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domingo, 30 de novembro de 2025

"Explosion of a Portuguese frigate"

O irmão de Francisco Maria Bordalo (1821-1861) - ver post de ontem - Luíz Maria Bordalo, também oficial da Marinha portuguesa, foi uma das vítimas de uma das maiores tragédias humanas em Macau e um dos maiores desastres navais a envolver a marinha portuguesa. Ocorreu a 29 de Outubro de 1850  - era dia de aniversário do rei D. Fernando II e estava Francisco Maria Bordalo a caminho de Macau - quando por razões ainda hoje desconhecidas ocorreu a explosão no paiol da fragata D. Maria II - ancorada ao largo da Taipa - que continha 300 barris de pólvora. Morreram mais de 200 pessoas. A maioria pertencia à guarnição da D. Maria II. Dos 224 elementos da tripulação morreram 188 e os que se salvaram, apenas 36, foi graças ao facto de estarem em terra (hospitalizados ou destacados) e um grumete, o único que sobreviveu entre os feridos transportados para o hospital de Macau. Consta que apenas foram encontrados 71 cadáveres - os únicos sepultados - tendo os restantes desaparecido. Da lista de vítimas mortais constam ainda três marinheiros franceses presos e cerca de 40 chineses que estavam a bordo da fragata ou em embarcações próximas que foram atingidas pela força da explosão.
Em Portugal, cerca de dois meses depois, o jornal "O Patriota" escreve na edição de 28.12.1850: "Hontem espalhou-se uma noticia que tem causado profunda e geral consternação (…) Há jornaes que a dizem ocorrida em Macau, outros a referem como acontecendo em Calcutá, na India Inglesa. (…)" 
A notícia termina referindo haver esperança que a notícia fosse falsa. Mas não era... E o tema  volta na edição de 30.12.1850 escrevendo que "Por outras notícias parece que mesmo da fragata D. Maria alguém escapou".
A dimensão da tragédia foi amplamente noticiada na imprensa mundial, com especial enfoque na de língua portuguesa, incluindo no Brasil ao longo de 1851. O jornal "O Patriota" dedicou grande parte da edição de 30 de Janeiro de 1851 ao acontecimento publicando em duas páginas relatos oficiais, cartas de testemunhas e os nomes das vítimas. 

"Finalmente chegaram de Macau noticias officiaes e miudas do desastre acontecido á fragata D. Maria II. Infelicidade para o paiz, e para tantas familias! Mas cumpre que aquellas que só tem que lamentar a perda de seus chefes ou de alguns dos seus membros, tenham informações exactas a esse respeito. Por isso, com o officio do sr. Isidoro Francisco Guimarães Junior*, copiamos do Diario de hontem as relações que acompanham o mesmo officio. Fica manifesto que não pereceu ninguem estranho á fragata. Copiamos tambem do Boletim official de Macau sobre a impossibilidade de explicar aquelle infeliz acontecimento. Damos igualmente a nossos leitores a parte principal de uma carta particular que trata do mesmo acontecimento; e abonamos a intelligencia e a por nós conhecida boa fé da pessoa que a escreveu. A tudo isto ajuntamos um resumido extracto de outras cartas, tambem escriptas em Macau por homens que sabem ver as cousas; neste extracto se pinta o estado daquella cidade, e se indica a origem dos seus males. Lamentamos amargamente tanta desgraça! Todas as noticias, tanto officiaes como particulares, são conformes em attestar que a guarnição americana da corveta Marion fez todos os esforços possiveis para salvar os infelizes que podessem ser salvos. O governo de Macau escreveu e publicou officialmente uma carta dos mais expressivos agradecimentos ao commandante daquella corvetta."
* Era na altura capitão-tenente e comandante da corveta D. João 1º, estacionada em Macau. Viria a ser pouco tempo depois governador de Macau.
“Explosão da Fragata D.ª Maria 2.ª  em Macao no anno de 1850”
título desde óleo sobre tela -33x54cm -  de autor anónimo (provavelmente chinês)
Espólio do Museu Marítimo de Hong Kong

Copia de uma carta de Macau datada de 24 de Novembro de 1850 também publicada n'O Patriota a que juntei algumas notas. Não está assinada, mas o autor foi Carlos José Caldeira (1811-1882), que viveu em Macau entre Setembro de 1850 e Dezembro de 1851, e escreveu relato idêntico no livro que publicou em Lisboa em 1852 intitulado "Apontamentos d'uma viagem de Lisboa a China e da China a Lisboa".

"Eu achava me no dia 29 do mez passado a jantar com o bispo*, quando a explosão abalou todo o palacio, ouvindo se o estrondo como de um forte tiro de canhão. Em poucos momentos, olhando para a Taipa ou ancoradoiro, conhecemos a causa e os tristes effeitos. Sahi logo, e fui dos primeiros a chegar a bordo da curveta americana, onde estavam os dez desgraçados salvos pelos escaleres della; e dos quaes vi morrer dois; soffriam todos horrivelmente. A curveta americana nada soffreu; julga se que quem a salvou foi a proximidade em que se achava da fragata, por ficar exactamente debaixo do arco da curva que descreveu a explosão. Peças de 18** voaram por cima da curveta, com a felicidade de não a tocarem. Disseram me alguns officiaes americanos que um momento antes da explosão viram a fragata elevar se quasi seis pés ***fóra d agua. Tal foi a resistencia que apresentou o paiol e a forte structura do navio!

Gravura publicada no Diário Illustrado a 11.10.1873

A causa desta grande desgraça, isto é, o modo como chegou o fogo ao paiol da polvora, ficará para sempre desconhecido. Os que sobreviveram nenhum esclarecimento deram e só diziam que, estando cada um nos seus misteres, accordaram depois como de um letargo, ja a bordo da curveta americana. Com tudo, entre as varias hypotheses que lembram, a mais provavel parece a de ter sido lançado o fogo ao paiol pelo fiel d artilheria João Antonio, individuo de pessimo caracter e conducta e que naquelle mesmo dia fora asperamente reprehendido pelo commandante depois da salva ao meio dia. Embebedava-se, e dizem, que alguna vez soffrendo castigos, se lhe ouviram ameaças deste successo. Seria cousa bem curiosa a policia procurar a origem de um boato que correu em Lisboa da queima e perda da fragata do qual se fazia menção em uma carta escripta d ahi em Agosto pelo irmão do official Bordalo e por este aqui recebida e mostrada. Esta circumstancia é notavel; talvez o malvado fiel a alguem para Portugal tivesse communicado suas dannadas intenções.
Além da perda deste bello navio e de tantas vidas, havia talvez a bordo delle o valor de trinta a quarenta mil patacas em objectos e dinheiro dos officiaes e de comissões. Particularmente me affectou a morte do Assis e do Bordalo. Naquelle dia tinha o Assis tido o pensamento de jantarmos juntos a bordo da fragata, com o Sequeira Pinto, Guimarães e outros; e por algum inconveniente que teve tinha este jantar ficado para algum dos dias imediatos. Foi a providencia que nos salvou; provavelmente aquella hora por lá estariamos se lá tivessemos ido jantar.
Esta semana houve aqui outro acontecimento tambem desastroso. Um portuguez desta cidade casou se; achou a noiva impura e arrancou lhe a confissão de que o padrasto della era o culpado. Com toda a serenidade procurou a este na sua propria habitação e disparou una pistola n'um ouvido; deixando o nas agonias da norte, sahiu e na escada carregou outra vez a mesma pistola e deu outro tiro na sua propria cabeça morrendo immediatamente Parece que esta terra esta agora fadada para desastres!!!"

* Carlos José Caldeira era primo D. Jerónimo José da Matta, bispo de Macau entre 1845 e 1862; o palácio/residência episcopal era anexa à Sé.
** peso da bala disparada, neste caso, canhão de 18 libras (8,16 Kg).
*** quase 2 metros.

terça-feira, 8 de fevereiro de 2022

Francisco Maria Bordalo 1821-1861: (segunda parte)

Francisco Maria Bordalo (Lisboa, 5 de maio de 1821- Lisboa, 26 de maio de 1861), foi um escritor e jornalista português e ainda capitão-tenente da armada. 
O dia do nascimento coincidiu com a morte de Napoleão, circunstância que Bordalo sempre notava, e mencionou nalguns dos seus escritos. Era filho de José Joaquim Bordalo e de sua mulher, D. Madalena Gertrudes Dinis.
Contava apenas 12 anos de idade quando entrou na classe dos aspirantes de marinha, em 7 de setembro de 1833.
A 16 de maio de 1834 embarcou pela primeira vez, indo às ilhas dos Açores a bordo da escuna Algarve. Depois de ter estado nas ilhas de S. Miguel, Terceira e Faial, regressou a Lisboa em 10 do julho. Embarcou pela segunda vez ainda no mesmo ano, e regressando em setembro, passou a frequentar a Academia de Marinha, estudando por espaço de três anos, tempo requerido para completar o curso.
Depois foi promovido ao posto de guarda-marinha efectivo em 27 de novembro de 1837, sendo em seguida nomeado, juntamente com outros oficiais, para fazer parte da comissão que ia a França buscar os restos da nossa esquadra, que fora aprisionada nas águas do Tejo em 1834 pelo almirante Roussin. Partiu no começo do rigoroso inverno de 1837 a bordo da fragata Diana; sofreu grande tempestade, conseguindo por fim a muito custo lançar ferro na baía de Brest. Regressou à pátria a 14 de maio de 1838.
No princípio de 1840 partiu para Angola, e durante esta estação visitou repetidas vezes a cidade de Benguela, onde adoeceu, o presidio de Novo Redondo e diversas povoações. Em Moçamedes esteve sete meses. Neste ano foi promovido a segundo tenente, por despacho de 26 de novembro. No regresso sofreu um grande desgosto; uma senhora que muito amava, e a quem prometera casamento, havia-o esquecido, tomando outro marido na sua ausência. Para se distrair, procurou lenitivo no estudo, e matriculou-se na Escola Politécnica no curso de Economia Política.
A morte de sua mãe, em 1843, que ele muito estimava, veio ainda agravar-lhe o seu desgosto. No mês de abril desse ano recebeu ordem para embarcar na corveta Urânia, indo fazer estação em África. Apesar da predileção que tinha pela vida marítima, esta precipitada ordem, pouco depois da morte de sua mãe, o incomodou a ponto que pensou em pedir a demissão. O comandante era seu amigo, pediu-lhe que fosse, e que brevemente regressaria ao continente; na verdade, seis meses depois chegava a Lisboa a bordo do brigue Audaz.
Em 17 de maio de 1844 saiu na fragata Diana para conduzir à ilha da Madeira os vencidos na luta política. Foi depois ao Brasil a bordo da corveta D. João I, e visitou o Rio de Janeiro e Montevideu. Voltando à Europa, teve a nomeação de ajudante da companhia dos guarda marinhas em 7 de setembro de 1846, servindo de inspector dos estudante subsidiados do ultramar.
Em 1849 foi nomeado secretário do governo de Macau, de onde regressou em 1852, tendo visitado na volta Itália, Paris e Londres.
Fora promovido a 1.º tenente em 12 de novembro de 1850. Desde então nunca mais embarcou.
Sendo em 8 de agosto de 1859 promovido ao posto de capitão-tenente, foi em abril de 1861 feito secretário da junta encarregada de propor ao governo os meios eficazes de promover nas províncias ultramarinas a cultura do algodão, e em 10 do referido mês figurava como vogal da 5ª secção na lista das pessoas escolhidas para comporem a comissão diretora da exposição dos produtos nacionais em Lisboa, e dos preparatórios para a de Londres.
Sendo oficialmente encarregado de continuar os trabalhos topográfico-estatísticos, principiados por Lopes de Lima, e relativos às possessões portuguesas no ultramar, começou a sentir os sintomas da doença pulmonar, de que veio a morrer. Por conselho dos médicos ainda foi à ilha da Madeira procurar alívios, agravando-se-lhe, porém, os sofrimentos, voltou para Lisboa, e pouco depois faleceu.
O seu funeral foi bastante concorrido; o Jornal do Comercio publicou um artigo necrológico, em 5 de junho de 1861. Ainda em sua vida, publicaram-se artigos biográficos no Arquivo familiar, nº 10, do 1º de maio de 1858 assinado por G. A. M.; na Revista contemporânea, tomos II e III, artigo de Rebelo da Silva; e nos Folhetins de um marinheiro, de J. C. Ribeiro Viana, de 1870, biografia escrita pelo próprio Bordalo, que fora publicada anteriormente no Diário Popular de 2 e 3 de maio de 1868.
A vocação literária manifestara-se em Bordalo logo ao desabrochar da juventude, e foi-se fortificando pela contemplação de tantas maravilhas, admiradas em mares e climas diversos. Entusiasta pelo mar desde criança, na maior parte dos seus escritos trata das viagens, comprazendo-se em encarar o mar sob todos os pontos de vista, e por isso se tornou conhecido como escritor marítimo.
Bordalo colaborou na Revista Universal Lisbonense (1841-1853), Revista popular, O Panorama (1837-1868), Distração instrutiva, de que foi também redactor, publicação feita em 1842, a Illustração luso-brasileira (1856-1859), Imprensa, Rei e Ordem, Revista Contemporânea de Portugal e Brasil (1859-1865) , etc.
Escreveu o drama em 5 atos Rei ou impostor? que só representou pela primeira vez no teatro do D. Maria em 22 de agosto de 1847, e se tornou notável pela polémica que se deu entre o autor e a inspeção geral dos teatros; dela se ocupou largamente a imprensa jornalística. O drama imprimiu-se no referido ano de 1847, sendo seguido dos principais artigos, que sobre o assunto se haviam publicado. O entrecho era a personagem incógnita que se apresentara em Veneza nos últimos anos do século XVI, dizendo ser D. Sebastião, rei de Portugal. Com o mesmo título e o mesmo entrecho já se publicara, na forma de romance, em 1814 na Revista Universal.
Foi ainda autor das seguintes obras:
Trinta anos de peregrinação, 1821 a 1851, manuscrito achado na gruta de Camões, Macau, 1852;
Um passeio de sete mil léguas, Lisboa, 1854;
Eugénio, romance marítimo, Rio de Janeiro, 1846; 2ª edição, Lisboa, 1854;
Viagem à roda de Lisboa, Lisboa, tomo I, 1855;
Novelas, romances e artigo publicados em jornais e revistas
A nau de viagem, romance, Revista Popular, de 1850 e 1851;
Quadros marítimos, Panorama, vol. III da 3ª série, 1854;
Viagens na África e na América, Panorama, vol. III da 3ª série, 1854;
D. Sebastião o desejado, lenda nacional, e 1844 e no Panorama, 1858;
D. Fuas Roupinho, no Panorama;
Gil Eanes, no Panorama;
Pero de Alenquer, no Panorama;
Os visitadores da América, no Panorama;
Navegadores estrangeiros, no Panorama;
Ignoto Deo, tradição portuguesa, no Panorama;
Viagem pitoresca à roda do mundo, no Panorama;
O Voador, no Panorama.
Ensaios sobre a estatística na África Ocidental e Oriental, na Ásia Ocidental, na China e na Oceania, começados a escrever de ordem do governo por José Joaquim Lopes de Lima, e continuados por Francisco Maria Bordalo, Lisboa, 1859; este volume trata de Moçambique e suas dependências.
Depois da morte de Bordalo publicou-se outro volume em continuação a este, Lisboa, 1862.
Rebelo da Silva, no seu artigo da Revista contemporânea, dá nota dos seguintes escritos dramáticos, dizendo que alguns deles não passaram de estudo, e outros de que, segundo parece, se perderam os manuscritos: O alcaide de Faro, Ricardo Savage, O leproso, A mulher romântica, e Faz favor do seu fogo?
Em 1880 e 1881 a casa Chardron, do Porto, publicou os seus Romances marítimos, divididos em três partes, compreendendo na 1ª: A nau de viagem, O galeão Enxobregas; na 2ª: Episódios duma viagem, Cenas da escravatura, Viagem aos pólos, Quadros marítimos, Dois anos de viagem, Ignoto Deo; na 3ª: Eugénio, precedido duma carta do notável escritor Luís Augusto Rebelo da Silva, e Sansão na Vingança!.
Texto de autor que desconheço

sexta-feira, 12 de abril de 2019

Explosão da Fragata D. Maria II na Revista Universal Lisbonense

Com o título "Desastre em Macau" a Revista Universal Lisbonense de 2 de Janeiro de 1851 dá conta da explosão da fragata D. Maria II em Macau (em 1850), mas de um modo curioso. Tem por base uma carta de um leitor que visava esclarecer os rumores que então circulavam sobre o acontecimento e que não correspondiam à verdade.
Gravura da época reproduzida em vários jornais
A fragata D. Maria II era uma navio mercante de nome "Ásia", comprado em Inglaterra em 1831. Foi enviada para Macau na sequência do assassinato do governador comandante Ferreira do Amaral em Agosto de 1849. No dia 29 de Outubro de 1850, quando se preparava para regressar a Goa, uma violenta explosão a bordo destruiu o navio que tinha a bordo mais de 300 barris de pólvora. Da guarnição de 224 homens faleceram 188, todos os que estavam a bordo, para além de 3 marinheiros franceses presos a bordo e 40 chineses das embarcações que estavam atracadas ao navio. É considerado o maior desastre da história da Marinha portuguesa.
Publicamos com o maior sentimento a seguinte noticia que extraimos da parte official no Diário do Governo de 30 de Dezembro ultimo. A correspondência official do Governo de Macáo recebida neste Ministério pelo paquete do sul chegado ante hontem á tarde não alcança além do dia 26 de Outubro. Ha porém recebida na Secretaria do mesmo Ministério uma carta particular escripta de Alexandria por um distincto Diplomático estrangeiro ultimamente sahido de Macáo a qual reduzindo á sua primitiva cruel simplcidade a única noticia que existe da explosão da fragata D. Maria 2 deslroe ao mesmo tempo alguns falsos boatos com que se tem aggravado os já tão deploráveis resultados daquella catástrofe. Esta carta é littcralmentc como segue:
Meus caros amigos Escrevo vos á pressa estas poucas linhas de Alexandria aonde acabo de chegar para vos premunir contra os boatos que correm a respeito da terrível catástrofe do dia 29 de Outubro os quaes poderiam talvez chegar ahi augmentando a consternação publica que esta desgraça já em si tão grande ha de necessariamente causar em Lisboa. A noticia chegou a Hong Kong no dia 30 alguns momentos antes da partida do vapor inglez e eu não sei se o conselho do governo de Macáo teria tempo de vos escrever. A carta do Sr JV Jorge que é a unica que foi recebida em Hong Kong dizia: Hontem ás duas horas e meia a fragata D Maria II que ao meio dia tinha salvado o aniversário de El Rei D Fernando voou pelos ares. De toda a tripulação tres homens somente se salvaram. Alguns officiaes americanos se achavam a bordo no momento do desastre e pereceram. Como acontece sempre em occasiões dc calamidades publicas as imaginações se exercitaram sobre a extensão deste infortúnio e procuraram aggravar lhe as circumstancias já tão tristes. Alguém dizia se tinha recebido uma carta do Sr Tavares annunciando que os commandantes das outras embarcações e empregados civis se achavam a bordo da D Maria II. Eu procurei vèr estas cartas e nada se me pode mostrar. Foi pura invenção. Infelizmente os boatos espalhados entre os passageiros tomaram corpo e na minha chegada a Singapura tive o pesar de ler em um jornal inglez um artigo em que lodos aquelles boatos eram apresentados como factos certos e é receando que este jornal possa chegar a Lisboa que eu vos escrevo estas poucas linhas ainda commovido com a nova calamidade que cahindo sobre a pobre colónia de Macao privou Sua Magestade de bons e fieis servidores. Não acrediteis pois em nada e desmenti tudo o que possa ser espalhado por viajantes ou de qualquer modo em ampliação da carta de Jorge. Adeus, meus caros amigos.

quinta-feira, 27 de dezembro de 2012

O maior desastre naval ultramarino português dos últimos 200 anos

No dobrar da primeira metade do século XIX o que restava do império ultramarino português vogava entre sentimentos redentoristas de uns e abatida descrença de outros. Portugal saído de três invasões francesas (1807-14) e de uma guerra civil (1828-1834) encontrava-se completamente exausto em todos os sentidos. Os cofres do estado estavam vazios, o país vivia a letras de crédito e o pessimismo imperava na política e na cultura.
A dívida externa era colossal. A situação dos dias de hoje, comparada com esses tempos, não seria mais do que a falta de pagamento de um mês de renda de casa e condomínio indevidos que poderiam ser pagos quando Deus quisesse. Nesse tempo, o investimento público e privado interno era praticamente inexistente. Restavam como pulmões económicos ainda que cronicamente “asmáticos” os proventos do Vinho do Porto das vinhas do Alto Douro (que os ingleses geriam e de que retiravam a maior parte dos lucros), os reduzidos têxteis da Covilhã e algumas indústrias de vidros e porcelanas de Sacavém e da Marinha Grande que despontavam e que, se mantinham a fortuna pessoal de alguns, eram claramente insuficientes para fazer sair Portugal, por inteiro, da crise profunda em que estava mergulhado. O resto do povo sobrevivia na miséria a cavar a magra terra.

O Exército estava reduzido à expressão mais simples. Quanto à Marinha, com meia dúzia de fragatas e corvetas, mal navegava para não gastar o dinheiro do orçamento disponível que não chegava sequer para pagar o concerto dos navios, quanto mais para patrulhar o ainda imenso império ultramarino português. Por isso, ficavam ancoradas no Tejo à espera de melhores dias, vogando de quando em vez até ao porto do Rio de Janeiro, do outro lado do Atlântico e vice-versa a fim de manter as aparências de um reino unido, como consagrado umas décadas antes entre Portugal e o Brasil, por tratado, visado, mas que para todos os efeitos não existia desde o momento em que foi assinado (se é que alguma vez chegou a estar em vigor de facto e de direito).
Nas bolsas de Londres e de Paris, os títulos do tesouro português valiam apenas o que os grandes especuladores da bolsa, como Mendizabal (o Soros de então e os Rotshild anglo americanos e igualmente especuladores internacionais) faziam crer que valiam. Ou seja, de facto, nada... Nesse contexto de crise e desespero, diga-se, Portugal não se encontrava sozinho. De facto a vizinha Espanha igualmente saída recentemente das mesmas e sucessivas crises (invasões francesas, e guerra civil, para além dos movimentos independentistas bolivarianos das Américas) encontrava-se em condições semelhantes.
Portugal tinha, por força de todas essas circunstâncias, políticas e económicas, perdido o Brasil. A Espanha, por seu turno e por semelhantes circunstâncias, perdera um continente inteiro, ou seja: - as Américas do centro e do Sul. Nesse paralelo não admira que entre os dois rivais ibéricos surgisse, nessa conjuntura de “desgraça”, um certo sentimento de solidariedade. Salvar os dois impérios ultramarinos sempre desavindos desde o “Tratado de Tordesilhas” contra a crescente supremacia das restantes potências europeias que chegavam, bem mais de dois séculos tardios à corrida global: – Inglaterra, França, Alemanha e Holanda - já não contando com os modernos Estados Unidos da América do Norte (EUA) que entravam na liça como hodiernosconquistadores (Estes ainda que apostassem na força das armas, como os outros, mas diferentemente entendiam que os exércitos e as marinhas não eram mais do que suportes pragmáticos para fazer valer negócios e extrair lucros do comércio que, no século XIX, tudo movimentava e a tudo se começava a sobrepor) parecia ser imperativo.
Nesse contexto a tal solidariedade ibérica poderia ser uma solução? Foi assim que, então, se colocou a possibilidade do Iberismo. Uma eventual federação entre Portugal e a Espanha que salvasse os interesses do Portugal ultramarino a Leste do tratado de 7 de Junho de 1494 (o tal de Tordesilhas). Uma proposta que se no Extremo Oriente faria todo o sentido em Portugal e Espanha pouco faria como se viria a verificar (falei deste assunto em artigos anteriores aqui no “JTM”). Foi nesse ambiente datado que os defensores dos passados imperiais comuns e de sebastianismos inconsequentes, manobraram em Lisboa e Madrid no sentido de sair da depressão com um passo resoluto para a China.
Perdido o Ocidente, e periclitante o Oriente, a China poderia ser uma saída airosa e de futuro. Principalmente para Espanha que o único pé que tinha no Levante eram as Filipinas. O objectivo táctico de Lisboa, em eventual consonância com Madrid (ainda que duvidosa) seria o de enviar para o outro lado do mundo, as tais fragatas e corvetas que descansavam no Tejo à espera de reparo decente. Isto, claro, depois de armadas, municiadas e completadas com o embarque de companhias de infantaria devidamente preparadas para iniciarem uma campanha que se destinaria a desembarcar em Macau com fardas e clarins, tambores; engenharia, apoio de artilharia de campanha, estabelecimento de bivaques e em seguida conquistar toda a ilha de Sheong Sam (onde Macau se situa). Politicamente a operação afigurava-se fácil para quem nela queria acreditar. O exército chinês como era sabido (através dos despachos dos correspondentes dos jornais europeus sedeados na China e dos relatórios dos governadores de Macau e dos oficiais de “inteligência” da Marinha, era evidentemente antiquado e não teria força para se opor a duas centenas de fuzileiros armados com armas de repetição, obuses e morteiros capazes de disparar em pouco minutos rajadas de chumbo e dezenas de granadas explosivas que destruiriam qualquer forte medieval que se lhe opusesse, como eram os que rodeavam a colónia portuguesa e defendiam a “Boca do Tigre”, embocadura do Rio das Pérolas. A Espanha faria o mesmo, como de facto fez (embora com um atraso de quase seis anos) enviando para o arquipélago filipino, igualmente, o melhor que tinha em termos de poderio naval consubstanciado no primeiro navio de guerra a vapor e casco de ferro sob o comando do almirante José Malcampo Monje. E certo é que assim foi.
A facção redentorista portuguesa enviou para Macau as jóias da sua marinha, ou seja a “Corveta Íris” e a “Fragata D. Maria II”. Só que desígnios políticos mal sustentados raramente surtem efeitos e foi o que aconteceu. Os redentoristas certos de que a China se encontrava na ultima das depressões da sua história esqueceram-se de que na conjuntura global do tempo, as únicas forças militares credíveis eram as das grandes potências e Portugal estava longe de se encontrar entre elas, tal como a Espanha. Mas esta constatação é apenas um parêntesis. O que aconteceu a seguir foi que, depois da luz verde política de enviar expedição militar para Macau, cumprir os traçados do Ministério dos Negócios Estrangeiros de Lisboa em consonância com Madrid se revelou missão impossível. O comandante da Corveta “Íris” ancorada no Rio de Janeiro, recebidas as ordens para rumar para a China fez o que pode, mas depois de ter zarpado e a poucas milhas de rumo não teve mais do que reconhecer a impossibilidade de continuar por deficiências técnicas. O navio não estava, de todo, em condições de se fazer ao mar para tão longa distância. Por isso não houve remédio senão o de “dar à ré” e rumar de novo ao socorro do porto das ilhas brasileiras de S. Paulo para reparações porque estava a meter água. Perante todos esses contratempos a “Íris” acabaria por chegar a Macau muito fora do calendário da missão que lhe estava destinado, tal como a “Corveta D. João II” mandada zarpar de Goa com uma companhia de “cipaios”, mas que, igualmente, não chegou a fazer junção em tempo útil.

Monumento de homenagem às vítimas existente na Taipa. foto de João Tavares
Quanto à soberana fragata “D. Maria II”, partida de Lisboa, a viagem decorreu sem incidentes e no tempo previsto até arribar a Macau onde ancorou no porto da Taipa, mais, ou menos no local onde actualmente se encontra a embocadura da “Ponte de Sai Wan”. A tripulação da “D. Maria II” que vinha preparada para a guerra manteve-se no interior do navio desembarcando apenas alguns oficiais encarregados de levar despachos ao Governador e meia dúzia de doentes que careciam de tratamento. O resto da marinhagem permaneceu a bordo. Subitamente porém sem que nada o fizesse prever no dia 29 de Outubro de 1850, dia de “mornaça” como se diz no calão da marinha e quando se celebrava o aniversário da rainha que dava nome à imponente embarcação o Mundo explodiu com a fragata. O fragor foi tão forte que os vidros das janelas das casas da Baía da Praia Grande em Macau, do outro lado do canal, a mais de dois quilómetros de distância, se estilhaçaram. O imponente navio de velas alçadas soçobrou em minutos. Em torno dele, igualmente se repercutiu o desastre.
Uma fragata francesa, pela força da explosão, perdeu todo o velame e registou entre a tripulação mortos e feridos. Um brigue inglês que ao lado descarregava ópio sofreu, igualmente, um número indeterminado de vítimas em quantos marinheiros se encontravam no convés. Milagrosamente a corveta americana ”Marion” que se encontrava ainda mais perto do que os outros, como por milagre, quase nada sofreu e foi a primeira a enviar socorro, ainda que já nada houvesse a socorrer. Estava tudo perdido e reduzido a tábuas fumegantes e informes que boiavam nas águas. Nem sequer cadáveres havia a recuperar.
Mas o pior de perdas em vidas foi o que se registou entre homens e mulheres dos inúmeros juncos e tancares que, nesses tempos constituam uma espécie de mercado flutuante que girava em torno dos grandes e inúmeros navios que ancoravam na Taipa. Morreram todos, ou quase todos, nas pequenas embarcações que manobravam na feira permanente que era o Porto da Taipa nesse tempo. De entre esses o número de mortos e feridos nunca se soube ao certo, nem ficaram registados oficialmente. Para todos os efeitos eram anónimos carentes de cédula de identidade, mas terão sido o dobro dos perecidos na fragata e nos outros navios estrangeiros que a rodeavam. Ao todo, cálculos feitos, sem estatísticas, o número de vítimas mortais terá ascendido a mais de meio milhar.
Diz-se que o atentado foi inspirado pela “Sociedade dos Rios e dos Lagos”, uma “tríade” cujos iniciados eram, essencialmente, militares do exército da China e que teriam aliciado numa das várias tabernas do “ Bairro do Monte” (adjacente ao que é hoje conhecida como “Rua das Mariazinhas”) um dos tripulantes da “D. Maria II” para a fazer explodir. Se foi assim o aliciado terá sido precursor, em mais de duzentos anos dos terroristas suicidas de que estamos habituados a ouvir falar nos telejornais dos dias de hoje. O suspeito era um primeiro grumete, fiel da pólvora, alcoólico e conhecido por relapso em matéria de disciplina militar, moral e cívica. Segundo relatórios oficiais, no dia seguinte a ter sido castigado por mais um acto de desobediência, perante toda a tripulação da Fragata, terá descido ao porão e posto fogo ao paiol. Morreu no acto e por isso o inquérito que se sucedeu ficou privado de uma testemunha (ou réu) essencial, para contar a verdadeira história. Os outros pereceram todos no desastre.

Neste contexto de mistérios atrás de mistérios acresce ainda um outro que vale a pena transcrever dos jornais portugueses da época e é o seguinte: - “pela mala chegada em Outubro (a Macau) recebeu um dos oficiais da fragata o falecido e de todos lastimado tenente Luís Maria Bordalo (oficial da tripulação), uma carta de Lisboa de seu irmão, em que lhe dizia que naquela capital corria a notícia, de ter voado com uma explosão a “Fragata D. Maria II” carta que por esta singularidade o dito oficial mostrou a alguns dos seus camaradas, e hoje se acha em Macau o cavalheiro que a escreveu, que é o actual secretário do Governo (Francisco Bordalo), que plenamente confirma o facto”.
Na verdade é bem extraordinário falar-se em Lisboa de um sucesso que nada tem de comum e que só daí a dois meses se viria a verificar, de facto, a 3.600 léguas de Lisboa”. Que estranha e ominosa missiva!...
A catástrofe custou a vida a 191 membros da tripulação da Fragata. Os poucos que se salvaram foram 36 tripulantes que se encontravam na cidade. Uns por doença, internados no Hospital Militar Conde de S. Rafael, outros de licença e outros ainda em serviço de estafeta. Também o filho, criança, do comandante da “D. Maria II”, Francisco de Assis e Silva (que igualmente pereceu no desastre) e viajava a bordo, se salvou pelo facto de ter ido, a terra, singularmente, por sugestão, do próprio marinheiro a quem foi atribuído o atentado. Porque razão o comandante terá dado ouvidos a um dos menos graduados e mais indesejáveis dos seus tripulantes acedendo a desembarcar o filho? Outra interrogação insondável a somar a um episódio que permanece desde então rodeado das mais negras sombras. Creio que o mistério da explosão da mais imponente fragata portuguesa do século XIX e a verdade do drama nunca será verdadeiramente esclarecida a não ser nos romances que o irmão do malogrado tenente Bordalo (Francisco Maria Bordalo) deixou escritos e que jazem, mais ou menos ignotos no pó das estantes da Biblioteca Nacional de Lisboa e na Torre do Tombo e mal constam da história da literatura portuguesa. Creio que neste caso a verdade nunca virá a ser conhecida mas apenas a nossa imaginação poderá deixar campo a quem queira pegar no tema e fazer dele uma novela baseada em factos autênticos, como se diz, nos filmes de ficção ou nas telenovelas.
Artigo da autoria de João Guedes publicado no JTM de 01-03-2011
Nota: no blog existem outros post's sobre o tema que já serviu de inspiração a livros/romances como "Sansão na Vingança" de Francisco Maria Bordalo.