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segunda-feira, 31 de agosto de 2026

"Poema do Camilo Pessanha"

No ano em que se celebra o centenário da morte de Camilo Pessanha...
Capa da primeira edição de
CLEPSYDRA / POÊMAS de Camillo Pessanha
 Edições Lusitania, 1920
Única obra poética publicada em vida do autor.

佩桑哈,卡米洛。
CLEPSYDRA / POÊMAS,里斯本,Edições Lusitania,1920年
第一版
非常罕见的版本,是作者生前唯一出版的诗作。
Em cima, um anúncio publicado em Maio de 1922 no jornal de Macau O Liberal. Embora não seja legível o livro estava à venda na Firma Tantino (agência comercial) localizada no Largo do Senado.

sexta-feira, 27 de março de 2026

Troço da Rua de Camilo Pessanha: década 1950

Os caracteres no topo do edifício à esquerda, lidos da direita para a esquerda - como era tradicional na época - são: 德成大按 (Tak Seng Tai On). Ou seja, a Casa de Penhores Tak Seng On (Virtude e Sucesso). Fundada em 1917, foi uma das maiores e mais ricas casas de penhores da cidade. O edifício não era apenas uma loja, mas uma verdadeira "fortaleza" de armazenamento. A estrutura alta e robusta (estilo torre) servia para proteger os bens empenhados contra roubos e inundações. As paredes eram extremamente grossas e as janelas pequenas por razões de segurança. Actualmente é um museu.
Na rua com calçada/paralelepípedos, em primeiro plano, um carteiro quase passa despercebido na rua bastante movimentada e densamente comercial. Nos neons das lojas destaca-se a "On Kei Hong - Tintas e Vernizes" e "Va-Cheong Fornecedor".
Nota: Ao contrário do que é habitual, Camilo Pessanha teve o seu nome numa rua pouco tempos depois de morrer em 1926. Para o efeito deixou de existir o topónimo Rua do Mastro.
A Rua de Camilo Pessanha começa na Rua das Estalagens e termina na Avenida de Almeida Ribeiro. É nesta última que está uma das fachadas da Torre/Casa de Penhores aqui referida.

terça-feira, 24 de março de 2026

Em busca de Pessanha: roteiro evocativo

Na edição nº 109 da Revista Macau (Março de 2026) assino o artigo "Em Busca de Pessanha" com um "roteiro evocativo" dos lugares alusivos ao jurista e poeta a propósito da celebração do centenário da sua morte.
Aceda à versão integral da revista aqui
Nota: nesta edição da Revista Macau assino ainda a autoria do artigo sobre o centenário da inauguração do edifício-sede do BNU em Macau.

quarta-feira, 18 de março de 2026

A residência de Camilo Pessanha na Praia Grande

 

O edifício a funcionar como escola
Foi aqui que Camilo Pessanha viveu muitos anos e morreu a 1 de Março de 1926. Ficava no número 75 da Rua da Praia Grande, no troço entre a Avenida Almeida Ribeiro e a Calçada de São João (ficava mesmo na esquina desta calçada). O edifício era constituído por dois pisos sendo o acesso feito por um páteo. A fotografia exibe já uma utilização do espaço como escola chinesa.

quinta-feira, 12 de março de 2026

Retrato a óleo de Camilo Pessanha por Pedro Barreiros

Retrato a óleo da autoria de Pedro Barreiros, 1976
No canto superior direito o "ex-libris" do poeta
 
A obra serviu como ilustração da capa do livro "Homenagem a Camilo Pessanha", editado pelo Instituto Português do Oriente - Instituto Cultural de Macau, com "Organização, prefácio e notas de Daniel Pires".

quarta-feira, 11 de março de 2026

Dois professores do Lyceu de Macau

Fotografia impressa pelos estúdios "Man-Fook Photographer", localizado no nº 1 e 2 "near the Steam Wharf", ou seja, junto ao Cais dos Vapores no Porto Interior, no Largo da Caldeira.
No cartão fotográfico o texto no topo está escrito da direita para a esquerda, como era tradicional na época.
Chinês: 萬福影相 Transcrição (Pinyin): Wàn fú yǐng xiàng
Tradução: Fotografia Man-Fook (ou "Mil Felicidades")
Na parte inferior 舖在澳門火船頭門牌第二號
Tradução: Loja situada no número 2 do Cais dos Vapores de Macau. (não refere o nº1)

Na fotografia tirada ca. 1899 estão Camilo Pessanha e João Pereira Vasco, na época dois professores do Lyceu de Macau. Tudo indica que se trata do pátio da residência de Pessanha na Praia Grande, junto à Calçada de S. João. Pessanha tem ao seu lado o cão Arminho.

Os dois fizeram parte do primeiro corpo docente do Liceu de Macau inaugurado em 1894 juntamente com Horácio Poiares, Mateus de Lima, Wenceslau de Moraes, entre outros. Em cima, a lista do pessoal docente do Lyceu em 1896.
Pereira Vasco, chegou a partilhar casa com Pessanha, era professor de Geografia e História, a 7ª cadeira do curso do Liceu. Desembarcou em Macau a 12 de Maio de 1894, tendo com ele viajado dois residentes de Macau que regressavam de Lisboa: João Nolasco da Silva, filho de Pedro Nolasco da Silva e Carlos Cabral, filho de João Albino Ribeiro Cabral.
Há outro registo fotográfico dos dois no mesmo local (parte dessa fotografia acima), sabendo-se que chegaram a viver na mesma residência. Pereira Vasco teve um papel muito activo no jornal O Lusitano. Na época existiam outros jornais como o Echo Macaense e A Voz do Crente.

sábado, 7 de março de 2026

Dois documentos com a assinatura de Camilo Pessanha

Requerimento de 1903
(na qualidade de professor)
 

Requerimento de 1903
(na qualidade de Conservador do Registo Predial)

sexta-feira, 6 de março de 2026

O jerinxá/riquexó de Camilo Pessanha

No mês em que se assinala o centenário da morte de Camilo Pessanha aqui fica mais post alusivo ao poeta.
Desaconheço o actual paradeiro do jerinxá/riquexó de Camilo Pessanha, meio de transporte utilizado pelo poeta na sua vida, incluindo segundo consta, nas deslocações até ao Liceu juntamente com o pequeno cão Arminho - no Largo de Santo Agostinho, no antigo Hotel Boa Vista ou no Tap Seac - onde foi professor durante muitos anos e por norma chegava atrasado às aulas. Ensino história e geografia, por exemplo. Terá também sido um riquexó como este usado pelo poeta à chegada a Macau, transportando-o do cais dos vapores Porto Interior, até ao hotel Hing Kee, na Praia Grande, a sua primeira morada no território.

O mesmo riquexó, página de um artigo da revista Macau em 1988.

Após a morte do poeta em 1926, o riquexó viria a fazer parte do espólio do Museu Luís de Camões. Em 1979 o riquexó foi exibido em Lisboa, no âmbito na iniciativa Quinzena de Macau, organizada pelo Fundação Calouste Gulbenkian.

domingo, 1 de março de 2026

1 de Março de 1926

Há 100 anos, a 1 de Março de 1926, uma segunda-feira, morria na sua casa na Rua da Praia Grande às 8 da manhã, o poeta português Camilo Pessanha (1867-1926), que, em Macau, foi durante muitos anos advogado, juiz, professor do liceu e coleccionador de obras de arte.
Duas horas depois parte substancial da sociedade macaense, ainda sem saber da notícia, comparecia para a inauguração do edifício sede do BNU, muito perto da casa onde vivia Pessanha. A cerimónia contou com a presença do governador de Macau, Maia de Magalhães, do bispo D. José da Costa Nunes, "e tudo quanto Macau conta de mais distinto", segundo uma notícia do jornal "A Pátria".
Imagem criada por IA

PS: Existem em arquivo várias publicações sobre os dois temas - basta utilizar o campo de pesquisa - e em breve publicarei mais.

quinta-feira, 19 de fevereiro de 2026

Em memória do pai...

Em Maio de 2019 a galeria At Light, no Pátio do Padre Narciso em Macau, acolhia a exposição "Casa das Duas Filhas - Fotos da Família de José Vicente Jorge".
As duas filhas (de José Vicente Jorge) que deram o mote à mostra eram Henriqueta* e Maria. As irmãs foram as mães dos primos Pedro Barreiros e Graça Pacheco Jorge que acabariam por casar.
Pedro e Graça são um exemplo na perpetuação da memória da história da família intimamente ligada a Macau. Basta lembrar livros como "A Cozinha de Macau da Casa do meu Avô" (1992), "Danilo no Teatro da Vida" (2010), "José Vicente Jorge: Macaense ilustre" (2012), entre outros, mas também inúmeras iniciativas de índole cultural, incluindo exposições com as pinturas de Pedro Barreiros que morreu a 15 de Janeiro de 2022.
Pintura de Pedro Barreiros: exposição em 2013

Miguel Barreiros, filho de Pedro, não teve oportunidade de ver esta exposição e após a morte do pai prometeu "dar continuidade" ao seu trabalho "para preservar a memória da nossa família de Macau e do meu bisavô, José Vicente Jorge".
Por estes dias recebi um e-mail do Miguel com votos de "Kung Hei Fat Choi! 恭喜發財" onde explica que o pai "tinha a tradição de celebrar o Ano Novo Chinês partilhando um desenho do animal do zodíaco que iniciava o seu ciclo". Na ausência física do pai, Miguel decidiu "retomar esse gesto em memória dele e em honra às nossas raízes de Macau. Partilho convosco este desenho que fiz inspirado nessa tradição e pela mestria dos seus traços. É a minha forma de o homenagear e de manter viva a sua arte e o seu espírito."
Aqui fica... Kung Hei Fat Choi e um abraço Miguel!
* Henriqueta Pacheco Jorge Barreiros - filha de José Vicente Jorge e mulher de Danilo Barreiros - foi aluna de Camilo Pessanha (1867-1926) em Macau. Henriqueta ambicionava ir estudar para Portugal mas o pai não concordava. Foi Pessanha que não só o convenceu como pagou uma mesada à estudante. 
Pedro Barreiros (1943-2022), filho de Danilo Barreiros e neto de José Vicente Jorge que foi amigo de Pessanha, revelou esta história em Outubro de 1990 aquando de uma exposição em Macau com pinturas suas sobre Pessanha: "Foi Camillo Pessanha, seu amigo e grande frequentador da sua casa que o conseguiu convencer a deixá-la partir estabelecendo-lhe uma mesada e escrevendo uma carta à sua irmã maçónica D. Ana de Castro Osório a recomendar a “gentil menina” e a pedir-lhe que a recebesse em sua casa. E assim a Tia Amália veio para Lisboa estudar Medicina, sob a égide do Poeta!"

quinta-feira, 22 de maio de 2025

"Clepsydra - Poema do Dr. Camilo Pessanha"

 

Na edição de 30 de Abril de 1922 do jornal O Liberal é publicado um anúncio ao "Clepsydra Poema do Dr. Camilo Pessanha". A "Firma Tantino" ficava no nº 17 do Largo do Senado. Na altura Pessanha (1867-1926) ainda vivia no território. Viria a morrer em 1926.

Nessa edição O Liberal republica ainda uma notícia do jornal Diário de Lisboa que inclui uma entrevista a Ana de Castro Osório onde ela explica como esteve na origem da publicação de "Clepsydra" em 1920 pelas Edições Lusitania.

quarta-feira, 28 de agosto de 2024

Récita em homenagem aos Gloriosos Aviadores

A 4 de Julho de 1924 o Grupo de Amadores de Teatro e Música organizou no teatro D. Pedro V uma homenagem aos protagonistas da primeira ligação aérea entre Portugal e Macau. Foi umas das muitas homenagens realizadas em Macau.
No programa da récita incluiu-se um texto do poeta Camilo Pessanha (1867-1926) que aqui se reproduz. De acordo com a imprensa da época não há registo da presença de Pessanha nas homenagens.
Programa impresso pelo tipografia Mercantil, de N. T. Fernandes e Filhos, 1924

"Associo-me comovido, como antigo residente da colónia, (mais de trinta anos de residência), às gerais manifestações de entusiasmo pela chegada triunfal dos ínclitos aviadores Brito Pais, Sarmento Beires e Gouveia. Pelas condições da sua realização, é a sua visita a mais honrosa que Macau recebe desde há séculos.
Toda a população desta remotíssima terra portuguesa estremeceu de patriótico júbilo ao saber que Macau foi a meta escolhida para a grandiosa prova de audácia esclarecida que os dois ilustres aviadores, assumindo para tal fim a representação da nação portuguesa, desinteressadamente se impuseram e que com tanta perícia, e tão deslumbrante êxito levaram a cabo.
Júbilo que não resultou apenas da satisfação de uma fútil vaidade, aliás justificável, de burgo, mas também, e principalmente, de todos compreendermos que o raid Lisboa-Macau foi utilíssima empresa para o prestígio do nome português no Extremo-Oriente, demonstrando do modo mais palpável às populações destes países distantes que Portugal ainda tem filhos capazes dos mais heróicos sacrifícios, dispõe de competências técnicas rivalizando com as das mais cultas nações e acompanhando, portanto, brilhantemente, o progresso do Mundo."
Camilo Pessanha no Teatro D. Pedro V, a 4 de Julho de 1924.

quarta-feira, 1 de março de 2023

João Pereira Vasco, Pessanha e Moraes

No dia em que se assinalam 97 anos sobre a morte de Camilo Pessanha (1827-1926), recordo o seu amigo João Pereira Vasco, que também fez parte do primeiro corpo docente do Liceu de Macau inaugurado em 1894 juntamente com nomes como Horácio Poiares, Mateus de Lima, Wenceslau de Moraes. 
Pereira Vasco, chegou a partilhar casa com Pessanha, era professor de Geografia e História, a 7ª cadeira do curso do Liceu. Desembarcou em Macau a 12 de Maio de 1894, tendo com ele viajado, de regresso da metrópole, João Nolasco da Silva, filho de Pedro Nolasco da Silva e Carlos Cabral, filho de João Albino Ribeiro Cabral.
Pereira Vasco e Camilo Pessanha em duas fotos tiradas por Man Fook ca. 1899
Em 1895 João Pereira Vasco é exonerado do cargo de professor do Liceu. Em 1900, na véspera de partir para Portugal, Pessanha dedica-lhe o poema "A Boémia não Morreu". Na obra Paisagens da China e do Japão Wenceslau de Moraes escreve: "Nos baldões da vida boémia, na confusa sucessão dos dias e das cenas, acontece que os factos, as coisas, os indivíduos, invocados pela pobre memória exausta, vão perdendo pouco a pouco as suas qualidades intensivas, as suas cores, os seus contornos, a sua feição própria, emancipando-se do real, como uma página de aguarela desmerece, solta e perdida no espaço e voando com as brisas; diluindo-se por fim n’uma emoção genérica, vaga, indefinível, – a saudade. – A essas duas grandes saudades, Camilo Pessanha e João Vasco, dedico hoje este livro."
Pereira Vasco colaborou ainda nos jornais "Único", "O Lusitano" e "Eco Macaense".

terça-feira, 29 de novembro de 2022

Troço da rua de Camilo Pessanha: antes e agora

Em cima um slide de um troço da Rua de Camilo Pessanha, nos anos sessenta do século 20, junto à Carvoaria Un Wo, e onde imperam os letreiros comerciais.
Nesta cena do quotidiano é notória a azáfama: desde as bicicletas aos peões que transportam mercadorias (sistema pinga) passando pela venda de rua, nomeadamente do lado direito, onde são perceptíveis as chamadas 'tendinhas' de comida.
Nos letreiros de publicidade destaco à esquerda (ao alto) os caracteres chineses a vermelho e preto da carvoaria Un Wo e que ainda hoje existe.
Podem ainda ver-se os anúncios ao "Vinho Chinês Kou Kam Kei", às tintas "Camel", às "Tintas e Óleos Iek Vo". Do lado direito, vê-se uma das tendinhas de comida montada na rua.
Aspecto do referido troço actualmente.
Neste outro troço da mesma rua na década de 1960 destaque para o estabelecimento comercial "I VO - Peixes de Estimação".

sexta-feira, 16 de setembro de 2022

Casa da Literatura da Macau / 澳門文學館拍攝

Numa das 10 moradias da Avenida do Conselheiro Ferreira de Almeida - nº 95 A/B - junto ao Tap Seac, é inaugurada este sábado a Casa da Literatura de Macau. Segundo o IC o espaço "tem como objectivo divulgar a produção literária local e construir uma plataforma de permuta na área da escrita através de um variado leque de exposições e eventos, promovendo assim o espírito criativo da literatura e impulsionando um desenvolvimento cultural inovador."
A Casa da Literatura (Foto IC)

A Casa foi construída nos anos 20 do século passado e inicialmente era utilizada como residência de funcionários públicos, contando-se actualmente entre os bens imóveis classificados de Macau. O edifício de dois pisos apresenta características típicas de estilo português, dispondo de uma sala de exposições permanente, uma sala de leitura, uma sala de exposições temáticas, salas polivalentes, um jardim interior e um jardim exterior.
A sala de exposições permanente apresenta a evolução da literatura local, exibindo as obras e os manuscritos originais de vários escritores influentes e poetas chineses e portugueses, nomeadamente, Tang Xianzu, Wu Li, Luís Vaz de Camões e Camilo Pessanha.
Segundo alguns historiadores Luís Vaz de Camões (1524-1580) terá passado por Macau e escrito na cidade parte da obra "Os Lusíadas". O poeta Camilo Pessanha (1867-1926) viveu quase 30 anos em Macau, onde morreu e está sepultado.
Tang Xianzu (1550-1616), conhecido como o Shakespeare chinês, cuja maior obra, "O Pavilhão das Peónias", inclui uma cena inspirada em Macau; o poeta e pintor Wu Li (1632-1718), foi um dos primeiros padres jesuítas chineses, após estudar no Colégio de São Paulo, em Macau.

quinta-feira, 14 de julho de 2022

O 'empréstimo' do espólio de Camilo Pessanha

Com o título "Não Concordamos", o editorial do jornal Gazeta de Coimbra de 18 de Agosto de 1928 insurge-se contra a ida do espólio das peças doadas por Camilo Pessanha ao Museu Machado de Castro para a Exposição de Sevilha que se realizou em 1929.
"Ao Museu Machado de Castro foram doadas pelo benemérito Camilo Pessanha, que faleceu em Macau, grande quantidade de preciosas louças, que há pouco chegaram a Lisboa e que, por deliberação da direcção do Museu, e em virtude de pedido que lhe foi feito, seguirão directamente para Sevilha, para figurarem na exposição que ali se realiza.no próximo ano. O facto tem sido estranhado e com determinadas razões, não só porque o precioso legado devia em primeiro lugar dar entrada no Museu Machado de Castro, a que por direito pertence, para ser devidamente catalogado, mas também porque se ignora o estado em que ele se encontra dentro dos caixotes em que foi transportado para Lisboa. 
Temos muito respeito e consideração por quem se encontra á frente da administração do Museu, mas temos também muito amor ao que ali existe e ao que lá pertence, que é de nós todos, que é pertença da cidade, que muito se orgulha com as preciosidades que dentro de si alberga, que são admiradas por nacionais e estrangeiros. Dispor delas é facto com que não concordamos, e muito mais ainda quando é ignorado o seu valor real e a sua quantidade, como acontece á oferta feita por aquele amigo do Museu e grande amigo de Coimbra. 
Empréstimos de preciosidades para figurarem em exposições, é caso que se não amolda com a nossa forma de pensar. Na exposição de Sevilha devem figurar produtos da s industrias em laboração na presente época para se tornarem conhecidas de quem a visita.
Preciosidades históricas ou artísticas de épocas remotas ou de industrias que finalizaram, essas só nos Museus devem ser vistas. A exposição de Sevilha, trás a Portugal milhares de indivíduos que a ela se dirigem, sendo Coimbra uma das terras escolhidas para a sua visita, onde por eles serão apreciadas todas as jóias que aqui possuímos, no numero das quais podem figurar as louças oferecidas pelo benemérito Camilo Pessanha e que pretendem enviar para Sevilha. E isto de empréstimos para exposições é coisa que não concordamos, repetimos. (...)
Reza a história que com esta decisão algumas peças 'perderam-se' para sempre e outras ficaram danificadas após a permanência em Espanha. Ainda assim, podem ser vistas no Museu do Oriente em Lisboa (imagens abaixo) centenas de obras de pintura e caligrafia doadas por Camilo Pessanha ao Estado português - no caso ao Museu Machado de Castro, de Coimbra, de onde era o poeta - pouco antes de morrer. Da doação de 1926 contam-se dezenas de porcelanas, bronzes, cloisonné e álbuns de pintura. 
Já antes, em 1915, na última viagem que fez a Portugal, Pessanha doara inúmeras peças ao Museu Nacional de Arte Antiga: rolos de pintura, peças de vestuário, bronzes, frascos de rapé e porcelanas. Foram depois enviadas para o Museu Machado de Castro que também recebeu as peças doadas em 1926.

domingo, 8 de maio de 2022

Dois livros de Danilo Barreiros

"A paixão chinesa de Wenceslau de Morais" é um livro da autoria de Leopoldo Danilo Barreiros editado em Lisboa pela Agência Geral do Ultramar em 1955.


















"O Testamento de Camilo Pessanha", de Danilo Barreiros, edição de 1961 (Bertrand) com capa de de Pedro Barreiros (1943-2022).
"(...) Na realidade Camilo Pessanha deixara-se dominar completamente pelo vício que os chineses dizem ser dos “virtuosos”. Estivesse onde estivesse, mesmo no tribunal, como Juiz ou advogado, Camilo Pessanha, chegada a hora de fumar o ópio, abalava alucinado, para satisfazer o invencível desejo que o torturava. Magro, esquálido, a barba hirsuta, o cabelo colado à testa, semi-nu sobre o leito, aspirando voluptuosamente o longo cachimbo sobre a chama amarelada da lâmpada de cristal, que lhe projectava a sombra desfigurada nas paredes obscurecidas, tendo no semblante a expressão hipnótica dos opiómanos, Camilo Pessanha parecia ter surgido das espirais de fumo do milenário incensador de bronze onde queimava sândalo aos Budas, demónios, guerreiros e filósofos que lhe assombravam o quarto. Os olhos fulgurantes, dilatados, denunciavam a vida intensa do seu espírito ávido de beleza que, nesses momentos, desprendido da matéria inerte, planava livremente no Mundo irreal que só ele conhecia. (...)"

domingo, 16 de janeiro de 2022

Pedro Barreiros: 1943-2022

Pedro Manuel Pacheco Jorge Barreiros nasceu em Macau a 14 de Agosto de 1943. Descendente de uma ilustre família macaense - filho de Leopoldo Danilo Barreiros e Henriqueta Pacheco Jorge - licenciou-se na Faculdade de Medicina de Lisboa. Ainda jovem foi viver para Portugal.
Ingressou no quadro de Oficiais Médicos da Força Aérea Portuguesa em 1968. Como médico militar, fez uma comissão em Angola e foi cooperante técnico-militar em S. Tomé e Príncipe.
Em 1997 foi promovido a Major General Médico e Director de Saúde da Força Aérea em 1997.
Para além de médico foi ainda professor, dinamizador cultural, diigente associativo, escritor e pintor. Dizia que a arte da pintura surgiu em criança com um mestre chinês. Fez várias exposições não só em Macau como também em Portugal.
Outra das suas paixões era a escrita sendo um admirador e profundo conhecedor da obra de Venceslau de Moraes* e de Camilo Pessanha, personagens que também abordou na pintura.
Fez a primeira exposição individual no Porto, em 1974, estando representado em colecções particulares e oficiais, em Macau, Portugal, Angola, Brasil, Cabo Verde, S. Tomé e Príncipe, Estados Unidos, França, Itália e Vaticano.
Tendo ido muito jovem para Portugal só regressou a Macau na década de 1990, um regresso  que repetiu várias vezes e assinalado na mostra "Macau fui eu que nasci".
“Durante esses mais que quarenta anos vivi sempre em Macau, nessa cidade em que tinha nascido e que tinha, ao longo desses mesmos anos, construído dentro de mim e a que regressei em Outubro de 1990.
Quando desembarque do ‘hovercraft’ de Hong Kong senti-me, como se nunca tivesse saído de Macau, envolvido pelo calor húmido do Outono pelos cheiros, pelo ruído permanente com a musicalidade do falar cantonense.
Desde esse primeiro retorno, após os vinte e três anos que tinham passado, e nos que se seguiram, eu e a Graça vimos a metamorfose brusca que se deu em Macau cada vez que desembarcámos, sempre com uma emoção crescente.
Quadriculámos centenas de vezes a cidade horas a fio por dia, encontrando nos nossos passeios os sinais que sabíamos da nossa cidade construída e sonhada, pelas nossas recordações, leituras, conversas e imaginação.
Com um bloco de papel e uma caneta ou um lápis, parava de vez em quando para desenhar, fixando alguns ângulos como tinha por costume fazer em todas viagens que fiz.
Reproduzi inúmeras vezes as mesmas cenas, sobretudo em sítios em que me pudesse sentar ao ar livre a descansar um pouco dos quilómetros andados (o que cada vez, em Macau, se vai tornando cada vez mais difícil, mesmo a pé, sobretudo ao fim de semana e nas zonas mais centrais).
Essa série de blocos de desenho a preto e branco, tornaram-se, quando de regresso a Lisboa, os pontos de partida para os regressos de todos os dias a Macau.”
É autor do romance biográfico “Danilo no Teatro da Vida”, sobre o pai, Danilo Barreiros. Em parceria com a mulher, Graça Pacheco Jorge Barreiros, assinou a fotobiografia do avô “José Vicente Jorge - Macaense Ilustre”. Juntos assinaram ainda a autoria do guião do documentário “Macau, uma Paixão Oriental”, realizado por Francisco Manso. Foi também Pedro Barreiros que escreveu o capítulo introdutório de “Notas sobre a Arte Chinesa”, de José Vicente Jorge (primeira edição é de 1940).
Foi professor de Fisiologia da Escola de Serviço de Saúde Militar, assistente convidado da Faculdade de Ciências Médicas da Universidade Nova de Lisboa, nas cadeiras de Patologia Médica e Clínica Médica, professor convidado da Faculdade de Medicina da Universidade de Lisboa, na cadeira da Iniciação à Clínica e regente da cadeira de Patologia Geral nos cursos de Saúde da Universidade Atlântica. Apresentou trabalhos científicos em congressos médicos realizados em vários países e publicou estudos e artigos em jornais e revistas de Medicina, Arte e Cultura.
* Foi comissário das comemorações de 150º Aniversário do Nascimento de Wenceslau de Moraes e fundador da Associação Wenceslau de Moraes.
Pessoalmente, só posso agradecer a paciência com que sempre me recebeu em sua casa, tal como a sua mulher, Graça Pacheco Jorge (uma autoridade em termos de gastronomia macaense), e nunca irei esquecer a forma apaixonada como falávamos de Macau,  da sua história e do pai, Danilo Barreiros. Isto, claro está, para além da minha profunda admiração pelos seus quadros. Demorei até lhe pedir um para mim. Pequenino que fosse. Por vicissitudes várias nunca se concretizou mas sei que quando nos encontrarmos o fará. Pedro Barreiros morreu este sábado. Tinha 78 anos. Até sempre Pedro. E obrigado por tudo!
Com a sua partida perde Macau mais um ilustre macaense.

quinta-feira, 29 de abril de 2021

A visita de Vicente Blasco Ibanez: 1ª parte

“Se me perguntarem qual a sensação mais profunda e duradoura da minha viagem à volta do mundo, talvez afirme que é a viagem de Macau a Hongkong, sobre um mar adormecido como uma lagoa, sob a cúpula duma noite esplendorosa, com o incentivo de avançar no mistério, rodeando perigos e quase ao nível das águas”.
O excerto faz parte da obra "La Vuelta al Mundo de un Novelista” editada em 1924/25 em três volumes e baseada numa volta ao mundo feita pelo escrito espanhol Vicente Blasco Ibanez (1867-1928) a partir de Outubro de 1923 a bordo do "Franconia". 
O 1.º volume é dedicado aos “Estados Unidos-Cuba-Panamá-Hawai-Japão-Corêa-Mandchúria“; o 2.º é sobre a “China-Macau-HongKong-Filipinas-Java-Singapura-Birmânia-Calcutá“; e o 3º é dedicado a “Índia-Ceilão-Sudão-Núbia-Egito”.
Macau surge no segundo volume.
Em Portugal foi traduzido como "A Volta ao Mundo" e teve a primeira edição em 1931.

Nome maior da arte e cultura espanhola, Blasco Ibanez licenciou-se em direito, foi escritor, jornalista e político. Inicia a sua carreira literária escrevendo em catalão, mas depois passa a escrever em castelhano. Tem alguma actividade política, aderindo ao republicanismo federalista. Desenvolve uma intensa actividade como jornalista e orador, destacando-se na sua juventude como agitador democrático e anticlerical. Em 1891 funda o jornal El Pueblo, criando depois as editoras Prometeo e Sempere, a partir das quais leva a cabo um importante trabalho de divulgação cultural e política entre as classes populares. Em 1909 vai para a Argentina, criando ali duas colónias agrícolas que fracassam economicamente. Em 1914 estabelece-se em Paris e a partir de 1920 faz várias viagens aos Estados Unidos, onde é nomeado doutor honoris causa pela Universidade de Washington. Em desacordo com a política do ditador Primo de Rivera, sai de Espanha e fixa-se em Nice.
Com mais de 40 livros publicados tornou-se mundialmente conhecido devido à adaptação para o cinema de títulos como “Os Quatro Cavaleiros do Apocalipse“/“The Four Horsemen of the Apocalypse), 1921 e "Sangue e Areia" / "Blood and Sand" (com Rodolfo Valentino), 1922.
"Esteve de visita a Macau o conhecido romancista espanhol Blasco Ibanez", é o que escreve a imprensa macaense a 13 de Janeiro de 1924. Em Portugal o Diário de Notícias também dá conta dessa visita: "No dia 13 deste mez desembarcou em Macau o grande escriptor hespanhol Blasco Ibanez. O governador da província, avisado da sua chegada por um telegramma do cônsul de Portugal em Hong-Kong, enviou ao cáes o seu chefe de gabinete, para lhe dar as boas vindas, e offerecer-lhe a hospitalidade que o governo da Republica da colônia entendia dever prestar a tão distincto embaixador da Arte." 
O excerto  também faz parte de um manuscrito intitulado "Notas de Reportagem", sete páginas escritas para o governador de Macau na altura (e revistas por ele), Rodrigo José Rodrigues (1923-1925), que conhecera Ibanez 14 anos antes. Tomé Pires é quem assina o artigo que também seria publicado na edição do jornal brasileiro "A Noite" de 26 de Maio de 1924.
É mais uma prova de que Ibanez se encontrou com Camilo Pessanha e Manuel da Silva Mendes, sendo o próprio governador a acompanhá-lo aos locais mais emblemáticos do território, incluindo o verdadeiro motivo da sua viagem, a Gruta de Camões.
A 12 de Janeiro de 1924 chega a notícia ao Palácio do Governo. Um telegrama do cônsul de Portugal em Hong Kong informa: "Blasco Ibanez chega amanhã Sui An". O Sui An era um dos vapores que assegurava a ligação marítima entre Macau e a colónia britânica.
E assim foi. Às 13 horas de um domingo "luminoso e tépido" desembarcou no Porto Interior tendo à sua espera o chefe de gabinete do governador "para lhe transmitir, com as melhores boas vindas, uma ordem expressa de ficar preso da hospitalidade que o Governo da República na Colónia entendia dever prestar a tão distinto embaixador da Arte."
Ibanez aceita o convite e dirigem-se ao Palácio do Governo de carro através da Avenida Almeida Ribeiro.
À chegada ao palácio, do "grupo de limitadas pessoas escolhidas para lhe fazer companhia durante a permanência em Macau", constam Camilo Pessanha, "o subtil poeta", Manuel da Silva Mendes, "o erudito cultivador e coleccionador da arte chinesa", e António de Meireles, "espírito delicado e vice-presidente do Conselho Legislativo".
Ainda segundo as "Notas de Reportagem" depressa "generalizou-se a conversa em tom de intimidade" com Ibanez a perguntar ao Governador por Bernardino Machado, Afonso Costa, Magalhães Lima, a política em Portugal (onde o escritor ainda iria) e em Espanha...
Ibanez diz que a "A República é uma forma política dentro da qual as conquistas sociais, económicas e outras se podem desenvolver naturalmente sem sobressaltos. É preciso, portanto, que esteja estabelecida a tempo... senão tomam maior vulto as questões que dentro dela se podiam desenvolver. Está a suceder isso com a questão económica. As democracias que se implantaram tarde serão as primeiras a experimentar o atraso que lhe fizeram as classes que o não souberam compreender e adaptar-se". Dá o exemplo da Rússia e teme que o mesmo venha acontecer em Espanha.
"Usa um pequeno bigode (...) não fuma (...) aspecto magnífico" são as palavras das Notas de Reportagem para descrever Ibanez. Fala-se ainda de arte e música. Ibanez adora fado. A certa altura o escritor espanhol vira-se para Pessanha e pergunta: "Estava a ver que me lembrava (Guerra) Junqueiro". E Pessanha responde: "Só exteriormente". Terminada a conversa fica assente que Ibanez só regressaria a Hong Kong (e dali para as Filipinas) à noite, depois de jantar no Palácio do Governo. Até lá, o governador leva-o a passear numa visita guiada pelo território. "Sabe, esta visita a Macau faz parte de um largo plano que trago em laboração. ando numa viagem à volta do mundo, mas não me conduz só o diletantismo. A História, a Arte, a Vida.. são coisas que não se fazem na cozinha, como julgam e fazem tantos outros que escrevem. é preciso senti-las... vivê-las..." confessa Ibanez ao governador no início do passeio marcado por "uma conversa sempre animada e amiga, como entre velhos camaradas", testemunha o autor das Notas.
A primeira paragem é feita no Jardim de Camões onde o governador resume as façanhas dos portugueses até chegarem a Macau no início do século 16. Já na gruta, Ibanez presta homenagem ao poeta "que tão bem conhecia". Um grupo de portugueses ouvia música num gramofone e colocara os chapéus no busto de Camões algo que desagradou ao governador. Nas Notas escreve-se que Ibanez "na sua generosidade esquecerá certamente" o episódio.
Dali a viagem prosseguiu "até à histórica fortaleza do monte" e "pelas obras já concluídas do porto novo" e às "em plena actividade grandes obras do porto exterior". Para o governador "dentro de três a cinco anos Macau poderá voltar a ser um grande entreposto marítimo." Ibanez estranha tal facto não ser conhecido no Ocidente e promete ajudar nesse sentido: "Contem comigo, com a minha pena e as minhas relações..."
"Dali, porque a tarde avançava, foi-se em romagem à Colina da Guia, onde se ergue o primeiro farol que a civilização ocidental, pela mão dos portugueses, acendeu nas praias do Oriente". A vista proporcionada era deslumbrante acentua o governador. "Tombava uma tarde gloriosa de luz, de suavidade e harmonia. (...) Macau oferecia um espectáculo inolvidável, matisada do rubro poente em que o sol se afagava, explodindo entre a Lapa, e Ma-Lau-Chau até à côr glauca do mar e rôxo escuro da noite, vindo das Nove Ilhas e dos montes do Catai, de onde Marco Polo tirou o nome da China."
Fez-se noite e a "cidade salteou-se de luz electrica". Tinham de prosseguir o passeio e "descer para irmos ver as magníficas collecções de arte chineza do Dr. Silva Mendes e para apanhar em flagrante o Macau phosphorescente de fantan (jogo), de culaus (restaurantes) e do ópio."
Ao fim de duas horas, às 8 da noite, estava tudo pronto para o "jantar despido de protocollo" oferecido pelo governador. "À mesa conversou-se como em família. Ibanez falou da guerra e dos seus projectos literários futuros..."
O navio que levaria Ibanez para as Filipinas não tardaria a zarpar de Hong Kong pelo que o repasto foi de curta duração. "Eram dez horas da noite, quando na ponte da capitania * o illustre visitante se despediu do governador e entrou na lancha 'Coloan' do governo, posta às suas ordens para o conduzir a Hong Kong". 
Blasco Ibanez despede-se com um "Adios! Hasta Siempre!"

* ponte-cais nº1, junto ao actual Museu Marítimo.