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quinta-feira, 10 de setembro de 2026

Breve análise a um esboço de Chinnery

Este esboço a lápis grafite sobre papel é uma obra de George Chinnery (1774–1852), desenhada quando viveu em Macau entre 1825 e 1852.
A composição retrata a proa e o mastro de uma embarcação tradicional da região encalhada na areia - um tancar - acompanhada por figuras locais. No canto superior direito encontram-se as anotações do artista, que combinam datas, marcas de selecção pessoal e símbolos do sistema de taquigrafia de Thomas Gurney, método fonético do século XVIII que Chinnery aprendeu com o avô.

Entre os elementos gráficos visíveis, destaca-se a indicação do ano de 1833, acompanhada pelo sinal (+), a marca com que o pintor assinalava nos seus cadernos os desenhos que estavam prontos para serem convertidos em quadros a óleo no atelier. As pequenas linhas verticais, ângulos e pontos agrupados ao lado e abaixo dos números não formam um código secreto, mas sim palavras e frases fonéticas em inglês escritas em estenografia. Estas notas serviam de guia visual rápido para o artista recordar a iluminação, os tons das sombras na madeira, as cores das roupas das figuras e as correções de proporção da composição ao trabalhar mais tarde no quadro final.
Outra das anotações que se pode visualizar é "1:1". Esta anotação gráfica no método de George Chinnery indica uma razão de proporção de 1 para 1, utilizada pelo artista para determinar que a escala da estrutura principal da embarcação deveria manter uma relação exacta de igualdade com a extensão do plano de fundo ou da linha do horizonte.

sexta-feira, 8 de maio de 2026

Bicentenário do nascimento de Marciano Baptista na Revista Macau - Maio 2026

Na edição de Maio 2026 da Revista Macau um artigo sobre o bicentenário do nascimento de Marciano Baptista (1826-1896), o maior vulto da arte macaense do século XIX.
Artigo pág. 58 a 66. Edição na íntegra através do link



terça-feira, 9 de setembro de 2025

"Éditos Citatórios" aos credores do "defunto G. Chinnery"

A 20 de Agosto de 1852 no cartório do escrivão Silveira (Juízo de Direito) são escritos os "Éditos Citatórios aos Credores certos e incerttos do defundo G. Chinnery" sendo posteriormente publicado o "Anuncio Citatório".

Boletim do Governo da Província de Macao, Timor e Solor, 4 Setembro 1852

Actualmente o Victoria and Albert Museum de Londres possui a maior colecção pública de obras da autoria de Chinnery. Seguem-se British Museum, o Hong Kong Museum of History e o Museu de Arte de  Macau.* Os milhares de trabalhos que fez guardou-os na sua casa em Macau em vários baús de madeira de cânfora. Foram encontrados após a sua morte e alguns foram vendidos por ordem do tribunal de Macau para saldar as suas dívidas.

*Outras importantes colecções de chinery estão no Hong Kong & Shanghai Bank e na Sociedade de Geografia em Lisboa.

terça-feira, 2 de setembro de 2025

"The Chinnery" no Mandarin Oriental (Hong Kong) desde 1963

Há 200 anos, em 1825, George Chinnery chegava a Macau. Tinha 51 anos e estava no auge da veia artística. Para assinalar a efeméride serão feitas aqui no blog várias publicações sobre aspectos menos conhecidos na vida e obra do pintor inglês que viveu durante 27 anos em Macau.
Nascido em 1774 o inglês George Chinnery partiu para Madras (Índia) em busca de fortuna no ano de 1802 e nunca mais regressaria. Em 1825 sai da Índia rumo a Macau onde viveu até à morte em Maio de 1852, com algumas estadias passageiras em Cantão e Hong Kong. Nos 50 anos que residiu no Oriente produziu algumas das mais belas pinturas da época de locais como a Índia, Hong Kong e Macau, sobretudo Macau.
Na antiga colónia britânica surgiu em 1963 o Hotel Mandarin Oriental, um ícone (26 pisos na época era significativo) e o mais antigo da ilha ainda em funcionamento. Foi também nesse ano que dentro do hotel (1º andar) abriu ao público o clube The Chinnery, em homenagem ao pintor inglês. Começou por ser apenas acessível aos homens (as mulheres só foram admitidas em 1990) e, claro, inclui inúmeras obras da autoria de Chinnery, incluindo um auto-retrato e o retrato de Harriet Low que conviveu com Chinnery em Macau.
Para além do bar, onde se destacam os cocktails e as mais de 100 marcas de Whisky single-malte da Escócia, Japão, Taiwan, Índia, EUA, etc..., tem ainda um restaurante onde imperam pratos indianos e ingleses.
Curiosidade: John Howarth da empresa de arquitectura Leigh & Orange foi o autor do projecto do hotel. Um dos sócios da empresa foi James Orange, no seu tempo o maior coleccionador privado de obras da autoria de Chinnery, a par do seu amigo Paul Catchick Chater (1846-1926). 

quarta-feira, 27 de agosto de 2025

"Mr. Thornhill's House" por George Chinnery em 1830 e 1836

Este esboço feito por George Chinnery em 1830 é um dos raros - e ele fez milhares - em que o pintor inglês escreve uma nota 'normal', que se consegue ler de imediato, localizada no canto superior direito: "Mr. Thornhill's House, Macao June 8. 1830 correct" / "Casa do Sr. Thornhill, Macau 8 Junho 1830 - correto", ou seja, a versão que o pintor considerava pronta... definitiva. Segue-se uma nota no sistema de estenografia 'Gurney' onde Chinnery escreveu: "taking the whole of it filling it up one hour and 45 minutes", explicando que o desenho demorou uma hora e 45 minutos a ficar concluído. No canto superior esquerdo, também no sistema Gurney está escrito Fx, ou seja, "Fix it / "corrigir". Quando estava pronto Chinnery escrevia uma cruz (t).


Trata-de um desenho em que se vê o Porto Interior ao fundo. É visto da colina da Penha mostrando a residência de Thornhill, entre outras habitações. À direita vê-se parte da cerca/muralha do Bom Jesus (monte/colina).
J. B. Thornhill esteve em Macau ao serviço da Companhia Inglesa das Índias Orientais até 1838. Nessa década outros nomes fizeram parte da firma: J. Jackson, J. H. Astell, H. M. Clarke, Astell Clarke, etc...
Harriet Low envia algumas cartas através do capitão Thornhill... 
James Holman (1786-1857), oficial da marinha britânica, que esteve em Macau no Verão de 1830 no decorrer de uma viagem de circum-navegação refere num livro de memórias (Travels in China...) a chegada a Cantão, proveniente de Macau, de Thornhill e da mulher: "Thursday 4 Mr and Mrs Thornhill arrived at the Factory this morning from Macao without having experienced any interruption or insult on their way."
Um filho do casal nasceu em Macau em 1834 de acordo com uma notícia do The Asiatic Journal.
Uma das características de Chinnery era fazer várias 'versões' de um só local. Neste caso, para além do esboço de 1830 existe outro (pelo menos) feito em 1836 (imagem acima).
O desenho corresponde à actual zona das ruas do Lilau, Penha e Padre António.

quarta-feira, 4 de junho de 2025

Um pintor genial

Em 1825, faz agora 200 anos, chegava a Macau oriundo da Índia o pintor inglês George Chinnery (1774-1852). Embora seja dado como certo que George Chinnery chegou a Macau a 29 de Setembro de 1825, detectei um documento que poderá colocar em causa esta versão. Num artigo intitulado “Foreign Art in China”, publicado em Janeiro de 1885 no “Journal of the China Branch of the Royal Asiatic Society”, Gideon Nye afirma ter tido nas suas mãos “um esboço da Gruta de Camões no jardim de James Bannerman’ com a inscrição ‘Macau, 11 de agosto de 1825’ […] na conhecida caligrafia do Sr. Chinnery”.*
Para assinalar a efeméride, neste pequeno artigo vou abordar aspectos porventura menos conhecidos de Chinnery relacionados com Macau, a terra onde viveu 27 anos até à morte em 1852.
Nascido em Londres, Chinnery partiu em 1802 rumo a Madras (actual Chennai) deixando a mulher e duas filhas. Na Índia britânica teve o apoio do irmão que trabalhava para a EIC, a Companhia Britânica das Índias Orientais. Foi a elite desta firma e dos demais abastados comerciantes que seriam a fonte de sustento do pintor a quem eram encomendadas obras de arte, sobretudo retratos. Apesar disso, acumulou dívidas e para fugir dos credores procuraria refúgio em Macau. Na época a cidade era um entreposto comercial efervescente onde Chinnery também teve o apoio dos homens de negócios estrangeiros que viviam no território nos meses em que estavam obrigados a sair de Cantão e até de alguns comerciantes chineses.
G. Chinnery - Igreja e Convento S. Francisco, 1830

Em Macau Chinnery viveu no bairro de S. Lourenço, a meio caminho entre o Porto Interior e a baía da Praia Grande. Segundo o próprio, era a paisagem – e não tanto os retratos – que mais o atraíam enquanto artista. Ainda antes de tomar o pequeno-almoço, deambulava pela cidade em busca de um motivo de desenho. Munido de lápis e papel fazia esboços com inúmeras anotações que depois, já no atelier que tinha em casa, transformava em desenhos a tinta-da-china, aguarelas ou óleos sobre tela (onde sobressarem as cores em tons vibrantes). Tudo num traço ímpar que muitos tentaram imitar.
Autor profícuo, Chinnery produziu milhares de obras e, contrariando a lei da oferta e da procura, ainda hoje muitas são leiloadas por milhares de euros. Em 2006 uma conhecida leiloeira inglesa vendeu um caderno com cerca de 200 esboços feitos em 1836-37 por mais de 300 mil libras!
As obras de Chinnery são uma autêntica janela para um passado longínquo onde a fotografia era ainda incipiente. Os primeiros registos fotográficos que se conhecem feitos em Macau datam de 1844.
Quando morreu em Macau em 1852, com 78 anos, Chinnery deixou para a posteridade milhares de registos iconográficos de Macau que são uma preciosa fonte de informação para a história do território na primeira metade do século 19. O templo de A-Ma, as ruínas de S. Paulo, as inúmeras enseadas no Porto Interior, as várias igrejas e fortalezas da cidade e a baía da Praia Grande estão entre os motivos mais conhecidos da sua vasta obra que inclui ainda múltiplas reproduções de cenas do quotidiano. Entre os motivos menos conhecidos contam-se registos iconográficos únicos. Só para mencionar alguns exemplos, refiro o pelourinho do Largo do Senado, a igreja Mater Dei antes e poucos dias após o fatídico incêndio de 1835 (vulgo Ruínas de S. Paulo), a igreja e mosteiro de S. Francisco (demolidos em 1864), a fachada de estilo rococó da igreja de Santo Agostinho, a igreja da Santa Casa da Misericórdia, etc...

*Original: "before us (…) a sketch of ‘Camoens Cave in the Garden of James Bannerman, Esq., Macao’, dated ‘August 11 1825’, (…) in the well-known hand writing of Mr Chinnery".

Pequeno artigo da minha autoria - correspondendo a um pedido da FJA - publicado na Newsletter da FJA em Junho de 2025.

terça-feira, 1 de abril de 2025

RC nº76 – Edição Internacional/International Edition

A edição nº 76 da Revista de Cultura – Edição Internacional está disponível desde Janeiro último e é dedicada ao 250.º Aniversário do Nascimento de George Chinnery. A efeméride assinalou-se o ano passado. Este ano, assinalam-se os 200 anos da chegada do pintor inglês a Macau.
Entre os vários artigos sobre o tema destaco o de Patrick Conner que aborda as obras de Chinnery expostas no Victoria & Albert Museum, em Londres, instituição com uma das maiores colecções do pintor inglês; e o de minha autoria, intitulado "Testemunhos dos seus conhecidos" - o único em português nesta edição - onde, com recurso a testemunhos de quem o conheceu, se apresenta uma retrato físico e psicológico do artista britânico, autor de algumas das mais notáveis pinturas de paisagens e retratos de habitantes da região, durante a primeira metade do século XIX.
Fundada em 1987 a Revista de Cultura é actualmente uma publicação do Instituto Cultural, editada pelo Centro de Estudos de Macau da Universidade de Macau. Destaca-se não só pela qualidade dos conteúdos como também do excelente design gráfico, marcas que mantém desde a fundação.

quarta-feira, 12 de março de 2025

Os sinos da igreja Mater Dei

Detalhe de uma pintura de W. Heine ca. 1853

Existiam vários sinos na fachada da igreja Mater Dei (S. Paulo) - em pinturas do século 19 surgem umas vezes três, outras vezes, dois - e mais dois na torre lateral. Os sinos foram removidos após o derradeiro incêndio de 1835 já na segunda metade da década de 1850 pois ainda surgem em pinturas feitas ca. 1850. A torre sineira lateral seria demolida após o fogo.
George Chinnery desenhou/pintou a igreja antes e depois do incêndio. No período anterior ao fogo ainda desenhou a torre sineira e no período posterior essa torre já não surge. (ver exemplo abaixo - com três sinos e sem torre sineira lateral). Chinnery morreu em 1852 pelo que depreende-se que a torre foi demolida  entre 1835 e 1852. W. Heine esteve em Macau em 1853/54, ou seja, após a morte de Chinnery, e no desneho que fez da fachada coloca apenas dois sinos.
Os dois sinos da torre sineira - em bronze - estão actualmente expostos no Museu de Macau.
O mais pequeno foi fundido em 1714, e nele consta a seguinte inscrição:
"Anto. De Seqra. De Nra. sendo Capao. Geral Desta Cide. o Mandov Fvndir Em 2 de Mayo de 1714 annos."
("António de Sequeira de Noronha, sendo Capitão Geral desta Cidade, o mandou fundir em 2 de Maio do ano de 1714." )

No sino maior está o emblema dos jesuítas, IHS, e as inscrições:
"Sonet Vox Tva In Avribvs Meis" 
("A tua voz ecoa nos nossos corações")
“Macao Collo.da Madre de Deos da Compa. de Iesus Anno de 1736"
("Macau, Colégio da Madre de Deus da Companhia de Jesus, Ano de 1736")

sábado, 18 de janeiro de 2025

Preso por "falso zelo de serviço"

Em 1846 o fiel da Fortaleza de S. Francisco mandou cortar "alguns ramos das árvores, que estão no Campo de S. Francisco" que estavam a impedir a "vista da sentinella". Por causa disso o fiel seria condenado pelo comandante do Batalhão de Artilharia a uma pena de prisão de três dias "na mesma fortaleza" já que "tão prejudicial é a disciplina da relaxação, como um falso zelo de serviço" de um militar que se intrometera "em coisas que não são da sua competência".
 

quarta-feira, 4 de dezembro de 2024

As Ruínas desenhadas por Chinnery após o incêndio de 1835

A 31 de Janeiro de 1835, cinco depois do fatídico incêndio no colégio e igreja de S. Paulo (na noite de 26 para 27 de Janeiro), George Chinnery, como se de um fotojornalista se tratasse, desenhou os efeitos do incêndio. O próprio escreveu a data no desenho como era seu hábito. Que restou apenas a fachada é o que se conhece até hoje, nada restando do que era o interior do edifício. O desenho de Chinnery revela no entanto que ainda ficaram de pé algumas estruturas edificadas em pedra. É muito provavelmente o único documento gráfico que o atesta.
Com o incêndio também ficou destruído um relógio. No livro de 1836 An Historical Sketch of the Portuguese Settlements in China o sueco Anders Ljungstedt escreve:
"In this edifice is a clock which strikes quarters and hours and to judge from an inscription on the principal wheel Louis XIV made a present of it to the Jesuit college". Ou seja, "Neste edifício está um relógio que bate quartos e horas e a julgar por uma inscrição do mecanismo principal foi oferecido pelo rei Luís XIV (França) ao colégio jesuíta".
Segundo relatos da época este relógio permitiu apurar com exactidão quando ocorreu o incêndio:
"Tinham soado as seis horas da tarde quando o fogo começou de atear-se e tão rapido lavrou que o primeiro quarto depois das oito immediatas foi para os desconsolados habitantes de Macau a despedida do grandioso relogio do collegio que o devia a munificencia de Luiz XIV."
Este relato foi reproduzido no Boletim do Governo de Macau de 28 de Janeiro de 1867. 
Curiosidade: no desenho podem ver-se dois soldados portugueses

domingo, 24 de novembro de 2024

Um auto-retrato que resume uma vida

Este óleo sobre tela é um auto-retrato (71x54cm) de George Chinnery (fez vários) feito em Macau no ano de 1840  e resume a essência da vida do pintor inglês. Retrata o seu estúdio/atelier em Macau - junto à igreja de S. Lourenço - e nele podem ver-se duas pinturas, uma da Índia (1º plano) e outra de Macau (baía da Praia Grande), os locais onde viveu mais tempo. 
Chinery nasceu em Londres no ano de 1774 - há 250 anos - e foi para a Índia em 1802 Madras (actual Chennai, no golfo de Bengala) mudando-se depois para Calcutá onde ficou até 1825. Nesse ano foi para Macau e ali viveu até à morte em 1852, com algumas saídas esporádicas até Hong Kong e Cantão. Morreu com 78 anos: 23 foram passados na Índia e 27 em Macau.

segunda-feira, 18 de novembro de 2024

Mosteiro/Convento S. Francisco: desenho e fotografia

Em baixo um desenho a lápis do mosteiro/convento de S. Francisco feito por George Chinnery em 1825, ou seja, no ano em que chegou a Macau.
Em baixo praticamente a mesma perspectiva do edifício numa fotografia (daguerreótipo) de 1844 da autoria de Jules Itier.
PS: o espaço corresponde ao antigo Quartel de S. Francisco e onde está actualmente instalado o Museu das Forças de Segurança de Macau.

domingo, 17 de novembro de 2024

"Rocks and a hill convent"

"Rocks and a hill convent" / "rochedos e um convento numa colina" é o título da catalogação desta aguarela de George Chinnery. A obra corresponde ao período em que o pintor inglês viveu em Macau e tudo indica tratar-se de uma vista da ermida da Guia a partir da zona do Tap Seac. Estamos assim perante um elemento gráfico que explica a origem deste topónimo macaense. 塔 石 / Tap Seac significa torre de pedra, a alusão aos rochedos.
PS: Este ano passaram 250 anos sobre o nascimento de Chinnery. Em 2025 faz 200 anos que o pintos inglês George Chinnery chegou a Macau (1825), terra onde viveu atá à morte em 1852.

segunda-feira, 11 de novembro de 2024

Pormenores na antiga igreja Mater Dei

18.10.1834 Chinnery
 

George Chinnery desenhou/pintou a igreja de Mater Dei antes e depois do último grande incêndio de 1835 do qual restou apenas a fachada. (ver imagens)

3.8.1835 Chinnery

Na obra de 1834 é possível ver do lado direito a torre sineira ao passo que na obra de 1835 dessa torre já praticamente nada existe. Outro pormenor curioso é o conjunto de arcos abobadados representado do lado direito. Um desses arcos pode também ser contemplado numa fotografia de 1875 - já após o tufão de efeitos devastados de Setembro de 1874. Nesse mesma fotografia - da qual apresento apenas uma parte - destaco o facto de ao fundo ser possível ver uma pequena construção com um tecto em abóboda.

Detalhe de uma fotografia de 1875

"A igreja principal é a de Sám-Pá (São Paulo), que fica a nordeste de Macau, encostada a uma montanha e tendo de altura vários tch´âm (2,64 metros). Na parte lateral do edifício, abrem-se portas, feitas com estreitas e compridas pedras esculpidas e incrustadas com ouro azulado, que brilham fulgurantes. A parte superior parece-se com um docel voltado. Os lados são rendilhados, encontrando-se espelhados neles admiráveis jaspes. Aquela que dizem ser a Mãe do Céu chama-se Maria. A sua figura é de uma jovem abraçando uma criancinha que se chama jesus Senhor do Céu. O fato não é cosido e cobre todo o corpo que, desde a cabeça é revestido duma simples pintura e dum véu esmaltado. Em se olhando para ela, dir-se-ia que foi moldada. Ao lado, encontram-se trinta figuras. A sua mão esquerda segura a esfera armilar. Os quatro dedos da direita fazem lembrar o gesto de quem discursa. Os cabelos e as sobrancelhas são caracterizadas por pesados lóbulos; o nariz alto; os olhos como se estivessem a contemplar qualquer cousa distante; a boca, com a atitude de quem quer falar."
Excerto de "Ou-Mun Kei-Léok - Monografia de Macau", cujo título original é Aomen jilüe 澳門紀略, da autoria de Tcheong-U-Lam e Ian-Kuong-Iâm e publicado em 1751. A tradução é de Luís Gonzaga Gomes e faz parte da edição em português desta obra editada pela Repartição Central dos Serviços Económicos - Secção de Publicidade e Turismo, Macau. Imprensa Nacional, 1950.

terça-feira, 24 de setembro de 2024

Aguarela comentada de George Chinnery

Datada ca. 1843 esta aguarela foi feita por George Chinnery. Muito provavelmente Chinnery desenhou esta 'cena' a partir de um ponto elevado, talvez da Rua dos Cules ou da Rua da Alfândega. Tem representados, como era hábito em Chinnery, figuras humanas e animais (uma cabra). Em segundo plano pode ver-se forma parcial da fachada da igreja Mater Dei (vulgo ruínas de S. Paulo), a Fortaleza do Monte e a igreja de S. Domingos.

domingo, 11 de agosto de 2024

Esboços de 'cenas marítimas' por G. Chinnery

Uma das práticas habituais de George Chinnery era fazer os desenhos a lápis in loco. Podia fazer até mais do que uma versão da mesma cena. Numa só folha de papel coexistiam muitas das vezes vários desenhos totalmente distintos. Estes esboços tinham ainda a particularidade de incluir notas escritas do pintor, nomeadamente sobre cores e outros aspectos que o desenho deveria ter na versão final. 
No exemplo deste post estão dois esboços de cenas marítimas feitos a lápis e tinta sobre lápis.
Um dos desenhos é datado de 8 de Abril de 1839 e mostra uma embarcação de mastro com vela em baixo e um toldo de palha.
O outro é de 9 de Abril de 1839. Três tancares e os respectivos tripulantes com varas compridas conduzem as pequenas embarcações de fundo plano.
Em baixo mais alguns exemplos de esboços de cenas marítimas feitos em Abril de 1839


domingo, 4 de agosto de 2024

Venda ambulante no Código de Posturas de 1872

"Muitos vendedores ambulantes percorrem as vias publicas de Macau como em toda a China. Trazem as suas mercancias em cabazes ou balsas suspensos atrás e adiante num bambu que põem aos hombros. Em geral vendem comesainas e apregoam a sua fazenda em altos berros e com entonações caracteristicas. Ha tambem por lá bufarinheiros. Nas praças e nas ruas installam-se vendedores os quaes exhibem o seu negocio sobre bancas ou n'uma esteira estendida no chão."
Excerto de "Macau e os seus habitantes" de Bento da França, publicado em 1897.
Duas pinturas de George Chinnery que documentam a venda ambulante de comida em meados do século 19 no Largo de S. Domingos.
No Código de Posturas do Leal Senado da Câmara de Macau publicado em 1872 pode ler-se no artigo 62 que "Todos os vendedores ambulantes são obrigados a tirar uma licença da câmara mediante o pagamento de 1 (pataca) por anno sob pena de 2 (patacas) de multa."
Na época a cidade tinha cerca de uma centena de "vendilhões ambulantes" e de acordo com o regulamento tinham locais próprios para exercer a actividade.

Dois desenhos de vendedores ambulantes de comida, da autoria de George Chinnery. O de cima não tem data. É feito a tinta e o local tudo indica ser junto à igreja de S. Domingos.
O de baixo, a lápis, é de 1845. Sob um guarda sol feito de palha um vendedor ambulante serve comida aos clientes. Entre estes alguns levam comem com uma tigela. Do lado direito pode ver-se um barbeiro em actividade.
No referido Código de Posturas sobre o "os instrumentos de pesar e medir" o artigo 63 refere que "Todo aquelle que expuser venda em qualquer parte cousas que por peso ou medida podem ser vendidas é obrigado a ter os instrumentos necessarios para pesar ou medir essas cousas as sim expostas sob pena de 1 (pataca) de multa. Art. 64 Todo o vendedor é a ter aferidos no praso legal os instrumentos de pesar ou medir de que fizer sem excepção alguma sob a pena já com minada no artigo antecedente Art. 65 A aferição terá logar na respectiva repartição da camara perante official competente mediante o pagamen to de 10 avos sob pena do artigo 63." A aferição era feita "biennalmente", ou seja, a cada dois anos.

segunda-feira, 17 de junho de 2024

A "Praya Grande" vista da "Bishop's gate"

Este desenho a lápis em papel foi feito por George Chinnery em 1842 na denominada Porta do Bispo, na colina da Penha. Para lá da porta pode ver-se a baía da Praia Grande. Aliás, Chinnery desenha uma chinês apoiado num muro a apreciar a paisagem. A porta estava inserida na muralha que se erguia desde a fortaleza do Bom Parto (junto à água) até à ermida da Penha, no topo de colina com o mesmo nome.
Na transição do desenho para a pintura Chinnery introduziu algumas ligeiras alterações, uma prática habitual por parte do pintor inglês que costumava desenhar as figuras humanas em separado, fazendo várias versões de forma a obter a solução que mais lhe agradava.
Entre as diferenças do desenho para a pintura destacam-se as duas figuras humanas ao edifício do lado direito, este último numa escala notoriamente menor na pintura e sem portas. 

domingo, 19 de maio de 2024

Senado e Igreja da SCM por George Chinnery

Estes dois desenhos são da autoria de George Chinnery e foram feitos em 1833 na zona do Largo do Senado. Para além dos vários chineses, uns a vender outros a passear com sombrinha para protecção do sol, destaco o edificado desenhado por Chinnery. Ao fundo (1) vê-se parcialmente a fachada frontal do edifício do Leal Senado. À esquerda (2) a igreja e torre da Misericórdia. Em 1836 a torre ruiu, muito provavelmente devido aos tufões de 5 de Julho de 1835 (que danificaram de forma grave a igreja da Sé, logo ali ao lado) e de 30 de Julho de 1836.

Outro desenho de Chinnery feito em 1833. Com uma vista muito reduzida da fachada principal do edifício do Senado e a igreja e torre da Santa Casa da Misericórdia à esquerda.

domingo, 28 de abril de 2024

"Macao, the city of Camoens"

"Fankwei Or, The San Jacinto in the Seas of India, China, and Japan" é um livro da autoria de William Maxwell Wood publicado em 1859.
A viagem começou em Outubro de 1855 no porto de Nova Iorque (EUA) a bordo da fragata de guerra a vapor San Jacinto, dos EUA.
O capítulo 24 é sobre Macau e tem como título "Macao, the city of Camoens". Excerto:
My cradle was the couch of Care
And Sorrow rocked me in it
Fate seemed her saddest robe to wear
On the first day that saw me there
And darkly shadowed with despair
My earliest minute
For I was made in Joy's despite
And meant for Misery's slave
And all my hours of brief delight
Fled like the speedy winds of night
Which soon shall wheel their sullen flight
Across my grave
Camoens translated by Lord Strangford

Porto de Nome de Deos, Porto de Amacao, Cidade de Santo Nome de Deos de Macao and, as a final contraction, Macao alone.
In these latter days Macao to the traveler is Camoens as Stratford upon Avon is Shakspeare. Hence my melancholy quotations from the composition of the poet as I draw near the place which is eminent as the refuge of the fortune stricken bard and the locality of the solitary cave in which he nursed his muse. I have much respect and admiration for decayed gentry those who show forth the dignity and refinement of past state and pomp beneath the softening influences of pres ent privation and adversity.
They present the picturesque in the social scene as the crumbling tower touched by the setting sun does in the natural. Therefore such old towns as Macao are pleasant to me made up of great massy old houses surrounded by grounds darkened by trees and tangled in shrubbery which with the crabbed independence of age has a will of its own above all trimmings and trainings. The families occupying these homes pleasant quiet people they are every one says how they live no one knows are polished dignified unobtrusive and always seeming to say by their amiable mild deportment. It is affection not pride which makes us cling to the old home and the associations of all that is left us our family history What have such people to do with the fuss and struggle and turmoil of the present. Their lives are in the past they are dreamy looking people even the children look so and all the family have their hopes resting upon that thoughtful looking boy and pensive girl who are just coming into life. By them the sinking star of the house is to close in darkness or rise to its former brilliancy. There is a charming contrasted repose in such a quiet old town as Macao to one who three hours before leaves the upstart fussy pretension of Hong Kong where every body is trying to be somebody and nobody believes that anybody else is anything.
The natural site of Macao is picturesque. It climbs up the sides and through the ravines of a group of hills the summits of which are topped by old castles and convents. Conspicuous among the ruins of Macao on one of these hill tops is the front wall of an old church standing out sharp and clear upon its elevation. Only this front wall remains its ragged edges and window openings cushioned with moss and fringed with the wild foliage which time has planted. The stone faced mole or praya which curves in front of the city was in former days the scene of a bustling com merce but is now the pleasant quiet promenade of those who have nothing better to do. Besides this Portuguese and foreign Macao there is in the low grounds of the city a dense mass of a Chinese town and the combined population, Portuguese, foreign, Chinese, Malay and mixed is about thirty thousand.
At the mouth of the Tigris and as a sea port of Canton before Hong Kong sprung up Macao had a day of commercial prosperity. For over three hundred years it has been a foreign settlement. The general impression is that it was given the Portuguese as a reward for their having suppressed piracy on the coast. But there is no evidence that there has ever been any relinquishment of sovereignty on the part of the Chinese authorities. The Portuguese claim seems to be but that of possession at first tolerated then permitted and now acknowledged in fact if not in name. Provisions are abundant and good the climate pleas ant and healthful and it is the chosen retreat of the business worn merchants of Canton and Hong Kong the refuge of those whose fortunes have been broken and the residence of the foreign legations all of whom make up an agreeable society whose chief occupation and amusement is social intercourse.
The English and American difficulties with the Chinese and the blockade of Canton have somewhat revived the activity of Macao. Even in the worst times there is always some animation on the praya and the sea which washes it in the group of Tanka boats and the girls who I was going to say man them and as these girls really do the hard labor of men the nautical verb may remain. These picturesque white teethed laughing mouthed bandana kerchief head ed nymphs live on the water and make their living by landing passengers from the steamers which run between Macao and Hong Kong and did in time past run be tween this port and Canton and in rowing to the bath ing places the business and dissipation worn wretches who retreat for a few weeks to Macao to tone up. And at these bathing places too often the unblushing immod esty of the civilized Christian belies his country and his training and outrages those whose necessities compel them to do him service.
The commercial foreign resident of China too often looks upon the native as in no wise superior to brute beasts and an abiding contempt of the judgment and ability of missionaries on the part of the commercial community rests partly upon the fact that missionaries will regard Chinese as human beings partly perhaps upon the fact that those who make wealth their aim have a pity for the stupidity of those who live for other objects.
The Tanka boat people are said to be of an unknown race distinct from Tartar or Chinese. They have their own customs the females never contract their feet they marry among themselves Where the men live and how I do not know. Among the various kinds of barometers natural and artificial few are more accurate than these Tanka boat girls. The wind is a little fresh this evening nothing remarkable the bay is just tossed into short curling waves not so rough but that the freshness rather invites you to go before it and take a pull in a Tanka boat. You can not do it. See now what an animated scene the praya presents. Life has rushed or is rushing up from the water to the land. The damsels are helping each other pulling and tugging dragging their boats up the inclined planes of the stone jetty and moving them on rollers up and down the praya until they form a village of mat roofed houses. You had better not try your water excursion now even if you could persuade the ladies to take you. Go home if you happen to have a home and care any thing for it and put in your heavy typhoon bars over doors and windows and most likely before morning comes these bars will be bending like twigs. I have heard the winds in these tempests come dashing against the windows in gusty blasts until the stout bars bowed and bent as though they must violently break and open the room to the tempest.
During my residence on the coast of China there came one of these typhoons so violently and suddenly at Macao as to grind up the boats which were caught out and destroy many lives Macao rests its association with genius not alone upon the fame of Camoens. It has also that of the painter Chinnery. Who was Chinnery I dare say most of you will ask. He died at Macao where he had lived for some time an octogenarian genius too great a man intrinsically to be little great externally. He loved the productions of his talent better than he did fame or money With a few single touches of his pen or unstudied dashes of his brush he produced living effects which no care and elaboration of the less gifted could effect. Many especially in Philadelphia may have seen the engraving by Sartain of the old Chinese merchant Howqua after an original painting by Chinnery. (...)
The cave of Camoens is in the grounds of a private residence. It has been so perverted by art as to lose all that is picturesque. During the whole of my visit to Macao of about two weeks duration it rained incessantly. (...)