sexta-feira, 17 de janeiro de 2020

Large populous and wealthy city seated upon a fine river

(...) We stopped at the Portuguese settlement Macao situated at the southern point of an island separated only by rivers from the main land stay here was short so that I had but little for remark.
The most curious thing I was a wall built of very large oyster shells many of these are divided into thin laminae when polished are used instead of glass for both here and in the southern parts of the empire. This place was formerly a commercial station great importance as appears from the many noble buildings both public and private some of them much out of repair though now its consequence is diminished.
My friend at Ummerapoora had taken the precaution of furnishing me with a letter of recommendation to the viceroy of Canton whither I proceeded. It is a large populous and wealthy city seated upon a fine river and is the grand emporium of European trade. It consists of three towns divided by high walls each containing besides private houses temples palaces and courts.

The European factories extend along the banks of the river each distinguished by the flag of the nation to which it belongs. In front of the British factory is a very elegant verandah raised on pillars and flagged with marble commanding a prospect of great extent and variety.
Being an Englishman I was invited to dine at the Company's table in the long room where amidst a profusion of dainties. I was regaled with swallows nests and fins of sharks stewed into the richest soups. In the part of the town inhabited by Europeans are few buildings except shops amply furnished with the various articles in which the owners deal such as silks porcelain lacquered ware and tea. It is astonishing to see with what readiness the Chinese who are ignorant of our mode of calculation reckon up the amount of the articles they sell by the assistance of a machine called a swan pan in which balls are strung upon wires in different columns representing units tens hundreds thousands &c in decimal progression. They count every thing by tens. An ounce of silver is divided into ten chen the chen is again divided into ten fen and the fen into ten lee which greatly facilitates their intercourse with each other .
Tea like beer in England is sold in public houses. In these a single cup may be purchased for a very small coin the thousandth part of a leang nor is it unusual for a burdened and weary traveller to lay down his load refresh himself with a cup of warm tea and then pursue his journey. (...)
Excerto da obra "The Traveller in Asia Or a Visit to the most Celebrated Parts of East Indies and China (...)" da autoria de Priscilla Wakefield publicado em Londres em 1817.
A autora recorre aos diários de Arthur Middleton que foi quem de facto fez as viagens e tomou as notas do que viu e sentiu. Em cima uma ilustração da época mas que não faz parte do livro referido.

quinta-feira, 16 de janeiro de 2020

"Atlas Universal", João Albernaz, 1643

O "Atlas Universal" com o título formal de "Livro Universal das Navegações feito em Lisboa por João Teixeira Cosmographo de Sua Magestade, Anno 1643" é constituído por oito cartas em folhas de pergaminho:
1.ª Atlântico Norte com a Europa ocidental, o Noroeste de África e a Terra Nova; 2.ª Atlântico Sul com as costas de África e do Brasil; 3.ª Sudoeste do Oceano Índico com a África Oriental, Madagáscar, o Sul da Índia, Ceilão e o Norte de Samatra; 4.ª Próximo e Médio Oriente com o Mediterrâneo Oriental e o Norte do Oceano Índico; 5ª carta Sudeste Asiático e Extremo Oriente, com as costas desde o golfo de Bengala até ao Japão; 6.ª Pacífico Norte desde a Nova Guiné e o Japão até ao México; 7.ª América do Sul com as terras para sul do Equador, sem a parte oriental da costa do Brasil; 8.ª Atlântico Norte com as costas americanas desde a Terra Nova até ao Brasil, para lá do Maranhão, com as ilhas e as costas ocidentais da América Central.
Entre os elementos iconográficos destaque para rosas do ventos, castelos com bandeiras, armas do rei de Portugal e de outros reis, a assinalar a posse de territórios, cruz junto da qual está um cristão a rezar, no Congo, e uma tenda a marcar o reino do Preste João, na Etiópia.
"Macao" surge representado na 5ª carta, imagem acima com a inscrição no canto superior direito "Tartaria Oriental".

Sabe-se muito pouco sobre a vida e obra de João Teixeira Albernaz. Nasceu em Lisboa provavelmente no início do último quartel do século XVI e morreu pouco depois de 1652. É também conhecido por João Teixeira Albernaz I, para se diferenciar do neto homónimo. Aprendeu a arte da cartografia com o pai, tendo recebido a 29 de Outubro de 1602 a carta de ofício de mestre em fazer "cartas de marear, astrolábios, agulhas e balestilhas". A partir de 1605 trabalhou no Armazém da Guiné e Índia, onde exerceu actividade até morrer.

quarta-feira, 15 de janeiro de 2020

"Vista de Macao - China - Mirado por Mar"

"Vista de Macao China Mirado por Mar" é o título desta pintura (óleo sobre tela - 58x86cm) da chamada "escola chinesa". Uma das características destas pinturas do século 19 era não serem assinadas. Nas várias dezenas de representações de Macau são dois os motivos predominantes: representações do Porto Interior e da baía da Praia Grande (como é o caso desta). Nesta, para além de ser a única que encontrei até hoje como a legenda em espanhol, há uma outra particularidade que se destaca, ao contrário da maioria dos quadros, a Praia Grande é apresentada numa perspectiva de Sul para Norte.

terça-feira, 14 de janeiro de 2020

Macau nos "Traços do Extremo Oriente": 1895


Esta obra marca a estreia de Wenceslau de Moraes na escrita. Foi elaborado em Macau (onde ele chegou em 1888 e viveu até 1897) e publicado em Lisboa em 1895 por A. M. Pereira. As primeiras imagens deste post são dessa edição que teve prefácio da autoria de Vicente Almeida d"Eça.
Feito em jeito de narrativa de viagem, "Traços do Extremo Oriente" descreve rotas, lugares e paisagens. Inclui uma carta dirigida à sua irmã e vários contos escritos e recolhidos pelo autor desde 1885, além de um post scriptum e de um conto sobre a Batávia (actual Jacarta), a capital holandesa da ilha de Java. O livro está divido em três partes: “Recordações do Sião”, “Lembranças da China” e “Saudades do Japão”.
“Pequenino”, “dia belo, montanhas doiradas pelo Sol”, “boa gente chinesa”, “existência fácil, clima salubre”, “viver modesto... ingénuo e bom”, são algumas das considerações sobre Macau.


"Traços do Extremo Oriente – Sião, China e Japão"

Venceslau José de Sousa de Morais (Lisboa, 30 de Maio de 1854 - Tokushima, 1 de Julho de 1929). Oficial da Marinha, completou o curso Escola Naval em 1875, tendo prestado serviço em Moçambique, Macau, Timor e Japão.
Segunda edição: 1946
Após ter frequentado a Escola Naval, serviu a bordo de diversos navios da Marinha de Guerra Portuguesa. Em 1887 viaja pela primeira vez até Macau, onde se estabelece. Foi imediato da capitania do Porto de Macau e professor do Liceu de Macau desde a sua fundação em 1894. Durante a sua estadia em Macau casou com Vong-Io-Chan (Atchan), mulher chinesa, de quem teve dois filhos, e estabeleceu laços de amizade com Camilo Pessanha.
Em 1889 viaja até ao Japão, país que o encanta, e onde regressará várias vezes nos anos que se seguem no exercício das suas funções. Em 1897 visita o Japão, na companhia do Governador de Macau, José Maria de Sousa Horta e Costa, sendo recebido pelo Imperador Meiji. No ano seguinte abandona Atchan e os seus dois filhos, e muda-se definitivamente para o Japão, como cônsul em Kobe.
Aí a sua vida é marcada pela sua actividade literária e jornalística, pelas suas relações amorosas com duas japonesas (Ó-Yoné Fukumoto e Ko-Haru).
Durante os trinta anos que se seguiram, Venceslau de Morais tornou-se a grande fonte de informação portuguesa sobre o Oriente, partilhando as suas experiências íntimas do quotidiano japonês com os leitores portugueses.
Amargurado com a morte, por doença, de Ó-Yoné, renunciou ao cargo consular em 1913 quando já era graduado em Tenente-coronel/Capitão de fragata. Muda-se para Tokushima, terra natal daquela e passa a viver com Ko-Haru, sobrinha de Ó-Yoné, que viria também a morrer por doença. Venceslau de Morais viria a falecer em Tokushima em 1 de Julho de 1929.
Fotografado em Macau em 1893
Venceslau de Morais foi autor de vários livros sobre assuntos ligados ao Oriente, em especial o Japão. Também se encontra colaboração literária da sua autoria no semanário Branco e Negro (1896-1898) e nas revistas Brasil-Portugal (1899-1914), Serões (1901-1911) e Tiro e Sport (1904-1913).

segunda-feira, 13 de janeiro de 2020

A Rota (Marítima) da Seda

Quando se fala em "rota da seda" vem-nos de imediato à memória a figura do veneziano Marco Polo. Na verdade não era uma rota definida, mas sim um conjunto de vias terrestres de comunicação, que iam mudando com os anos, num percurso de 4000 quilómetros de desertos e cordilheiras percorridos por por caravanas de mercadores e peregrinos. Esse circuito serviria para intercâmbio de produtos, sedas e especiarias, mas também tecnologia, como a bússola, e cultura... e religião.

A expressão "Rota da Seda" só surgiu no final do século 19, pelo académico alemão Ferdinand von Richthofen (1833-1905), um perito em geografia e consultor em projectos que visavam explorar recursos minerais na China com a ajuda de caminho-de-ferro e de portos industriais. Seria na obra de cinco volumes publicada em 1877 que surgiria então o termo “Seidenstraße”... Rota da Seda... que se iria vulgarizar no século XX.
E qual foi o papel de Macau nesta rota? Crucial!
Tudo começa com a chegada dos portugueses à Índia em 1498 altura em que se dá o primeiro contacto com os chineses. Em 1508, quando o rei português envia uma armada a descobrir Malaca e ordena que se procure pelos “chins”. 
A conquista de Malaca por Afonso de Albuquerque, em 1511, teve mesmo o apoio dos mercadores chineses ali estabelecidos. Em 1513 chega o primeiro oficial da Coroa portuguesa a Cantão e inicia-se o comércio. Uma situação altamente lucrativa que durou até 1521 quando o poder naval dos portugueses assustou as autoridades chinesas. 
Em 1543 os mercadores portugueses chegam às praias de Tanegashima, no Japão. De relações cortadas, os chineses desejavam no entanto a prata nipónica, e os japoneses procuravam a seda da China. É aqui que entram os portugueses como elo de ligação e demonstram ainda ter poder militar para derrotar a pirataria que infestava o litoral chinês, nomeadamente em redor de Macau. 
Estavam criadas as condições para o surgimento do território - como escala da chamada Nau do Trato, uma escala de meses a aguardar pela monção e uma espera aproveitada para compras em Cantão - e o seu assentamento ocorre por volta de 1555.
Na obra "Macau Histórico", o historiador português C. A. Montalto de Jesus descreve assim: "O comércio entre a Europa e o Japão era monopolizado pelo nosso país. Todos os anos mandávamos para Lisboa frotas compostas de grandes veleiros e barcos carregados de produtos de lã, roupas, objectos de vidro, relógios da Inglaterra e da Flandres e vinho de Portugal, a fim de os trocar nos diversos portos. Os barcos partiam de Goa, carregavam especiarias e pedras preciosas em Cochim, especiarias em Malaca e sândalo na ilha de Samatra, que depois trocavam por produtos de seda em Macau, sendo esta novamente trocada por oiro e prata no Japão... Finalmente, faziam mais uma escala em Macau, de vários meses, para carregar produtos de seda, almíscar, pérolas, objectos de marfim e madeira finamente trabalhados, e objectos de laca, cerâmica e porcelana, para então voltarem para a Europa".
Faria e Sousa refere na "Ásia Portuguesa" que os portugueses recebiam anualmente de Macau 53 mil caixas de produtos de seda da China. Entre 1580 a 1590, por exemplo, a seda crua que anualmente era recebida em Goa oriunda de Macau, rondava os três mil picos, num valor de 240 mil taéis. Em 1635, o número sobe para 6 000 picos.
Em suma, na época dos Descobrimentos, após as viagens de Vasco da Gama e Pedro Álvares Cabral (1497-1501), o monarca D. Manuel I vai aplicar uma política imperialista nos mares de África e da Ásia dando início a uma nova rota das especiarias. É na chamada Carreira da Índia que serão transportados produtos como a seda, os lacados, os perfumes, as madeiras exóticas ou as porcelanas, que há séculos circulavam pela Rota da Seda.
Macau surge assim no início do século 16 como um porto de dimensão intercontinental. E os navios do império português passam a ser os novos protagonistas da milenar Rota da Seda.
A partir daqui o mundo passa a estar ligado por rotas transoceânicas permitindo o intercâmbio não só de produtos, mas também de animais, plantas, objectos, conhecimento, religião, cultura, etc... como nunca antes acontecera.
"Tabula Geodoborica Itinerum a Varijs in Cataium susceptorum rationem exhibens" da autoria de Athanasius Kircher publicado em Amesterdão em 1667 e onde pode ver-se a indicação da rota marítima.
PS: Peças deste tempo em que Macau se assumiu como o mais importante entreposto comercial internacional no Extremo Oriente podem-se ser vistas, por exemplo, no Museu do Centro Científico e Cultural de Macau, em Lisboa, e no Museu de Arte de Macau, em Macau: presentes tributários de emissários da corte imperial e dos estados com os quais possuía relações tributárias, presentes de missionários estrangeiros, tributos pagos por súbditos do império, itens adquiridos ou encomendados pela corte e produtos de oficinas imperiais ou locais, inspirados ou imitando produtos estrangeiros, etc...

domingo, 12 de janeiro de 2020

Galera "Viajante": 1869

Em Novembro de 1869 a galera “Viajante”, navio mercante pertencente à firma Bessone & Barbosa, partiu de Lisboa para Macau, com antecedência de dois dias da corveta «Estephânia» que ia representar Portugal na inauguração do canal de Suez. 
Sob o comando do capitão José Sabino Gonçalves a "Viajante" atravessou o canal de Suez, no dia 22 de Novembro sendo o primeiro navio de bandeira portuguesa a fazer este trajecto. Até hoje sobreviveu dessa viagem um diário de bordo do Oficial de Quarto. 
Esta nova via de navegação viria a encurtar as viagens que até então se faziam rumo ao Oriente contornando o continente africano.

"Viajante": navio de 377 toneladas e três mastros com casco em teca e 35 metros de comprimento foi construído em 1849 em Damão.

sábado, 11 de janeiro de 2020

"Kan-Hi, emperador da China" e Tomás Pereira

"Por cartas de Macao se recebeo a notícia de haver falecido Kan Hi, Emperador da China*, e da Tartaria Septentrional, e Oriental, em Peckim, a 20 de Dezembro de 1722 em idade de 69 annos, 7 mezes, e 25 dias, havendo reinado perto de 62 annos, causando grande sentimento a sua perda a todos os Christãos, por haver sido em quasi todo o seu reinado Protector dos Missionarios, que tem dilatado por todos os seus Dominios a cultura das cearas Evangelicas, com grande fruto, e gloria da Religião Christã. Succedeolhe no throno, e Dominio dos seus grandes Estados seu filho quarto Yon-Te-Him, que se acha em idade de 40 annos."

Notícia publicada na edição de 17 de Agosto de 1724 da Gazeta de Lisboa Occidental. A publicação, primeiro jornal oficial português com o título Notícias do Estado do Mundo, surgiu em 1715, durante o reinado de D. João V, sob o nome de Gazeta de Lisboa. O nome do principal periódico de informação política portuguesa, publicado entre 1715 e 1820, foi alterado ao longo dos anos.


* O Imperador Kangxi (1654-1722) foi o terceiro imperador da dinastia Qing, a última dinastia imperial chinesa de origem manchu, e o segundo que reinou sobre a China toda, consolidando a conquista do território que estivera sob a soberania da anterior dinastia Ming.
O jesuíta português Tomás Pereira foi o que mais próximo esteve deste imperador com quem privou mais de 30 anos. Foi a música que fez Tomás Pereira ser chamado a Pequim quando estava ainda em Macau (antes passara por Goa, onde foi ordenado) pelo padre Ferdinand Verbiest, então Administrador do Calendário, um cargo importante na corte que Pereira viria a desempenhar. Para além da música também ensinou álgebra e aritmética ao imperador.
O jesuíta, que recebeu o nome chinês de Xu Risheng (徐日昇), chegou a Macau em 1672, com a missão de evangelizar os chineses, função a que se dedicou até morrer em 1708. Na imagem ao lado o documento enviado ao Conselho do Santo Ofício sobre as condições e privilégios com que o imperador da China cedeu a cidade aos portugueses, e da instalação de dois tribunais: Justiça e Fazenda."
A carta-resposta foca-se em dois pontos principais: o primeiro trata da cessão das terras aos portugueses, e o segundo é sobre as actuações dos Tribunais, ocorrida na China a 23 de Setembro de 1690. Inclui certificado de autenticidade do traslado feito por João de Sousa e consertado pelo comissário José da Silva em Macau, a 15 de Novembro de 1690.(pormenor das assinaturas na imagem acima) 

sexta-feira, 10 de janeiro de 2020

Pátio do Abridor / 吳家圍 / Ng Ká Wâi

Abridor remete para antiga profissão de artesão. Também conhecida por gravador ou burilador (que grava a buril, instrumento de aço que tem ponta cortante, usada para gravar em metal ou madeira). Em Macau existiam, por exemplo, os abridores de caracteres chineses.

Em Macau o Pátio do Abridor é hoje um beco e a designação em chinês é Pátio da Família Ng. Está situado entre a Avenida de Almeida Ribeiro e a Rua do Matapau, sendo o acesso feito pela Rua dos Mercadores.

quinta-feira, 9 de janeiro de 2020

My Life in China and America (1909)


My Life in China and America (1909) é o título da  autobiografia de Wing Yung, escrita pelo próprio aos 75 anos.
Nascido junto a Macau em 1828 o pai enviou-o para Macau onde sabia existirem muitas escolas que podiam proporcionar uma melhor educação para o filho. Começou a estudar em escolas missionárias com apenas 7 anos onde aprendeu inglês. E ainda estudou em Hong Kong. A experiência seria decisiva para o futuro.
Seguiria em 1847 com o reverendo Samuel Robbins Brown para os Estados Unidos sendo o primeiro chinês a formar-se numa universidade norte-americana, a famosa Universidade de Yale, onde ainda hoje se podem ver nos registos das inscrições de 1854: "Wing Yung, Macao, China"
Escreve ele na biografia:
"The class of 1854, to which I had the honor and the good fortune to belong, graduated ninety-eight all told. Being the first Chinaman who had ever been known to go through a first-class American college, I naturally attracted considerable attention."
Em 1855 regressou à China onde se empenhou para que mais jovens chineses pudessem estudar nos EUA. E assim foi. Centenas puderam fazê-lo e no aprofundamento das relações entre os dois países Wing viria a ser não só comissário de educação junto do governo de Pequim como também diplomata chinês em Washington. Em 1872 cria a Missão da Educação Chinesa em Hartford. Turbulências políticas no país natal obrigaram ao regresso aos Estados Unidos. Com a cabeça a prémio na China e a cidadania norte-americana revogada só com a ajuda de amigos conseguiu fugir da China e entrar nos Estados Unidos de forma ilegal  em 1898 onde já tinha casado e tinha dois filhos. Morreu pobre em Hartford em 1912 deixando um legado ainda hoje reconhecido pelos dois países que sempre sentiu como seus.
Excertos do livro sobre a vida do autor em Macau:
"I was born on the 17th of November, 1828, in the village of Nam Ping (South Screen) which is about four miles southwest of the Portuguese Colony of Macao, and is situated on Pedro Island lying west of Macao, from which it is separated by a channel of half a mile wide. I was one of a family of four children. A brother was the eldest, a sister came next, I was the third, and another brother was the fourth and the youngest of the group. I am the only survivor of them all. 
As early as 1834, an English lady, Mrs. Gutzlaff, wife of the Rev. Charles Gutzlaff, a missionary to China, came to Macao and, under the auspices of the Ladies' Association in London for the promotion of female education in India and the East, immediately took up the work of her mission by starting a girls' school for Chinese girls, which was soon followed by the opening of a school for boys also. 
Mrs. Gutzlaff's comprador or factotum happened to come from the village I did and was, in fact, my father's friend and neighbor. It was through him that my parents heard about Mrs. Gutzlaff's school and it was doubtless through his influence and means that my father got me admitted into the school. It has always been a mystery to me why my parents should take it into their heads to put me into a foreign school, instead of a regular orthodox Confucian school, where my brother much older than myself was placed. 
Most assuredly such a step would have been more in play with Chinese public sentiment, taste, and the wants of the country at large, than to allow me to attend an English school; moreover, a Chinese cult is the only avenue in China that leads to political preferment, influence, power and wealth. I can only account for the departure thus taken on the theory that as foreign intercourse with China was just beginning to grow, my parents, anticipating that it might soon assume the proportions of a tidal wave, thought it worth while to take time by the forelock and put one of their sons to learning English that he might become one of the advanced interpreters and have a more advantageous position from which to make his way into the business and diplomatic world. This I take to be the chief aim that influenced my parents to put me into Mrs. Gutzlaff's Mission School. As to what other results or sequences it has eventually brought about in my subsequent life, they were entirely left to Him who has control of all our devising and planning, as they are governed by a complete system of divine laws of antecedents and consequents, or of cause and effect. 
In 1835, when I was barely seven years of age, my father took me to Macao. Upon reaching the school, I was brought before Mrs. Gutzlaff. She was the first English lady I had ever seen. On my untutored and unsophisticated mind she made a deep impression. If my memory serves me right, she was somewhat tall and well-built. She had prominent features which were strong and assertive; her eyes were of clear blue lustre, somewhat deep set. She had thin lips, supported by a square chin,- both indicative of firmness and authority. She had flaxen hair and eyebrows somewhat heavy. Her features taken collectively indicated great determination and will power. (...) 
Em 1880
In the fall of 1840, while the Opium War was still going on, my father died, leaving four children on my mother's hands without means of support.
Fortunately, three of us were old enough to lend a helping hand. My brother was engaged in fishing, my sister helped in housework, and I took to hawking candy through my own village and the neighboring one. I took hold of the business in good earnest, rising at three o'clock every morning, and I did not come home until six o'clock in the evening. My daily earnings netted twenty-five cents, which I turned over to my mother, and with the help given by my brother, who was the main stay of the family, we managed to keep the wolf away from our door. I was engaged in hawking candy for about five months, and when winter was over, when no candy was made, I changed my occupation and went into the rice fields to glean rice after the reapers. My sister usually accompanied me in such excursions. But unlike Ruth of old, I had no Boaz to help me out when I was short in my gleaning. But my knowledge of English came to my rescue. My sister told the head reaper that I could speak, read and write English. This awakened the curiosity of the reaper. He beckoned me to him and asked me whether I wouldn't talk some “Red Hair Men” talk to him. He said he never heard of such talk in his life. I felt bashful and diffident at first, but my sister encouraged me and said “the reaper may give you a large bundle of rice sheaf to take home.” This was said as a kind of prompter. The reaper was shrewd enough to take it up, and told me that if I would talk, he would give me a bundle heavier than I could carry. So I began and repeated the alphabet to him. All the reapers as well as the gleaners stood in vacant silence, with mouths wide open, grinning with evident delight. A few minutes after my maiden speech was delivered in the paddy field with water and mud almost knee deep, I was rewarded with several sheaves, and I had to hurry away in order to get two other boys to carry what my sister and I could not lug. Thus I came home loaded with joy and sheaves of golden rice to my mother, little dreaming that my smattering knowledge of English would serve me such a turn so early in my career. I was then about twelve years old. Even Ruth with her six measures of corn did not fare any better than I did. 
Soon after the gleaning days, all too few, were over, a neighbor of mine who was a printer in the printing office of a Roman Catholic priest happened to be home from Macao on a vacation. He spoke to my mother about the priest wanting to hire a boy in his office who knew enough English to read the numerals correctly, so as to be able to fold and prepare the papers for the binders. My mother said I could do the work. So I was introduced to the priest and a bargain was struck. I returned home to report myself, and a few days later I was in Macao and entered upon my duty as a folder on a salary of $4.50 a month. My board and lodging came to $1.50 - the balance of $3.00 was punctually sent to my mother every month. I did not get rich quickly in this employment, for I had been there but four months when a call for me to quit work came from a quarter I least expected. It had more the sound of heaven in it. It came from a Dr. Benjamin Hobson, a medical missionary in Macao whose hospital was not more than a mile from the printer's office. He sent word that he wanted to see me; that he had been hunting for me for months. I knew Dr. Hobson well, for I saw him a number of times at Mrs. Gutzlaff's. So I called on him. At the outset, I thought he was going to take me in to make a doctor of me, but no, he said he had a promise to fulfill. Mrs. Gutzlaff's last message to him, before she embarked for America with the three blind girls, was to be sure to find out where I was and to put me into the Morrison Education Society School as soon as it was opened for pupils. 
“This is what I wanted to see you for,” said Dr. Hobson. "Before you leave your employment and after you get the consent of your mother to let you go to the Morrison School, I would like to have you come to the hospital and stay with me for a short time so that I may become better acquainted with you, before I take you to the Morrison School, which is already opened for pupils, and introduce you to the teacher.” 
At the end of the interview, I went home to see my mother who, after some reluctance, gave her consent. I returned to Macao, bade farewell to the priest who, though reticent and reserved, not having said a word to me during all the four months I was in his employ, yet did not find fault with me in my work. I went over to the hospital. Dr. Hobson immediately set me to work with the mortar and pestle, preparing materials for ointments and pills. I used to carry a tray and accompany him in his rounds to visit the patients, in the benevolent work of alleviating their pains and sufferings. I was with him about a couple of months in the hospital work, at the end of which time he took me one day and introduced me to the Rev. Samuel Robins Brown, the teacher of the Morrison Education Society School. (...)

quarta-feira, 8 de janeiro de 2020

"Hong Kong et Macao", Joseph Kessel (1957)

"Hong Kong et Macao" é uma história de ficção editada em 1957 da autoria de Joseph Kessel (1898-1979), escritor e jornalista argentino naturalizado francês. Ainda assim é baseada na viagem do autor a Hong Kong e Macau em 1955. Macau ocupa a segunda parte do livro (págs. 157-276) sendo destacado a pobreza e o jogo, "O inferno do jogo" - título de um filme francês de 1942, - como ele escreve: "(...) une côte blanche et discrète, alanguie, engourdie même dans son quartier chinois d'un charme qui tournait toujours à l'envoûtement."
Sinopse:
"L'aventure n'est pas morte. Elle a encore ses lieux de prédiclection. Hong-Kong, Macao ont conservé, renouvelé, ce parfum d'aventure. Hong-Kong, colonie britannique, est une des portes de la Chine. elle a été le grand centre de l'opium ; depuis la Chine rouge, elle est devenue une puissante cité capitaliste qui importe et exporte des produits du monde entier. Macao, colonie portuguaise, quelques kilomètres plus au sud, était la capitale du jeu ; c'est en plus le grand marché de l'or en Extrême-Orient. Maintenant que Shanghaï a perdu son autonomie, Hong-Kong et Macao sont les deux postes frontières du monde occidental et de la Chine. Admirable voyageur, Joseph Kessel voit plus de choses en une page que d'autres en un volume. Dans ces deux villes clés, il a rencontré les personnages les plus étranges, entendu les histoires les plus singulières. Par exemple, l'aventure de ce jeune hongrois, qui s'était baptisé O'Brien pour pénétrer clandestinement en Amérique et qui en fut expulsé sur le premier navire en partance. de là, il ne cessa de voyager entre Hong-Kong et Macao, également expulsé des deux colonies, ce qui lui fit accomplir cinq cents quarante voyages consécutifs, sans quitter le bateau qui était son dernier asile ! "Hong-Kong et Macao" est un reportage étonnant dont les acteurs s'appellent l'opium, le jeu, la police secrète, la misère, à côté de richesses insoupçonnables."
Julien Bisson no jornal L'Express - 7.7.2011 - escreve: 
(...) Il y donne à voir la réalité contrastée de ces deux minuscules rochers, alors postes-frontières du monde occidental face à l'immensité chinoise. D'un côté, la moderne forteresse anglaise, dernier maillon de la "chaîne de citadelles" britanniques, et port de contrebande où circule sans mal l'opium, cette "boue étrangère" haïe par Pékin. De l'autre, l'ancestrale colonie portugaise, "lupanar, repaire de la drogue et tripot fantastique". Soit deux lieux de débauche et de légendes, peuplés de bourlingueurs, de prostituées et de besogneux. Deux recoins du monde jumeaux, où la détresse des hommes voisine avec des paysages d'une accablante beauté... Bien secondé par un joli cahier de photos d'archives, Hong-Kong et Macao est un hymne envoûtant au courage et à la poésie. Une leçon de sagesse comme seule la rencontre de deux cultures peut nous en servir. (...)

terça-feira, 7 de janeiro de 2020

Macau na obra de Fausto Sampaio

Auto-Retrato
Natural de Anadia, Fausto Sampaio (1893-1956), perdeu as faculdades auditivas aos 22 meses, devido a uma insolação. 
Surdo-mudo foi educado no Instituto de Surdos Mudos Araújo Porto até aos 14 anos e depois mais cinco anos na Casa Pia, onde já havia ensino especial para surdos e onde aprendeu os primeiros rudimentos de desenho e pintura.
Em 1926 parte, para Paris, onde tem aulas com diversos professores (Academias Julien, Renard e La Chaumiére, de Paris). 
Entre 1926 e 1934 faz três estadias em Paris onde expõe em 1928 no Salon. Expõe também em Lisboa no Salão Bobone em 1930 com enorme êxito. 
É considerado o pintor do império, por ter pintado todo o chamada ultramar português. Esteve em S. Tomé entre 1934-6; em Macau e Timor, a partir de 1936 (incluindo Filipinas, Indochina, Hong-Kong e Singapura); Estado Português da Índia, entre 1944-46; e em Moçambique, Angola e Cabo Verde, a partir de 1947. Morreu em Lisboa a 4 de abril de 1956. 
Assinatura de um quadro pintado em Macau em 1937
Em Macau (convidado pelo irmão Carlos Sampaio, Chefe dos Serviços de Administração Civil) Fausto Sampaio esteve cerca de um ano, executou 40 quadros em 1936 e 1937 e até deu aulas de pintura. Neste post estão muitos desses quadros, óleo sobre tela e madeira (era o mágico da espátula, para alguns), embora também dominasse a técnica da 'tinta da china'. No final fez ainda uma exposição no território, facto de que darei conta num próximo post. Poucos anos depois, em 1940, a esmagadora maioria destes quadros estiveram expostos na Secção Colonial da Exposição do Mundo Português.
Das grande panorâmicas aos detalhes de becos e ruelas as pinturas de Fausto Sampaio retratam Macau na segunda metade da década de 1930. Porto Interior, Fumatório de ópio, Pagode da Barra, Beco das Galinhas, a Rua 5 de Outubro, a Rua do Bazar, a Avenida de Almeida Ribeiro à noite Lorchas e Tancares, Cais do Porto com chuva, são alguns dos títulos dos quadros cujas dimensões variam entre os 46x60cm e os 100x82cm.
Segundo Maria João Castro em Macau Fausto Sampaio "produziu uma obra pictórica que deambulou entre as panorâmicas da cidade e do seu povo e os hábitos etnográficos tão distantes dos europeus ainda que se mantendo sempre dentro de uma familiaridade de indefinidos contornos figurativos." 
Para 'interpretar' alguns dos quadros seleccionei excertos de uma conferência de Jaime do Inso, publicada em livro com o título ‘Quadros de Macau’, sobre a obra de Fausto Sampaio em Macau. ‘Fausto Sampaio, Pintor do Ultramar Português’, Agência Geral das Colónias, Lisboa, 1942. 
Fausto Sampaio no terraço do hotel Bela Vista, Macau, 1936 

Vestíbulo. 1936
“O quadro mostra o vestíbulo da casa de José Vicente Jorge*, com a sua colecção de arte chinesa. Macaense de destaque na Colónia e um dedicado cultor da arte chinesa. Serviu como encarregado de Negócios de Portugal em Pequim, quando da proclamação da República, em 1910 e, mais tarde, em 1912, sendo chefe de Expediente Sínico em Macau, foi a Cantão várias vezes, como agente diplomático, quando do tratado de expatriação com a China (…) A colecção de preciosidades que possui é tida como a melhor do Extremo-Oriente e já mereceu a visita do director do Museu Britânico de Londres.” 
Jaime do Inso 
*Fausto Sampaio e José Vicente Jorge tornaram-se amigos durante a estadia macaense do pintor português. 
Velho Pescador. 1936 
Cais do Porto com Chuva. 1936. Óleo sobre tela 
Tancareiras. 1937. Óleo sobre tela 
Velha Rua no Bairro China. 1936. Óleo sobre tela 
Ruínas da Catedral de S. Paulo. 1937. Óleo sobre tela 
Entrada do pagode da Barra. 1936 - óleo sobre tela 
Lorchas e Tancares. 1937. Óleo sobre tela. 
Avenida de Almeida Ribeiro à noite. 1937
(...) representa um aspecto nocturno daquilo a que podemos chamar a Baixa de Macau, num canto de luz e de prazer. É estupenda de interpretação e de verdade chinesa! Só um artista da sensibilidade de Fausto Sampaio, que soube sorver, aspirar e dar-nos em notas de cor estes cambiantes do mistério da China, poderia apresentar-nos a realidade nocturna deste grande, do maior coulau de Macau. 
A nossa necessidade e sensação de prazer da luz, comparadas com iguais fenómenos passados com os chineses, podem representar-se pelo confronto estabelecido entre a claridade duma vela acesa e duma luz de incandescência, e encontra-se bem patente nesta tela pela intensidade luminosa que se concentra naquele bocado de passeio - e só assim se satisfaz aquela verdadeira adoração que os chineses tributam à luz. Das janelas dos andares emerge luz do interior, por toda a parte há muita luz - pois se até os telhados dos coulaus os chineses chegam a iluminar! - e deste delírio de luz com que eles - os epicuristas - sabem tingir o prazer evolam-se as notas arrastadas, doloridas, das cantigas das pi-pa-t'chai... Noites da China, noites de Macau..." 
Jaime do Inso 
"Porto Interior" - Macau, 1936 - Óleo sobre madeira 
"(...) desdobra-se um curiosíssimo aglomerado de casario, a parte central e mais comercial de Macau, junto do Porto Interior, ao fundo do qual se avista a ilha da Lapa e a imensidão da terra china. Este retalho garrido da policromia tão característica das terras portuguesas constitui uma verdadeira nota de arte puramente nacional, jóia perdida naquele Oriente onde os grandes centros europeus e cosmopolitas oferecem um conjunto de tonalidades bem diferentes, banais e sombrias, onde falta a alegria das cores de Macau"
Jaime do Inso 
Interior do Pagode da Barra. 1937. Óleo sobre tela 
Sala de jogo de Fan Tan 
Rua 5 de Outubro. 1936. Óleo sobre tela. 
"A Rua 5 de Outubro é o coração do bairro china de Macau, onde ressalta, com extraordinário brilho, todo o pitoresco desconcertante da vida chinesa das ruas, alacre de cores, com as suas casas de tabuletas características que são um dos atractivos que nos enfeitiçam nos meandros do Bazar" 
Jaime do Inso 

Fumatório de Ópio, 1937. Óleo sobre tela
Velha rua com chuva

segunda-feira, 6 de janeiro de 2020

Macau na viagem de circum-navegação do S. Gabriel

Em Agosto de 1910 o cruzador "S. Gabriel" passou por Macau na viagem de circum-navegação sob o comando do Capitão António Aluízio Jervis de Atouguia Ferreira Pinto Basto. O vaso de guerra da Marinha portuguesa partiu de Lisboa em Dezembro de 1909 rumo ao Brasil. Dali seguiu para o Pacífico, visitando o Hawai, o Japão, Xangai, Hong Kong, Macau, as Filipinas e Timor, antes de regressar a Lisboa em Abril de 1911 (ver capa de publicação da época em baixo). 

Curiosidade: no Japão registou-se um encontro com Venceslau de Morais.
Durante essa viagem o oficial (aspirante de 1ª classe) Arthur Caetano Dias (tem o carimbo com o nome) enviou este postal com uma imagem panorâmica do Porto Interior de Macau (Inner Harbour) a D. Emília Narciso Costa (namorada) em Lisboa.
O postal tem impresso “Inner harbor, Macao. Sold by Graça & Co., Hongkong, China” e manuscrito “Hong-Kong 18-8-910, Adeus Arthur”.
Edição de 30 Abril 1911 da "Occidente"
Excerto do diário do comandante Pinto Basto sobre a passagem por Macau:
"Com muito bem tempo largámos de Hong Kong para Macau pelas 8 h da manhã do dia 2 de setembro. Ao passar pelos navios de guerra estrangeiros, tocaram as suas bandas o hymno portuguez, e foi-nos feito o signal de boa viagem. Seguimos para Macau com a velocidade de 13 milhas por hora, fundeando na rada pelas 10h45m. O governador organizou em nossa honra um passeio a Colovane, no qual tomaram parte as principaes auctoridades e famílias de Macau, talvez mais de duzentas pessoas, que para ali seguiram na lancha Macau e em três outras lanchas a vapor. A nossa visita a Colovane foi interessante, por se verem ali ainda em ruinas muitas casas contra as quaes a lancha Macau teve de fazer fogo no seu ataque aos piratas. Por essa ocasião prestou aquella lancha relevantes serviços. Démos um passeio pelas ruas da povoação e realisaram-se um lunch e uma regata de embarcações chinas.
Tivemos noticias de dois tufões que das Filipinas se dirigiam para a costa da China, o que nos obrigou a demorar a nossa partida para ali. No mez de setembro os tufões são muito frequentes e pouco dias se passa sem que os observatórios anunciem aquelles temporaes. Já foi difícil o regresso a bordo e o dia 26 amanheceu com chuva, vento, e mau aspecto, motivo pelo qual resolvemos deixar a rada para procurar melhor fundeadouro, logo que possível fosse.
Vieram para bordo n´uma lancha quatorze presos, entre eles os piratas de Colovane, que a requisição do governador da província devíamos conduzir a Timor e Moçambique. O transbordo da lorcha para o navio fez-se com dificuldade n´uma das nossas embarcações e foi impossível receber-se os volumes pesados. Ás 3h 30m suspendemos e fomos procurar o abrigo na bahia de Castle Peak, ao norte da ilha de Lantao, o melhor fundeadouro próximo, onde ancorámos pelas 6h da tarde em 5 braças de fundo com 45 m de amarra. Na tarde do dia 27 seguimos para Hong Kong, onde amarrámos às 5 horas a uma boia das docas de Kowloon, depois de ter salvado ao almirante americano. (...)

domingo, 5 de janeiro de 2020

Cartas do Extremo Oriente

"Cartas do Extremo Oriente" é da autoria de António de Santa Clara (militar nascido em 1902) e dedicado a João Pereira Barbosa "com admiração pela maneira como governou Macau". 
A primeira edição é de 1938 tendo sido escrito em parceria com António Maria Pereira. 

João Pereira Barbosa foi governador interino entre 4 de Janeiro e 24 de Dezembro de 1936, um mandato curto mas bastante atribulado, marcado pelas alterações ao comércio do ópio (já ilegal na maior parte do mundo menos em Macau o que só viria a ocorrer em 1946) e pelas relações com Pedro José Lobo.
Excerto:
“Eis o que se passou ontem. Lei Man, um amigo meu, encontro-me sentado a uma das mesas do «dancing». Sentou-se também e comunicou-me que desejava apresentar-me a uns amigos de Cantão que tinham grande interesse em conhecer o ajudante do governador.
Convinha um sítio recatado, fora das vistas do público. Lai Man, com a fisionomia mais calma do mundo – nunca o vi alterar-se – expôs ràpidamente a a natureza do negócio, sem deixar de olhar distraídamente os pares que dançavam, pelo meio da sala.
Os seus amigos eram capitalistas que tinham explorado o jôgo em Cantão; com a proibição de se continuar ali o negócio, vinham a Macau para aqui se estabelecerem. Queriam que o jôgo lhes fôsse dado sem ir à praça e ofereciam uma avultada renda. Saímos; e fomos ao tal sítio recatado onde nos esperavam. Uma viela estreita e uma casa sombria. era de facto o que Lei Man tinha dito. Ofereciam a renda de um milhão e oitocentos mil dolares anuais, depositavam a caução respectiva e dava-me duzentos mil dolares - e apenas duzentos mil… - se eu conseguisse, junto do Governador que o jôgo lhes fôsse imediatamente entregue, dispensando-se a praça, e perguntaram-me quanto pensava eu que deveriam oferecer ao Governador. A cêna foi apenas esta: nada mais lhe acrescentarei para a deixar aqui tôda a sua magnífica nudez.”

Sobre ASC e este seu livro:
A viagem de um jovem oficial português de Marselha a Hong Kong em finais da década de 20 do século XX. Hóspede do governador de Hong Kong, Cecil Clementi, ruma a Macau e aí verte as primeiras considerações sobre as diferenças extremas que separam Oriente e Ocidente. Visitas a Hué e Saigão (Indochina), Kota Bahru (Malaya britânica) e Singapura a bordo de um aparelho da Royal Air Force. Visita Shanghai dos excessos e dos contrastes, a paisagem chinesa vista do comboio a caminho de Pekin. Os esplendores monumentais da antiga capital, a ocidentalização, os cabarets animados por russas, um passeio nocturno pelos insalubres hutong. Visita a Moukden (Shenyang) e à Coreia ocupada pelos japoneses. Incursão ao Japão de 1935.”

sábado, 4 de janeiro de 2020

Em exibição no cinema Apollo

Vista parcial do Largo do Senado em meados da década 1950, com o edifício sede dos Correios à esquerda e o cinema Apollo à direita. Estava em exibição o filme "This Woman Is Dangerous" estreado nos EUA em Fevereiro de 1952, com Joan Crawford, David Brian e Dennis Morgan, entre outros.
Na San Ma Lou/Av. Almeida Ribeiro cinco triciclos são o único registo de trânsito; duas viaturas estão estacionadas frente ao edifício dos CTT.

quinta-feira, 2 de janeiro de 2020

Coloane, piratas e toponímia

Edição do CIT de 1977
O monsenhor Manuel Teixeira escreveu na década de 1980 um pequeno livro (não é o que está na imagem) sobre a história das ilhas (Taipa e Coloane): Taipa e Coloane. Direcção dos Serviços de Educação e Cultura. Macau, 1981. Aborda todo o século 19 e vai até meados do século 20.
A Ilha de Coloane foi ocupada militarmente em 1864 por ordem do governador José Rodrigues Coelho do Amaral, indo de eoncontro ao pedido de protecção solicitado às autoridades portuguesas pelos habitantes daquela Ilha (Taipa tinha feito o mesmo).
A primeira bateria defensiva, construída perto do templo chinês, em frente da Ilha da Montanha, é construída duas décadas depois, em 1884. Dispunha de uma só peça, um canhão de 32c, assente num rodízio, e "destinava-se a proteger as pequenas povoações vizinhas da pirataria que, escorraçada da Taipa, se tinha infiltrado naquela costa, cheia de esconderijos favoráveis às suas pilhagens".
A mais famosa utilização desta peça – e do reduto defensivo – coube paradoxalmente a um bando de piratas que se assenhoreou daquela posição e dali combateu as forças militares portuguesas. Depois de uma luta cerrada com as autoridades em Julho de 1910 foram presos e os reféns que tinham com eles, adultos e crianças, libertados
A marca da presença dos piratas na história de Coloane ficou registada para a posteridade na toponímia local onde se encontram nomes como a Azinhaga dos Piratas e a Travessa dos Ladrões.
Década 1980