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terça-feira, 9 de dezembro de 2025

Poço público no Largo do Senado

Até meados do século 20 as fontes e os poços (públicos e privados) foram cruciais para garantir o abastecimento de água potável. Num relatório de 1905 informa-se que na freguesia de Santo António havia 59 poços públicos e particulares, na da Sé 50 poços públicos e 407 particulares e em S. Lourenço 19 poços públicos e 121 particulares.
" (...) a água para consumo é fornecida na sua maior parte por pôços, espalhados um pouco por toda a cidade e dentro das habitações, e que, segundo um estudo recentemente feito, deveriam ser quasi todos atulhados por inconvenientes para a saude publica."
Álvaro de Melo Machado in Coisas de Macau, 1913
Nas imagens o poço público localizado no Largo do Senado que existiu até ao primeiro quartel do século 20 sendo substituído por um fontanário.
“Não há em Macau nenhum curso d´agua. Todas as aguas do consumo provem dos poços, mais ou menos profundos, que existem em grande profusão e em toda a parte. As fontes da Inveja, da Flora e Solidão, provenientes da infiltracção das chuvas na colina da Guia, e a Bica de Lilau, situada na base da Penha, fornecem agua potavel a um numero limitado de habitantes. Na estiagem o povo serve-se da agua da Lapa trazida em barcaças.”
J. Antonio Filipe de Moraes Palha in Macau e a Saúde Pública: elementos historicotopograficos, climaticos, demograficos e nosograficos, 1917

Curiosidade: 
Existiam também inúmeros poços privados. Para facilitar a tarefa dos bombeiros em caso de incêndio na entrada dos edifícios privados que tinham poço, ao lado do número de polícia, tinha de ser colocado também o símbolo - P. 井- (poço em português e em chinês). Ainda hoje podem ser vistos...

quarta-feira, 6 de dezembro de 2023

"Illuminação pública de Macau"

O título do post é também o título de um artigo da página 2 da edição de 3.8.1901 do semanário português de Hong Kong "O Porvir". De forma resumida, o jornal mostra-se contra a introdução da electricidade em Macau, preferindo o gás e o petróleo.
Aqui fica um excerto:
"(...) N'uma cidade como Macau, sujeita e exposta a frequentes tufões e em que de noite reina a pacatez quase aldeã, podendo dizer-se que o toque de silêncio para as tropas da guarnição serve também para o resto da população, a iluminação a luz eléctrica era um luxo supérfluo se não fosse também um perigo; e, sabendo-se que a Câmara não abunda em recursos para prover a outros melhoramentos inadiáveis, seriada parte dela um esbanjamento montar uma iluminação de luxo em ruas transitadas, depois das 10 ou 11 horas da noite, apenas por uns vadios ou jogadores retardatários. (...)
Melhor do que ela para Macau acharíamos por isso a iluminação a gás, mais barata e que tanto serviria para uso público como doméstico. Pronunciamo-nos, todavia, pela continuação da iluminação a petróleo não somente por ela ser mais económica, mas também por ela ser presentemente susceptível de aperfeiçoamentos que, com manifesta vantagem, a podem fazer competir com o gás e até com a electricidade.
Fabricam-se hoje, para isso, na Inglaterra, por exemplo, candeeiros com um poder iluminativo superior, sem cheiro incomodativo e sem perigo, e produzindo uma luz mais intensa e límpida.
Procurando prover-se desses candeeiros que não são caros e alimentando-lhes a luz com petróleo vindo de Timor, o governo e a Câmara de Macau terão montado um bom sistema iluminativo e prestado um bom serviço aos munícipes e ao país, ao mesmo tempo. (...)"

Nota: A sugestão não vingou. A 18 de Abril de 1903 foi publicado o anúncio da abertura de concurso “para o fornecimento de energia eléctrica aplicada à iluminação das vias públicas da cidade” e a 17 de Setembro de 1904 viria a ser assinado o contrato de fornecimento de iluminação pública de Macau por electricidade, entre o Leal Senado e o engenheiro Marius Bert, um francês de Haiphong, Indochina, que ficou com o exclusivo desse fornecimento.
Para o efeito foi criada em Macau a Societé Eléctrique d´Extrême Orient sendo director Charles Ricou. O fornecimento regular da electricidade começou em Fevereiro de 1906. Em 1909 Ricou recebeu 'trespasse' da concessão inicial, assinou um contrato com o Leal Senado (BO 13.2.1909)  e fundou a Macao Electric Lighting Company (Melco).

sexta-feira, 27 de outubro de 2023

Registos de marca de fósforos: 1936

Dois certificados de registo de marca da fábrica de fósforos Tai Kwong Leong Ke  sita na Rua da Alegria. Publicado no Boletim Oficial em Junho de 1936.
Nota: adicionei os respectivos rótulos dos produtos que fazem parte da minha colecção. 
A Tai Kwong Leong Kei foi uma das mais importantes fábricas de fósforos do território onde esta indústria chegou a ter um peso significativo na economia local, nomeadamente na primeira metade do século 20.
Algumas das dezenas de marcas fabricadas em Macau

Curiosidade: Em Março de 1927 foi concedida uma licença para a fundação duma fábrica de fósforos na zona da Porta do Cerco a Rolf Eskil Maghusson, gerente no Extremo Oriente da Sociedade Swedish Match Company Limited, de Estocolmo, Suécia. A edição de 25.8.1927 do The New York Times noticia "Swedish Match Factory for Macao". Embora a maioria das fábricas fossem de origem local, os suecos eram dos mais conceituados fabricantes de fósforos a nível mundial. Esta empresa fez vários investimentos não só em Macau como também em Hong Kong.

domingo, 8 de outubro de 2023

Profissões da população chinesa em meados do séc. 19

Entre os muitos dados do recenseamento da população chinesa de Macau feito em 1867 - total de cerca de 80 mil habitantes* - indica-se que existiam 14 fábricas de chá, uma fábrica de tijolo e telha, 11 fábricas de tabaco, 4 fábricas de cal, 13 fábricas de pivetes, 33 "pharmacias chinezas", 272 boticários, 154 "pintores e photographos", 202 ourives, 54 carteiros, 116 empregados da "illuminação pública", 30 taberneiros, 342 alfaiates, 271 costureiras, 441 pedreiros, 171 mainatos (lavadeiros), 236 doceiros, 1171 cules e condutores de cadeirinhas, 1867 meretrizes, 3833 criados e criadas de servir, 805 carpinteiros, 86 algibebes, 84 músicos, 34 soldados alistados no corpo de Polícia, 296 agricultores, 2823 lojistas, 52 curandeiros, 20 tintureiros, etc...
* não inclui os que viviam em embarcações e que se dedicavam sobretudo à pesca.

sábado, 23 de setembro de 2023

"City of Surprises"

"Macau: City of Surprises" é o título do artigo da autoria de Shann Davies publicado na edição da revista Clipper (da companhia de aviação Pan Am) de Setembro de 1979. Aqui fica um excerto:
Hong Kong’s neighbor blends old world charm with new world pleasures. Far overshadowed by its giant rapidly changing neighbor to the north, Macau might seem no more than the tale of an ancient mariner—a brief canto from the Portuguese. But the city that lies ninety miles downriver from Canton dominated trade between Japan and China, Europe and the Orient at the end of the sixteenth century. Then, in 1640, Japan closed its doors to the world. 
Macau's Portuguese founders (beggared by two centuries of exploration and the struggle for independence from Spain) slipped into Europe's minor leagues, leaving the city to fend for itself half a world away from its mother country. The story could well have ended here. Instead it developed into a serial of corruption, riot, implausible escapes from invasion, assassination plots and bankruptcy. Macau not only survived but emerged with a heritage that can be seen, savored and felt today. 
The elements of rural China, colonial Portugal and Victorian Britain complement each other in this fascinating city. The curling eaves of Buddhist temples and low tiers of shop/houses form an oriental setting for the classic Iberian facades of a dozen churches and the pastel-trimmed mansions of the tea traders from the West. With a quarter of a million people occupying ten square miles, Macau is rarely silent, but the sounds blend in an unlikely concert of Mah-Jong games, church bells, schoolboy soccer crowds, fado and Cantonese opera, hydrofoil sirens and firecrackers, knitting machines and one-armed bandits (which the Chinese call hungry tigers). The integration is so complete that not even graceless new apartment blocks spoil the panorama, and the Lisboa Hotel with its mustard-tiled tower topped with a prickly neon globe seems more an extravagance than an excrescence. 
Macau was founded at the farthest reach of Portugal's empire because of China, and it continues to exist because of China. In 1576 Pope Gregory assigned China's one hundred million souls to the Bishop of Macau together with "Japan and other islands adjacent." The Ming dynasty manda- rins of that day disdained to recognize the small group of barbarians who claimed to have founded Macau in 1557 (recognition was finally granted in 1887), although they welcomed distinguished Jesuit scholars such as Matteo Ricci at the imperial court. China being the center of the world (as far as the Ming were concerned) was not supposed to need foreign trade, but the Portuguese found many Canton merchants willing to exchange silk, porcelain and tea for guns, clocks, telescopes and, later, opium. For more than half a century before the closure of Japan, Macau was home port for the Great Ship—a well-armed caravel that each year sailed to Nagasaki and sold Chinese silk and porcelain for silver. These in turn bought more Chinese goods. Macau also held a monopoly of trade with the Philippines while Portugal was ruled by Spain, and the income from the Great Ship made many fortunes for Portuguese and Macanese traders. (...)
Legenda da foto da autoria de Dan Budnick: A Buddhist monk stands at one of three altars of Macau’s Temple of Kun lam, dating from the Ming dynasty, 400 years ago. In 1844, the temple was the site of the signing of the first trade treaty between China and the United States.

With the Portuguese revolution of 1974, Lisbon began moving towards recognition of the People's Republic, while China, in turn, effectively discouraged a nascent independence party on Macau, leaving that city the only place outside Portugal where the Portuguese flag still flies over a government house. 
It is officially a territory under Portuguese administration, but with a great deal of autonomy. Unofficially it has been a useful back door to the west for the People's Republic, whose local representative, a wealthy entrepreneur named Ho Yin, recently gave a banquet in honor of the outgoing governor—surely an indication of the warmer relations soon to come. Macau's current trade with China consists mostly of US$56 million worth of imported food, raw materials for the flourishing textile industry and unpainted pottery. Exports include salted and dried fish and returns from investment in real estate. 
Until now, Macau has been a tourist gateway to China only for overseas Chinese, but the China International Travel Service recently approved the territory as an entry or exit point for Western visitors, and the road from Macau to Canton has been improved. There is also a possibility of modern ferry service between the two ports, and further gateway possibilities are opening up as the P.R.C.'s relations with the west broaden. 
There are only about 10,000 people in Macau who consider themselves Portuguese, and despite some names of shops, the language is rarely spoken by Macau's Chinese population. Yet the ambience of old Portugal pervades the territory. 
The pace of life is languid, and everyone takes a two-hour lunch break. The hills are crowned with the remains of fortresses, the Bishop's Palace, the Guia (built in 1865) and the oldest lighthouse on the China coast. At street level, there are restaurants serving Portuguese sardines, African chicken, grilled prawns, baked bacalhau (cod) and the best Portuguese wines and ports. 
There are Portuguese schools and hospitals, usually run by the church, and the oldest western theater in the Orient, the beautifully restored Dom Pedro V. 
The third major influence in Macau's history is British. Following in the wake of the Portuguese threatened to capture the town. With a small force of Portuguese, Goans and soldiers from Mozambique, Macau managed to hold out. In 1849 the city was saved only by the speed and daring of Colonel Mesquita, a local man who captured a hostile fortress beyond the border gate. A more recent close call occurred in 1966 when the Cultural Revolution of the People's Republic of China spilled over into Macau. The city was in the difficult position of being an overseas province of a country that still hadn't recognized the communist regime in Peking. Once again the death knell proved premature, although the Portuguese authorities were forced to acknowledge a degree of local communist control. (...)

terça-feira, 15 de agosto de 2023

Memórias da pesca artesanal

Memórias de uma técnica muito especial de pesca artesanal que desapareceu de Macau no final do século 20. Pode ver um pequeno vídeo aqui.
Imagens das décadas 1940, 1950 e 1960 

domingo, 16 de julho de 2023

Diccionário Universal de Educação e Ensino (1886) - 2ª parte

continuação... 

Igreja de S. Paulo

O cemiterio catholico é, como dissemos, no recinto da incendiada igreja de S. Paulo. Serve-lhe de frontaria e de entrada o frontispicio do templo que as chammas pouparam e se acha em bom estado de conservação. É uma fachada grandiosa pelas suas proporções adornos e materiaes. Porém a sua architectura é falta de gosto e sobrecarregada de decorações. Compõe-se de quatro corpos de differentes ordens de architectura. O primeiro é adornado de dez grandes columnas jonicas entre as quaes se abrem tres portas que dão entrada para o cemiterio. O segundo é decorado com outras dez columnas da ordem composita e quatro estatuas mettidas em nichos. O terceiro tem por ornatos seis columnas corinthias, uma estatua de Nossa Senhora em um nicho cercado de figuras de anjos quatro quadros com baixos relevos de figuras symbolicas e ainda outras decorações. O quarto corpo é ornado de quatro columnas, tres estatuas e diversos emblemas da Paixão de Jesus Christo tendo por corôa um frontão em cujo tympano se vê representado o Espirito Santo. O templo de S. Paulo foi uma das mais ricas e notaveis construcções que os jesuitas levantaram no Oriente. Era o principal monumento de Macau e tinha celebridade n'uma grande parte da Asia. Para a edificação do cemiterio demoliram-se as paredes lateraes da igreja até meia altura e construiram-se junto d'ella dous lanços de galerias abobabadas sustentados por pilares. A parte superior é um terrado e serve de passeio na parte inferior abriram-se catacumbas nas paredes e sepulturas no pavimento. No lugar occupado outrora pela capella mór edificou-se  a capella do cemiterio. O que era recinto da antiga igreja está arruado e plantado de cedros. Este cemiterio é administrado e foi feito pela confraria da misericordia no anno de 1837 sob a direcção do padre Joaquim José Leite, superior do collegio de S. José. 
O cemiterio dos chins é em sitio ermo. Os seus tumulos alvejam por entre latadas de flôres. As ruas da cidade são pela maior parte tortuosas estreitas e pouco aceadas principalmente as que ficam mais proximas ao mar todavia em outro tempo foram muito mais immundas. 
As casas construidas de pedra e caiadas exteriormente têm uma apparencia regular e mostram aceio. Algumas edificadas no gosto singelo e elegante da architectura ingleza e pertencentes a subditos da Grã Bretanha são de mui agradavel aspecto. Onde se vêem mais casas d'esta architectura é na Praia Grande, á beira mar sobre um caes extenso e magnifico com desembarcadouros commodos. É o melhor e mais lindo sitio da cidade.

Comércio

Macau é perfeitamente abastecida não só dos mantimentos necessarios á vida mas tambem de muitos de regalo. Acha-se sempre provida de excellentes carnes, de muita variedade de aves, peixes, hortaliças, legumes e fructas. Recebe todas ou quasi todas estas provisões do territorio chinez, circumstancia que obrigará em todos os tempos o governo e os moradores de Macau a procurarem viver em boa harmonia com o celeste imperio.
Tem esta cidade bons mercados cobertos e d'estes o melhor em edificio e mais notavel pela variedade e valor das mercadorias que expõe á venda é o bazar chinez. Os chins têm singular geito para fazerem exposição de productos de industria Sabem dispô-los com verdadeiro gosto artistico e de maneira a fazer realçar cada um dos objectos. Tanto no bazar como nas lojas observam á risca esta pratica.
O commercio é a industria quasi exclusiva de Macau pois que não tem fabricas nem terrenos para lavoura. Todavia possue algumas pequenas industrias manufactoras muito aperfeiçoadas posto que exercidas em geral pelos chins. Os trabalhos em que estes artistas mais sobresahem são os da ourivesaria e os da esculptura em marfim, tartaruga e madeira de que fazem artefactos de pasmosa delicadeza.
Os arrabaldes da cidade são limitadissimos pois que todo o territorio que ahi possuimos mal chega a ter uma légua de comprimento e meia na sua maior largura acrescendo a isto a ingratidão do sólo. Entretanto contam-se em volta da cidade várias hortas e jardins e três aldêas habitadas por chins.

Gruta de Camões

Há em Macau uma curiosidade natural e ao mesmo tempo sitio histórico, de mui subido apreço. É a gruta de Camões onde o príncipe dos poetas portuguezes, inspirado pelo amor da pátria, compôz alguns cantos ou deu os últimos traços no seu poema sublime os Lusíadas, com que glorificou Portugal e se immortalisou a si próprio. É formada esta gruta por grandes rochedos com duas entradas divididas por um penedo de figura cónica no qual descança a parte superior da rocha. Sobre a gruta está um esbelto pavilhão ou mirante d'onde se descobre em dilatado horisonte a bahia e a cidade de Macau e parte do porto da Taipa ou Typa, sempre animado por uma immensidade de navios europeus e barcos chinezes. Acha-se esta gruta em um quintal particular. O seu actual proprietario, o snr. Lourenço Marques mandou ha pouco fazer em Lisboa um busto em bronze do grande poeta para ser collocado n'aquella célebre lapa. Foi feito o modelo pelo snr Bordallo Pinheiro e os trabalhos de fundição foram executados nas officinas do arsenal do exercito pelo snr. Felisberto José Pereira. Está feito o busto com bastante perfeição. Tem de peso 49 kilogrammas.


População
A população de Macau tem tido muitas e grandes variações em resultado de alguns acontecimentos de Portugal e ainda mais dos successos de que tem sido theatro a China, desde o anno de 1842 em que a expedição ingleza ao cabo d'uma curta lucta conseguiu fazer abrir aos europeus os portos do celeste império. A emigração dos chins do território do império para dentro da cidade ou d'esta para outra qualquer parte é que fórma aquellas grandes variações. Em certas épocas chegou Macau a não ter mais de dez mil moradores. Quando a guerra assolou Cantão em 1854 elevou-se aquelle número a mais de sessenta mil. Presentemente poder-se-ha calcular em trinta e cinco mil almas a totalidade da população, sendo cinco a seis mil portuguezes, vinte e cinco a trinta mil chins, e quinhentos a seiscentos estrangeiros, em grande parte inglezes, francezes, americanos e hollandezes. A população de Macau em 1871 era a seguinte: Christãos 5500; Mouros parses, etc 2500; Chins de terra 53 700; Chins maritimos 10 000; Total 71 700. 
Clima

A salubridade do clima, a bondade e variedade de víveres e também a do sitio, attrahem a Macau em certa época do anno muitos negociantes inglezes de Hong Kong que a procuram como lugar de repouso e de recreio. Assim tambem serve muitas vezes de hospedaria ás legações europeas na China. D'este trato tem colhido a cidade muitos proveitos d'entre os quaes mencionaremos a edificação de lindas casas de campo e a introducção de muitas commodidades e confortos da vida hoje usados na Europa.

Importações e Exportações

No mesmo anno (1871) as importações tiveram o valor de 7993 contos de reis e as exportações 5014 contos. Os géneros que mais avultaram foram o chá e o opio. 

Ensino

Há em Macau um seminário, uma aula de pilotagem, três escolas primárias para o sexo masculino e uma para o sexo feminino. Em 1874 a frequência do seminário foi de 160 alumnos, a da aula de pilotagem de 9 e a das escolas primarias de 127. 

Excerto de "Diccionário universal de educação e ensino. Util á mocidade de ambos os sexos, ás mães de familia, aos professores, aos directores e directoras de collegios e aos alumnos que se preparam para exame Contendo o mais essencial da sabedoria humana e toda a sciencia quotidianamente applicavel, especialmente ao ensino. tudo simplificado ao alcance dos alumnos e pessoas meramente desejosas de instrucção, com elucidações tão profícuas aos mestres quantos proveitoas no trato das famílias. Redigido com a collaboração de escriptores peculiares por Emile-Mathieu Campagne diretor de Collegio. Trasladado a portuguez e ampliado nos varios assumptos relativos a Portugal por Camilo Castelo Branco".  Vol. 2. Nova Edição Portugueza Illustrada. Porto, 1886

Nota: As imagens não fazem parte da obra referida; para facilitar a leitura acrescentei títulos ao longo do texto.

sábado, 1 de julho de 2023

Tak Seng On - Fu Hang Ngan Hou

A Casa de Penhores Tak Seng On (Casa de Penhores Virtude e Sucesso) foi inaugurada em 1917. Localizada na Av. de Almeida Ribeiro - na altura ainda não estava pronta totalmente faltando o troço final da ligação à Praia Grande) era propriedade de Kou Ho Ning, um comerciante bastante abastado de Macau. Actualmente é um museu. A torre prestamista pode ver-se do lado esquerdo.

德成按典當業展示館
Vista parcial da fachada actual
 Excerto de "Macau e os seus habitantes", de Bento da França, 1897:
"Para se fazer idéa de quanto em Macau se especula com o jogo sempre acrescentaremos que proximo de cada casa de fan tan, ha um hão, casa de penhores, onde os jogadores às vezes deixam o fato que traziam vestido".

Segundo o recenseamento de 1897, existiam na cidade de Macau 14 proprietários de casas de penhor cuja totalidade rondava as 40 unidades - denominadas oficialmente Hãos Grandes - 3 na Taipa e outras tantas em Coloane. Entre as várias diferenças que existiam entre os Hãos Grandes e os Hãos Pequenos, estava o prazo máximo do empréstimo com juros: 3 anos e 1 ano, respectivamente.

Excerto do Boletim da Província de Macau e Timor de 26.4.1869:
"Sabbado de tarde recebeu S. Exa. o governador em uma commissão de oito negociantes chinas encarregada de offerecer a S. Exa. a um precioso mimo em nome da communidade chineza d'esta cidade. O delicado presente a que referimos consta de uma espada de prata e um album no gosto chinez, com costas de prata, de magnifico gosto e labor. Nas do album acham-se em caracteres chinezes mais de 200 nomes dos principaes hãos e negociantes chinas de Macau, e algumas sentenças de Confucio, que tem applicação aos generosos sentimentos que os chinas apreciam e respeitam no actual tenente-rei de Sua Magestade Fidelissima nesta colonia. Alem dos primorosos objectos que mencionamos, consta ainda o presente de uma especie de bambinella de seda vermelha, bordada a matiz muito usada pelos chinas nas salas de recepção, na qual em caracteres sinicos doirados se lèem os nomes de algumas cidades da Europa e da China, bem como os nomes de S. Exª ao Almirante Sergio e o dos chinas residentes que n'este precioso regalo tiveram em vista provar que não passam desapercebidos os cuidados incessantes que em prol de seus ligitimos interesses tem o actual governador da colonia."

terça-feira, 27 de junho de 2023

1934: cédula/vale do Chan Tun Chen Bank

Na imagem frente e verso de uma cédula/vale do Chan Tung Cheng Bank - valor 10 dólares - onde se destaca a fotografia do edifício do próprio banco. Ou melhor, da Casa de Câmbio, visto tratar-se  do Cambista Tong Cheong localizado no nº 73 da Avenida Almeida Ribeiro.
Entre a informação inserida refere-se que a cédula foi emitida no 23º ano da República na Chinam ou seja, em 1934. Neste caso a 18 de Janeiro. Surge ainda a indicação do número 
de telefone da casa de câmbio, o nº 2310.

quinta-feira, 18 de maio de 2023

Alguns dados estatísticos de 1954/55

Macau consists of the island of Macau and the two smaller adjacent islands of Taipa and Coloane.
Capital: Macau.
Area (square kilometres): 16
Estimated Population (1955): 187,772

Production:
Little production; Imports and exports due to transit trade. In 1954 Almond Oil 95 tons.; Matches 984 tons; Tobacco 438 tons;  Wine 1,608.6 litres.

Currency
The currency of all the Overseas Provinces is the Portuguese Escudo. In Macau the Pataca is used as local and trading currency but the Escudo is the unit for official accounts. The Portuguese Escudo in April 1956 was exchangeable at the rate of 28.6 to the US dollar and 80.1 to the sterling. The Pataca Macau is worth half a US dollar, 7.6 to the sterling.

Administration
The Overseas Provinces are all administered under the Colonial Act of 1930, later incorporated in the 1933 Constitution of Portugal. Each province is under the control of the Metropolis but it is financially and administratively autonomous. The Budgets must be approved by the Minister for the Overseas Provinces and no public loan may be contracted in a foreign country. A governor is appointed to each province by the President of Portugal.
The town of Macau is divided into a Chinese and a non Chinese ward each with its own administrator acting under the Governor (in Macau, Real-Admiral Joaquim Marques Esparteiro).

Press
Notícias de Macau: Calçada do Tronco Velho, 6 f. 1947 Daily independent Dir Cassiano de Castro Fonseca Propr. H. Machado Monteiro.
Boletim Oficial: PO Box 33 Macau f. 1838 Weekly. Government publication Dir. Jaime Robarts (na verdade era o director da Imprensa Nacional)
Boletim Eclesiástico: Câmara Eclesiástica da Diocese de Macau Dir. Father Nunes da Costa. Weekly Religião e Patria: Seminario de S. José Macau Dir. Father Ferreira.

Broadcasting
Emissora Vila Verde: Independent station owned by Dr Pedro José Lobo broadcasts in Chinese, Portuguese and English

Banking
The following foreign banks have branches in Macau:
Banco Nacional Ultramarino - Av. Almeida Ribeiro, 2 Caixa Postal 514; Macau bank of issue for all Portuguese overseas provinces except Angola. Head Office Lisbon.
Bank of China - Macau
Kwangtung Provincial Bank - Macau

Insurance
The following Portuguese companies are represented in Macau:
Comércio e Industria - agents H Nolasco & Ca, Macau Head Office Rua do Arco de Bandeira 22 Lisbon 
Companhia de Seguros Tagus SA - Rua da Praia Grande. Macau agent F. Rodrigues. Head Office Rua do Comércio 48 Lisbon.
Ultramarina SA - Av. Almeida Ribeiro PO Box 223. Macau agent H. Nolasco da Silva Head Office Rua da Prata 108 Lisbon
clicar na imagem para ver em tamanho maior
fotografia não incluída na obra referida

Excertos de Orbis, Encyclopaedia of Extra-European Countries - A Survey and Directory of Political, Industrial, Financial, Cultural and Scientific Organisations in the Countries of Africa, America, Asia and Australasia, 1958.
Nota: Não sendo exaustiva, a informação compilado no livro pode considerar-se bastante completa.

terça-feira, 7 de fevereiro de 2023

Relatório do cônsul holandês em 1894

"Verzameling van Konsulaire en andere berigten", título da publicação holandesa que significa "Recolha de mensagens consulares e outras". Nesta edição de Janeiro de 1896 é incluído o relatório do cônsul holandês em Macau, C. Milisch, que era também comerciante (Raynal & Co. e Dreyer & Co.)). Versa sobretudo assuntos económicos: desde os bens produzidos, importações e exportações; referência à fábrica de cimento na ilha Verde; fábrica de pólvora; etc...
clicar nas imagens para ver em tamanho maior

Milisch passou a ser sócio da Raynal & Co
Anúncio publicado no Ta-Ssi-Yang-Kuo a 23.6.1864

quinta-feira, 19 de janeiro de 2023

Leilão de "Macao Teas": 1878

Anúncio de Leilão de Chás de Macau

500 "meio-cestos" de Congou (variedade de chá preto) sendo a mais usada no chamado "pequeno-almoço inglês".

Jornal da Austrália The Argus - 15.6.1878

Ao longo do século 19 o Chá foi um produto com grande quota nas exportações de Macau. Em 1890, por exemplo, foram exportados 157.505 cestos. As folhas de chá chegavam a Macau das províncias vizinhas da China continental. No território o chá (preto, verde, etc...) era escolhido, torrado, preparado e embalado para exportação. Por cada 100 cates de chá em bruto saíam do território cerca de 70 cates de chá preparado.
Em 1889 a exportação de chá preto atingiu os 14 mil picos. Um pico corresponde a cerca de 100 cates, ou seja, cerca de 60kg.
Neste registo de "Movimento do Porto" de Macau entre os dias 20 e 25 de Outubro de 1863, o "chá" é o produto em maior evidência, nomeadamente nos navios que saíam de Macau (exportação).

Excerto de "No Oriente: De Napoles á China", de Adolpho Loureiro, 1896:
"(...) Fui apresentado a um dos mais ricos negociantes e banqueiros chins de Macau. Mandou immediatamente servir me charutos de Manilla e chá, que se faz em cada chavena de porcellana, que tem pires tambem de porcellana ou de zinco furado, onde a chicara encaixa, sendo coberta com uma tampa da mesma porcelana. Deitam-se-lhe as folhas do chá e a agua a ferver, cobre-se a infusão por algum tempo, e toma-se depois esta bebida sem assucar. O chá que ali tomei era um pouco adstringente, como o nosso chá verde, mas com um aroma precioso. Serviram-me depois para provar um outro chá, de folha muito miuda e de um aroma e sabor finissimo e muito agradavel. Era o chá conhecido pela denominação de chá mandarim. (...)" 

terça-feira, 18 de outubro de 2022

Green Island Cement Co.

Green Island (Ilha Verde) Cement é o nome da única fábrica de cimento de Hong Kong. Ainda labora e as origens remontam a Macau e ao ano de 1886. O actual logotipo da empresa remete para a colina da referida ilha. Na época era de facto uma ilha...
Anúncio de 1897

Anúncio de 1917

Vejamos um pequeno texto de 1922 intitulado "Green Island Cement Works"
Two cement works are operated by the Green Island Cement Co Ltd a British corporation operating under a Hongkong_charter with its head offices at Hongkong and managed by Shewan Tomes & Co. One of these plants is at Kokun, a suburb of Kowloon just across the bay from Hongkong. The second is on Green Island Ilha Verde at Macao about 40 miles by water from Hongkong. This is the original plant for which the company is named It was established in 1886.
The Green Island plant at Macao consists of five vertical kilns with necessary crushing mixing and grinding machinery of English make. The clinker is ground to 180 mesh in tube mills using local pebbles. The average production is about 350 barrels of 375 pounds net each. Barrels are made at the plant from pine brought from North China which cost 0.72 Mexican each. 
Limestone is brought down the river from Yintak on the North River in Kwangtung about 200 miles distant by water and costs 3.50 Mexican per ton at the plant. Clay is dug from the mud flats about one half mile from the plant and is dried on extensive drying floors in good weather and in kilns in wet weather. This plant supplies about 900 tons of this clay each week to the allied plant 40 miles distant at Hokun. The coal used varies according to the price at which the coal can be obtained. When visited by the writer, the plant was using Japanese coal from Ochi which was then quoted at 24.30 Mexican per ton in the open market at Hongkong. Before the war the price was approximately 9 Mexican for the same coal. Cement from this old type plant probably costs 5 Mexican per barrel considering the prices for raw materials to be those already stated. (...)
Excerto de Cement Industry of China, Julius Morgan Clements, 1922
Informação de um directório/lista de classificados de 1920

segunda-feira, 19 de setembro de 2022

Os Pang Tang

Os chamados cheques-prata ou Pang Tang eram títulos fiduciários (garantidos por depósitos de moeda de prata) emitidos por empresas e bancos privados na primeira metade do século 20. Sendo ilegais eram tolerados pelas autoridades locais.
Po Hang Bank (Rua dos Mercadores)

Estes títulos circulavam paralelamente à moeda oficial de Macau cujas primeiras notas só foram emitidas em 1905 e que nos primeiros anos não tiveram a confiança da população. A desconfiança era de tal ordem, que mesmo tendo de pagar uma taxa de câmbio, as pessoas preferiam os Pang Tang à pataca de Macau e, na verdade, em certas lojas nem sequer se aceitava a moeda pataca. Foi este o cenário durante cerca de 40 anos.
Banco Pou Seng (valor facial 50)

A partir do final da década de 1930, com a invasão da China pelo Japão e depois com o alastrar da segunda guerra mundial à Ásia, estes bancos privados começaram a não ter reservas em prata para cobrir as responsabilidades dos pang tang emitidos. A confiança nesta modalidade de dinheiro paralela foi diminuindo e acabou em desuso.
Yau Sun Bank (valor facial 50)

Mas nos tempos áureos chegaram a existir dezenas destes bancos privados: Chin Fong, Hang Heng, Hang Fat, Po Hang (um dos mais importantes), Pou Seng, Tin Lee, Yau Sun, etc...
Tin Lee Co

domingo, 6 de março de 2022

A sucursal de Macau da The Hong Kong Match Factory

Com a invasão da china pelos japoneses a partir de 1937 uma fábrica de fósforos transferiu-se de Swatow (Shantou) - cidade de Guangdong - para Kowloon (Hong Kong) dando origem em 1939 à The Hong Kong Match Factory. Mais tarde deu-se a invasão de Hong Kong e a empresa montou uma sucursal em Macau. A fábrica ficava na Rua Marginal do Canal das Hortas, perto da Porta do Cerco.



segunda-feira, 29 de novembro de 2021

Making fireworks is the biggest industry: 1961

"Making fireworks is the biggest industry in the Portuguese territory, of Macao, which adjoins Communist China near Hong Kong. The fireworks are shipped all over the world. Seated at low tables in the streets and alleys, thousands of children roll numerous containers for the gunpowder. They are paid a few pence for every 1000 cartridges. Their nimble fingers roll them in a flash and gum down the ends. These children often support the rest of the family with rice from the pittances they earn."
Fotolegenda publicada num jornal da Nova Zelândia a 27.9.1961 sobre a indústria de panchões.
Tradução:
“A produção de fogos de artifício é a maior indústria do território português, de Macau, vizinho da China Comunista perto de Hong Kong. Os fogos de artifício são transportados para todo o mundo. Sentadas em mesas baixas nas ruas e becos, milhares de crianças enrolam inúmeros cartuchos para a pólvora. Recebem alguns centavos por cada 1000 cartuchos. (...). Estas crianças costumam sustentar o resto da família com arroz com a ninharia que ganham." 

segunda-feira, 23 de agosto de 2021

"Macao Still Outpost of Capitalism"

O artigo é da agência Newsweek e foi reproduzido em inúmeros jornais um pouco porto todo o mundo, mas sobretudo nos EUA. Com o título "Macao Still Outpost of Capitalism" (ponto avançado do capitalismo), dá conta das particularidades do território no início da década de 1970, uma 'lança' do capitalismo vizinho da China comunista, um paradoxo que parecia resultar após as dificuldades das manifestações anti-imperialismo de meados da década de 1960. A fotografia, uma panorâmica da baía da Praia Grande em 1969, não faz parte do artigo.
"The most startling fact about this tiny Portuguese colony 40 miles southwest of Hong Kong is that it still exists at all. Perched on a 6 1/2 square mile penisula that juts out toward the South China Sea, it is a remote outpost of capitalism that sits vulnerably right under the massive presence of communist China.
"The Chinese,", says onde resident, "could take this place with one phone call any time". But hey haven't taken Macao and the reason, ironically enough for disciples of Karl Marx, is purely and simply crass materialism. The little colony is a fiscal gold mine and Peking would surely lose much more that it could possibly gain by swalling it up.
As the Monte Carlo of the East, Macao attracts thousands og eager gamblers and tourists from all over the world to its casinos and famous dog track. And as the behind-the-scenes power, the Communists rake in millions of dollars a year from the money these visitors shell out at roulette tables, betting spots and tourists shops.
There are few places in the world, in fact, whre capitalism and communism coexist quite as peacefully now as they do in Macao. But his tranquility is a recent phenomenom.
Only three years ago, it appeared to the tourists and gamblers who walked its cobled streets and sipped Portguese wine at its sidewalk cafes that Macao was finished.
Taking there cue from cultural Revolution on Mainland China, hundreds of local Red guards swarmed through the colony In a series of violent street demonsgtrations coupied with the presence of Chinese gunshots and clandestine political maneuvering the Communists stripped the Portuguese of all but the trappings of power. (...)
Finally Peking that the local Red Guards excesses were serving only to ruin things. (...) Nothing is done without Peking's permission. this power is exercised chiefly through the local chamber of commerce which is dominated by a mysterious millionaire named Ho Yin.
Ho has the unique distinction of being a practicing capitalist and a dedicated Communist. (...)
With the new rapproachement, a Riviera-like calm once again prevails in Macao. And the colony is enjoying a general economic boom, epitomized by the new, high-rising, 333-room Lisboa luxury hotel. (...)
209 new businesses were started last year most of them shops and small factories making and selling everything from binoculars to insense. (...)
When the two-mile bridge is completed from Macao to the islands of Taipa and Coloane, some 4 1/2 square miles of underpopulated land will be available for business, residential and resort development. (...) Probably nowhere else in the world can signs advertising American cars, English cigarettes and Japanese watches be seen interspersed with official posters proclaiming "Long Live The communist Party" and "Long Live Chaiman Mao".
Reading Eagle - ‎22.07.1970