenta o edifício. Resta-nos esperar que o feliz criador desta bela propriedade possa desfrutar de muitos mais anos para a sua felicidade pessoal, a dos seus concidadãos, cuja alta administração ele tem por muitos anos, e para a satisfação de estrangeiros que durante muitos anos podem contar nesta vila com a mais cordial e generosa recepção."
Nota: artigo também publicado na newsletter A Voz, edição de Setembro 2019

quinta-feira, 10 de outubro de 2019

Sete dias entre a população chinesa de Macau

"Eu fui vagabundo" é o título de um livro editado em 1973 que inclui várias reportagens de José Augusto Roussado Pinto (1926-1984), jornalista, escritor e editor. Como jornalista marcou o panorama da imprensa em Portugal com o «Jornal do incrível», foi também autor de reportagens e de romances policiais usando pseudónimos. Neste livro está uma reportagem intitulada "Sete dias entre a população chinesa de Macau" de que reproduzo aqui alguns excertos...
"No momento em que desembarcámos em Macau , crescia sobre a cidade o espectro do tufão «Georgia» (1), e todos os olhares, por isso mesmo, se dirigiram para a Fortaleza do Monte, em busca do sinal luminoso que indicasse a situação exacta do perigo. Era um sábado. O barco que nos trouxera de Hong-Kong levara quatro horas de viagem, sob um calor insuportável, que provocando suores congelados por uma humidade a cem por cento, se transformaram numa espécie de banha pegajosa que cobria a pele. O barco trazia centenas de turistas de todas as raças: brancos, pretos e amarelos. Nada de uniformidade quanto a trajos: o «smoking» misturava-se com o tronco nú. Mas todos sorriam, satisfeitos, como se adivinhassem um bom fim de semana, indiferentes ao relógio que acabava de bater a meia -noite. No momento da atracação desabou uma chuva inesperada de pingos grossos, que obrigou toda a gente a precipitar-se em corrida pela ponte de desembarque e procurar refúgio sob o tecto do edifício do cais. Seguiu-se o natural sacudir das roupas com a descontracção própria de quem está habituado a estas chuvadas repentinas, e logo todos se encaminharam para a bicha lenta e morosa do tradicional visto de passaportes. 
-Porquê esta multidão? -perguntamos a quem nos acompanhava, admirados daquele afluxo de turistas. -Vêm para o jogo- esclareceram-nos. Foi a primeira vez que ouvimos a palavra «jogo» em Macau, e essa palavra iria acompanhar-nos durante os sete dias em que convivemos com a sua população chinesa. Mas comecemos pelo princípio... 
Um "restaurante" volante, especializado em cozinhados de carne de cão
Os dois amigos que nos serviram de guias e intérpretes, alternadamente, ao longo desta reportagem, eram de opinião que os chineses, em Macau, têm «mundos» muito seus - «mundos» de hábitos, aos quais permanecem arreigados, para lá de todos os progressos. Um desses «mundos» reside nesses pitorescos «restaurantes» que se descobrem em determinadas ruas, quase sempre às esquinas, cujos donos todos os dias carregam para ali mesas, bancos, fogões, tigelas, pauzinhos, copos e vinho, e tudo voltam a levar quando resolvem «fechar». Para que os víssemos, levaram-nos a um deles que se dedicava a uma especialidade: cozinhado de carne de cão. 
- Carne de cão? - admirámo-nos. -Carne de cão. Um petisco. Uma maravilha. A perspectiva era curiosa. O «restaurante» fora improvisado atrás da Escola Comercial, com as suas mesas a quarenta centímetros do solo e as cadeiras a vinte. No meio, uma mesa maior com as tigelas, os pauzinhos e os copos. Por detrás dela, o cozinheiro com a panela em feitio de cone, entre as pernas. Esta panela mantinha um molho em ebulição, devido a um pequeno fogo. Ao lado, outra panela com PS bocados, já partidos e cozidos, de carne de cão. O cozinheiro era um chinês simpático, de olhos alegres, que sorria para todos os clientes ao mesmo tempo e atendia os rapazes que serviam as mesas com rapidez dando-lhes as tigelinhas e o vinho. Ele só metia os bocadinhos de carne de cão no molho depois do cliente pedir. E havia quem seleccionasse o que preferia: mais gordura mais pele, mais magrinha ou com «uns ossinhos». A todos satisfazia tirando os bocadinhos do molho, colocando-os nas tigelinhas e passando-os aos rapazes, que os serviam nas mesa; acompanhados de um copo de vinho chinês (vinho de arroz). Cada tigelinha, incluindo o vinho, custava 2 patacas (9$50). Estivémos mais de vinte minutos à espera de lugar. Os
chineses vêm chegando, a pé ou de bicicleta e tomam lugar .
Conversam naquela sua impassibilidade aparente, onde os olhos estão fixos e só os lábios mexem. Ali marcam encontros: Tratam de negócios. Não há pressa nem precipitação. Aceitam as tigelinhas da mão dos rapazes que os servem...
(1) Reportagem publicada no dia 5 de Fevereiro de 1971

quarta-feira, 9 de outubro de 2019

Portugal e as Colónias Portuguesas


Portugal e as colónias portuguêsas: com um apêndice sôbre a história da geografia e uma nota bibliográfica sôbre a geografia de Portugal e dos seus domínios. Primeira edição (de autor, Fortunato de Almeida) de 1918. Coimbra.

Inclui inúmeras gravuras intercaladas no texto sobre a geografia física, politica e económica de Portugal, dos Arquipélagos dos Açores e da Madeira, Cabo Verde, Guiné, S. Tomé e Príncipe, Angola, Moçambique, Índia, Macau e Timor.
O capítulo VII é dedicado a Macau. Num total de 9 páginas  apresenta-se uma breve resenha histórica e descrições sumárias sobre a geografia, política e economia. As três imagens que ilustram o capítulo são de má qualidade sobretudo devido à pouco gramagem do papel usado na edição: Porto Interior, Rua das Felicidades (é mesmo assim... mas a versão correcta é Rua da Felicidade) e Pagode da Barra.
As fotografias são do final do século XIX e muito provavelmente da autoria de Carlos Cabral pela similitude que apresentam face a outras publicadas na revista Ta-Ssi-Yang-Kuo.

“Todas as possessões de Macau medem aproximadamente a superfície de 10 mil quil. quadrados. A parte portuguesa do istmo e a península de Macau medem 3,23 K2; a parte occupada pela cidade, incluindo ruas, estradas, jardins e cemitérios mede 2,10 K2.
A SE. da península é esta banhada pela rada de Macau; a W. e NW. existe o chamado Porto Interior, entre a península de Macau e a ilha da Lapa. No Porto Interior existe a pequena Ilha Verde, hoje quási ligada ao istmo por assoreamento natural e por obras realizadas no sentido de estabelecer a ligação.
A costa da península oferece muitas sinuosidades. 

A NE., abrigada do sul por um longo promontório , a ampla baía de D. Maria II; a S. do mesmo promontório, a baía de Cacilha; a SW. a baía da Praia Grande e as enseadas do Mainato e do Bispo. (...)
Na falta de territórios para a exploração agrícola, todas as fontes de riqueza pública em Macau se reduzem à actividade industrial e comercial; e ainda quanto a estas já teve a colónia maior prosperidade quando não sofria tanto a concorrência do pôrto inglês de Hong- Kong e de diversos portos chineses de novo abertos ao comércio estrangeiro.
O mais importante objecto da actividade económica de Macau é o ópio, importado em crú, preparado e reexportado. S
emelhantemente se procede com o chá, que é também importado e preparado para dêle se fazer valiosa exportação, quási toda para Inglaterra.
É muito considerável a indústria da pesca, que abastece de peixe frêsco, sêco e salgado a cidade de Macau, Hong-Kong e outras povoações.
Outras indústrias de Macau: fabrico de sêda, descasca e moagem de arroz, fabrico de esteiras e fogos de artifício…."


Rua da(s) Felicidade(s) - Bazar chinês (legenda original)
Fortunato de Almeida Pereira de Andrade (1869-1933) era formado em Direito. Foi professor (e reitor) do Liceu José Falcão (Coimbra), da Escola Normal Superior de Coimbra, e historiador. Autor de uma História de Portugal (história do desenvolvimento de Portugal desde a Lusitânia pré-histórica até ao reinado de D. Manuel II) publicada em 1922-1929 e ainda da História da Igreja em Portugal. Foi sócio da Academia das Sciências de Lisboa, da Sociedade de Geografia, da Sociedade Portuguêsa de Estudos Históricos e do Instituto de Coimbra. Foi agraciado pela Santa Sé com a condecoração Pro Ecclesia et Pontifice. (...)

terça-feira, 8 de outubro de 2019

Especial Grande Prémio

Entre 14 e 17 de Novembro decorre a 66ª edição do Grande Prémio de Macau. Como já vendo sendo habitual deste o início deste projecto, durante o mês de Novembro irei dar especial atenção ao evento publicando vários posts a recordar antigas edições....
Grelha de partida do GPM de 1969. Há 50 anos...

segunda-feira, 7 de outubro de 2019

Documento Confidencial: 1938

Na imagem ao lado um Ofício classificado como confidencial enviado pelo chefe de gabinete do Ministério das Colónias ao chefe de gabinete do Presidente do Conselho a 10 de Novembro de 1938 dando conta do teor de um telegrama recebido do governador de Macau: 
"Rogo V. Exas favor não ser permitida publicação qualquer artigo ou fazer conferências públicas sobre ópio sem v. Exa. ou este Governo ter conhecimento completo assunto".
O documento faz parte do espólio do Arquivo da Torre do Tombo (Lisboa).
Nesse ano de 1938 a China proibiu o comércio do ópio, um produto de que dependia e muito a economia local.
Segundo um relatório do BNU de Macau, em 1933, por exemplo, obteve-se pelo comércio do ópio a quantia de $1 172 499,20, a que se acrescentou o produto das multas, que foi de $ 127 500,00.
O Decreto n°. 23 070, de 29 de Setembro de 1933 autoriza a colónia de Macau a constituir um fundo de reserva especial, que se denominará Fundo de Reserva do Ópio. A ideia era prevenir no futuro as perdas de receitas com as restrições ao comércio do ópio de acordo com uma recomendação da Sociedade das Nações.
Boletim Oficial: 1933

domingo, 6 de outubro de 2019

Campanha "Obedeça às Regras de Trânsito"


  1. No início da década de 1960 o aumento do número de automóveis a circular obrigou a PSP a lançar uma campanha de sensibilização junto dos condutores e peões para respeitar as regras de trânsito. Para além de uma campanha publicitária até as cartas que os moradores de Macau recebiam serviram para fazer passar a mensagem como se pode verificar nesta carta enviada da então Checoslováquia em 1963.

sábado, 5 de outubro de 2019

Macau visto da Fortaleza do Monte: década 1970

A fotografia abaixo (clicar para ver em tamanho maior) foi tirada da Fortaleza do Monte por volta de 1971/72. Nesta vista parcial da Praia Grande - com a Taipa ao fundo - destaca-se o hotel Lisboa (inaugurado em Fevereiro de 1970), tendo ao lado a Estátua de Ferreira do Amaral (actualmente em Lisboa) e pode ainda ser vistos os trabalhos iniciais da construção da primeira ponte que ligou Macau à Taipa inaugurada a 5 de Outubro de 1974. 
Na imagem pode ainda ser visto do lado esquerdo o Clube Militar, o Liceu, o edifício Rainha d. Leonor (ainda não está o hotel Sintra que ficou pronto em 1974), a Sé catedral e a fachada principal do Teatro Capitol.

sexta-feira, 4 de outubro de 2019

Reedição de "Viagem a Macau. Uma Relíquia de Portugal no Oriente"

O Instituto Internacional de Macau e o Instituto Luís Gonzaga Gomes Portugal - Macau - China, da Sociedade Histórica da Independência de Portugal apresentam no próximo dia 10 de Outubro a reedição da obra “Viagem a Macau. Uma Relíquia de Portugal no Oriente”, da autoria de Vasco Callixto.

Trata-se de uma obra publicada em 1978, agora reeditada pelo Instituto Internacional de Macau, que recorda a viagem a Macau que o autor efectuou no ano anterior, com uma permanência de 21 dias no Território.


Palácio da Independência, Lisboa, 10 de Outubro, quinta-feira, pelas 18h.


quinta-feira, 3 de outubro de 2019

1949, Salazar, Franco Nogueira e o 'agente secreto'

A 1 de Outubro de 1949 Mao Tse Tung proclama a República Popular da China. Ao mesmo tempo o partido comunista assume do poder. Tal como os aliados Portugal não reconheceu a proclamação. No início de 1964 Franco Nogueira, ministro dos Negócios Estrangeiros de Portugal, sugere o reconhecimento e o estabelecimento de relações diplomáticas entre Portugal e a China, por via de Macau. A questão divide o Estado Novo. Salazar é contra. O Governador de Macau é a favor.
Para Franco Nogueira o objectivo da proposta era realizar negociações com Pequim com vista a transformar "Macau, como porto franco, condomínio por forma a determinar ou até a transferência de soberania com manutenção de laços simbólicos com Portugal" .
Para o efeito foi incumbido da missão um 'agente secreto', Jorge Jardim (1919-1982), que testemunhou assim este caso:
"(...) Disse-me tratar-se de uma tentativa de estabelecimento de relações com a China Popular. Tinham-me escolhido pela delicadeza da missão que não poderia fracassar, dado tudo quanto nela se jogava. O Presidente do Conselho (Salazar) tinha estado reticente mas dera a sua concordância, tal como aprovara o meu nome. (...) Franco Nogueira esclareceu-me de que esta aproximação deveria ser genuína e, desde que iniciada, levada às últimas consequências ou seja o estabelecimento de relações oficiosas que desembocariam, a curto prazo, em relações diplomáticas. A China Popular teria interesse político nisso, pelo que representava a ostensiva libertação da tutela americana por parte de um país, como Portugal, membro da Aliança Atlântica e tradicionalmente anti-comunista. Depois do reconhecimento francês (que havia sido duramente atacado na NATO com a única posição favorável da Alemanha e de Portugal) isso traduziria notável vitória para Pequim cujas compensações contávamos recolher. Mas era preciso andar-se depressa para não nos atrasarmos entre os países ocidentais que viriam, certamente, a seguir o mesmo caminho. Em conclusão: a manobra depois de iniciada era irreversível e tinha de ser feita convictamente, com sinceridade".

Vista sobre a Fortaleza do Monte, Porto Interior e Ilha da Lapa: década 1950
“Nunca verdadeiramente fomos soberanos em Macau, sempre subsistimos graças à boa vontade da China e sempre partilhámos com ela a autoridade.” 
Declaração do Antigo embaixador e ministro dos Negócios Estrangeiros do Estado Novo, Franco Nogueira (1918-1993).
Sugestão de leitura: "Jorge Jardim: agente secreto", de José Freire Antunes, 1996

quarta-feira, 2 de outubro de 2019

Ópera chinesa

Postal década 1970

Artistas de ópera chinesa - Largo do Pagode da Barra - postal editado pelo Leal Senado na década de 1980


Ópera chinesa é uma forma popular de drama e teatro musical. Em Macau é conhecida por «Auto-China» ou «Chapôm-chipôm" ou ainda “tôc tôc tchéang”, por causa do som do bater numa madeira (toc toc) de um instrumento musical de percurssão (tcheáng).

terça-feira, 1 de outubro de 2019

The Kingdome of China newly augmented by I.S.: 1626

Nos 70 anos da implantação da República Popular na China e ascensão ao poder do partido comunista (1949) publico um mapa do país do século 17.

The Kingdome of China newly augmented by I.S.: 1626. John Speed (1551-1629)

Localização de Macau neste mapa da China do século 17

segunda-feira, 30 de setembro de 2019

"Macau" no "Atlante della Cina"

Macau representado na foz do Rio das Pérolas. Da autoria de Miguel Ruggieri (entre 1580 e 1588). O topónimo que surge é, curiosamente, igual ao actual, Macau. In "Atlante della Cina", Archivio de Stato di Roma, 1993.
"Della cittá di Quam Ceu[Cantão; Guangzhou Fu 廣州府]della Provintia di Quantum
Este "Atlas da China" foi produzido no final o século 16/início do século 17 sendo considerado a mais completa obra sobre a China na época.

domingo, 29 de setembro de 2019

Praia da Areia Preta

O forte de Mong Ha em cima à esquerda e à direita, em baixo a então Praia da Areia Preta
“Um dos sítios outrora mais procurados pelos chineses pela razão da sua beleza era a magnífica praia da Areia Preta. Incrustada numa pequena angra era ali que nas tardes de Verão os habitantes desta cidade concorriam em grande número para se divertirem, quer nadando quer gozando a fresca aragem vinda do mar. Frente à enseada, as escalvadas Nove Ilhas e a Lêng-Têng quebravam a monotonia do extenso horizonte com as suas recortadas silhuetas, disfrutando-se assim da praia um admirável e inspirador cenário.
Enterradas na praia, os recifes e os penhascos, brunidos e exalviçados pela ressaca das vagas, forneciam outra nota de graciosidade ao local já de si tão aprazivelmente encantador.” 
Luís Gonzaga Gomes in Curiosidades de Macau Antiga

sábado, 28 de setembro de 2019

Macao portuguese government (1849)

Em cima a lista dos elementos que faziam parte do Governo de Macau em 1849; uma lista no sentido mais abrangente do termo "governo" já que inclui, por exemplo, para além dos cargos executivos (João Maria Ferreira do Amaral era o governador), o nome do bispo (Jerónimo Pereira de Matta), juiz (J. A. de Moraes Carneiro), procurador (João Damasceno dos Santos), comandante militar (Bernardo de Araújo Roza), capitão dos portos (P. J. da Silva Loureiro), chefe dos correios (D. J. Barradas). Menciona-se ainda que o Boletim do Governo é publicado à quarta-feira.
Em baixo está uma lista dos principais "comerciantes" de Macau onde sobressaem nomes como Jozé Vicente Jorge, Lourenço Marques, John Smith ou George Chinnery, o pintor.
in An Anglo-Chinese Calendar, 1849

sexta-feira, 27 de setembro de 2019

VIII congresso nacional agências de viagem e turismo: 1982

A propósito do Dia Mundial do Turismo que se celebra neste 27 de Setembro desde 1980, recordo a realização em Macau do VIII Congresso Nacional Agências de Viagem e Turismo em 1982. Um evento imortalizado nesta medalha de bronze.

quinta-feira, 26 de setembro de 2019

Episódio sobre a 'ocupação' japonesa

Entre 1937 e 1945 Macau viveu sob "Os Anos da Guerra". Apesar da neutralidade de Portugal face à Segunda Guerra Mundial, os japoneses instalaram-se no território. Diamantino Correia, antigo militar em Macau uns anos mais tarde, recorda-se de algumas histórias (que lhe contaram) sobre esses anos e pedi-lhe para as recordar. Aqui vai mais uma episódio - dos muitos que ocorreram - sobre a 'ocupação' japonesa em Macau.
"Durante alguns meses fui comensal na casa de um guarda de 1ª classe da PSP, sita na Avenida Coronel Mesquita. Este sr. chamava-se António Rodrigues e tinha como alcunha " O Fantasma". Julgo que foi para aquele território nos anos 30, já que à data em que o conheci tinha 7 filhos e o mais velho (António Rodrigues Jr.), já falecido, teria os seus 18 anos. Preparava-se então para prosseguir os estudos superiores em Portugal, o que aconteceu. Não sei qual a sua formatura. Pois o pai "Fantasma" foi chamado a chefiar uma equipa de agentes solicitada pelo hotel Central, uma vez que, alguns militares japoneses, já bem bebidos, se dedicavam à destruição de bens no salão de dança. Chegado lá, pediu a presença do mais graduado. Houve risos de mofa, já que a autoridade portuguesa era periodicamente posta em causa. Mas o "nosso" homem não se intimidou e através do intérpete, fez-lhe saber que o imperador Hiroito não lhes tinha mandado fazer aquilo. Ouvido que foi o nome do imperador, não só abandonaram o local bem como pagaram todos os estragos. 
P.S. António Rodrigues era alentejano (área de Portalegre) e então fazia serviço para o Dr. Pedro Lobo nas instalações da Vila Verde. Vivia, como disse na Avª Coronel Mesquita, numa excelente vivenda cedida pelo "patrão" Pedro Lobo."
Mais uma vez agradeço ao Diamantino Correia - prestou serviço militar em Macau entre 1951 e 1959 - o seu depoimento. A sua história pode ser vista aqui http://macauantigo.blogspot.com/2010/02/memorias-de-diamantino-correia-81-anos.html

quarta-feira, 25 de setembro de 2019

Ainda a "Memória sobre Macao" de 1828

José de Aquino Guimarães e Freitas escreveu em 1828, em Coimbra, "Memória sobre Macau". O livro surge referenciado no Bibliographie annamite (Bibliografia anamita), uma bibliografia de livros, artigos de jornais, manuscritos e mapas de ou sobre o Vietname, que remonta à chegada do primeiro sacerdote francês ao país no século XVII. Neste livro publicado em 1867 surgem listados 470 items, incluindo obras em francês, inglês, alemão, português, espanhol e italiano. A bibliografia está organizada em cinco partes. A obra foi compilada por Victor-Amédée Barbié du Bocage (de 1832 a 1890), um arquivista e bibliotecário da Sociedade Geográfica de Paris.
"Memória sobre Macao" é da autoria de José de Aquino Guimarães e Freitas, "natural da Província de Minas Geraes, Coronel de Artilheria, ex-Procurador da mesma Cidade, actualmente Governador da de Coimbra. Coimbra, na Real Imprensa da Universidade. 1828." - capa do livro de 94 páginas.
Inocêncio XII, 240 e IV, 249: “O Sr. A. Marques Pereira ocupou-se deste autor n'uma serie de artigos biobibliográficos publicada no Ta ssi yang kuo, de 1864, e aí leio: «Chegou (o coronel José de Aquino) a Macau pelos anos de 1815, e serviu no batalhão do príncipe regente, sob as ordens do brigadeiro Francisco de Mello da Gama Araujo, que mais tarde foi governador de Diu. Recebida em Macau, em 1822, a noticia do regresso de D. João VI a Portugal, o governador e capitão geral desta cidade, que então era José Osório de Castro Cabral e Albuquerque, nomeou o coronel José de Aquino Guimarães e Freitas para passar a Lisboa com a comissão de felicitar a sua majestade e sua real família pela sua feliz chegada a seu país natal, e ao soberano congresso pela sua instalação e progressivo empenho pelo bem nacional, devendo ao mesmo tempo dar conta da «maneira satisfatória com que se tinha recebido e solenizado em Macau o novo sistema constitucional.»
A esta nomeação se uniu o leal senado, conferindo a José de Aquino os poderes de seu deputado.
Memoria sobre Macau: Coimbra, na Imp. da Universidade 1828. 8.º gr. de 94 pag. Tratando-se desta possessão portuguesa, não devem deixar de comemorar-se aqui os importantes artigos e memorias, que a seu respeito se encontram nos Annaes Maritimos e Coloniaes”.
Parte do índice do livro composto por 31 capítulos
Ilustração de Macau no século XIX (não faz parte do livro referido)
O jornal O Panorama refere este livro numa edição de 1840 (nº 163):
"Demos a pag 38 do l volume noticia da origem e estado do nosso estabelecimento de Macau fundado e consentido por beneplácito dos chins ampliaremos e rectificaremos as que ali exarámos agora que temos á vista dois modernos escriptos portugueses sobre o assumpto: Memória acerca do Macau por José de Guimarães e Freitas e o appendice sobre os estabelecimentos portugueses a leste do Cabo de Boa Esperança escriptas pelo nosso digno sócio o Sr Conselheiro Manuel José Gomes Loureiro; destas obras extrahiremos o mais importante ."