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quarta-feira, 30 de setembro de 2026

"Rua do Roquette" e "Travessa da Misericórdia": desde 1888

"As ruas abertas no local onde esteve o antigo edificio e egreja da Misericordia, receberam os seguintes nomes: Rua do Roquette a que começa no largo do senado e vai desembocar na rua da Sé; e Travessa da Misericordia a que fica parallela á primeira."
in O Independente 14.02.1888
Estes edifícios foram demolidos para a construção
do edifício dos CTT no início da década 1930
É curioso notar que, a estar correcta a notícia, começou por ser uma rua e mais tarde adoptou a designação Travessa do Roquete que ainda hoje mantém na fachada lateral do edifício da SCM. Com cerca de 80 metros de extensão é uma homenagem ao comerciante Francisco Xavier Roquete que fez fortuna na região entre meados do século 18 e o início do século 19 e que doou a sua herança (62 mil patacas) à Santa Casa de Misericórdia de Macau antes de morrer em 1817 em Calcutá sendo considerado o maior benfeitor de sempre da instituição. 
O seu retrato (de corpo inteiro), bem como o de Marta da Silva Merop, podem ser vistos no museu da SCM (Travessa da Misericórdia). Foram feitos "sob contorno e direcção" de José Tomás de Aquino ca. 1833 e executados pelo retratista chinês Vo Qua (ou Yo Qua).
Na fachada estão três elementos que merecem atenção.

Placa Toponímica (Azulejos):
羅 結 地 巷 - TRAVESSA DO ROQUETE

Lápide Antiga em granito:
ESTA CAZA DO RECOLHIMENTO
DAS ORFANS FOI FVNDADA EM
6 DE JANEIRO DE 1637 SENDO
PROVEDOR MIGVEL DE MACEDO

Placa Comemorativa (abaixo)
Texto Principal (Português):
ESTA LÁPIDE FOI ENCONTRADA E RECUPERADA
PELO LEAL SENADO A 20 DE MARÇO DE 1996 NAS
OBRAS DE REPAVIMENTAÇÃO, DEFRONTE DO
Nº 1 DA TRAVESSA DO ROQUETE, LOCAL DA
"CASA DE RECOLHA DE ORFÃOS", SUPOSTA
DEPENDÊNCIA DA SANTA CASA DA MISERICÓRDIA
DE MACAU, INSTITUIÇÃO PÚBLICA, FUNDADA
EM 1569 PELO BISPO BELCHIOR CARNEIRO.

Texto em Chinês:
此石碑於一九九六年三月二十日,市政廳於羅結地巷一號前
進行鋪設地面工程時被發現。此處曾為"孤兒院"之原址
屬一五六九年由賈尼路主教 (Bispo Belchior Carneiro) 創
辦之澳門仁慈堂附屬機構之古蹟。

Texto de Inauguração (Português):
A CERIMÓNIA DE RECOLOCAÇÃO FEITA A
6 DE JANEIRO DE 1997, FOI PRESIDIDA PELO
EXMO. O PRESIDENTE DO LEAL SENADO DE
MACAU, DR. JOSÉ SALES MARQUES E PELO
PROVEDOR DA SANTA CASA DA MISERICÓRDIA
DE MACAU, ARQ. CARLOS MARREIROS.

Texto de Inauguração (Chinês):
此石碑重新安放儀式於一九九七年一月六日舉行,
由市政廳主席麥健智先生及仁慈堂堂長馬若龍建築師主持。

Largo do Senado visto da Travessa do Roquete no séc. 21
Ilustração gerada por Ia a partir de fotografia
Travessa da Misericórdia no séc. 21

A Travessa do Roquete (em cima) e a Travessa da Misericórdia (em baixo) contornam o edifício da SCM. Ilustrações criadas por IA a partir de fotografias do século 21.

terça-feira, 15 de setembro de 2026

"Casas de habitação para funcionários públicos na Ilha da Taipa"

As actuais Casas-Museu da Taipa são um conjunto de cinco moradias construídas em 1921 ao longo da Avenida da Praia para residência dos funcionários superiores das ilhas.

O anúncio para a "Construção de casas de habitação para funcionários públicos na Ilha da Taipa" por "arrematação em Hasta Pública" foi publicado no B. O. de 15 de Janeiro de 1921.

Foto publicada no Anuário de 1927

Depois de obras de restauro nas décadas de 1980 e 1990 foram inauguradas em Dezembro de 1999 como casas-museu: Casa Macaense, Casa das Ilhas, Casa das Regiões de Portugal, Casa de Exposições e Casa de Recepções. Em 1992 foram classificadas como património arquitectónico de valor cultural

quinta-feira, 13 de agosto de 2026

"A moderna e airosa ermida de Nossa Senhora da Penha"

Situada no topo da Colina da Penha, a primitiva Ermida de Nossa Senhora da Penha de França foi edificada em 1622. Ao longo dos tempos foi alvo de várias remodelações. A ilustração feita por IA a partir de fotografia mostra o aspecto que tinha na primeira metade do século 20.
Nomes em chinês pela qual se designa 主教山聖堂 / 主教山教堂

Fresca e airosa, ergue-se, no alto da Penha, a Ermida de Nossa Senhora. É um dos pontos que nos saltam à vista, enquanto nos deslocamos, em passeio ameno, pelas Avenidas que correm ao longo da parte sul da colina. De linhas modernas arquitectónicas, erguendo-se altaneiro o minarete da torre, marca bem a sua presença no cenário desta parte da península.
Domina a enseada da Praia Grande, toda a parte central da cidade, e a marginal do Porto Interior, até se perder de vista, avançando a prospectiva pelo território chinês, num deslumbrante espectáculo, esfumando-se à distância nos cimos das montanhas.
Ponto de interesse paisagístico, de crenças religiosas e de tradições históricas, cremos ser um dos mais apreciados dos que nos visitam e é, com certeza, um dos sítios que vive no coração de todos os portugueses que aqui residem.
Ao lado da Ermida, está a residência episcopal do Bispo da Diocese e, logo na encosta, virada para a cidade, a imagem da Senhora de Lurdes, na sua pitoresca gruta.
Lugar de peregrinações anuais, sobretudo no dia 13 de Maio, também o tem sido em horas de aflição da população citadina. Muito teriam que nos narrar as calçadas que conduzem ao cimo dessa colina se nos quisessem confiar as suas memórias.
E volvendo os olhares sobre o passado vamos descortinar uma ligeira notícia sobre essa colina que não foi descuidada na defesa desta parcela nacional. 
Embora quase à vista estivessem a Fortaleza do Bom Parto e a de S. Tiago da Barra, aproveitou-se a posição do alto da colina que melhor dominaria as proximidades. Com referência ao ponto de vista de fortificação, diz-nos o padre jesuíta José Montanha, na sua obra manuscrita do século XVII «Aparatos para a História do Bispado de Macau», depois de nos descrever o Baluarte do Bom Parto, o seguinte:  «... e deste Baluarte corre o pano de muro para Oeste, e para alto e meio da Ilha está a Hermida de N. Sra. de Penha e desta Hermida descobre o mar da parte de Oeste, e tem uma peça de bronze de seis libras invocada de N. Sra. de Penha, e correndo a ilha da parte de sudeste a largo de tiro de peça está a Fortaleza da Barra».
Numa carta geográfica de Macau, da «Ásia Portuguesa» de Manuel de Faria e Sousa, a Ermida da Penha é-nos apresentada com ligação com a fortaleza do Bom Parto e ainda hoje há vestígios de fortes muralhas, que devem ser os restos das então existentes, com orientação para esse lado.
Noutra carta de Macau, do século XVII, (depois de 1638), extraída duma antiga gravura holandesa, é-nos indicada a posição da Ermida e Fortaleza da Penha, no cimo da colina.
Na descrição de Macau feita pelo italiano Marco de Avalo, incluída na relação da viagem do holandês Rechteren às Índias Orientais (1628-1632), lê-se:
«Edificaram aí uma cidade que é rodeada duma forte muralha e de bons baluartes. Há na ilha três montanhas que constituem como que um triângulo e um forte sobre cada uma delas. Chama-se o mais considerável forte de S. Paulo... Chama-se o segundo dos fortes Nostra Seignora de la Penha de Francia, porque tem dentro uma ermida com este nome. Está guarnecido com 6 pequenas peças, de 6 a 8 libras de bala».
Na gravura holandesa a que nos referimos anteriormente, «está a muralha que rodeia a ermida coroada de ameias e canhoneiras», na fortificação do alto da Penha. 
Disto podemos inferir que aquela pequena elevação foi de grande valor para a fortificação e defesa da cidade. Mas à medida que se foram apagando as fumaças dos canhões, foi-se erguendo mais a capelinha e a Fé dos portugueses, até prevalecerem sobre os escombros das ruínas dessas heróicas construções.
Ambas erguidas em horas de glorioso patriotismo, aliaram-se em espiritualidade para perpetuar a alma portuguesa, sem desmerecer de quanto foram e serão os corações dos nossos antepassados.
in Macau Boletim Informativo (R.C.S.E.) 15 Set. 1955 
(excepto ilustração por IA e foto a cores)
O aspecto actual resulta das obras de remodelação concluídas em 1935.

sexta-feira, 24 de julho de 2026

Uma mansão na Rua do Hospital

A Igreja Batista de Macau ( 澳門浸信教會), também conhecida como Primeira Igreja Batista de Macau, é a igreja batista chinesa mais antiga de Macau e está localizada na Rua de Pedro Nolasco da Silva, nº 41.
Legenda: "John and Lillian Galloway Mission House Macao (1935)"

As origens remontam a Dezembro de 1903 quando o reverendo Charlton Todd e a mulher foram enviados a Macau pela Convenção Batista do Sul dos Estados Unidos para realizarem trabalho missionário. Em 1904 há registo de terem baptizado cinco pessoas e, em 1905, o número de membros tinha crescido para vinte e cinco. A igreja foi formalmente estabelecida nesse ano como "Igreja Fé e Bênção", a antecessora da atual Igreja Batista de Macau. Inicialmente, alugaram uma casa de três andares na Rua do Campo para reuniões e trabalho missionário.
Em 1908, o Rev. Charlton Todd morreu vítima de doença enquanto regressava aos Estados Unidos para um relatório missionário. No mesmo ano, a igreja americana enviou o Reverendo John Galloway para assumir o cargo que, juntamente com Lilian Lamont Reeves Todd Galloway, a viúva do Rev. Charlton Todd, desenvolveu o trabalho missionário em Macau. Mais de uma década depois os dois viriam a casar.
A Igreja Batista de Macau estabeleceu sucessivamente a "Escola Primária Pui Chi", a "Escola Secundária Pui Ching" (1908-24) e a "Escola de Orientação Espiritual para Meninas" (1913-31). Também adquiriram embarcações para ajudar os filhos dos pescadores a aprender a ler e para transportar alimentos e mantimentos para hospitais de leprosos.
Em 1927, utilizando uma doação da mãe do Reverendo Charlton Todd, a igreja adquiriu o terreno da actual 'sede' da igreja e que na época chamava-se "Todd Memorial Hall" (Salão Memorial Todd). Assim nasce a mansão no então nº 9 da Rua do Hospital (referência ao Hospital S. Rafael), o actual nº 41 da Rua Pedro Nolasco da Silva onde fica a Igreja Baptista de Macau.
A fotografia faz parte do livro "Like A Tree Planted By Streams of Water" da autoria de R. Lawrence Ballew, publicado em 2020.

quarta-feira, 22 de julho de 2026

Uma antiga inscrição no "Hospital da Santa Caza da Mizericordia"

ESTE HOSPITAL DA SANTA
CAZA DA MIZERICORDIA
MANDOU FAZER LUIS COE
LHO SENDO PROVEDOR
NO ANNO DE 1747.
Em português corrente, "Este hospital da Santa Casa da Misericórdia mandou fazer Luís Coelho sendo provedor no ano de 1747."
Numa leitura individual e sem contexto a inscrição em pedra induz em erro. Na verdade refere-se a uma reconstrução do referido hospital. Uma das várias reconstruções de que foi alvo o hospital fundado no século 16 (1569) por D. Belchior Carneiro como Hospital da Misericórdia, sendo o primeiro hospital de medicina ocidental da Ásia
Principais reconstruções ao longo dos tempos:
1640; 1747; 1887; 1912-1913; 1938-39; década 1980/90. 
O antigo hospital alberga desde 1999 o Consulado de Portugal.

terça-feira, 21 de julho de 2026

Antigo Tribunal volta a ser Tribunal

Numa altura em que foi anunciado que no final deste mês o Tribunal de Última Instância  da RAEM passará a funcionar na Avenida da Praia Grande, n.º 459, recordo alguns pormenores sobre o edifício que remonta a 1951 e onde nessa época funcionou um tribunal.
Após o final das obras em 1951

O edifício foi projectado pelo arquitecto António Lei em 1949 sendo uma obra de referência do estilo modernista clássico em Macau. As características arquitectónicas principais incluem: uma fachada simétrica de grandes dimensões e quatro colunas jónicas.
Constituído por três pisos começou por albergar as repartições de finanças, registos e administração civil. Foi ainda Tribunal Judicial da Comarca. No pós 1999 e após muitos anos de abandono sofreu obras e no piso térreo realizaram-se várias exposições.

Ca. 1955 já com a Estátua de Jorge Álvares em frente
Sensivelmente a mesma perspectiva mas no séc. 21

Excertos do jornal Notícias de Macau a 21.6.1952:
"(...) Visita ao Palácio das Repartições
Pelas 10.15 horas, o Sr. Ministro do Ultramar, acompanhado do Sr. Governador da Província, visitou o Palácio das Repartições Públicas, em cujo rés-do-chão se encontram instalados os Serviços de Fazenda e Contabilidade, no primeiro andar os Serviços de Justiça e, no segundo, os Serviços de Administração Civil, a Administração do Concelho e o Tribunal Administrativo.
Os Srs. Comandante Sarmento Rodrigues e Marques Esparteiro foram recebidos, à entrada do imponente edifício, por várias altas individualidades, civis, militares e eclesiásticas e Chefe dos Serviços ali estabelecidos, cujas dependências Suas Exas. visitaram com interesse, tendo para com todos os funcionários, indistintamente, palavras amáveis.
O ilustre Titular da Pasta do Ultramar a todos impressionou com a captivante simpatia da sua pessoa e trato lhano.
A inauguração do Tribunal Judicial da Comarca
Finda a visita ao Palácio das Repartições, o Sr. Ministro do Ultramar, acompanhado do Sr. Governador da Província e outras altas individualidades, dirigiu-se ao primeiro andar, afim de inaugurar as novas instalações do Tribunal Judicial da Comarca, onde já se encontravam outras entidades, distintas senhoras, e numeroso público. (...)"
Fachada do edifício após 1999 tendo sido retirados a inscrição em numeração romana de 1951 e o escudo de Portugal.

domingo, 12 de julho de 2026

Mercado Vermelho/紅街市

Desenhado em 1934 pelo arquitecto macaense Júlio Alberto Basto, o que viria a ficar conhecido como Mercado Vermelho, foi construído para dar resposta ao crescente aumento populacional nomeadamente para zonas longe do centro da cidade. O local escolhido era então bastante amplo e com poucos edifícios.
Trata-se de um edifício típico do estilo art deco. Tem três pisos, desenho simétrico, uma torre do relógio ao centro e uma torre de vigia em cada esquina. Entrou em funcionamento em Julho de 1936.
Desenho/Planta de 1934

De acordo com a arquitecta Ana Tostões o edifício "
representa a primeira construção claramente devedora das correntes do movimento moderno internacional" e "desenvolve‐se em três pisos, definindo o quarteirão a partir das quatro torres situadas em cada esquina. Desenhado segundo dois claros eixos de simetria, com a torre do relógio no centro, enquadrando a entrada principal, e as restantes em cada esquina. A entrada principal é marcada por uma ampla abertura, que se conjuga com o corpo da torre do relógio, mais alta e recuada em relação ao plano da fachada. A estrutura em betão, formada pelo sistema de pilar‐viga, é assumida como gramática formal marcando o ritmo, desenhando-se as aberturas das janelas nos espaços intersticiais da estrutura portante."
Apesar de ser conhecido desde cedo como "Mercado Vermelho" 紅街市 (Hung Kai Si em cantonense) devido à cor dos tijolos, o nome formal foi Mercado Municipal da Avenida Horta e Costa. Fica localizado na esquina desta avenida com a  Avenida Almirante Lacerda.
Oficialmente receberia a designação: Mercado Municipal Almirante Lacerda (提督街市), uma homenagem a Hugo de Lacerda Castelo Branco (Almirante Lacerda), figura proeminente em Macau, responsável por importantes obras portuárias e aterros na zona no início do século XX.
O Mercado Vermelho está inscrito na Lista do Património de Macau sendo classificado como "edifício de valor arquitectónico".
O mercado abriu ao público em Julho de 1936
Na altura da construção o mercado é referido como estando localizado na Av. Horta e Costa.
Jornal A Voz de Macau em Julho de 1936

Na edição de 7.7.1936 o jornal A Voz de Macau refere que o edifício seria inaugurado em breve:
"O edificio, com dois pavimentos, afóra o terraço, construção em cimento armado, é amplo, majestoso, podendo dizêr-se que é o melhor existente em tôdo o Extremo Oriente. Os seus compartimentos, muito claros, são espaçosos e higienicos, havendo um espaço destinado a frigorifico e junto á escada que conduz ao pavimento superior um outro espaço reservado a elevadôr."


domingo, 5 de julho de 2026

"Casa e Cêrca do Sr. Lourenço Marques"

C. J. Caldeira assina um artigo sobre Macau na edição nº8 de 1864 do "Archivo Pittoresco: semanario illustrado" (Portugal). É acompanhado de uma gravura da autoria de João Pedrozo com a legenda "Casa e Cêrca do Sr. Lourenço Marques".
"A estampa representa a casa e cêrca do sr. Lourenço Marques, em Macau, na qual está a celebre gruta de Camões. O mirante que a corôa divisa-se por entre o arvoredo acima da casa que tem frontão triangular, que é a da residencia do proprietario, cercada de jardins, horta e bosque, que a tornam uma das mais pitorescas da cidade, como se póde julgar pelo desenho.
Ao lado direito se vê parte da povoação chineza de Patane, já fóra dos muros da cidade, proxima da porta de Santo Antonio e da egreja e freguezia da mesma invocação, que ficam na parte occulta á esquerda do espectador.
A casa vasta e elegante, que está á esquerda do desenho, pertence e é occupada por irmãos e outros parentes do mesmo sr. Marques, e foi habitação de seu pae. Atraz d'esta divisam-se em grupo os mastros e velas de algumas embarcações chinezas, que costumam fundear proximo á povoação de Patane, ao sopé do monticulo, e que o circunda quasi todo.
O fundo representa o porto interior de Macau, vendo-se sobre a esquerda a ilha da Lapa, antigamente denominada dos Padres, e mais ao longe as alturas da chamada ilha, ou antes peninsula Heang-shan, d'onde corre um canal ou pequeno braço do rio de Cantão, denominado Passagem de Macau, que vem desembocar no dito porto interior. (...)"
A personagem referida é Lourenço Maria Pereira Marques (1852-1911). Um dos 10 filhos do comendador Lourenço Caetano Marques (1811-1902) e Maria Ana Josefa Cortela Pereira (1825-1901) - que era prima - tendo casado a 7 de Agosto de 1838 tendo ela apenas 13 anos.
Esta era filha de Manuel Pereira, o proprietário da referida casa construída ca. de 1770. Casaram em 1838 pouco tempo depois dos ingleses da EIC terem saído de Macau e daquela propriedade que arrendaram entre 1780 e 1838.
Lourenço Pereira Marques, tal como os irmãos, nasceu na propriedade representada na ilustração. Estudou no Seminário de S. José de Macau e depois foi estudar para Lisboa. Fez a Escola Médico-Cirúrgica de Lisboa e depois ingressou na Universidade de Dublin graduando-se em 1877 no College of Physicians and Surgeons e em 1881 no Royal College of Physicians". Fez ainda estágios em hospitais em Londres e em Paris antes de regressar a Macau. No final do século 19 estabelece-se em Hong Kong onde chega a dar aulas a Sun Iat Sen...
Dará um contributo decisivo para o que hoje se conhece como gruta de Camões, nomeadamente mandando construir um busto do poeta.
Em 1885 o governo de Macau comprou a propriedade que pouco depois transformou em jardim público, situação que ainda hoje se mantém.
O médico macaense viria a aposentar-se em 1895 em Hong Kong e regressou a Macau passando a a dar consultas médicas gratuitas à população mais carenciada.
Dono de uma erudição invulgar, reuniu uma vasta coleção de arte chinesa. Em 1899, doou cerca de mil objectos etnográficos e históricos à Sociedade de Geografia de Lisboa. Morreu em 1911 com apenas 59 anos na sua casa sita no Largo de Camões (junto à Casa Garden, portanto). Tal como o irmão nunca chegou a casar. Na toponímia macaense existe a Rua do Dr. Lourenço Pereira Marques (比厘喇馬忌士街)  - no Porto Interior - em sua homenagem.
Dez anos passado sobre a referida ilustração, em 1874, Macau é assolado por um tufão que deixa uma rasto destruição imenso. A fotografia acima - provavelmente da autoria de Lai Afong - documenta os efeitos na igreja de Santo António e num edifício que Caldeira descreve no artigo de 1864. (assinalei a vermelho). Terá sido demolido posteriormente. Quando o governo de Macau compra a propriedade em 1885 e transforma o espaço num jardim público este edifício já não aparece. Corresponde ao actual Largo/Praça de Camões, à entrada do jardim tendo do lado direito o acesso à chamada Casa Garden.
O edifício denominado Casa Garden remonta a ca. de 1770. Em 1794 é abundantemente registado na primeira embaixada de Inglaterra à China. Por essa altura já o edifício e propriedade envolvente tinha sido arrendado à East India Company que ali colocara a morar os mais altos quadros da EIC. Os restantes viviam em também edifícios arrendados na Praia Grande.

quinta-feira, 2 de julho de 2026

"Best resort for holiday & honey moon"

Em meados da década de 1960 o Hotel Caravela - localizado na Av. da República, 62-64 - afirmava-se como o melhor refúgio para "férias e luas de mel". O slogan surge numa série de postais ilustrados publicados na altura. 
葡屬澳門明信片-1960年代葡屬澳門西灣金舫酒店Hotel Caravela四景明信片
HOTEL CARAVELA
best resort for HOLIDAY & HONEY MOON famous for its Beautiful Harbour View Luxurious Accommodation & Excellent Service. 
H.K. Booking Tel: K-670265
AVENIDA DE REPUBLICA NO. 62-64,
MACAU
TEL: 5151
HOTEL CARAVELA
o melhor refúgio para FÉRIAS E LUA DE MEL famoso pela sua excelente vista sobre a baía, Alojamento Luxuoso & Excelente Serviço. 
Tel. para Reservas em H.K. [Hong Kong]: K-670265
AVENIDA DA REPÚBLICA Nº 62-64,
MACAU
TEL: 5151
O Hotel Caravela, a Baía da Praia Grande, um dos quartos e o restaurante

O edifício foi construído originalmente em 1933 para residência de Bernardino da Senna Fernandes. Poucos anos depois sofreu obras de remodelação e ampliação. Em 1965 passou a funcionar como hotel com um total de 18/22 quartos. O restaurante de comida portuguesa era bastante apreciado. Os proprietários tinham ainda uma agência de viagens, a Caravela Travel Service. Com recurso a uma pequena frota de autocarros proporcionavam visitas guiadas aos turistas, a maioria de Hong Kong e do Japão. 
Num anúncio do ano da abertura - 1965 - destaca-se:
"Bela situação, paisagem admirável, conforto, comodidade e asseio, a par de tratamento esmerado. Todos os quartos possuem ar condicionado, quartos de banho privativos, rádio e telefone."
Em anúncios em inglês da década 1960 pode ler-se:
"Your entire visit to Macau — guide service, sightseeing, accomodation — can be so simple. Our fleet of buses is ideal for large groups, our cars "just right" for small parties. Ask your Hongkong travel agent to arrange your entire Macau visit with Caravela."
O Caravela encerrou a actividade em 1978 e pouco depois o edifício foi demolido.
Com marcas da arquitectura neo-clássica uma das características especiais eram os azulejos pintados sob os beiras. Localizado numa zona também denominada de 'meia-laranja', originalmente o edifício era branco.

quarta-feira, 1 de julho de 2026

"Residência campestre dos governadores"

No final do século 19 Bento da França escrevia assim: "Nos arrabaldes da cidade encontram se algumas quintas bem cuidadas sendo para especialisar a residencia campestre dos Governadores denominada Palacio da Flora que hoje tem habitação e dependencias esmeradamente tratadas."
A ilustração reproduz uma fotografia do final do século 19 que mostra o Palacete da Flora. Era aqui a "residência campestre", assim referida porque bastante longe do centro da cidade. Comprado pelo governo na década 1870 era habitualmente usada pelos governadores como residência de Verão. Foi construído originalmente em 1848 pelo Padre Vitorino José de Sousa e Almeida e desenhado pelo arquiteto José Tomás de Aquino. Em redor havia uma extensa área de terreno. Tão extensa que o espaço viria a ser usado como um viveiro de árvores e arbustos. Estão aqui as origens do Jardim da Flora, ainda que numa área muito menor que a original.
O palacete foi destruído em Agosto de 1931, juntamente com várias casas nos arredores, devido a uma violenta explosão num paiol de munições próximo.

sábado, 6 de junho de 2026

Novos edifícios residenciais nas décadas 1960 e 1970

Nas décadas de 1960 e 1970 a cidade de Macau assistiu a uma forte crescimento urbanístico, nomeadamente com a construção de inúmeros edifícios residenciais.
Detalhe da capa de um catálogo de vendas

Entre os novos prédios construídos surgem o Capitol, Veng Lei, apollo, Iou Kuan, Lai Un, Po Lei, Tung Heng, Fu Va, Keng Va, etc... Alguns destes prédios ainda existem...
Edifício Fu Va - Av. Dr. Rodrigo Rodrigues

Facto inovador na época foi o surgimento dos catálogos imobiliários como ferramenta de marketing usada para a promoção e venda dos apartamentos. Um apartamento no edifício Capitol em 1964 custava entre 22 a 25 mil patacas.
Ainda por construir, coube a artistas como Kam Cheong Leng, criar as ilustrações de como iriam ser os edifícios.
Um dos construtores que de destacou nessas décadas foi a empresa Yau Vo e um dos maiores promotores imobiliários foi a Tai On.

Ilustração com uma vista panorâmica a partir da Fort. do Monte em meados da década 1970
Ao fundo a ilha da Taipa: pode ver-se o Hospital, Hotel Lisboa, Ponte Nobre de Carvalho

No catálogo de vendas acima:
Transcrição (Chinês Tradicional)
萬成發展有限公司
洽購處: 
萬年企業有限公司 
奇珍銀號 
建成(澳門)有限公司 
地址:板樟堂街16號H式樓
電話:3426
板樟堂街15號電話:4345
地址:南灣羅理基博士大馬路25號式樓 電話:5334

Tradução: 
Empresa de Desenvolvimento Imobiliário Man Seng, Lda. (Wan Shing)
Local de Vendas / Contacto para Compra:
Empresa de Empreendimentos Man Nin, Lda.
Ourivesaria/Casa de Câmbio Kei Chan (Hei Chan)
Kin Seng (Macau) Empresa, Lda.
Contactos e Moradas:
Endereço: Rua de S. Domingos, n.º 16, Edifício Tipo H.
Telefone: 3426
Rua de S. Domingos, n.º 15, Telefone: 4345
Endereço: Avenida do Dr. Rodrigo Rodrigues, n.º 25, Praia Grande. Telefone: 5334
Curiosidade: No Largo da Sé foi construído um edifício denominado Apollo mas que em chinês se designa Ping On. Tal como o cinema como o mesmo nome junto ao Largo do Senadomas construído cerca de 30 anos antes. Também se chama Apollo mas o nome em chinês é Ping On. Os dois edifícios, outra curiosidade, tinham cor verde na fachada.

quarta-feira, 27 de maio de 2026

Recepção em Santa Sancha na década 1950

Recepção no Palacete de Santa Sancha - residência oficial do governador - na década de 1950. No jardim o governador Joaquim Marques Esparteiro fala com os convidados. 

quarta-feira, 29 de abril de 2026

O novo Centro Católico da Diocese de Macau

No ano em que a Diocese de Macau comemora o 450º aniversário* (fundação em 1676) será inaugurado o novo edifício do Centro Católico em Junho próximo. O edifício é composto por 17 pisos e inspira-se no conceito de "encontro entre Deus e a Humanidade". Foi desenhado em "forma de abraço, com uma cruz no topo para simbolizar a presença de Deus". Uma pintura na fachada inclui a inscrição "come and see" (Vinde e Vede), convidando à entrada do público.
Está localizado no cruzamento da Avenida da Praia Grande com a rua do Campo, no mesmo local onde foi construído o anterior edifício na década 1950. Ali, no nrº 113 da Rua da Praia Grande, estava localizada a biblioteca D. Policarpo, o Centro Diocesano dos Meios de Comunicação Social (criado em 1977) e a Livraria S. Paulo (do lado da Rua do Campo).
As novas instalações vão incluir uma capela, unidade hoteleira, instalações para refeições, salas de aula, salas de conferências e espaços para exposições.

O painel central em primeiro plano ilustra a passagem bíblica do Encontro de Jesus com a Mulher Samaritana no Poço de Jacob (João 4). Há uma legenda discreta no mosaico que identifica a cena em chinês e inglês: "撒瑪黎雅婦人 / Samaritan Woman".
Jesus é representado sentado, com vestes em tons de azul e branco, numa postura de diálogo e acolhimento. A Samaritana está de pé, segurando um cântaro amarelo, simbolizando a "água viva" referida na passagem.
O mural lembra outros existentes em Macau, nomeadamente os da autoria de Francisco Borboa.
Antigo edifício do Centro Católico construído na década 1950

*"Lema das comemorações "De Macau para o Mundo: 450 Anos de Missão e Misericórdia".