segunda-feira, 21 de maio de 2018

Autores do projecto do Hospital Militar de S. Januário

Hospital Militar de S. Januário: projecto de 1873 do Capitão de Engenharia Henrique Augusto Dias de Carvalho (1843-1909)  e do 2º Barão do Cercal, António Alexandrino de Melo (1837-1885)

Na edição do Boletim do Governo de 10 de Janeiro de 1874 fica-se a saber como foi a inauguração, alguns dias antes:«Teve logar no dia 6 do corrente, como estava anunciado, a inauguração solemne do hospital militar de S. Januário segundo o programma que foi publicado n´esta folha. Sua Ex.ª o Governador da província de Macau e Timor, Visconde de S. Januário às 2 horas precisas deu entrada no edifício do hospital, dirigindo-se à sala destinada à inauguração. A sala achava-se decorada com trophéos artisticamente dispostos, no centro do trophéo principal achava-se o retrato de S. Ex.ª. Na balaustrada que circunda o perímetro onde se acha edificado o hospital e no mesmo edifício tremulavam nas suas hastes, numerosas bandeiras, distinguindo-se nos dois torreos extremos as que são privativas dos hospitaes(…).
Este edifício seria demolido por volta de 1952 para dar lugar a um outro hospital como mesmo nome inaugurado em 1958 e por sua vez, já no final da déada de 1980, também este seria demolido para dar lugar ao actual. Pela localização, numa colina, é conhecido em chinês, por Hospital do Monte. No ano da inauguração, 1874, viria a sofrer avultados estragos por via do tufão que assolou Macau em Setembro desse ano.
A primeira e a segunda 'versão' do hospital: foto da década de 1950
Henrique Augusto Dias de Carvalho frequentou o Colégio Militar. Em 1871, era então tenente, exerceu o cargo de Condutor das Obras Públicas em Macau. Destacou-se pela viagem realizada à região angolana da Lunda fazendo uma ampla divulgação da geografia da região e da cultura dos povos que a habitam. Em 1923, a atual capital da Lunda, Saurimo, era denominada Vila Henrique de Carvalho.

​António Alexandrino de Melo era filho de Alexandrino António de Melo, 1.º barão e visconde do Cercal (1809-1877). ​Nasceu em Macau, a 7 de Junho de 1837 e morreu em S. Lourenço a 27 de Maio de 1885. 2.º Conde de Cercal, filho de Alexandrino António de Melo, (1809-1877) e de Carlota Josefa Botelho (1819​-​1892), Viscondes de Cercal. Aos 7 anos foi estudar para o colégio jesuíta «Stonyhurst» no condado de Essex, Inglaterra, formando-se em engenharia civil. Aos 17 anos complet​ou​ os estudos em França​ e dois anos depois, em Roma, estudou pintura em aguarela e a óleo, em Roma, ​cidade onde viveu dois anos. Falava correctamente várias línguas: português, francês, espanhol, inglês, italiano e chinês.​Teve oito filhos no primeiro casamento (Com Guilhermina Pamela Gonzaga em 1841) e mais um posteriormente.
A 5 de Janeiro de 1862, por sua iniciativa foi inaugurada uma escola com o nome de “Nova Escola Macaense”. Encerrou a actividade a 21 de Outubro de 1867. Com o fim da escola, o capital remanescente dos fundos reunidos para criar a “Nova Escola Macaense” - 9.417,53 patacas - foi entregue por Alexandrino António de Melo (1837-1885) à Associação Promotora da Instrução dos Macaenses (APIM) para a fundação de um colégio para instrução dos macaenses, que primeiro se denominou "Collegio Comercial" e mais tarde passaria a chamar-se “
Escola Comercial”.
​E​m Macau ​exerceu vários cargos:
Vogal do Conselho de Governo; do Conselho Técnico das Obras Públicas; Director das Obras Públicas; Comandante do Batalhão Nacional, no posto de tenente-coronel (no tempo em que o Barão comandou o Batalhão, chegou este a ter um efectivo superior a 400 homens, gastando com ele o dito comandante, uma grossa quantia do seu bolso para o equipar devidamente​, escreveu o Padre Manuel Teixeira​); Provedor da Santa Casa da Misericórdia; Juiz substituto da Comarca; etc.
​Foi ainda Cônsul do Brasil, Itália, Bélgica e Vice-Cônsul da França.
Como engenheiro delineou ​vários​ edifícios​: Palácio do Governo, Palacete de Santa Sancha, Hospital Militar S​.​ Januário (demolido), Cemitério de S. Miguel, Capitania dos Porto​s​/Quartel dos Mouros, ​Grémio/​Clube Militar​, entre outros.​
​Foi dono da empresa ​"​A. A. de Mello & C.​a, proprietári​a​ de 5 navios que faziam ligações ​entre​ Portugal, Brasil e Austrália. Foi um dos mais ricos comerciantes de Macau mas sofreu duro revés com a instalação dos ingleses em Hong Kong, pelo que devido à má situação financeira, vendeu as casas dos seus pais, o Palácio da Praia Grande e o Palacete de Santa Sancha.​
Alguns dos títulos honoríficos:
Barão do Cercal a partir de 1865 ou 1868; Fidalgo Cavaleiro da Casa Real; Comendador da Ordem de Cristo; Cavaleiro do Santo Sepulcro de Jerusalém; Comendador da Ordem de N. S. da Conceição de Vila Viçosa; Cavaleiro da Ordem da Bélgica; Cavaleiro da Legião de Honra de França; Cavaleiro de S. Maurício e S. Lázaro de Itália; Comendador de 1.ª classe do Sol Nascente do Japão e da Indochina; Medalha de Isabel, a Católica, de Espanha. Era sócio Honorário da Real Sociedade de Geografia Inglesa e outras sociedades científicas estrangeiras.

domingo, 20 de maio de 2018

A Marinha e Vasco da Gama


O Dia da Marinha Portuguesa celebra-se nesta data em homenagem a Vasco da Gama, o navegador português que a 20 de Maio de 1498 chegou à Índia, ligando a Europa e o médio Oriente pelo mar pela primeira vez.
Curiosamente, em Macau o Dia da Marinha celebrava-se a 8 de Julho, dia da partida da armada de Vasco da Gama em 1497.
A Av. Vasco da Gama - em Macau - foi inaugurada a 20 de Maio de 1898. tinha 500 metros de comprimento e 65 de largura e foi projectada pelo engenheiro Augusto César d´Abreu Nunes.
Nesse mesmo ano - celebração do IV Centenário do descobrimento do caminho marítimo para a Índia (ver acima selo alusivo à efeméride emitido para Macau) - deveria ter ficado pronta uma estátua/busto de homenagem ao navegador português, mas às 5 da tarde desse dia, fez-se apenas a "colocação da pedra fundamental" para a estátua que só viria a ser inaugurado já depois da queda da monarquia, a 31 de Janeiro de 1911. As obras iniciaram-se em 1907 e o escultor foi Tomás de Costa.

sábado, 19 de maio de 2018

"Biscoutinhos adocicados" na Paderia Nacional

Anúncio publicado no Boletim do Governo (1867)
"Para venda biscoutinhos adocicados a 15 avos ou 140 sapecas por cate. Biscoutinhos salobres a 12,5 avos ou 120 sapecas por cate. Além dos pães segundo o aviso de 1 de agosto de 1865."
A Paderia Nacional fica no nº 2 do Beco do Senado (ao lado do edifício do Leal Senado).

sexta-feira, 18 de maio de 2018

Apontamentos d'uma viagem de Lisboa á China e da China a Lisboa

Quem quiser saber como era Macau em meados do século 19 e não se contentar com as descrições breves e superficiais dos relatos de viajantes da época, tem de ler "Apontamentos d'uma viagem de Lisboa à China e da China a Lisboa" da autoria de Carlos José Caldeira (1811-1882) que na introdução ao livro editado em 1852 e 1853 (em 2 volumes*) escreve:
"Ainda que é muito pouco comum entre nós Portuguezes o gosto de viajar eu desde a minha mocidade nutri o desejo de ver o mundo de sahir da minha pátria é do estreito circulo da cidade e do paiz em que nasci. Tarde porém poude realisar o pensamento constante da minha vida. Contando 40 anos parti de Lisboa em Julho de 1850 na carreira para a China dos vapores inglezes da Companhia Oriental e Peninsular e em 50 dias cheguei a Macao tendo visitado Cadiz e Gibraltar atravessado ò Mediterrâneo visto Malta e Alexandria subido o Nilo através sado o deserto do Egypto embarcado em Suez e descido pelo Mar Vermelho tocado em Adem na Arábia e em Ceylão navegado pelo estreito de Malaca visto Pinão o Singapura e finalmente aportado a Hong kong e retrocedido para Macao. Nesta cidade me demorei 16 mezes durante os quaes visitei seus arredores a cidade chineza de Cantão e vários portos da costa dá China até Shangai na distância de umas 300 legoas para o norte de Macao. Daqui regressei para o Reino na corveta D João I no fim do anno de 1851 e voltei por Singapura ô estreito de Malaca desembarquei na cidade deste nome tão celebre na historia da Asia portugueza revi as costas da Taprobana naveguei ao longo das do Malabar visitei Goa segui para Moçambique dobrei o Cabo da Boa Esperança aportei a Benguella e a Loanda no reino d Angolla vi no archipelago dos Açores o Fayal e S. Miguel e particularmente nesta ultima ilha examinei varias das muitas cousas curiosas que contém e finalmente em 18 de Agosto de 1852 terminei esta longa e variada viagem revendo a minha bella pátria e cidade natal ao cabo de dois anos. Resolvo-me a publicar os Apontamentos desta Viagem por me parecer que serei nisso util a alguns dos meus concidadãos que desejarem saber das circumstancias della e ter algum conhecimento do estado actual dos logares que percorri teem por titulo Apontamentos d'uma Viagem de Usboa á China e da China a Lisboa.
Deter me hei particularmente sobre as nossas Possessões ainda tão importantes e sobre as quaes idéas bem inexactas e mesmo absurdas correm entre muita gente. Fallarei das cousas e das pessoas que são tudo no Ultramar onde em grande parte as instituições e leis pouco ou nenhum vigor tem onde quasi tudo é arbítrio onde o espirito da maldade e da rapina muitas vezes campêa impune dependendo geralmente do bom ou máo caracter das authoridades e pessoas influentes o bem estar ou a desgraça dos povos. Direi a verdade tal qual a entendo e por ella arrostarei ódios e malquerenças."
Lisboa 24 de Agosto de 1852 é a data em que
Carlos José Caldeira escreve estas linhas depois de dois anos de viagem pelo mundo. Desse tempo, 16 meses foram passados em Macau e para tão longa estadia muito deve ter contado o facto de ele ser primo de D. Jerónimo José da Mata, Bispo de Macau de 1845 a 1862.
Nesta obra relata tudo com bastante pormenor. Na época, Hong Kong acabara de ser 'criado' por via da derrota chinesa face aos ingleses na segunda guerra do ópio e a vida económica do território macaense começava a definhar...
Veja-se por exemplo, o testemunho sobre o 'funeral' do governador Ferreira do Amaral (assassinado em Agosto de 1849):
(...) Abriu-se o féretro, porque dele correra algum líquido, o que dera muito que falar e temer aos supersticiosos chinas. Limpou-se o crânio e os ossos dos restos de cartilagens: eu tive nas mãos esse crânio nu, e dos golpes da barbaridade e da traição lhe vi os vestígios indeléveis, como o deveriam sempre ser em ânimos portugueses!
No dia 2 de Janeiro de 1851, às cinco horas da tarde, foi o ataúde conduzido aos ombros de seis marinheiros, e às pontas do pano mortuário que o cobria, pegaram o encarregado de Negócios de França na China, o cônsul dos Estados Unidos da América, e quatro funcionários superiores do Estabelecimento. Procedia o ataúde um destacamento do batalhão naval e outro da marinhagem das guarnições dos navios de guerra surtos no porto, e compunham o préstito fúnebre o Corpo Municipal, com o seu pendão em funeral, as autoridades civis e militares, a oficialidade da marinha e do batalhão provisório, o corpo diplomáticos e consular aqui residente, seus funcionários, numeroso séquito dos moradores de Macau e de portugueses e estrangeiros. Fechava este respeitável e pomposo acompanhamento o batalhão de linha, com o seu tenente-coronel comandante à frente.  À porta da igreja de S. Francisco achava-se o presidente do Conselho, o bispo diocesano, rodeado de todo o seu clero, e acompanhando os restos mortais à destinada capela, ali lhes foi cantado o competente Memento."

E ainda o relato sobre a tomada de posse do governador Francisco António Gonçalves Cardoso em Fevereiro de 1851 para
suceder ao Conselheiro Capitão-de-Mar-e-Guerra Pedro Alexandrino da Cunha, que falecera em Macau a 6 de julho de 1850, após apenas 37 dias como Governador:
Em todas as fortalezas poucas peças estavam em estado de fazer fogo e não continuado; no já quasi desmoronado forte de Mohá (feito haveria pouco mais de um anno) n´um dos canhões principais, dirigido sobre a Porta do Cerco, no ouvido faziam as lagartixas seu sossegado ninho; as poucas munições estavam fechadas num caixão do qual se perdera a chave havia tempos, etc, etc, etc… Sirva isto só de dar idêa de todas outras misérias. E, no entanto que faziam os governadores de fortalezas, e o major de engenheiros, todos com denominações alti-sonantes, e bons soldos gratificações?. Tratavam das suas hortas, ou passavam vida airada e folgasã… O major de engenheiros, mandado de Portugal pelo Egipto com avultada despesa, recebia mensalmente em Macau 116 patacas»
Sobre os templos chineses, Caldeira escreve:
“Entre as construcções chinezas em Macau só são para notar quatro principais pogodes, um em cada uma das aldeas de Moha e Patane, outro no caminho de Patane para a porta do Cêrco, e o quarto perto da fortaleza da Barra; os dous ultimos são de bonita architecyuira no estylo chinez, e muito bem situados, principalmente o da Barra, que tem differentes nichos ou cappelas em amphitheatro, por entre grandes penedos e frondosas arvores, que o fazem muito pittoresco. Os chinas escolhem com muito tacto e gosto os locaes dos seus pagodes, construindo-os de ordinario por entre penedias e arvoredos, e em sítios romanticos; são muito amadores das arvores, e sendo grandes e bellas as conservam pelo meio dos muros e edifícios, ou affeiçoando estes de modo que não tenham de as derrubar."
Carlos José Caldeira foi ainda responsável pelo Boletim do Governo de Macau durante cerca de um ano.
Numa biografia da época fica-se a saber um pouco mais sobre a vida e obra desde escritor, político e jornalista:




«Carlos José Caldeira, antigo aluno da Academia Real de Marinha cujo curso concluiu com muita distincção obtendo todos os prémios. Frequentou igualmente com aproveitamento e approvação plena os estudos da aula do commercio, etc. Nasceu em 1811, sendo filho do desembargador Jose Vicente Caldeira do Casal Ribeiro. Apontamentos de uma viagem de Lisboa á China, e da China a Lisboa. Tomo I. Lisboa, na Typ. de G. M. Martins 1852. 8.º gr. De 421 pag. - tomo II. Ibi, na Typ. de Castro & Irmão 1853. 8.º gr. De 330 pag., com alguns mappas no mesmo formato, que servem de appendice. Esta obra mereceu a aceitação e acolhimento do publico. Anteriormente, e achando-se ainda na China, o auctor publicara um como specimen ou amostra, com o titulo: apontamentos de uma viagem de Portugal á China atravez do Egypto em 1850, e descripção da gruta de Camões em Macao. Macao: China, Typ. Albion de Ino: Smith 1851. 8.º de 75 pag. Tambem redigiu durante um anno o boletim official de Macao que forma um volume de 181 pag.; e depois da sua volta para este reino tem sido collaborador de varios periodicos litterarios, taes como a Revista Peninsular, Illustração Luso-Brasileira, Archivo Pittoresco, Correio da Europa, etc., nos quaes se acham numerosos artigos seus. Foi editor da terceira e ultima edição da Memoria a Iberia, por D. Sinibaldo Mas, e lhe addicionou varias notas no sentido da mesma memoria. No proprio sentido, isto é, propalando as conveniencias da união iberica, escreveu tambem alguns artigos no jornal político O Progresso.»
No Dicionário Cronológico de Autores Portugueses, Vol. II, Lisboa, 1990:
"Carlos José Caldeira [Lisboa, 1811 - Lisboa, 1882]
Escritor, político e jornalista. Formou-se pela Academia Real de Marinha e frequentou a Aula do Comércio. Foi um iberista convicto, tendo traduzido, anotado e publicado a terceira e última edição da obra A Ibéria de Sinibaldo de Mas, que produziu à época grande controvérsia e que propagava os ideais da União Ibérica. Dentro do mesmo espírito escreveu alguns artigos no jornal O Progresso. No funcionalismo público chegou a inspector-geral das Alfândegas e foi o primeiro chefe da Repartição de Estatística criada no Ministério das Obras Públicas. Tal facto deveu-se provavelmente aos profundos conhecimentos de economia que demonstrou nos artigos publicados, sob o pseudónimo de Veritas, em vários periódicos, entre os quais: Arquivo Pitoresco, Arquivo Universal, Correio da Europa, Diário de Notícias, Ilustração Luso Brasileira, Jornal do Comércio e Revista Peninsular. Já depois dos 40 anos encetou uma viagem pelos pontos descobertos ou conquistados pelos Portugueses no Mundo, que o levou pelo Mediterrâneo e mar Vermelho até à China, tendo regressado por Moçambique e cabo da Boa Esperança. Deste percurso resultaram diversos trabalhos literários que ilustram o estilo reformador e empreendedor do seu autor. Foi ainda redactor do Boletim Oficial de Macau durante um ano. (...)
*Nota: em 1997 a parte relativa a Macau destes dois volumes foi reeditada sob o título "Macau em 1850: crónica de viagem."

quinta-feira, 17 de maio de 2018

Manuel da Silva Mendes por Enio Belsito

文第士肖像
Manuel da Silva Mendes 
恩尼奧.貝爾薩托 / Autor / Author - Énio Belsito 澳門藝術博物館藏 / Colecção do Museu de Arte de Macau / Collection of the Macao Museum of Art
"(...) Tímido mas confiante, MSM (viveu em Macau entre 1901 e 1931) é pouco dado a eventos e à exposição pública. Talvez por isso ao longo da sua vida tenham sido registadas poucas fotografias e apenas dois ‘retratos’: um feito a carvão sobre papel, da autoria de um artista chinês (desconhece-se o nome do autor) que segundo LGG chegou a estar exposto na Biblioteca Pública de Macau; e um quadro a óleo, feito pelo pintor italiano Ennio Belsito, que fazia parte do espólio do Museu Luís de Camões. Esta faceta de timidez será compensada na escrita, onde se sente como peixe na água, apresentado um discurso fluido e reflexões plenas de lucidez. (...)
João Botas in Biografia de Manuel da Silva Mendes 1867-1931, co edição autor/ICM, 2017

Encarregado do Governo, Brigadeiro João Carlos Quinhones de Portugal da Silveira, numa visita ao Museu Luís de Camões em meados da década de 1950, apreciando peças que eram pertença do sogro, Manuel da Silva Mendes.

quarta-feira, 16 de maio de 2018

A Temple that precedes the City



As the drum is struck in rhythm at exactly 12pm, Fernando Ó and several members of the A-Ma Temple Charity Association gather at the inner shrine of Zhengjue Hall. With incense sticks in his hands, Ó solemnly prays to the Taoist goddess Mazu, a ritual he has observed on a daily basis since he became director of the association more than ten years ago.

“A-ma Temple is a villa for Mazu. If we pray to her and call upon her, she will come here more often and give us her blessings,” smiles the 77-year-old, whose family was among the founders of the association in the 1920s.
Ó is not alone in this religious belief. Dating from the early 16th century, before the arrival of the Portuguese, A-Ma Temple, otherwise known as Ma Kok Miu, is the oldest temple in Macao. Each year, it is visited by a large number of worshippers from around the world. Some seek blessings of health and fortune; others pray for the granting of specific wishes such as relationships and children.
But when the belief in Mazu began in the 10th century in Fujian, China, worshippers prayed to the goddess to invoke a specific blessing that concerned their survival.
“Mazu was originally a mortal woman called Lin Mo. She was born on Meizhou Island, close to the shore of Fujian. During her lifetime, she used her spiritual power and weather forecasting ability to save the lives of many fishermen from the menace of typhoons,” Ó explains. “The local people respected her enormously and after she died at the age of 28, she was remembered as Mazu (mother-ancester) or Tian Hou (the queen of heaven).”
The first temple dedicated to Mazu was built on the island in 987BC, where she was revered as a powerful and benevolent goddess that roamed the seas to protect sailors and fishermen. Centuries later, the worship of Mazu spread to a small fishing village nestled on the southern coast of China, which would later become one of the most prosperous cities in the world.
According to Annals of Macao, the first chorography about Macao, finished during Qianglong’s Reign of the Qing Dynasty, legend has it that during the period of Mingli’s Reign (1573 to 1620) a big ship of a Fujianese merchant encountered a monstrous storm and lost its way. Panicked, the sailors and passengers prayed to Mazu for help. Soon, the glowing goddess was seen standing on a hillside amidst the huge waves, guiding them the way to safety.
In gratitude of Mazu’s miraculous intervention, a temple dedicated to Mazu was built at the spot where she appeared. This is believed to be where the history of A-Ma Temple began, and attests to the popular saying that “A-Ma Temple existed before Macao”.
“It was a time when Macao was just a fishing village, and Barra Square (in front of A-Ma Temple) was just a sea of water,” says Dr. Sharif Shams Imon, the Academic Coordinator for Heritage Management and Tourism Management programmes at the Institute for Tourism Studies. “Because people’s livelihoods had such a big connection with the ocean, Mazu, as a goddess of the sea, quickly gained popularity among the local community. Fishermen would visit the temple to ask for Mazu’s blessing and protection, before they set out to brave the seas in search of fish,” he adds.
A-Ma Temple might well have witnessed the beginning of Sino-Portuguese exchanges. When the Portuguese landed near the temple in the 16th Century, they asked the locals the name of the land, but the locals answered “Ma Kok” (the Chinese name of A-Ma Temple), thinking that they were asking for the name of the temple. That’s where the name “Macao” is believed to have derived from.
Over the next few centuries, Macao’s cityscape evolved dramatically. Skyscrapers redefined the city’s skyline, and land reclamation expanded its territory. But A-Ma Temple continues to thrive.
“The Taoists often say it is rare for a temple to prosper for more than three centuries; if it does, that means it has a great spiritual influence, and is efficacious in granting wishes. That’s why people keep coming to seek its blessings,” says Ó.
With a growing number of worshippers and devotees, the temple gradually expanded into a religious complex consisting of four main halls: Hongren Hall, Zhansuo Hall, Zhengjue Hall and Kun Iam Hall. Connected by a spiral staircase winding up the hillside, they form a series of Chinese architectural wonders.
The temple also absorbed elements of Buddhism and Confucianism, Dr. Imon says, making it a representation of Macao’s complex mix of religious influences. Bodhisattva Wei Tuo, Dicangwang and Kun Iam are worshipped in Zhengjue Hall and Kun Iam Hall. Stone inscriptions that imply a Confucius origin are found in different corners of the temple.
Being home to a great wealth of religious and architectural heritage, A-Ma Temple remains highly susceptible to natural or human-caused events such as storms and fire. For the A-Ma Temple Charity Association, which is responsible for the overall management of the temple, the task of preserving the historic landmark is a challenging one.
“A lot of money has been spent on this aspect,” Ó admits. “We have to retain the originality by using the same materials that were used hundreds of years ago, such as bricks and paints.”
As A-Ma Temple is an important component of Macao’s historic centre, renovations that take place inside the temple come under the direct supervision of the Cultural Affairs Bureau. Meanwhile, to keep the Mazu belief alive in Macao, during Mazu’s birthday, which takes place on the 23rd day of the 3rd month of the lunar calendar, celebration parades and lion dances, charity activities such as blessing rituals and rice distribution are organized at the temple by various local associations, including the A-Ma Temple Charity Association. Chinese operas are performed in a purpose-built bamboo hall in the area in front of the temple, not only to reward the mercy of Mazu, but also to entertain the public.
As an incredible treasure trove of history and culture, A-Ma Temple surely has lots of surprises for curious visitors. But when asked what is the must-see part of the temple for first time visitors, Ó’s reply is perhaps what you would expect from a Taoist devotee.
“Everybody comes here with a different purpose, from admiring the architecture and inscriptions, through to seeking blessings from the deities or an old tree,” he says while pointing at a wishing tree in front of Zhengjue Hall, with small prayer charms suspended from its surrounding red frame. “Just pay a visit. Fate will lead the way.”
Keeping the goddess happy, and thus the people. When it comes to the celebration of Mazu, the A-Ma Temple becomes a blissful venue that brings the goddess and the people together.
Chinese New Year
During the Chinese New Year’s Eve, a large number of worshippers visit A-Ma Temple to offer prayers, hoping to be blessed by the goddess in the year to come. The drumming and bell-ringing ceremony is held in the temple to pray for Macao’s prosperity.
On the fourth day of Chinese New Year, local fishermen sail their boats to the entrance of the Inner Harbor, in front of A-Ma Temple. With the boats’ bows facing the temple, they hold a paddling ceremony to honour Mazu.
Mazu's Birthday
During Mazu’s birthday, which takes place on the 23rd day of the 3rd month of the lunar calendar, rituals are held at the temple for worshippers to pray for blessings and offer sacrifices. Fishermen sail their boats to A-Ma Temple to show their respect to Mazu. The celebration extends to Barra Square in the afternoon as worshippers gather there for a festive feast, followed by a Chinese opera performed in a bamboo hall nearby.
Anniversary of Mazu Ascending into Heaven
Chung Yeung Festival also marks the anniversary of Mazu ascending into heaven. In celebration of this important event, the parade of worship with Mazu starts at the front of A-Ma Temple to pray for harmony and prosperity in Macao.
Text and photos In Macao Closer, Mar/Apr. 2018

terça-feira, 15 de maio de 2018

Breve biografia de Manuel da Silva Mendes

A "personalidade invulgar" (1) do autor das obras sobre as quais me debruçarei neste trabalho é multifacetada, polivalente, de interesses vários e realizações díspares. "Manuel da Silva Mendes nasceu no distrito do Porto, em S. Miguel das Aves, a 30 de Novembro de *1876". (2) Cursou Direito em Coimbra e em 1898 publicou "apenas com 22 anos" (3) o seu primeiro trabalho, como tradutor: "Wilhelm Tell", de Schiller. Terminado o curso de Direito, abre escritório em Famalicão, onde recebeu,"a fazer um requerimento"(4), O telegrama em que o seu amigo Mons. Santos Viegas (5) Ihe anunciava que um lugar de professor vagara na Província de Macau. Casando entretanto, embarcou em 1901, numa viagem longa por si recontada com um humor queirosiano no seu artigo "De Lisboa a Macau".(6)
Como professor no Liceu, ensinou Português e Latim (a partir de 1901) ao longo de 25 anos, durante os quais se empenhou na vida da cidade, ocupando os cargos de Reitor interino do Liceu, de Presidente do Leal Senado e de Administrador do Concelho, atraindo a si inúmeros amigos, muitos deles chineses, "coisa pouco usual em quem vem de fora e não conhece a língua" (7), sendo destes, o mais célebre, o Governador da província de Guangdong, Sr. Chan Chek Yu.
Autor de um profícua actividade jornalística no "Vida Nova","O Macaense","O Progresso","A Pátria","Jornal de Macau","A Voz de Macau", e nas revistas "Oriente" e "Revista de Macau" donde se destacam muitos artigos em que o seu estilo crítico, mordaz e simultaneamente objectivo, não se dissocia de um fascínio por Macau e pelo Oriente - desenvolvendo um gosto pela arte chinesa, reflectindo este seu interesse e progressivo estudo sobre arquitectura sacra (8), mobiliário (9), arte (10) e pintura (11) que coleccionava, passeando amiúde pelas "antiqualhas e pelos bricabraques do bairro de Santo António". (12) Temos também da sua actividade como advogado de reputação no Território, vários trabalhos relacionados com os casos em que colaborou.
Para além de todas estas ocupações, deve destacar-se o estudo que desenvolveu acerca do Tauísmo, "interesse constante durante a sua vida em Macau". (13)
Várias fontes indicam que se deslocava com alguma frequência ao mosteiro de Choc Lam: Luís Gonzaga Gomes, que com Joaquim Paço d'Arcos foi seu aluno, afirma que "parte do seu tempo, passava-a Silva Mendes, no aprazível e agasalhador Pagode de Mong-Há, a entreter-se em amena conversa com os bonzos seus amigos". (14) Se estas tertúlias focavam os temas transcendentes e técnicos do Tauísmo, não se sabe, tendo-se porém, a certeza de que não dominava o chinês escrito, e que do falado tinha um conhecimento superficial (15), facto que o levou a estudar a obra de Láucio (16) por meio de traduções."Lau-Tse e a sua Doutrina segundo o Tao-Te Ching"(1908) - a conferência que pronunciou no Grémio Militar de Macau, e sobre a qual mais reflectirei neste trabalho - "Excertos de Filosofia Tauísta" (1930), bem como artigos dispersos-"Filosofia da Criação" (in "O Macaense",1920) e "Chiang, o Borboleta" (in "O Macaense",1919) -mostram as suas excelentes qualidades como estudioso e homem preocupado com o conhecimento interior da civilização chinesa, perto da qual, por desejo seu (17), acabou abruptamente os seus dias às onze horas do dia 30 de Dezembro de 1931, com 55 anos, na sua residência na Estrada do Engenheiro Trigo, na cidade de Macau.

Excerto de artigo da autoria de Carlos Miguel Botão Alves - intitulado "Silva Mendes e o Tauísmo: perspectivas sobre o Tau-Te Ching" - publicado na Revista Cultura nº 15 - Ano V.
*Nota do autor deste blogue: Na verdade MSM - residência em Macau na imagem em cima - nasceu em 1867 e morreu em 1931.
Notas:
(1) MENDES, Manuel da Silva, Macau-Impressões e Recordações, op. cit., pp.56.
(2) Idem, p.7.
(3) MENDES, Manuel da Silva, Colectânea de Artigos, vol. I, op. cit, p.5.
(4) MENDES, Manuel da Silva, Macau-Impressões e Recordações, op. cit., p.9.
(5) Mons. Santos Viegas era então Presidente da Câmara dos Deputados e, em sua opinião, "um político graúdo" (id. p.10).
(6) Ibidem, pp.9 a 25.
(7) Ibidem, p.6.
(8) Vide Arquitectura Sacra em Macau, in "O Macaense",1919.
(9) Antiga e moderna mobília em Macau, in "O Macaense",1920.
(10) Notas sobre a arte chinesa, in "Macau",1918,1919.
(11) Pintura chineza in"O Progresso",1914; A pintura chineza, in "Oriente",1915. A pintura na China. Apontamentos para a História da Arte na primeira metade do XIX Século. In "O Progresso",1916.
(12) Mendes, Manuel da Silva, Colectânea de Artigos, op. cit. p. VI.
(13) Mendes, Manuel da Silva, Macau - Impressões e Recordações, op. cit., p.6.
(14) Mendes, Manuel da Silva, Colectânea de Artigos, vol. I. op. cit, p. VI.
(15) Idem, p.5.
(16) Dada a diversidade de transcrições romanizadas do nome do fundador do Tauísmo, nas várias línguas com que deparamos, optaremos ao longo deste trabalho pela designação "Láucio", derivada da de "Lautius", feita pelos primeiros Jesuítas que vieram à China, a partir dos caracteres "Lou tchi"que em pequinense se pronunciam."Lau tse".
(17) "Estou com imenso desejo de voltar para Macau", dizia em carta de Novembro de 1927, (in Mendes, Manuel da Silva, Colectânea, op. cit. vol. l, p.7).

segunda-feira, 14 de maio de 2018

"Silva Mendes: o Homem e a Obra" - 5ª feira na Fundação Casa de Macau

Figura incontornável da história de Macau durante a primeira metade do século XX, Manuel da Silva Mendes (1867-1931) eternizou-se pela amplitude da sua presença na sociedade macaense da época. Conhecedor exímio da filosofia taoista e da arte chinesa, Silva Mendes dedicou grande parte da sua vida a Macau, onde viveu cerca de 30 anos.
É neste âmbito que se presta homenagem à sua obra, no próximo dia 17 de Maio, pelas 18 horas, no Centro de Documentação da Fundação Casa de Macau, no Príncipe Real, numa tertúlia dirigida pelo Dr. João Botas e com a honrosa presença da neta de Manuel da Silva Mendes.

domingo, 13 de maio de 2018

Ljungstedt no "The Canton Register" em 1835

 
PORTUGUESE SETTLEMENTS IN CHINA
The Author of the Historical Sketch of the Portuguese Settlements in China begs leave to inform the gentlemen who may honor him with their subscriptions that the price of the book consisting of from 370 to 400 pages in full size Octavo will be two dollars payables on delivery. The editor of the Canton Register will be so good as to receive the subscription list at the end of this year and to distribute the work when completed The subscribers will be informed in the Canton Register and the Chronica de Macao when the book is ready for delivery. ANDREW LJUNGSTEDT

Curiosa esta notícia publicada no jornal The Canton Register, edição de terça-feira, 10 de Novembro de 1835. No caso Andrew Ljungstedt, sueco, (1759–1835), informa e solicita a quem estiver interessado para comprar o livro que está a preparar.
An historical sketch of the Portuguese settlements in China and of the Roman Catholic Church and mission in China seria editado no ano seguinte com 381 páginas nos EUA.
De seguida, reproduzo o prefácio, mas antes disso, a explicação do autor, sobre onde foi buscar tanta informação para o livro:
"Dom Joaquim Saraiva, Lord Bishop of Peking, took, during his residence at Macao, where he drew in 1818, at the Royal College of St. Joseph, his last breath, incredible and unrelenting pains in saving from perdition a host of interesting accounts relative to Macao. They were recorded in an authentic manner, but on materials, which by the age of centuries
had been defaced, mutilated, worm-eaten, and were mouldering into dust. With his excellency's friendly permission, I compared with his valuable manuscript extracts my accumulated collections ': they were thereby improved so much, that this my humble Essay may, in many respects, be considered a repository of facts, of which the archives of the Senate can exhibit the originals no more."
O autor viria a morrer nesse mesmo ano, 1835, em Macau, estando o tumulo no cemitério protestante. A obra que deixou não foi bem recebida já que na prática afirmava não existirem documentos que provavam a cedência de Macau aos portugueses em troca da ajuda do combate aos piratas.

Prefácio
Placing an implicit confidence in the judgment of enlightened friends, who were pleased to think, that the two Historical contributions, concerning the Portuguese settlements in China, and principally of Macao, distributed in 1832, and 1834, among them for the purpose of gratifying general inquisitiveness, might be of some public utility, I resolved to revise my Essays, correct mistakes, enlarge the view, and connect occurrences in a natural series of chronology.
That the size of the little work may not swell by extraneous digressions, nor by my own individual reflections, all my exertions have been confined within the limits of a simple and faithful narration of facts, leaving to the reader his right to exercise, at discretion, the faculties of his own intellect on the subjects under consideration. They are examined under distinct heads, and in chapters, that any inquirer may satisfy his curiosity by referring to the place alluded to, and decide on their relative merit.
In perusing the annexed copy of the preface which preceded the first contribution, it will be evident, that chance determined the author to seek for information about Macao in books and archives. From among the many various and detached hints, the most authentic have been recorded with an intention that the selection may prove a useful auxiliary to a future historian. It embraces for near three centuries, a succint description of the most memorable
changes of Macao, and closes at an epoch, in which his imperial majesty, Dm. Pedro, Duke of Bragança, by his heroic and glorious exploits, and by his comprehensive genius, is laying, on the sound principle of respect for mutual rights of individuals and nations, a solid foundation for the everlasting (I most sincerely wish,) prosperity, happiness, and grandeur of the Portuguese monarchy.
Thirty years ago but few persons doubted that the Kings of Portugal exercised at Macao their sovereign authority, in virtue of an imperial grant of the place to vassals of Portugal for eminent services rendered by them to the Chinese empire. The author of this Essay entertained the same opinion, when in 1802, a British auxiliary detachment arrived and offered to defend, in conjunction with the Portuguese, the settlement against an apprehended attack from the French; a friendly proposal, which the government of Macao could not accept, because the Chinese authorities interfered. On their part, the same resist-
ance was, in 1808, experienced, when a British force for a similar purpose, with the consent of the Macao government, had disembarked and garrisoned three forts; the auxiliaries at last evacuated the place and re-embarked. These results prove, that the Portuguese never had acquired the right of sovereignty over Macao, though they have been in possession of it
nearly three centuries.
To trace the beginning of this settlement and its progress, and to examine on what ground Macao is numbered among the ultra-marine dominions of Portugal was of consequence. Historians who detailed the earliest achievements of their countrymen in Asia, and records of the first missionary labours in China, gave the clue and exhibited to us the origin. National and foreign authors of later dates describe the advancement, prosperity and decline of Macao, the inhabitants of which, being principally by birth from Portugal, claimed in virtue of their allegiance, the protection of their sovereign: it was granted and a government instituted. By this concession, the court of Lisbon fancied that it had acquired an inherent right to the dominion of Macao, though the members of the Senate in 1593, assured his majesty, Philip I. that "they maintained themselves in the place by spending much with the Chinese." Portuguese annalists, travellers and foreigners, ignorant of this confidential declaration, echoed, that the Kings of Portugal possessed in China, as absolute masters, a
spot, denominated Macao.
The Portuguese were the first Europeans who pushed their navigation to the southern confines of China, where they succeeded in forming an important settlement; an event, which the Kings of Portugal meant to improve by diplomatic missions, in order to obtain for their vassals at Macao, by the sanction of the sovereign of China, an extension of liberty and commercial advantages. Little, however, or rather no acknowledged benefit was ever conferred : the long voyages and costly visits all ended - it seems - in mutual exchange of presents and civilities.
By the zeal of Portugal, Christianity was transplanted from Europe to the East Indies and China. In our account of the Roman Catholic Mission in China, we have endeavored to delineate the difficulties the first missionaries had to contend with ; their perseverance; their attention to arrive by unanimous proceedings, at their object - the conversion of China to Christianity; then we have briefly described the lamentable schism, caused by presumptuous foreigners, who thought themselves better qualified than the emperor to fix the explanatory meaning of a couple of Chinese characters under dispute. In the mean time, many men of learning and influence embraced the foreign creed and favored it; its opponents more numerous, were enabled, now and then, by their remonstrances to put a check to its rapid progress, and by reiterated attacks they at last convinced Yung- ching of the necessity to prohibit the exercise of the christian religion in all his extensive dominions. Nevertheless, zealous and obedient Europeans are employed in their respective missions, though with little expectation to be inscribed on the catalogue of martyrs; for on those few, who may occasionally be apprehended in their illicit pursuit, the sentence of death is seldom inflicted.
The rational and innocent ceremonies - except in the eyes of the intolerante - with which the Chinese are wont to honor Confucius and the manes of departed ancestors, a tribunal of Inquisitors reputed superstitious and idolatrous ; as such, the court of Rome condemned them. This innovation aimed at introducing a schism in government, for to disobey the Holy See, the Chinese christians were taught to be a mortal sin; a venial one it was, not to submit to the laws of the country, whenever they were not in harmony with the supreme will of his holiness. That Kang-he might sanction this anti-social doctrine, Clement XI. employed legates. The emperor condescended to receive them, to listen to the propositions of the Pope, and even to discuss their merit, but he peremptorily refused to alienate the smallest portion of his legislative power, and dismissed the legates.
Considerable pains have been taken in collecting the materials which are arranged under the head, noted at the title-page; they are now submitted to the critical scrutiny of a few friends, and of those gentlemen, who, for the sake of research, may be disposed to excuse the absence of eloquent language in a performance, traced by the pen of a foreigner.


sábado, 12 de maio de 2018

As comemorações de 1898

Há 120 anos, em 1898, por estes dias, ultimavam-se os preparativos para as comemorações do IV Centenário do Descobrimento do Caminho Marítimo para a Índia. A ideia surgiu em 1894 e as comemorações decorreram quatro anos depois, não só em Portugal, como nas então colónias portuguesas. 
Macau não foi excepção embora esse ano ficasse marcado pelos efeitos devastadores da peste bubónica. No jornal O Porvir de 30 de Abril desse ano pode ler-se: "Diz-se que foi exportada de Hong Kong, pois daí tem fugido muita gente que não gosta do tratamento médico e das medidas sanitárias adoptadas nessa colónia. Bom seria que as autoridades de Macau tomassem medidas rigorosas para evitarem que continue o êxodo de chineses de Hong Kong para Macau".
Em Macau o governo transforma a abandonada Fortaleza de D. Maria II em lazareto e para evitar males maiores são eliminados do programa dos festejos do IV Centenário tudo o que pudesse promover aglomeração de multidões, em especial o contacto de habitantes de Macau com os territórios vizinhos.
Na imprensa da época - Echo Macaense e O Independente - está reflectida essa realidade: "Foram modestos e simples os festejos (...), pelas más condições de salubridade em que se encontra esta terra; mas o sentimento patriótico sobressaiu em todos esses actos, sem grandes expansões de entusiasmo, mas intimamente, mas convictamente".
Ainda as celebrações começaram a 17 de Maio de 1898. Nesse dia o toque de alvorada ocorreu às seis da manhã frente ao Palácio do Governo executado por elementos da guarnição de Macau. Nas fortalezas de S. Francisco e de S. Paulo do Monte houve salvas de 21 tiros. Seguiu-se a actuação da banda musical da guarnição que percorreu várias as ruas da cidade rumo ao Leal Senado.
Às cinco da tarde ocorreu um Te Deum na Sé Catedral, com a igreja decorada a rigor e onde se destacavam as bandeiras portuguesas na parte superior do altar-mor e nas tribunas. À cerimónia compareceu o povo, o Governador e as mais altas individualidades oficiais da administração pública e clero. Presidiu às cerimónias do Te Deum, o bispo D. José Manuel de Carvalho, que chegara a Macau a 1 de Março desse ano.

Terminado Te Deum fez-se a guarda de honra no Largo da Sé e pela noite ocorreram diversas celebrações: desde a banda musical do Seminário ao desfile dos alunos do Liceu.
Numa das janelas do edifício do Leal Senado esteve exposto um quadro executado por Jaime dos Santos com a representação da chegada de Vasco da Gama a Calicut, tal como no selo postal centenário no valor de 4 avos.
Na Praia Grande, o hotel Hing Kee estava iluminado com balões chineses e bandeiras de várias as nações. Em casa do Conde de Senna Fernandes juntou-se a elite da cidade numa "soirée dançante".

Foi feita uma emissão especial de "bilhete postal" para Macau, alusivo ao Centenário da Índia 1498-1898, com várias ilustrações.

sexta-feira, 11 de maio de 2018

Exposição de Cerâmicas de Shiwan da Colecção do MAM

O Museu de Arte de Macau (MAM)possui uma colecção de figuras de grande escala de cerâmica de Shiwan, produzidas nos anos 20 do século passado. A colecção pertenceu a Manuel da Silva Mendes (1867-1931), um advogado português que se estabeleceu em Macau em 1901 e desenvolveu um grande interesse pela cerâmica de Shiwan, na província de Guangdong. Parte dessa colecção pode ser apreciada até 12 de Agosto no MAM.
De acordo com a informação do MAM - que não obstante já ter sido informado por mim pessoalmente que MSM nasceu em 1867 e não em 1876, persiste no erro - "No início do século XX, Silva Mendes visitou amiúde Shiwan para estudar a cerâmica local e tornou-se o primeiro coleccionador do mundo a conhecer e a pesquisar esta forma de arte. Silva Mendes também foi um coleccionador sistemático de peças Ming e Qing, bem como da cerâmica contemporânea de Shiwan, tendo reunido a primeira colecção do mundo desta cerâmica.
Lu Yu (733-804), autor do Livro do Chá, também conhecido como “Deus do Chá”. Estudo para uma escultura de Lu Yu. Autor: Pan Yushu - Início do século XX - Altura: 11 cm
Na década de 1920, além de adquirir peças de Shiwan, Silva Mendes encomendou figuras em grande escala aos mestres Pan Yushu e a Chen Weiyan, os artesãos de cerâmica mais famosos naquela época em Shiwan. O advogado convidou Pan Yushu para vir a Macau, mostrou-lhe algumas estatuetas que possuía, produzidas segundo os cânones europeus, encomendando-lhe que fizesse uma série sobre o tema dos deuses e heróis chineses. Pan esmerou-se na manufactura de uma série de miniaturas que fossem ao encontro do gosto do seu cliente. Aprovadas por Silva Mendes, as pequenas estatuetas foram depois replicadas numa grande escala numa numa fábrica de cerâmica em Guangzhou, com a colaboração do mestre Chen Weiyan. Estas peças em miniatura são um bom exemplo da renovação e prova da integração do artesanato tradicional chinês e as formas de expressão artística do ocidente no início do sec. XX."
Peixes-dragão de cumeeira de telhado da região de Lingnan. O desenho provém do ditado popular “A carpa salta as Portas do Dragão” e significa um grande êxito, a passagem num exame ou obtenção de uma promoção.
Autor: anónimo - Final Dinastia Qing (1851-1911) - Altura: 93 cm
As cumeeiras têm uma longa história na China. Na cidade de Shaoxing foi descoberta uma escultura em forma de casa retratando músicos dos primeiros Estados Guerreiros (403-221 a.C.), cujo telhado tinha motivos de pombas de cauda comprida. Decorações de pássaros eram também frequentes nas cumeeiras de cerâmica das casas em ambas as dinastias Han. Sob ordens da Corte Imperial, Li Jie (dinastia Song do Norte), escreveu a obra Ying Zao Fa Shi (“Métodos de Construção”). Durante o reinado do Imperador Yongzheng (dinastia Qing), o Ministério das Obras Públicas editou a obra Gong Zuo Fa Ze Li (“Regulamentos da Construção de Edifícios”), o segundo código de arquitectura chinês que registou regulamentos de diferentes arquitecturas oficiais de acordo com a categoria ou patente e continha também normas detalhadas da categoria, quantidade e tamanho das decorações das cumeeiras dos telhados.

Laozi / Lao Tzu (600 A.C. - circa 470 A.C.), fundadordo Taoísmo. Autor: Pan Yushu - Início do século XX - Altura: 48 cm

quinta-feira, 10 de maio de 2018

A Mulher de Macau segundo relatos de viajantes (século XVI ao século XIX)


(...) Os macaenses, grupo de ascendência portuguesa com pool genético muito rico, é um grupo fortemente hibridado, cujas mães teriam sido levadas para Macau, nos primeiros tempos da sua fundação, dos mais diversos pontos da Terra, na maior parte dos casos como escravas, adquiridas nos bem providos mercados do Oriente. Este grupo dos macaenses é um grupo bastante original que se demarcou muito cedo na sociedade de Macau, chegando a um parcial isola mento devido a casamentos endogâmicos e preferenciais, com europeus, entre as classes mais privilegiadas.
Foi, de facto, nos dados que recolhe- mos nos re-latos de viagens relativos às mulheres de Macau que encontrámos, de certo modo, a explicação para a demarcação deste grupo, que manteve grande homogeneidade através dos séculos chegando até aos nossos dias, embora com muitos padrões antigos em franca desagregação.
Os documentos que encontrámos dispersos pelos vários arquivos, principalmente registos das paróquias e numeramentos feitos em Macau, referem-se aos nhons, filhos dos portugueses, mas não às suas filhas, que ficaram sempre integradas no grupo de mulheres casadas ou solteiras, senão no grupo das escravas, sem discriminação de etnia.
Que mulheres teriam acompanhado os primeiros portugueses para Macau, que destino teria sido o das suas filhas e que lugar teriam ocupado estas na sociedade macaense?
Responder a estas questões só é possível, como já se disse, através dos relatos dos viajantes que demandaram Macau entre os Séculos XVI e XIX e das cartas dos eclesiásticos, que fizeram daquela cidade porta de entrada para as missões do Japão e da China.
Analisemos, sumariamente, alguns dos principais relatos de que dispomos. Destes, os mais pormenorizados que conhecemos são, sem dúvida, os do holandês J. H. Linschoten, do inglês Peter Mundy e o dos dois magistrados chineses Cheong Ü Lam e Ian Kuong Iam, acompanhados todos eles de gravuras com grande interesse, embora outros apontamentos, legados por diferentes viajantes, alguns registados em cartas escritas de Macau (1), tenham também grande importância documental para a história social daquele território. A limitação do tempo impôs-nos, porém, escolher apenas os mais significativos.
Nos primeiros tempos, a vida aventurosa dos portugueses nos mares da China (2) não estimulava os homens a levarem consigo mulheres do Reino que, aliás, poucas eram, na altura, as que demandavam o Oriente. No entanto, mulheres nativas, escravas e concubinas, tal como era uso da navegação oriental, teriam sempre povoado os seus barcos (conforme o diz, entre outros, Fernão Mendes Pinto).
Necessariamente, dessas primeiras uniões teriam nascido filhos, que António Bocarro (3) descreve como "mais robustos que nenhuns". Tal robustez advinha, provavelmente, do poli-hibridismo e da selecção natural feita pela mortalidade infantil. No entanto, das filhas, Bocarro não fala embora, antes, tenham sido já referidas por Fernão Mendes Pinto, quando descreveu Liampó (4).
Registou este autor, referindo-se a um banquete oferecido pelos moradores daquela cidade: "(...) e assentados à mesa forao servidos por moças muyto fermosas,& ricamente vestidas ao modo dos Mandarins que a cada iguaria que punhao cantavao ao som dos ins-trumetos, que outras tangiao(5), e a pessoa de António de Faria foy servida co oito moças muito alvas & gentis molheres, filhas de mercadores honrados, que seus pais por amor de Mateus de Brito,& de Tristao de Gâ trouxerao da cidade, as quaes todas vinhao vestidas de sereas (...)".

Cadeirinha para transporte das nhonhonha de Macau (Ou Mun Kei Leoc, ob. cit.).

É de notar que Fernão Mendes Pinto fala nas filhas dos portugueses vestidas como sereias. Este traje mítico deve ser a saraça baju, que desde a Índia, passando por Malaca até ao Sudoeste da China, as mulheres asiáticas usavam como vestuário. Um pano da cintura para baixo e um corpinho de pano finíssimo a que Linschoten (6), nos fins do Século XVI (1593-95), também se refere, ao retratar as mulheres dos portugueses de Goa.
Segundo este autor "as mulheres dos Portugueses, Mestiças ou Cristas das Indias não são nunca vistas, estando a maior parte do tempo reclusas em casa sem sair senão para ir à igreja ou a qualquer visita (...) sendo, para esse efeito, levadas em palanquins cobertos (...).
Em casa quase todas andam de cabeça descoberta tendo a parte superior do corpo coberta por uma camisa muito fina e clara que elas chamam baiu, que não ultrapassa as ancas. O rosto é coberto por um pano dobrado em dois ou em três muito ricamente trabalhado e figurado, usando sapatos sem saltos (...)".
Nesta descrição está retratado o traje que levaram para Macau, as mulheres dos portugueses fundadores da cidade.
Peter Mundy, no Século XVII (7) descreveu, também, os trajes de Macau, referindo-se às mulheres macaenses e aos quimonos que, por casa, envergavam as crianças das famílias abastadas, anotando as jóias preciosas e os caros enfeites.
E acrescenta: "Neste lugar há muitos homens ricos, trajando à maneira de Portugal. As suas mulheres, como as de Goa, vestem-se com saraças e condês, estes sobre a cabeça e as outras do meio do corpo até aos pés, e andam calçadas de chinelas chatas. É este o trajo ordinário das mulheres de Macau. Só as de melhor categoria são transportadas em cadeiras à mão, como as cadeirinhas em Londres, todas totalmente cobertas, algumas das quais sao muito caras e ricas, trazidas do Japão. Mas quando saem sem elas, a patroa dificilmente se distingue da criada ou escrava pela aparência exterior, todas inteiramente cobertas, mas os seus sherazzees (saraças) são de melhor qualidade.
"Essas mulheres, dentro de casa, usam exteriormente uma veste de mangas muito largas, chamada kamono ou kerimono japonês, por ser o trajo ordinário usado pelos japoneses, havendo muitos que são elegantes, trazidos de lá, de seda tingida, e outros tão caros como aqueles, feitos aqui pelos chineses, de rica bordadura de seda colorida e oiro (...)". Este quimono deve corresponder ao quimao ou baju, que, nas mulheres macaenses das famílias ricas, talvez quando havia em casa pessoas estranhas, era em tecidos espessos, caros e vistosamente decorados.
Quando saíam, as mulheres iam encerradas nas suas cadeirinhas e envolvidas nas suas saraças ou véus, o que é testemunhado pelos desenhos com que Peter Mundy ilustrou a sua narrativa.
Comparando a descrição de Peter Mundy, relativa a Macau, com outra contemporânea, que o médico francês Dellon nos legou, relativamente ao traje das mulheres de Goa, parece poder inferir-se que os velhos bajus de influência islâmica predominavam na Índia, enquanto em Macau as mulheres dos comerciantes mais abastados os preteriam pelos quimonos de modelo japonês ou mesmo chinês, daí resultando a cabaia baju que chegou ao Século XX neste território do Sul da China. Com o Século XVIII, Macau empobreceu. Muitos homens saíram da cidade, levando, alguns, as famílias consigo, outros deixando-as ficar. Começaram a chegar degredados e aventureiros, indivíduos sem escrúpulos, fugidos de Goa. E a degradação moral acompanhou depressa a degradação económica.
Sir Alexander Hamilton, por exemplo, no primeiro quartel do Século XVIII (8), registou: "Em toda a cidade havia cerca de 200 homens (...) e cerca de 1500 mulheres muitas delas muito prolíficas para gerarem filhos sem marido".
Outros viajantes que demandaram Macau no mesmo Século como, por exemplo, o mareante Nicolau Fernandes da Fonseca (1774), fizeram aliás igual juízo crítico.
Por esta mesma altura, os magistrados chineses Cheong Ü Lam e Iam Kuong Iam, que visitaram e permaneceram algum tempo em Macau no Século XVIII, registaram, numa curiosa monografia xilografada (9), desenhos ri-cos em pormenor, representando tipos portugueses. Entre estes desenhos destaca-se uma "nhonha" cuja indumentária, pelo seu exotismo, lhes deveria ter despertado a atenção, indumentária que corresponde, perfeitamente, às descrições anteriormente referidas e ao desenho que nos legou Peter Mundy no seu livro.
Estes magistrados deixaram, ainda, curiosos apontamentos sobre os usos e costumes dos portugueses de Macau: "Os homens e as mulheres das familias ricas sentam-se e comem (o que significa viverem na ociosidade). Os pobres são soldados ou mareantes que trabalham nos barcos ao serviço de outrém. As mulheres bordam lenços e cintos e fazem bolos e doces como meio de vida".
A descrição destes viajantes chineses continua, exaltando o luxo e extravagância dos portugueses que, à semelhança dos grandes senhores asiáticos, continuavam a sair de cadeirinha ou machila, a pé ou a cavalo, mas sempre protegidos por guarda-sóis transportados por escravos. "O mesmo faziam as mulheres, acompanhadas por escravas, quase todas vestidas da mesma maneira, apenas se diferenciando o traje pela qualidade dos tecidos". Cheong Ü Lam e Ian Kuong Iam registaram, ainda, que os homens não podiam manter em casa mais de uma esposa, porque a mulher se queixava ao Bispo e eles eram castigados. Referem-se, como é óbvio, à proibição da bigamia. Esta visão é puramente sinocêntrica, porquanto um chinês rico podia manter em harmonia em sua casa várias esposas, sendo, no entanto, a primeira quem gozava das regalias de dona-da-casa e de mãe de todos os filhos. A moral confucionista mantinha, assim, o casamento monogâmico exigindo, no entanto, à mulher absoluta fidelidade ao marido. Daí, mostrarem-se os magistrados chineses chocados por "não ser proibido às mulheres portuguesas terem mais homens". E isto porque, naquela altura, o estado de miséria moral e económica da cidade chegara a tal ponto de degradação, que os próprios chefes de família cediam as mulheres e as próprias filhas aos estrangeiros para obterem algum lucro.
Mulheres de Macau por Peter Mundy
Do que atrás ficou exposto e da observação das figuras que se seguem, podemos tirar algumas conclusões acerca da mulher macaense e da vida social de Macau, entre os Séculos XVI e XVIII.
1 - Os trajes masculinos modificaram-se de acordo com a moda europeia, ao passo que os trajes femininos mantiveram grande uniformidade através destes dois séculos, sendo diferentes dos que as mulheres da Europa então usavam. Tal facto leva-nos a crer que na sua maioria, se não na sua totalidade, as mulheres macaenses eram asiáticas e euro-asiáticas.
2 - A vida destas mulheres era uma vida ociosa, no caso de pertencerem às classes mais favorecidas, e francamente orientalizada em qualquer dos casos.
3 - As mulheres das classes menos favorecidas ocupavam-se em trabalhos de costurinha mutri e escarrachada (10) e na confecção de doces e "confeitos".
4 - A mentalidade oriental das euro-asiáticas levava-as a menosprezar certos valores das classes burguesas da Europa do seu tempo, embora os maridos portugueses fossem considerados ciumentos e brutais.
5 - Em meados do Século XVII, quando a cidade empobreceu por carência do comércio com o Japão, muitos homens deixaram Macau e alguns abandonaram, ali, as suas famílias. A miséria levou então muitas mulheres à vida dissoluta que todos os viajantes do Século XVIII lhes apontam.
No entanto, é preciso interpretar a miséria humana em função da miséria material, do abandono a que muitas mulheres foram votadas e da mentalidade de harém, que os portugueses mantinham nas cidades do Oriente onde viviam.
6 - Relativamente ao menosprezo pelos trabalhos braçais demonstrado por elementos de ambos os sexos das classes mais favorecidas deve, por outro lado, ser entendido à luz da mentalidade europeia, que vinha da Idade Média, quando o trabalho para os nobres era considerado humilhante, uma verdadeira "condenação". Era preferível pedir esmola do que trabalhar em "misteres vis".
Perante as populações autóctones, os portugueses, mesmo mestiços, não podiam perder o orgulho da sua linhagem, mantendo a dita "mania da fidalguia" (11) que Bocage, por exemplo, viageiro errante pelo Oriente, tão bem satirizou:
(...) "Mas a tua pior epidemia O Mal que em todos dá que produz flatos É a van, negregada senhoria"(12).
Em meados do Século XIX, as ideias liberais que, de Portugal, se expandiram pelas cidades ultramarinas e, depois da fundação de Hong Kong, a influência da ética vitoriana, imprimiram à sociedade macaense uma nova feição. A moral familiar, tão desprezada nos séculos anteriores, tornou-se de rigor na alta sociedade, o que a abolição definitiva da escravatura, em 1876, veio reforçar. As famílias extensas, que correspondem sempre a períodos de expansão burguesa, começaram a desaparecer. E as raparigas macaenses passaram a desfrutar de uma certa independência, principalmente em relação ao casamento, por ter sido abolido o dote. Assim o registou, por exemplo, José Ignácio de Andrade nas suas "Cartas escritas da Índia e da China" (13).
Depois de inauguradas as carreiras de barcos a vapor, mais foram as mulheres europeias que se aventuraram às grandes travessias e demandaram Macau. A rivalidade que então separou estas mulheres das mulheres macaenses, acentuou-se paradoxalmente no nosso século, quando ondas de europeus de ambos os sexos invadiram o território em busca de lucro fácil.
Excerto da palestra de Ana Maria Amaro na Fundação Gulbenkian, em 4 de Novembro de 1988, Lisboa), publicado na Revista Cultura nº 15 - Ano V - 5º Vol.


Notas:

(1) Citamos apenas os autores que nos pareceram significativos para os Séculos XVI a XVIII e alguns dos mais pormenorizados do Séc. XIX, omitindo muitos outros, aliás mais numerosos, que descreveram alguns aspectos da vida de Macau nos Sécs. XIX e XX.
(2) "Peregrinaçam de Fernam Mendez Pinto, e por elle escrita: Que consta (...). Em Lisboa, Na Officina de Antonio Craesberck de Mello, Imprensa de Sua Alteza & impressa à sua custa, Anno de 1678", Capítulo LXX, p.97.
(3) A. Bocarro; "Livro de todas as Fortalezas da Índia (...)", Bibl. e Arq. Dist. de Évora, Cod. CXV/2-1(1635).
(4) "Peregrinaçam de Fernam Mendez Pinto, e por elle escrita: Que consta (...). Em Lisboa, Na Officina de Antonio Craesberck de Mello, Impressa de Sua Alteza & impressa à sua custa, Anno de 1678", Capítulo LXX, p.97.
(5) Possivelmente seriam escravas ou "criações" chinesas ou simplesmente peipá chai - animadoras dos banquetes tradicionais chineses - trazidas de Ning Po.
(6) J. H. van Linschoten; "Histoire de la Navigation de Jean Hugues de Linschoot (sic) Hollandois: Aux Indes Orientales (...)" Amsterdam, Troisième edition augmentée. Chez Evert Choppenburgh,1638, pp.84 e 85 (1ª ed.1610).
(7) Sir R. C. Temple e Miss L. Anstey; "The Travels of Peter Mundy (...) (1628-1667)", 5 vols., Hakluyt So-ciety, London,1919. Vol. III, Part II, pp.159 e 316 (descrição de Macau referente a 1637). Peter Mundy chegou a Macau a 5 de Julho de 1635, regressando a Inglaterra em Janeiro de 1638 (Pe. Manuel Teixeira; "Macau através dos Séculos", Macau, Imprensa Nacional,1977, p.17).
(8) Sir Alexander Hamilton; "A New Account of the East India (...)", Londres,1727.
(9) "Ou Mun Kei Leoc "(lª Ed. xilografada em 1751, seguida de outra em 1801 e de uma terceira em 1881).
(10) Trabalhos de costura e bordados a branco, e bordados a missangas (mutri ou mutre) e lantejoulas e fio de ouro (escarrachada).
Muitos plebeus eram agraciados com títulos de nobreza e outras honrarias, como mercê por feitos notáveis ao Reino, feitos que, no caso de Macau, podiam ser vultuosos donativos e não feitos de guerra.
(12) Referindo-se aos mestiços de Goa. Bocage; Poesias, Colecção "Clássicos Sá da Costa", Lisboa,1943, p.319.
(13) José Ignácio de Andrade; Cartas escritas da Índia e da China nos anos de 1815 a 1835, Lisboa, vol. II, p.2.