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domingo, 29 de março de 2026

Duas versões do casino Macau Palace - 海門皇宮

O postal ilustrado é do início da década 1970 - nº104 - e mostra o casino flutuante Macau Palace na baía da Praia Grande com o Hotel Lisboa (inaugurado em Fevereiro de 1970) ao fundo. O casino foi inaugurado a 26 de Maio de 1962. O que está na imagem - a ser conduzido ao local de atracagem no Porto Interior - corresponde a uma nova versão. A primeira versão é a que se pode ver abaixo. Muitas diferenças... Por exemplo a nova versão tem mais um piso! Foi 'cenário' de vários filmes na década 1970. Em breve falarei de alguns...
Primeira versão do "Macau Palace"

Voltando ao postal... Nos caracteres chineses 海門皇宮. Ou seja, Palácio Macau. A estrutura no topo parece ainda não ter as luzes em neon que o identificavam (ver outro postal abaixo).

No verso do postal a legenda em três línguas:

Português:
"O novo 'Macau Palace', casino-restaurante flutuante de três pisos, com a sua exótica decoração oriental tornou-se uma das maiores atracções turísticas de Macau."

Chinês (Tradicional):
澳門海上皇宮娛樂場世界新紀元全部宮殿裝飾 內備:活動劇場、粵菜酒家、西餐廳、電動梯、酒吧。
(Tradução: Casino Palácio Flutuante de Macau, decoração palaciana de uma nova era. Inclui: teatro móvel, restaurante cantonês, restaurante ocidental, escadas rolantes e bar.)

Japonês:
マカオパレス外観娯場とに世界的な中国宮殿式設計に建築、内部では劇場、粤菜酒家、西洋餐能バー、エスカレーター等完備。
(Tradução: O exterior do Macau Palace foi construído com um design de palácio chinês de classe mundial; o interior está totalmente equipado com teatro, restaurante cantonense, bar de comida ocidental, escadas rolantes, etc.)

Inglês:
"The new Macau Palace, a floating three-deck casino-restaurant, with its exotic Oriental decoration, has become one of the biggest tourist attraction in Macau."

sexta-feira, 8 de novembro de 2024

"Macao, Still Awaiting 20th Century, Gambles On"


"(...) The round casino on the first floor of the Lisboa Hotel here is always packed with gamblers. Chinese grandmothers in silk pajamas shuffle across the floor in low-heeled mules carrying green and red plastic bowls filled with pataca, Macao's currency. Carefully dressed Hong Kong businessmen who arrived by hydrofoil from across the Pearl River estuary mingle with the more successful immigrants who walked to this Portuguese territory through the barrier gate from China.
In novels, Macao is the capital of intrigue where beautiful Eurasian women get mixed up with sinister drug dealers or smugglers who use this territory's ancient trading connections with mainland China, Hong Kong and Europe to move valuable pieces of Chinese art.
''Macao is fiction,'' said Lee Tin Yau, a textile merchant. ''It is a place that exists most vividly in books. Today it is a place to gamble or buy antiques or daydream. Macao was once an important place, a hundred years ago. No more.''
Popular Gambling Area
''People come here to gamble,'' said Chow Ho Lee, a Hong Kong fabric salesman who comes to Macao at least twice a month to play fantan. In this ancient Chinese game, an inverted silver cup is plunged into a pile of porcelain buttons and pulled away. The bets are placed, the cup is lifted and the buttons are counted off in groups of four until four or less remain. ''My number is three,'' said Mr. Chow.
Excerto de artigo da autoria de Pamela G. Hollie publicado na edição de 8.4.1982 do The New York Times

sexta-feira, 4 de agosto de 2023

Referências em guias de turismo ao "Macau Palace"

O Casino flutuante Macau Palace foi um ícone da indústria do jogo de Macau durante várias décadas (encerrou na primeira década do século 21). Tinha três pisos e, para além do jogo, um excelente restaurante de gastronomia chinesa onde se destacava o dim sum. 
Para este post selecionei algumas referências ao espaço escritas em publicações sobre turismo.
"At mid - 1969 there were two main casinos, the Casino de Macau in the Estoril Hotel and the Macau Palace or " floating casino " near the Inner Harbour end of the Ave. Almeida Ribeiro.
Golden Guide to Hongkong and Macao, 1970
"There are a number of casinos in Macau, some quite small and restricted to local clientele. The main casinos are in the Hotel Lisboa, Hotel Estoril, and the Macau Palace floating casino on the Inner Harbour."
Papineau's Guide to Hong Kong, and Spotlight on Macau, 1970.

"Two exciting gambling casinos in operation are the Macau Palace Floating Casino and the Casino do Lisboa. The Macau Palace, moored in the Inner Harbor, is a palatial casino with exotic Chinese décor, like a Mississippi steamer."
Sawaddi, 1976
"Macao has five casinos; besides the Lisboa, the main establishments are the Casino do Macau in the Hotel Estoril, and the Macau Palace."
Guia "Hong Kong", 1971
"A very secular shrine, moored on the western water- front, is the Macau Palace, a floating casino. This fancifully decorated multi-storey barge has gambling tables, slot machines (known locally as 'hungry tigers')."
Guia Hong Kong, 1979
"If you're a gambler and don't want to stray too far from the dice, the Macau Palace serves up dim sum (by day) and good steaks and seafood in the floating casino."
Travel & Leisure, 1977

sexta-feira, 23 de junho de 2023

Casino Jai Alai

O casino Jai Alai foi inaugurado em 1974. Situado junto ao terminal marítimo de passageiros do Porto Exterior, custou cerca de 60 milhões de dólares de Hong Kong e tinha 5 pisos. Nas primeiras décadas de actividade ficou conhecido pelo espaço de enormes dimensões no interior  dedicado à pelota basca com capacidade para 5 mil espectadores. O nome Jai Alai deriva da expressão basca que significa "festa feliz".


O jogo - pelota basca - tem origens bastante remotas (Idade Média) e inúmeras variações mas que no essencial se caracteriza por ser um jogo em que se atira uma bola à parede. De Espanha o jogo depressa chegou à América do Sul e depois aos EUA onde fez furor nas décadas de 1960 a 1980, tal como em Macau. Em 1900, 1968 e 1992 foi modalidade dos Jogos Olímpicos.
Propriedade da SJM, o Jai Alai foi remodelado na década de 2010. Existem outros casinos com o mesmo nome em Miami e Acapulco, por exemplo. 
A “Sociedade de Pelota Basca de Macau S. A. R. L.” foi criada em 1971 e no ano seguinte assinava a concessão do jogo por um período que ia até 1989. O primeiro jogo ocorreu a 15 de Junho de 1974. O casino começou a funcionar no ano seguinte, encerrando então o casino do Estoril (também da STDM) que passou a funcionar apenas como hotel. O Jai Alai tinha, além de bares, restaurantes e casino um espaço para espectáculos apreciável realizando-se eventos para o grande público como a eleição da Miss Macau.
Numa brochura turística da década de 1980 pode ler-se:
“A spectacular stadium with a capacity of 5,000, where the fastest ball game in the world is played seven days a week. Jai-Alai, know as Basque Pelota, is played each night of the week (starting 7.30 p.m.), Saturdays and Sundays. when there are matinée performances (from 2 p. m.). The game takes place in the Jai-Alai Palace located on Macau´Outer Harbour near the hydrofoil terminals. Admission is 1 pataca. Boxes are 18 patacas for six persons. Bar, snack-bars and restaurants facilities are available in the stadium”

sexta-feira, 31 de março de 2023

"Magical Macau"

Joy e Len Rutledge assinam este artigo publicado a 3 de Novembro de 1978 no jornal "Papua New Guinea Post-Courier". Aborda, entre outros temas, os na altura novíssimos jetfoil, o hotel Lisboa (inaugurado 8 anos antes), os casinos... Inclui duas fotografias: Igreja S. Domingos e Casino Flutuante.

Magic and intrigue seem to go hand in hand with our thoughts of the Orient. We dream of smoke - filled rooms where shadowy figures plan deals worth millions or dream up plots to os, overthrow the world - Nowhere are these thoughts put more to the test than in Macau, that tiny Portuguese enclave on the south coast of China.
Our recent visit to Macau dispelled some notions that had been harboring in our minds but much of the magic, and intrigue remains. Here on the back porch of the People's Republic of China are rococo churches and tiled roof-houses, winding; cobblestone streets and sidewalk cafes, cannon - studded fortreses and old men wearing berets.
It was here that East and West first met. Their embrace started a love affair that continues to this present time. This is the oldest permanent European settlement in Asia. It's diverse people appear now to live together in peaceful and harmonious co-existence. It was not  always like this. Macau remains a mystery to many. You look up an airiline time-table and you don't find it listed, for Macau has no airport.  No cruise ships will list it as a port of call and there is no railway.
Unless you are a Communist Chinese, the only way to visit Macau is by boat from Hongkong. In fact there are three choices. The leisurely way is the 3 hours crossing by ferry. The popular way is the 75 minute trip by hydrofoil. We went the so-called exciting way by Boeing jetfoil.
The jetfoil ride is an experience in itself. These revolutionary craft "fly" on underwater wings. The result is the fastest and smoothest luxury passenger sea transport in the world.
Macau, like Lisbon and Rome, is built of seven hills and like those famous cities it too has a glorious and somewhere tempestuous past. The city has grown up with a Portuguese ambience which is proudly displayed in the charm of its buildings. its traditions and its religious festivals. But it is also a very Oriental city, alive with the pulsing rhythms of China, ancient and modern.
Macau is perhaps the most distinctly Chinese place left anywhere in the world. Or perhaps it is just what we Westerners would like China to be? 'We asked Gloria Azedo, our guide from the
Tourist Department, what she thought. Her answer confirmed our thoughts. "In China, the character of the cities: has been largely changed by modernisation and low cost housing  programs and many old Chinese institutions have been sunweased there as remnants of the past." 
In Macau, they all survive and in fact many thrive. There are the small Buddhist and Confucian temples, the traditional lotteries, the many pawnshops and markets and the timeless fishing junks at rest in the harbor.
Macau is surrounded by China. Through the border gate flows a steady stream of food, water and supplies. The so-called bamboo curtain seems hardly to exist here. We watched trucks with dual Macau and China number plates passing through the border with hardly a glance from the guards.
Clearly Macau, could not exist without the close co-operation of China. We wondered just how much, influence China has on life in Macau. There are stories of deals, of Red Chinese control of many activities, but no one will, feall'y say.
Equally Macau in its present form could, not exist without gambling. It is  currently the gambling mecca of the Far East. Macau has always existed by doing things that others considered too daring, dangerous or devious. At other times its major source of income has come from the illicit trade in gold and opium, acting as a middleman in the profitable China-Japan trade when the Chinese were forbidden to trade with Japan and from its opium dens, easy women and unregulated  gambling halls. 
All but the gambling has gone, but as if to compensate for the lost, notoriety gambling has diversified into virtually every form imaginable and its all legal and more highly organised, than ever before.
As the jetfoil approached the shore Macau looked as sleepy, as picturesque and anachron existeally colonial, as anything described by Somerset Maugham with one glaring exception. The exception is the improbable 600 room Hotel Lisboa, whose architecture should only exist in Disneyland, and the adjacent road bridge which rises in curved splendor to pass over the shallow muddy waters of the Pearl River Estuary.
Once you are ashore the atmosphere rapidly surrounds you. A stroll along the waterfront boulevard with its century old trees is a delightful experience. Turn a corner and in a moment you leave the Chinese vessel fishing scene and enter a world of pastel colored "palatios", 17th century-churches and-towering ruins that sneak of Europe.
You can stroll for a whole morning thourgh the humpbacked alleyways and barely see a  European face, yet around the corner are avenues lined with ancient banyan trees which should only exist in Meditarreanean Europe.
Gambling in Macau never stops and, once in Macau, it is almost impossible to avoid a visit to a casino. All city tours include a stop on the itinerary and even if you decide to see Macau on foot we strongly advise you to visit either the casino in the Hotel Lisboa or the floating Macau Palace.
The Lisboa casino has a quiet luxury about it with its carpeted softly clean and well ordered rooms. The floating casino, which was featured in the James Bond film "Man with the Golden Gun", has a more exotic Chinese style of decoration and certainly more noise. There is no entrance fee or formality and without spending a dollar you can watch little old ladies rubbing shoulders with, systems operators and raw tourists.
Distinctions of race, culture and language disappear when the chips are down; then they are all simply gamblers. You will either find the casinos invigorating or depressing. We confess to finding the fanatical gamblers - engaged in - a rather squalid pastime and our stay was fairly short. 

terça-feira, 13 de setembro de 2022

The casino ship moored in the harbour

"The Macau Palace (the casino ship moored in the harbour) has Macao's only round-the-clock restaurant. (...)" 
in Golden Guide to South and East Asia, 1963
"Macao is a great gambling town. There are two casinos, one on a boat (the Macau Palace) much like the floating restaurants in Aberdeen, the other is the casino at the Hotel Estoril. (...)"
Myra Waldo in Travel Guide to the Orient and the Pacific, 1965
"The floating casino "Macao Palace" is an old converted ferry decorated with all the curlicues , golden panels, red banners and fripperies of modern Chinoiserie. (...)"
Joseph H. Bain in "Casinos: The International Casino Guide", 1995

segunda-feira, 26 de abril de 2021

"Macao Gambling Differs From Las Vegas Variety"

Curioso por saber como era o cenário dos casinos nos primeiros anos da década de 1970, incluindo o ambiente que se vivia no Casino flutuante ou nas salas de jogo do hotel Lisboa?
Fica a sugestão para ler este artigo da autoria de Kenneth Englade (da agência de notícias UPI) publicado no jornal dos EUA, Sarasota Herald-Tribune a 13 de Abril de 1975.
Macao Gambling Differs From Las Vegas Variety
Macao (UPI) - Gambling is a big business in Macao, a tiny flyspeck of an island 40 miles southwest of Hong Kong within spitting distance of China. But de action is not quiet at the Las Vegas pace. (...)

quarta-feira, 3 de junho de 2020

Carteiras de fósforos da SNF: década 1970

Nas imagens estão duas vistas de Macau - Casino flutuante Macau Palace e Hotel Lisboa - que faziam parte de uma edição especial de carteiras de fósforos da Sociedade Nacional de Fósforos (Lisboa, Portugal) dedicadas ao Ultramar.
Dois símbolos da indústria do jogo na década de 1970 em Macau
Existe um novo desde 2019 no Cotai

terça-feira, 4 de fevereiro de 2020

O 'boom' económico da década de 1970

A propósito do post de ontem, publico hoje um artigo intitulado "Booming Macao Belongs to Portugal, but Chinese Residents - and Peking - Call Tune", da autoria de Joseph Lelyveld, publicado no jornal The New York Times a 29 de Setembro de 1973.
A década não poderia ter começado da melhor forma em termos económicos para Macau, realça o jornal norte-americano falando do "primeiro boom económico em quase 300 anos". E os números das exportações são prova disso. 
Veja-se o quadro ao lado (não faz parte do artigo). Entre 1970 e 1975 o valor triplicou! Junte-se a estes dados, os hotéis e casinos criados entre 1970 1975: hotel-casino Lisboa, hotel Sintra, Casino Jai Alai, etc... a inauguração da primeira ponte entre Macau e a Taipa (Outubro de 1974).
E eram os  casinos a sustentar grande parte do boom económico com seis casinos abertos 24 horas por dia. Num território com cerca de 250 mil habitantes os turistas oriundos de Hong Kong superavam os 1,5 milhões, isto numa altura em que a colónia britânica tinha apenas 4 milhões de habitantes.
O mote do artigo reflecte ainda o quanto a sociedade se ressentia de tantas mudanças pelas quais passava. No início do artigo pode ler-se: "O minúsculo posto avançado de Portugal na costa do sul da China está experimentando seu primeiro boom económico em quase três séculos, mas os portugueses locais sentem-se  confusos e até tristes." 
E continua: 
"Houve um tempo em que todos os edifícios da Praia Grande, a avenida sombreada à beira-mar, compartilhavam a mesma inspiração. Agora, muitos deles estão sendo demolidos e substituídos por apartamentos indescritíveis, inspirados em nada além da promessa de um retorno rápido. Os arrependimentos que os portugueses sentem pelos edifícios antigos e por um modo de vida que está a desaparecer são aprofundados pelo facto de que irão colher muito pouco desses retornos, pois o boom de Macau é praticamente um fenómeno puramente chinês".
A imagem não faz parte do artigo
Macao, Sept. 22 — Portugal's minuscule outpost on the South China coast is experiencing its first economic boom in nearly three centuries, but the local Portugeese are cast in the role of bemused, even mournful bystanders. "Macao is no longer Macao,” lamented an official in the shuttered Governor's office, a spacious colonial structure, whose facade has been washed in a delicate pink pastel inspired by the memory of some distant Iberian port.
The Talk of Macao
There was a time when all the buildings on the Praia Grande, the shaded waterfront avenue on which it stands, shared that same inspiration. Now many of them are being pulled down and replaced with nondescript apartment houses inspired by nothing but the promise of a fast return. The regrets the Portuguese feel for the old buildings and for a vanishing way of life is deepened by the fact that they will share in very little of those returns, for Macao's boom is almost purely a Chinese phenomenon.
Chinese Money Everywhere
Chinese capital is behind the apartment houses, just as it is behind the casinos, the fleet of hydrofoils that come skimming across the muddy Canton River estuary with gamblers and tourists from Hong Kong, the textile factories and impressive plans for further investment.
Part of the money is local; much of it comes from Hong Kong. Investors are confident because they believe that the Chinese Government in Peking has no plans to renounce the perpetual grant of six square miles that the Portuguese finally obtained from the Ching Dynasty in 1887 - after they had already been here for 330 years. And they also know that Peking will not allow Portugal to exert what remains of her tattered authority.
In practical terms, this means that business and personal taxes will stay low and that it will remain a simple matter to shift profits out of the territory without ever entering them on the ledgers of a Portuguese bank. Portugal has no diplomatic relations with China, no leverage and no illusions, for China exhibited her control of the local population at the start of the Cultural Revolution in, 1966, when local Red Guards rioted.
Of the population of about 250,000, fewer than 7,500 are classified as Portuguese, and of those fewer than 1,000 are actually Portuguese from Europe. The rest are Macaenese — Portuguese‐speaking Eurasians who are said these days to be forsaking a distinctive patois and cuisine maintained for several hundred years. After the centuries of Portuguese rule, few Chinese here know Portuguese, which is not even taught in their schools. Most Portuguese find it necessary, however, to know some Cantonese.
The spectacle of a captive colonial power, and a good investment climate based on the Cultural Revolution may seem anomalous, but there is nothing much new in the situation for the Portruguese, who have not really flourished here since 1685, when they lost their monopoly on trade with Canton.
Until the Opium War, the Ching Dynasty kept a mandarin in Macao to supervise the local population and exercise discreet veto power over colonial officials. Now that role is played by Ho Yin, a local capitalist who is chairman of the board of the Tai Fung Bank and a number of other enterprises, and a frequent visitor to Peking.
Mr. Ho and others who have been quietly entrusted with the task of exercising authority make sure that no organization hostile to the Chinese Government gets started here, that the Portuguese refrain from taking in refugees, that most secondary‐school students attend Communist ‐ sponsored schools; and that the local press carries no editorials critical of Chinese policies.
Accepted by Portuguese
“They have all the power,” the Portuguese say in acceptance of a fact too obvious to be belabored. As one official put it: “The Chinese know our number. They have only to lift up the phone and say, ‘We don't want you people there anymore’ Of course the next day we'd be gone. What else could we do?” Probably the main reason that such a call has not been placed and is not likely to be - despite Peking's strong support of anti‐Portuguese movements in Africa - is that the ouster of the Portuguese would upset the equilibrium of the British colony of Hong Kong, which has a vital importance to China for commercial and banking reasons and also because it provides an avenue for communication with the overseas Chinese. Having decided to allow Macao to maintain a separate existence, Peking seemingly has no choice but to allow it to prosper in the only way it can - by attracting capital from Hong Kong.
Much of the boom is founded on Hong Kong's laws against gambling. This year there will be more than 1.5 million visits to Macao by Chinese from Hong Kong, which has a population of only four million. The overwhelming majority are lured here solely by the six casinos, which never close.
By any standard, the gambling is ferocious. A few weeks ago a young Chinese man walked away from the baccarat table at the Lisboa Hotel after having won $234,000 in one sitting. As a result of such exploits, the Chinese managers of the gambling syndicate recently thought it prudent to reduce the maximum baccarat bet to $12,000.
The Lisboa sits on the Avenida do Dr. Oliveira Salazar and boasts among its dozen restaurants one called the Portas do Sol, where Portuguese fado music is performed nightly. But the suggestions of Portugal are as synthetic as they would be if the hotel had been set down in Las Vegas, its real inspiration. A garish structure surfaced in golden tiles, the hotel is crowded by a large concrete sculpture that looks as if it was meant to suggest a helicopter landing on a giant artichoke; actually it is meant to suggest a roulette wheel, symbolic of the new Macao.
Virtually from the hotel's front door, a long concrete span stretches towards two thinly populated islands, Taipa and Coloane, which account for about half Macao's area. The bridge is due to be finished in the spring, and Chinese entrepreneurs are already lining up withiplans for an industrial park, a deepwater harbor, a new resort and, of course, another casino. What is in it for the Portuguese? Financial officials say that Portugal's only direct expenses on Macao are the cost of the bridge, given as a development loan to be repaid with interest, and the $34,000 she contributes annually to the upkeep of the missionary schools.
Traditional Gifts
In return, they say, Macao sends to Portugal a $100,000 contribution for the upkeep of a botanical garden and a hospital for tropical diseases in Lisbon, a traditional extraction, it is said, from the country's “overseas provinces.” Macao's trade with Portugal and her overseas territories is actually slipping. Not even 2 per cent of her imports comes from the supposed mother country, which takes only 8 per cent of her exports. But officials here all insist that the benefits of Macao to Portugal cannot be measured - that it is, as one put it, “cultural and moral“ - a necessary piece of evidence that Portugal is grander than she appears to be on the map of Europe. “You have to be inside Portuguese tradition and history to understand,” said a Macaenese who ranks high in the administration. Asked about Macao's prospects, this official replied with a slight shrug, “There is no logic in politics,” then drew what for him was the logical deduction. “Our future must be very bright,” he said.

segunda-feira, 3 de fevereiro de 2020

Hotel Lisboa: meio século em Macau

Esta é provavelmente a primeira maqueta/proposta arquitectónica para o que viria a ser o Hotel/Casino Lisboa. Em 1962, o novo espaço ainda não tinha sido baptizado, e seria bem diferente o resultado final. (ver imagem abaixo)

Numa ‘acção de charme’ junto do novo governador (desde Abril de 1962 a Novembro de 1966) Stanley Ho “director-geral, cumprimenta e saúda Sua Exa. o Governador Ten-Cor. António Lopes do Santos desejando-lhe um feliz e próspero governo”. 
Lopes dos Santos e Stanley Ho ‘mudaram’ a face do jogo e turismo de Macau: o primeiro atribui-lhe o monopólio do jogo (em 1962) e aumentou muitíssimo as receitas para os cofres do governo; e o segundo ‘ocidentalizou’ os casinos ajudando a colocar Macau no mapa do turismo mundial.

Há 50 anos, a 3 de Fevereiro de 1970, era inaugurado o Hotel Lisboa, um dos vários hotéis da STDM. Foi o primeiro 'resort integrado' do território e o mais luxuoso de todos. Na época até se dizia "um luxo luxuoso...", "luxo de pelúcia" e "uma extravagância"
Em termos arquitectónicos o edifício era imponente e na altura era o maior naquela zona de aterros.
Uma pequena cidade dentro da cidade: com hotel (306 quartos na fase inicial... 400 posteriormente), casino, restaurantes europeus e orientais, clubes nocturnos, centro comercial, piscinas, centro de diversões, incluindo bowling, piscina, sauna, etc... que veio revolucionar a vida no território que entrava na rota do turismo internacional de massas.
Em 1974

O Casino Lisboa, situado na cave do edifício, seria inaugurado apenas em Junho de 1970. Dos 3 200 429 passageiros que se movimentaram, em 1971, entre Macau e Hong-Kong, 2 594 814 eram chineses, dos quais a grande maioria residia naquele território britânico. Estrangeiros foram 530 mil um número nunca antes registado. O sucesso foi de tal ordem que a STDM teve de construir quase de imediato mais um hotel. Como já existiam planos para construir um edifício não muito longe do "Lisboa", o mesmo deixou de ser para fins residenciais e passou a hotel inaugurado em 1974. Seguindo a tradição de nomes de localidades portuguesas, Stanley Ho chamaria este de "Sintra". 

Detalhes da finalização da obra

O hotel era apenas uma das faces visíveis do contrato de concessão da exploração dos Jogos de Fortuna e Azar iniciado em 1962 pela STDM de Stanley Ho e associados. O bacará  foi um dos jogos que se tornou uma imagem de marca do novo casino passando logo no início a representar 37% do mercado. Em 1984 já representava 65%...
A par do Lisboa em 1970 a STDM tinha ainda o hotel Estoril (inaugurado em 1963 tb com casino) e o flutuante Macau Palace.
Excerto de um artigo do The New York Times em 1973:
"The Lisboa sits on the Avenida do Dr. Oliveira Salazar and boasts among its dozen restaurants one called the Portas do Sol, where Portuguese fado music is performed nightly."


Anúncio de 1980: "O Grandioso Hotel Casino Lisboa. O Mais Deslumbrante Hotel do Oriente com as melhores acomodações, divertimentos e restaurantes". 
Nesta época já tinha 10 restaurantes, incluindo o Galera, Furusato e Portas do Sol.

terça-feira, 26 de fevereiro de 2019

Fu Tak Yam Biography

Escrita por Adrian Fu, está disponível desde Janeiro a biografia de Fu Tak Iam (avô de Adrian), em inglês e chinês.
Adrian Fu published a biography of his grandfather, Fu Tak Iam, whose company held the gambling franchise in Macao between 1937 and 1961, and who laid the foundation for his family’s business empire today.
The story of Fu Tak Iam’s rise from rags to riches is the stuff of Hollywood films. Born in 1895 to a poor farming family in a village in Nanhai county, Foshan in Guangdong province, Fu had little formal schooling. He was eight years old when drought forced his father to leave the village for Hong Kong where he worked in a metal shop. Fu himself began working at an early age, first collecting and selling firewood to help support his family.
He made the journey to Hong Kong in 1908, just 14 years old, to help his father in the shop. Three years later, he took a job as a stoker in the boiler room of a British vessel, working a route between Hong Kong, Macao, Guangzhou, and ports in the Pearl River Delta.He often spent his spare time wandering the streets and gambling when he could. One day, Fu was gambling in Central (Hong Kong) and got arrested after getting into a fight.
Sentenced to 10 months in prison, Fu made best use of the time in jail and learned much about gambling from the other inmates.
After leaving prison, Fu moved to cities in Guangdong and Guangxi and went into business: opium, gambling and firearms, all profitable sectors. He returned to Hong Kong flush with cash from his many ventures. While horse racing was the only legal form of gambling there, local governments in China turned a blind eye.
Fu met Huo Zhi-ting, president of the Guangdong Bank and founder of the Hong Nin Savings Bank of Hong Kong, in the early 1930s. Despite Fu losing out on his bid for the gambling franchise in Macao to Huo’s consortium, the two became friends. Huo admired Fu’s management of gambling and agreed to fund a large casino in Shenzhen aimed at punters from Hong Kong. Huo had the support of Chen Jitang, a warlord powerful in Guangdong.
There Fu built the largest casino in China, involving an investment of 10 million yuan. It attracted many gamblers from Hong Kong, just as intended, and badly affected the casinos of Macao. But in 1937, after Japan launched its all-out war on China, the Nationalist government banned gambling on the mainland. The Shenzhen casino was forced to close, resulting in heavy losses for its investors.
Fu returned to Macao just in time to make a second attempt at the franchise in the city. He partnered with Kou Ho-neng, who had made a fortune from a chain of pawnshops, to form the Tai Heng company. Their bid of 1.8 million patacas a year won in 1937; they promised three casinos, the largest in the newly renamed Hotel Central in downtown Macao.
Tai Heng would hold the gambling monopoly for the next 24 years. Their bid turned out to be an excellent investment, especially during World War II, when Macao was the only city in East Asia not under Japanese military occupation.
Thousands of wealthy people from Hong Kong, the mainland, and overseas took refuge there to escape the war. Japanese business people, officials, and military officers were also frequent visitors to the Hotel Central , patronising its bars and restaurants and the other casinos. There was little alternative entertainment. Fu used the profits to invest in passenger ships, the Number 16 pier, and trading.
Despite being one of the wealthiest men in Macao, Fu did not fear for his safety and usually had only one bodyguard. On 10 February 1948, he went into the Kun Iam Temple, leaving his driver outside. A group of armed men burst in and kidnapped him. They demanded a ransom of nine million Hong Kong dollars. The family turned to Ho Yin, a highly influential Chinese and colleague of Fu’s, to mediate negotiations for his release. With his help, the two sides agreed to a much-reduced ransom of 900,000 Hong Kong dollars, but when one of Fu’s children brought in the police, the deal fell apart.
Enraged, the kidnappers cut off the top of Fu’s right ear and sent it to his family as a warning. They also reverted to their original ransom demand, prompting the family to reach out to another mediator: the famous Cantonese opera star, Tang Wing Cheung. He got the ransom back down to 900,000 Hong Kong dollars; the family paid and Fu was released. Police eventually arrested a renegade Kuomintang soldier believed to be the ringleader; he was sentenced to 18 years in prison. After World War II, Fu diversified his investments in Hong Kong, moving into property, shipping, construction, cinemas, and trading. He decided that the next generation should not follow him in the casino business.
Fu was a workaholic, with little time for his four wives and 15 children, and little interest in socialising. He spoke little; his main method of communication was letters, which he wrote each week, to his children and employees, mostly with instructions on what to do.
Those in Macao interested in learning more about Fu Tak Iam can visit his former home, located at 28-34 Avenida da Republica and owned by the Fu Tak Yung Foundation, and read two marble tablets about his life housed in two pavilions on the property. Or they might pop over to the pavilion in Chong San Memorial Park on Guia Hill to read the tablet there. For those looking to dive deeper into the biography of the gambling mogul, they can read the The Fu Tak Iam Story (踧德蔭頦), published by his namesake Foundation.

Excertos de um artigo de Mark O' Neill publicado na Macao Magazine, Jan. 2019

sexta-feira, 19 de outubro de 2018

Resort “Lisboeta” recorda a Macau antiga

"Foi hoje apresentado o novo parque temático com resort integrado do Cotai, que será desenvolvida pela empresa Macau Theme Park and Resort Limited e que promete ficar pronto em 2020. Arnaldo Ho, filho de Stanley Ho e director da empresa, revelou que o nome do empreendimento turístico é “Lisboeta” e vai custar cinco mil milhões de dólares de Hong Kong.
O “Lisboeta” irá situar-se perto da Nave Desportiva dos Jogos da Ásia Oriental – Dome e será inspirado na Macau dos anos 60 e 70, prestando “homenagem à Macau antiga” e prometendo “incorporar detalhes inspirados em edifícios icónicos que ficaram na memória dos locais de Macau, tal como o Hotel Estoril, o casino flutuante Macau Palace ou o Hotel Central”.
Citado por um comunicado, Arnaldo Ho, director da Macau Theme Park and Resort Limited, destacou o lado singular deste empreendimento. “Nos últimos anos temos visto muitos resorts bonitos e modernos a surgir no Cotai, tal como inúmeras atracções. Contudo, há poucos empreendimentos que mostrem a Macau autêntica e original que se caracteriza por muitos exemplos icónicos de arquitectura desenvolvidos pelo meu pai, Stanley Ho. A minha ideia para o Lisboeta não evoca apenas a nostalgia dos tempos antigos, mas também revitalizar as memórias de Macau com novos conceitos”. (...)

in Hoje Macau, 18.10.2018
O mural da fachada do antigo Hotel Estoril e o antigo Casino Flutuante

quinta-feira, 5 de julho de 2018

Demolição do cais do antigo casino Macau Palace

Lido na imprensa de Macau deste 5 de Julho que "estão a decorrer trabalhos de demolição do cais de atracagem do antigo casino Macau Palace, junto ao Porto Exterior, ficando o terreno em condições de passar para a tutela do Governo".O casino “Macau Palace” foi inaugurado a 26 de Maio de 1962, explorado pela Sociedade de Turismo e Diversões de Macau (STDM), tendo passado por diversas localizações. Ficou inactivo desde 2007 e rebocado para o Fai Chi Kei a pedido do Governo em 2015.
A operadora de jogo fundada por Stanley Ho chegou a anunciar em 2012 um projecto de transformação do casino flutuante num museu sobre o jogo, mas a proposta nunca se chegou a concretizar.
 Década 1960
Século XXI. Foto JTM

sábado, 24 de março de 2018

"O Jogo" por Ninélio Barreira




Hotel Central
“De entre as muitas festividades que se celebram em Macau, uma das mais curiosas e que desperta a atenção geral, nela participando chineses e europeus é, sem dúvida, a do Ano Novo, designada por Sân-Nin em chinês. As festas do Ano Novo são móveis, uma vez que a tradição manda respeitar o ano lunar, a despeito de a China ter adoptado o calendário gregoriano, após a implantação da República em 1911.
Durante três dias Macau veste trajo de gala. Grandes arcos são erguidos nas ruas principais por onde tremulam bandeiras e largas faixas vermelhas com inscrições de grandes caracteres dourados. Os panchões estalam em longas fitas, enchendo o ar de fumo e cheiro a pólvora. Toda a gente vem para a rua usando roupas novas e fazem-se muitas compras que se trocam entre si, como prendas. E ninguém deixa de adquirir os lai-si – rectângulos de papel vermelho, onde se inscrevem saudações e frases auspiciosas.
Vamos apenas referir um outro aspecto que se integra nesta festividade e que diz respeito ao jogo. Note-se, todavia, que o jogo está de tal maneira enraizado nos hábitos chineses que é difícil encontrar outro povo que se assemelhe nesse aspecto. Desde o Mhá-jong – cujo batimento das pedras sobre as mesas que se ouve ao longo de todas as horas da noite, causando aos ouvidos do europeu recém-chegado um verdadeiro martírio que lhe perturba o sono das primeiras noites – o jogo das moedas que se lançam contra a parede, o das apostas dos caroços das tangerinas (muito da preferência dos vendedores e dos cules), o jogo das lotarias Pak-Kap-Piu, até dos jogos de casino – toda a gente joga, na rua, nas lojas, nos casinos e até nos templos os bonzos ocupam as suas horas de ócio… a jogar.
O chinês joga por instinto atávico; como se diz entre nós, o jogo ‘está-lhes na massa do sangue’. Dizia-me o Professor Luís Gonzaga Gomes que o jogador chinês não tem idade: jogam as crianças, as mulheres, os jovens e os velhos. Só não jogam as criancinhas de peito porque lhes falta o discernimento. Mas é durante aqueles dias do Ano Novo que o jogo nos casinos é permitido a toda a gente sem distinção.
Ao tempo, existiam apenas dois locais onde se praticava o jogo: o Hotel Central e uma casa na Rua da Felicidade. A elas, porém, não tinham acesso os magistrados, militares e para-militares e os funcionários públicos. Eram interditas também a pessoas de baixa condição social, como pescadores, vendedores ambulantes e mendigos. Mas nos dias festivos do Ano Novo tal interdição era suspensa. E para corresponder à invasão prevista, em vez das duas ou três salas habituais, armavam-se mesas de jogo em quase todos os andares do Hotel Central, ao tempo o mais alto edifício de Macau, com todos os seus pisos.
Gente vinda de toda a parte, das ilhas, da frota piscatória, de Hong Kong e até da China, da qual, aliás, nos separa apenas a Porta do Cerco, no istmo que liga Macau ao continente – dirigia-se para aquele Hotel e, durante três dias, muita gente havia que dali não arredava pé, se não para comer ou dormitar. O Hotel era, assim, autenticamente invadido por uma população ávida e sequiosa e não existia uma sala, uma mesa de jogo, que não estivesse permanentemente repleta.
“Vários tipos de jogo são ali praticados, mas o mais procurado, o mais popular e talvez o mais emotivo é, sem dúvida, o glu-glu. Vejamos em que consiste e do que se compõe.
Uma mesa grande, de cor esverdeada, em cujo tampo estão inscritos números que vão de 3 a 18. Um grosso traço divide os algarismos de 3 a 10 e de 11 a 18. Estas duas zonas são, respectivamente, o Siu (pequeno) e o Tai (grande). Uma campânula, três dados e uma campainha eléctrica. O processo mais simples de jogar (pois há muitos outros) consiste em apostar no ‘grande’ e no ‘pequeno’. Lançados os dados, a soma obtida decide a sorte. Quem apostou na parte que saiu, recebe a dobrar. Quem quiser pode arriscar exactamente um número, o que lhe dá menos probabilidades, como é óbvio, mas muito mais dinheiro… se acertar. Cada um dos dígitos tem prémios diferentes. Assim, se apostar no 3, no 7 ou no 18 – e isto são apenas exemplos, pois não tenho presente os prémios que correspondem a cada um deles isoladamente – receberá um valor bastante superior que, nalguns casos, vai até ao décuplo! Há ainda combinações de cores e uma determinada combinação que, quando sai, tudo o que está sobre a mesa fica para a ‘casa’.

Um outro jogo que atrai igualmente os curiosos e muitos jogadores e que se resume a um monte de botões, uma campânula e uma vareta de bambu é o fan-tân. Os jogadores dispõem-se à roda do banqueiro ou vão para o andar superior, cujo sobrado é aberto em cercadura onde há um gradeamento de madeira, em forma de balcão. Daqui fazem as suas apostas, lançando-as num cestinho preso a um cordel que sobe e desce que é manobrado por um auxiliar da banca. Feitas as apostas em 1, 2, 3 ou 4, o banqueiro destapa a campânula e munido da vareta de bambu, conta os botões, separando-os em grupos de quatro. Conforme restarem 1, 2, 3 ou 4 botões, assim se decide a sorte dos que apostaram, pagando três vezes o valor de cada aposta, aos que tiverem tido melhor golpe de vista, palpite ou sorte.”
Artigo da autoria de Ninélio Barreira publicado em 1957 no suplemento do Diário Popular; incluído no livro “Ou-Mun – coisas e tipos de Macau”, edição Instituto Cultural de Macau, 1994

sábado, 3 de fevereiro de 2018

Fu Tak Iam, primeiro magnata do jogo

Antes de Stanley Ho deter o monopólio do jogo em Macau Fu Tak Iam foi o primeiro magnata dos casinos. Também conhecido como “capitalista chinês”, o homem que nasceu pobre em Foshan, financiou a construção do Cais 16, no Porto Interior, tendo sido dono do Hotel Central, para onde trouxe o famoso jogo Bacará. A sua família acaba de criar uma fundação em Macau.
A família de Fu Tak Iam, também conhecido como Fu Tak Yung ou Fu Laorong, acaba de criar em Macau uma fundação com o nome daquele que foi o primeiro magnata do jogo no território, até ter perdido o monopólio para Stanley Ho, no início da década de 60.
Esta quarta-feira foi publicado o despacho em Boletim Oficial que determina a criação da fundação. Esta tem como finalidade “o desenvolvimento de acções na área da educação, cultura, saúde e investigação tecnológica”, podendo ainda “desenvolver outras actividades de natureza social e de beneficência”.
A fundação arranca com um capital inicial, em numerário, de dez milhões de patacas, podendo vir a ter, em seu nome, três imóveis que a família detém em Macau, localizados na avenida da República e na Colina da Penha. Tal acontecerá se a Direcção dos Serviços de Finanças autorizar “a isenção do pagamento de imposto de selo devido pela sua eventual transmissão”.
A família de Fu Tak Iam segue assim o exemplo de muitos outros magnatas ao criar uma fundação. O próprio Stanley Ho tem uma entidade em seu nome, tal como Henry Fok, o empresário de Hong Kong que, em 1961, ajudou a fundar a Sociedade de Turismo e Diversões de Macau (STDM), em parceria com o próprio Stanley Ho, Ip Hon (ou Yip Hon) e Terry Ip Tak Lei.
Fu Tak Iam, nascido em 1894 em Nanhai, Foshan, na província de Guangdong, tem uma história semelhante à de tantos empresários ricos: nasceu pobre. “Conta-se que, ainda novo, já mostrava ser empreendedor, tendo começado a cozinhar amendoins na sua aldeia que depois ia vender à cidade”, disse ao HM o jornalista João Botas, autor de vários livros sobre a história de Macau.
Numa altura de maiores dificuldades financeiras, Fu Tak Iam partiu com o pai para Hong Kong, onde trabalhou na indústria naval. “Ainda jovem meteu-se numa briga o que o levou à prisão durante dez meses. Depois de cumprida a sentença regressou a Guangdong. Foi aqui que deu início ao primeiro negócio na área dos penhores. Estava-se no final da década de 1920”, apontou João Botas. A luta pela concessão do jogo em Macau começou no ano de 1930, tendo perdido a aposta para Hou Heng, cujo consórcio incluía vários sócios. Segundo João Botas, “pagavam 1.4 milhões de patacas por ano em troca do exclusivo do jogo” no hotel que, na altura, se chamava President, e que mais tarde viria a chamar-se Hotel Central, localizado na Avenida Almeida Ribeiro.
Hee Cheong detinha o hotel President, que abriu portas em 1928. O seu sócio, Huo Zhi-ting, era amigo de Fu Tak Iam. “Os dois começaram a explorar o jogo em Cantão e Shenzen, em 1935.” Quando o contrato de concessão de jogo atribuído a Hou Heng chegou ao fim, Fu Tak Iam voltou a lançar-se nessa aposta. Para isso, “juntou-se a um dos homens de negócios mais ricos de Macau, Kou Ho-ning, nascido em 1878, com um longo historial na indústria do jogo, nomeadamente do fantan, desde o início do século XX e ainda na área das casas de penhor”.
Os dois amigos decidem então estabelecer a empresa Tai Heng (Tai Hing) que ficaria com o monopólio do jogo, a partir de Janeiro de 1937, mediante o pagamento de 1.8 milhões de patacas. A empresa adquiriu também o hotel President, que em 1937 passar-se-ia a chamar Hotel Central, tendo “acrescentado alguns andares”. “Conta-se que Kou Hou Neng entrou apenas com o dinheiro, deixando a parte operacional do negócio a Fu Tak Iam”, lembrou João Botas.
Segundo informações da Direcção de Inspecção e Coordenação de Jogos (DICJ), a empresa instalou no Hotel Central um casino, onde foi introduzido o Bacará, jogo que ainda hoje é bastante popular. Ainda de acordo com a DICJ, “a companhia Hou Heng foi considerada inovadora dado as suas introduções a benefício dos serviços fornecidos pela indústria do jogo e pelas respectivas instalações complementares”. Esta “remodelou e decorou, de forma sumptuosa, os seus casinos oferecendo, complementarmente, espectáculos de ópera chinesa bem como comes e bebes gratuitos incluindo frutas, cigarros e aperitivos, e adquirindo a favor de clientes bilhetes de barco”.
O início da II Guerra Mundial e a invasão da China pelos japoneses acabaria por trazer muitas oportunidades ao negócio de Fu Tak Iam, pois Macau era administrado por portugueses e serviu de porto seguro a muitos refugiados chineses. “O Japão invadiu a China e começam a chegar cada vez mais chineses a Macau, aumentando o número de clientes. Estavam criadas as condições para o negócio prosperar”, disse João Botas, que lembrou também o apoio que o magnata do jogo deu nesta fase, com parcerias estabelecidas com a Associação Tong Si Tong e o hospital Kiang Wu.
Também o historiador Camões Tam recorda estes tempos de prosperidade para o empresário, por contraste à miséria e à fome que se viviam nas ruas da pequena Macau. “Quando a maior parte do território chinês estava ocupado pelo exército japonês, muitas pessoas ricas vieram para Macau e acabavam por ir para o casino jogar nos tempos livres, porque não havia muito mais para fazer.”
João Botas lembra, contudo, que há um outro lado da história. “Existem relatos de Fu Tak Iam ter colaborado com os japoneses, tendo sido condenado à morte, no pós-guerra, pelas autoridades da China continental. Uma outra sentença veio a declará-lo inocente. Aspectos típicos dos tempos difíceis vividos em Macau durante a guerra”, referiu o jornalista.
Estamos em 1945 e a II Guerra Mundial chega ao fim. A 10 de Fevereiro, Fu Tak Iam estaria a fumar ópio “como passatempo” junto ao templo de Kun Iam quando foi raptado, tendo sido exigidos nove milhões de patacas pelo resgate.
João Botas conta que há várias versões desta estória, sendo que o resgate acabaria por custar 500 mil patacas. Além disso, Fu Tak Iam perdeu parte da orelha direita. De acordo com Camões Tam, o Governo português interveio no caso, tendo enviado Ho Yin, pai do ex-Chefe do Executivo, Edmund Ho, para lidar como o caso na qualidade de intermediário. “Aí Fu Tak Iam foi libertado, mas claro que perdeu imenso dinheiro”, ironizou Camões Tam.
Na fotobiografia da autoria de Celina Veiga de Oliveira sobre Carlos D’Assumpção, intitulada “Carlos D’Assumpção – Um homem de valor”, há uma referência a este rapto, uma vez que o advogado macaense estava em início de carreira quando apresentou um recurso em 1954 no Tribunal da Relação de Goa contra a condenação de Lei Peng Su, antigo soldado do partido Kuomitang, acusado de raptar Fu Tak Iam.
De acordo com um texto de Celina Veiga de Oliveira, publicado no jornal Ponto Final, “depois de pago um resgate avultado e libertado o empresário, a polícia [de Macau] acabou por deter um antigo soldado do Kuomintang, Lei Peng Su, acusando-o de liderar a quadrilha de sequestradores”. Este foi condenado a 18 anos de prisão, mas Carlos D’Assumpção, com apenas 25 anos, recorreu desta decisão.
Não foi apenas em roletas e fichas de jogo que investiu Fu Tak Iam. Refeito do episódio do rapto, o empresário investiu numa companhia de navegação marítima, a Tak Kee Shipping & Trading Co. Ltd. O seu dinheiro financiou na totalidade o Cais 16, uma estrutura de cor amarela que ainda hoje se situa ao lado do empreendimento Ponte 16, da Sociedade de Jogos de Macau.
Em 1948 o Cais 16 passou a atracar o barco Tai Loy, que à época era “a mais moderna embarcação nas ligações marítimas entre Hong Kong e Macau”, recordou João Botas.
O período áureo de Fu Tak Iam estava, contudo, prestes a chegar ao fim. Em 1950 o empresário mandou alguns dos seus filhos para tomar conta dos seus negócios em Hong Kong, tendo-se mudado para a região vizinha nessa altura, bem como o seu sócio, que morreria em 1955. Apesar da mudança para Hong Kong, Fu Tak Iam perderia a concessão de jogo para Stanley Ho apenas em 1961, quando a STDM se chegou à frente com o pagamento de 3.16 milhões de patacas anuais. Segundo o historiador Camões Tam, Stanley Ho oferecia condições mais vantajosas à Administração portuguesa e era, além disso, casado com uma portuguesa, Clementina Leitão Ho.
“Um assistente demitiu-se da empresa de Fu Tak Iam e convenceu Stanley Ho a cooperar com ele e a concorrer para a obtenção da licença de jogo. E conseguiram.”
Clementina Leitão Ho terá tido um papel importante neste processo, tendo sido discutidas previamente algumas condições para a concessão do monopólio de jogo. “Foram-lhe dados alguns avisos e foram criadas condições, como o estabelecimento de uma rota entre Macau e Hong Kong, a criação de infra-estruturas e a concessão de subsídios para acções de caridade. Stanley Ho oferecia condições mais vantajosas [para a obtenção da licença]”, explicou Camões Tam. O historiador João Guedes tem outra versão: não só Stanley Ho dispunha de outras garantias como a Administração portuguesa estaria descontente com as contrapartidas dadas por Fu Tak Iam. “Ele não vivia cá, vivia em Hong Kong, e por isso é que lhe é retirado o monopólio do jogo, porque ele investia o dinheiro que ganhava aqui em Hong Kong. O Governo português decidiu retirar a concessão e entregá-la a Stanley Ho. Este era casado com uma portuguesa e tinha garantias.”
Segundo a DICJ, a concessão atribuída à companhia Tai Heng chegava ao fim a 31 de Dezembro de 1961, tendo o governador Silvério Marques. Este decidiu aprovar uma lei nesse ano que acabaria por regular a concessão pela via do concurso público. A STDM “acabou por sair vencedora, ficando permitida a explorar, em regime de exclusivo, casinos e a venda das lotarias Pou, Shan e Pacapio”. Em 1960, um ano antes de ver a concessão de jogo ir por água abaixo, Fu Tak Iam morre em Hong Kong com 66 anos de idade, tendo deixado 16 filhos.
Na antiga colónia britânica, a empresa fundada por Fu Tak Iam continuou a prosperar, tendo investido na banca e na hotelaria. O seu filho mais velho estabeleceu, em 1973, o hotel Furama, que tinha 33 andares e que ficou conhecido pelo seu restaurante panorâmico, chamado La Ronda, e que foi demolido em 2001, contou João Botas.
João Guedes recorda-se deste espaço. “Lembro-me de ter ido almoçar muitas vezes ao hotel, um dos melhores em Hong Kong, que tinha um dos melhores restaurantes.” O jornalista, autor de vários livros sobre a história de Macau, lembra que a família de Fu Tak Iam “nunca foi de Macau”, à semelhança dos magnatas que sempre investiram no território. “Os investimentos em Macau são feitos por gente de Hong Kong. O Stanley Ho nunca viveu aqui, no período da II Guerra entre 1939 e 1945 viveu aqui, mas depois mudou-se logo para Hong Kong. Eles devem continuar a ser muito ricos em Hong Kong, e de certeza que continuarão a ter coisas em Macau.”
Hoje em dia a família continua a ter os imóveis já referidos, além de uma antiga casa, localizada junto à residência do cônsul de Portugal em Macau, que foi vendida a um cidadão de Hong Kong. Aí existiram “duas pedras gravadas em 1952 em memória dos seus pais”, apontou João Botas. O ano passado* o neto de Fu Tak Iam, Adrian Fu, criou uma fundação com objectivos semelhantes em Hong Kong.
Stanley Ho é amplamente conhecido por ser o grande impulsionador da economia de Macau, mas pouco se sabe sobre aquele que terá sido o primeiro grande empresários dos casinos no território.
“Só agora é que se começam a fazer alguns estudos sobre isso, de resto não existe nada sobre essa época do sector do jogo. Em português não se escreveu nada sobre Fu Tak Iam, de certeza absoluta”, disse João Guedes.
O historiador Camões Tam considera que “há quatro reis dos casinos em Macau”, tendo Fu Tak Iam sido o primeiro. E a sua importância mede-se não apenas pelas patacas que investiu na luta pela concessão. “Não sabiam apenas como gerir os casinos mas tinham conhecimentos de como desenvolver a economia e a cidade. Antes de ter os primeiros casinos, nos anos 30, Macau era uma cidade muito pequena, mas depois da gestão [destes empresários], Macau tornou-se uma verdadeira cidade do jogo, com uma indústria propriamente dita, e tornou-se mais próspera. Foi uma verdadeira reviravolta na história de Macau.”
A condecoração portuguesa
O “capitalista chinês” chegou a ser condecorado pelo Governo português com o grau de Oficial da Ordem Militar de Cristo “aquando da visita a Macau do Ministro do Ultramar no verão de 1952”, disse João Botas. A condecoração foi atribuída pelo comandante Manuel Maria Sarmento Rodrigues.
Artigo da autoria de Andreia Silva publicado no Hoje Macau de 2.2.2018
Nota do autor deste blogue:* a Fundação foi criada em 2007.