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domingo, 5 de julho de 2026

"Casa e Cêrca do Sr. Lourenço Marques"

C. J. Caldeira assina um artigo sobre Macau na edição nº8 de 1864 do "Archivo Pittoresco: semanario illustrado" (Portugal). É acompanhado de uma gravura da autoria de João Pedrozo com a legenda "Casa e Cêrca do Sr. Lourenço Marques".
"A estampa representa a casa e cêrca do sr. Lourenço Marques, em Macau, na qual está a celebre gruta de Camões. O mirante que a corôa divisa-se por entre o arvoredo acima da casa que tem frontão triangular, que é a da residencia do proprietario, cercada de jardins, horta e bosque, que a tornam uma das mais pitorescas da cidade, como se póde julgar pelo desenho.
Ao lado direito se vê parte da povoação chineza de Patane, já fóra dos muros da cidade, proxima da porta de Santo Antonio e da egreja e freguezia da mesma invocação, que ficam na parte occulta á esquerda do espectador.
A casa vasta e elegante, que está á esquerda do desenho, pertence e é occupada por irmãos e outros parentes do mesmo sr. Marques, e foi habitação de seu pae. Atraz d'esta divisam-se em grupo os mastros e velas de algumas embarcações chinezas, que costumam fundear proximo á povoação de Patane, ao sopé do monticulo, e que o circunda quasi todo.
O fundo representa o porto interior de Macau, vendo-se sobre a esquerda a ilha da Lapa, antigamente denominada dos Padres, e mais ao longe as alturas da chamada ilha, ou antes peninsula Heang-shan, d'onde corre um canal ou pequeno braço do rio de Cantão, denominado Passagem de Macau, que vem desembocar no dito porto interior. (...)"
A personagem referida é Lourenço Maria Pereira Marques (1852-1911). Um dos 10 filhos do comendador Lourenço Caetano Marques (1811-1902) e Maria Ana Josefa Cortela Pereira (1825-1901) - que era prima - tendo casado a 7 de Agosto de 1838 tendo ela apenas 13 anos.
Esta era filha de Manuel Pereira, o proprietário da referida casa construída ca. de 1770. Casaram em 1838 pouco tempo depois dos ingleses da EIC terem saído de Macau e daquela propriedade que arrendaram entre 1780 e 1838.
Lourenço Pereira Marques, tal como os irmãos, nasceu na propriedade representada na ilustração. Estudou no Seminário de S. José de Macau e depois foi estudar para Lisboa. Fez a Escola Médico-Cirúrgica de Lisboa e depois ingressou na Universidade de Dublin graduando-se em 1877 no College of Physicians and Surgeons e em 1881 no Royal College of Physicians". Fez ainda estágios em hospitais em Londres e em Paris antes de regressar a Macau. No final do século 19 estabelece-se em Hong Kong onde chega a dar aulas a Sun Iat Sen...
Dará um contributo decisivo para o que hoje se conhece como gruta de Camões, nomeadamente mandando construir um busto do poeta.
Em 1885 o governo de Macau comprou a propriedade que pouco depois transformou em jardim público, situação que ainda hoje se mantém.
O médico macaense viria a aposentar-se em 1895 em Hong Kong e regressou a Macau passando a a dar consultas médicas gratuitas à população mais carenciada.
Dono de uma erudição invulgar, reuniu uma vasta coleção de arte chinesa. Em 1899, doou cerca de mil objectos etnográficos e históricos à Sociedade de Geografia de Lisboa. Morreu em 1911 com apenas 59 anos na sua casa sita no Largo de Camões (junto à Casa Garden, portanto). Tal como o irmão nunca chegou a casar. Na toponímia macaense existe a Rua do Dr. Lourenço Pereira Marques (比厘喇馬忌士街)  - no Porto Interior - em sua homenagem.
Dez anos passado sobre a referida ilustração, em 1874, Macau é assolado por um tufão que deixa uma rasto destruição imenso. A fotografia acima - provavelmente da autoria de Lai Afong - documenta os efeitos na igreja de Santo António e num edifício que Caldeira descreve no artigo de 1864. (assinalei a vermelho). Terá sido demolido posteriormente. Quando o governo de Macau compra a propriedade em 1885 e transforma o espaço num jardim público este edifício já não aparece. Corresponde ao actual Largo/Praça de Camões, à entrada do jardim tendo do lado direito o acesso à chamada Casa Garden.
O edifício denominado Casa Garden remonta a ca. de 1770. Em 1794 é abundantemente registado na primeira embaixada de Inglaterra à China. Por essa altura já o edifício e propriedade envolvente tinha sido arrendado à East India Company que ali colocara a morar os mais altos quadros da EIC. Os restantes viviam em também edifícios arrendados na Praia Grande.

quarta-feira, 10 de junho de 2026

Comemorações do Dia de Portugal em 1956

O DIA DE PORTUGAL foi assinalado nesta Província com várias festividades entre as quais GRANDIOSO DESFILE MILITAR, eloquente romagem à gruta de Camões E SESSÃO CULTURAL NO TEATRO D. PEDRO V
a todas presidindo Sua Exa. o Governador da Província ALMIRANTE JOAQUIM MARQUES ESPARTEIRO

O Dia de Portugal revestiu-se, este ano, de grande esplendor. Quer no Portugal metropolitano quer no Portugal ultramarino como nos agregados portugueses no estrangeiro, o Dia de Portugal foi comemorado, por ser consagrado à lusitanidade espalhada pelo mundo e, também, em homenagem a Camões esse imortal cantor das glórias nacionais, no dia do aniversário do seu falecimento.
Prestaram, assim os portugueses, no mundo a mais eloquente e mais patriótica homenagem ao poeta máximo da Lusitanidade e, especialmente, nesta terra, onde segundo reza a tradição Camões escreveu parte do seu imortal poema — os Lusíadas.
O programa das grandiosas festividades do dia 10 foi rigorosamente cumprido, tendo presidido a todas S. Exa. o Governador da Província Almirante Joaquim Marques Esparteiro.
O dia 10 de Junho foi de sol radioso e temperatura amena, associando-se assim o tempo a tão esplendorosa homenagem, dando-lhe maior brilho.
Amanheceu e ao som dos clarins em marchas de continência ergueu-se no topo dos mastros dos quartéis e fortalezas a Bandeira Nacional. Em todos os edifícios públicos foi também hasteada a Bandeira de Portugal.

A parada militar
O desfile de forças militares e militarizadas, em parada, é sempre um espectáculo grandioso que faz vibrar os corações portugueses pois, isso basta para, em pensamento, evocar esses heróis que outrora em "perigos e guerras esforçados" deram novos mundos ao mundo, levando a bandeira portuguesa às mais longínquas paragens. E os soldados que vemos agora marchar são descendentes desses portugueses que Camões cantou nos poemas mais belos que, no dizer dum distinto escritor, por si só, vale uma literatura inteira.
A parada militar estava anunciada para às 10 horas. Mas, muito antes, milhares de pessoas ocupavam lugares ao longo do trajecto anunciado para o desfile.
Nas proximidades do Palácio do Governo da Praia Grande, em talhados especiais, tomaram lugar funcionários civis e militares, comerciantes, clero, escolas portuguesas e chinesas e os seus professores, colégios, praças do exército e da armada, etc..
Na varanda do rés-do-chão do Palácio assistiram ao desfile, a convite do governo, o Conselho do Governo, Corpo Consular, Chefes de Serviços, membros dos mais categorizados da comunidade chinesa e estrangeira, e oficiais do Exército e da Armada. Nas varandas superiores, a Exma. Sra. Dra. Da. Laurinda Marques Esparteiro e muitas outras senhoras portuguesas, chinesas e estrangeiras.
Em frente ao Palácio erguia-se a tribuna de honra decorada com as cores nacionais e vasos com viçosos arbustos. À esquerda da tribuna estava formada a guarda de honra que era constituída por um grupo de castelos da Mocidade Portuguesa com bandeira e banda de música, sob o comando de Franklin Barnes. Em frente da guarda de honra estava formada a guarda de honra da banda Musical da Polícia de Segurança Pública com o vistoso fardamento de gala, capacete e dólman branco e calça azul escuro.
Poucos minutos antes das 10 horas estavam formadas alas compactas de povo ao longo da Rua da Praia Grande e imediações, que a Polícia de Trânsito, superiormente dirigida pelo sr. tenente Henrique Fontes, auxiliado por chefes e subchefes, continha o povo dentro dos lugares marcados, a fim de não estorvar o desfile.
Momentos depois um breve toque de clarim e a introdução do Hino Nacional anunciaram a chegada de Sua Exa. o Governador da Província Almirante Joaquim Marques Esparteiro, que vinha acompanhado de seu ajudante de campo sr. capitão José Vaz Dias da Silva. Sua Exa. envergava o uniforme branco de almirante, ostentando a banda de seda verde, insígnia da grã-cruz de Ordem Militar de Avis.
Acompanhado agora pelo Comissário Provincial da Mocidade Portuguesa sr. Intendente José Peile da Costa Pereira, Sua Exa. o Governador passou revista à guarda de honra, dirigindo-se depois à tribuna, onde assistiu ao desfile, ladeado pelos srs. Brigadeiro João Carlos Quinhones Portugal da Silveira, Comandante Militar da Província e capitão-de-fragata José Coutinho Garrido, Capitão dos Portos. Na mesma tribuna assistiram ao desfile os srs. Dr. Edmundo de Senna Fernandes, Juiz da Comarca, substituto, e D. Policarpo da Costa Vaz, Bispo da Diocese, ajudantes e secretário.
A's 10.05 horas chegou um carro militar do qual se apeou o comandante das forças em parada, tenente-coronel Silva Carvalho, pedindo licença para se iniciar o desfile, ordem que foi imediatamente transmitida por uma estafeta-motociclista.
As forças em parada desfilaram pela seguinte ordem: Bandeira Nacional, coluna apoiada sob o comando do sr. major Marques de Carvalho, banda de corneteiros, comando da coluna apeada, batalhão de caçadores 1, a três companhias de atiradores sob o comando do sr. capitão Veiga, batalhão de caçadores 2, a quatro companhias de atiradores sob o comando do sr. capitão Cambraia Duarte, companhia independente de caçadores, uma companhia de atiradores sob o comando do sr. capitão Tamegão.
Seguiu-se a coluna motorizada sob o comando do sr. major Barata da Cruz, constituído pelo comando da coluna, 1 pelotão de canhões anti-carro e o agrupamento de baterias de artilharia; 1 bateria de artilharia ligeira 8,8 sob o comando do sr. capitão Mendes, uma bateria de artilharia anti-aérea de 4 e uma bateria de artilharia anti-aérea de 7,5.
Desfilou depois o esquadrão de cavalaria motorizado com dois pelotões de reconhecimento e um pelotão auto-transportado; uma companhia de engenharia com um pelotão de sapadores e um pelotão de transmissões, comandadas, respectivamente, pelos srs. capitães Abrantes da Silva e Mesquita Borges, fechando o desfile das forças militares com um destacamento sanitário e uma equipa de desempenagem.

As forças militarizadas desfilaram pela seguinte ordem:
Uma coluna apeada das forças da polícia marítima, a um pelotão, sob o comando do sr. chefe Luz, uma coluna apeada da polícia de segurança pública, a uma companhia a quatro pelotões, sob o comando do sr. tenente Correia Marques, uma coluna motorizada, com um pelotão de motos e viaturas especiais, sob o comando do sr. tenente Palma Viçoso.
Fechava o desfile uma coluna motorizada de viaturas especiais dos bombeiros municipais, sob o comando do sr. ajudante Assis.
Por último desfilou a guarda de honra da Mocidade Portuguesa e a banda musical da polícia de segurança pública.

A patriótica romagem à Gruta de Camões
Finda a parada, as mesmas entidades que referimos e milhares de pessoas acorreram ao velho jardim de Camões, onde se ergue a secular gruta, um altar evocativo do grande Vate, nestas longínquas paragens onde a velha lenda afirma, que Camões escreveu parte do seu poema e o formoso soneto "Alma minha gentil". Muito antes das 11 horas, já se encontravam no jardim milhares de crianças e jovens do liceu, das escolas secundárias e primárias católicas portuguesas e chinesas, com os seus estandartes e muitos jovens, de ambos os sexos, sobraçando viçosos ramos de flores naturais. Acompanhavam-nos os seus professores, padres, leigos e religiosas de vários colégios da colónia.
O jardim sempre belo, estava mais florido naquela manhã de sol.
A chegada de Sua Exa. o Governador da Província, as escolas saudaram o primeiro magistrado, que se dirigiu para a tribuna erguida em frente do busto de Camões, assistindo à cerimónia evocativa do aniversário da morte do poeta, ladeado pelos srs. José Peile da Costa Pereira, Comissário Provincial da Mocidade Portuguesa e António de Magalhães Coutinho, Presidente do Leal Senado da Câmara. Por detrás e ao lado, em lugares especiais, o Prelado da Diocese, o Juiz da comarca, Comandante Militar, a esposa de Sua Exa. o Governador, outras senhoras portuguesas e estrangeiras e chinesas, individualidades mais representativas da província, e oficiais do exército e da marinha. Flutuavam na tribuna, ao centro, a Bandeira Nacional e dos lados os pavilhões de Nuno Álvares, da Mocidade Portuguesa e do Governador da Província.
Proferiu uma alocução interessante, oportuna e repassada de patriotismo, o sr. António Augusto da Canhota, professor da escola comercial "Pedro Nolasco da Silva" alocução a que se podia chamar, com mais propriedade "conferência", pelo que a publicaremos na íntegra, oportunamente.
Portugal vive integralmente nos "Lusíadas"
— disse o orador
Seguiu-se uma palestra em língua chinesa, dirigida aos jovens das escolas chinesas, alusiva a Camões, pelo rev. Padre Lei Chông U, director da escola secundária chinesa "Mong Tak".
Findas as palestras, Sua Exa. o Governador e comitiva, dirigiu-se para o lado esquerdo da gruta, assistindo ao desfile da Mocidade Portuguesa, dos jovens estudantes de ambos os sexos, das crianças das escolas primárias portuguesas e chinesas que depunham flores junto do busto, flores naturais, viçosas e lindas, em homenagem ao grande poeta Camões — edificante exemplo de respeito e veneração pelo grande português, de portugueses e chineses, de muçulmanos e caenses, irmanados no mesmo fervor espiritual e profundo respeito por Portugal eterno.
Era meio dia quando se ouviu o primeiro tiro de canhão, da salva de 21 tiros que a fortaleza do Monte disparou assinalando nestas paragens o Dia de Portugal.

A recepção e cumprimentos no Palácio do Governo da Praia Grande
Foi cerca das 12,30 horas, que se aglomeraram inúmeras pessoas no átrio do Palácio, a fim de apresentar cumprimentos a Sua Excelência o Presidente da República Portuguesa, na pessoa do seu legítimo representante em Macau, Sua Exa. o Governador da Província Almirante Joaquim Marques Esparteiro.
De acordo com o protocolo desta cerimónia, foi feita a chamada das entidades indicadas na Reforma de Administração Ultramarina, pelo sr. tenente Lopes da Costa, oficial às ordens de Sua Exa. o Governador. E além dessas entidades, funcionalismo, oficialidade do exército e da armada, apresentaram cumprimentos membros dos mais categorizados da comunidade chinesa, associações, comerciantes, industriais, médicos, engenheiros, advogados, e inúmeras pessoas em número muito superior a um milhar.
Sua Exa. o Governador estava ladeado pelo Juiz da Comarca, Prelado da Diocese, Comandante Militar, Vice-presidente do Conselho de Governo, ajudantes e secretário do Prelado, a todos estendendo a mão com o seu peculiar sorriso.

No Hospital de S. Rafael
Findos os cumprimentos, registou-se uma surpresa, extra-programa. Soubemos que Sua Exa. o Governador e Sua Exma. Esposa Senhora Dra. D. Laurinda Marques Esparteiro, resolveram, assinalando dia tão festivo, inaugurar, embora numa breve visita, novos e importantes melhoramentos no Hospital de S. Rafael da Santa Casa da Misericórdia. E fomos ver, também esses melhoramentos.
Na antiga dependência destinada a quarto das enfermeiras de serviço, no primeiro andar, foi instalada uma "incubadora eléctrica", aparelho gem do mais moderno fabrico americano, o qual, com acessórios, importou em cerca de cinco mil patacas. O aparelho não só regula electricamente a temperatura e grau de humidade necessários, como o fornecimento de oxigénio, numa combinação técnica admirável, e que é a última palavra no género e único em Macau. Assim um recém-nascido que careça desses cuidados, será salvo em tão útil como "humano" aparelho E, numa volta pelo primeiro andar, vimos também que quase tudo está pintado de novo, especialmente na maternidade; na sala de trabalhos substituíram as antigas "banheirinhas" por lavatórios de porcelana, com instalações apropriadas para aquecimento de água; marmorites nos pavimentos e paredes; divisórias envidraçadas, aquecimento, lavatórios de lavagem de bebés, mais crescidinhos, junto da enfermaria das parturientes e muitos outros arranjos em obediência às exigências dos mais modernos apetrechamentos tendo em vista a higiene e o conforto nos hospitais.
Notava-se em Sua Exa. o Governador e em Sua Exma. Esposa incontida satisfação por verificar o crescente progresso daquele hospital.
Os ilustres visitantes foram recebidos à entrada do Hospital e acompanhados na visita aos novos melhoramentos pelo dr. Barros Lopes, seu Director, pelo Provedor, sr. dr. Damião Rodrigues, e pelos srs. 1.º Tenente Lourenço Pereira, mordomo, e pelos mesários Mário Pereira, Joas Lopes, Alfredo Silva e pela farmacêutica do hospital sra. dra. D. Maria José da Cruz Neves, e pelos srs. drs. Edmundo e Henrique Senna Fernandes.
À já na despedida, a uma pergunta nossa, disse-nos um mesário a origem da verba despendida naqueles melhoramentos, tendo alguns beneméritos oferecido alguns materiais de construção.
E quem havia de dizer, que o produto da festa dos santos populares do mercado de S. Domingos, do ano passado, iniciativa louvável a todos os títulos da Exma. Senhora Dra. D. Laurinda Marques Esparteiro, viria a transformar-se em obra tão útil e de tão elevado alcance social, em benefício do Hospital de S. Rafael, em suma, da população de Macau-ricos, remediados e pobres.

Nos salões do Palácio do Governo da Praia Grande
Houve recepção das 18 às 20 horas, onde mais uma vez se apreciou a franca hospitalidade portuguesa. Sua Exa. o Governador e Sua Exma. Esposa foram duma extrema amabilidade para os seus convidados, portugueses, chineses e estrangeiros, numerosas senhoras que emprestaram ao ambiente a graciosidade das suas "toilettes" vaporosas e coloridas.
Foi servido um delicado "cocktail", executando a orquestra Vila Verde escolhidas músicas.
Esta recepção deixou gratas recordações a todas as pessoas que assistiram à requintada festa.
Assistiram, também, as mesmas entidades e individualidades a que já nos referimos.
No Teatro de D. Pedro V a sessão cultural dedicada ao imortal Camões
Eram 21,45 horas, quando começou. Na primeira fila tomaram lugar Sua Exa. o Governador e Exma. Esposa, o Venerando Prelado da Diocese, Juiz Substituto, Comandante Militar e noutras filas, várias pessoas e entidades portuguesas e estrangeiras.
A sessão iniciou-se com o Hino da Mocidade Portuguesa, cantado pelo orfeão da M.P., seguindo-se as canções populares portuguesas pelo mesmo orfeão "A nossa terra", "O mendigo" e "O trevo". O orfeão, com boa afinação de todos os seus naipes foi dirigido pelo assistente eclesiástico da Mocidade Portuguesa rev. Padre Barcelos Mendes, sendo muito aplaudido.
Seguiu-se uma notável conferência pelo sr. Dr. José Tertuliano Cabral, vice-reitor do Liceu Nacional Infante D. Henrique, subordinada ao título "Camões, o príncipe dos poetas portugueses", conferência em que versou os temas "A síntese da lírica medieval", "Glória da poesia renascentista" e "Fonte de inspiração para as correntes poéticas posteriores".
O seu trabalho prendeu a assistência, pelo real valor da tese que apresentou em que comprovou, demonstrando profunda análise de Camões e das suas obras, da sua época e da influência das obras de Camões até nossos dias.
Na sua conferência disse o orador, na sua modéstia tantas vezes demonstrada, como o seu valor: "um infinitamente pequeno, vai falar dum infinitamente grande".
Podemos dizer sem receio de desmentido que o conferencista estava à altura do seu trabalho, do seu profundo conhecimento da Obra de Camões e da literatura portuguesa de que é distinto professor.
Dado o tamanho da sua notável conferência não cabe nesta ligeira reportagem impressiva, pelo que oportunamente será publicada na íntegra. Os trabalhos que o fazer-se deles um resumo é quase um crime.
A sessão cultural que foi promovida, como a romagem patriótica à gruta de Camões, pelo Conselho de Instrução Pública, de Macau, terminou com o Hino Nacional, cantado pelo Orfeão da Mocidade Portuguesa, regido pelo Rev. Padre Barcelos Mendes e acompanhado ao piano pelo Rev. Padre Lancelote, ouvido no mais profundo e emocionante silêncio, de pé por toda a assistência.
Iluminações de gala
Assinalaram a noite festiva de 10 de Junho — Dia de Portugal, apresentando feérico aspecto as fachadas dos edifícios, nomeadamente o Palácio do Governo da Praia Grande, das Repartições, dos Correios, e Leal Senado, quartéis e fortalezas, esquadras da polícia, etc.
Artigo publicado nas páginas 1 e 6 do Notícias de Macau de 12.6.1956

Na capa da edição de 12.6.1956 do "Notícias de Macau"


"Como nos anos anteriores foi o DIA DE PORTUGAL aqui festejado com brilho e acentuado espírito patriótico no dia 10 do corrente, dia consagrado ao imortal Poeta Luís de Camões. Nesta cidade revestem-se essas comemorações de especial significado por, segundo a tradição, ter o Poeta escrito em Macau parte do seu imorredoiro Poema. Para festeja esta grande Festa Nacional foi elaborado o seguinte programa que se cumpriu integralmente:
1- Às 8.00 horas – Hastear da Bandeira Nacional nos edifícios das Repartições Públicas, Quartéis e Fortalezas.
2- Às 10.00 horas – Parada militar com desfile das forças diante da tribuna colocada em frente ao Palácio da Praia Grande, no qual tomarão parte contingentes da força do Exército da Polícia de Segurança Pública, da Polícia Marítima e do Corpo de Bombeiros Municipais, sendo a guarda de honra a Sua Exa. o Governador prestada pela Milícia da Mocidade Portuguesa.
3- Às 11.00 horas – Cerimónia pública no Jardim da Gruta de Camões em que farão alocuções os Srs. António da Canhota, professor da Escola Comercial “Pedro Nolasco” e Lei Chêng U, director da escola chinesa “Meng Tak”, depois do que desfilarão os alunos das escolas e da Mocidade Portuguesa, perante o busto do poeta.
4- Às 12.00 horas – Salva de 21 tiros na Fortaleza do Monte.
5- Às 12.30 horas – Recepção na Residência do Governo às corporações oficiais, funcionários e cidadãos desta província que desejem apresentar cumprimentos.
6- Das 18.00 às 20.00 horas – Recepção no Palácio do Governo da Praia Grande.
7- Às 21.45 horas – Sessão cultural no Teatro “D. Pedro V”, promovido pelo Conselho de Instrução Pública, ao qual o vice-reitor do Liceu Nacional Infante D. Henrique, Dr. José Tertuliano Cabral, proferirá uma conferência subordinada ao título: “Camões, o príncipe dos poetas portugueses”. Cooperará no sarau o Orfeão da Mocidade Portuguesa.
8- Das 21.00 às 24.00 horas – Iluminação de gala nos edifícios públicos e quartéis que o possam fazer."
Artigo “Comemorações do Dia de Portugal.” 
publicado no Boletim Informativo da Repartição Provincial dos Serviços de Economia e Estatística Geral – Secção de Propaganda e Turismo. Ano III, nº 60, 15.6.1956

terça-feira, 26 de maio de 2026

"Chal fundo e chal Grande"

De acordo com o Glossário do Dialecto Macaense e outros registos do português na Ásia:
Chal (ou Chale): É um termo de origem indo-portuguesa (do marata chāl ou guzerate chāl). Designa um edifício comprido e estreito, geralmente dividido em várias habitações ou compartimentos independentes, frequentemente ocupado por artífices ou trabalhadores.
Em contextos urbanos antigos (como em Bombaim ou partes de Goa e Macau), os chals eram estruturas comunitárias com um corredor ou varanda comum.
Detalhe de "Planta Topographica da Cidade de Macáo. Levantada em 1831 e Reformada em 1838 por Candido Antonio Ozorio", oficial de infantaria e engenheiro.

Neste mapa referem-se o "Chal fundo" e o "Chal Grande". Outras referências neste detalhe do mapa:
a) Casa de D. Antónia
b) Campo de Santo António
c) Gruta de Camões
d) Horta do Pereira
e) Igreja de Santo António
f) Tarrafeiro
k) Horta da Companhia (holandesa)
j) Casa da Companhia (holandesa)
u) Cemitério britânico
h) Hospital britânico
V) Povoação de Patane
H) Chal fundo

domingo, 22 de fevereiro de 2026

"Camões no Oriente"

"Camões no Oriente" é o mais recente título da autoria de Ana Maria Magalhães e Isabel Alçada (ilustrações de Rui Sousa) a integrar a Biblioteca Digital da Fundação Jorge Álvares.
Da colecção "Portugueses no Oriente", vocacionada para o público juvenil, fazem ainda parte os títulos "Missão Impossível", "A Nau do Trato" e "Encontros na Cidade Proibida" – "os quais, além de animadas aventuras dos seus jovens intervenientes, contêm muita Informação histórica de fácil leitura e aprendizagem. Estas edições, não comerciais, foram especialmente encomendadas pela Fundação Jorge Álvares às autoras, tendo sido distribuídos vários exemplares pelas bibliotecas que integram a Rede de Bibliotecas Escolares nacional. A Nau do Trato foi por sua vez traduzida para chinês numa iniciativa do então Embaixador de Portugal em Pequim, José Augusto Duarte."

Excerto:
"No ano 1562 o vice ‑rei, que era D. Francisco Coutinho, conde do Redondo, nomeou Luís de Camões Provedor dos Defuntos em Macau. Este cargo era muito apetecido por ser bem pago pela coroa portuguesa e não só. O Provedor de Defuntos tinha como missão fazer o inventário de todos os bens deixados por portugueses que morressem em Macau. Devia vendê‑los em leilão e guardar o dinheiro que obtivesse para o entregar aos herdeiros ou à coroa, mas tinha o direito de ficar com uma percentagem. Só podia exercer o cargo quem soubesse ler, escrever, interpretar leis. E, naturalmente, convinha que fosse honesto para não dar informações erradas aos herdeiros e à coroa e para não se apropriar daquilo que não lhe pertencia. Já viviam então muitos portugueses em Macau e praticamente todos se dedicavam ao comércio. A exceção era os padres. O imperador da China tinha autorizado os portugueses a instalarem ‑se em Macau para comerciarem em 1557. 
A partir de então a cidade, que fica situada na foz do rio das Pérolas começou a desenvolver‑se não só devido à presença dos portugueses mas também porque muitos chineses foram atraídos pelos negócios que ali podiam fazer. Naquele porto o movimento era cada vez mais intenso. Naus vindas de Goa transportavam produtos europeus, ouro da costa oriental da África, tecidos da Índia especiarias das ilhas Molucas e outros produtos de outras regiões da Índia e do Pacífico. Em Macau tudo isso se vendia com lucro e por lá se compravam porcelanas e sedas da China. A partir de certa altura, passou a haver também comércio com o Japão, onde as naus se dirigiam sobretudo para comprar prata. De modo que, quem fosse corajoso, hábil e tivesse sorte, conseguia enriquecer. Quanto mais trocas se fizessem, mais a coroa lucrava porque as naus tinham de pagar taxas alfandegárias em todos os portos dominados pelos portugueses. (...)
Segundo a tradição, o poeta subia com frequência a colina de Patane e sentava ‑se a escrever no interior de uma formação rochosa, que passaria à história como «penedo de Camões ou gruta de Camões». Ninguém sabe se realmente teria escrito naquele lugar ou não, mas se o fez escolheu bem porque naquele tempo, sem construções em volta, podia desfrutar de uma bela vista e porque em dias de calor e humidade desfrutaria também de sombra e frescura. Quem hoje visita Macau, se passar pela dita «gruta» ali encontrará um busto do poeta em bronze.(...)" 
Todas as obras desta colecção podem ser acedidas e descarregadas no site da FJA. 


No site está ainda disponível informação sobre o concurso "Vale a Pena Ler" para o ano lectivo 2025/26 e que tem como destinatários, nesta edição, as escolas de Portugal Continental e das Regiões Autónomas dos Açores e da Madeira.
Para esta iniciativa a Fundação Jorge Álvares "convida todos os alunos e professores a mergulharem nos fascinantes conteúdos da sua Biblioteca Digital e a participarem num concurso único, onde o conhecimento, a imaginação e a criatividade se encontram para dar vida a novas ideias!"
O concurso destina-se a alunos do 2.º e 3.º ciclos do Ensino Básico e do Ensino Secundário, sendo a participação individual, mas sempre no contexto escolar, com o acompanhamento de um(a) professor(a) responsável.
O período de candidaturas decorre entre 15 de Março e 23 de Abril de 2026.

segunda-feira, 1 de dezembro de 2025

Restauração da independência, Eduardo Brazão e Escola Camões em Hong Kong

Em mais um aniversário da Restauração da Independência (1640) - data relevante tb para Macau * onde existem duas ruas da Restauração (em Macau e na Taipa) - ocorreu-me o nome de Eduardo Brazão (1907-1987), proeminente diplomata e historiador português com forte ligação ao Oriente e a Macau, tendo sido Cônsul de Portugal em Hong Kong entre 1946 (chegou em em Abril de 1947) e 1951.
The  China Mail 4.4.1947

Sabia que actualmente existe a "Escola Camões" em Hong Kong? Na sua origem está Eduardo Brazão. Diplomata, académico e historiador considerado um visionário. Neste aspecto, uma das ideias que preconizou foi a criação de uma Universidade em Macau na década de 1940. O projecto acabou por não vingar. O mesmo não aconteceu com a criação da Escola Camões em Macau e do Instituto Português, também na então colónia britânica.
Imagens fornecidas por antigos alunos da Escola Camões em Hong Kong
Fundada em 1947, começou por funcionar no nº 7 da Cox's Road (Tsim Sha Tsui) e abrangia os primeiros anos de escolaridade, da creche ao ensino primário. Embora se destinasse a alunos portugueses/macaenses, depressa passou a aceitar alunos de outras nacionalidades, incluindo chineses. De início teve apoio do Governo de Macau e posteriormente do Governo de Hong Kong e da comunidade portuguesa local. Em 1957 há registo de mais de 200 alunos inscritos.
A primeira director da escola foi a macaense - nasceu em Shameen, Cantão - Maria Lourdes de Oliveira Sales (1926-2022).
No início da década de 1950 o jornalista Armando de Aguiar (Correio da Manhã, do Brasil) visitou Macau e Hong Kong, tendo-se encontrado com Eduardo Brazão. Aqui fica o seu testemunho:
"Num dos navios do magnate macaense Sr. Fu Tak Iam fiz-me transportar a Hong-Kong. O braço amigo do Dr. Eduardo Brasão levou-me a visitar a cidade e os arredores, incluindo Kowloon, que em chinês quer dizer ‘nove dragões’, de Kow (nove) e Lung ou Loon (dragões). E levou-me também a transpor as páginas da história pátria no que diz respeito à presença de Portugal no ‘Porto Perfumado’. Numa das barulhentas e policromas ruas da cidade chamou-me a atenção uma casa revestida de azulejos de aspecto português. Dei- me à curiosidade de investigar a sua origem e apurei serem, realmente, de origem nacional, fabricados em Aveiro. O Clube de Recreio, em Kowloon, é uma afirmação do espírito social da comunidade portuguesa, assim como o Clube Lusitano, fundado em 1866, marca um lugar do mais alto relevo entre as instituições culturais que exaltam e prestigiam o nome de Portugal em países estrangeiros. Pois foi dentro das veneráveis paredes daquela patriótica instituição que o actual secretário nacional da Informação fundou, em Novembro de 1947, o douto Instituto Português de Hong-Kong, destinado à divulgação da nossa cultura naquela colónia britânica, onde, graças ao fecundo impulso que desde o início lhe foi dado por aquele brilhante diplomata, têm sido versados os principais problemas relacionados com a obra da inteligência em Portugal, no passado e no presente. O Instituto Português de Hong-Kong deve ser considerado o remate da obra de defesa da língua de Camões naquela colónia inglesa, onde vivem cerca de mil portugueses. O Instituto e a Escola de Camões, também patriótica iniciativa do Dr. Eduardo Brasão, constituem dois instrumentos onde vibra a alma de Portugal."
Em 1996 os destinos da escola para Po Leung Kuk, adoptando o nome "Camões Tan siu Lin Primary School" e mudando de instalações. Acualmente proporciona esporádicamente cursos de português.
Da vasta obra que Eduardo Brazão deixou publicada destaco:
- "Macau, Cidade do Nome de Deus na China, Não Há Outra Mais Leal",1957
* Macau manteve-se fiel à coroa portuguesa durante o período de união ibérica (1580-1640) e, como recompensa pela "lealdade", o rei D. João IV concedeu-lhe o título de "Não há outra mais leal" em 1654. A aclamação de D. João IV como rei ocorreu em Macau dois anos após a restauração em Portugal, em 1642. 

Sugestão de leitura:
A Aclamação del Rei D. João IV em Macau (Subsídios Históricos e Biográficos) da autoria  de José Frazão de Vasconcellos publicado em Separata do N.º 53 do Boletim da Agência Geral das Colónias em 1929.

quinta-feira, 27 de novembro de 2025

"A Voyage Round the World in 500 Days"

"A voyage round the world in 500 days, with details, compiled and arranged by G. Sutherland Dodman. Giving an account of the principal parts to be visited with a brief description of the scenery and all particulars connected with the undertaking; Illustrations and Map and Chart of the Route. Sailing from Liverpool, June, 1880"
Este longo título descreve a obra da autoria de G. Sutherland Dodman publicada pela primeira vez em Londres no ano de 1879. No título refere-se que a partida seria em Liverpool em Junho de 1880., ou seja em data posterior à publicação do livro. Estamos pois perante uma viagem programada. Na prática o autor compila todas as informações disponíveis na época e apresenta neste livro um guia para uma volta ao mundo ao longo de 500 dias.
O livro foi publicado pouco depois do grande sucesso de Júlio Verne, A Volta ao Mundo em Oitenta Dias (1873), que despertou o fascínio do público pela circum-navegação do mundo. Capitalizando o interesse que a obra de Verne suscitou, Dodman apresenta o que diz ser um plano para uma viagem "realista" de 500 dias.
Macau surge referido na obra a propósito de uma escala em Hong Kong. De uma forma geral as informações sobre a história do território são fidedignas, com algumas excepções, apresentando o contexto do que era Macau no último quartel do século 19.
Aqui fica o excerto bem como uma tradução/adaptação do mesmo:


"(...) Some 40 miles distant across the Canton river and on a peninsula of the island of Heang shang, is the Portuguese settlement of Macao, another town of considerable interest. Macao was ceded to the Portuguese during the sixteenth century as a reward for services rendered in the suppression of a noted Japanese pirate and other acts for the well being of the Chinese empire, but the present Government do not care to recognize them as the owners of the Macao peninsula.
Since the treaty ports were opened, the trade of Macao appears to have sunk into insignificance and now that the coolie traffic has been abolished and the tea trade taken to the Yang tse Kiang ports, it has become a ruined town and its only revenue is derived from the licensing of the gambling houses of which there are not a few.
Visitors are admitted to a gallery in these places to see the novel way in which the Chinese, who, by the way, are inveterate gamblers win and lose their money.
The bay is very beautiful and is surrounded by very fine scenery. The Praya Granda, a fine broad promenade running along by the beach, contains the Government House and other good buildings with a great number of elegant mansions having large gardens. These were formerly the residences of the wealthy merchants of Macao.
A most delightful view of the coast and the curiously shaped islands adjacent may be obtained.
The Cathedral is a noble looking building and its interior contains some exquisite workman ship. The Jesuit Cathedral of St Paul, built over 300 years ago, was some time back destroyed by fire but the ruins which still remain give some idea of its original grandeur. The churches,  which are numerous, are most elegant structures. The Senate House, at the head of the principal thoroughfare, is a stately building and an object of much interest. The old convents on the side of the hills are now converted into barracks but are little used.
The gardens surrounding them were at one time very beautiful. The public gardens are very pretty and attractive and from their lovely situation might if tended with proper care become a most popular resort.
The Bar Fort is a very formidable defensive work and a visit to it will prove very interesting. The markets are full of novelty and much amusement may be derived from a walk through them. The Portuguese Barracks are large and discipline is strictly maintained but the men have not the fine appearance of British soldiers owing to their irregularity in height no fixed standard appearing to be enforced.
The Cemetery is full of interest and is the resting place of many famous residents in Macao, when it was the great emporium of Portuguese commerce in the East. The monuments and tombs are somewhat peculiar in their style and are worth a visit.
The Pagoda and Chinese Temples may be visited but they fall far short of the interesting character of the temples of Japan or of others to be seen in China.
The streets, as a rule, are narrow but clean and orderly. They are however for want of the ordinary wear of traffic more or less overgrown with grass. It may in fact be said of the inhabitants of this once famous port that they are allowing the grass to grow under their feet while other places are reaping the harvest of prosperity.
One of the most interesting spots here is the gardens behind the town where the great Camoens wrote his famous Lusiad, a portion of which he composed during the time he held the high office of Portuguese Judge at Macao. There is also the cavern from which he studied the stars and their satellites in their brilliant splendour. The natural beauty of these lovely gardens is beyond description and from their elevated position they command a most delightful view of the town, the neighbouring coast and the broad expanse of ocean. Few places can equal in picturesque beauty the gardens of Camoens. The climate here is healthy and the place is a favourite resort for invalids and pleasure seekers. (...)

Panorâmica da cidade vista da Penha ca. 1880
(imagem não incluída no livro referido)

Tradução/Adaptação
A 40 milhas de distância, do outro lado do rio Cantão, e numa península da ilha de Heang shang, situa-se o território português de Macau, outra cidade de considerável interesse. Macau foi cedida aos portugueses durante o século XVI como recompensa pelos serviços prestados na supressão de um notório pirata japonês e outros actos para o bem-estar do império chinês, mas actualmente não há o reconhecimento da posse territorial.
Desde que os portos do tratado foram abertos*, o comércio de Macau parece ter afundado na insignificância e, agora que o tráfico de cules foi abolido** e o comércio de chá foi levado para os portos de Yang tse Kiang, a cidade tornou-se uma ruína e a sua única receita deriva do licenciamento das casas de jogo, que não são poucas. Os visitantes estrangeiro são admitidos numa galeria nestes locais para ver a forma como os chineses, que, aliás, são jogadores inveterados, ganham e perdem o seu dinheiro.
A baía é muito bonita e está rodeada por uma paisagem muito delicada. A Praia Grande, um amplo e belo passeio marítimo que corre junto à praia, contém o Palácio do Governo e outros bons edifícios, com um grande número de elegantes mansões com grandes jardins. Estas foram outrora as residências dos ricos comerciantes de Macau.
Da cidade conseguem-se ter vistas fantásticas vistas panorâmicas costa e das ilhas adjacentes.
A Catedral é um edifício de aspeto nobre e o seu interior contém um trabalho artesanal requintado. A igreja jesuíta de São Paulo, construída há mais de 300 anos, foi destruída por um incêndio há algum tempo ***, mas as ruínas que ainda permanecem dão uma ideia da sua grandiosidade original. As igrejas, que são numerosas, são estruturas muito elegantes. O edifício do Senado, no topo da principal artéria, é um edifício imponente e de grande interesse. Os antigos conventos na encosta das colinas estão agora convertidos em quartéis, mas são pouco usados. Os jardins que os rodeavam já foram muito bonitos. 
Os jardins públicos são muito bonitos e atraentes e, devido à sua adorável localização, poderiam, se tratados com o devido cuidado, tornar-se um resort muito popular.
O Forte da Barra é uma obra defensiva formidável pelo que que uma visita será muito interessante. Os mercados estão cheios de novidades e proporcionam um passeio muito divertido. Os quartéis portugueses são grandes e a disciplina é estritamente mantida, mas os homens não têm a boa aparência dos soldados britânicos devido à irregularidade da altura, não oferecendo um conjunto homogéneo.
O cemitério**** é um local de bastante interesse e é o local de descanso de muitos residentes famosos em Macau, quando era o grande empório do comércio português no Oriente. Os monumentos e túmulos têm um estilo um tanto peculiar e merecem uma visita.
O pagode e os templos Chineses podem ser visitados, mas ficam muito aquém do carácter interessante dos templos do Japão ou de outros que se podem ver na China.
As ruas, em regra, são estreitas, mas limpas e ordenadas. Contudo, devido à falta do desgaste normal do tráfego, estão cobertas de erva. De facto, pode-se dizer dos habitantes deste outrora famoso porto que estão a deixar a erva crescer debaixo dos seus pés enquanto outros lugares colhem a ceifa da prosperidade.
Um dos locais mais interessantes aqui são os jardins nas redondezas da cidade, onde o grande Camões escreveu o seu famoso Os Lusíadas, uma parte do qual compôs durante o tempo em que ocupou o alto cargo de juiz português em Macau. Há também a gruta de onde ele estudava as estrelas e os seus satélites no seu brilho esplendoroso. A beleza natural destes jardins encantadores está para além de qualquer descrição e, da sua posição elevada, proporcionam uma vista deslumbrante da cidade, da costa em redor e do delta do rio. Poucos lugares podem igualar em beleza pitoresca os jardins de Camões. O clima aqui é saudável e o local é um resort favorito para pessoas doentes e pessoas que procuram prazer. (...)"

*referência à década de 1860 e à segunda guerra do ópio.
** a abolição ocorreu em 1873.
*** 1835.
*** cemitério protestante junto ao Jardim Camões.

quarta-feira, 10 de setembro de 2025

"Purchase Camoens Grotto"

Uma notícia de 1880 do "Trübner's American and Oriental Literary Record" dá conta dos eventos relacionados com o terceiro centenário da morte de Luís de Camões em Junho de 1880. Nesse ano fez-se a trasladação das ossadas de Vasco da Gama e do poeta Luís de Camões para o Mosteiro dos Jerónimos (Lisboa). Informa-se ainda sobre a ideia de comprar a Gruta de Camões em Macau que ficaria sob gestão do Leal Senado. Esta ideia viria a concretizar-se em 1885 quando o governador Thomaz Rosa comprou por 35.000 patacas a Lourenço Marques a propriedade onde estava a gruta e um imóvel, a chamada Casa Garden. Pouco depois o espaço seria transformado em jardim público.
Em baixo uma poema alusivo à Gruta de Camões incluído no livro "Primeiros versos" de Luiz de Sequeira Oliva, 1862.

Esta gruta cavada aqui no monte 
Gruta foi predilecta de Camões 
Foi aqui que elle erguendo altivo a fronte 
Sósinho medulou nobres canções 

D'aqui voltando ao ninho seu paterno 
A quem votára os sons da sua lyra 
Em vez d'acolhimento doce e terno 
Achou só o abandono que prevíra!

Por fingidos amigos desprezado 
Do sempre adverso fado perseguido 
Morreu n'um hospital desamparado 
Morreu de fome e sede resequido 

Patria ingrata por modo desusądo 
Trataste o teu cantor como inimigo 
Porém de ti zombando a mão do fado 
Em Alcacer Kebir deu-te o castigo 

quarta-feira, 13 de agosto de 2025

"Glimpse of Macao"

Artigo intitulado "Notes from China by Dr. Dean" publicado na Baptist Missionary Magazine de Agosto de 1871. Inclui uma ilustração do túmulo do reverendo Robert Morrison.
Trata-se do testemunho de William Dean (1807-1895), fundador das igrejas baptistas nos EUA e da primeira igreja protestante chinesa do mundo. Nascido em 1807 em Nova Iorque chegou a Banguecoque (então Reino do Sião) com a mulher Matilda C. Man em 1835 para ser pioneiro numa missão entre os chineses que a União Missionária Batista Americana esperava que eventualmente liderasse. 
Em 1838 Dean casou-se com Theodosia Ann Barker (que depressa se tornou fluente em chinês) em Macau, onde os dois fundaram uma escola para crianças. Em Macau tiveram também uma filha.
Com a fundação de Hong Kong mudou-se para lá em 1842 juntamente com a nova mulher que viria morrer um ano depois. Na década de 1860 chegou a fundar uma igreja em Tientsin mas mudar-se-ia para a Tailândia em 1865 onde viveu mais uma década.
Este testemunho é referente a uma passagem por Hong Kong, Macau e Cantão em Novembro de 1870 altura em que a mulher, Maria Stofter Brown, regressa dos EUA. Dean morreu na Califórnia a 13 de Agosto de 1895. Numa notícia desse dia pode ler-se: "Fifty Years a Missionary. San Diego, Cal., Aug. 13.-Rev. Dr. William Dean, distinguished as the first Baptist missionary to China and Siam, where he labored fifty years, died here today. Dr. Dean had warm friends in the last and present King of Siam."
No artigo Dean aborda uma visita ao túmulo de Robert Morrison, no cemitério protestante contíguo à gruta de Camões, algumas impressões sobre a cidade em comparação com os anos em que ali viveu e ainda o clima de festa que se vivia na cidade devido ao aniversário do rei de Portugal, Dom Luís I. (31 de Outubro)
Macao, Nov. 1st - 1870
At two PM we left Hongkong by steam and landed at five o clock. We visited here the birth place of my daughter and the place of the marriage of her mother. We saw the grave of Dr Morrison who came to China in 1807 and died 1834 giving his twenty seven years of labor in founding Protestant Missions in China. By his side sleep the remains of his wife Mary and his son John R., who succeeded his father as Chinese Interpreter for the British Legation and discharged his duties with great credit to himself and benefit to his country, and rendered much important service to the cause of missions. Near the grave yard is the celebrated garden containing the cave in which the Portuguese poet, Camoens, wrote his poem.

Glimpse of Macao
Macao has about 80,000 Chinese and perhaps 5,000 Portuguese subjects, and the subjects of each, are under the government of their own national magistrates. The town has been rebuilt in part; the narrow streets opened to wide carriage roads, having a broad, well graded street along the sea in front of the town and fine carriage drives into the country.
This is an ancient Portuguese colony and their headquarters in the east but shows a great falling away of their power since the era of Columbus, when they were the first European power in this side of the cape but now are among the least.
Our visit to Macao proved to be on the anniversary of the King of Portugal and we found the people enjoying a holiday. In the evening the public buildings and prominent dwellings and places of business were illuminated and a multitude of small oil lamps so arranged, as to read the title of royalty or having the name of some public garden or business place of distinction. The multitude of men, women and children were seen in the streets and it was reported that a company of eighty ladies and a greater number of gentlemen spent the night at the Governor's ball. The next morning, before sunrise, the streets were thronged with women with the customary black shawl over their head walking to the temple for mass.
Canton Nov. 2nd
The courtesy of a friend gave us passage by steamboat from Macao to this place. The trip was made comfortably in eight hours. We are welcomed here by missionary friends of the American Presbyterian Board and the London Mission Society. (...)

Tradução/Adaptação:
Macau, 1 de Novembro de 1870
Às 14h, saímos de Hong Kong de barco e desembarcámos às 17h. Visitámos o local de nascimento da minha filha e o local do casamento da sua mãe. Vimos o túmulo do Dr. Morrison, que chegou à China em 1807 e morreu em 1834, dedicando os seus 27 anos de trabalho à fundação de Missões Protestantes na China. Ao seu lado repousam os restos mortais da sua mulher, Mary, e do seu filho, John R., que sucedeu ao pai como Intérprete de Chinês para a Legação Britânica e desempenhou as suas funções com grande crédito para si e benefício para o país, prestando importantes serviços à causa das missões. Perto do cemitério encontra-se o célebre jardim que alberga a gruta onde o poeta português, Camões, escreveu o seu poema. (Os Lusíadas)

Vislumbre de Macau
Macau tem cerca de 80.000 súbditos chineses e talvez 5.000 portugueses, e os súbditos de cada um estão sob o governo dos seus próprios magistrados nacionais. A cidade foi parcialmente reconstruída; as ruas estreitas abriram-se para largas estradas que permitem a passagem de carruagens, com uma rua larga e bem nivelada ao longo do mar em frente à cidade* e excelentes acessos para carruagens no interior.
Esta é uma antiga colónia portuguesa e a sua sede é a leste, mas mostra um grande declínio do seu poder desde a era de Colombo, quando foram a primeira potência europeia deste lado do cabo, mas agora estão entre as mais pequenas.
A nossa visita a Macau aconteceu no dia do aniversário do Rei de Portugal e encontrámos o povo a desfrutar de um feriado. À noite, os edifícios públicos, as residências proeminentes e os locais de negócios eram iluminados e uma infinidade de pequenas lâmpadas a óleo dispostas de forma a exibir o título da realeza ou o nome de algum jardim público ou local comercial de destaque. Uma multidão de homens, mulheres e crianças estava nas ruas, e foi relatado que um grupo de oitenta senhoras e um número ainda maior de cavalheiros passaram a noite no baile do Governador**. Na manhã seguinte, antes do nascer do sol, as ruas estavam repletas de mulheres com o habitual xaile preto sobre a cabeça***, que caminhavam em direção à missa.
Cantão, 2 de Novembro
A cortesia de um amigo proporcionou-nos uma passagem de barco a vapor de Macau até este local. A viagem foi feita confortavelmente em oito horas. Fomos aqui recebidos por amigos missionários do Conselho Presbiteriano Americano e da Sociedade Missionária de Londres. (...)
* marginal da baía da Praia Grande
** João Clímaco de Carvalho, capitão-tenente da armada, assumiu o cargo de Governador a 23 de Agosto de 1870. 
*** dó

sexta-feira, 13 de junho de 2025

"Ansicht von Macao nebst Camoens Wohnsitz als er die Lusiade schrieb"

"Ansicht von Macao nebst Camoens Wohnsitz als er die Lusiade schrieb" / "Vista de Macau e da residência de Camões quando escreveu os Lusíadas" é a legenda desta gravura incluída no livro de Gerhard Fleischer publicado em 1802 na Alemanha. A ilustração/gravura feita por Veith tem por base um desenho original de John Weber feito em 1779 (imagens abaixo).

segunda-feira, 5 de maio de 2025

Aguarelas "Camoens Cave": original e cópia

A aguarela acima é do início do século 19 e foi vendida recentemente num leilão. Tem por base uma obra original que Thomas e William Daniell incluiram no livro "A Picturesque Voyage to India by the Way of China", publicado em Londres em 1810 (imagem abaixo). Os dois ingleses estiveram em Macau na década de 1790. Esta ilustração tem uma história muito curiosa que conto numa edição deste ano da Revista de Cultura.

Excerto do livro referido:

"Camoens Cave, Macao: It is delightful to discover in a remote corner of Asia an object like Camoens’ cave, consecrated to the memory of European genius. It is well known that the adventurous bard having too freely indulged his wit in satire, was disgraced by Francisco Barreto, the viceroy of Goa, and banished to Macao. Tradition still preserves some records of his residence. The stranger is still led to the top of the rock where he was accustomed to walk, and where the summer-house is now erected, commanding a view of the harbour of Macao: but it was in this romantic cave that he delighted to spend his leisure hours, forgetting past and present hardships in the luxurious exercise of his imagination. His exile was softened by the kindness he experienced; and he obtained a lucrative appointment, which enabled him in five years to realize a considerable fortune: but, like Spenser, he lost his all in shipwreck; and finally returned to Portugal as poor as he left it. He died at Lisbon in 1679, in his sixty-second year. (...)"

quarta-feira, 19 de março de 2025

"Manner of carrying Persons of Rank in China"

"Manner of carrying Persons of Rank in China"/ "Forma de transportar pessoas importantes na China" é a legenda desta ilustração.
Em baixo à esquerda está escrito "Alexander del." - o nome do autor do desenho - e à direita "Engraved by Lydikker" - o nome do gravador da ilustração.
O desenho original é da autoria de George Alexander Cooke (1781 - 1834). A gravura faz parte do livro "A Modern and authentic system of universal geography, containing an accurate and entertaining description of Europe, Asia, Africa, and America being a complete and universal history and description of the whole world, as divided into empires, kingdoms, states, republics".
O livro relata grandes viagens pelo mundo ocorridas até então - Cook, Furneaux, etc.. - e foi publicado em dois volumes em Londres no ano de 1802. E inclui uma descrição da "cave of Camoens" na pág. 398 - num capítulo intitulado Empire of China onde aborda o tema Macau - embora na ilustração não se faça essa referência/identificação.
Poucos anos antes, 1794, já tinha regressado a Inglaterra a primeira missão diplomática inglesa à China, liderada por Lord Macartney e que passou por Macau. Um dos ilustradores oficiais da embaixada foi William Alexander. Entre os muitos desenhos que fez em Macau conta-se precisamente um onde se pode ver a Gruta de Camões na perspectiva apresentada neste livro de 1802 e já antes num dos relatos oficiais da embaixada - livro publicado em 1797 da autoria de George Staunton.
São notórias as semelhanças entre as duas ilustrações. A inclusão dos elementos humanos e da cadeirinha de seda resulta de um trabalho de composição. Repare-se que até o banco onde se pode ver alguém a ler ou a desenhar - do lado direito - está replicado. É muito provavelmente um desenho onde W. Alexander desenhou-se a si próprio. Fez vários...
Arrisco portanto a afirmar que pela primeira vez esta ilustração de George Cook feita há mais de 200 anos é devidamente identificada.

Curiosidade: o pequeno pavilhão chinês no topo do rochedo da Gruta de Camões foi demolido em 1885 quando o Governo de Macau adquiriu a propriedade e depois a transformou em jardim público, o Jardim de Camões, que ainda hoje existe.

terça-feira, 4 de março de 2025

Macao est plutôt belle par sa situation pittoresque

Exerto de "La Chine contemporaine, d'après les travaux les plus récents". Traduction de l'allemand par A. J. Du Bosch. Volume 2. Alexandre J. Du Bosch, publicado em Paris e Bruxelas em 1860

Macao, Vue prise du fort Hiang Schan

Macao est plutôt belle par sa situation pittoresque que bien défendue par des obstacles que la nature aurait créés pour sa sécurité. Les rochers environ nants dominent la ville et la mer qui la baigne rend la côte accessible aux plus grands navires. Son exis tence politique a toujours présenté une anomalie historique. Des aventuriers portugais qui parcou raient depuis longtemps l'Océan débarquèrent sur divers points du littoral chinois et surent par leur commerce leurs séductions et un peu par la violence obtenir qu'on reconnût leurs droits. En 1537 après la mort de saint François Xavier à Schan Schan les Portugais furent autorisés à résider à Macao non pas comme colonie indépendante mais ils furent admis aux prérogatives dont jouissaient les autres populations et cette permission ne leur était accordée que tant qu ils se comportaient bien ou tant que cela plairait à l empereur. (...)
La ville se trouve sur une presqu'île de trois milles anglais de long et sur un mille de large elle enclave un golfe superbe tandis que d'un autre côté s'élève un promontoire couvert d'églises de couvents de tours et de constructions bâties d'après le style européen. Une baie étroite et sablonneuse s'étend aux pieds du fort Hiang Schan ses remparts sont destinés à commander la colonie. Un mur très fortifié a été bâti le long de la baie comme c`est l`habitude des Chinois cette fortification établit une barrière entre les chrétiens et les hérétiques. (...)
L`administration portugaise consiste dans un gouverneur, un juge et un évêque, chacun d`eux jouit d'un traitement annuel de six cents livres sterling somme énorme quand on considère leur étroite sphère d'activité. La population chinoise de l'île est soumise aux autorités indigènes. Tous les Européens y compris les Portugais et les étrangers de différentes nations ce qui donne un total de quatre mille personnes sont soumis au gouverneur portugais. Son autorité est si peu reconnue qu il est arrivé aux Chinois d'ordonner à ses nationaux de quitter leur territoire sous peine de perdre leur fortune et leur liberté. Cette situation précaire ne permet aux colons de Macao que de se livrer au commerce encore sont ils si persécutés les malheureux chrétiens que leurs églises sont sans fidèles leurs mai sons sans habitants et le port presque désert.
Si l'on excepte Batavia, Macao a plutôt l'aspect d'une ville européenne que d'une cité de l 'Inde orientale cette résidence ne fait que décroître chaque jour et la nouvelle colonisation anglaise à Hong Kong ne fera que hâter sa ruine. Jusqu aujour d'hui les Anglais passent l'été à Macao quand leurs affaires ne les appellent pas aux factoreries de Canton ils ont implanté ici leur existence nationale. Ils possèdent des bibliothèques, des musées et d'autres établissements scientifiques.
Ilustração da Praia Grande com a colina e ermida da Penha ao fundo.
Meados séc. 19. Não incluída na obra referida

La Pria-Granda de Macao

La Pria ou Praya granda est le seul monument qui soit resté des jours brillants de Macao vue de la mer elle présente le plus ravissant coup d'œil. Sur une étendue de sept cents aunes s'élève en demi cercle une rangée de superbes habitations. L'espace laissé entre elles et l'eau sert de promenade; il est pavé et communique avec les vaisseaux qui sont à l'ancre au moyen de ponts. Ici sont situées les factoreries et l hôtel du gouverneur portugais, deux vastes constructions tout près d'elles est bâtie la maison des percepteurs d'impôt sur laquelle flotte la bannière impériale; à l'extrémité de la rue principale on découvre le sénat, édifice de grande dimension mais sans style; outre les bâtiments de la Praya granda on remarque des maisons d'architecture anglaise, des églises portugaises avec des cloches sonnant fréquemment à toute volée, des temples chinois et des habitations construites d'après les coutumes bizarres de ce peuple.
L'église Saint Joseph la plus belle et la plus étendue des douze sanctuaires de ce genre que les premiers colons portugais élevèrent est consacrée aux apôtres et appartient à un ordre monacal.
Cette ville vue de la mer n'a pas du tout l'aspect d une cité chinoise; le petit nombre d'habitants de cette nation demeurent dans des rues de l'intérieur dans des maisons à un étage qui sont cachées par les hôtels des Portugais et des Anglais ils sont presque tous ouvriers approvisionneurs et courtiers.
A côté du collège Saint Joseph Macao possède encore une autre école et des établissements scientifiques ainsi qu un refuge pour les orphelines. A l'extrémité de la Praya Granda on montre dans un spacieux jardin une grotte naturelle, appelée casa dans laquelle le Camoëns autrefois juge portugais à Macao écrivit dit on la plus grande partie de son immortelle Lusiade. Le mouillage pour les vaisseaux de fort tonnage est situé de l'autre côté de la presqu'île à environ dix milles anglais de Macao. Cette dernière ville se met en rapport avec cet endroit au moyen de bâtiments légers ou de longues barques. Avant les derniers traités chaque navire étranger qui voulait jeter l ancre devait recevoir un pilote qui avait pour mission de prendre connais sance de sa cargaison et de la déclarer à la douane. Quand les droits avaient été acquittés les passagers féminins pouvaient débarquer mais selon l'ordonnance chinoise ne pas chercher à pénétrer dans l'intérieur de l'empire. Cette formalité essentielle une fois accomplie le capitaine obtenait un Tschop ou autorisation de franchir le Bocca Tigris ces règlements ont été quelque peu violés dans les derniers temps et les circonstances ont également apporté des modifications à l'état primitif de ce port ainsi c'est Hong Kong qui a hérité du commerce de Macao, celui de Canton sest partagé entre les cinq places de commerce que le traité de Nanking a ouvertes aux Anglais Macao est donc désormais con damnée au repos le plus absolules familles chinoises de Canton y viennent aux jours brûlants de l'été séjourner quelques mois pour se dérober à la température intolérable de la cité des factoreries.
Les Portugais y fêtent gaiement chaque année le carnaval et ne se font pas scrupule pendant ces jours de folie de railler leur grandeur commerciale antérieure. Vis à vis de la grotte de Camoëns, les Jésuites avaient il ya plusieurs années établi un collége et un observatoire dont on retrouve encore les ruines éparses sur ce site charmant. Les vénérables pères avaient adroitement choisi cette localité où l'on est à l'abri de la mousson qui fait la terreur des vaisseaux réfugiés dans la rade.
Aux motifs que nous avons donnés pour expliquer la décadence de la ville où habita l'illustre Camoëns il faut encore ajouter une cause toute physique c'est l ensablement croissant du port et nous citerons immédiatement un exemple à l'appui de notre dire Lorsque lord Anson vint ici il mouilla avec ses vaisseaux dans la partie de la baie qui avoisine les quatre îles et y fut à l'abri de tout danger tandis qu aujourd'hui il serait tout à fait impossible à un bâtiment semblable d'entrer à pleines voiles dans le port. (...)

PS: assinalando-se neste dia o Carnaval, atente-se na referência a estas celebrações neste registo de 1860.