segunda-feira, 23 de julho de 2018

Edifício Rainha D. Leonor: breve história

O edifício "Rainha D. Leonor" foi projectado pelo arquitecto de Hong Kong, Lei Lee, em 1959. 
O edifício ocupa uma área de 500 metros quadrados, tem 44,05 metros de altura (12 andares) e lojas no piso térreo. À época, e durante mais de uma década, foi o edifício residencial mais alto de Macau.
Trata-se muito provavelmente do primeiro edifício residencial e comercial construído de raiz no território tendo a particularidade única de ser o único constituído por 24 apartamentos duplex com varanda.
O design de todo o edifício é minimalista e influenciado pelo modernismo reminiscente da Unité d'Habitation de Le Corbusier. 
A construção foi concluída em 1961 e deve-se à Santa Casa da Misericórdia de Macau, criada pela rainha D. Leonor, regente do trono em Portugal, em 1498. Em Macau a Santa Casa foi criada por volta de 1568 por D. Belchior Carneiro.

domingo, 22 de julho de 2018

O Mundo que os Portugueses criaram

“O Mundo que os Portugueses criaram” é o título de um livro da autoria do jornalista e escritor Armando de Aguiar, editado pela Empresa Nacional de Publicidade em 1951.
Nas 648 páginas é dedicado um capítulo a Macau “Macau – Janela do Ocidente aberta sobre o Oriente”, com nove páginas profusamente ilustradas.
O livro contou com a revisão histórica de Caetano Beirão e teve várias edições ao longo dos anos.
A mais recente edição é de 1984 - J. M. Barbosa - com direcção gráfica de Alfredo Calderon Dinis e desenhos de Fernando Cruz, Luís Osório e José Figueiredo Sobral.
De seguida apresento alguns excertos do texto. As imagens são da época de 1950 mas não as que estão no livro.
Sobre esta edição Caetano Beirão escreveu:
"A ideia felicíssima de Aguiar, de percorrer todos os lugares do Mundo onde se encontram parcelas de portugueses em território português, núcleos de portugueses encravados em países estranhos, ou vestígios da passagem de portugueses ou do génio português gravados em monumentos, em civilização, em tradições e até na linguagem dos nativos; de nos dar conta dos seus conhecimentos, das suas impressões, da sua vibração ente a criação prodigiosa - ia a dizer milagrosa - da nossa Raça, através dos mares, através dos continentes, e através dos séculos, - é uma ideia tão grandiosa e patriótica que assegura o êxito deste volume e o reconhecimento de quantos vão ver nele uma síntese colorida, animada, e ao mesmo tempo sentida, da peregrinação assombrosa dos Portugueses por sobre a face da Terra. (...)”


“Macau, a mais longínqua e a menor das províncias do Império Português, é, proporcionalmente a qualquer das outras de além-mar, a mais complicada na sua estrutura política e social. Trata-se de uma cidade onde vivem para cima de 340.000 chineses e onde entram, diariamente, quer atravessando as históricas Portas do Cerco, quer desembarcando dos milhares de juncos, lorchas e sampans que navegam, airosamente, em volta de Macau, mais de 10.000, o que dá à Cidade do Santo Nome de Deus a categoria de terceira do Império Português. Antes estão Lisboa e Porto. De maneira que governar Macau é função difícil para cujo cargo se necessita de alguém que possua as indispensáveis qualidades de inteligência, cultura do meio chinês e, em especial, tacto diplomático. Lembremo-nos que tem de lidar com um povo subtil, de reacções demoradas por serem longamente pensadas e por traduzirem a inspiração transmitida pelos deuses budistas na silenciosa tranquilidade de um pagode. A acrescentar, ainda, que Macau tem sido sempre um excelente posto de observação para quem se queira debruçar sobre a China. (…)

Ao chegar a Macau fui agasalhado com inequívocas provas de simpatia e amizade pelo então governador, comandante Albano de Oliveira, que muito me sensibilizaram. A seu convite e na sua companhia realizei um longo passeio de automóvel pela cidade. E acentuo longo porque ao cabo de três horas, com paragens aqui e acolá, ainda não havíamos terminado de percorrer os 70 quilómetros de estradas, avenidas, ruas e caminhos que cortam Macau em todos os sentidos, sem referência, já se vê, às centenas de ruazinhas, ruelas, travessas e becos que formam um verdadeiro labirinto onde vive a numerosa população chinesa. Primeiro foi o alto da Guia que me deslumbrou com o cenário maravilhoso que dali se desfruta. Um farol, o primeiro que se ergueu no Oriente, continua na sua missão de paz. Ao lado, a histórica capelinha da Guia, lugar obrigatório de peregrinação de quantos homens iam para o mar. Em nossa volta desdobrava-se a minúscula Macau, formigueiro humano que nunca abandona as ruas, enquadrada por um panorama deslumbrante. Não ocultei a minha primeira exclamação de entusiasmo pelo encanto do cenário que se desdobrava em torno de mim. Macau é, realmente, uma cidade cheia de interesse e beleza. Visitei-a à vontade. Percorri-a de lés a lés. Entrei em contacto com o povo chinês e fui aos seus bairros. Verifiquei encontrar-me numa cidade de trabalho em que a política sem elevação foi de há muito posta de parte. O principal problema que ainda hoje continua a preocupar o actual governador, almirante Marques Esparteiro, é dar solução aos problemas pendentes, muitos dos quais foram profundamente alterados com a última grande guerra. O ritmo de trabalho que observei nos vários departamentos do Estado era uma garantia segura de que em Macau havia calma e confiança, e o nosso exemplo de serenidade – porque nada há que nos force a não sermos serenos – dá aos chineses a certeza de que podem continuar a realizar os seus negócios sem receio de qualquer crise que os obrigue a emigrar para outras paragens. (...)
É fácil de compreender a simpatia que o Chinês nos dedica. Em quatro séculos de permanência portuguesa em Macau, sempre lhe demos o nosso afecto cristão e nunca o tratámos como raça inferior. Antes pelo contrário. Quantos dos nossos missionários, comerciantes e militares não se sacrificaram pela China? A nossa obra de civilização no Oriente, que teve a sua origem em Macau, é digna da maior admiração e de Macau partiram preciosas ajudas para os governos de Pequim quando eles as solicitaram. Auxílios em homens de ciência e eficiência militar. Mesmo hoje, o chinês que sofre as contingências das oscilações políticas é em Macau que encontra o centro de refúgio, sabendo que ali uma bandeira – a portuguesa – o protege contra qualquer desacato.
Nesse meu primeiro contacto com Macau penetrei numa das mais concorridas artérias da cidade, a Avenida Almeida Ribeiro, repleta de comércio e onde uma multidão heterogénea fala, gesticula e oferece os seus produtos. Observei então que desde a primeira autoridade – o governador – ao mais simples cidadão qualquer indivíduo pode andar à vontade nas ruas da cidade sem o mais pequeno receio.
Há́ ordem e respeito e as nossas boas relações com os vizinhos permitem-nos trabalhar com calma, sem receio do futuro, que só́ a Deus pertence. O espírito da população é elevado porque conhece o meio em que vive e porque já́ passou pela pior das provações, quando do cerco que os japoneses fizeram a Macau, procurando impedir, por todos os meios ao seu alcance, a entrada dos géneros alimentícios de primeira necessidade. Foi nessa altura que os nossos amigos chineses deram uma das provas mais eloquentes da sua sincera amizade por Portugal, por quantos ali se encontravam, que, sem eles, morreriam à fome. Com risco da própria vida e ludibriando, o mais possível, a feroz vigilância das sentinelas japonesas, introduziam todas as noites, quase sempre atravessando os rios, tudo quanto Macau necessitava para dar de comer a cerca de 500.000 pessoas que se tinham abrigado sob a protecção da bandeira nacional.
Eu acredito na amizade dos chineses por Portugal. De quantos povos europeus têm procurado fixar-se na China, nós, portugueses, fomos os únicos que sempre respeitámos as suas nobres tradições e prontamente compreendemos o que é lidar com chineses.
Quando ali chegámos, no século XVI, fomos encontrar uma civilização adiantadíssima. Foi preciso haver da parte dos nossos antepassados muita diplomacia e muita firmeza de carácter para que o Chinês não sofresse de nós o que às vezes sentimos de certos indivíduos com quem tratamos: desilusão. Realmente foi essa a grande vitória do génio português no Extremo-Oriente: haver-se imposto como povo civilizado, a uma civilização que se bem que não estivesse no seu apogeu era, no entanto, ainda bem superior, em certos aspectos, à civilização ocidental, após o longo período da Idade Média. (...)
O automóvel levou-me depois até às famosas Portas do Cerco. Transpostas estas, uma barreira de arame farpado diz-nos ser ali que termina a fronteira mais avançada de Portugal, no Mundo. Alguns soldados de Angola e Moçambique procediam à limpeza do terreno enquanto outros trabalhavam na construção de novos fortins.
Dei em seguida uma volta pelos cais, ao longo de uma floresta de mastros e juncos, lorchas e sanpans, no meio de uma vozearia de pregões, tilintar de ferrinhos, gritos dos coolies que puxam típicos rickshaws, de toda aquela gente que vive do mar e no mar e vem a terra vender os seus produtos e comprar outros. Acabava de ser construída nessa altura uma elegante e enorme gare marítima de um chinês rico, o Sr. Fu Tak Iam, para os seus navios da carreira com Hong-Kong, e grandes armazéns, mais abaixo, estão a ser levantados. Qualquer das obras custa milhões de patacas, que o Chinês gasta sem receio, confiado, como está, na boa administração portuguesa.
Visitei mais tarde o liceu e duas ou três escolas primárias. Havia uma alegria saudável nos rostos daqueles rapazes, alguns filhos de europeus mas outros, na sua maioria, chinesinhos de olhos enviesados. O movimento escolar é grande. As escolas primárias, o liceu e ainda os colégios particulares entregues a religiosas e aos irmãos salesianos estão cheios. A instrução é a principal riqueza que naquelas bandas do Mundo e nesta época um pai pode e deve deixar aos filhos. (…)
Pode ainda dizer-se que em todas as circunstâncias graves para Macau, provenientes das periódicas crises chinesas, a Cidade do Santo Nome de Deus tem passado incólume e salvo sempre o prestígio de Portugal. Já́ isso aconteceu durante a dominação filipina, em que a bandeira nacional nunca deixou de estar hasteada na Fortaleza do Monte; já́ quando dos repetidos assaltos dos holandeses em 1601, 1603, 1604, 1607 e 1622; já ainda quando do cerco nipónico na última grande guerra, em que foram postas frente a frente, num jogo de inteligência, a diplomacia japonesa, representada por aqueles que haviam criado em Macau um movimentado consulado, e o patriotismo e a inteligência das nossas autoridades. Macau é o penhor mais valioso do prestígio e da honra portuguesa no Extremo-Oriente. Nunca até hoje, entre Chineses e Japoneses, Filipinos e Javaneses, Malaios e Siameses, Indo-chineses e Cambojanos; do Tibete a Pequim e da Formosa a Hanoi, se falou de Macau sem que prontamente não se lhe ligasse o nome de Portugal. (...)
Não podia deixar Macau sem realizar uma peregrinação histórica: visitar a célebre gruta onde a tradição afirma que Camões iniciou o seu imortal poema Os Lusíadas. Situada no meio de um jardim sempre florido e dominando um panorama deslumbrante sobre a cidade e o porto, a gruta do Épico constitui ou um milagre das forças da Natureza, que colocaram em forma trapezoidal três enormes lajes, duas laterais e uma horizontal a servir-lhe de tecto, ou representa o trabalho hercúleo de alguns homens que para ali carrearam aqueles três monólitos e os dispuseram com jeito de abrigo. A ser verdade ter Camões estado realmente em Macau como Provedor dos Defuntos e dos Ausentes, nada nos deve repugnar acreditar haver sido ali, com efeito, onde se recolhia nas horas de lazer para meditar, relembrar-se da Pátria distante, dos poucos entes queridos que cá deixou e das horas de desventura que sofreu quando sonhou com a epopeia épica do povo lusitano e lhe deu forma para maior glória de Portugal através d’‘Os Lusíadas’.
Inspirado nesta legenda pronunciei em véspera de deixar Macau, junto da gruta, algumas palavras sobre o Príncipe dos Poetas portugueses, defendendo o princípio de que era preferível deixar viver uma lenda já́ arreigada no sentimento do povo chinês, em como Camões havia vivido na Cidade do Santo Nome de Deus, do que destruí-la com a verdade histórica de jamais o imortal poeta haver sofrido e amado naquela terra secularmente portuguesa. Também por ali passou e ali versejou o insigne Manuel Maria Barbosa du Bocage, Elmano Sadino, cuja presença foi igualmente assinalada em Cantão, onde se rendeu de amores por uma chinesinha de olhos lânguidos e alma romântica. Que alguma coisa ficou em Macau da passagem espiritual desses dois génios da intelectualidade portuguesa prova-o o facto de ser intensa a actividade cultural na Cidade do Santo Nome de Deus, como me foi dado observar, e em que generosamente assumiu o invejável papel de Mecenas o brilhante intelectual e grande português Dr. Pedro Lobo, que à Pátria tem prestado, em ocasiões difíceis, os mais relevantes serviços.
Macau é ainda um alto padrão do velho prestígio português na Ásia, bastando citar as ruínas da igreja da Madre de Deus, vulgarmente conhecida por S. Paulo, de 1602, e destruída por um incêndio em 26 de Janeiro de 1835; os monumentos a Ferreira do Amaral, governador assassinado por chineses a 22 de Agosto de 1849, e ao tenente Vicente Nicolau Mesquita, o bravo conquistador do forte de Passaleão; e o monumento comemorativo da brilhante série de vitórias das armas portuguesas sobre os holandeses, coroada pela grande derrota que no dia 24 de Junho de 1622 a fraca guarnição de Macau infligiu ao almirante Willem Ysbrandsz Bontikoe, quando fez ir pelos ares o navio do seu comando, o Gromingen, abatendo para sempre a soberba do batavo.”
“Num dos navios do magnate macaense Sr. Fu Tak Iam fiz-me transportar a Hong-Kong. O braço amigo do Dr. Eduardo Brasão levou-me a visitar a cidade e os arredores, incluindo Kowloon, que em chinês quer dizer ‘nove dragões’, de Kow (nove) e Lung ou Loon (dragões). E levou-me também a transpor as páginas da história pátria no que diz respeito à presença de Portugal no ‘Porto Perfumado’. Numa das barulhentas e policromas ruas da cidade chamou-me a atenção uma casa revestida de azulejos de aspecto português. Dei- me à curiosidade de investigar a sua origem e apurei serem, realmente, de origem nacional, fabricados em Aveiro. O Clube de Recreio, em Kowloon, é uma afirmação do espírito social da comunidade portuguesa, assim como o Clube Lusitano, fundado em 1866, marca um lugar do mais alto relevo entre as instituições culturais que exaltam e prestigiam o nome de Portugal em países estrangeiros. Pois foi dentro das veneráveis paredes daquela patriótica instituição que o actual secretário nacional da Informação fundou, em Novembro de 1947, o douto Instituto Português de Hong-Kong, destinado à divulgação da nossa cultura naquela colónia britânica, onde, graças ao fecundo impulso que desde o início lhe foi dado por aquele brilhante diplomata, têm sido versados os principais problemas relacionados com a obra da inteligência em Portugal, no passado e no presente. O Instituto Português de Hong-Kong deve ser considerado o remate da obra de defesa da língua de Camões naquela colónia inglesa, onde vivem cerca de mil portugueses. O Instituto e a Escola de Camões, também patriótica iniciativa do Dr. Eduardo Brasão, constituem dois instrumentos onde vibra a alma de Portugal.”

sexta-feira, 20 de julho de 2018

Envelope timbrado do Comando da Defesa Marítima de Macau


Decreto-lei 41990, de 3 de Dezembro 1960 cria os Comandos Navais de Goa e de Cabo Verde e Guiné e os Comandos das Defesas Marítimas de Cabo Verde, da Guiné, de S. Tomé, de Macau e de Timor, com sede, respectivamente, em Goa, Mindelo, Bissau, S. Tomé, Macau e Díli, e define as suas atribuições.

quinta-feira, 19 de julho de 2018

Editais sobre a queima de panchões em 1867


Dois editais publicados no Boletim do Governo de 7 de Janeiro de 1867 relativos à queima de panchões por ocasião das festividades do ano novo chinês. Devido ao facto de "perturbar o socego publico" este tipo de actividades era proibido "desde o toque de recolher até o nascer do sol", com excepção dos dias de festa (oito no total). Outra das razões invocadas para a proibição é "as frequentes fatalidades"...


terça-feira, 17 de julho de 2018

Morreu Altino do Tojal

O escritor e jornalista Altino do Tojal morreu no domingo à noite, aos 78 anos, em Brunhais, Póvoa de Lanhoso, distrito de Braga, disse à Lusa fonte da família, acrescentando que as cerimónias fúnebres se realizam esta quarta-feira. (...)
Altino do Tojal nasceu a 26 de julho de 1939, em Braga, onde viveu até aos 27 anos, segundo recordam vários amigos. Trabalhou em diversos jornais, nomeadamente no Jornal de Notícias, no lisboeta O Século, até ao seu encerramento, e depois no Comércio do Porto. Destacou-se na escrita de ficção e a sua obra “Os Putos” foi adaptada ao teatro, à televisão e à banda desenhada. A primeira versão deste livro surgiu ainda em 1964, com o título “Sardinhas e Lua”.
Escreveu igualmente “O Oráculo de Jamais” (1979), “Os Novos Putos” (1982), “Orvalho do Oriente” (1981) e “Viagem a Ver o Que Dá” (1983) .
Nos anos de 2005/2014, a Imprensa Nacional Casa da Moeda (INCM) retomou títulos do autor, como “Ruínas e Gente”, “Jogos de Luz e Outros Natais” e ainda antologias como “Noite de Consoada”, “Histórias de Macau” e “Os Putos – Contos Escolhidos”.
Encetados na década de 1960, “Os Putos” constituiram um projeto que Altino do Tojal manteve em curso, durante anos, com histórias de crianças de rua, que o escritor Urbano Tavares Rodrigues definiu como “crianças sós, iludidas, deserdadas”, vítimas da “máquina trituradora dos adultos acomodados à brutalidade, à estupidez pomposa, à intriga reles, ao senhor rei hábito”.
Numa introdução à edição mais recente da INCM, datada de 2014, Altino do Tojal escreveu: “Fez-me bem escrever este livro, conto a conto, durante meio século, porque dei por mim a sublimar dificuldades de sobrevivência e fastios existenciais que, de contrário, exigiriam um estoicismo superior àquilo de que sou capaz, para serem toleráveis”.
“Embora desejando que ‘Os Putos’ fizessem doer a consciência tão cruelmente como os vivi, quis também que arrebatassem a imaginação tão magicamente como os sonhei. O facto de continuarem a ser lidos, tanto tempo decorrido, permite concluir que, da semente dos meu propósitos, germinou boa árvore.”
in Hoje Macau, 17.7.2018

segunda-feira, 16 de julho de 2018

José Vicente Jorge: imagens

Sugestão de leitura: “A Cozinha de Macau da Casa do meu Avô”, de Graça Pacheco Jorge, neta de JVJ;  a primeira edição foi feita em Macau em 1992; reeditado em Lisboa em 2003.; a edição mais recente, de 2014, revista e ampliada, foi editada pelo Instituto Cultural (Macau) e apresenta-se em versão chinesa e em versão bilingue (português e inglês).






domingo, 15 de julho de 2018

Código dos Usos e Costumes dos Chins de Macau

A 1 de Julho de 1867 foi aprovado por Carta de Lei o novo Código Civil em Portugal. A legislação tornou-se de imediato extensível às então províncias ultramarinas portuguesas, estando no entanto previsto ressalvas. 
Foi o caso de Macau com a ressalva prevista no artigo 8º, número 1, alínea b): "Em Macau os usos e costumes dos chins nas causas das competências do procurador dos negócios sínicos", no Decreto de 11 Novembro de 1869 que manda por em vigor o Código Civil no Ultramar, mas salvaguarda os usos e costumes locais. E eram muitas as diferenças. Por exemplo, as questões relacionadas com o divórcio e a bigamia, que é permitida.
Refira-se que só em 1950, o concubinato foi expressamente proibido no Continente Chinês, pelo art. 2.º da Lei do Casamento, aí promulgada em 30 de Abril de 1950.
Art. 8 do decreto.
Desde que principiar a vigorar o código civil ficará revogada toda a legislação anterior, que recair nas matérias civis, que o mesmo código abrange :
1. São ressalvados: (...) b) Em Macau os usos e costumes dos chins nas causas da competência do procurador dos negócios sínicos;
Anos mais tarde, surge o Decreto de 17 de Junho de 1909 com o «Código dos Usos e Costumes dos Chins de Macau» destinado a regular matérias como a família o casamento e a sucessão. Existe uma edição da Imprensa Nacional (de Macau) desse ano.
Codificado o direito próprio da comunidade chinesa, volta a pôr-se a questão da existência de um tribunal privativo, em cujo projecto se começa a trabalhar e nos finais de 1910 é publicado na imprensa um primeiro projecto. Mas o Tribunal Privativo dos Chinas de Macau só viria a ser criado em 29.11.1917.
No preâmbulo do decreto que aprova o seu regimento, a criação do tribunal é justificada pela existência de populações com usos e costumes próprios, cuja assimilação não era, nem possível, nem desejável. A sua jurisdição abrangia justamente as acções cíveis e comerciais (excepto falências) e as acções criminais menores, em que as partes prescindissem de recurso, desde que o réu ou réus fossem chineses (artigo 1.°). O juiz era um magistrado português do quadro colonial, nomeado pelo governo metropolitano (artigo 3.°).
Em simultâneo criou-se um tribunal de recurso, constituído pelo juiz de direito, pelo conservador do registo predial e por um «homem bom», eleito pelos quarenta maiores contribuintes de entre os cidadãos portugueses que soubessem ler e escrever português (artigo 12.º). O tribunal aplicava o direito consuetudinário recolhido no código de 1909. Mas, tal como no código, previa-se a invocação de outros usos e costumes.
O Tribunal Privativo dos Chinas duraria pouco tempo. Em 1927, uma reforma judicial do ultramar (Decreto n.° 14 453) substitui a de 1894 e extingue o tribunal, atribuindo as suas competências aos tribunais comuns.
Segundo um estudo de 1991, durante os dez anos da sua existência, o Tribunal dos Chinas julgou cerca de 3 500 causas, das quais apenas eram cíveis pouco mais de 400.
Funeral segundo os costumes chineses.

sábado, 14 de julho de 2018

sexta-feira, 13 de julho de 2018

O Canídromo e as corridas de galgos: parte I

A propósito do fim anunciado das actividades do Canídromo recordo alguns dados históricos bem como algumas imagens.
 1965

Embora popularmente mais conhecidas a partir dos primeiros anos da década de 1960, as corridas de galgos no Canídromo de Macau remontam a 1931. Inspirado pelo canídromo inaugurado em Xangai em 1928, Fan Che Pang, um empresário local, juntou um grupo de investidores norte-americanos e chineses para fundar o Macau Canine Club em 1931. A iniciativa iria durar apenas até 1938. Dois anos depois, era inaugurado o Campo 28 de Maio, com um campo de futebol relvado no interior da pista oval, onde se passaram a fazer corridas de atletismo. Em 1963 os novos concessionários remodelam o espaço tem funcionado desde então mas com cada vez menos público.
Em Dezembro de 1965 foi feita a revisão do contrato entre o Governo de Macau e a Macau Yat Yuen Canidrome Company para a exploração das corridas de galgos no Canídromo até 1967. O anterior contrato vigorava desde 1962.
Década 1950

quinta-feira, 12 de julho de 2018

3 peças no Museu do Oriente

No Museu do Oriente, em Lisboa, existem milhares de peças que ajudam a contar a história de Macau. Ficam aqui três exemplos em jeito de sugestão para uma visita ao museu.
Quadro "Panoramic of Macau" (final século 18) do escocês William Anderson
Denominadas "garrafas de peregrino" - eram utilizadas pelos viajantes para transportar líquidos - apresenta a representação de uma moeda do reinado de D. Filipe II. Terá sido encomendada por um cavaleiro da Ordem de Avis ou da Ordem de Cristo durante o domínio espanhol e é um dos primeiros exemplares de porcelana azul e branca encomendados à China pela Companhia das Índias Orientais. Foi oferecida à Fundação Oriente por Stanley Ho.
Biombo "Macau-Cantão" datado da segunda metade do século 18. Trata-se de um biombo articulado de seis folhas, lacado a negro e vermelho com decoração plana e em relevo com prata e ouro. Num dos lados, sobre fundo lacado vermelho, representa-se numa perspetiva aérea, a cidade de Macau, no reverso representa-se a cidade de Cantão.
Na representação de Macau pode ver-se:  Igreja da Madre de Deus (São Paulo),  Igreja de São Domingos, fortaleza de Santiago da Barra, ermida de Nossa Senhora da Penha, fortaleza de São Francisco, fortaleza e ermida da Guia, e o Pagode da Barra. 
Na representação de Cantão: a cidade de Cantão sendo reconhecidas três construções: o pagode Lui-rong, também conhecido por Flowery Pagoda, o antigo minarete da mesquita Mehammedan (torre com o topo arredondado) e o arco triunfal.
Pertenceu à Fundação Calouste Gulbenkian.

quarta-feira, 11 de julho de 2018

Arquimínio da Costa, Lancelote Rodrigues e Mário Acquistapace em chinês

Editados inicialmente em português pelo IIM, estão a partir de agora disponíveis as biografias em língua chinesa de Arquimínio da Costa, Lancelote Rodrigues e Mário Acquistapace, missionários que viveram em Macau no século XX.
Os livros fazem parte da colecção "Missionários para o século XXI" que tem um total de 10 volumes até agora.


terça-feira, 10 de julho de 2018

Macau visto das escadas da igreja Mater Dei

 
Entre estas duas imagens há uma diferença de 100 anos...
Em baixo uma perspectiva das escadas a partir da Fortaleza do Monte na década de 1960

segunda-feira, 9 de julho de 2018

Vicente Nicolau de Mesquita nasceu há 200 anos

Excertos do artigo "O último herói romântico" da autoria de Inês Almeida publicado no JTM de 9.7.2018.
Vicente Nicolau de Mesquita teve uma vida como poucos macaenses na altura em que viveu, foi o único a alcançar um posto superior no exército português mas ficou com uma imagem “irremediavelmente comprometida” devido à tragédia familiar que protagonizou, consideram personalidades conhecedoras da história do território relativamente ao Coronel que nasceu há 200 anos.
Um busto no Cemitério de São Miguel Arcanjo, uma Rua com o seu nome na Península, uma das datas no Pórtico junto à fronteira com a China Continental. Precisamente dois séculos depois do seu nascimento, ainda há vestígios da passagem do Coronel Vicente Nicolau de Mesquita por Macau. A sua vida foi marcada por vários momentos determinantes, nem todos positivos. (...)
João Botas, autor do blog “Macau Antigo”, fala de uma vida “pouco reconhecida em Macau, terra onde nasceu”, havendo vários factores que contribuem para isso. Desde logo, o facto de pertencer ao século XIX e de o seu feito mais heróico ter ocorrido “num contexto muito específico”.
“Foi na época em que foi destacado para governar Macau João Maria Ferreira do Amaral, um oficial da armada, que tinha perdido o braço direito no decurso da guerra da independência do Brasil. Ferreira do Amaral tinha uma missão clara: repor e restaurar a soberania portuguesa, fazendo cessar a jurisdição chinesa”. Por isso acabou por “pagar caro”, perdendo a vida.
Ferreira do Amaral foi assassinado a 22 de Agosto de 1849 pelos chineses que no Forte do Passaleão, junto à fronteira da Porta do Cerco, juntaram um exército de cerca de 2.000 homens. “Reza a história que se preparavam para invadir Macau”. “Perante alguma hesitação do Governo, Vicente Nicolau de Mesquita, então subtenente de artilharia oferece-se como voluntário para, com um grupo escolhido por ele – mais de 30 homens – assaltar o Forte do Passaleão”. Assim se tornou num herói. “Acidental, porventura, mas não é descabido afirmar que, sem a sua acção, a história teria muito provavelmente sido outra”, destacou João Botas.
Hoje em dia, o que então era a Porta do Cerco e que ainda hoje se encontra junto ao Posto Fronteiriço, ostenta duas datas simbólicas: uma referente ao assassinato de Ferreira do Amaral – 22 de Agosto de 1849 – e outra dedicada a Vicente Nicolau de Mesquita e à Batalha do Passaleão – 25 de Agosto de 1849.
Enquanto militar em Macau, Mesquita foi comandante da Fortaleza da Taipa, do Forte de São Tiago da Barra e da Fortaleza do Monte. “Consta que começou a sofrer de depressão devido à forma lenta como decorreu a promoção nos quadros do exército. Só foi promovido a Coronel em Outubro de 1873 e reformou-se dois meses depois”.
Sem colocar em causa a tese de depressão, João Botas recorda que, ainda em vida, “o Coronel Mesquita foi condecorado com os títulos honoríficos de Cavaleiro da Ordem de Nossa Senhora da Conceição de Vila Viçosa, Cavaleiro da Ordem Militar de Avis e Comendador da Ordem Militar de Avis”. “Recebeu ainda a Medalha de Prata de Valor Militar e a Medalha de Ouro de Comportamento Exemplar”.
João Botas destaca ainda o facto de Vicente Nicolau de Mesquita ter tido “uma vida que poucos macaenses tiveram na época, nomeadamente ao nível da educação e da carreira que seguiu”.
Por sua vez, Aureliano Barata aponta “a imprudência” de Ferreira do Amaral ao aparecer a cavalo junto às Portas do Cerco que levou à acção de Vicente Nicolau de Mesquita, um feito “muito celebrado pelos macaenses, dado que foi, por um lado, uma retaliação pelo assassínio de Ferreira do Amaral e, por outro, a libertação de Macau do jugo da administração chinesa de Cantão”.
O investigador acredita que “não foi por acaso que, ao aproximarem-se as conversações luso-chinesas para a transferência de Macau para a China, foi retirada a estátua de Ferreira do Amaral que estava junto ao antigo Casino Lisboa, não muito longe da entrada para a Ponte Nobre de Carvalho”.
“Vicente Nicolau de Mesquita era um macaense que comandando a tropa portuguesa libertou Macau da presença chinesa. Este é o aspecto fundamental que fez com que entrasse para a História dos portugueses em Macau”. Além disso, apontou o investigador, “foi a única vez que um macaense alcançou um posto superior no Exército Português”.
"200th anniversary: Colonel whose name is everywhere is recognised by few", artigo da autoria de Daniel Beitler publicado no Macau Daily Times (9.7.2018):
Over the course of three days in the summer of 1849, Vicente Nicolau de Mesquita (1818–1880), who was born exactly 200 years ago today, earned a place for himself among the most controversial figures in Macau’s history.
Today Mesquita’s name can be found across the Macau Peninsula on street signs and monuments, but he is far from a household name and many local residents cannot say who he was or what he did.
The story begins with the appointment of the widely unpopular Governor João Maria Ferreira do Amaral, who was deployed to the Portuguese enclave in 1846 with a directive to overturn de jure Chinese sovereignty in Macau.
Amaral angered the Chinese inhabitants of the city when he ordered them to pay taxes to the Portuguese administration (instead of imperial mandarins as had been the case for hundreds of years) and the proposal that some of the city’s Chinese graves be relocated to make way for a road extension. By some historical accounts, it was during Amaral’s tenure that the Portuguese unlawfully occupied the then-islands of Taipa and Coloane.
His actions, poorly received in nearby Guangzhou, eventually culminated in his assassination on August 22, 1849, just a few hundred meters from the Chinese border. Some 2,000 incensed Chinese soldiers seized the opportunity and amassed along the border of Macau and the nearby Chinese fort at Baishaling and began firing on the walls of Macau.
On August 25, a junior artillery officer by the name of Mesquita volunteered to lead an assault on the fort against all odds, accompanied by just 36 soldiers and a small artillery piece. Preceded by a single artillery shell which was fortunate enough to find its target, Mesquita led a charge against the enemy position causing the garrisoned Chinese soldiers to panic and retreat.
The discord across the border simmered thereafter and the young artillery officer returned to Macau as a national hero.
“In this way, Mesquita became a hero. Accidentally, perhaps, but one of the so-called romantic heroes [nonetheless],” writes João Botas, a Portuguese journalist and the blogger behind Macau Antigo, a rich archive of the city’s history. “And people sometimes need heroes. But it is not unreasonable to say that without his action[s], the story would most probably have been different.”
But this story has a tragic end. Years of discrimination against his Macanese ethnicity are what modern historians say drove Mesquita to insanity, culminating in the murder of his family and his suicide. As a consequence, Mesquita was denied both a military funeral and a Christian burial during the 19th century.
“Like other prominent figures in the history of Macau, the life of Colonel Mesquita is little recognized in Macau, the land where he was born,” Botas told the Times in an interview.
“He was considered a hero during the 19th century and today that is something to remember. But most people [in Macau] don’t know the story – except for the Macanese community,” agreed Jorge Morbey, a historian and president of the Cultural Affairs Bureau (IC) between 1985 and 1990.
Mesquita might be glorified as a hero in the Portuguese and Macanese communities, but having assaulted a Chinese fort during the early years of the “Century of Humiliation,” he qualifies as a villain in the story of modern China.
A bronze statue of the soldier was toppled by dissidents during the 1-2-3 Incident of 1966, when months of tensions in Macau ignited riots and subsequent police repression, all with an undertone of resistance to foreign occupation.
This villainous view is unlikely to change in the near future, especially with the adoption of a standardized history textbook in Macau. Prepared in part by entities under the supervision of the mainland’s Ministry of Education, the textbook is unlikely to recount the story of Amaral and Mesquita in a balanced manner, if at all.
For Botas, that would be unacceptable. “It’s one of the most important aspects of Macau’s history,” he remarked to the Times, adding, “Of course his story should be taught in schools.”
Former IC President Morbey was behind the establishment of a committee of Portuguese and Chinese historians tasked with bridging gaps between the various accounts of the Amaral-Mesquita story in the late 1980s. The committee was later disbanded. Today Morbey shares a skeptical view of how the subject matter is likely to be covered in Macau’s schools.
“If they cover the events in schools it will be in a bad light, because the events were bad from the point of view of the Chinese,” he said.
In future, Macau students might have to look elsewhere for alternative historical narratives of the Amaral-Mesquita story. Fortunately, there are plenty of clues dotted around the city.
Two hundred years on several roads on the Peninsula still bear his name, while today the colonel’s gravestone can be found beside the entrance of San Miguel Cemetery, decorated with the title “Heroic defender of Macau.”
Yet the most well-known Mesquita tribute is the Portas do Cerco, or Border Gate monument, built by the Portuguese administration in 1849 to honor both Mesquita and the deceased Governor Amaral. The dates August 22 and August 25 are inscribed on either side of pastel yellow monument, while the somewhat ironic message, “A pátria honrai, que a pátria vos contempla” (Honor your motherland, for your motherland looks over you), is plastered across its top.
“A pátria honrai, que a pátria vos contempla” is motto used by the Portuguese Navy and inscribed on all ships of its armada. It is used on the Border Gate monument to refer to the distinguished career of Amaral who served in the Portuguese Royal Fleet.

domingo, 8 de julho de 2018

A "Ruínas de S. Paulo" por George Chinnery

Ainda antes do aparecimento da fotografia, era a pintura e os desenhos que captavam a realidade para memória futura. George Chinnery (Londres, 1774 - Macau, 1852) foi um dos artistas que vivendo em Macau entre 1824 e 1852 fez registos únicos de como era o território. Em cima, uma representação da Igreja e Convento de S. Paulo, em 1834, anterior ao incêndio do ano seguinte (26 Janeiro 1835) noticiado no jornal The Canton Register (imagem abaixo),edição de 3 Fevereiro 1835.
Fire at Macao. Destruction of St. Paul's Church.
On Monday night the 26th instant this ancient and superb edifice was totally destroyed by fire. From conspicuous situation, standing on almost the highest ground within the walls of Macao, the grand and awful sight of the blazing pile was visible to the whole city. The fire originated in the guard-house, which was a part of the building, and occupied by soldiers The church was built the jesuits in 1602. We hope to see a full account of melancholy event in the next Chronica de Macao.
Estes dois desenhos foram feitos depois de 1835 quando igreja e convento já estavam destruídos restando apenas a fachada.