segunda-feira, 18 de fevereiro de 2019

O naufrágio do "Correio da Ázia"

Em Maio de 2004 o Museu Marítimo da Austrália Ocidental (Western Australia Museum)anunciou ter encontrado um mês antes o navio português "Correio da Ásia", afundado em 1816 ao largo daquele país quando fazia a ligação Lisboa-Macau. Juntamente com o navio (semelhante ao da imagem abaixo) foram encontradas cerca de mil moedas de prata, dois canhões, âncoras, lemes, um grande lastro e um sino de bronze.
Neste post vou contar a história do naufrágio, do dono da galera, José Nunes da Silveira, negociante de grosso trato e capitão de longo curso, e dos 188 anos que passaram entre o acidente e a descoberta dos destroços a apenas 3 metros de profundidade que contou a com preciosa colaboração do arqueólogo português Paulo Alexandre Monteiro.
“Pataca”ou moeda espanhola de 8 reales, em prata,
recuperada do local do naufrágio do Correio da Ásia
A 25 de Novembro de 1816 a galera Correio D'Àzia, propriedade de José Nunes da Silveira, proveniente de Lisboa para Macau naufragou nas costa da Nova holanda (actual Austrália). Nesse dia o Correio da Ásia já contava com mais de cem dias no mar desde que saiu de Lisboa. Seguindo a rota com destino a Macau, manteve-se na latitude de 40º S após ultrapassar o cabo da Boa Esperança em direcção à Nova Holanda.
Cai a noite quando a bitácula da bússola arde durante 15 minutos, privando a tripulação do precioso instrumento de navegação. Aos comandos da embarcação está o comandante João Joaquim de Freitas prestes a cair numa armadilha fatal. O casco da acaba por embater numa barreira de cora e a galera adorna para bombordo.
Os 32 tripulantes depressa iniciam a evacuação e entram na lancha de serviço permanecendo atracados aos mastros do navio até à alvorada. Ainda conseguem recuperar três barris de bolacha, uma pequena quantidade de água e cerca de seis mil das 106.500 moedas de prata que transportavam a bordo. Já se temia o pior quando são avistados pelo Caledonia, um navio norte-americano que os recolhe e leva até Macau.
No território português tratam do chamado 'protesto de naufrágio', documento essencial para apurar as circunstâncias e responsabilidades do acidente, assinado pelo capitão João Joaquim de Freitas em Janeiro de 1817:

"Em Nome de Deos Amen Saibão quantos este Instrumento de traslado em publica forma virem que no anno do Nascimento de Nosso Senhor Jesus Christo de mil oitocentos dezessete aos vinte e cinco dias do mez de Janeiro do anno nesta Cidade do Nome de Deos de Macao na China por João Joaquim de Freitas foy entregue a mim Joze Gabriel Mendez, Tabelião publico de Notas por Sua Magestade Fedelisma, que Deos Guarde hum
 Protesto requerendo me traslade em publica forma o que por mim lhe foy satisfeito. (...)"


Com cerca de três toneladas de prata a bordo equaciona-se tentar a recuperação da carga. A missão era arriscada e sem lucro garantido mas seria concretizada em Março, com a partida do brigue Emília, financiado com as moedas recuperadas pelos náufragos por ordem do ouvidor Arriaga a 17 de Fevereiro de 1817. Na sua missão o Emília nada encontrou na zona do recife de Ningaloo mas a esta viagem viria a ser fundamental para a redescoberta dos destroços quase 200 anos depois.
Esta foi a história que se conheceu durante vários séculos. Até que em 1987 o relato detalhado do piloto Luís Beltrão (a bordo do Emilia) foi comprado num leilão na Índia. Investigado o documento estavam criadas as condições para tentar encontrar o Correio da Ázia, o que veio a acontecer em Abril de 2004 quando uma escavação comprovou a posição do navio e identificou parte importante do lastro de ferro, bem como algumas centenas de moedas de prata (ver imagem).
Sabe-se hoje que já existiam na época cartas náuticas rigorosas que poderiam ter evitado o naufrágio... Mas os tempos eram outros e a distribuição das cartas mais actualizadas era difícil demorando por vezes décadas. Aliás, foram vários os naufrágios ocorridos quer nesta zona.
Zona do naufrágio

José Nunes da Silveira (Madalena do Pico, Açores  24 Junho 1754 - Lisboa, 16 Junho 1833) foi um negociante de grosso trata, armador e político que se destacou como membro da Junta Provisional do Supremo Governo do Reino saída da Revolução Liberal do Porto de 24 de Agosto de 1820. Foi marinheiro, piloto e em seguida capitão e co-proprietário, com o mariense José Inácio de Andrade, de navios da carreira entre Lisboa e Macau.
Com este comércio fez uma fortuna notável, tendo-se estabelecido como comerciante de grosso trato na cidade de Lisboa. No período de 1786 a 1832 Silveira chegou a ter uma frota de 20 navios (brigues, galeras e escunas), treze deles afectos a viagens ao Oriente entre eles o Temerário e o Correio d’Azia.
Jozé, como era escrito na época, chegou a Macau pela primeira vez em 1780. Voltou a Lisboa como capitão do navio «Santa Cruz» em 1785. Volta a Macau em 1786 (o filho, Joaquim Nunes da Silveira, nasceu em Macau nesse ano).
Em 1818 comprou os navios Delfim e Golfinho S. Filipe de Nery para comércio de escravatura (África – Brasil), mas viria a desistir porque um tratado com a Inglaterra proibiu tal negócio.
Na revolução liberal do Porto de 24 de Agosto de 1820, integrou a Junta Provisional do Governo Supremo do Reino. Foi ainda Governador do Reino e fez parte da Junta Preparatória das Cortes, mas não foi eleito deputado, muito provavelmente devido a um ataque apoplético que o deixou meio paralítico. Morreu em Junho de 1754.

domingo, 17 de fevereiro de 2019

Plano Hydrografico e em parte Topografico da Cidade de Macao (1808)

Este "Plano Hydrografico e em parte Topografico da Cidade de Macao levantado por ordem superior por Joaquim Bento da Fonseca em 1808 acompanhado por Plantas exteriores de Fortificações" é um dos raros registos de origem portuguesa do primeiro quartel do século 19.

Nas referências deste "plano" ficamos a saber que foi "Copiado do Autographo", feito em papel com as dimensões 756 x 553 mm. A escala gráf. é de 300 braças = 143 mm.
A legenda apresenta 34 referências e são ainda incluídos os elementos da posição geográfica: latitude, longitude e variação.

O autor, Joaquim Bento da Fonseca nasceu em 1776. Foi Cavaleiro da Ordem de S. Bento de Avis, Capitão de Fragata da Armada Nacional, Governador das Ilhas de S. Tomé e Princípe e professor na Escola Real de Pilotos de Macau, em meados do século 19.
José Marugán y Martín num livro de 1833 "Descripcion geográfica politica estadistica literaria del Reino de Portugal e de los Algarbes" (Vol. 2) descreve assim o autor deste "plano":
"Joaquim Bento da Fonseca profesor y examinador que fue de hidrografia en la escuela Real de Macào. Es autor de un roteiro sobre a navegagdo do mar da China en el cual ha rectificado sobre los mejores mapas modernos muchas faltas que han causado bastantes naufragios en este mar Tambien ha añadido un apéndice muy interesante sobre el comercio entre la costa Nordeste de América y la de la China y ha publicado en RioJaneiro un cuadro sobre los sistemas del mundo donde ha desenvuelto ideas atrevidas"
Na qualidade de Governador de S. Tomé e Príncipe praticou extorsões e arbitrariedades sendo enviado como preso para Portugal. Foi julgado em 1822 pelo Supremo Conselho de Justiça Militar e condenado, além de outras penas, a prisão perpétua no presídio de S. José de Encoge. 
Escreveu, entre outras obras, estas:
- Roteiro sobre a navegação do mar da China. Rio de Janeiro: Imp. Regia, 1819.*
- Prospecto de um roteiro sobre a navegação do mar da China para servir de instrucção nas derrotas contra-monção, etc., Lisboa, 1822
Memoria Hydrographica, contendo reflexões sobre as Viagens dos mais célebres Navegadores, que tem feito o giro do Mundo. E a necessidade de huma nova viagem do mesmo género; com a declaração dos pontos mais notaveis na Hygrographia, que precisão de mais profundo exame, e hum appendice consernente ao resultado das observações, que tiverão lugar na viagem feita recentemente ao Polo Boreal. Lisboa: Typographia Lacerdina, 1824.
* Abordarei este tema muito em breve.

sábado, 16 de fevereiro de 2019

Um 'lapso' na Porta do Cerco

Na década de 1990 aquando de obras de restauro da Porta do Cerco 'saiu' esta frase "Honrai a pátria que a pátria vos contempla" em vez de... "A pátria honrai que a pátria vos contempla". Esta é a versão correcta e é a divisa da Marinha Portuguesa desde 1863 ano em que por ofício real é mandada afixar em todos os navios da Marinha de Guerra. Ainda hoje se mantém. Tratou-se de um 'lapso' grave mas que entretanto foi corrigido.
Portaria de 31 de Março de 1863:
“Manda sua Magestade El-Rei declarar ao Conselheiro, inspector do Arsenal de Marinha, que sendo muito conveniente estimular por todos os modos os brios patrióticos e os nobres sentimentos, há por bem ordenar que imediatamente faça aprontar e assentar, nos navios  que tenham tombadilho no vau deste, e nos outros, no ponto mais visível da tolda, a seguinte inscrição em letras de metal  bem visíveis “A PATRIA HONRAI QUE A PATRIA VOS CONTEMPLA” o que, pela Secretaria  d`Estado dos negócios da Marinha e Ultramar, se comunica o citado inspector para sua inteligência  e devidos efeitos.
Paço, 20 de Março de 1863 - José da Silva Mendes Leal”.
A localização da Porta do Cerco num mapa de 1834
Em 1574 foi levantada a Porta do Cerco. Os chineses receavam que os portugueses saqueassem o seu território e resolveram defender-se. Era aberta duas vezes por mês para que se procedesse à entrada e saída de bens. Tinha na sua parte superior residências para os guardas chineses. Anos mais tarde ruiu e foi reconstruída em 1674 ficando as residências num edifício anexo.
É aqui, nesta fronteira, que Macau se liga à China - 'por um cordão umbilical' chamado istmo da península. Até à década de 1980 passava-se literalmente por baixo deste arco para passar a fronteira. Hoje já não. Ainda assim, o monumento ainda existe e é considerado Património Mundial da Unesco.

quinta-feira, 14 de fevereiro de 2019

"A Estética da Cidade" por MSM em 1915

“As obras públicas nesta colónia têm tido por objectivo principal o embelezamento da cidade. Nisto têm sido dispendidas nos últimos dez anos algumas centenas de milhares de patacas. De facto, a cidade, sob certos respeitos, está melhor do que antes do começo desse período. Todavia deve reconhecer-se que, sob o ponto de vista estético, nada se tem adiantado. Um passeio pelas ruas da cidade revela completa ausência de sentimento artístico tanto nas obras dos particulares como nas obras do Estado.
Dantes, ainda havia bom número de prédios, principalmente no estilo chinês, em que se podia notar, se não requinte de arte, pelo menos qualidades de bom gosto. Havia também alguns edifícios em estilo europeu que, embora não fossem grandiosos, eram de aparência decente, agradável. Havia mesmo alguns em que se via reproduzida, tão longe de Portugal, a feição das antigas casas portuguesas: pátio, escadaria externa de granito, salão e ao lado o quarto.
Tudo ou quase tudo isso foi abaixo; e o que em vez disso (que era alguma coisa de interessante e característico) se construiu, é uma fancaria que repugna ao mais elementar senso estético. Alguma coisa que ainda há de bom, alguma coisa decente que resta, foi o que escapou ao camartelo demolidor. 
Veio primeiramente, com ares de importância, um arremedo de estilo ‘renascença’ – a maior parte destas fachadas em arcaria, construídas com materiais impróprios e com um acabamento de barraca de feira. Tinham ainda assim as primeiras construções linhas correctas; pouco a pouco, porém, nem correcção de linhas, nem materiais adequados, nem sofrível acabamento: a mais banal fancaria.
O estilo chinês não degenerou menos. Para se darem ares de europeizados, os proprietários chineses foram abandonando pouco a pouco o seu antigo estilo, construindo habitações que nem são europeias nem chinesas. Há ainda quem se lembre da completa separação em que viviam dantes os europeus ou macaístas e os chineses. Podiam estes ter criado um novo estilo arquitectónico ou ter ao menos fundido harmoniosamente os elementos do estilo chinês com algum dos tipos ou estilos europeus. Não fizeram, porém, nada disso; fizeram o que aí se vê: construções sem arte, sem gosto, sem comodidades.  Não lhes era, de resto, fácil encontrar satisfatória solução. Dos europeus, que não sabiam construir nem manifestavam senso artístico no que construíam, não lhes podia vir exemplo nem educação. Por si, pouco ou nada podiam fazer, pois que na China nunca foi permitido alterar o tipo ancestral de construção e não tinham, por isso, em si os estímulos que sempre são necessários ao desenvolvimento artístico ou à criação de novas formas.
Este descalabro podia tê-lo evitado o Estado, dando o exemplo e ministrando a necessária instrução. Mas o Estado, que pela sua Direcção de Obras Públicas para si nunca conseguiu obter coisa que fosse digna de ver-se, nenhuma acção, a não ser negativa, exerceu sobre o espírito público. Edifícios do Estado, os de melhor construção e de melhor aparência, foram adquiridos de particulares.

A Direcção das Obras Públicas e um Conselho, por ironia denominado Técnico, tem exercido a atribuição de aprovar ou rejeitar os projectos de construções e de fiscalizar a execução de toda essa moderna fancaria predial que a cidade apresenta a quem a visita. Triste papel ambos têm feito!
Cadeirinhas na Praia Grande ca. 1900/1910
Em países adiantados não se procede assim. Ninguém é obrigado a fazer obras primas ou mesmo obras de arte; mas a ninguém é permitido levantar edificações que ofendam o senso estético do público. Exteriormente, nas fachadas que olham para as ruas, exige-se pelo menos correcção de linhas, emprego de materiais adequados ao tipo da construção e acabamento correspondente à importância da obra.
Interiormente, respeitados os preceitos da higiene, tolera-se que construa cada qual como pode ou como quer. Nesta parte governa somente o gosto, o interesse ou a conveniência do proprietário. Exteriormente, não; exteriormente o prédio é, até certo ponto, público e deve, por isso, ser construído de modo que não ofenda o senso estético comum.
Em todos os países civilizados as cidades são consideradas como valores sociais; e, assim, a sociedade tem o direito de, por intermédio de quem a representa, fiscalizar estes valores. Daí a existência de regulamentos para as construções ou edifícios dos particulares.
O regulamento de Macau é de recente data, mas, sob este ponto de vista, inteiramente deficiente. Poderiam até certo ponto completá-lo as entidades às quais a lei confere as atribuições de aprovar os planos das construções; nada têm feito, porém, a tal respeito. A composição do conselho técnico é tal, que não se ofenderia a maioria dos seus membros se, em vez de técnico, se lhe chamasse acrobático ou musical.
Por isso aí está a cidade desvalorizada, sem meia dúzia de edifícios que sejam dignos de ser vistos. Tem-se dito que entra nos planos da administração pública fazer de Macau uma cidade atraente de modo a ser procurada por turistas. Se assim é, não o parece; ou então conta-se que sejam pretos os turistas…

O mal que está feito, feito está. Daqui em diante, porém, poder-se-ia mudar de orientação. Há novas avenidas a abrir: que ao menos nessas se não tolere a construção de prédios que envergonhem a cidade; e quanto ao pouco de aceitável que resta ainda do muito que se tem demolido, que se não permitam alterações para pior. Bem sabemos que quase ninguém entre nós olha para estas coisas; mas olham os outros, os de fora, os mais civilizados; e não nos pode ser agradável que se diga e se escreva, como de facto se diz e se escreve, que Macau, como cidade, a não ser certas ruínas, nada vale.”
Artigo da autoria de Manuel da Silva Mendes publicado no jornal O Progresso 17.1.1915
Informação incluída num anuário de 1912 testemunho das múltiplas atividades de Manuel da Silva Mendes (1867-1931) em Macau: bacharel (advogado) com escritório no nº 25 da rua da Estrada da Flora; reitor interino do Liceu; professor do Liceu (português e latim); director do Curso Commercial anexado ao Liceu; membro do Conselho de Instrução Pública.

quarta-feira, 13 de fevereiro de 2019

A sepultura de S. Francisco Xavier

"IHS. Aqui foi sepultado S. Francisco Xavier da Companhia de Jesus. Apóstolo do Oriente. Este padrão se levantou no anno 1639." "O padrão tem de altura 6 covados chinas pouco mais ou menos. De largura dois, de grossura 4 pontos." 
Foi mandado erguer pelo padre Gaspar de Amaral com "lettras sínicas e portuguezas" segundo explica o padre Francisco António Cardim no livro de 1894 "Batalhas da Companhia de Jesus", na ilha de Shangchuan (perto de Macau) à época conhecida por Sanchoam/Sanchoão.
Para se perceber a origem do nome é preciso recuar a 1557, quando António de Santa Fé, o catequista chinês que assistiu à morte de Xavier, chamou à ilha, pela primeira vez, Sanchoão. 
De facto trata-se de um pequeno arquipélago composto por três ilhas... Ora em chinês (cantonense) Sam significa três e Choa quer dizer ilhas.
S. Francisco Xavier morreu a 5 de Dezembro de 1552 sendo enterrado num caixão de madeira de acordo com as práticas chinesas. Dois meses e meio depois foi transportado para Malaca. Em Dezembro de 1553 foi transportado para Goa. Colocado no caixão de prata ficou o seu corpo exposto à veneração dos fiéis a partir de 1624 na capela de S. Francisco de Borja. Actualmente o túmulo está na igreja do Bom Jesus de Goa.
Foi beatificado, com o nome Francisco de Xavier pelo Papa Paulo V a 25 de Outubro de 1619 e canonizado pelo Papa Gregório XV a 12 de Março de 1622, em simultâneo com Inácio de Loyola. A 14 de Dezembro de 1927 o Papa Pio XI proclamou Francisco Xavier, juntamente com Santa Teresinha do Menino Jesus, padroeiro universal das missões. 
A veneração do seu túmulo começou logo após a morte. Testemunhos de 1556 garantem que o seu corpo - não obstante o corpo ter sido coberto de cal viva para acelerar o processo de decomposição logo após a morte - se apresentava incorrupto e de bom odor vertendo constantemente sangue e água fresca.

A partir de Macau foram feitas várias romagens anuais à ilha. Na publicação "Archivo Pittoresco, semanario illustrado, Vol VIII, 8º ano, nº 24, 1865" pode ler-se:
 "Era pela meia noite do dia 19 de novembro de 1864, quando o vapor Hankow, levando a bordo cento e trinta romeiros, pouco mais ou menos, no meio dos signaes da mais expansiva alegria, sulcava as aguas da hahia de Macau, e dobrando a ponta de Ka-hó, se dirigia á desejada ilha de Sanchoão. (...) Ao desembarcar encontrámos um china, o qual, perguntado se sabia da sepultura de um santo europeo ahi enterrado, havia 300 annos, respondeu-nos que existia, a pouca distancia do logar onde estavamos, uma sepultura que tinha uma lapida com uma inscripção européa. Offereceu-se-lhe uma remuneração, se elle quizesse mostrar aquelle sitio, ao que promptamente annuiu. Depois de andar alguns minutos pela praia, chegamos ás faldas de um oiteiro sobranceiro ao mar, do lado de N. E., que fecha d'aquelle lado a bahia. Subimos pela encosta, e a uma altura de 40 a 50 metros acima da praia, parou o nosso guia, e indicou-nos um logar, a pequena distancia, onde se divisava, por entre pandóes (certas cannas ou plantas), uma lapida. Ahi corremos logo, e vimos que essa pedra era o padrão levantado em 1639, pelos jesuitas, em memoria de S. Francisco Xavier. Imaginem qual não seria a nossa alegria quando tivemos a certeza de ter encontrado a sepultura do santo!... O padrão estava quasi em posição vertical. Na parte dianteira, por ser mais exposta á intemperie do tempo, apenas podémos decifrar a data em china, emquanto que, no reverso do padrão, a inscripção em portuguez era perfeitamente legivel. (...)
Há ainda registo de uma lápide em mármore mandada fazer pelo padre Rondina em 1864.
Na ilha de Shangchuan foi construída uma pequena capela no local onde S. Francisco Xavier morreu - desenhada por Achille-Antoine Hermitte em 1869. Também foi construída uma estátua. Nesse ano, foi ali colocada a chamada Cruz dos Macaenses com a seguinte inscrição:“Em cima, verticalmente, dois caracteres chineses (?) ilegíveis, com a ideia talvez de “dedicaram”. Frontalmente: “S. P. Francisco Xaverio” e, na vertical mais longua, de alto para baixo: “macaenses die 3 de anno 1869”.
Capela de S. Francisco Xavier e casa do sacristão, na ilha de Shangchuan.
Década 1930. Espólio Monsenhor Manuel Teixeira

Imagem do século XX

Sugestão de leitura: “Xavier em Sanchoão. A Ilha de Sanchoão ontem e hoje." 

Macau, 1994, de Benjamim Videira Pires.
São Francisco Xavier (1506-1552) foi um jesuíta que ficou conhecido como o “Apóstolo do Oriente” devido ao seu papel como missionário no Oriente.
Nasceu em Navarra a 7 de Abril de 1506 e na juventude conviveu com Santo Inácio de Loyola com quem viria a funda a Companhia de Jesus.
Frequentou a Universidade de Paris onde se tornou mestre em artes e posteriormente estudou teologia. Foi ordenado sacerdote em Veneza em 1537.
A pedido de D. João III que solicitara aos jesuítas o envio de missionários para o Oriente foi para Portugal onde chegou em 1540.
Parte para a Índia nesse ano chegando a Goa em 1542. Em 1547 está em Malaca quando se encontro com Fernão Mendes Pinto que regressava do Japão. Em 1549 parte para o Japão passando por Macau e Cantão.
Chegou à costa do Japão a 27 de Julho de 1549 sendo autorizado a desembarcar a 5 de Agosto em Kagoshima, um porto da ilha de Kyushu.
Em 1552, quando negociava com as autoridades chinesas uma entrada na China para acções de missionação foi atacado de febres e morreu.
Curiosidades:
- No Padrão dos Descobrimentos, em Lisboa, está uma efígie de S. Francisco Xavier.
- Na ilha de Coloane (Macau) existe uma capela dedicada a S. Francisco Xavier. Construída em 1928, é dedicado ao padroeiro dos missionários e um dos padroeiros da Diocese de Macau. No interior, encontra-se uma imagem do Santo e uma pintura que representa a versão chinesa da Virgem Maria com o Menino Jesus. Chegou a albergar relíquias de S. Francisco Xavier (um osso do úmero do braço direito num relicário de prata) e ossadas de mártires portugueses e japoneses mortos em Nagasáqui, durante as perseguições no ano de 1597, e de mártires vietnamitas do séc.XIX. Este osso destinava-se originalmente ao Japão mas as perseguições religiosas fizeram com que estivesse muitos anos guardado na igreja Mater Dei (vulgo S. Paulo) em Macau. Actualmente está na igreja de S. José (imagem abaixo) existindo ainda outros materiais no Museu de Arte-Sacra de Macau.

terça-feira, 12 de fevereiro de 2019

Madre Adolfa Rosa (1925-2019)

O Colégio de Santa Rosa de Lima* começou por ser uma casa de acolhimento de meninas órfãs. No período que se seguiu ao final da segunda guerra mundial passou a aceitar rapazes até à então chamada "quarta classe".
No jardim de infância e na instrução primária eram várias as madres que assumiam a função de professoras tendo educado centenas de portugueses e/ou macaenses. Entre as que mais se destacaram nesse papel figuram os nomes da Madre Pia e da Madre Adolfa Rosa, que morreu esta semana em Macau aos 94 anos.
* Isabel Flores y Oliva, ficou conhecida como Santa Rosa de Lima, mística da Ordem Terceira Dominicana, foi canonizada pelo Papa Clemente X em 1671 e a primeira santa nativa da América e padroeira do Perú.
O edifício anterior ao mostrado em cima numa foto de ca. 1900 por Man Fook
Breve história:
Segundo o Boletim Informativo "Macau" de 1956:
“Os estatutos e regulamento para o Colégio de Santa Rosa de Lima como casa de educação para o sexo feminino, foram publicados em 1875 pelo governador José Maria Lobo d´Ávila (portaria n.º 23 de 18-02-1875) após a extinção do mosteiro de Santa Clara.
O ensino ministrado nesse colégio era o elementar, ou instrução secundária que compreendia: línguas portuguesa, francesa e inglesa; história sagrada; desenho; música de canto e piano; educação física; higiene e economia doméstica. A pedido do bispo D. António Joaquim de Medeiros, as Irmãs Canossianas tomaram conta desse Colégio em 1889, dirigindo-o até 1903.
Convidadas pelo bispo D. João Paulino de Azevedo e Castro, as Franciscanas chegaram a Macau a 17 de Novembro de 1903, instalando-se no Mosteiro de Santa Clara e tomando a direcção do Colégio. Ambos os edifícios lhes foram cedidos pelo Governo juntamente com os bens do antigo Mosteiro e do antigo Recolhimento de S. Rosa de Lima (o recolhimento fechou em 1875 após o falecimento da última clarissa).
A 30 de Novembro de 1910, o Governo ordenou a saída das Franciscanas do Colégio, o qual era então frequentado por 130 alunas de diferentes nacionalidades, sendo muito delas internas. A escola foi confiada a pessoal leigo a 7 de Janeiro de 1911, ficando reduzida a 40 alunas.
A 10 de Dezembro de 1911, foi arrendado o edifício do antigo Mosteiro de Santa Clara para aquartelamento e tropas expedicionárias, determinando-se que o Colégio de S. Rosa de Lima passasse para outro edifício particular; felizmente esta medida não pegou, continuando o colégio sob a direcção de pessoal leigo. Em 1932, voltaram as Franciscanas a dirigir o Colégio. A secção chinesa iniciou-se em 1933." 
Em 1975 o curso de inglês passou para a Escola Matutina. A instrução primária em língua portuguesa funcionou até 1999.


segunda-feira, 11 de fevereiro de 2019

Novas obras de Lio Man Cheong

Lio Man Cheong, um dos mais conceituados pintores da actualidade em Macau, elaborou recentemente uma série de novos trabalhos - aguarelas - dedicada à indústria dos panchões. Outrora foi uma das mais significativas no território mas hoje desaparecida resta apenas uma fábrica desactivada,  a Iec Long, na Taipa.
Nascido em 1951 em Zhuhai (China), Lio Man Cheong vive em Macau desde criança (chegou com 10 anos). Começou a expor o seus trabalhos na década de 1970. Do seu currículo faz ainda parte - até à década de 1990 - a elaboração dos anúncios de grandes dimensões usados pelos cinemas locais para anunciar os filmes em exibição.
Sugestão: 
Curta-metragem "Iec Long", de João Pedro Rodrigues e João Rui Guerra da Mata.
Short film "Iec Long" by João Pedro Rodrigues and João Rui Guerra da Mata.
"For Iec Long, we worked with real elements: archival imagery, historical documents, anthropological and cultural research... But first and foremost we're storytellers, we work from within our own experience. On one hand, documentaries continue to play an important role on defining, exposing and transforming social realities, but on the other hand, we find storytelling through image and text most riveting when films, which may incorporate the essential qualities of traditional documentaries, are not fully objective and neutral. And don't fully transmit the truth, because the idea of an inherent truth is in itself a fallacy.." 
The directors JPR and JRGM.
O processo de produção tinha mais de uma dezena de fases, muitas delas em modo artesanal e num contexto de condições precárias em que jovens mulheres e crianças trabalhavam manuseavam o material explosivo como forma de sustentar as famílias.


domingo, 10 de fevereiro de 2019

Two Years in China: Narrative of the Chinese Expedition

"Two years in China: narrative of the Chinese expedition, from its formation in April 1840, till April 1842; with an appendix, containing the most important of the general orders & despatches published during the above period" é um livro da autoria de Duncan McPherson MD (médico). Edição Saunders and Otley, 1842 .
O livro aborda o período de Abril de 1840 a Agosto de 1842, relativo à 1ª Guerra do Ópio (1839-1842) que terminou com a assinatura de um tratado de paz, o Tratado de Nanqing (Nanjing), a 29 de Agosto de 1842, entre as autoridades britânicas e o imperador chinês.
Duncan testemunhou os acontecimentos destes anos enquanto cirurgião integrado na "37th Madras Native Infantry", um dos vários regimentos de infantaria que sob comando de oficiais britânicos e constituído por soldados indianos defendia da presença dos britânicos na Índia e os interesses da Companhia Britânica da Índia Oriental que praticamente controlava o comércio entre a Ásia e o Ocidente.
Excerto do cap. 6 relativo a Macau:
This city as has already been remarked is built on the peninsula of an island called by the Chinese Gowman. The extreme breadth of the Portuguese settlement is about three quarters of a mile and its length three miles. The chief beauty of the town consists in a long line of well built houses on the beach with a broad walk in front called the Pria Grande. On the heights above the town forts are built which certainly have the appearance of strength from without but a glance into the interior which the Portuguese are not fond of granting will at once convince the most superficial observer that they would soon yield even to a small nine pounder battery.
True there are large guns in their forts but like those of the Chinese they have vent holes large enough to allow the thumb to enter and their gun carriages would certainly tumble to pieces in the first fire. The British merchants are the sole prop and support of the town independent of the maney circulated by them two thirds of the revenue is derived from a tax levied upon their goods and property. The Chinese authorities exercise supreme sway over the city. In a few hours they have the power of stopping all supplies not a house can be built nay even a door cannot be made to communicate between one house and another without first obtaining the permission of the resident mandarin to do so Robberies and assaults are of common occurrence in the city but no redress can be obtained the Portuguese hand the party over to the Chinese authorities who in return refer them to the Portuguese.
The majority of the Portuguese inhabitants are the most miserable looking beings possible. From constant intermarriages with the Chinese it is with difficulty that the natives of the two separate countries can be distinguished and with the exception of the governor and his staff there is not one family with whom the English associate.
Litogravura meados século 19
There are about three hundred soldiers in the town all of whom originally came from Goa and other Portuguese settlements in India. They are respectful and well dressed The pay their officers receive appears miserably small in our estimation though they themselves live very comfortably on it. An ensign receives eight dollars a lieutenant ten and a captain twenty dollars a month besides perquisites. The greatest attraction in Macao is Mr Beale's aviary where the noble bird of paradise is seen This bird has been in Mr Beale's possession for upwards of twenty years Another place worth visiting is Camoens Cave It is situated in the centre of a large garden and is formed by several immense piles of granite rocks thrown as if casually together a large hollow space being left in the centre It was here that Camoens composed the Lusiades An inscription over his tomb denotes that he was born in 1524 and died in 1579.

sábado, 9 de fevereiro de 2019

Digressão à China do SCP no Verão de 1978

A propósito do post de ontem relativo ao reatamento das relações diplomáticas entre Portugal e China em Fevereiro de 1979, recordo um outro acontecimento que serviu para 'relançar' essas relações diplomáticas: Refiro-me à digressão do Sporting Clube de Portugal* à China, iniciada a 25 de Junho de 1978, a primeira viagem de uma equipa de futebol europeia àquele país.
Para além dos jogadores e equipa técnica, a comitiva integrava João Rocha, presidente do Sporting Clube de Portugal; Veiga Simão, na qualidade de consultor da missão e de ex-embaixador de Portugal na ONU, responsável pelos primeiros contactos pós-25 de Abril com os diplomatas chineses acreditados junto da sede da ONU, em Nova Iorque; e Carlos Ricardo, primeiro-secretário da Associação Democrática de Amizade Portugal-China. Para Carlos Ricardo esta digressão transcendeu "o âmbito desportivo para se fixar no objectivo de uma maior aproximação entre os dois povos".
A digressão ocorreu entre os dias 27 de junho e 10 de Julho de 1978. O jogo entre a selecção de China e o SCP ocorreu a 30 de Junho. Cerca de 100 mil chineses viram no Campo dos Operários em Pequim a equipa portuguesa ganhar por 2-0.
* o SCP tinha uma filial em Macau criada em 1926.

O evento na imprensa portuguesa da época. (clicar para ver em tamanho maior)
João Rocha, chefe da delegação desportiva, levava consigo uma mensagem escrita do primeiro-ministro Mário Soares e do Presidente da República, Ramalho Eanes, para o governo chinês. A delegação foi recebida pelo vice-primeiro-ministro da China e o governador militar da província de Pequim, Marechal Ten Xie Lie
A digressão revelou-se um sucesso mas em Portugal o 2º governo constitucional acaba por ser exonerado a 27 de Julho e o que fora alcançado por via da diplomacia e do desporto teve de ser adiado por mais alguns meses.
Entretanto a China deu outros sinais de empenho: convidou  - foi o primeiro convite do género desde 1950 - o governador de Macau (Garcia Leandro) para as comemorações do 29 º aniversário da fundação da República Popular da China (a 1 de Outubro), celebrou-se um acordo de cooperação entre a Agência Noticiosa Portuguesa (ANOP) e a homólogo chinesa, a Xinhua; e um jornalista português foi convidado a visitar a China. Gonçalo César de Sá foi o jornalista e recordou assim essa viagem num artigo publicado na revista Nam Van, n.º 13 (1.6.1985): “Quando em Novembro de 1978, como convidado da agência noticiosa Nova China, fui recebido em Pequim pelo vice-ministro dos Negócios Estrangeiros, Yu Zhan, era-me dado o primeiro sinal público de que o estabelecimento das relações diplomáticas com Portugal estava iminente."
Com a devida vénia reproduzo parte do Diário (secreto) de Pequim, da autoria de António Graça de Abreu sobre esta visita e que vivia em Pequim na altura:
Depois de vencer o Porto por 2-1, na final da Taça de Portugal aí veio a rapaziada verde a caminho de Pequim. Trouxeram uma grande comitiva, 41 personagens entre jogadores, dois árbitros, fotógrafos, jornalistas e figuras públicas. Como não há ainda relações diplomáticas, foi o PCP (m-l), único partido reconhecido pelo PC chinês, quem mexeu os cordelinhos para a concretização da viagem e, para dar sequência ao trabalho, cá estão os militantes Carlos Ricardo e Mourato Costa, meus amigos nas lides partidárias em Lisboa, com o disfarce de serem dirigentes da ADAPC (Associação Democrática de Amizade Portugal-China). O Eduíno Gomes (Vilar), secretário-geral do PCP (m-l), também é um grande sportinguista. Tudo tem funcionado quase na perfeição. Veio também o Veiga Simão, antigo ministro da Educação de Marcelo Caetano e ex-embaixador na ONU e hoje próximo do PS, como uma espécie de chefe da delegação desportiva, mas com uma missão política semi-secreta, a de entregar uma carta do nosso presidente Ramalho Eanes endereçada ao Hua Guofeng ou ao Deng Xiaoping saudando os homens mais poderosos da China e solicitando os bons ofícios de ambos para o rápido restabelecimento das relações diplomáticas.
O futebol foi divertido, uma vitória de 2 a 0 sobre a selecção da China e um empate 0 a 0 com a equipa de Pequim. Os chineses já dão uns bons chutos na bola e gostei de ver o Estádio dos Operários de Pequim cheio como um ovo, eram mais de 100 mil chineses entusiasmados, a aplaudir. No fim do segundo jogo tive a sorte de regressar do estádio para o hotel Pequim — onde os jogadores e comitiva estão alojados –, viajando no autocarro juntamente com os craques verdes, o Manuel Fernandes, o Inácio, o Laranjeira, o Artur, o Jordão (que chegou de canadianas à China, por estar em recuperação de uma perna partida).
O presidente João Rocha, que percebeu viver eu em Pequim, veio, em privado, fazer-me uma pergunta singular. Queria saber onde poderia comprar uns pós chineses, milagrosos, que faziam maravilhas no revigoramento sexual masculino. Não era para ele, tinha sido o pedido de um amigo. Eu até pensei que poderia ser para dar aos jogadores que assim ocupariam melhor os tempos livres. Creio que se tratava de uma mezinha explosiva elaborada a partir de corno de rinoceronte, produto caro, às vezes falsificado, de facto à venda em farmácias de medicina tradicional chinesa, mas eu não era especialista na matéria. Disse ao João Rocha para falar com os intérpretes da comitiva, eles próprios poderiam tratar da compra da droga benfazeja. Ignoro qual foi o resultado.
No estádio dos operários toda a equipa do Sporting foi recebida e cumprimentada pelo general Chen Xilian (1915-1999), um velho combatente da guerra contra o Guomindang de Chiang Kai-shek (participou na Longa Marcha!) e contra os japoneses, hoje membro do Politburo do Partido Comunista da China, comandante militar de Pequim e um dos vice-primeiros ministros. Tudo isto é sinal da importância que os chineses deram à visita do Sporting, alargando a via que conduzirá em breve ao estabelecimento das relações diplomáticas."
Excerto de notícia da Agência Lusa de 4.2.2019 com declarações de um dos jogadores do SCP que participou na digressão à China.
"Todos olhavam para nós: trazíamos roupas coloridas, cada um tinha o seu estilo, enquanto [os chineses] pareciam todos iguais", descreve assim, o ex-futebolista, Pequim no verão de 1978. Portugal e China não tinham ainda relações diplomáticas, mas quatro anos antes, a Revolução dos Cravos tinha derrubado o regime fascista do Estado Novo, tornando inevitável a aproximação ao país asiático, que se começava então a libertar da ortodoxia maoísta."Nós tínhamos acabado de sair do fascismo, e viemos para um país que era do mais puro socialismo que existia. O mais igualitário que havia", recorda Onofre à agência Lusa. "Roupa, cortes de cabelo, todos de bicicleta; era igual para toda a gente: homens ou mulheres", realça.
A Revolução Cultural (1966-76), radical campanha política de massas lançada pelo fundador da China comunista, Mao Zedong, estava ainda fresca. Durante aquela década de caos, dezenas de milhões de pessoas foram perseguidas, presas e torturadas, sob a acusação de serem "revisionistas", "reacionárias" ou "inimigos de classe", forçando a sociedade chinesa a uma homogeneidade quase absoluta.
A digressão do SCP foi promovida pela Associação Democrática de Amizade Portugal-China, uma organização criada pelo Partido Comunista de Portugal (Marxista-Leninista), o único grupo político português reconhecido então pelo Governo chinês.
Um alto funcionário chinês comparou então o Sporting com a equipa de pingue-pongue americana que foi a Pequim em 1971, abrindo caminho à histórica viagem do presidente Richard Nixon à China, em fevereiro do ano seguinte.
"Os americanos, que jogaram com uma bola pequena, abriram uma pequena porta. Os portugueses jogaram com uma grande bola e abriram uma porta grande", disse o presidente da Associação Chinesa de Amizade com os Países Estrangeiros, Wang Bingnan. O Sporting, que acabara de ganhar a Taça de Portugal, frente ao FC Porto, venceu a seleção chinesa por 2-0 e nos dois outros jogos que disputou na China, ganhou um e empatou outro.
O futebol chinês era ainda uma modalidade amadora e a seleção do país, que não estava sequer inscrita na FIFA, era composta sobretudo por operários.
"Primeiro a Amizade, Depois a Competição", era, aliás, o lema que regia o desporto na China. Ainda assim, "os jogadores chineses corriam sempre atrás da bola" e "davam trabalho exatamente por isso", descreve Onofre, que recorda a viagem, desde Portugal, como uma "aventura". "Saímos ao meio-dia de domingo de Lisboa, chegamos aqui na terça-feira: foram três ou quatro paragens. Na altura tivemos que contornar o Vietname [a guerra tinha acabado poucos anos antes], não podíamos sobrevoar", revela.
O antigo jogador lembra-se de visitar a Muralha da China e o Palácio de Verão, dois ex-libris da China, mas o que mais o impressionou foi a paisagem humana.
"No final dos turnos, na avenida junto à praça Tiananmen, eram milhões de pessoas a sair das fábricas de bicicleta. E havia um outro carro que tinha que se desviar, porque eles iam direitos, naquela tranquilidade deles", conta.
A entrevista à Lusa decorreu em Pequim, para onde Onofre regressou, no ano passado, agora como treinador de futebol numa escola pública da capital chinesa. A pobre e isolada China que o português conheceu no verão de 1978 converteu-se, entretanto, na segunda maior economia do mundo, alargando a classe média em centenas de milhões de pessoas, num ritmo sem paralelo na História moderna. (...)

sexta-feira, 8 de fevereiro de 2019

Bastidores da diplomacia em torno de Macau

A 8 de Fevereiro de 1979, ao fim de quatro décadas de costas voltadas (desde a subido ao poder do Partido Comunista em 1949) Portuga e República Popular da China restabeleceram relações diplomáticas. O dia não podia ser mais auspicioso, já que na China o número 8 representa muito mais do que um algarismo. Foneticamente a pronúncia da palavra remete para uma outra em chinês, "prosperidade". Acresce que por via disso o 8 é considerado um dos números mais afortunados na numerologia chinesa.
Esse reatar de laços diplomáticos entre dois países que tinham comum Macau há vários séculos dar-se-ia em Paris (8.2.1979 - foto em baixo) quando os embaixadores português, António Coimbra Martins, e chinês, Han Kehua, assinaram o comunicado conjunto sobre o estabelecimento de relações diplomáticas e a chamada "acta das conversações sobre a questão de Macau".
Portugal acabara de ver implantada a democracia pelo que a turbulência política e social era ainda muito forte.  Recorde-se que só a 6 de Janeiro de 1975, Portugal reconheceu o governo da República Popular da China...
Três anos depois, em Janeiro de 1978,  o embaixador chinês em França aborda o homólogo português e propõe que os dois "fossem habilitados a convir nos termos do protocolo oficial que precederia e determinaria a troca de embaixadores, sendo aplanadas as divergências que pudessem surgir." Lisboa acaba por aceitar mas pouco depois cai o primeiro governo constitucional...
Em Junho de 1978 o Conselho de Ministros define Macau como território chinês sob administração portuguesa e a 10 de junho Han Kehua (1919-2013) surge, pela primeira vez, na recepção organizada pela embaixada de Portugal para assinalar o Dia de Portugal.
Segundo António Coimbra Martins (ACM), Macau, um "problema legado pela História (...) deveria ter uma solução apropriada" que passaria por um acordo entre ambas as partes quanto ao princípio da retrocessão ao estabelecerem-se as relações diplomáticas.
O documento viria a chamar-se "ata secreta", ou "ata das conversações havidas em Paris".
Os anos que se seguiram ficariam marcados por muitos episódios complicados... Portugal teve quatro governos entre 23 de Julho de 1976 e 7 de Julho de 1979), um documento que estava a ser negociados pela diplomacia saiu nos jornais... Do lado chinês a instabilidade era vista de lado, mas ACM realça o empenho de Kehua e a sua "constante disponibilidade para a fazermos vingar, o seu caráter determinado e paciente, a sua cordialidade para comigo e a sua simpática sensibilidade ao ponto de vista português".
Ultrapassadas a dificuldades acerta-se a data de 8 de Janeiro de 1979 para assinar os protocolos. Portugal pede alterações ao texto, Pequim acede mas só em alguns pontos. Freitas Cruz, Ministro dos Negócios Estrangeiros de Portugal tem mesmo de ir a Paris. 8 de Fevereiro de 1979 é a nova data agendada e assim foi.
Em Maio de 1985, no decurso de uma visita do Presidente da República Ramalho Eanes a Pequim, a China informou Portugal que desejava abrir negociações para discutir o estatuto de Macau. Em Abril de 1987 os dois países assinam a denominada "Declaração Conjunta", a que se segue um processo de transição que terminaria com a cerimónia da transferência de soberania a 20 de dezembro de 1999.
Feita esta contextualização reproduzo um excerto de um artigo da autoria de Bárbara Reis publicado no jornal Público a 30.4.2017 (excepto imagem e respectiva legenda).
O antigo Hospital de S. Rafael (esq.) tornou-se após 1999 o consulado de Portugal em Macau e o antigo hotel Boa Vista (dta.) passou a residência do cônsul de Portugal em Macau e Hong Kong. Únicos dois espaços considerados actualmente 'território' português.

«As negociações sobre a transferência de Macau duraram nove meses e, para Augusto Santos Silva, são “um marco na história diplomática de Portugal”. E ajudaram, 30 anos depois, a eleger António Guterres secretário-geral das Nações Unidas. Tudo podia correr mal. Era essa a convicção do lado português quando, a 30 de Junho de 1986, começaram as negociações com a China para discutir a transferência de poderes de Macau.
Portugal perdera o “hábito de contactar as autoridades da China”, lembrou há dias João de Deus Ramos, um dos diplomatas que integraram a delegação portuguesa. E além disso as posições de ambos eram muito distantes, havia pouco tempo para negociar e o “posicionamento emocional era o oposto: a China ia ganhar um novo território e Portugal ia perdê-lo”.
Entre a chegada ao poder de Mao Tsetung na China (1949) e o 25 de Abril em Portugal (1974) as relações diplomáticas estiveram cortadas. E mesmo após o fim do Estado Novo, foram precisos cinco anos para Lisboa abrir a sua primeira embaixada em Pequim. Era tal o afastamento que, nos correios, ninguém sabia onde era Putaoya (Portugal em mandarim) e alguns telegramas diplomáticos foram para o lixo.
A primeira coisa a fazer era estudar. “Entre 1979 e 1985, quando o Presidente Ramalho Eanes visita a China, a nossa aprendizagem é muito lenta”, contou o diplomata numa conferência no Museu Oriente sobre a assinatura, faz hoje 30 anos, da Declaração Conjunta Luso-Chinesa sobre o Futuro de Macau, que estabeleceu os termos da transferência de soberania do território. É nessa visita que Pequim diz formalmente que quer iniciar as negociações. Em Portugal, onde a opinião pública é apanhada de surpresa, o Governo começa a preparar-se. O embaixador Rui Medina (1925-2012) é escolhido para chefiar a delegação, que inclui, além de João de Deus Ramos, Nuno Lorena, cônsul-geral em Hong Kong, José Henriques de Jesus (delegado do primeiro-ministro Cavaco Silva) e Carlos Gaspar (delegado do Presidente Mário Soares). Octávio Neto Valério, embaixador de Portugal em Pequim, era consultor, e António Vitorino, então secretário-adjunto do governador de Macau, estava no backoffice para o trabalho jurídico.
Os "velhos amigos" e outros truques
“É nessa altura que o Rui Medina traz livros, pareceres do arquivo do ministério e um opúsculo sobre as tácticas negociais chinesas”, conta João de Deus Ramos. O livro, Chinese Political Negotiating Behavior 1967-1984, é escrito por Richard Solomon, ex-funcionário do Conselho de Segurança Nacional norte-americano, e foi publicado pelo think-tank RAND em 1985 para ajudar o Departamento de Estado. Classificado como secreto, foi parcialmente desclassificado dez anos depois na sequência de um processo judicial do Los Angeles Times no âmbito da Lei de Acesso à Informação. Solomon diz que as técnicas de negociação chinesas bebem da tradição ocidental e da cultura marxista-leninista, mas que as “qualidades mais distintivas são baseadas na cultura chinesa”. A mais singular é “o esforço para desenvolver e manipular relações interpessoais fortes com os negociadores estrangeiros - um padrão a que chamamos ‘jogos de guanxi’ ou jogos de relações”. Esta abordagem vem da tradição confuciana aplicada à política. “Os chineses desconfiam de negociações impessoais e legalistas. Por isso, identificam um interlocutor simpático e cultivam uma relação pessoal, uma espécie de amizade (you-yi), e a seguir tentam manipular sentimentos de boa vontade e obrigação, culpa ou dependência para conseguirem o que querem”, escreve Solomon.
Os chineses são “muito bons” a fazer duas coisas, sublinha: arrastar as negociações e resistir a expor a sua posição até saberem exactamente qual é a do adversário. Há outras características-padrão: tentam sempre que as negociações sejam em território chinês e “orquestram a hospitalidade meticulosamente”. E tácticas de pressão clássicas: tentam sempre pôr o interlocutor na defensiva e a sentir que não tem controlo sobre o processo. E “são peritos em colocar os estrangeiros numa posição em que parece que são eles [e não os chineses] que estão a pedir alguma coisa”. Além disso, depois da cartada do “amigo” apresentam-se como vítimas. “A principal característica das suas tácticas de pressão é fazer o negociador estrangeiro sentir que a sua relação de amizade com a China está em risco, que ele não fez o suficiente para ser considerado um ‘velho amigo’.” Um dos conselhos do opúsculo é este: “Resiste à lisonja de ser chamado ‘velho amigo’ ou ao sentimentalismo que a hospitalidade chinesa suscita.”
"Todos lemos o opúsculo e quando as negociações começaram estava de facto lá tudo”,
contou João de Deus Ramos na conferência organizada pela Fundação Oriente, o Instituto Português de Relações Internacionais da Universidade Nova de Lisboa e o Instituto Diplomático do Ministério dos Negócios Estrangeiros. “Mas nós caímos à mesma naquela conversa do ‘meu velho amigo’; ‘isto é apenas a minha opinião pessoal’; não se chega à conclusão de nada numa reunião, fica tudo para a próxima; quando queremos adiar, eles mostram pressa; quando queremos fechar, eles adiam. Os negociadores chineses são muito bons.”
Mas nestas negociações - que a 13 de Abril de 1987 acabaram por abrir um novo ciclo nas relações diplomáticas entre os dois Estados - havia duas coisas a favor de Portugal.
Uma era o valor político de Macau. “Como é óbvio, os chineses são o que são, e nós aqui pequeninos à beira-mar plantados. Mas em relação a Macau, a assimetria era diferente. Para a China, resolver Macau era uma questão crucial, de unidade do Estado. Nós sabíamos que eles estavam com a cabeça na guilhotina. Macau era mais importante para a China do que para Portugal”, disse Carlos Gaspar na conferência.
A pressa de Pequim
O outro factor era o tempo. Queriam tudo resolvido em dois ou três meses, pois tinham o XIII Congresso do Partido Comunista Chinês desse Outono como horizonte. Em 1984, a China tinha negociado com o Reino Unido a transferência de Hong Kong - que ficara marcada para 1997 - e queria “fechar” Macau o mais depressa possível. “Os chineses tinham pressa e tinham um calendário: Setembro de 1987. Nós dizíamos: ‘Mas qual é a pressa?’”, contou Gaspar.
Portugal viu nesta urgência uma vantagem negocial. Para Lisboa, a data era irrelevante. “Desde 1976 que tínhamos resolvido a questão, ao reconhecer que Macau era território chinês sob administração portuguesa. O que queríamos era garantir o melhor estatuto para a população local”, contou António Vitorino, ex-comissário europeu e ex-ministro da Defesa.
Na primeira ronda - em Pequim, claro - os chineses propuseram que a transferência fosse feita em simultâneo com Hong Kong. “Mas a única data que não aceitávamos era que fosse a de Hong Kong”, conta Gaspar. Era uma questão política e uma questão de honra. A data de Hong Kong não tinha nada a ver com Portugal, mas sim com os tratados entre Londres e Pequim. E as relações entre Portugal e a China eram autónomas, não um prolongamento do imperialismo britânico.
Foi a primeira surpresa dos chineses. Portugal recusou a proposta e argumentou que era “injusto” e “discriminatório” a transição de Macau ser mais pequena do que a de Hong Kong. E usou aquilo que Vitorino resume como “o argumento Calimero”: “Vocês dizem isso porque somos pequeninos. Não fariam isso se fossemos os ingleses.” Era um argumento que “não podia ser usado muitas vezes, mas que fazia mossa”. Os chineses não queriam dar a ideia de que tinham dois pesos e duas medidas para portugueses e para britânicos.
Henriques de Jesus junta-se à história: “Ouvir um ‘não’ é uma das piores coisas que podem acontecer a qualquer negociador. Devemos tentar entrar na cabeça do adversário e saber quando é que nos vai dizer ‘não’, tentar antecipar e nunca deixar que eles digam ‘não’. Fui ouvir os chineses e eles disseram que a transferência não podia passar do fim do século.”Quando António Barreto escreveu um artigo a sugerir que a transferência de Macau fosse feita, simbolicamente, nos 500 anos da chegada de Jorge Álvares a Macau, o que fazia passar a linha encarnada de Pequim, “a China mandou imediatamente um ministro a Lisboa dizer que nem pensar”, contou Gaspar. “E as negociações foram interrompidas.”
Neste início o ambiente era tenso e à noite, quando estavam no quarto de hotel, os negociadores portugueses punham o ar condicionado e as ventoinhas no máximo e falavam muito depressa, com medo de possíveis escutas. O objectivo era complicar a vida aos tradutores.
A convicção de João de Deus Ramos é que a China subestimou Portugal. No seu livro Em Torno da China – Memórias Diplomáticas (Caleidoscópio, 2016), o diplomata escreve que os chineses terão acreditado que iam ter “um processo sem divergências” com os portugueses. E mesmo em Portugal, diz Henriques de Jesus, houve quem defendesse que a delegação portuguesa fosse enviada a Pequim com “uma mera tradução mais correcta das primeiras propostas chinesas”. O vice-ministro dos Negócios Estrangeiros Zhou Nan, que tinha chefiado as negociações sobre Hong Kong e chefiava agora as de Macau, “terá dado a entender aos seus superiores que, depois da Inglaterra, com Portugal ia ser um ‘processo sumário’”. À terceira ronda, “ainda as partes não tinham noção do que seria o bottom line de cada um”, escreve Ramos, Pequim propõe que a transferência seja feita em 1998. O ambiente desanuviou pouco depois, quando Lisboa aceitou o ano 2000 como limite.
Acabou por ser Dezembro de 1999. "Transferir Macau não era uma festa, mas uma tristeza, por razoável que fosse. Não sendo uma data festiva, não devia ser nem no Natal, nem no Ano Novo", explicou Henriques de Jesus. Ficou 20 de Dezembro.
Nem sete cavalos travam as palavras
Era tempo, finalmente, de tratar das questões de substância. A nacionalidade era a mais complexa. Já era claro que os enquadramentos jurídicos dos dois países eram incompatíveis e a China, ao contrário de Portugal, não aceitava a dupla nacionalidade. O que foi conseguido é o que “separa radicalmente os acordos sino-portugueses dos acordos sino-britânicos”, diz Gaspar, pois garante a um quinto da população chinesa de Macau o reconhecimento da nacionalidade portuguesa.
De todos, Henriques de Jesus foi sempre o mais optimista. “Há 30 anos, nenhum de nós conhecia o futuro da China, mas por causa da minha experiência em Macau, eu era o que tinha mais confiança. Sabia que podíamos confiar na palavra dos chineses. Eles dizem que quando uma palavra sai para fora, nem sete cavalos a conseguem travar.”
No total, foram nove meses frenéticos. Quatro rondas (40 horas à mesa das negociações) e 11 reuniões do grupo de trabalho (mais 440 horas).
O resultado de tudo isto? A Declaração Conjunta assinada a 30 de Abril de 1987 deu a Macau um sistema de direitos e liberdades de modelo ocidental, garantiu os direitos dos chineses interessados em manter uma ligação com Portugal, um sistema político consolidado, contribuiu para o crescimento do ensino da língua portuguesa na China e foi o princípio da construção de uma
“relação especial e densa” entre Portugal e China e Portugal e Macau. A síntese é do ministro dos Negócios Estrangeiros, Augusto Santos Silva, que, para novidade de alguns, acrescentou mais um resultado: o apoio da China à candidatura de António Guterres para secretário-geral das Nações Unidas.
“Foi claro entre os cinco membros permanentes do conselho de segurança da ONU que nos contávamos com o apoio empenhado e militante da França [a favor do candidato António Guterres] e que o segundo que mais nos apoiava era a China. Não quero desmerecer a Rússia, cuja posição era clara (“não apoio, mas não serei hostil”), nem do Reino Unido e dos EUA. Mas do P5, a China foi um dos dois que mais claro e explícito tornou o seu apoio a Guterres e mais cedo. Ouvíamos dos nossos interlocutores chineses dois argumentos: reconheciam Portugal como um país com uma voz activa e uma posição equilibrada, balanced foi a palavra que mais ouvimos. Mas os chineses tinham um argumento específico: ‘Nós conhecemos-vos há 500 anos e negociámos a Declaração Conjunta de Macau e vocês honraram todos os compromissos. Tudo o que disseram que iam fazer, fizeram. São um país em quem confiamos'.”»

quinta-feira, 7 de fevereiro de 2019

O Ano Novo chinês no final do século 19

Na edição de 30 de Janeiro de 1895 do jornal Echo Macaense está um pequeno artigo sobre o ano novo chinês:
“É bem merecido este curto descanso, pois não ha no mundo povo algum mais laborioso e mais tristemente avergado ao trabalho, do que o chinez. (...) D'esta pressão economica, transmittida de geração em geração, é que procedem a frugalidade e a tenacidade no trabalho que caracterizam o povo chinez, e o habilitam a levar de vencida os outros povos na lucta do trabalho".
A festividade fazia-se sentir sobretudo na chamada 'cidade chinesa',  as ruas da zona do Bazar, principalmente a Rua do Jogo e a Rua Nova d’el Rei que ficavam repletas de gente para fazer compras e onde em qualquer canto montavam-se barracas de jogo que atraíam os que procuravam a sorte. No porto interior, as embarcações enfeitavam-se, durante o dia, com bandeiras encarnadas e, de noite, com lanternas o que provocava uma vista deslumbrante.
Ainda segundo o Echo Macense, mas de 7 de Fevereiro de 1897:
“À meia noite de 1 do corrente, véspera do anno novo, começaram a queimar-se grandes quantidades de panchões e os filhos do império celestial, com suas familias, dirigiram-se ao pagode do Hong-kongmiu, a baterem as cabeças aos seus deuses. Esta cerimonia durou até às 3 horas da madrugada. No dia do anno novo a semsaboria desceu 5 graus abaixo do que eu tinha observado na véspera. As lojas fecharam as suas portas. E nas ruas, apparecia, de espaço a espaço, uma ou outra familia a largar os seus baguinhos nas bancas do cluclu, ou algum guloso a besuntar os beiços com o cebo de um pato
assado, d’esses que se vendem nas próprias bancas do jogo."

A queima de panchões era constante, trazendo muitas inconvenientes à população. Em alguns anos, chegou mesmo a ser interrompido o trabalho nas repartições públicas devido ao excesso de barulho e o governo proibiu o rebentamento a determinadas horas da noite.

quarta-feira, 6 de fevereiro de 2019

Wu Li / Wu Yushan / Simão Xavier da Cunha: 1632-1718

Wu Li (1632-1718) was a Chinese painter, poet and calligrapher. He became a jesuit priest who studied in the College of St. Paul of Macau where he arrived in 1680. In 1681, two years after he painted this work (above), Wu Li was baptized as a Christian (Simão Xavier da Cunha), a most uncommon thing to do for a man of his background. Ordained in Macao as a priest in 1688, he was sent in 1689 to do missionary work in Shanghai, where he died in 1718.

Wu Li (pintor, calígrafo, poeta e missionário) nasceu em 1632 em Changshu, na província de Jiangsu (capital é Nanjing).  
Ganhou à nascença o nome Qili sendo também conhecido por Wu Yushan. Devido à existência de um poço muito fundo (Mo Jing) em Yan Zi, onde vivia, ganhou o epíteto de ‘Mo Jing Dao Ren’, o que significa "Taoista do Poço Profundo”. Foi batizado com o nome ocidental de Simão Xavier da Cunha, pintor, poeta e missionário.

Wu Li foi para Macau em 1680 com Philippus Couplet, jesuíta belga, e residiu no Colégio de S. Paulo - Ordem dos Jesuítas - onde estudou latim e teologia. Foi ordenado padre em 1688 (aos 57 anos) em Nanjing e começou a pregar na zona de Xangai, onde viria a morrer em 1718.

Wu Li foi também “um dos ‘Seis Mestres de Qing’, juntamente com Wang Shimin, Wang Jian, Wang Yuanqi, Wang Hui e Yun Shouping, tendo uma influência profunda na história da arte chinesa e no desenvolvimento do Catolicismo na China.

Yushan dominava a caligrafia, a pintura, a poesia, e tinha jeito para tocar alaúde. Nos escritos que deixou podem encontrar-se diversas referências a Macau. Alguns exemplos:
- "Em meados do Inverno do ano de Gengshen do reinado de Kangxi, cheguei a esta terra acompanhado de Filipe Couplet." (a ida para Macau)
- "Pousei nesta casa de sossego três ou quatro anos." (os anos em que estudou no Colégio de S. Paulo)
- "Comecei a estudar a doutrina religiosa no Colégio de S. Paulo aos 50 anos de idade. Durmo e como no segundo piso, passando a vida a apreciar o mar."

- "Estes 20 a 30 anos de aprendizagem da pintura foram, para mim, como remar contra a maré. Empenhei todos os meus esforços e nunca abandonei a vontade de aprender... Se manejar o pincel e a tinta é já tão difícil, nem imagino como será a aprendizagem da doutrina religiosa."  (a faceta de pintor)
- "O toque do sino vindo da traseira da colina, desperta os sonhos dos monges." (...) As aulas são divididas em duas partes, das seis às sete da manhã e das seis às sete da tarde, depois das quais se pode ouvir o toque dos sinos."  (o dia-a-dia no colégio de S. Paulo).
Nota: O primeiro chinês a ser ordenado padre (jesuíta) foi Zheng Mano (nome de baptismo, Manuel Siqueira) em Coimbra, no ano de 1663. Desta época existem registos de pelo menos mais dois jesuítas chineses enviados pelo Visitador Francesco Saverio Filippuci (1632-1692) para Macau: Liu Yunde (nome católico Bras Verbiest) 1628-1707 e Wan Qiyuan (Paulo Banhes) 1631-1700, ordenados em Nanking em 1688 pelo bispo chinês dominicano Lo Wanzao.