quarta-feira, 18 de setembro de 2019

Envelope: 1978

Carta enviada para a Noruega por correio aéreo. O envelope está praticamente todo preenchido por selos de baixo valor (avos: num total de ca. 4 patacas) e um selo de uma pataca.

terça-feira, 17 de setembro de 2019

Regulamento da Emigração Chineza

Entre 1851 e 1874 - período em que decorreu o tráfico de cules chineses em Macau - 210.054 cules chineses emigraram através de Macau para vários destinos, como Cuba (a maioria), Peru, Guiana Britânica, Suriname, Costa Rica, Ásia do Sudeste, Moçambique, Califórnia e Austrália.
O último Regulamento do Governo de Macau sobre Cules foi promulgado a 28 de Maio de 1872. Chamou-se Regulamento da Emigração Chineza e como novidade estabelecia a liberdade de emigrar e de ser repatriado no caso de mudar de intenções. Trata-se de um regulamento extenso com um total de 83 artigos.

 Excerto de Regulamento da Emigração Chineza
Tabela dos custos dos mantimentos (preço/dia) e distância em dias dos portos de destino

segunda-feira, 16 de setembro de 2019

Cruz da Esperança



Ainda hoje se pode ver junto no adro da Igreja de S. Lázaro uma pedra gravada no cruzeiro de granito com a inscrição "Cruz da Esperança Ano 1637". A explicação é simples. O primeiro edifício erguido no local foi a Ermida de Nossa Senhora de Esperança.
Aspecto actual da igreja com o cruzeiro do lado direito
Igreja de S. Lázaro (e o cruzeiro) por George Chinnery (1832)

domingo, 15 de setembro de 2019

A festa do bate-pau ou das lanternas

Celebra-se por estes dias em Macau uma festividade conhecida por vários nomes: desde Chong Chao, Festa da Lua, Festa das Lanternas e Bate Pau. 
Já aqui abordei o tema por diversas vezes. Desta feita recorro a um texto do século XIX.

A lua correspondente ao mez de setembro é consagrada pelos chins à festa do bate-pau ou das lanternas a que eles chamam Chung – chau e os inglezes Mid Autumn festival, por coincidir com a quadra outomnal.
Dá-se o nome de bate-pau a um bolo que os chins preparam n´esta ocasião, que é arredondado e parecido com um pastelinho com crosta de farinha, recheado de doces. Há varias espécies de bolos de bate-pau: uns que que só entra feijão; outros o mungo; outros a semente de trate; e outros o gergelim, amêndoa e toucinho.
Só durante esta lua ou pouco antes é que os chins preparam estes bolos para venda e exportação.
Tambem por este tempo os chins vendem caramelos em forma de castello, embarcação, jarro, etc.; pães de farinha figurando um porco de tamanho de trez e quatro polegadas, metido n'um cesto de bambú de feitio conico; bolos de massa de farinha muito dura coma configuração de um prato com pintura a côres, representando paisagens e figuras humanas, postos n´uma caixinha de papelão de forma circular, polygonal ou oblonga, segundo o feitio do bolo, com uma rede muito fina e transparente de cassa. Este bolo só é feito para ornato e presente às creanças.
O bolo de bate-pau é o symbolo da lua, e os chins chamam-no em dialecto mandarim Yué-ping 月餅 e em cantonense Yut-peang. Geralmente o seu peso nao atinge meia libra.
Os macaístas conhecem-n´o pelo nome de bate-pau, por ser preparado com um pau em forma de ferula, com um orifício no centro onde se mettem a massa de farinha e os recheios, carregando com a palma da mão para comprimilo bem; e em seguida batem o pau com força, por duas ou tres vezes sobre a meza, para fazer expellir o bolo que é levado acto contínuo ao forno, a assar.
in Ta-Ssi-Yang-Kuo, Archivos e annaes do Extremo-Oriente Português. 1899-1900 de João Feliciano Marques Pereira.

sábado, 14 de setembro de 2019

A Visit to Old Macao, Where East Meets West (1964)

Edição do The New York Times de 6 Dezembro 1964 com um artigo dedicado a Macau intitulado "A Visit To Old Macau, Where East Meets West" / "Visita a Macau Antigo, onde o Oriente se encontra como Ocidente". O artigo faz um bom resumo do que era o território no início da década de 1960 e é ilustrado com duas fotos: uma da Rua de S. Paulo vendo-se ao fundo a fachada da igreja Mater Dei (Ruínas de S. Paulo) e outra da zona da Penha com destaque para o Palácio de Santa Sancha.

Macao - Just 15 minutes by air from Hong Kong, perched on the edge of Red China is Macao, the oldest European settlement in the Far East. For historians, its very name conjures up vivid pictures of opium smugglers, South China Sea pirates, gamblers and viceridden dens of iniquity. Today, although it calls itself “The Monte Carlo of the Orient,” Macao is a peaceful, rather sleepy little city with a charming Old World atmosphere and a fascinating past.No international airlines or worldwide shipping services call at Macao. The Portuguese colony must be approached through Hong Kong, where most tourists get so involved in shopping that there is little time for sightseeing, But Macao has a great deal to offer those who can tear themselves away.
Macao Bargains
Some of the bargains one sees in Hong Kong, like lacquered chests, carved furniture and old wood carvings, are available in Macao at a cheaper price. Many Hong Kong merchants buy goods and “antiques” from dealers in Macao. The methods of reaching Macao from Hong Kong are varied. Those in a hurry can make the trip by seaplane in 15 minutes or skim across the South China Sea in a new hydrofoil in 75 minutes.
The leisurely traveler can board one of three ferryboats, and relax for three hours over dinner and drinks. Cabins are provided for anyone wishing to catch a few winks. However, most of the passengers spend the time on deck, enjoying the changing scenery as the ferry sails out of Hong Kong Harbor and past ocean liners, freighters and water tankers. Also on view are the countless sampans and houseboats that are home to the floating population of Tanka and Haklo fishermen. They eat, sleep, cook, get married, give birth and die aboard their boats. As the ferryboat traverses a labyrinth of picturesque islands, fleets of bat‐winged junks, with their patched, multicolored sails, dip and pitch on the changing waters.
Approaching the Pearl River estuary, the exotic skyline of Macao emerges. It is a skyline of two cities - old and new Macao, East and West - for East and West have lived here together for more than 400 years.
Established in 1557
The colony was formally established in 1557, when the Emperor of China issued a decree -granting Portugal the right to form a community in Macao and to establish trade through the Emperor's viceroy in Canton. The Portuguese, in turn, agreed to help fight the ferocious pirates terrorizing the South Sea coast with armed junks. On arrival, one's first impression is the striking change of pace from the urgency of Hong Kong. Macao's main thoroughfare, the banyan‐fringed Praya Grande, stretches lazily along the waterfront. The tempo of the city is about the same speed as the pedieabs that wheel leisurely along the Praya Grande, between the brightly painted, Mediterranean‐style villas and courtyards. Lofty old churches grace the hilltops. At dawn and dusk, the city echoes with the pealing of church bells, while across the bay, in clear view, is Communist China.
Many Refugees
The population of more than 250,000 is swollen by the legal and illegal refugees who pour in from the Chinese mainland. The legal are the old and the ill—”useless mouths” that are encouraged by the Communists to leave China. They are allowed to come through the Barrier Gate at the border. The illegal refugees come by night. Some swim the wide West River, which separates Macao from China; others make a desperate dash across narrow Duck Channel, dodging Communist bullets fired from the pillboxes that guard the frontier stream; others run the Communist gunboat gantlet in sampans or anything that will float.
More than 800 such refugees come to Macao each month. Centers for them have been set up, and none is turned away.
Accent oa Atmosphere
Hotels in Macao are not luxurious. They are comfortable with an appealing atmosphere, and are reasonably priced. The food, both Chinese and European, can be good. Some of the specialties of Macao are sole, pigeons, crab and succulent rice birds. Delicate Portuguese wines are cheap and plentiful.
Gambling Popular
Gambling is still one of. the biggest attractions of Macao. On weekends the hotels are bursting with people from Hong Kong, many of whom seek to make the “killing” that lurks just beyond the next turn of a roulette wheel or the flip of a card. The gambling houses are crowded by noon, and the wheels spin until the late hours. There are many ways to win or lose a pataca - worth about 21 cents - but fan‐tan seems to be the fastest and most popular. It is also the simplest It consists of putting a cup over a pile of buttons and betting on how many, from one to four, will remain when they are counted off by fours. Greyhound racing also is popular with the Chinese, especially the ex‐Shanghai Chinese from Hong Kong. The most bizarre type of gambling in Macao is the old Chinese sport of cricket fighting. The matches are controlled by a syndicate called “The Voice of Autumn Club”. The strongest and most ferocious crickets seem to come from an old cemetery, where they are trapped at night in the crumbling graves. If the cricket survives the season he is returned to the cemetery to breed more champions.
Investment Program
The bulk of money from the gambling franchise is being reinvested in Macao through a 20 million development program. Eventually, this will produce a new air‐conditioned hotel on an artificial lake, a large glittering casino and new shops. Macao is full of interesting places for the sightseer. Tours with English speaking guides are organized by the various hotels. As the area within the city limits is only two square miles, it does not take more than a couple of hours to get a general idea of Macao. One should spend another hour going down the small streets in a pedicab. Some of the pedicab boys speak english, and will give one all sorts of inside information.
But the real way to see Macao is to walk. Many of the narrow, cobblestone streets are too rough for pedicabs and too narrow for cars. And many of them end in steep stairways leading to green terraces and tree‐lined paths. For an over‐all view of the maze of streets, villas, terraces, courtyards and slums that make up the city, one should climb one of the Seven Hills up to the century old Guia Lighthouse. Or, he should go to the picturesque Monte Fort, with its cannon protruding from the ancient imposing ramparts.
On many perilous occasions in the past, these cannon have protected the little settlement. In 1622, a lucky gunner achieved what might be called a “hole‐in one” for a cannonball landed in a barrel of the enemy's gun powder. The resulting explosion caused so much damage and confusion that the attacking Dutch soldiers were forced to retreat. The Cantonese, on hearing of the incident, were so amused that they sent gifts to the Monte Fort garrison.
Free Port
Over the years Macao has survived wars, revolutions and natural catastrophies. It is a free port, and exists on fishing, gambling, the mysterious gold traffic, tourism and small industries, like the manufacture of firecrackers, matches and incense. Including two small islands, Taipa and Colowan, and the area that lies within the city limits, Macao covers only six square miles. The population is approximately 235,000 Chinese, 1,080 Portuguese and 20,000 native Macanese.”

sexta-feira, 13 de setembro de 2019

Relazione della preziosa morte dell'eminentiss... Carlo Tomaso


Relazione della preziosa morte dell'eminentiss e reverendiss Carlo Tomaso Maillard di Tournon. Commissario, e Visitatore Apostolico Generale, con le facoltà di Legato a latere nell'Impero della Cina, e Regni dell'Indie Orientali, seguita nella Città di Macao li 8 del mese di giugno dell'anno 1710. E di ciae, che gli avenne negli ultimi cinque mesi della sua vita. Roma, per Francesco Gonzaga, 1711.
First edition (1711) of a biographical study comprising three works of cardinal Maillard de Tournon who was the first papal legate sent to the Imperial court of China, on behalf of the Pope Clement XI.
He was born in Turin in 1668 of a noble family of Savoy. Tournon and his party sailed by way of Pondicherry, Manila and Canton, arriving at Beijing in December 1705. At first Emperor Kangxi received him kindly, but upon realising that he had come to abolish the Chinese rites among the native Christians he had Tournon imprisoned at Macau where he later died, shortly after being informed that he had been created cardinal on August 1, 1707. 
Maillard de Tournon's mission is considered one of the crucial turning points in the modern history of the Chinese church.

Na imagem a capa da primeira edição (1711) de um estudo biográfico composto por três obras do cardeal Maillard de Tournon, que foi o primeiro legado papal enviado à corte imperial da China, em nome do Papa Clemente XI. 
Maillard nasceu em Turim em 1668 de uma família nobre de Savoy. Na viagem passou por Manila e Cantão chegando a Pequim em Dezembro de 1705. Inicialmente, o imperador Kangxi recebeu-o mas ao perceber que ele havia abolido os ritos chineses entre os cristãos nativos, acabou por expulsá-lo da China.
No dia 25 de Janeiro de 1707, Tournon  - nomeado cardeal neste ano - emitiu um decreto em Nanquim que obrigava os missionários, sob pena de excomunhão latae sententiae, de proibir os ritos chineses.
Tournon chegou a Macau em meados de 1707 e entrou em conflito com o bispo de Macau, D. João de Casal, que foi ordenado pelas autoridades portuguesas para não obedecer nem autorizar qualquer acto jurisdicional por parte de Tournon, cuja estadia em Macau não estava autorizada pelo Padroado. D. João de Casal chegou mesmo a proibir o clero local de obedecer a Tournon, mas tanto os agostinhos como os dominicanos decidiram apoiar Tournon, gerando um clima de instabilidade em Macau. Tournon acabaria aprisionado ou pelo menos vigiado com liberdade condicionada por vontade de Kangxi e acabou por morrer em Macau no dia 8 de Junho de 1710.
A missão de Maillard de Tournon é considerada um dos pontos de viragem cruciais na história moderna da igreja católica na China. Recorde-se que o imperador Kangxi assinou em 1692 o Édito da Tolerância (1692) que concedia a liberdade religiosa.
A controvérsia dos ritos na China foi uma longa disputa no seio da Igreja Católica sobre a decisão a tomar quanto aos ritos chineses constituírem ou não formas de idolatria ou superstição. Este conflito, que opôs os jesuítas - que defendiam a continuação da prática dos ritos pelos católicos chineses - e as outras ordens religiosas, entre os quais os dominicanos - que alegavam que os ritos eram incompatíveis com o catolicismo -, começou na década de 1630 e só terminou no século XVIII, quando o Papa Clemente XI, em 1715*, e o Papa Bento XIV, em 1742, decidiram contra os jesuítas, o que reduziu drasticamente a actividade missionária católica na China. 
Só em 1939 o Papa Pio XII viria a revogar parcialmente a decisão dos seus predecessores e em 1943 o governo da República da China estabeleceu relações diplomáticas com o Vaticano. Após a Segunda Guerra Mundial já cerca de quatro milhões de chineses eram católicos. 

*A 19 de Março de 1715, o Papa Clemente XI, um apoiante de Tournon, emitiu a bula papal "Ex illa die", que condenava os ritos chineses:
I. O
Ocidente chama Deus o Criador do Céu, da Terra e de todas as coisas do universo. Como a palavra Deus não soa bem na língua chinesa, os ocidentais na China e os convertidos chineses ao catolicismo usaram o termo "Senhor Celestial" (Tianzhu) por muitos anos. A partir de agora, termos como "Céu" e "Shangdi" não devem ser utilizados: Deus deve ser tratado como o Senhor do Céu, da Terra e de todas as coisas do universo. A tabuleta que tem as palavras chinesas "Reverência para o Céu" não deve ser permitida de ser pendurada dentro de uma igreja católica e deve ser imediatamente tirada, se já está lá.
II. O culto de
Confúcio na Primavera e no Outono, juntamente com o culto dos antepassados
, não é permitido entre os convertidos católicos. Não é permitido mesmo que os convertidos apareçam no ritual como espectadores, porque ao ser um espectador nesse ritual é tão pagão como participar activamente nele.
III. Os funcionários públicos chineses e os candidatos aprovados nos
exames metropolitanos, provinciais ou prefeiturais, caso tenham sido convertidos ao catolicismo romano, não são permitidos de cultuar nos templos confucianos no primeiro dia e no décimo-quinto dia de cada mês. A mesma proibição se aplica a todos os católicos chineses, que, como funcionários públicos, chegaram recentemente em seus postos, ou que, como estudantes, foram recentemente aprovados nos exames
metropolitanos, provinciais ou prefeiturais.
IV. Não há católicos chineses que estão autorizados a
cultuar os antepassados
nos seus templos familiares.
V. Seja em casa, no
cemitério, ou durante um funeral, um católico chinês não tem permissão para realizar o ritual do culto dos antepassados. Ele não está autorizado a fazê-lo mesmo se ele estivesse acompanhado por não-cristãos. Esse é um ritual pagão
, independentemente das circunstâncias.
Apesar das decisões supra-mencionadas, clarifico que os outros costumes e tradições chinesas que não podem, de forma alguma, ser interpretados como pagãos devem ser permitidos de continuar entre os convertidos chineses. A forma como os chineses administram os seus lares ou governam o seu país não deve ser de modo algum interferido. Quanto exactamente aos costumes que devem ou não ser autorizados a continuar, o
legado papal na China vai tomar as decisões necessárias. Na ausência do legado papal, a responsabilidade de tomar tais decisões caberá ao chefe da missão da China e do Bispo da China. Em suma, costumes e tradições que não são contraditórios ao catolicismo romano serão permitidos, enquanto que aqueles que são claramente contraditórios a ele não serão tolerados sob nenhuma circunstância."
Na resposta o imperador Kangxi emitiu um decreto imperial em 1717 que determinava a proibição da prática do cristianismo na China e a expulsão de todos os missionários. Porém, este decreto não foi posto imediatamente em execução.
O novo legado papal, monsenhor Mezzabarba, que foi enviado à China para notificar oficialmente o Imperador sobre a bula Ex illa die só chegou a Macau no dia 26 de Setembro de 1720. No encontro em Pequim com o Imperador não se chegou a acordo e o Imperador decidiu em 1721 proibir de vez a difusão do cristianismo e a actividade evangelizadora dos missionários europeus na China:
"Após a leitura deste Decreto, apenas posso dizer que os europeus são de acanhada inteligência. Como é que podem eles falar dos princípios morais da China quando nada sabem dos costumes, livros ou língua Chinesa que os poderiam habilitar a entendê-los? Muito daquilo que dizem e discutem faz rir uma pessoa. Hoje vi o legado pontifício e o decreto. Ele é realmente como um bonzo budista ou taoista ignorante, ao passo que as superstições mencionadas são de religiões sem importância. Este modo de falar à toa não podia ser pior. Para o futuro não é permitido aos europeus pregar na China. Deve-lhes ser isto proibido para evitar desordens."

Face à oposição imperial, monsenhor Mezzabarba abandonou Pequim e regressou a Macau. Ali, em Novembro de 1721, publicou várias instruções que obrigavam os missionários a acatar as ordens da Santa Sé, que proibia a prática dos ritos chineses. Mas, "a fim de aliviar a consciência dos cristãos chineses que, perante a exigência de centenários costumes, se debatiam entre sérios escrúpulos, Mezzabarba explanou em oito concessões ou faculdades, o caminho a seguir". Ao abandonar Macau, levou consigo os restos mortais do Cardeal Charles de Tournon.

quinta-feira, 12 de setembro de 2019

Empresa Cinematográfica Macaense

A 8 de Fevereiro de 1924 Lucrécia Maria Borges, Gerente da Empresa Cinematográfica Macaense (ECM), solicita ao governo para lhe ser concedido "o exclusivo da exploração da indústria cinematográfica nesta colónia”.
O pedido acabaria por ser aceite e pelo “exclusivo dessa exploração no território da Colónia pelo prazo de dez anos” a ECM ficou encarregue de realizar documentários sobre Macau, “onde serão apanhados todos os assuntos mais notáveis da vida da colónia”. 
Era uma pedra no charco mas não era a primeira vez que viriam a ser feitos filmes em Macau. Já em 1922 o Cinematógrafo Macau exibira “uma fita sobre Macau, destinada à Exposição do Rio de Janeiro” (...) “inteiramente feita por um amador, Sr. Antunes Amor.”
Ainda assim, dois anos depois de ser criada, a ECM viria a ter oportunidade de exibir os seus filmes. Foi em 1926 durante a primeira Feira e Exposição Industrial do território onde a ECM também rodou um filme em jeito de reportagem. Para que a rodagem decorresse da melhor forma, a ECM convidou o público a aparecer no recinto no dia 11 de Dezembro, penúltimo dia do certame, pelas 15 horas, “para que o filme possa ficar o mais movimentado possível”.
Esse filme seria visto apenas anos depois. Mas no evento seriam exibidos inúmeros filmes. Segundo o jornal A Pátria a 11 de Dezembro foi projectado - pela segunda vez no território - o filme "Os Fidalgos da Casa Mourisca", do romance de Júlio Dinis.
No dia seguinte, o último do evento, foram exibidos outros filmes numa sessão dedicada ao Governador Tamagnini Barbosa e ao Almirante Hugo de Lacerda.
O Almirante Hugo de Lacerda Castel-Branco foi Governador interino de Macau de 29 de Julho de 1926 até à chegada de Artur Tamagnini de Sousa Barbosa, o que ocorreu somente a 8 Dezembro. Por isso a exposição foi prolongada até à meia-noite de domingo dia 12. Proveniente de Hong Kong o novo governador desembarcou com a mulher e os cinco filhos no cais provisório do novo porto exterior, sendo recebido pelas autoridades civis, militares e eclesiásticas da cidade. Seguiu-se uma visita às obras do novo porto e só depois aconteceu a tomada de posse no salão nobre do Leal Senado onde foi feita a “simbólica entrega da chave de ouro por parte do Presidente da Câmara” Damião Rodrigues. Depois, seguiu para o Palácio do Governo. À noite deu-se a visita ao certame.
Ali a ECM teve oportunidade de mostrar as suas produções.
Entre os títulos apresentados estava “O Vôo Audaz das Águias Portuguesas”, sobre a chegada a Macau dos aviadores, Major Brito Pais, Capitão-tenente Sarmento Beires e o mecânico Alferes Manuel Gouveia. Partiram de Vila Nova de Mil Fontes no dia 7 de Abril de 1924 e depois de uma viagem atribulada chegaram a Macau a 25 de Junho (um dia depois do dia do território), onde foram recebidos em grande festa pela população.
O segundo filme intitulava-se “Os Funerais de um Capitalista” e o terceiro, “Comemoração do Quarto Centenário de Vasco da Gama”, uma reportagem que inclui o desfile de um cortejo na Praia Grande, na Avenida de Vasco da Gama, junto do busto do navegador, com homenagens da Colónia, das comunidades holandesa e chinesa e dos portugueses de Hong Kong, no Leal Senado, uma missa campal e vários aspectos da iluminação na cidade e no porto.
O quarto filme era sobre “O Casamento de Mr. & Mrs. Francis Young Po Nam” e o quinto, uma produção recente, “O Voo Madrid-Manila” filmado em Maio de 1926, aquando da passagem por Macau dos aviadores espanhóis Capitão Gallarza e Loriga. 

O sexto filme da ECM a ser exibido foi “O Concílio Episcopal em Xangai”. O sétimo seria o documentário de propaganda sobre “As Obras do Porto de Macau”, uma reportagem sobre da cerimónia da dragagem do último metro cúbico de lodo do canal de acesso do novo Porto da Rada, ocorrida a 26 de Agosto de 1926 no Porto Exterior.
Vários selos da emissão ‘Ceres’ com sobrecarga local (Exposição/Industrial/1926)

Nota: No início do século XX existiam várias salas de cinema no território mas poucos exibiam filmes portugueses. O teatro D. Pedro V era um deles. Em Fevereiro de 1926, por exemplo, foram exibidos os filmes mudos portugueses “O Soldado desconhecido” e “A Rosa do Adro”.

quarta-feira, 11 de setembro de 2019

Diccionario geographico das provincias e possessões portuguezas no Ultramar

"Diccionario geographico das provincias e possessões portuguezas no Ultramar em que se descrevem as ilhas e pontos continentaes que actualmente possue a corôa portugueza e se dão muitas outras notícias dos habitantes, sua historia, costumes, religião e commercio” é o longo título de uma obra publicada em Lisboa pela Typographia Lisbonense no ano de 1850.
O autor foi Joze Maria de Sousa Monteiro (1810-1881), "Cavalleiro da Ordem de Nossa Senhora da Conceição, e Secretário Geral Honorário da Provéncia de Cabo-Verde, etc, etc". Ao todo a obra tem 550 páginas. Macau surge na página 343 e tem duas 'entradas': uma com informação genérica sobre as origens do território e a história até meados do século 19; outra 'entrada', mais sucinta, é sobre a "Província de Macau".
(Clicar nas imagens para ver em tamanho maior)

 





  




terça-feira, 10 de setembro de 2019

"A nossos pés, espraia-se a cidade"

Já aqui referi o resultado da passagem do escritor Vicente Blasco-Ibañez por Macau em Janeiro de 1924 no âmbito de uma longa viagem que o autor (1827-1928) passaria para escrito na obra "A Volta ao Mundo" publicada em três volumes (Macau surge no segundo volume).
Recupero neste post alguns excertos:

“Às primeiras horas da manhã, embarcámos para Macau. Vemos em frente do vapor numerosos grupos de chineses. Uma força de polícia regula-lhes a entrada , um a um, na prancha que liga o barco ao cais. São todos revistados, da cabeça aos pés e só podem passar para diante quando o agente industânico está convencido de que não levam sequer o mais pequeno canivete. Como estes homens amarelos se parecem todos uns com os outros pelo fato azul e pelos rostos quási iguais, é difícil distinguir um cooli pacífico que vá tratar dos seus negócios a Macau, de um pirata que prepare com os companheiros o ataque ao vapor, a meio da viagem. (…)
Macau, que primitivamente se chamou Cidade do Santo Nome de Deus na China, e depois viu substituído este nome pelo de Macau, de origem indígena, seria grandemente exótica se de repente se pudesse transladar para as proximidades de Lisboa. Vista aqui, depois de se haverem visitado as principais cidades do litoral chinês, faz lembrar o antigo Portugal e parece emanar dela um longínquo sopro do nosso hemisfério…(..)
O governador actual, o doutor Rodrigo Rodrigues, é um médico que gozava merecida reputação na pátria antes de entrar na vida política, republicano como os que desinteressadamente combateram a monarquia e que depois tendo triunfado, tiveram de abandonar as suas antigas profissões para servirem a nova República portuguesa.
Durante as horas passadas em Macau pude apreciar o que o meu amigo Rodrigues tem feito em alguns anos de governo. Uma cobrança de impostos, bem administrada, deu o suficiente para a construção de um porto grandioso, no qual poderão fundear transatlânticos de grande tonelagem. (...)

A nossos pés, espraia-se a cidade, a massa apertada dos seus telhados, escuros como os da Europa. De vez em quando, surgem no meio deles telhados chineses e ornamentos dos telhados de pagodes budistas. Muitas fachadas estão pintadas de cor-de-rosa ou de azul, cores ternas que dotam de uma alegre juventude as construções antigas.
Para lá da cidade, ilhas e canais repetem-se até ao infinito, como se a terra toda fosse uma sucessão de braços de água que rodeiam picos emersos. Nestes canais de margens altas, que têm uma metade longitudinal da sua faixa líquida negra como o ébano e a outra metade dourada pelo sol, baloiçam sob a brisa da tarde dúzias e dúzias de juncos de velame recurvado, como o telhado dos pagodes. Todos eles vêm até Macau ou regressam
a portos cujos nomes arrevesados só os seus tripulantes conseguem pronunciar. A vista tropeça no “lombo” escuro de uma montanha, julgando que é o limite do horizonte. Para lá da sua linha oblíqua, existe algo que brilha como uma poça de metal em fusão. É mais um canal do estuário, um estreito navegável pelo qual passam outros juncos e sampanas, apequenados pela distância. 


Mais além, uma nova montanha, que é outra ilha; depois, um fragmento de canal, em terceiro ou quarto plano; e novos terrenos insulares, até que todo este mundo submerso e emergente se esfuma, por acção da distância, confundindo-se o azul das montanhas distantes com o azul das águas e do céu. (...)
"Visitamos por fim o mais interessante para nós, o que nos trouxera a Macau com o atractivo da devoção literária. O governador mostra-nos o jardim onde se encontra a gruta em cujo interior Camões meditava e escrevia, durante as horas de calor desta região quase tropical. Este jardim tem atractivos iguais aos dos móveis que começam a envelhecer. Nos seus alegretes e bosques misturam-se a melancolia das antigas hortas chinesas e a majestade dos jardins portugueses de Sintra. Vemos estátuas de mandarins que têm a cabeça e as mãos de louça; o resto do corpo é feito de plantas a que os jardineiros com as suas tesouras deram forma humana.
O retiro predilecto do poeta foi desfigurado e banalizado por uma admiração excessiva. A gruta não é mais do que um corredor entre grandes pedras, ocupado agora pelo busto de Camões. Todas as rochas próximas desapareceram sob lápides que têm esculpidos fragmentos poéticos do autor de Os Lusíadas ou versos de autores célebres que o glorificam. Tantas placas de mármore dão a este local, que, com razão, se pode chamar poético, o aspecto antipático de cemitério.
Alguns moradores de Macau, especialmente casais novos, vêm merendar para o histórico jardim e, ao som de um gramofone ou de um harmónio, dançam diante do busto coroado de louros. Não importa; é fácil suprimir com a imaginação essas fealdades da realidade e ver o antigo jardim tal como foi, com os seus bosques em colina, a sua pequena gruta livre de adornos, e meditando, sob o fresco arco, o fidalgo português que perdeu um olho na guerra, soldado heróico como o manco Cervantes, e desterrado de Goa para um dos pontos mais distantes da monarquia portuguesa, então senhora de colónias nas costas de África, no mar das Índias, e nos arquipélagos situados para além do estreito de Malaca"

domingo, 8 de setembro de 2019

Congresso Hispano Luso Americano Filipino de Municípios: 1959


Macau foi representado no Congresso Hispano Luso Americano Filipino de Municípios - que decorreu em Lisboa em 1959 no âmbito do II congresso Ibero-Americano - pelo Sr. Tenente Alberto Ribas Lopes Praça, presidente da comissão administrativa do Leal Senado.

sábado, 7 de setembro de 2019

Um terramoto em 1767

Numa carta de 23 de Novembro de 1767 alguém descreveu o que terá sido um terramoto que se fez sentir em Macau...
"Last night, at 50 minutes after nine o'clock, we were all surprised with a heavy shock of an earthquake, which continued above a minute. This shock was so great that the house rocked, and I was afraid we were all going down into the bowels of the earth. Another sock we felt five minutes after eleven o'clock, but not so great: and at three this morning another pretty great. In all we have had five shocks, but the first was the greatest. It came with a rolling, and a dreadful night in the air; so that at first some people thought it to be the firing of guns, or thunder at some distance. At the firth shock I could hardly hold my feet; but, thank God, no bad accident has happened; and I hope the Almighty will deliver us from any more of the frightful shocks. I was up almost the whole night. The wind was northerly, but faint, and it was fury hot; the sky close and cloudy, and not a far to be seen. The oldest people here say, they never remember to have felt so violent shock, and of so long continuance. The ships in the harbour hooked and whirled about, and those on board imagined at first that it had been a whirlwind. "
Terá havido mesmo um terramoto em Macau? 
Dos livros que consultei sobre dados cronológicos do século 18 não encontrei qualquer referência. Pode ainda admitir-se que, não sendo época de tufões, estamos perante um fenómeno meteorológico de tal forma gravoso - em pleno Inverno - que a pessoa que o testemunhou admitiu tratar-se de um sismo quando talvez não tivesse sido mais do que uma grande tempestade... Será?...

sexta-feira, 6 de setembro de 2019

"The Luck of Macau" (1994)

Macau, sob o título "The Luck of Macau/A Sorte de Macau", foi o grande destaque da edição de 19 de Setembro de 1994, da edição da Time International, publicada em Hong Kong.
Uma fotografia do Largo do Senado - onde a calçada foi substituída por uma pano de uma mesa de jogo - ocupa a capa da revista onde uma mão lança os dados. Em sub-título escreve-se: "Hong Kong take note: This Portuguese enclave made shrewd bets to smooth China's 1999 takeover".
"Hong Kong tome nota: o enclave português fez apostas astutas para suavizar a transição para a China".
Tudo isto a propósito das agendadas transferência de soberania dos dois territórios, em 1997 e 1999.
Fundada em 1923 em Nova Iorque, a Time é uma revista semanal. Na década de 1990, para além da edição da casa-mãe norte-americana, tinha também uma edição internacional. Actualmente a Time tem 4 edições: EUA - Europa, Médio Oriente e África - Ásia - Pacífico Sul.

quinta-feira, 5 de setembro de 2019

Monumento a Alexandre Herculano

Em 1881 o Boletim Oficial de Macau publicava relação nominal das personalidades de Macau que contribuíram para a construção do monumento a Alexandre Herculano. A soma angariada em Macau foi enviada a João Maria Galhardo (1837-1909), oficial da marinha portuguesa e tesoureiro da comissão executiva encarregue de construir o monumento.
“Joaquim José da Graça, $10.00; o Leal Senado da Câmara, $10.00; Manuel Bernardo de Sousa Enes, 5.00; Eduardo Alfredo Braga de Oliveira, 5.00; José Alberto Homem da Cunha Corte Real, 4.00; António Emílio de Almeida Azevedo, 4.00; João Correia Pais d’Assumpção, 1.00; António Joaquim Garcia, 1.00; Lúcio Augusto da Silva, 3.00; Francisco Augusto Ferreira da Silva, 1.00; Raimundo José de Quintanilha, 5.00; Demetrio Cinatti, 2.00; António Talone da Costa e Silva, 1.00; Barão do Cercal, 3.00; António Joaquim Bastos Júnior, 2.00; Pedro Inácio do Rio Carvalho, 2.00; Francisco Tomás de Brito Soares, 1.00; Amaro Justiniano de Azevedo Gomes, 1.00; Francisco Bernardino Carvalho, 1.00; José da Cunha Lima, 1.00; Malaquias António Pinto, 1.00; Joaquim da Silva Gomes, 1.00; Bernardino de Senna Fernandes, $10.00; Pedro Nolasco da Silva, 1.00; Eduardo Marques, 1.00; Câncio Jorge, 1.00; José Bernardo Goulart, 1.00; Evaristo Lopes, 50; Cornélio de Sousa Placé, 30; Clementino Vicente Lopes, 50; Caetano Maria Dias Azedo, 1.00; Iong Lim, 1.00; Vicente Saturninho Pereira, 1.00; Simplício António Tavares, 1.00; Francisco Pedro Marques, 50; Francisco de Paula Rodrigues, 50; Holokuae, 5.00; Francisco Xavier, 3.00; Chon Ec Chiom, 2.00; Carlos Alberto Feyo Folque, 1.00; Ricardo de Sousa, 1.00; Tomás de Aquino Miguéis, 1.00; Manuel Joaquim dos Santos, 50; Pedro Ricardo da Silva Saturninho, 2.00; José Maria da Luz, 20; José Manuel Sacoto Galache, 1.00.
=Total, Patacas $102.00. Macau, 1 de Agosto de 1881.
A soma acima de $102 foi remetida ao exmº. snr. João Maria Galhardo, tesoureiro da comissão executiva, encarregado da erecção de um monumento a Alexandre Herculano, em uma letra à vista de Hongkong & Shanghai Banking Corporation sobre Londres do valor de Libras 18,146. D. C. Pacheco, Presidente do Leal Senado”.
Entre os muitos nomes desta lista destaque para João Correia Pais d'Assumpção, o Barão do Cercal, o Conde Bernardino de Senna Fernandes, Pedro Nolasco da Silva, Eduardo Marques, entre outros, incluindo o próprio Leal Senado que fez um donativo de 10 patacas.
Em 1896 esta comissão ainda existia e tanto quanto sei só muitos anos depois a estátua veria a luz do dia. Da autoria do escultor português Salvador Barata Feyo foi erigida por iniciativa da Câmara Municipal de Lisboa a 28 de Maio de 1950 - foto ao lado - juntamente com outras três peças (estátuas de Almeida Garrett, Feliciano Castilho e Oliveira Martins) na Av. da Liberdade.
O apelido Galhardo tinha ligações familiares a Alexandre Herculano. Recorde-se que Eduardo Augusto Rodrigues Galhardo (1845-1908), nomeado Governador de Macau em 1897, era sobrinho de Alexandre Herculano (1810-1878).
A sua actividade política, defensor das ideias liberais, leva-o para fora de Portugal. Foi nomeado segundo bibliotecário da Biblioteca do Porto, por decreto de 17 de Julho de 1833. A obra que vai transformar Alexandre Herculano num dos portugueses de destaque do século XIX é a sua História de Portugal, cujo primeiro volume é publicado em 1846. A Academia das Ciências de Lisboa nomeou-o seu sócio efectivo em 1852 e encarregou-o do projecto de recolha dos Portugaliae Monumenta Historica, projecto que empreende em 1853 e 1854.

quarta-feira, 4 de setembro de 2019

Professor da Nova Escola Macaense (1867)

ARTHUR R MONTGOMERY professor da lingoa inglesa, da Nova Escola Macaense tem a honra de informar ao publico de Macau que elle se acha prompto a dar lições em cazas particulares, ou em sua própria residência, desde ás 2 até ás 5 p.m. 
Macau 21 de outubro de 1867.
in Boletim Oficial 

terça-feira, 3 de setembro de 2019

O pagode da Calçada das Verdades

No sopé do Monte de S. Paulo (onde fica a Fortaleza do Monte) fica um dos dois templos de homenagem a Na Tcha, o da Calçada das Verdades, sendo mais antigo que o que existe junto às Ruínas de S. Paulo, edificado no final do século 19. Conhecido entre os chineses por Na Tcha Ché Hong, este data do ano de 1676.
Segundo Monsenhor Manuel Teixeira este templo/pagode é um “pequeno oratório, pois não há ali templo algum nem sequer uma capela, mas um alpendre. Descendo um lanço de oito degraus, achamo-nos num alpendre de madeira, sustentado de cada lado por três colunas de pedra. À direita, a mesa de sacrifício e um pequeno nicho do ídolo Ná-Ch´á, que mal se vê, pois é resguardado por um vidro em frente e coberto por telhas. É ele o protector do bairro. Segue-se uma sala, que esperávamos ser capela, mas é uma simples loja de venda de papéis e pivetes, tendo à direita da entrada o altar de Ná-Ch´á. Construído em 1850, foi reconstruído em 1876 e 1882.”
Numa publicação do Turismo de Macau fica-se a saber as origens do pagode:
Segundo a lenda, Na Tcha foi o terceiro filho do Rei Celestial Li Jing, dito, O do Pagode na Mão, que teve de arrancar toda a sua carne para a devolver à sua mãe e entregar os ossos que sobraram ao progenitor para poder salvar os pais e se redimir de ter morto o filho do Rei Dragão do Mar Oriental. O mentor de Na Tcha conseguiu trazê-lo de volta à vida arranjando-lhe um corpo feito de diferentes partes da flor de lótus. A partir daí, armado com o Anel do Céu e da Terra e deslocando-se nas Rodas do Vento e do Fogo, Na Tcha dedicou a sua vida a afastar maus espíritos e a submeter demónios.
Conta-se que a origem do templo de Na Tcha na Calçada das Verdades se deve à frequente aparição de Na Tcha no local disfarçado de comum mortal para brincar com as crianças do bairro e as abençoar. Assim, um dia uma pessoa avistou as Rodas de Vento e Fogo a elevarem-se nos ares e a partir daí acreditaram ser uma manifestação de Na Tcha e logo construíram um altar e a seguir o tal templo simples. Como Na Tcha tem o poder de afastar os espíritos malignos, é considerado uma divindade muito útil no combate às epidemias.

Durante a festa de Na Tcha, que se celebra todos os anos no 18º dia do 5º mês lunar, a efígie da deidade faz uma “ronda de inspecção” que parte do templo e percorre a Rua do Campo, a Avenida de Almeida Ribeiro, a Rua dos Mercadores e o Largo do Senado, locais onde têm lugar rituais de invocação de bênçãos. Esta procissão anual conta com a participação de centenas de populares e constitui um espectáculo fascinante que atrai uma numerosa plateia pelo caminho.
Na sua passagem por Macau Jaime do Inso também 'registou' as suas impressões do pagode: “No pequeno pagode de Na Ch´á-Miu, como que aberto no meio da rua em interessantíssima disposição, num dos recantos mais típicos da velha Macau, onde se venera o terceiro filho do primeiro imperador da China, tido por muitos milagroso, usa-se especialmente desfazer os maus intentos e pedir curas, obtendo-se remédios numa espécie de loja, sacristia ou habitação contígua que, com uma pequena imagem, uma virgem, parece alumiada em seu altar, com os amuletos, os pivetes, os papéis pintados...”