sexta-feira, 20 de outubro de 2017

Instrucção Ministrada no Lyceu Nacional de Macau: 1905


A 28 de Março de 1905 o Boletim Oficial teve um suplemento onde se publicaram uma série de elementos estatísticos relativos ao mês de Janeiro desse ano. Entre os diversos mapas apresentados está o "Mapa estatístico da instrução ministrada no Lyceu Nacional de Macau" assinado por Manuel da Silva Mendes, reitor interino e professor. Nessa altura o Liceu era composto por três classes e um total de 19 alunos.
clicar nas imagens para ver em tamanho maior


quinta-feira, 19 de outubro de 2017

Tarrafeiro: mercado, rua e beco

Em cima, duas imagens de Pedro Pinto, do pórtico que resta do antigo mercado público “Kông Yêk” (公益街市) , em português, Mercado do Tarrafeiro.
M. V. Basílio diz que "é o único pórtico que resta do extinto Mercado do Tarrafeiro, em chinês, Kông Yek Kai Si, que era delimitado pela Rua de Cinco de Outubro, pelas Travessas das Galinholas, do Alpendre e do Muro. Ainda tive a oportunidade de ver, há cerca de 20 anos, um pórtico igual na Travessa do Muro, ostentando os caracteres chineses Kông Yêk Kai Si. Infelizmente, aquando da construção de um novo prédio nessa Travessa, aquele pórtico foi demolido. Em baixo, uma foto extraída do livro “Coisas de Macau”, de Álvaro de Melo Machado, em que se pode ver os caracteres chineses公益街市num dos pórticos."

Tarrafeiro é o nome por que se costuma designar a parte da cidade de Macau situada no sopé que foi dum morro, no alto do qual hoje se encontra a igreja de Santo António.
A Rua do Tarrafeiro foi oficialmente 'baptizada' em 1869. A origem do termo “tarrafeiro” remete para o pescador que utilizava uma “tarrafa” - rede de pesca circular, de malha fina, com pesos na periferia e um cabo fino no centro, pelo qual é puxada - muito popular em Macau. Com o tempo e o desenvolvimento social, a Rua do Tarrafeiro acabou por ficar rodeada de urbanizações, em vez da beira-mar com as tradicionais tarrafas.
Sugestão de leitura: "O Tarrafeiro" in Curiosidades de Macau Antiga", de Luís Gonzaga Gomes, edição "Notícias de Macau" em 1952.

quarta-feira, 18 de outubro de 2017

"Porta Cerco, the gate dividing Portuguese and Chinese territory"

Nos primeiros anos de 1900, duas empresas de Hong Kong, a M. Sternberg e a Graça & Co. publicaram dois postais ilustrados alusivos à Porta do Cerco que têm uma particularidade: são iguais. Na imagem surge parte da tripulação da canhoneira Zaire que chegou a Macau a 12 de Agosto de 1900 na sequência da Revolta dos Boxers, evento ocorrido no norte da China meses antes. O Corpo Expedicionário era "constituído por 14 oficiais e 368 praças de pré, uma Companhia de Calçadores 3, uma Bataria de Artilharia 2, elementos do serviço de saúde e administrativos.”
"Porta Cerco, the gate dividing Portuguese and Chinese territory. Macao."
Uma legenda com um erro: "Porta Carvo"
Atente-se na diferença de cores usadas pela empresa de M. Sternberg (acima) e a de Graça & Co. (abaixo)
A "Zaire" (1884-1916)
Na edição de Março de 1902 da revista Serões, J. F. Marques Pereira, assina um artigo - Portugal e a China ante a questão de Macau - ilustrado com "15 gravuras, cópia de photographias" de P. Marinho, onde aborda esta problemática. No texto introdutório escreve: Os recentes acontecimentos politicos da China, a revolta dos boxers, a intervenção das potencias, a penetração d´estas no isolado imperio asiatico, a lucta das ambições e dos interesses, teem chamado as attenções geraes para o extremo oriente e despertado natural curiosidade. Depois da partilha da Africa, veio a pretenção de dividir tambem a Asia. (...)

terça-feira, 17 de outubro de 2017

Imagens do Ultramar: carteiras de fósforos


Numa colecção de 20 carteiras de fósforos fabricadas pela Sociedade Nacional de Fósforos - série "Imagens do Ultramar" - na década de 1970, Macau surge nos números 11 e 12 com duas imagens: uma do casino flutuante (legenda Porto Interior) e outra do hotel Lisboa (legenda Um hotel). 

Série: Angola (n.º 1 a 5); Cabo Verde (n.º 6 e 7); Guiné (n.º 8 e 9); Índia (n.º 10); Macau (n.º 11 e 12); Moçambique (n.º 13 a 17); S. Tomé e Príncipe (n.º 18 e 19); Timor (n.º 20).
             fósforos



domingo, 15 de outubro de 2017

"História de Macau" por Manuel da Silva Mendes (1915)

"Não é raro que venham a Macau homens de sciência, geralmente comissionados por associações literárias ou científicas, no intuito de colher aqui elementos para estudos históricos ou de crítica. Os japoneses, os ingleses, os franceses, os americanos principalmente são os que se interessam mais por esses estudos. É natural que Macau, que foi por muitos anos o único porto na China aberto aos estrangeiros, seja considerado como uma excelente fonte de informações para a história dos tempos mais antigos dos europeus no Extremo-Oriente. Era por Macau que penetravam na China os embaixadores, os missionários, os negociantes, os exploradores. Em Macau foram impressos grande número de livros sobre a língua e a literatura chinesas, sobre os trabalhos das missões religiosas e políticas, sobre o movimento comercial, etc. A igreja de S. Paulo ou o que resta dela, os conventos de Santa Clara e S. Francisco, as muralhas, as fortalezas, a Horta da Companhia e tantos outros restos de antigos tempos ainda hoje ahi estão atestando que Macau foi um grande centro religioso, militar, comercial e social no Extremo-Oriente. Tudo o que eram relações de europeus ou americanos com a China, com o Japão, com as Filipinas, com Timor, com Sião e ainda em parte com a península de Malaca e com a índia, partia de Macau ou aqui vinha ter.
Deve-se afigurar, pois, a todos os estudiosos de coisas antigas, Macau como uma mina em que os materiais desejados sejam porventura de extracção difícil, mas abundantes e ricos. Foi aqui, terra de conventos de frades e de l'reir,terra de muitos homens e poucas mulheres.terra do aventureiros e de piratas, que inexaurível mina para romancistas!
Pois, meus senhores, podia Dante ter inscrito à entrada de Macau o «voi che entrate, lasciate ogni speranza» — porque do muito, do muitíssimo que podia e devia haver, não ha quási nada! Desapareceu quási tudo, e o que resta, está para aí abandonado.
Documentos escritos houve-os inúmeros; mas nunca se coligiram, nunca se seleccionaram, nunca se catalogaram, nunca se fez o devido caso deles. Andaram de armário para armário, de repartição para repartição, de mão para mão, como coisas velhas, bolorentas, inúteis. Outros, o maior número, foram queimados ou comeram-nos os vermes ou levaram-nos os tufões. E hoje, se se quiser fazer a história de Macau em face de documentos, é isso impossível, porque não existem.
Parece incrível, mas é verdade: uma colónia como Macau não tem história escrita — uma história completa. O sr. Montalto de Jesus publicou ha anos um volume em inglês que intitulou Historic Macao; esta obra, porem, conquanto útil e de merecimento, está longe de poder ser considerada como uma história desta colónia.
O Leal Senado de Macau, instituição quási tão antiga como a colónia, e que tem sempre exercido um papel preponderante na vida local, não tem história; nunca se lembrou de a mandar escrever. O facto não se justifica por falta de dinheiro, porque o Leal Senado tem-no tido bastante para isso. Não ha muitos anos dispendeu alguns milhares de patacas para ocupar os lazeres de dois oficiais do exército sob o pretexto de levantarem uma (levantada) carta de Macau...
A Santa Casa da Misericórdia, outra instituição com séculos de existência, também não têm história escrita. Existem no seu cartório uns livros velhos cie quási nenhuma importância ; os que tinham valor desapareceram. Não consta, de resto, que alguma vez tentasse pôr em letra redonda o que tem sido e o que tem feito durante a sua longa existência esta instituição. O Seminário, outra velha instituição, e o Bispado, não menos antigo, estão nas mesmas condições. Alguns documentos existem, velhos, poeirentos, meio comidos, por gavetas e armários; e é tudo. É uma pena; dezorganisação entrou connosco e não vemos sinais de ressurgimento. E é ao mesmo tempo uma vergonha que estrangeiros venham aqui frequentemente em viagem de estudo e tenham de partir desapontados. Ainda ha poucos dias isso aconteceu com um americano que aqui veio comissionado por uma associação scientífica de Washington.
Ainda se poderia fazer alguma coisa. Restam dos muitos que houve, vários maços de documentos no Leal Senado, na Santa Casa da Misericórdia, no Seminário, na Sé e em algumas repartições do Estado, que deveriam ser estudados, seleccionados, catalogados e impressos. Porque se não faz ao menos isso?
Dever-se-hia ir muito mais longe. Alem desses manuscritos, ha livros, opúsculos, revistas e outras publicações com notas interessantes para a história de Macau. Dever-se-hiam coligir e, ao mesmo tempo, dever-se-hia organizar um índice desenvolvido com referência a tudo quanto a colecção contivesse sobre o assunto e merecesse interesse ou importância.
Era assim que um dia, juntos que fossem todos estes elementos, alguém poderia abalançar-se a escrever a história de Macau. Não é de esperar que a iniciativa particular se lance em semelhante empresa; tudo isso exige muito tempo, muito estudo, muito trabalho, muitas despesas. Deverá o Estado, sendo como é o assunto de interesse público, empreende-lo, incumbindo pessoa ou pessoas competentes de o levar a termo; e só assim julgamos que é possível dar-lhe boa solução."
in O Progresso, Semanário Independente de Macau a 6 de junho de 1915.
tb publicado no Boletim da Segunda Classe da Academias das Sciencias de Lisboa. Vol. X 1915/1916

quinta-feira, 12 de outubro de 2017

Igreja do Mosteiro de S. Francisco

A foto acima é de 1844 e da autoria de Jules Itier. É muito provavelmente a única que testemunha o que foi a igreja do mosteiro de S. Francisco. Tirando isso, apenas os desenhos de George Chinnery permitem perceber o que foi este mosteiro fundado em 1579 e desaparecido em 1871.
Especialistas como Hugo Daniel da Silva Barreira destacam as "peculiaridades da cornija decorada e levemente mistilínea, formada por volutas e adornada por pequenos pináculos. Notem-se os vão ovalados do alçado, bem como as possíveis capelas ou dependências que acompanham a mesma parede" e ainda "a galeria frontal, um exemplo de galilé muito frequente nas igrejas da Ordem e a única (frontal) na arquitectura religiosa do território."
Desenho de G. Chinnery ca. 1830
No relato coevo de Frei Paulo da Trindade fica-se a conhecer o orago: "O convento que temos na cidade de Macau se fundou com título de Nossa Senhora dos Anjos da Porciúncula no ano de 1579".
Atentemos pois num excerto do relato do frei que pode ser lido na obra "Conquista Espiritual do Oriente. III Parte". Edição do Centro de Estudos Históricos Ultramarinos, 1967.
"(...) relataremos aqui um lastimoso caso que lá sucedeu em o ano de 1611, que foi o incêndio daquele convento, em que se queimou e tornou em cinza tudo quanto nele havia. E foi o caso que tendo os padres feito um presépio na festa de Natal para mais mover o povo à devoção daquele mistério, sem se saber como, se ateou o fogo nele e foi lavrando de feição que, sem lhe poderem dar remédio por mais que nisso se trabalhou, tomou fogo a capela do presépio e dali a igreja toda e depois a torre onde estava todo o bem do convento, e foi logo ateando nos dormitórios. (…) Mas é tanta a devoção que os desta terra têm ao nosso Seráfico Padre S. Francisco e a seus filhos que, saindo eles a pedir esmola para ajuda da restauração daquele convento, lhes [deram] em poucos dias seis mil taéis que são doze mil xerafins, e isto com muita vontade oferecendo-se para tudo o mais que fosse necessário. Afora alguns devotos mais particulares, que se quiseram avantajar em esta tão santa obra, dos quais um que é o síndico, tomou à sua conta a capela-mor para a pôr no mesmo estado e perfeição em que estava, e outro tomou o altar de Jesus, e outro o da Conceição com as imagens da Senhora e São José e todo o paramento do altar e outro tomou à sua conta o retábulo do nosso Padre S. Francisco, e outro depois de mandar trezentas patacas de esmola prometeu mais mil indo o seu navio a Manila, e outro deu quinhentas patacas na primeira viagem que fizesse, e a cidade prometeu de dar dois e mais por cento nas viagens de Japão e Manila. De sorte que hoje [1630-1636] está a igreja e o convento acabado com mais e maior perfeição do que antes estava, o que tudo seja para glória de Deus e louvor do seu servo fiel, o nosso Padre S. Francisco."
Desenho de autor desconhecido com a legenda "Franciscan church, Macao". Data provável: 1831
Reunido em sessão a 5 de Fevereiro de 1842 o Leal Senado pronunciou-se contra a ideia de demolir o Convento e Igreja de S. Francisco. A ideia era do governador Adrião Acácio da Silveira Pinto que ali pretendia construir um palacete residencial que tinha contígua a ela o «Campo Santo de Pública Devoção».
Alguns anos mais tarde, em Março de 1861, o governador Coelho do Amaral com autorização do Ministério da Marinha e Ultramar mandou demolir o Convento de S. Francisco e no seu lugar foi erguido o quartel para o Batalhão de Macau (Forte de S. Francisco) finalizado em 1866.
Desenho de Chinnery. ca. 1830

quarta-feira, 11 de outubro de 2017

A "Vila Silva Mendes"

Manuel da Silva Mendes chegou a Macau em Maio de 1901 e poucos anos depois começou a construir na encosta da Guia um edifício que viria a ser a sua residência, a Vila Silva Mendes. Para isso tomou de aforamento um terreno. O edifício pode ver-se na imagem acima - ca. 1910 - por cima do Quartel de S. Francisco e em baixo numa fotografia publicada na revista "Ilustração Portugueza" em Dezembro de 1908. 
Para saber mais sobre a história 'atribulada" da construção da "Vila Silva Mendes" consultar a Biografia de Manuel da Silva Mendes 1867-1931" e/ou este artigo de Fernando Sobral no Jornal de Negócios.

terça-feira, 10 de outubro de 2017

As "Visões da China" de Jaime do Inso


Em 1933 era impresso na Tipografia Élite e editado pela Livraria J. Rodrigues, em Lisboa, "Visões da China", um livro da autoria do então Capitão Tenente Jaime do Inso (1880-1967), que morreu há 50 anos. Ao todo são cerca de 400 páginas que reúnem uma colectânea de artigos escritos para jornais portugueses, brasileiros e macaenses entre 1926 e 1932.
Para além dos registos típicos da literatura de viagem inclui inúmeras imagens. As últimas 100 páginas são dedicadas a Wenceslau de Morais (uma espécie de biografia), a viver no Japão, também ele com um passado de marinheiro e que trocava correspondência com Jaime do Inso. “(...) realiso assim o que julgo um dever, depois que conheci o Oriente: - este livro visa, como o anterior, não a resolver o problema, para que é preciso a competência e a vontade de muitos, mas a agitá-lo, pondo em foco a nossa bela colónia de Macau, e se tanto conseguir, estará recompensado o meu trabalho. É uma grande parcela de Portugal, que não devemos desprezar, o Oriente Português!”
Este excerto do ante-prefácio de Wenceslau de Morais foi retirado de uma carta datada de 1927. A capa do livro é da autoria de Júlio Alves.
Jaime do Inso assina o prefácio onde explica: “O aparecimento deste livro deve-se, em grande parte, a Wenceslau de Morais. O livro é, por assim dizer, uma continuação, um complemento do outro livro anterior – “O Caminho do Oriente” – e ambos pretendem constituir como um cenário de quadros reais, onde se procura desenhar o ambiente tão típico e único da nossa vida colonial, como é o de Macau. No “Caminho do Oriente”, começa-se a tomar contacto com o Oriente, particularmente com a China; neste livro, a convivência alarga-se, torna-se mais vasta e íntima, sem ser menos tentadora, talvez, mas nunca tão completa que esgote a matéria, porque à medida que as profundamos, mais cresce o abismo que nos rodeia. Quantos volumes eu pudesse escrever, não chegariam para o devassar: – «Duas mil páginas, dois milhões de páginas, também nada diriam, porque o assunto é enorme!…

Sobre a China, Jaime do Inso escreve (primeiro no jornal "A Pátria" a 22.2.1928):
"A China absorve-nos, narcotiza-nos, prende e domina, como regra geral, o nosso espírito, invade tudo, o raciocínio e o sentimento, como uma teia invisível que aperta, pouco a pouco, insensivelmente, que nos sufoca, esgota e cansa! A China é traiçoeira e calma, insinua-se quanto mais se aborrece, deseja-se quando se odeia, aspira-se como uma necessidade, a China, que quase até nos mata!
A China é como uma feiticeira que tem sortilégios, é a cartomante terrível que parece escrever o nosso destino com letras invisíveis: há no seu ambiente um sopro de agoiro, uma agonia, uma tristeza, uma tortura, que se recebem sem custo e com prazer, como uma necessidade fatal da nossa existência. A China é o mistério que ri e que dança na frente de nós, numa volúpia dolorosa do espírito duende, a China é a mensageira do desconhecido que perturba, enerva, envenena e vence. A China é tudo isso e muito mais ainda que a minha pena não sabe descrever, a China não se define, só se respira e sente, como um veneno imprescindível a quem uma vez o provou. (...)

Jaime do Inso publicou várias obras sobre a presença de Portugal no Extremo Oriente e deixou inúmeros textos avulso sobre Macau - publicados na imprensa da época em Portugal, Macau e Brasil) e alguns livros. Não sendo exaustiva, aqui fica uma lista:
Artigos:
- Ecos de Macau. Guerra dos Piratas. A Batalha de Lantau (Anais do Clube Militar Naval) (1912)
- Macau: estância de repouso e de turismo (1929)
- Macau: extracto de uma monografia (1930)
- Quadros de Macau (no livro Fausto Sampaio, pintor do ultramar português, 1942)
Livros:
- Macau: a mais antiga colónia europeia no extremo-oriente (1929)
- Cenas da Vida de Macau
-
O Caminho do Oriente (1932) reeditado em 1996 pelo IC
- Visões da China (1933) reeditado em 1997 pelo IC

- China (1936)
- Conferências:
- "Macau, a jóia do Oriente", SGL, 1913

- "O Presente e o Futuro de Macau", SGL, 1920
Foi ainda responsável pelos artigos sobre o território na altura da Exposição Ibero-Americana de Sevilha, em 1929.

segunda-feira, 9 de outubro de 2017

O "Porto Interior" na Sala de Audiências

Uma das divisões do Palacete de S. Bento, residência oficial do primeiro-ministro português, denomina-se Sala de Audiências e é considerado o local mais nobre do espaço, sendo ali que o chefe de governo recebe as visitas oficiais. Nessa divisão, sobre a lareira, desde 1989 está uma pintura de Macau intitulada Porto Interior (de Macau), da autoria de Fausto Sampaio em 1936.
No âmbito de uma remodelação do palácio (que vai passar a ter obras de arte em regime de rotatividade), a obra de Fausto Sampaio vai voltar às origens, ou seja, ao Museu do Chiado, mas nas reservas, ou seja, não acessível ao público.

sexta-feira, 6 de outubro de 2017

"Macau excede em valor histórico todos os estabelecimentos europeus no Extremo Oriente"

A 1 de Maio de 1909, Manuel da Silva Mendes fez parte de uma reunião pública “para versar questões relativas a salvação e para se pedirem providências ao governo da metrópole” que decorreu nos "Paços do Concelho" (Leal Senado) onde, juntamente, com outras personalidades da época, aludiu à crise política e económica que se vivia no território, e apelou à intervenção do então "governo da metrópole". O texto do discurso seria publicado a 9 de Maio no jornal Vida Nova.
"Como cidadão português e como interessado directa e pessoalmente na prosperidade desta colónia, eu não devia faltar a este ajuntamento do povo de Macau, em que ele procura achar os meios que mais convém adoptar nesta hora de crise. Chegou, efectivamente, uma hora para esta colónia, em que não é lícito a nenhum cidadão português deixar de prestar o seu concurso na solução do problema que nos assoberba.
Macau não morrerá; assim o esperamos e assim deve ser; mas para que não desapareça do mapa do mundo colonial português, e também para que, ficando terra portuguesa, não passe a viver uma vida apenas vegetativa, é absolutamente indispensável que se produza uma acção forte de vontades em todos nós e que às nossas determinações corresponda uma acção enérgica e intemerata conquanto prudente e reflectiva.
Senhores! A crise que avassala esta colónia não é inteiramente recente. Ela começou de manifestar-se sob carácter económico após a guerra russo-japonesa, para mais tarde se agravar com o krak financeiro da América do Norte, que bracejou para a Europa e para a Ásia. Todo o Extremo Oriente se ressentiu gravemente desta crise, que nestas partes tomou especialmente o carácter de depressão comercial, e ainda hoje afecta todos os mercados do Extremo Oriente. Este ponto é indispensável tê-lo em vista para a justa compreensão da nossa situação.
Não foi Macau, pois, o único mercado atingido: foram-no todos os do Extremo Oriente; e apraz-me consignar que mais que o nosso outros sofreram e estão sofrendo – Tientsin, por exemplo, que se acha numa situação verdadeiramente inextricável. Felizmente, essa situação vai melhorando por toda a parte; o horizonte económico apresenta claros sinais de desanuviar-se. Declarou-o há poucas semanas com autoridade para falar no ponto, o presidente da câmara de comércio da vizinha colónia de Hong Kong; e demonstra-o o actual movimento, realmente animador, das bolsas de Londres e Hamburgo, que são na Europa barómetros certos do estado económico do Extremo Oriente.
E Macau, pelo que eu tenho podido observar (se erradas não têm sido as minhas observações), não apresentará talvez sinais evidentes de ressurgimento – o que eu explico pela fraqueza das suas forças anteriores – mas vai agora realizando em relativa, quase satisfatória tranquilidade as suas minguadas transacções – tranquilidade que eu julgo sinal precursor de convalescença. Não viria, pois, mal de morte a Macau se à aludida crise não viessem à última hora ajuntar-se, para a complicar, factores de ordem política e recentemente financeira. Eis aí o mal com mais graves aspectos. 
Incidentes vários com as autoridades do Império Chinês, que são do conhecimento de todos e por isso não recordarei, trouxeram a questão da delimitação de Macau e azedaram os ânimos da população dos distritos vizinhos, a ponto de se nos pretender negar direito ao senhorio de terrenos que de há séculos ocupamos, possuímos, usufruímos e são nossos, e das águas que banham o litoral da colónia.
Devemos crer que o governo da metrópole não dorme; devemos crer que está cumprindo e cumprirá com patriotismo o seu dever. Mas é preciso, é absolutamente indispensável que haja urgência na solução desta pendência, pois que ela nos será desfavorável na medida da demora que se puser em resolvê-lo. Reclamemos, pois, urgência: lembremos ao governo da metrópole que toda a demora nos será prejudicial; que venha o mais rapidamente possível o delegado português para a delimitação da colónia.
Com este assunto prende-se a questão das obras do porto, cuja execução há mais de trinta anos se reconheceu ser de urgente e inadiável necessidade. É uma questão de vida ou de morte para esta colónia. Se deixarmos que os nossos vizinhos de Heung-chao se nos adiantem; se nós nada fizermos e eles fizerem, como projectam, aí um porto com as indispensáveis condições; se Heung-chao se tornar o terminus das várias vias férreas que indubitavelmente num futuro próximo hão-de cortar os ricos distritos vizinhos – Macau tornar-se-á, não já numa aldeia de pescadores, mas um lugar deserto ou um montão de ruínas. (…)
É desnecessário, porém, meus senhores, repetir o que todos sabemos, avivar o que todos sentimos. As necessidades da colónia são palpáveis, evidentes; e o perigo da sua não imediata satisfação a todos é tão manifesto, que eu não quero ser prolixo, descrevendo-o em mais traços. Passa para a colónia uma hora das mais angustiadas da sua longa existência. Passa uma hora em que não é lícito à metrópole, que das situações prósperas desta terra se tem aproveitado, deixar de olhar agora para ela com excepcional e particular atenção.
Macau é terra portuguesa e isso basta dizer. Mas Macau é também o marco que Portugal plantou mais distante nos heroicos tempos da sua gloriosa epopeia marítima. Macau é quem dá nome do Extremo Oriente a Portugal. É a Macau que a Europa e a América devem a sua iniciação no comércio com o vasto Império Chinês. Aqui se estabeleceram os armazéns das históricas e poderosas companhias da Índia e Holandesa, em segurança que noutra parte não tinham. Por aqui entraram, aqui se estabeleceram e aqui se refugiaram nas horas de perigo os primeiros pioneiros da civilização ocidental, os primeiros comerciantes e os primeiros missionários, que da Europa e da América vieram à China.
Macau excede em valor histórico todos os estabelecimentos europeus no Extremo Oriente; quase todos os povos europeus aqui têm uma parte da sua história. Macau é, pois, credor da gratidão da Europa. Aos sentimentos de estranhos não temos, porém, necessidade de recorrer. Cumpre-nos tão somente neste momento congregar os nossos esforços para debelar a crise por que a colónia passa; e como é de evidência que só por nossos esforços a não podemos vencer, façamo-lo saber à metrópole para que com o seu auxílio Macau possa ressurgir à altura dos seus antigos tempos de esplendor.”

quinta-feira, 5 de outubro de 2017

Festival do Meio do Outono

O Festival do Meio do Outono - Chong Chao Chit -中秋節, 中秋节 - celebra-se no 15.º dia da 8.ª Lua - o Equinócio do Outono - e tem origem na China rural sendo uma festividade ligada às colheitas agrícolas. É a segunda maior festividade chinesa, depois do Ano Novo Lunar, e também nestas datas, a família ganha especial importância.
Entre os rituais festivos contam-se: a Festa do Bolo Lunar; Festa das Lanternas muito semelhantes à que ocorre no 15.º dia da primeira Lua.
Em Macau o Festival do Meio do Outono também se celebra com destaque para o facto de os bolos lunares fabricados no território - na zona da rua dos Mercadores - serem dos mais apreciados em todo o sul da China.

terça-feira, 3 de outubro de 2017

150 anos do nascimento de Manuel da Silva Mendes

No próximo dia 23 Outubro assinalam-se os 150 anos do nascimento de Manuel da Silva Mendes. Para assinalar a data será possível adquirir a "Biografia" em condições especiais ao longo deste mês. Mais novidades em breve...



segunda-feira, 2 de outubro de 2017

Estátua do Buda das 4 Faces

A estátua do Buda de Quatro Faces veio da Tailândia para Macau em 1984 sendo colocada na Taipa frente ao Jockey Clube. Trata-se um pavilhão miniatura colocado sobre uma plataforma octogonal e um pequeno pódio de três degraus. Está fechado em redor por barras metálicas, com santos budistas em cada um dos cantos do altar, de guarda ao Buda. Os quatro pilares do altar estão decorados com frisos, finamente esculpidos em madeira e o seu tecto de três níveis está ornamentado a ouro. O topo do telhado é abobadado e coberto de telhas de cerâmica de forma rombóide. Apresenta a forma de um vaso, com o bojo a estreitar-se para cima como um “stupa”, terminando por um enfeite no topo, numa arquitectura típica dos templos do sudeste asiático. O Buda tem as quatro faces viradas nas quatro direcções cardeais e com as mãos a empunhar vários objectos, nomeadamente, rosários, concha, um jarro para água, uma placa com os sutras (escrituras sagradas) e a roda do Dharma que alude à omnipotência do Buda. 
O Buda de Quatro Faces é uma divindade originária da Índia e venerado no sudeste asiático, sendo especialmente popular na Tailândia, conhecido por auspiciar riqueza, boa sorte e honra aos que o veneram. 
Postal da década de 1990

domingo, 1 de outubro de 2017

Três datas em Outubro

Tempos houve em Macau que entre 1 e 10 de Outubro se celebravam três datas distintas: a 1 de Outubro, a implantação da República Popular da China (1949), a 5 de Outubro, a implantação da República em Portugal (1910) e a 10 de Outubro, a implantação da República na China (1911). Com inúmeras repercussões na vida do território, a estas datas estão ligadas várias personagens, como são o caso de Sun Yat-Sen e Carlos da Maia.
 Carlos da Maia foi o 105º governador de Macau
Av. da República em Macau

sábado, 30 de setembro de 2017

Altar do Cristo Rei na Sé

A igreja da Sé em Macau tem no interior vários altares. Um deles é o do Cristo Rei nas imagens abaixo: primeiro num postal da década de 1980 e depois numa fotografia do século 21.


sexta-feira, 29 de setembro de 2017

A ponte das nove curvas

Provavelmente um dos mais bonitos jardins de Macau (e são cerca de uma dezena no total) o Jardim Lou Lim Ieoc é o único verdadeiramente de estilo chinês. Foi mandado construir nos primeiros anos do século XX pelo comerciante Lou Cheok Chin (1837-1906) que se fixou em Macau por volta de 1870. Por essa altura contratou em Cantão os serviços de dois profissionais, Lau Kat Lok e Lei Tat Chun, especialistas em jardinagem.
A zona - do Tap Seac - era na época pantanosa e os lagos abundantes e o seu projecto passava pela construção de um jardim chinês ao estilo do século XIV, da zona de Suzhou. Baptizado de Jardim das Delícias, acabou por ficar conhecido pelo nome do seu proprietário ou do seu primogénito, comummente designado por Jardim do Lou Kau ou Jardim do Lou Lim Ieoc. Actualmente ocupa uma área de pouco mais de 1 hectare, cerca de metade da inicial, pois após a morte de Lou Lim Ioc os seus descendentes alugaram, em 1938, parte do jardim à escola Pui Cheng e mais tarde à Escola Leng Nam. A partir de 1951, uma grande parte da sua área foi urbanizada. 
Em 1973 foi adquirido pelo governo de Macau aos descendentes da família Lou. Depois de totalmente recuperado, abriu ao público a 28 de Setembro de 1974. Está repleto de recantos e lagos onde se evidenciam os nenúfares e flores de lótus. É usado para passeios sendo habitual os utilizadores tocarem instrumentos musicais ou praticar Tai-Chi. 
Outra das imagens de marca deste espaço são as gaiolas tradicionais chinesas com pássaros lá dentro e que os seus proprietários levam a passear. Ao contrário do que é habitual nos jardins tipicamente chineses, neste, a ponte que atravessa o lago, não é feita em linha recta. Antes, pelo contrário, é às curvas, num total de nove. Segundo a tradição, quem passar pelas curvas da ponte, deve formular um desejo, pois verá esse desejo transformar-se em realidade.

quinta-feira, 28 de setembro de 2017

Colónia de comércio e pequenas indústrias


No início do século XX a economia de Macau 'vive' essencialmente do comércio do ópio e do jogo, origem da maior parte das receitas do governo. Destaca-se ainda a fábrica de cimento da Ilha Verde, a única no género em todo o Oriente. Segue-se o excerto de um texto sobre Macau para distribuição na Exposição Portuguesa de Sevilha (1929) da autoria de Ernesto de Vasconcellos.
Secagem do peixe no Porto Interior
"Macau é uma colónia de comércio e mantém algumas pequenas indústrias. Importa ópio cru e exporta-o cozido. Prepara a folha do chá; descasca e mói o arroz; desfia o casulo de seda e fabrica alguns tecidos, esteiras e panchões. A sua maior indústria é a da pesca, salga e secagem do peixe. Pela sua situação geográfica faz grande comércio de trânsito devido à cabotagem favorecida pelos inúmeros canais que ligam os rios de Cantão e de Oeste, que foi um dos últimos abertos ao comércio, havendo os chamados portos de tratado, como Kongmun e Samshui, estando este servido pelo caminho-de-ferro de Cantão, que, por seu turno, está ligado a Kowloon, o que equivale dizer a Hong Kong, que é o porto que lhe dá serventia. A grande maioria das embarcações que frequentam Macau é constituída por pequenos barcos veleiros, dos vários tipos chineses, que tomam indistintivamente o nome de ‘juncos’. Não quer isto dizer que ao porto exterior não vão vapores de vária tonelagem, sobretudo agora que se construiu o porto, que está sendo devidamente apetrechado. (…)"
Mapa com indicações dos principais destinos das exportações de Macau em 1938

quarta-feira, 27 de setembro de 2017

Luís Andrade de Sá: 1958-2017

O jornalista Luís Andrade de Sá morreu esta terça-feira em Portugal aos 58 anos. Nascido a 31 de Dezembro de 1958, em S. Julião, Setúbal, Luís Andrade de Sá iniciou-se no jornalismo em 1984, tendo feito grande parte da sua carreira em Macau onde trabalhou na TDM e em vários títulos da imprensa na década de 1990.
Em 2000 regressou a Portugal, onde trabalhou em vários órgãos de comunicação social, como a Agência Lusa sendo delegado em Maputo de 2004 a 2007. Em 2014 voltou ao território para dirigir o semanário bilingue Plataforma e em 2015 foi director da Macau Business
Luís Sá, que era eu ainda estudante, tive oportunidade de conhecer e do qual recebi alguns ensinamentos sobre jornalismo, é autor de vários livros sobre a história do território: A Aviação em Macau: um século de aventuras, The Boys from Macau, Hotel Bela VistaMarcas da presença portuguesa em Macau, A história na bagagem: crónicas dos velhos hotéis de Macau.
Até sempre, Luís!

terça-feira, 26 de setembro de 2017

A China de Fernão Mendes Pinto

No século XVI, ainda o Oriente era interdito aos ocidentais o português Fernão Mendes Pinto (FMP) percorreu aquela zona do mundo durante duas décadas onde foi "treze vezes cativo e dezassete vendido nas partes da Índia, Etiópia, Arábia Félix, China, Tartária, Massacar, Samatra e muitas outras províncias daquele Ocidental arquipélago dos confins da Ásia”.
FMP nasceu entre 1509 e 1514 em Montemor-o-Velho (morreu em 1583) e a viagem começa por volta de 1536. No regresso a Portugal (1557) passou a memória das viagens e aventuras para livro numa obra que chamou de Peregrinação.  (publicada pela primeira vez em 1614 em castelhano) com um total de 226 capítulos e que viria a ser publicada após a sua morte. Na época e durante muitos dos anos seguintes foram muitos que a classificaram de fantasia mas actualmente praticamente todos reconhecem o valor histórico do testemunho que incluirá alguns elementos de ficção ou, no mínimo, relatos de locais e situações que podem não ter sido testemunhados por ele, mas que lhe contaram...
Durante 21 anos FMP viajou por muitos países - os actuais Mongólia, Japão, Singapura, Índia, Indonésia, Tailândia, Laos, Vietname, Camboja, Myanmar... - e no livro faz descrições muito pormenorizadas dos povos, das línguas e das terras por onde andou, testemunhando também o seu fascínio pela grandiosidade dessas civilizações. Chega a ser acusado de exagerar nas descrições - tendo ficado célebre o dito popular «Fernão, Mentes? Minto!». Mas até para isso o livro tem resposta: "A gente que viu pouco mundo, como viu pouco também costuma dar pouco crédito ao muito que os outros viram".
Certo é que a “Peregrinação” foi um sucesso na época, nomeadamente na Europa tendo tido 19 edições, em seis línguas.
A China é, de longe, o país ao qual FMP mais páginas dedica. Fica surpreendido pelos chineses comerem com pauzinhos e não com as mãos e faz vários elogios à “grandíssima ordem e maravilhoso governo” chinês. Destaca ainda locais como a Cidade Proibida e a Grande Muralha. A primeira era a residência do imperador - “nem é visto senão daqueles que o servem” - e a segunda, construída para a defender o país do ataque dos tártaros (mongóis) do Norte, era constituída por cerca de “315 léguas” de muro, “na qual obra dizem que trabalharam contínuo 750.000 homens”, incluindo o próprio F. M. Pinto, que foi condenado a trabalhos forçados juntamente com alguns companheiros de viagem, por terem sido apanhados a mendigar depois de um naufrágio.
Sugestão de leitura: "Aventuras Extraordinárias de um Português no Oriente", uma adaptação de Aquilino Ribeiro publicada em 1933 com ilustrações de Martins Barata.


Na edição nº 41 (Julho 2017) da Macao Magazine, Joaquim Magalhães de Castro assina um artigo intitulado "The China of wonder and marvels of Fernão Mendes Pinto" que a seguir transcrevo:
Portuguese traveller writes his memoirs on China in his literary sensation Peregrinação published in 1614. The latest studies by historian Jin Guo Ping, the translator of Peregrinação into Chinese and one of the top experts in historical relations between China and Portugal, have corroborated much of what the 16th century Portuguese adventurer Fernão Mendes Pinto wrote about the Middle Kingdom (China), a subject occupying nearly two-thirds of his famous memoirs.
Mendes Pinto (c.1509 – 1583) is the author of Peregrinação (Pilgrimage), a literary sensation published posthumously in 1614. Beyond recounting his many adventures, the book offers an European’s view of Asian, and especially Chinese, civilization at the time.
Mendes Pinto travelled to India in 1537 and spent the next two decades in Asia, much of it in the Far East, often in the service of the Portuguese crown. In 1543, he claimed to have landed at Tanegashima Island in Japan, supplying the local ruler with an arquebus and thereby introducing guns to that country. Then in China, he was convicted at one point of plundering royal tombs and sentenced to a year of hard labour on construction of the Great Wall. In 1558, after his return to Portugal, Pinto wrote Peregrinação.
The traveller settled in Almada near Lisbon, married, received a royal pension, and died 25 years later in 1583. His memoirs, a demy quarto volume containing more than 400 pages divided into 226 chapters, became widely popular with several new editions published in the 17th century.
“… I undertake this crude and rough writing, which I leave to my children… so that they can see in it the travails and perils of life I experienced in twenty-one years during which I was thirteen times a captive and seventeen times sold, in the parts of India, Ethiopia, Arabia Felix, China, Tartary, Macassar, Sumatra and many other provinces of that oriental archipelago at the ends of Asia…”
Misfortune lands Pinto in China
During his travels between 1540 and 1550, along the coast and upriver, Mendes Pinto generally expresses admiration and sympathy for the Chinese people and their culture.
Fernão Mendes Pinto entered Chinese territory as the result of a tragic shipwreck. He lived, though he could hardly have imagined the difficulties he and the other survivors would face.
The territory they landed in, likely somewhere on the coast of Jiangsu province, was unknown to the survivors. They set out walking over hills and dales before eventually finding shelter at a local inn, where they presented themselves as poor shipwrecked subjects of the King of Siam. They were immediately provided with all the assistance they required, as that kingdom was a vassal of the Celestial Empire and habitually employed foreigners in its service. In such shelters the stay was limited to three days, so they once again took to the road, though not before they were provided with ample supplies by the local inhabitants. They soon reached another shelter for travellers, where they were provided with food, lodging, laundry service and even medical assistance, for some of them were quite ill.
Foreigners at that time were only allowed to trade in the ports, and were forbidden from entering Chinese territory. Fearing contact with imperial authorities, they decided to travel on secondary roads, with limited success. They would go on to be arrested, mistreated, and considered as thieves on various occasions. Such hard times alternated with good luck when they received alms or found shelter with local Chinese families, a unique opportunity to closely observe habits and customs different from their own. Mendes Pinto and his companions were among the first Europeans to have that privilege.
The Portuguese traveller also had the opportunity to witness China’s vastness, vividly recounting the bustling waterfront of the long canal and the ports where they docked when travelling by boat. The variety of products on sale in markets and fairs and the skill shown by the Chinese in breeding animals and cultivating land were two aspects that stood out for Mendes Pinto, who assures us that “in that Empire of China there were as many people living along the rivers as in the cities and towns.”
At one moment during his trip, he calls attention to a city with noble and rich buildings and “bridges sustained on very thick columns of stone and roads all paved with very fine flagstones, and all very large and well-finished and very long,” a description that fits the profile of the former capital, Hangzhou. His sense of astonishment before the many marvels he witnessed is evident throughout the text.
Exploring the Grand Canal
There is no definitive proof that he visited Suzhou, as the names of places he passed through are generally hard to identify. Even today the names for places and regions of China can seem confusing due to the different spellings used. This is especially true in the south of the country, where Cantonese and various other dialects are present. So when Fernão Mendes Pinto speaks of a “good city surrounded by a very fine and strong stone wall, with towers and bastions almost like our own and a quay bordering the river,” he could be referring to Suzhou just as easily as any other city along the Grand Canal.
In one of the chapters of his book, he mentions a small city with a large number of bridges “made on very strong stone arches, and at the ends columns with their chains crossing through and stone benches so people could rest,” a description which perfectly recalls Zhouzhuang. It could also refer to Tongli, though, a neighbouring canal city that has resisted the passage of centuries in the Grand Canal region encompassing the provinces of Jiangsu and Zhejiang.
Peregrinação is a veritable treatise on sinology. In it, Mendes Pinto highlights on several occasions the richness of the streets, even the most ordinary ones, all of them very long and broad “with fine smooth paving”. He speaks of a land “fertile in food, so rich and well-supplied in all things” that he can find no words to describe them. He also describes numerous warehouses stocked with an endless variety of food and places where “all kinds of game and meat as are created on this earth are slaughtered, salted, cured, and smoked.”
His account details the dynamics of trade practiced in ordinary shops of rich merchants, “which on their private streets were very well-arranged, with such a quantity of silks, embroidery, fabrics and clothing of cotton and linen, and furs of martens and ermines, and of musk, fine porcelains, items of gold and silver, seed-pearls, pearls and gold in powder and bars, so that we nine companions were continually amazed.” And where there was trade there were also “technical officials for as many vocations as there are in the guilds.”
Mendes Pinto highlights the ability and ingenuity of the Chinese “in all mechanical dealings and agriculture, and the very skilled architects and inventors of very subtle and artful things,” and records the presence of men and women who played various instruments “to provide music to whoever wanted to listen, and for that reason alone become very rich.”
To the Forbidden City
It is not certain that Fernão Mendes Pinto ever visited the Chinese capital, and some scholars staunchly reject that possibility. Whether or not he did, it is certain that what he recounts is very close to reality. If he did not actually visit the empire’s capital, he was certainly very well informed about it.
He describes a city with “noble streets with arches at the entrances and gates which closed at night,” noting that “most of them have fountains of very good water and are by themselves very rich and finely worked,” and mentioning the “hundred and twenty noble squares,” each of which hosted a market fair every month.
Mendes Pinto states that of all the cities he knew, none could be compared to “the great Peking,” lauding its grandeur and sumptuousness, due to its “superb buildings” and “infinite wealth, superlative abundance, well-supplied in all things necessary, countless people, trade and vessels, justice, government and peaceful court.”
Even so, the centre of all attention remains the Forbidden City, which at the time, “as the Chins told us” it had 360 entrances, all permanently guarded by four men armed with halberds, “to control everything that passed through.”
He notes a certain class of odd and influential people, telling us that “within the walls of the royal palace are a hundred thousand eunuchs” along with 12,000 guards, “whom the king provides with large salaries and pensions,” and describes the concubines, which he numbers at 30,000. They were surely attractive women, for beauty was no rarity in the kingdom of China. On several occasions Mendes Pinto highlights that fact, stating that Chinese women were “very pale and chaste, and inclined to all work more than the men.”
He stresses the importance of the temples, which were usually surrounded by beautiful gardens, noting the admirable carpentry work of the buildings and the walls of the enclosures “lined inside by very fine porcelain tiles and above by roof ridges and in the corners by very tall spires, diversely painted.” He also mentions triumphal arches in gold with a large number of silver bells hanging by chains of the same metal, which “ringing continuously due to movement of the air made such a noise that it was impossible to hear anything else.”
Of course, Mendes Pinto cannot fail to notice the golden lions on round balls or spheres, which he correctly calls “the emblem or arms of the king of China.” Another imperial symbol is the dragon, appearing to his eyes as nothing more than a monster , with the “figure of a dissembling serpent,” recalling to him the figure of Lucifer.
Revealing the Great Wall
Fernão Mendes Pinto was one of the first Europeans to reference the existence of the Great Wall, telling us that “the king who then reined in China,” fearful that the traditionally nomadic barbarians in the north would once again unite, he ordered that the entire border between the two empires be protected by a wall.
Pinto specifies that, according to historical annals, “in twenty-seven years the entire border of those two empires were closed from end to end.” After making the respective calculations, he concludes that the wall was 315 leagues long and more than 750,000 men were involved in the project.
His has perhaps the most complete description of the Great Wall ddone by a Westerner of that time and date.
In Peregrinação, Fernão Mendes Pinto collected descriptions and rare geographical details about the many countries he had known. In it, some kingdoms disappear, while others merge or change names, making it difficult to accurately trace his truly audacious route, with its numerous maritime diversions along the coast of the Asian continent, travelling up rivers and visiting islands.
While mindful of the illusory style, likely intended to better combine the author’s personal history with the accounts of others, it is still fascinating to revisit some of the places mentioned in the book. Especially China, the country to which he devotes the most pages, full of praise for its “very great order and marvellous government”—a powerful kingdom, exotic and perfectly organised. The rigorous and profoundly just Chinese social organisation ran from the distribution of work for all to the free right to justice, including subsidies for the “lame and people without support” and homes for the elderly no longer able to work. Even the shelter offered to him and his companions demonstrated how advanced China was in the area of social assistance, administration and application of justice, compared to Europe at the time. For even as his many fanciful adventures challenge credulity, the immense admiration for China and its people expressed by Fernão Mendes Pinto rings remarkably true.