sábado, 27 de maio de 2017

Apresentação da "Biografia de Manuel da Silva Mendes"

Domingo, 4 de Junho, às 19 horas
apresentação da "Biografia de Manuel da Silva Mendes 1867-1931"
Feira do Livro de Lisboa -​ ​auditório da APEL
Segue-se uma sessão de autógrafos no stand (C15) da Livraria do Turismo de Macau

http://manuel-da-silva-mendes.webnode.pt/

quarta-feira, 24 de maio de 2017

Bilhete teatro/cinema "Apollo"

Dois bilhetes para a "galeria" do teatro/cinema Apollo em Dezembro de 1945 tendo no verso selos a servirem de "estampilha fiscal" devidamente carimbados.
(clicar na imagem para ver em tamanho maior)

terça-feira, 23 de maio de 2017

Projecto para um banco em 1864


Na edição de 17 de Março de 1864 o Ta-Ssi-Yang-Kuo, "semanário macaense d'interesses publicos locaes, litterário e noticioso" publica um artigo que tem como título "Projecto para um banco em Macau". 
Curiosamente, pouco tempo depois, por Carta de Lei de 16 de Maio desse ano, seria criado em Portugal o Banco Nacional Ultramarino com o "exclusivo da fundação e administração de instituições bancárias nas províncias ultramarinas, excepto em Macau".
Goradas as expectativas locais só quase 40 anos depois, a 30 de Novembro de 1901, o governo de D. Carlos assina com o BNU "um contrato para o exercício do privilégio da emissão de notas e de obrigações prediais nas províncias ultramarinas", não se excluindo Macau: "O Banco obriga-se no prazo máximo de 90 dias, que começará a contar-se da data de assinatura do presente contrato, a ter estabelecidas caixas filiais em Luanda, Benguela, Nova Goa, S. Tomé, S. Tiago de Cabo Verde e Lourenço Marques, agências em S. Vicente de Cabo Verde, Moçâmedes e Moçambique; e, no prazo máximo de 6 meses, ter estabelecidas agências na Ilha do Príncipe, Bolama, Cabinda, Inhambane, Quelimane e Macau; e no prazo de um ano a ter agência em Dili".

Em Agosto de 1902 o BNU abriu a primeira filial em Macau, sendo o seu primeiro gerente Félix D. Costa. Funcionada num edifício na av. da Praia Grande junto ao Palácio do Governo.
Curiosidade: Em 1899 João Feliciano Marques Pereira fundou a revista ”Ta-Ssi-Yang-Kuo, archivos e annaes do Extremo-Oriente Português” que foi publicada até 1903. O título, como se pode verificar, foi inspirado no jornal referido neste post e que foi fundado pelo pai de JFMP, António Feliciano Marques Pereira, em 1863, (e tb por José Gabriel Fernandes) curiosamente no ano do nascimento de JFMP. O semanário durou até 1866, após 134 edições.

segunda-feira, 22 de maio de 2017

Exposição de Plantas Urbano-Arquitectónicas

"Macau Ilustrado - Exposição de Plantas Urbano-Arquitectónicas da Colecção do Arquivo de Macau" é o título da exposição a inaugurar no próximo dia 9 de Junho.
Estará aberta ao público todos os dias, excepto à segunda-feira e feriados, das 10 às 18 horas, no Arquivo de Macau, na Av. do Conselheiro Ferreira de Almeida, 91-93, sendo a entrada livre.
A mostra é constituída por uma selecção de cerca de 60 plantas urbanas e desenhos arquitectónicos conservados no Arquivo de Macau que, organizados tematicamente, habilitam os visitantes à compreensão da evolução do padrão urbano de Macau através das mudanças concretas desenvolvidas dos finais do século XIX até meados do século XX, mostrando também as características de design dos edifícios de Macau em que se nota a linguagem de variados estilos de design adoptada por diferentes desenhadores, e que exploraram possibilidades da fusão entre elementos ocidentais e orientais enquanto captaram as tendências internacionais.
Durante o período da exposição serão realizadas diversas palestras. A primeira realiza-se a 17 de Junho, 15 horas, no Arquivo de Macau, orientada pelo arquitecto Lui Chak Keong, subordinada ao tema "Retrospectiva sobre o desenvolvimento urbano e arquitectónico de Macau desde o final do século XIX até início do século XX, através das plantas urbano-arquitectónicas da colecção do Arquivo de Macau. A palestra será feita em cantonense, sendo a entrada livre.

sábado, 20 de maio de 2017

Cerâmica de Shek Wan: emissão filatélica de 1987

Património Artístico Museu Luís de Camões - Cerâmica de Shek Wan
emissão filatélica de 1987
A maioria das peças pertenceram a Manuel da Silva Mendes (1867-1931) e foram adquiridas pelo Governo de Macau após a morte de MSM passando a fazer parte do Museu Luís de Camões em 1932. Com a extinção do Museu Luís de Camões e a criação do Museu de Arte de Macau estas peças passaram a fazer parte deste último sendo considerada uma das mais valiosas colecção do género a nível mundial.

Os fornos de Shek Wan, introduzidos na dinastia Song (960-1279), ganharam grande relevo na dinastia Ming (1368-1844) pela sua excelência. Localizada em Foshan, na província de Guangdong, Shek Wan é considerada como o ‘Centro da Cerâmica do Sul da China’. As porcelanas apresentam vidrados de várias cores, incluindo o preto-acinzentado, o verde-azulado, o castanho claro e o azul-acinzentado. Os temas utilizados nas peças são normalmente animais ou figuras humanas, nas mais diversas actividades, como a pesca, o corte de árvores ou a leitura. Actualmente, a cerâmica de shek Wan goza de grande popularidade a nível mundial. Em 2007 foi feita outra emissão filatélica alusiva ao tema.
PS: durante a edição deste ano da Feira do Livro de Lisboa (1 a 18 de Junho) será apresentada a Biografia de Manuel da Silva Mendes (data e hora a anunciar brevemente)

quinta-feira, 18 de maio de 2017

Heroes e Martyres

"Heroes e Martyres. A Infantaria Portugueza. Paginas gloriosas do nosso povo".
É este o longo título da obra da autoria de Eduardo de Noronha (1859-1948) publicada pela Livraria Moderna em 1905. Nas mais de 400 páginas o autor recorda "alguns trechos commoventes da nossa historia, em que a peonagem, a arraia-miuda dos primeiros tempos da monarchia, o plebeu anonymo, o que mais tem sentido o sacrosantissimo amor da patria, se impoz pelo seu valor pessoal, pela heroicidade das suas façanhas, pela abnegação com que sempre offereceu a vida ao paiz e escreveu com o seu sangue as mais brilhantes paginas militares de que se póde ufanar um povo". 
Sobre Macau o autor escreve que "É rica em aventuras a existência d'essa pequena peninsula em Macau, onde os portuguezes se estabeleceram em 1547, e que é hoje uma das nossas colonias mais florescentes. Não cabe nos pequenos limites d'este capitulo fazer a gloriosa historia d'essa possessão. Apenas diremos que os seus princípios foram difficeis, que houve luctas terríveis em terra e no mar; que alli foi provedor dos defunctos e ausentes, durante dois annos, o nosso grande épico I.uiz de Camões e que ahi trabalhou no seu immortal poema; que entre hollandezes, chinezes, e portuguezes houve rivalidades e attritos que nos custaram muito sangue e muito dinheiro".
Eduardo de Noronha escreve sobre "heróis e mártires" relativos a Macau e relata, por exemplo, o episódio do Forte do Passaleão (republicado na Revista Colonial em Janeiro de 1913) e faz relatos curiosos sobre a personalidade de Ferreira do Amaral.
"A 21 de abril de 1846 toma posse do governo de Macau João Maria Ferreira do Amaral. O novo governador pertencia á marinha de guerra. Em 1821 era aspirante. A 24 de fevereiro de 1823 a tripula- ção da esquadra portugueza tomava parte no combate da ilna de ltaparica, querendo reduzir á obediência os colonos do Rrasil, que tinham proclamado a sua emancipação da mãe patria. A ilha foi atacada pelos escaleres da esquadra, e os marinheiros foram, como sempre, heroicos, mas o ataque foi repellido. Logo no principio da acommettida o guarda marinha Ferreira do Amaral foi ferido por uma bala no braço direito. Levado á força para bordo do brigue Audas, que servia de hospital de sangue, teve ahi de soffrer a amputação d'esse importante orgão. Ferreira do Amaral sujeitou-se á operação sentado numa cadeira, fumando um charuto, e quando os medicos acabaram, pegou no braço cortado, e atirando-o ao ar bradou com enthusiasmo: «Viva Portugal!» Em seguida, ainda mal pensado, subiu ao convez e de lá exhortava os seus camaradas a combaterem até alcançar victoria. Promovido tenente, emigrou mais tarde para a ilha Terceira e tomou parte nas campanhas da Liberdade. Fez parte da expedição do Mindello, commandou o brigue S. Boavemtura, e a esquadrilha do Ribatejo, que em 1833 defendeu Lisboa pelos lados de oeste. O almirante Napier dedicava-lhe particular estima e escolhia-o sempre para as missões mais perigosas. No fim da campanha era official superior, posto que obtivera por distincção.
Comandou a corveta Urania e a fragata Diana, ambas encarregadas de espinhosas e difficeis cornmissões em que o seu commandante se houve com a costumada perícia. Em Angola perseguiu com o maior denoto os negreiros, denodo que lhe valeu diatribes e intrigas, das quaes se libertou e justificou com o maior desassombro. Findou por aqui a carreira marítima, que tanto illustrara, o valente commandante. Ferreira do Amaral mantinha a bordo dos seus navios uma disciplina de ferro. Contam-se d'elle algumas excentricidades. A bordo da corveta Urania era servido a mesa por um chimpanzé. Uma vez que offerecia um jantar, fundeado em frente de Paço d'Arcos, uma das convivas, ao ver o feio animal deitar-lhe o vinho no copo, assusta-se, solta um grito, o macaco atrapalha-se por seu turno e deixa cahir o copo, que mancha o vestido da dama. Amaral zanga-se. castiga o chimpanzé, que impressionado, deixa de comer e morre de inanição. O brioso official domestica então outros dois macacos, para os utilizar como o anterior, mas estes não são nem tão submissos, nem tão sensíveis. Uma vez que o commandante de um navio inglez vae a bordo da Urania retribuir cumprimentos, um dos quadrumanos agarra o chapéu armado do official britannico, trepa com elle para a mastreação e de lá deixa-o cahir ao mar. A victima não se zanga e toma o partido de se rir, declarando que vae arranjar dois pagens da mesma especie. 
Amaral adquirira o habito de entrar nos navios sendo içado ao caes, indo assentado numa cadeira de braços, quando poderia subir pela respectiva escada do portaló. Diz-se que a cadeira em que fazia essa singular ascenção era a mesma onde lhe fôra amputado o braço. Seria superstição! Foi heroe em mais de uma aventura galante, que lhe originaram vários duellos, batendo-se sempre á pistola e ferindo mais de um adversário. 
Vejamos agora o que dizem alguns dos seus biographos: Ferreira do Amaral era deputado por Angola, quando foi nomeado governador da província de Macau. O novo chefe ia resolvido a estabelecer a absoluta independência da colónia e a levantar o nome portuguez na China. Tinha a luctar contra a contumácia e o systema sophistico dos chinas, bem como contra o abatimento e interesses de alguns habitantes, mas não trepidou e o seu animo de ferro deu-lhe forças para tudo vencer. A elle deveu a colonia todo o bem estar qué posteriormente gosou. Começando desde logo a tomar medidas acertadas, foi augmentando de incentivo ao passo que ia affirmando a nossa soberania. Assim, se a 8 de Outubro de 1846 suffocou a celebre revolta dos faitiões, com mais energia firmou, em 5 de Março de 1849, a abolição e a expulsão do ho-pu, ou alfandega chineza de Macau, que mandou fechar a 13 do mesmo mez, causando grande assombro tal resolução, mas livrando-se a colonia de maior vexame que sobre ella pesava. (...)"

domingo, 14 de maio de 2017

SLB em Macau na digressão do Verão de 1970

SLB em Macau em 1973: nas imagens, entre outros, Nené, Moinhos e Eusébio
O Benfica jogou a 20 e a 22 de Agosto no Campo Desportivo 28 de Maio, mais conhecido por Campo do Canídromo, primeiro com a selecção de Macau, treinada por Victor Apresentação, que venceu por 4-0, e depois com um misto de Hong Kong e onde o SLB tb venceu mas por 7-0.
 Equipa do Benfica em Macau no ano de 1970
SLB: Fonseca, Zeca, Adolfo, Matine, Vitor Martins, Humberto Coelho, Malta da Silva, José Henrique, Jaime Graça, Nené, Artur Jorge, Eusébio,Torres, Raúl Águas e Simões numa foto com jogadores de Macau


A passagem por Macau e Hong Kong, foi enquadrada numa digressão que levou o SLB entre Agosto e Setembro de 1970 a Angola (Luanda), Moçambique (Lourenço Marques), Coreia Do Sul (Seul), Macau, Hong-Kong e Japão (Tóquio e Kobe).
Nessa época, Jimmy Hagan era o treinador do SLB que se sagrou Campeão Nacional com três pontos de vantagem sobre o Sporting. Artur Jorge foi o melhor marcador com 23 golos.

sexta-feira, 12 de maio de 2017

O 13 de Maio... desde 1929

Desde 1929, a 13 de Maio, realiza-se em Macau a procissão em honra de Nossa Senhora de Fátima, porventura a mais importante das várias que se realizam no território com regularidade. Ao cair da noite acendem-se as velas e milhares de pessoas acompanham o andor com a imagem da Nossa Senhora. (em cima a procissão em 1990)
Um dos principais impulsionadores do culto mariano na igreja de S. Domingos foi o padre jesuíta António José Gonçalves Roliz. Segundo a imprensa da época, depois do anúncio no primeiro dia de Maio de 1929, no dia 10  “o Pe. Roliz benzeu a imagem que iria na procissão e fora enviada de Portugal. O dia 13 de Maio foi de romagem de Fé, com Missa de Pontificai pelo então Bispo de Macau, Dom José da Costa Nunes, tendo ficado o SSmo. exposto todo o dia até às Vésperas de Pontifical à tarde, a que se seguiu o Sermão.”
Nesse primeiro ano o trajeto da procissão passava por S. domingos, Sé e Largo do Senado. Face à adesão à iniciativa foi criada a 13 de Dezembro de 1929 a Congregação de Meninas, designada de N. S. de Fátima, que passou a ocupar-se da organização.
Foi também em 1929 que foi construída no bairro Tamagnini Barbosa (28 de Maio) a capela de N. Sra. de Fátima. A que existe hoje data de 1968.
Este ano as celebrações concentram-se na igreja da Sé onde na fachada se destacam os estandartes enviados de Fátima. No interior uma imagem evoca a consagração de diocese de Macau ao sagrado coração de Maria a 13 de Maio de 1943.

Em todo o mundo, incluindo Portugal, 120 países têm santuários, igrejas, capelas, escolas, movimentos, instituições, missões, congregações religiosas, altares, nichos, monumentos ou publicações dedicados ao culto à Virgem de Fátima.
Macau deu um contributo decisivo para o disseminar do culto mariano um pouco por toda a Ásia.
Em Pequim (China) existe uma paróquia dedicada a Fátima havendo ainda um santuário na cidade de Fuzhou e uma capela na costa leste, em Tsingtao. Ao todo são perto de uma centena os locais de culto católico na China.
Nas Filipinas e Vietname é padroeira. O culto mariano está também muito enraizado na Coreia do Sul, Índia, Tailândia (ao lado a Our Lady of Fatima Catholic Church numa foto de António Cambeta), Timor, Singapura, Taipé... só para citar alguns exemplos.

quinta-feira, 11 de maio de 2017

Salão de Dança "Kuok Chai"

Salão de Dança "Kuok Chai" - Noite Especial
Bilhete de admissão Três patacas (em notas de Macau)
selos de cinco avos no verso usado como estampilha fiscal
Inaugurado a 7 de Março de 1941 o hotel Kuok Chai/Grand Hotel tinha 9 pisos e um salão de chá no último andar proporcionando uma magnífica vista sobre a cidade e sobre a China. Localizado no início da av. Almeida Ribeiro (junto ao Porto Interior) passava a concorrer como hotel Central, até então o edifício mais alto do império colonial português, e que também proporcionava bailes com orquestra. O salão de dança do Kuok Chai ficava no primeiro andar. O edifício de linhas art-déco ainda existe e está devoluto desde a década de 1990.


quarta-feira, 10 de maio de 2017

Ainda o culto mariano

O culto mariano tem uma longa tradição em Macau e no último foram realizadas uma série de iniciativas pela diocese local. Durante 12 meses a imagem de Nossa Senhora visitou 12 igrejas da cidade, ficando um mês em cada uma.
O ponto alto das comemorações do centenário das aparições em Fátima é a procissão da sexta-feira (13 de Maio), a maior do território e que junta em Macau católicos de todos os pontos da Ásia. Este ano a novidade é a missa e a novena serem rezadas na Sé Catedral de Macau, e não na Igreja de São Domingos, como habitual. A procissão depois segue até à Ermida da Penha. É na Sé que está uma das mais imponentes imagens de Nossa Senhora de Fátima em Macau, com a inscrição “Rainha do Mundo, Mãe de Portugal, Amparai Macau”.

terça-feira, 9 de maio de 2017

O "Penha" atracado no Porto Exterior

A chegada a Macau dos "hidroplanadores" no início da década de 1960 veio revolucionar o sistema de transportes que fazia a ligação por via marítima a Hong Kong e, por via disso, como resto do mundo.
Em cima o "Penha" atracado na ponte-cais do Porto Exterior, construída de propósito para o efeito. Clicar na imagem para ver em tamanho maior.

domingo, 7 de maio de 2017

A Obra das Mães

Empenhado no enquadramento e organização de estratos da população, por idade e por sexo, o Estado Novo criou em 1936 a primeira organização estatal de mulheres, a Obra das Mães pela Educação Nacional (OMEN). Segundo o ministro da «Educação Nacional», Carneiro Pacheco, o objectivo era «estimular a acção educativa da família», «assegurar a cooperação entre esta e a Escola» e «preparar melhor as gerações femininas para os seus futuros deveres maternais, domésticos e sociais». No discurso que proferiu, por ocasião da nomeação dos membros da Junta Central da Obra das Mães, o ministro definiu os três objectivos daquela instituição: por um lado, a reeducação das mães e a assistência materno-infantil, através dos centros sociais e educativos, das «semanas da mãe» e dos «prémios às famílias numerosas» e, por outro lado, a antecipação e prolongamento da escolaridade através da educação infantil, das cantinas escolares e da criação da Mocidade Portuguesa Feminina.
Em Macau foi depois do 25 de Abril de 1974 que a Obra das Mães foi reformulada. Precisamente na Portaria n.º 1/76 de de 3 de Janeiro.
Artigo 1.º É instituída no território de Macau a "Obra das Mães", em substituição da "Obra das Mães pela Educação Nacional de Macau" cujos estatutos foram aprovados pela Portaria n.º 7.908, de 10 de Julho de 1965, e que se extingue pela presente portaria.
Art. 2.º São aprovados os Estatutos da "Obra das Mães", que fazem parte integrante desta portaria e baixam assinados pelo chefe da Repartição Provincial dos Serviços de Administração Civil.
Art. 3.º Todo o activo e passivo da "Obra das Mães pela Educação Nacional de Macau" transita para a "Obra das Mães" a partir da publicação desta portaria.
Art. 4.º A presente portaria entra imediatamente em vigor.
Governo da Província de Macau, aos 30 de Dezembro de 1975.
CAPÍTULO I
Natureza jurídica, fins e sede
Artigo 1.º A Obra das Mães (O.M.) é uma associação de utilidade pública, com personalidade jurídica e autonomia administrativa e financeira, que se destina a exercer a protecção e educação social, estimular a acção educativa da família, assegurar a cooperação entre esta e a escola e fortalecer o sentido do dever e da responsabilidade do trabalho.
Art. 2.º Os fins da O.M. são os seguintes:
1.º Orientar as mães, por uma activa difusão das noções fundamentais de higiene e puericultura, para bem criarem os filhos;
2.º Estimular e dirigir a habilitação das mães para a educação familiar, tendo em conta as diversas circunstâncias de vida e do meio;
3.º Promover o conforto do lar como ambiente educativo, em relação com os usos locais defendendo e estimulando as actividades e indústrias caseiras;
4.º Defender os bons costumes, designadamente no que respeita ao vestuário, à leitura e aos divertimentos;
5.º Promover e colaborar na educação infantil pré-escolar, em complemento da acção da família;
6.º Dispensar aos filhos dos pobres a assistência necessária para que possam cumprir a obrigação de frequentar a escola, designadamente pela instituição de cantinas, pelo fornecimento de uniformes e outros artigos de vestuário, pela distribuição de livros e pelo fornecimento e fortalecimento das caixas escolares;
7.º De um modo geral contribuir por todas as formas para a educação da juventude de Macau e para melhorar as condições de vida dos que necessitam de auxílio.

sábado, 6 de maio de 2017

Rumores em 1935

Em Maio de 1935 o jornal britânico Daily Mail publica um artigo tendo por base informações do seu correspondente em Hong Kong onde garante que o Japão estava interessado em comprar Macau tendo mesmo oferecido 20 milhões de libras.
Logo no dia seguinte o mesmo jornal publica outra notícia onde inclui declarações do ministro português das Colónias que nega prontamente que alguma parte do território português estivesse à venda.
Os rumores surgiram numa altura em que a companhia aérea norte-americana Pan Am se preparava para inaugurar uma rota até à China, precisando para isso de utilizar Macau como ponto de escala (o que viria a acontecer em 1937). 
Ao mesmo tempo, os japoneses, que planeavam a invasão da China (aconteceu em 1937) tinham planos para instalar em Macau uma base aérea que serviria de apoio à invasão. 
Esta ofensiva militar viria a ocorrer, mas as forças japonesas localizariam o seu quartel-general do lado de lá da Porta do Cerco e embora circulassem com relativa à vontade em Macau nunca chegaram a invadir o território, que se manteve com o estatuto de neutralidade garantido pelo governo de Portugal durante todo o conflito.

sexta-feira, 5 de maio de 2017

Foto-Legenda: Largo do Senado na década 1950

A propósito do post desta semana sobre a estátua do coronel Mesquita, recupero aqui uma imagem do Largo do Senado, o 'coração' da cidade, na década de 1950.
A imagem, feita a partir do edifício dos Correios, retrata o que foi aquela praça entre as décadas de 1940 (inauguração da estátua a 24.6.1940) e 1970 (remoção da estátua em Dezembro de 1966), testemunho da pacatez vivida no território em meados do século XX.
Os edifícios de estilo europeu mantiveram-se até hoje mas actualmente é bem diferente o aspecto da praça: deixou de ter trânsito, no piso sobressai a calçada à portuguesa e também se perdeu a forma triangular onde estava instalada a estátua em bronze. Depois da sua remoção foi criada uma fonte triangular que entretanto também já desapareceu dando lugar a um fontanário em formato circular.
No lado esquerdo vê-se um pequeno troço da Av. Almeida Ribeiro frente ao antigo edifício do Senado e a antiga mercearia e casa de câmbio Soi Cheong (na esquina com a Rua do Dr. Soares, no nº 3 da avenida tb conhecida pelo nome de San Ma Lou). O largo ocupa uma área de quase 4 mil m2 prolongando-se até à igreja de S. Domingos sendo todo espaço e vários edifícios da zona, como o da Santa Casa da Misericórdia, considerado Património Mundial da Humanidade pela Unesco desde 2005.
Largo do Senado no início do séc. XXI

quinta-feira, 4 de maio de 2017

Percorrendo o Oriente

Percorrendo o Oriente: A Vida de António de Albuquerque Coelho (1682 - 1745)

Livro - romance histórico - da autoria de Paulo Miguel Martins editado em 1998.
António de Albuquerque Coelho nasceu no Brasil em 1682 e foi para Portugal ainda novo. Em 1700 partiu para a Índia. Atravessou a pé todo o sul da Índia de costa a costa, tendo-se envolvido nas lutas internas do reino de Jahore, na Malásia, tomando partido pela facção vencedora. 
Foi sucessivamente nomeado governador de Macau, de Timor e de Pate (Mombaça). 
Por duas vezes esteve preso na Índia sendo sempre libertado após provar a sua inocência. Pobre e esgotado morre num mosteiro de Goa em 1745.
Foi marinheiro, guerreiro, aventureiro e político, um homem cuja história está intimamente ligada à presença portuguesa no Oriente, em que não falta grandeza e realismo, intriga e mesquinhez, drama e coragem...

quarta-feira, 3 de maio de 2017

A visita de Sun Fo em Agosto de 1947

Comandante do "Afonso de Albuquerque", Samuel Conceição Vieira assumiu as funções de encarregado do Governo - função que apenas existia na ausência prolongada de um governador -  a 5 de Agosto de 1946, no rescaldo da segunda guerra mundial, por um período de treze meses, em substituição de Gabriel Maurício Teixeira.
Foi nessa qualidade que recebeu a 20 e 21 de Agosto de 1947 a visita de Sun Fo, vice-presidente da República da China, filho e Suan Yat-Sen o fundador da república chinesa em 1911. Uma visita destacada na primeira página do Diário de Notícias (Portugal) que titula "Macau visitada pelo vice-presidente da República da China A continuação ds amistosas relações entre portugueses e chineses foi enaltecida num discurso que ali proferiu".

State visit of the Vice-President of the Republic of China Mr. Sun Fo to Macau during 20-21 August 1947. Sun Fo was the son of Sun Yat-sen, the founder of the Republic of China, and his first wife Lu Muzhen. Sun Fo being hosted by Samuel Vieira in an official reception. Portugal's daily newspaper 'Diario de Noticias' gave a report of the state visit of the Vice President of the Republic of China to Macau.


segunda-feira, 1 de maio de 2017

Estátua do Coronel Mesquita volta a ver a luz do dia

Inaugurada a 24 de Junho de 1940 no Largo do Senado (foto acima) a estátua de Vicente Nicolau de Mesquita (1818-1880), militar macaense que se notabilizou na Batalha do Passaleão, a 25 de Agosto de 1849, (em represália pelo assassinato do governador Ferreira do Amaral) seria vítima dos eventos de Dezembro de 1966 quando foi derrubada por um grupo de manifestantes em plena 'revolução cultural chinesa passando a ficar guardada nas oficinas navais desde então.
Em 1986 foi entregue à Associação de Comandos pelo então Governador de Macau, Contra-Almirante Vasco Almeida e Costa e desde então permaneceu o mistério sobre o paradeiro da mesma. Aqui pelo blogue publiquei vários posts revelando que terá sido por volta de 1986 que a estátua foi transportada para Portugal sendo entregue à referida associação que ficaria encarregue de a voltar a expor publicamente.
Entretanto restaurada a estátua viu novamente a luz do dia 77 anos depois da sua inauguração em Macau e foi exposta publicamente em Oeiras, na Bataria da Lage, em Fevereiro de 2017. (imagens abaixo)
A estátua em bronze é da autoria de Maximiliano Alves e incluía um pedestal (que se terá perdido para sempre) onde se podia ler:
“Homenagem da Colónia ao Herói Macaense Coronel Vicente Nicolau de Mesquita. 25 de Agosto de 1849. Monumento erigido por subscrição pública e auxílio do Governo da Colónia. Foi inaugurado por ocasião das festas comemorativas do duplo centenário da Fundação e Restauração de Portugal. 24 de Junho de 1940. Oferta do Leal Senado”.

Aspecto actual da estátua em bronze exposta na Bataria da Lage em Paço d'Arcos, Oeiras
Fotos da Associação de Comandos
Devido ao feito heróico da batalha do Passaleão Mesquita foi promovido a primeiro-tenente a 12 de Janeiro de 1850, a 7 de Fevereiro de 1867 a tenente-coronel e a 27 de Outubro de 1873 foi promovido a coronel. Enquanto militar em Macau foi comandante da Fortaleza da Taipa, do Forte de São Tiago da Barra e da Fortaleza do Monte sendo ainda membro do Conselho do Governo e do Conselho da Justiça Militar. Deprimido devido ao processo de promoção lenta e inadequada nos quadros do Exército Português sofreu uma série de graves crises nervosas aposentando-se a 27 de Novembro de 1873.
A 20 de Março de 1880, numa das crises psíquicas feriu gravemente dois dos seus filhos e matou a mulher Carolina e a filha Iluminada. Após o acto trágico suicidou-se, sendo o seu corpo encontrado no poço da sua casa no nº1 da Rua do Lilau no bairro com o mesmo nome. As circunstâncias macabras da morte levaram as autoridades de Macau a rejeitar-lhe um funeral militar e o Leal Senado, em conformidade com os preceitos da Igreja Católica, recusou-lhe a sepultura cristã, determinando que "a sepultura para o coronel deve ser em lugar não bento".
No Boletim da Província de Macau e Timor, de sábado, 27 de Março de 1880, o comandante geral interino da Guarda Policial de Macau, major Francisco de Paula da Luz, é o autor do relatório da ocorrência (pág. 84):
“Pela uma hora da madrugada de hoje houve uma denúncia a S.Exª o Governador de que o Coronel Mesquita assassinara todas as pessoas de sua família achando-se o denunciante, filho mais velho do referido Coronel, gravemente ferido por três tiros de revólver, em vista disto marchou imediatamente, por ordem do mesmo Exmº. Sr. o tenente Azedo com 4 praças do piquete sendo pouco depois seguido pelo comandante da guarda policial com oito homens, e tendo chegado ao lugar da habitação do referido coronel, ali encontrou S.Exª. o Governador, juiz de direito da comarca, delegado do procurador da coroa, e mandando em seguida bater à porta a que respondeu o silêncio; mandou depois buscar uma picareta e arrombar a porta principal e aberta esta entraram parte das pessoas presentes, tendo de se arrombar também a porta interior que dava para a escada e em poucos momentos se deu com os cadáveres de duas senhoras e uma outra ferida gravemente. Devia ter havido grande luta porque tudo estava em desordem, percorrendo-se a casa em procura do mesmo coronel foi encontrado morto dentro do poço, donde se tirou pelas 5 horas da manhã por falta de aparelho próprio e pela enorme profundidade do mesmo. Foram prestados os socorros que em tais ocasiões se devem prestar, recolhendo a ferida ao hospital de S. Rafael, bem como o filho”.
Só cerca de trinta anos depois da sua morte o coronel Mesquita seria reabilitado pelo Juízo Eclesiástico e os restos mortais foram transladados, no dia 28 de Agosto de 1910, para o Cemitério de São Miguel com todas as honras militares e eclesiásticas. No cemitério junto a um busto em mármore pode ler-se: “Vicente Nicolau de Mesquita, heróico defensor de Macau em 25 de Agosto de 1849”; “Erecto por subscrição pública com o concurso da primeira subscrição promovida pela Comunidade Portuguesa de Hong Kong em 1884”; “Tomou Passaleão em 25-8-1849. Faleceu em 20-3-1880. Foi transladado em 28-8-1910. Teve nesse dia honras militares e eclesiásticas”. O túmulo seria restaurado em 1947 tendo uma cerimónia por ocasião de mais uma aniversário sobre a Batalha do Passaleão assinalado o momento.
Na toponímia macaense existe uma Avenida Coronel Mesquita sendo o seu nome também inscrito na Porta do Cerco.

domingo, 30 de abril de 2017

A estátua da Imaculada


A imagem acima é do início da década de 1930 e testemunha a passagem por Macau de um grupo de marinheiros japoneses cuja embarcação passou pelo território. A visita ao miradouro da Penha era praticamente obrigatória pelo panorama que oferecia sobre a cidade, nomeadamente sobre a baía da Praia Grande.
A imagem ao lado é um postal já do final da década de 1950 e a fotografia foi tirada praticamente do mesmo local da imagem dos anos 30.
O  objecto retratado - no adro da igreja da Penha - é uma estátua da Imaculada com 5 metros de altura ali colocada em 1909. Feita em mármore de Carrara (Itália), no fuste da estátua de N. Senhora de Lourdes, pode ler-se a seguinte inscrição:
«Deiparae Immaculatae ad Lourdem coelitus adparenti anno quinquagesimo primo redeunte Urbs Macau pon. cur.»
«A cidade de Macau erigiu este monumento à Imaculada Mãe de Deus no primeiro cincoentenário de sua aparição em Lurdes.»
Refere-se a 1858.

sexta-feira, 28 de abril de 2017

Retrato económico na década de 1910


No primeiro número da Revista Colonial (Janeiro de 1913) Álvaro de Mello Machado, governador de Macau na época, assina um artigo - transcrito em baixo - onde traça um retrato da economia local não muito animador. Segundo o governador 2/3 dos rendimentos da então colónia provinham da exploração do jogo e da preparação e comércio do ópio. Este cenário, aliado à falta de recursos naturais, levam Álvaro Machado a defender novas ideias para dinamizar o comércio local: a construção de um caminho de ferro com ligação à China - "a não se realisar esse caminho de ferro, o futuro de Macau afigura-se extremamente modesto", escreve - a criação de uma agência comercial de produtos portugueses em Macau e o estabelecimento de uma ligação marítima regular com o território a partir de Lisboa.
Com excepção de uma pequena representação de produtos portugueses através da Agência Colonial, nenhuma das ideias foi concretizada. Curiosamente o governador era contra a grande obra que se projectava na altura, a dos Portos de Macau, por a considerar megalómana em termos de gastos. E assim foi... para além de se ter arrastado por muitos e muitos anos. Assinale-se ainda o facto do governador chamar a atenção para o potencial da actividade turística.


A pequena colonia do extremo-Oriente, que ha mais de tres séculos vem attestando ao mundo a tenacidade e a resistência dos portuguezes, não tem hoje a importância que em tempos idos lhe deu a situação privilegiada que soube grangear, iniciando o commercio europeu com a lendaria e mysteriosa China. Não tendo sabido manter-se em face da concorrência de dia para dia mais energica das auctoridades extrangeiras; debatendo-se inutilmente no regimen de asphixiante centralisação que lhe crearam os governos da metrópole; tendo deixado escapar todas as opportunidades em que, de concerto com as outras potencias, podia ter defendido e melhorado a difíicil situação em que se encontra perante a China; Macau, erguendo-se coquetiemente por sobre os graciosos contornos da pequenina peninsula que termina para o sul a ilha Heong-Shan, pouco mais é agora do que um monumento histórico das grandezas lusitanas de outras eras. Sem recursos proprios de qualquer natureza, dependendo por isso em absoluto dos territórios que a rodeiam, Macau só pôde aspirar ao papel de entreposto commercial de maior ou menor importância que desde os mais remotos tempos da sua existência tem desempenhado; se bem que, como cidade de residência e como ponto merecedor da curiosidade dos turistas, possa alcançar uma situação de relativo destaque, que não deve ser por fórma alguma despresada. Embora o commercio que por intermédio da nossa pequena colonia se efectua, attinja o valor de treze mil contos de réis, sete mil contos de importação e seis mil de exportação, a necessidade imperiosa de manter a sua qualidade de porto franco limita extraordinariamente os recursos que a fazenda publica pôde auferir com essa proveniência. E assim, tem sido necessário para fazer face aos encargos da administração recorrer a outras fontes de receita que, seguindo a linha da mais fraca resistência, neste caso as das tendências naturaes do meio, se localisaram na exploração do jogo e no commercio e preparação do opio. A estes dois poderosos auxiliares deve a Província dois terços dos seus rendimentos totaes; e sobre elles como pontos de apoio principaes gira portanto, a sua vicia administrativa. 
Todavia, o commercio relativamente importante que por intermédio de Macau se eflectua favorece algumas manifestações de actividade e garante-lhe uma densidade de população considerável (a cidade com uma area de 330 hectares tem uma população de 07:000 indivíduos) que devidamente aproveitadas pódem dar origem a um progresso compensador das energias que ali se venham a dispender. A importância de Macau como entreposto commercial vem-lhe exclusivamente da sua posição geographica e do seu porto, embora o apparecimento da colonia ingleza de Hongkong tenha reduzido a estreitos limites as vantagens inherentes a estes dois factores.
Dentro das actuaes condições, e enquanto ellas se mantiverem, não é crivel que muito se possa esperar de Macau, no tocante ao augmento do seu valor como entreposto commercial e ao seu progresso economico consequente, porque se encontra reduzido aos limites naturaes da sua esphera de acção, que hoje se reduz ás regiões extremamente próximas que d'elle forçadamente dependem. O grande problema a resolver em Macau reside, pois, no alargamento dos limites da sua influencia como entreposto commercial, combatendo não a supremacia de Hongkong, porque tal seria uma utopia, mas vencendo a concorrência dos numerosos rios e canaes que cortam os territórios chinezes vizinhos em todas as direcções, e fazendo do porto portuguez o escoamento natural dos productos das ferteis e laboriosas regiões que o' circundam. 
Em poucas palavras: o desenvolvimento de Macau depende da construcção de um caminho de ferro de penetração que, tendo por extremo a nossa colonia, facilite, tornando-se superiormente vantajoso a todos os outros meios de communicação, a sabida e a entrada das mercadorias pelo porto que nos pertence.
A construcção d'esse caminho de ferro, que constitue a única esperança de uma vida desafogada para a colonia, não é, infelizmente para nós, um objectivo de fácil alcance. E quem conhecer o estado das nossas relações com a China, nunca se poderá convencer de que uma tal vantagem se possa conseguir sem uma grande dóse de chance por nossa parte, ou sem que dêmos em troca compensações de valor, alliadas a uma bem orientada acção diplomática. Não será dar provas de um pessimismo exagerado pensar que nunca a nossa colonia de Macau verá realisada a sua grande ambição, o único emprehendimento que a pôde salvar; mas também não estamos em face de um impossível e portanto devemos - temos pelo menos essa obrigação moral - empregar todos os esforços para se alcançar o que deveria ter sido objecto das mais persistentes attenções de todos os governos. 
A não se realisar esse caminho de ferro, o futuro de Macau afigura-se extremamente modesto, demais approximando-se a passos agigantados a reducção inevitável das suas mais importantes fontes de receita - o jogo e o opio; e milagre de administração será se fôr possível conseguir que a colónia continue por muito tempo a bastar as suas próprias necessidades. Não é, porém, dos fortes cruzar os braços ante a adversidade, ainda mesmo quando ella se apresenta inevitável e sem remedio. É preciso, é indispensável luctar; para que ao menos reste a consciência de que se resistiu o máximo possível. Emquanto não apparecem os dias de desgraça, que a sorte pôde bem querer que nunca cheguem, as auctoridades portuguezas podiam aproveitar um campo de exploração que não deve ser desprezado. Macau ainda pôde ser um meio de restabelecer o commercio entre o extremo-Oriente e Portugal, favorecendo a entrada na China, dos nossos vinhos, pelo menos, e talvez de alguns outros productos de origem nacional e permittindo a importação directa de alguns productos chinezes, como o chá, as sedas, os charões, louças, trabalhos em marfim, bordados, etc. 
É este em todo o caso um assumpto a estudar e que deve prender a attenção do nosso commercio e industria de mãos dadas com o governo da colonia. A que resultados uma agencia commercial portugueza, estabelecida em Macau tendo como um dos seus principaes objectivos a collocação dos nossos vinhos, poderá conduzir? E que vantagens poderão advir para o publico portuguez da importação directa dos artigos chinezes que mais se consomem e maior apreço teem no paiz? Uma carreira de navegação directa entre Lisboa e Hongkong, muito fácil de conseguir, evitando os trasbordos e delongas a que hoje estão sujeitas as mercadorias que transitam entre estes dois pontos, assim como a extensão aos navios estrangeiros dos benefícios que as nossas pautas concedem á navegação nacional, que não existe para essas paragens, teriam indiscutivelmente uma influencia benéfica na probabilidade de realisação d'este ideal. A bôa vontade e o desejo de ganhar dos commerciantes, auxiliados pelas facilidades que o governo de Macau pôde conceder, fariam o resto.
Alguma coisa se deve tentar nesse sentido. É indispensável que o commercio portuguez se lembre de que novos horisontes se pódem abrir á sua actividade, onde energias estrangeiras se degladiam ha vários annos num esforço continuado e persistente, aproveitando as faculdades de uma colonia, onde a quasi totalidade dos capitaes são chinezes e onde as iniciativas portuguezas se resumem aos tímidos ensaios de mal orientado commercio de alguns pobres reformados a quem os azares da vida prenderam para sempre áquelle pedaço de terra. 
Álvaro de Mello Machado. Governador de Macau

quinta-feira, 27 de abril de 2017

Viagens em "Primeira Classe"

in Revista Colonial, Nov. 1913. Clicar na imagem para ver em tamanho maior
"Tabella das classes em que devem ser transportados os funcionários públicos das províncias ultramarinas: Primeira classe". Em vigor no ano de 1913.


quarta-feira, 26 de abril de 2017

Ó Costa e os Jogos Olímpicos de 1956

O tenente Filipe Augusto do Ó Costa fundou o hóquei em campo em Macau no início da década de 1920 quando viveu no território em comissão de serviço.
Regressaria a Macau em Julho de 1956 (dia 21) a convite da Direcção do Hóquei Clube de Macau para preparar a selecção local com vista à representação de Portugal nos próximos Jogos Olímpicos de Melbourne.  A fotografia abaixo e uma notícia da época testemunham o facto.
Macau deveria participar nos jogos (XVI Olimpíada) que começaram a 22 de Novembro de 1956 na cidade australiana mas no final o governo de Lisboa alegou dificuldades económicas e foi tudo cancelado. Um balde água fria para as aspirações da sociedade macaense e em especial para os praticantes da modalidade, tidos como entre os melhores do mundo na altura mas que não puderam mostrar o seu valor no maior palco.
"(...) Uma longa fila de «panchões» assinalou a descida do recém-chegado ao cais, donde seguiu em automóvel reservado, acompanhado por dezenas de carros em cortejo promovido pela Delegação do Automóvel Clube de Portugal, até à Pousada de Macau. Ali efectuou-se uma modesta reunião de boas vindas, com a presença de muitas pessoas, durante a qual usaram de palavras Sr.. Dr. Carlos Correia Pais de Assunção na qualidade de presidente da Assembleia Geral do Hóquei Clube e Pedro Hyndman Lobo, como Presidente da Direcção do mesmo clube. (…) 
O sr. Tenente Filipe do Ó Costa começou aqui a praticar hóquei em campo, em 1924. Em 1926, já estava formada a primeira equipa, à qual deu  ele o nome de «Macau Hockey Club». Nos primeiros anos, nas lutas travadas contra fortes equipas da vizinha colónia britânica de Hong Kong, o «Macau Hockey Club» registou derrotas consecutivas, que nem por isso desanimaram nem o orientador e treinador nem os seus discípulos, então já em número apreciável. nas épocas seguintes, já o «onze» local não sofria apenas derrotas, pois que, sobre os fortes adversários de Hong Kong, tinha também começado a registar vitórias, algumas das quais bem honrosas. 
Até 1937, ano em que o inesquecível fundador do hóquei macaense embarcou para a Metrópole, já o agrupamento local havia registado vitórias incontáveis, umas após outras e quase todas igualmente honrosas para as cores de Macau” (…) Em 1944, um grupo de hoquistas e entusiastas d modalidade fundou o «Hóquei Clube de Macau» (…)  Assim, na primeira Assembleia Geral , efectuada nesse ano de 1944, foi o benquisto e sempre lembrado «Pai do Hóquei Macaense», por proposta dum dos primeiros directores da colectividade, proclamado «Sócio de Mérito do Hóquei de Macau» (...)” 
in Boletim Informativo da Repartição Provincial de Economia e Estatística Geral, n.º 71/72 de Agosto de 1956

terça-feira, 25 de abril de 2017

Ferry to Hong Kong (1959)

Ferry to Hong Kong é o título do filme que me proponho analisar mas também poderia chamar-se Ferry to Macau… Nalguns registos o filme surge traduzido com títulos como O Proscrito de Hong Kong e Embarque para Hong Kong.
Orson Welles (1915-1985) – realizador de Citizen Kane/O mundo a seus pés, estreado em 1941 e considerado pela crítica um dos melhores filmes de todos os tempos – também participou em muitos filmes como actor. Este foi um desses casos, embora não muito bem aceite pela crítica na época. O filme estreado em Agosto de 1959 no Reino Unido foi rodado em Hong Kong e Macau um ano antes, embora na ficha técnica surja a indicação que as filmagens decorreram somente na antiga colónia britânica. No entanto, essa informação só se pode considerar correcta no que diz respeito a cenas com a presença de actores e actrizes, pois algumas paisagens do filme que foram registadas em Macau. Mas, já lá iremos…
O britânico Lewis Gilbert (conhecido por Alfie) assina a realização do que anos mais tarde (em 2010 ao canal 4 da BBC televisão) disse ser o seu grande "pesadelo" queixando-se especialmente de Orson Welles: "Não ligava nem aos colegas actores nem ao realizador", disse, concluindo que "tudo correu mal no filme, e em especial o Orson Wells". Poucos anos depois Gilbert iria parar à saga James Bond assinando três realizações: Only Live Twice (1967), The Spy Who Loved Me (1977) e Moonraker (1979).
Orson Welles - que se estreara em 1958 com Touch of Evil - é o capitão (de nome Hart) do navio de passageiros Fa Tsan (repare-se que é muito parecido com um ferry que existia na época, o Fat Shan) que fazia as ligações marítimas regulares entre Macau e Hong Kong. Contrariado é obrigado a levar a bordo Mark Conrad (interpretado por Curt Jurgens), um exilado austríaco expulso de Hong Kong, por vadiar pelas ruas sem possuir qualquer identificação. Ao chegar a Macau as autoridades locais também não o deixam desembarcar. Num dos diálogos em que o capitão Hart tenta convencer as autoridades portuguesas a deixarem entrar Conrad (sem passaporte), o polícia português afirma: “Hong Kong may have the Money but we in Macau have our pride. (…) His not going to land.”
Conrad passa assim a viver a bordo fazendo todas as viagens entre Macau e Hong Kong. A relação entre ele e o capitão torna-se cada vez mais tensa. Conrad é aventureiro e cínico. Hart é presunçoso e dissimulado. A ‘ponte’ entre os dois é feita pela professora de ar angelical Liz Ferrers (interpretada por Sylvia Syms) que atura um e apaixona-se pelo outro.
A quase totalidade do filme foi feita em Hong Kong. ‘Abre’ com uma imagem aérea sobre a zona de Vitoria Harbour e as cenas da viagem do ferry assolado por um tufão foram feitas na doca de Aberdeen com a ajuda de aviões a hélice. Mas há também cenas filmadas em Macau. As mais significativas são as que mostram os rituais de um funeral chinês que atravessa diversas ruas do território em procissão (Av. Almeida Ribeiro, junto às ruínas de S. Paulo e na Penha junto à residência do bispo) até chegar ao Porto Interior (ponte-cais nº 27 – na Av. de Demétrio Cinatti perto da Rua do Guimarães e que actualmente já não existe), onde o caixão é embarcado no ferry. A baía da Praia Grande surge como pano de fundo de algumas das conversas que os protagonistas têm a bordo. Destaque ainda para as imagens feitas a partir da Penha e que registam a chegada à barra do Porto Interior do Fa Tsan, que a tripulação denomina por Fat Annie.
Numa das várias viagens que o filme documenta o ferry é assolado por um tufão mas como o capitão está doente será Conrad a assumir os comandos. Como se isso não bastasse a bordo estão também uns piratas. O junco onde seguiam viagem estava à deriva no delta do rio e o Fa Tsan acolhe-os a bordo. Apesar do perigo e da ameaça que representam Conrad consegue demovê-los das intenções criminosas.
Entre as várias curiosidades deste filme refira-se a existência de um nome português, Miguel Henriques, o imediato do navio interpretado por Jeremy Spenser. O polícia português, curiosamente, é apresentado como “portuguese major” e interpretado por Ronald Decent. A ponte-cais nº 27 não passa de um décor. Na época essa e outras já existiam em Macau e eram estruturas feitas em betão e não em madeira como surge no filme.
O ferry, feito de propósito para este filme a partir de uma carcaça de uma embarcação acabou por ser incluído numa publicação da Universidade de Hong Kong sendo catalogado como navio a vapor de cerca de 1900 (imagem ao lado). Uma imagem do ferry até surge na capa dessa edição de Junho de 2009, mas na verdade foi apenas um adereço de um filme…
A 27 de Abril de 1961 Howard Thompson assinava uma crítica ao filme no jornal The New York Times. “O filme é apenas recomendado aos curiosos mórbidos que podem ver Orson Welles na sua pior prestação de sempre. (…) O verdadeiro crime do filme é o desperdício da paisagem. Filmado totalmente a cores em Hong Kong está encharcado de uma atmosfera exótica mas após as primeiras cenas é uma desilusão.”
O filme começa e acaba no cais de Hong Kong, embora quase no fim, o Fa Tsan vai ao fundo já muito perto do destino final, numa das menos conseguidas cenas do filme. Mas não nos podemos esquecer que estávamos em 1958 e os recursos em termos de efeitos especiais não eram os de hoje… O ferry afunda mas os passageiros e a tripulação acabam por chegar sãos e salvos e Conrad acaba por ver compensado o seu empenho quando obtém autorização para viver em Hong Kong.
Fica feito o convite para que um destes dias passe 112 minutos frente ao televisor. Demasiado tempo para contar uma história que começa por parecer um drama, mas no fim se fica com a sensação que está meio caminho entre os registos comédia e aventura.
Por último importa referir que, em parte, a história deste filme (argumento adaptado de um livro com o mesmo título da autoria de Simon Kent – pseudónimo de Max Catto), é inspirada em factos reais, ocorridos anos antes, precisamente num ferry que fazia a ligação diária entre Hong Kong e Macau. Mas isso fica para uma próxima oportunidade…

"Ferry to Hong Kong" is a 1959 British melodrama/adventure film directed by Lewis Gilbert and starring Curd Jürgens, Sylvia Syms, Orson Welles and Jeremy Spenser.

Plot:

Mark Conrad, a habitual drunk and troublemaker with a shady past, is expelled by Hong Kong police after one too many bar fights. He's sent to Macao on the Fa Tsan, a ferry owned by Captain Hart. Conrad's papers are out of order and Macao refuses him entry. Unable to go ashore, Conrad is a permanent passenger on the ferry with Hart, who detests him. It's all one long, lazy voyage for Conrad until one fateful trip when an encounter with a typhoon and pirates forces Conrad to choose between an aimless drifter's life and becoming a man again.


Lewis Gilbert described "Ferry to Hong Kong" as a "my nightmare film". Orson Welles, he said, "never cared about his fellow actors, never cared about the director". Gilbert says "everything was wrong with the film - principally Orson Welles". Lewis Gilbert's comments were made in an interview on the BBC Radio 4 programme "Desert Island Discs" transmitted on 25 June 2010.