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quinta-feira, 18 de março de 2021

Aida de Jesus: 1915-2021

Figura incontornável da comunidade e gastronomia macaenses, Aida de Jesus morreu esta quarta-feira em Macau aos 105 anos.
Nasceu a 24 de Outubro de 1915 na freguesia de Santo António em Macau sendo baptizada como Aida Rafaela da Rosa. Estudou no Colégio Santa Rosa de Lima e casou em 1942 na Sé quando recebeu o apelido "de Jesus". Ela e o marido tiveram três filhos.
Em casa falava-se o português, o cantonense e o patuá (aprendeu com a avó), dialecto em que a Dona Aida era exímia falante.
Fotografia de Laurent Fievet em 2011
Foi cozinheira em vários restaurantes, incluindo no Clube de Macau, Hotel Estoril, Hotel Sintra e Hotel Lisboa até que já como chef célebre fundou no início da década de 1980 o Restaurante Riquexó - 利多澳门餐 - (que ainda hoje existe na Av. Sidónio Pais). Foi desta forma pioneira ao 'tirar' a gastronomia macaense do domínio privado dando-a a conhecer ao público em geral. Herdou as receitas da família e acrescentou-lhe o seu toque pessoal.
O ‘Tacho’ (baseado no cozido à portuguesa mas feito com ingredientes locais como chouriço chinês, toucinho, porco, galinha, dobrada e pato fumado) a ‘Capela’ (picado de carne de porco e chouriço português com ovos e queijo ralado que vai ao forno a gratinar) e o ‘Minchi (refogado de alho e cebola, molho de soja, gengibre e batata frita aos quadrados a que se acrescenta carne de vaca e porco picadas servindo-se com arroz branco e um ovo estrelado), eram alguns dos seus pratos favoritos.
Em declarações à imprensa nos últimos anos afirmou: “As receitas antigas tiveram de ser adaptadas aos nossos dias por causa das porções. Antigamente, como havia pouco dinheiro, a quantidade dos ingredientes era muito pequena”.
Com a morte de Dona Aida, como era tratada habitualmente, perde-se um dos símbolos maiores da cada vez mais reduzida comunidade macaense e uma das também poucas pessoas que dominava o patuá.

sexta-feira, 18 de dezembro de 2020

Cassete "Macau" da Tuna Macaense: 1983

Depois da gravação em 1970 a Tuna Macaense voltou aos estúdios para gravar esta cassete com 11 músicas editada em 1983 pelo Departamento de Turismo de Macau.



Na fotografia da capa uma guitarra portuguesa e um xaile na Fortaleza do Monte.

segunda-feira, 23 de dezembro de 2019

"Natal já tem traz de porta"

Natal já tem traz de porta 
Logo cai na quarta fêra 
Venca nós armar presépio
E aranjá candêa cera 

Nós tem sagrada familia 
Pastor vacca tem bastante 
E tem também três Rê mago 
Montado na elephante. (…) 

Na Macau padre Manuel 
Com mas dôs ou três sium-sium 
Chega festa de Natal 
Canta gorung gorungung (…) 

Sim padre Manuel fallá 
Qui aquelle são três rês-magros 
Mas eu senti bem de gordo 
Tudo costas bem de largo. 

Unga rê são portuguez 
Outra môro tem turbante
Outro cafre beço grosso 
Corpo inchido diamante.

Excerto da poesia "23 de Dezembro", da autoria do macaense Fillipe Miguel de Miranda e Lima (1823-1901) publicada em 1895 no Almanach Luiz de Camões, de Hong Kong.

sexta-feira, 5 de outubro de 2018

A Língua ou Patuá de Macau: 2ª parte

(...) Podemos também citar um certo número de vocábulos de origem chinesa que, embora modificados, fazem parte integrante do dialecto de Macau. No entanto, são em menor número que os provenientes das línguas malaias, facto que parece provar a mais frequente e mais duradoira influência destes povos junto dos Macaenses. Destaquemos, pois os seguintes termos:
«Amui», rapariga; «amechon», boião, do chinês «am chông»; «apai», coxo; «atai», rapaz chinês de pouca idade; «bafo comprido» de «ch’eong hei»; «camessé», gorgeta, de «kam-sé»; «caxá-fachai», caixa de fósforos, do chinês «fachái», fósforos; «chatom», abafador de bule, de «chá tong»; «chencau», chinês baptisado na Igreja Católica, de «cheng-káu»; «chicu», variedade de inhame, de «ch’i kú»; «chile miçó», tempero chinês, de «lát chiu cheóng»; «chin-chin», saudação, de «ch’engch’eng»; «chintói», bolo de «chin-tui»; «choa», embarcação, de «ch’ou»; «choncar», chocar, de «chong»; «chuchai», cule chinês, de «chü-chai», porquinho pequeno; «colau», restaurante, de «kou lâu»; «congcong», nome de hortaliça em chinês, de «ong-chói»; «faichi», pauzinhos que substituem os nossos talheres;
«faichista», homem que no jogo do «fantam» corta os botões, a varinha por eles usada tem o formato dos «faichi»; «fantane», jogo, de «fán t’ án»; «fá-sã» ou «fásam», amendoim, de «fá-sang»; «fatião», barco chinês, de «fai t’eang» ou «fai t’êng»; «fontão», armário, de «fôngtâng», lâmpada ao vento; «fó-quei», empregado, de «fókei», criado; «ganeiro», tripulante de barco, de «kwan» com o sufixo português -eiro, aquele que na marinha asiática tem a seu cargo os petrechos de guerra, massame, poleame...; «iam-chá», termo chinês que significa um primeiro almoço tardio; «jambolam», fruto da «eugenia sambulana», comum em Macau; «laissi», presente de dinheiro pelo ano novo chinês, de «lei-si»; «lanchai», garoto da rua; «lencó», fruto, de «leng kók»; «leonfane», geleia, de «leóng fân»; «lichia», fruto muito apreciado, originário da China; «liu-liu», remo; «longane», fruto, de «lông ngán»; «lorcha», pequena embarcação chinesa; «malau», do chinês, macaco; «manquenfum», mezinha chinesa, de «mán-ken-fông»; «mestres», curandeiros chineses; «mintói», cobertor, de «min t’ói»; «mui», espécie de ameixa; «mui», moído, desfeito; «ná», partícula, com o sentido de «tome lá, veja»; «o-o-bambu», rebentos de bambu; «pacapiu», lotaria, de «pak kap piu»; «paché»; guarda-sol; «pakfanista», viciado de drogas, de «pák-fân», pó branco; «panchão», foguete chinês, de «p’au cheong»; «putão», tijela, de «put-t’âu», «quáchi», pevides de melancia, de «kuá-chi»; «sam-nam-ché», triciclo, de «sám lôn ché»; «sampan», embarcação chinesa de vela; «sanchum», vinho queimado de arroz, de sorgo, etc.; «som», comida, de «sông»; «sutate», tempero chinês; «tacó, taucó», feijão verde, de «tâu kók»; «taipane, taipanada», homem rico, de «tai-pán»; «tai-siu», jogo; «tal-mong», termo chinês designando palerma; «tancá, tancar», barco, de «tán ká», ovo, casa; «tancareira», mulher tripulante do «tancá»; «tapilu», refeição, de «tá-pin-lou»; «taufu», coágulo de feijão de soja, do chinês «tâu-fu»; «tau-leng», moeda de cinco avos; «tomtom», rebuçado, de «t’óng t’óng»; «trate», planta «nymphacea», considerada sagrada na China.
Entre os vocábulos originários da Índia, especialmente do concani, o dialecto de Goa, podemos nomear os seguintes:
«árvore do pagode»; «babá», rapazinho; «baniane», casaco de pano; «bicho», animal, rapaz de pouca idade ou rapariga; «bambolim», de «bombil»; «cacada», gargalhada 5; «carambola», fruta; «chachini», prato de peixe, de «chetni»; «chale», rua estreita, de «tçàl»; «daia», parteira; «fula», flor, do neo-árico «phùl»; «gargu», recipiente para água, chaleira, de «gãdjó»; «guinde», jarro; «gúni», saco grande, ;de «gon»; « ladu», doce; «mainato», lavandeiro; «mate», terra, barro, argila; «mogarim», espécie de jasmim, de «mogrî»; «mordicim», dor de cabeça, de «mordexim»; «mungo», feijão, de «mũng; «ola», folha de palmeira; «pancá», ventilador; «patinga», barriga da perna; «supo», cesto, do indo-português «supo»; «tifin», almoço pela uma hora da tarde, do anglo-indiano «tiffin»; «vaguear», ter vertigens, de «banque», espécie de cânhamo.
Das línguas dos países orientais, que igualmente tiveram relações com Macau, provieram alguns termos como sejam: «Caia», mosquiteiro, do japonês «ka-ya»; «figo-caque» «cáqui», dióspiro, do japonês «káki»; «nono», «nuno», tecido de algodão, do japonês «muno»; «quimão»; quimono, igualmente do japonês «quimono». Das Filipinas temos a registar «macupa», variedade de jambo e «pano-manila», isto é, um pano de algodão estampado de risca de xadrês, de cores vivas, muito estimado pelas antigas mulheres de Macau. Do indonésio recebeu ainda a língua de Macau, a palavra «samatra», com o significado de tempestade, do nome da ilha e, propriamente do javanês, «cate», peso com o valor de 610 gramas, ainda empregado correntemente entre os comerciantes chineses.
Das línguas africanas, ou melhor bantos, contam-se apenas dois vocábulos: «cará», crosta, do nome do tubérculo que significa «batata doce»; e «siara», no sentido de senhora.
Como já acima notámos, a fixação dos Ingleses na ilha de Hong Kong, em 1841, nas vizinhanças de Macau, tornou-se um poderoso elemento de influência na língua do território, sempre em crescimento. Assim podemos enumerar uma série de termos desta proveniência:
«Adape», sem dinheiro, de «hard up»; «afete», gordo, nutrido, de «fat»; «anidiu», melão, de «honey-dew»; «atachamento», afeição, amor, de «attachement»; «boy», rapaz, serviçal; «cacai», estrábico, de «cock-eyed»; «captain», chefe de criados; «cash», dinheiro à vista; «chope», feriado escolar, do pidgin de Hong-Kong; «corte», tribunal, de «court»; «cule», trabalhador chinês, de «coolie»; «dangeroso», perigoso, de «dangerous»; «engajamento», promessa de casamento, de «engagement»; «engajar», fazer o pedido de casamento, de «engage»; «entiçar», incitar, de «entice», tentar; «espitune», escarrador, «de spittoone»; «fluqueiro», «fluquice», jogadas erradas, boa jogada, de «fluke»», golpe ou tiro, dado por acaso ao jogo; «mámi», mamã, de «mammy»; «minche», picado de carne, de «mince»; «parcar», arrumar um carro, de «to park»; «queique», bolo, de «cake»; «reporta», levar ao conhecimento, de «report»; «rustir», assar, de «to roast»; «sós», molho, de «sauce»; «tiro-grandi», sugestão do inglês «big shot».
Embora seja difícil determinar de uma forma precisa as tendências sociais de cada um dos grupos étnicos ou dos idiomas estranhos que influenciaram a língua de Macau, podemos assinalar alguns dos aspectos mais expressivos dos léxicos nela representados.
Assim o malaio exprime muitos instrumentos de uso doméstico, medidas, vestuário, comestíveis como frutos, doces, leite de coco, culinária e certos estados abstractos.
Por sua vez, o chinês revela-se numa série de costumes próprios desta comunidade e adoptados pelos Macaenses, como nomes de refeições, géneros de alimentação, embarcações e seus tripulantes, utensílios de pesca, remédios, jogos e condições físicas.
Nos termos indianos encontram-se diferentes situações humanas, instrumentos domésticos, vestuário, doçaria e nomes de plantas.
Finalmente, do inglês provieram termos de comércio, predicados físicos, actos sociais e algumas designações de culinária. (...)

Excerto do capítulo "A Língua de Macau" in A Influência da Cultura Portuguesa em Macau, de Rafael Ávila de Azevedo. Edição: Inst. Cultura e Língua Portuguesa, 1984.

quinta-feira, 4 de outubro de 2018

A Língua ou Patuá de Macau: 1ª parte

A língua ou patois de Macau mereceu, desde longa data, a atenção dos filólogos portugueses. Foi primeiramente estudada por Francisco Adolfo Coelho (1847-1919) numa monografia que envolvia todos os dialectos portugueses falados fora de Portugal. O dialecto macaense é aqui tratado num pequeno número de páginas. Todavia, o autor dispunha de uma especial competência no campo da filologia histórica e científica, de que foi um precursor em Portugal, quer como investigador consciencioso, quer como professor do antigo Curso Superior de Letras e depois Faculdade. Neste, como em outros campos da sua extraordinária actividade, Francisco Adolfo Coelho distinguiu-se, entre nós, como o iniciador de uma escola de cientistas da linguagem. Não lhe escapou, pois, o estudo dos crioulos que são a expressão idiomática da expansão dos Portugueses no mundo a partir do século XV. De facto, o crioulo de Macau pode colocar-se a par de outros dialectos com os quais, de resto, apresenta muitas semelhanças, no Brasil, na África e na Ásia.
Após Francisco Adolfo Coelho e na sua esteira, outro notável filólogo português contemporâneo, José Leite de Vasconcelos (1858-1941), também se ocupou do crioulo de Macau numa memória destinada ao X Congresso dos Orientalistas, embora de uma maneira rápida e aproveitando-se sobretudo de Adolfo Coelho.
Todavia, e ainda anteriormente a estes filólogos, a mais antiga referência que existe sobre o patoá de Macau deve-se a um autor chinês, Tcheng Ulam, que também escreveu uma monografia sobre a cidade do Santo- Nome-de-Deus com o título de Oi-Mun-Kei-Leok, redigida em 1745-1746, em que se referia à língua macaense.
Mas o dialecto teve ainda um intérprete apaixonado no orientalista João Feliciano Marques Pereira (1863- 1909), nascido em Macau, de onde se dirigiu a Portugal para frequentar o Curso Superior de Letras, onde foi discípulo de Adolfo Coelho. Ficou, porém, sempre fiel à terra onde nasceu. Professor efectivo da antiga Escola Superior Colonial, deputado pelo círculo de Macau, funcionário do Ministério da Marinha e do Ultramar, dedicou-se, quer pelo jornalismo, quer pela publicação de várias obras, aos interesses de Macau que sempre defendeu ardorosamente. Contudo a sua coroa de glória é a edição da revista Ta-ssi-yang-kuo (Grande Rumo do Mar do Oeste, isto é, Portugal). Esta revista, pela colaboração que contém, representa, ainda hoje, uma contribuição notável para o conhecimento da história de Macau.
Ora, foi na referida publicação que em sucessivos artigos, subordinados ao título de «Subsídios para o Estudo do Dialecto de Macau», o autor, quer com a inserção de textos apropriados, que lhe eram enviados do território do Extremo-Oriente, quer com notas esclarecedoras, empresta o maior desenvolvimento à análise do dialecto de Macau. Apesar de outros trabalhos publicados posteriormente, os artigos assinados por João Feliciano Marques Pereira são indispensáveis para o conhecimento da língua de Macau, pelo menos numa fase da sua evolução histórica.
Ultimamente a Dr.ª Graciete Nogueira Batalha, professora no Liceu Infante D. Henrique e residente no território há longos anos, tem-se consagrado afincadamente à prospecção do dialecto com a publicação de numerosos e valiosos trabalhos.
Finalmente um escritor macaense, José dos Santos Ferreira, deu à luz uma série de obras em que reconstitui com toda a fidelidade a língua de Macau.
Além de referências esparsas em outras obras são estes os principais elementos que se podem consultar sobre um dos dialectos mais característicos e originais da língua nacional.
Como acontece em todas as outras estruturas linguísticas o dialecto de Macau, língua macaísta, ou ainda mais vulgarmente patoá (do francês patois) tem sofrido uma evolução, mais notória no actual século. Graças a vários factores e, nomeadamente, uma maior aproximação com a Metrópole e à acção dos metropolitanos, só restam alguns traços fundamentais do antigo crioulo, tanto na fonética, como na morfologia. Além disso, é actualmente falado por um número mais reduzido de macaenses.
De facto, os textos publicados na revista Ta-ssi-yangkuo revelam-nos uma linguagem muito mais distante da do nosso tempo e, por vezes, incompreensível, com o emprego de um vocabulário estritamente macaense. Deve ainda notar-se, como vimos atrás, que o dialecto chegou a ter expressão literária.
Como já foi notado, a língua praticada em Macau já não pode merecer a designação de dialecto. É antes um falar próprio, com características que não são exclusivamente de Macau e se revelam ainda no português das nossas antigas províncias ultramarinas e, naturalmente, no Brasil.
As influências que sofreu a língua de Macau são certamente de diversas origens, representando os diversos grupos sociais que foram constituindo a população do território nas suas relações com os povos vizinhos, numa área geográfica bem determinada.
Assim, como teremos ocasião de apreciar adiante, muitos vocábulos originais das línguas malaias foram introduzidos desde o início da fixação dos Portugueses no século XVI na pequena península chinesa. Por um lado, segundo a versão dos historiadores, os colonos portugueses ligaram-se com mulheres da Malásia e, por outro lado, os macaenses tiveram sempre contactos muito frequentes com a Malásia. Foi da cidade de Malaca que partiram os primeiros navegadores e comerciantes com destino aos mares da China. Do mesmo modo, e por motivo das relações mútuas, o português influiu nas línguas da Malásia que conservam bastantes vocábulos de origem lusitana.
Além do malaio, foram adaptados pelos habitantes de Macau termos do canarim ou língua de Goa, porque, como se sabe, a colónia dependeu administrativamente, durante muito tempo, do governo da Índia. A língua espanhola também deixou aqui alguns vestígios pela proximidade das Filipinas, onde até ao fim do século passado dominaram os Castelhanos.
Todavia, uma grande parte dos elementos lexicais e ainda outras formas gramaticais provêm do chinês, o que nada nos pode surpreender, porque a etnia propriamente macaense representa hoje uma percentagem mínima, cerca de três por cento, da população chinesa que em ondas sucessivas, e principalmente depois da segunda guerra mundial, tem invadido o território e nele se conservou com os seus usos e costumes.
De resto, os Chineses de Macau distinguem claramente entre o significado dos termos Chông Kwó Kian, Sai Yeóng Iân e Ou-Mun-Iân, isto é, gente de Portugal, (metropolitanos) e «gente de Macau» (Macaenses). Também na linguagem corrente do território, quando se fala do «filho de Macau» ou «filho da terra», pretende-se apenas aludir ao macaense genuíno, ou seja o descendente de portugueses, nascido em Macau, embora nele se misturassem os sangues chinês, malaio, indiano, javanês ou mesmo filipino, os mestiços, como são designados os indivíduos destas proveniências, sem quaisquer complexos.
Tanto o filho de Macau como o chinês se consideram um ao outro como estrangeiros. Mas se um autêntico chinês entrou no grémio da Igreja Católica, adquiriu a nossa língua e assimilou a nossa identidade, passa a ser considerado como um verdadeiro macaense.
De uma maneira geral ― é ainda outro aspecto a considerar na língua de Macau ― nota-se uma ausência quase completa de vocábulos relacionados com a agricultura e mesmo com a horticultura. Evidentemente não se trata de um povo de lavradores ― o pequeno solo de Macau não o permitia ― mas de gente empregada no funcionalismo de todos os graus, ou, quando muito, em actividades que se designam como terciárias. Portanto, o léxico macaense revela uma influência culta. São, no entanto, muito abundantes os termos referentes à culinária em que participa um receituário não só português mas também chinês, malaio e indiano.
Na fase do século passado, segundo a análise de João Feliciano Marques Pereira, a língua de Macau apresentava-se sob três formas que se podiam assim distinguir: 1) o macaísta cerrado ou macaísta puro, que era, sem dúvida, o mais interessante, no ponto de vista filológico, essencialmente falado pelas classes populares; 2) O macaísta que se aproximava do português corrente, usado pelas famílias de maior nível social e em contactos frequentes com os recém-vindos da Metrópole; 3) O macaísta falado pelos Chineses 53. Nos últimos tempos, a acrescentar às influências que acima citámos e são as mais antigas, temos de notar as da língua inglesa, dada a proximidade de Hong Kong e das mais variadas dependências, sobretudo comerciais, de Macau daquela colónia britânica. Ainda hoje nos surpreende o facto de que a segunda língua praticada em Macau, depois do chinês, seja o inglês e não o português. Pode dizer-se, sem exagero, que a nossa língua só é usada em Macau nos actos administrativos e por funcionários macaenses ou recém-vindos da Metrópole e mais raramente por comerciantes ou outras pessoas, apesar dos grandes esforços empreendidos ultimamente pelo Governo para expandir e valorizar a língua lusitana.
Um dos aspectos mais significativos da língua de Macau, como de resto acontece com outros crioulos portugueses e com a língua insular, é a conservação de termos arcaicos que caíram em desuso no português corrente. Citemos alguns de maior expressividade: «Ade» por «adem» do português antigo pato-real; «afião», igualmente do português antigo «anfião», do árabe «afium», nome do ópio extraído da papoula; «ama», criada, serviçal doméstica; «amestê» por há mister; «asinha» com o sentido de depressa; «autochina», nome de teatro chinês tradicional; «botar», deitar; «botica», farmácia; «bredo», significando hortaliça; «bugio», macaco; «cachorro», cão; «cafre», negro africano; «carreta», carro pequeno; «chunambo», cal de conchas de ostras; «obreiro», artífice de cobre; «cuscus», pão ou bolo cozido em vapor de água; «cuspidor», escarrador; «de ficada», acção de ficar ou de se conservar num lugar; «figo» de banana; «papear», conversar, falar português, papear; «pramor», por amor, por causa de; «mariscar», vocábulo muito usado pelos nossos clássicos no sentido de comer mariscos; «mercê», graças, mercê de; «tem mercê», tem direito; «mezinhas», remédios; «mofina», triste, infeliz.
Mas, como acima dissemos, é, porém, o malaio e depois o chinês que se tornam a fonte mais abundante, como é natural, do léxico macaense. Não provém somente do contacto secular entre os Macaenses e estes dois povos, mas ainda um grande número de vocábulos designam objectos que só se encontram em Macau. Citaremos das línguas malaias aqueles de uso mais corrente, aditando, quando possível, a sua origem: 
«Achar», conserva; «baju», casaquinho; «balechão», tempero, do malaio «balachan»; «bilimbi», fruto, de «balimbing»; «cachipe», avarento, de «kachip»; «cacus», latrina; «cancom», espécie de couve, de «kang kong»; «catiaca», cheiro de sovacos, de «ketiak»; «chareta» ou «xareta», colher, nádegas, de «chiratta»; «chilicate», alicate, de «chelikati»; «choler», tocar com os dedos, de «cholek»; «chubi», ou «chubir», beliscar, dar beliscões, de «chubit»; «chupa», medida, de «chupak»; «copo-copo», borboleta, de «kupu-kupu»; «cudum», indivíduo baixo, de «kudong»; «curum», espécie de cesto, de «kurong»; «cutão», corpete, de «kutang»; «daiom» ou «daiong», um pau com feitio de remo com que se mexe a «alúa», um doce fabricado em Macau, de «dayong», remo; «dodol», doce; «estrica», ferro de engomar, de «istrika»; «gambel», substância para mascar, de «gambir»; «godão», armazém nos baixos de uma casa, de «gudang»; «gunde», saco pequeno, de «guntil»; «jaca», fruto de «chakka»; «jamboa», fruta; «jangom», milho, maçaroca de milho, de «jagong»; «lacassá», sopa, de «laksa»; «lichim», escorregadio; «mangostão», fruto, de «mangistan»; «maz», peso de 1666 gramas; «mongus» e «murum», triste; «ná», interjeição, com o sentido de «deixa-me»; «onde-onde», bolinho; «paço», recipiente de barro, de «pasu» e «paço-buião», boião de barro grosseiro, de «pasu-buyong»; «pala-palã», de par em par; «parão», facalhão, de «parang»; «pico», peso equivalente a 100 cates, ou seja aproximadamente 6100 quilos; «pipis», bolinhos; «pulu», arroz; «rota», espécie de cana fina de junco, de «rotang»; «saião», pena, desgosto, saudade, de «sayang»; «sambal», compota; «sanco», escarrador, de «sangku»; «santã», leite de coco; «sapão», madeira, de «sapang»; «sapeca», moeda, de «sapaku»; «saraça», mantilha, de «sarásah»; «sará saru», pesado, de «sarat»; «savan», doença, de «sawan»; «sipute», caracol; «tael», 16.ª parte do cate. (...)
Excerto do capítulo "A Língua de Macau" in A Influência da Cultura Portuguesa em Macau, de Rafael Ávila de Azevedo. Edição: Inst. Cultura e Língua Portuguesa, 1984.

quarta-feira, 3 de outubro de 2018

A influência da cultura portuguesa em Macau

Da autoria de Rafael Ávila de Azevedo, "A influência da cultura portuguesa em Macau" é uma edição de 1984 do Ministério da Educação e Instituto de Cultura e Língua Portuguesa. 
Macau tem sido há séculos um ponto avançado de Irradiação da cultura do Ocidente em terras orientais. Diversos factores, porém, têm dificultado e diminuído o uso da língua portuguesa pela população da cidade, apesar de porfiados esforços empenhados nesse objectivo. Gerou-se com o andar do tempos no entanto, um dialecto crioulo de raiz portuguesa que é expressão significativa da nossa presensa histórica no velho empório quinhentista. O encontro de civilizações é ali uma realidade perene.
Ao longo de 137 páginas o autor aborda temas como o ensino das ordens religiosas (jesuítas, agostinhos, dominicanos, franciscanos e claristas), a presença de Camões em Macau, a literatura de língua portuguesa,  a arquitectura portuguesa, o jornalismo, os escritores do século 19, o ensino das congregações, e a acção cultural do liceu de Macau. Em anexo inclui-se uma "antologia de autores macaenses".
Alguns excertos do livro:
(...) Entretanto funcionou em Macau uma Escola das Primeiras Letras, regida primeiramente por Alexandre António Pereira (1774-1822) e, em seguida, por Camilo de Lélis de Sousa (1804-1882). Como o seu próprio nome indicava, o currículo do estabelecimento não ia além de «ler, escrever e contar», instrução que no tempo se julgava suficiente para os Macaenses. Evidentemente, como vimos atrás, a língua portuguesa não se notabilizou pela sua pureza. Era a «língua de Macau», «língua macaísta» ou «patoá», uma espécie de crioulo, com três séculos de existência, ainda falada pelas famílias mais distintas de Macau no século passado. Como o ensino não progredisse, foi o próprio Senado, a quem Macau deveu em grande parte a sua autonomia administrativa, que se julgou com a obrigação de «promover a educação pública», alegando já o motivo político de «cimentar as instituições liberais». Para o efeito o Senado reuniu várias vezes, mas os seus esforços não foram coroados de êxito porque não se encontravam professores idóneos. Em Portugal, o ministro da Marinha e do Ultramar, Joaquim José Falcão, tinha criado em todas as possessões ultramarinas as escolas principais de instrução primária. Existia ainda uma doação do inglês James Matheson, no valor de cinco mil patacas, que o Senado deliberou aplicar nas despesas do funcionamento de um plano de educação. O Padre Jorge António Lopes da Silva (1817-1870) foi assim nomeado director e mestre da Escola Principal (1847) que, no currículo adoptado em Macau, compreendia as primeiras letras do ensino primário, o ensino de português e ainda o francês e o inglês. O Padre Jorge da Silva, dotado de predicados pedagógicos de zelo e assiduidade, conservou-se no seu cargo até 1853, sendo substituído, no ano seguinte, pelo Padre Vitorino José de Sousa Almeida que ministrava o ensino do português e do latim. Juntaram-se-lhe outros dois professores: um de primeiras letras e outro de francês e de inglês. A escola desempenhou um papel de relevo na instrução da juventude macaense pois era frequentada por mais de trezentos alunos. (...)
Nota: em breve publicarei um excerto do mesmo livro e autor relativo ao patuá.

quinta-feira, 6 de setembro de 2018

“Úi di Galánti”, o doce linguajar de Carlos Coelho

“Néu-Néu” morreu no passado mês de Janeiro, mas nem por isso deixa de influenciar a comunidade macaense. Os textos que ficaram na memória dos macaenses foram recolhidos pelo Instituto Internacional de Macau e vão ser publicados para que o patuá não morra. O lançamento do livro “Úi di Galánti” acontece a 12 de Setembro, dia em que o actor faria 65 anos.
Foi no passado dia 19 de Janeiro que o professor e actor macaense Carlos Coelho morreu. O patuá ficou sem o seu “Néu-Néu”, um dos que mais preservaram este crioulo de base portuguesa. Para a posteridade ficaram os textos publicados pelo actor no Facebook e também os artigos publicados no portal do Partido Comes e Bebes, um grupo dedicado a manter a comunicação entre os portugueses de Macau. Para que não se percam na volatilidade da internet, o Instituto Internacional de Macau (IIM) recolheu os melhores escritos de Carlos Coelho e vai agora publicá-los num livro intitulado “Úi di Galánti”, que em português significa “muito extraordinário”. Esta compilação de textos de Carlos Coelho é lançada no Jardim de infância D. José da Costa Nunes, pelas 18 horas do dia 12 de Setembro, aproveitando o dia em que o homenageado faria 65 anos. Além do lançamento do livro, haverá ainda tempo para a visualização de um vídeo onde foram seleccionados alguns dos melhores momentos teatrais de “Néu-Néu”, recolhidos durante a sua participação em espectáculos da companhia Dóci Papiaçám di Macau. (...)
No livro agora editado com o apoio da Fundação Macau vão constar textos, todos eles em patuá, com algumas das tiradas mais memoráveis de Carlos Coelho, contando com o jargão menos próprio utilizado muitas vezes em ambiente descontraído entre a comunidade macaense, explica o responsável do IIM. “Será um reflexo do patuá entre os macaenses”, sublinha. Aqui, é também o crioulo macaense de base portuguesa que está em causa: “Este livro é também uma maneira de manter o patuá vivo. O público-alvo são as pessoas que ainda dominam o patuá, mas também queremos dar a conhecer o seu ‘doce linguajar’ a quem não o conhece. Queremos manter viva essa identidade”.
Nascido em Macau em 1953, Carlos Coelho, que era conhecido por ser um dos poucos falantes fluentes do patuá em Macau, fazia questão de o utilizar no dia-a-dia. Notabilizou-se também como professor do ensino básico e como membro de várias organizações macaenses, promovendo, ao longo da vida, encontros entre a comunidade macaense. Como actor, Carlos Coelho trabalhou no grupo “Dóci Papiaçam di Macau” durante a década de 1990. (...)
in Ponto Final, 4.9.2018

terça-feira, 20 de fevereiro de 2018

"O clu-clu no áno novo china"

Pa tudo nôsso amigo china-china, festa di ilôtro-sua Áno-Novo (Sân Nin) sã festa más grándi qui têm. Perto-perto chegá nin sám-sáp mán, , ilôtro Iôgo quelê ocupado, virá-vai, virá-vêm, ramendá barata doda ta corê, ánsia prepará tudo ancuza pa intrá áno. Quim ta devê sapeca pa gente, têm-qui azinha fazê paga; matá-morê tamêm têm-qui pagá. Si nunca, gente Iôgo batê porta, sarneá, pedí pagá cónta. Qui fichá na quarto, qui encafuá na cuzinha, pulá di janela sai vai rua, tamêm nádi iscapá. China Iôgo corê trás persiguí pagá cónta.
China-china costumado na roda di áno misquinhá, popá tudo qui pôde, pa chegá áno-novo ficá mám largo, isgui-chá sapeca pa comprá ancuza qui precisá co laia-laia istravagáncia. Gente qui têm tánto sapeca Iô comprá rópa co sapato novo pa onçôm usá; Iô comprá tamêm pa tudo su catravada. Quim têm pôço, sã têm-qui contentá co unga par di sapato novo, chinela co tuália di lavá rosto, tamêm novo. Ancuza qui nom-pôde faltá sã papê-vemêlo dorado pa chapá na porta-rua, papê-vemêlo pa chuchú sapeca fazê lai si, paochông co abolô inchido di laia-laia comezáina pa fazê bóca sabroso. Lôgo têm dóci t'óng lin chi, t'óng ling ngao, t'óng ma t'á i, t'óng keong, t'óng ié si, t'óng câm cát, t'óng tông kuá, co unga porçám di rabusénga fazido derdezido pa acunga quánto dia. Ch'in-tôi, tai-lóng-kou co t'óng ván tamêm lôgo têm.
Faltá dôs-trêz diz pa chegá áno-novo, tudo casa-casa, na vánda di dentro, Iôgo fica limpo-assiado. Siara-siara cavá lavá, espaná casa, sã Iôgo corê bazar comprá laia-laia fula fresco co quánto pê di tai cat-chai semeado na vaso, pa cartá vai casa orná lugar. Hóme-hóme Iôgo ocupado fichá cónta di botica, cavá ta corê vai buscá pê pa jugá p'ai-kao, t'in-kao, ma-cheoc.
Na nin sám mán, perto chegá ónzi-ora, tudo cabéça di família Iôgo têm na casa co ilôtro-sua catravada pa abrí áno. Cavá quimá paochông qui insurdecê pau, insurdecê pedra, ilôtro Iôgo sandê pivête, unga-unga na casa seguí trás di pai-mai, chacha co avô-công, ajoeliá na chám batê cabéça. Na diánti di san-t'ói, Iôgo pedí tudo qui sã di más bom; Iôgo sacudí mufinaze vai Ióngi, chomá bom-sórti vêm bafezá gente di casa, trazê filicidade, saúde, vida cumprido. Cavá, pai co mai, chacha, vovô lôgo dá lai si pa tudo filo-filo, nêto-nêto, ôtro quiança-quiança co a-sám, a-mui di casa.
Na dia qui áno-nôvo começá, na casa tudo têm-qui comê chái, ninguim pôde rufá carniça. Sã dia qui sômente gente di família têm na casa pa comê. Chega dôs di lua, tudo laia di bom-bom petisquéra lôgo vêm mésa, co galinha, áde, pato-grándi, leitám assado, pa casa intéro co visita comê qui ravirá. Áno-novo começá, tudo gente têm-qui isquecê consumiçám, tirá ancuza triste di cabéça; nom-pôde boquizá ancuza mufino, nom-pôde pegá vassóra varê chám. N'acunga quánto dia di festa, tudo têm-qui mostrá bom génio, nom-pôde reva; sã sómente divertí, pandegá pa alegrá vida.
Nôs quelora quiança - têm cincoénta-fóra áno passado - nom-pôde más di contente olá chegá Áno-Novo-China. Pa nôs tudo qui vivo na Macau, costumado co festa di china-china, tirá nôsso sánto Natal, festa qui nôs más gostá sã Áno-Novo-China. Qui-fôi? Sá quánto dia a-fio di pândega, arvirice co um-chinho sapeca na bólsa. Têm ancuza pa comê-bebê qui istonteá, têm lai si pa recebê. Tudo escola-escola fichado, nancassá vai escola; nunca sã dia sánto, nancassá vai missa. Cavá iscurecê, pôde intrá casa um-chinho tárdi, pramicedo pôde lagatiá na cáma más tánto ora qui mamá nádi rabujá, chacha nádi gurunhá. Sá divera, qui sabroso!
Qualunga más sim-vegónha qui ôtro, nôs tudo quiança-quiança lôgo corê rua buscá gente conhicido. Olá ilôtro, nôs lôgo azinha-azinha chapá mám, falá kông-hei, fat-ch'ói, co ánsia di achá lai si qui china-china nunca misco dá. Cási nom-têm sôk-sôk, t'ai-t'ai co pó-pó qui nádi dá. Si algunga di ilôtro finzí alônço, nom-quêro sai mám tirá /a/s/vêm fora, nôs, endiaborado, lôgo boquizá ancuza qui ilôtro ui-di reva uví; cavá boquizá, sã botá fuzí. Cadunga lai si Iôgo têm sômente unga dez-avo ó vinte-avo; tamêm sã pa nôs ficá contente. Únde têm agora assi bom. lai si grándi-grándi co dez, vinte, um-cento pataca? Unga dia, unga china-rico amigo di iou-sua máno, já virá mám dá lai si pa iou, co nota di unga pataca capido na dentro. Iou pulá di contente, faltá um-chinho fazê êle cai di caréta pa chám. Bólsa cavá inchido di lai si, nôs sã lôgo capí sapeca vêm fora, pinchá papê-vemêlo vazío na chám, cavá vai ténda na esquina di rua comprá um-cento guloséma comê. Co vinte-avo na-más, já pôde comprá unga porçám di dóci. Dentro di ténda, intrementes unga ta conversá co china, otrunga lôgo sai mám ligéro tasquinhá kuá chi di saco, fazê bólsa ficá quelê pesado.
Otróra - áno trinta, trinta-fóra - na cinco dia di festa di Áno-Novo-China, na difrente bocarám di rua, qui na perto di parede, qui na riva di valéta, sã lôgo olá mésa di "clu clu" qui fazê cidádi divera animado. Têm bánca qui sã di cúli di pussá caréta, têm bánca qui sã di quiado-quiado di culau, china di cartá pinga vendê van-tan-min, co fó-kei di loja-loja. llôtro costumado juntá ráncho, mará vaca pa abrí unga porçám di bánca di "clu clu" na rua. Pagá trêz-quatro pataca na-más, já pôde achá unga licênça pa abrí unga bánca.
"Clu clu" antigo sã ramendá "cus-sec" di agora; nom-têm "grándi" co "piquinino", nom-têm trêz dado di mesmo laia; maz têm tudo ôtro parabiça. Cadunga mésa sã fêto co unga tábu grándi, largura di dôs braço abrido, co tudo ancuza bem-fêto pa jugá. Tábu pintado laia-laia cor, sã lôgo ficá na riva di dôs bánco fino-cumprido ó na riva di quatro pê marado co fio-saco, qui pôde abrí-fichá. Na cabéça di mésa, china di "clu clu" lôgo empê, costa virado pa parede, ôlo vivo tentá mésa. Unga quinhám di su sapeca-capital lôgo têm na riva di mésa, pa tudo gente olá; otrunga quinhám lôgo guardado na su bólsa. Si êle azarénto perdê tudo qui têm na fora, azinha lôgo gavartá bólsa tirá más sapeca; têm ora, êle lôgo falá: "Olá, sã assi tánto-ia". Cavá, sã ta cartá su catá-cutí, levantá fero vai buscá bocarám qui têm más sórti.
Cadunga bánca têm unga pire co trêz dado, co unga chaminica grándi di lóiça pa cubrí dado. Chegá anôte, cadunga bánca têm dôs candia di petrólio na dôs cánto di tábu pa lumiá mésa; sisã loja, lôgo têm lámpada ilétrico. Cavá cubrí dado co chaminica, banquéro lôgo erguí mám alto-alto chocalhá dado, fazê som "clu, clu, clu", chomá gente jugá. Nómi "clu clu" sã já vêm di som di dado chocalhado na chaminica. Na tudo bánca sã lôgo olá chonto di gente intretido jugá. Quelora olá nôsso gente vêm perto, china di bánca Iô começá su ladinha: "loga ioga! Nho-nhónha, nhu-nhum, ioga, ioga! Têm muto gánha, nom-têm perde! Ioga, ioga!" Tudo cavá botá sapeca na mésa pa jugá, china lôgo falá: "Ábli!" Ramatá falá "ábli", êle ta erguí chaminica pa damostrá qui laia dado sai. Si sai áz, dúqui, terna, sã ta uví êle falá na su portoguêz torto-ravirado: "Ássi, lúqui, tiléno; sêsse punto!" Cavá istendê braço pa azinha-azinha raspá tudo sapeca qui nunca comprá dado que já sai, êle lôgo vagar-vagar pagá gente qui já ganhá. Tudo pagado, êle torná vêm co lenga-lenga "ioga, ioga".
Nôs, quiança-quiança, calado-calado, chipido na unga cánto, tamêm contente jugá quánto cén. Unga pataca nota, têm unga pataca co quarénta avo prata; dez avo prata têm vinte cén. Sã assi qui nôs, co dôs pataca na-más, pôde ficá intretido oras-i-ora jugá. Quelora bánca começá ficá inchido di gente-grándi, china nádi fazê cerimónia, lôgo azinha zavaná co nôs, quiança-quiança. Iou têm dôs amigo - unga máno co unga irmám - divera arviro. Unga anôte, quelora china di bánca ta sacudí nôs vai, pa dá lugar pa gente-grándi, nôs tudo azinha ficá preparado ta sai. Maz, na ora di vai, acunga dôs malándro subí génio, cadacê pegá na unga candia di petrólio cartá fuzi, dessá mésa ficá iscuro como tinta. Qui zaragata qui já aranjá! China di "clu clu" sabe ilôtro sã quim, dia siguinte pramicedo já vai batê porta di su casa, quessá co su pai-mai. Acunga dôs diabo cavá panhá treméndo sova, já ficá castigo na casa pa quánto dia.
Tánto gente di Macau quelê gostá jugá "clu clu". Têm quánto nhu-nhum co nho-nhónha sã divera capaz jugá. llôtro ingulí comê, azinha ta corê rua buscá "clu clu" jugá, ariscá sórti, isquecê pai, isquecê mai. Nho-nhónha más contente comprá trêz "sete" - sete-cavéra (dúqui co quina), sete-pique (áz co séna), sete-gordo (terna co quadra). Nhu-nhum más gostá comprá ponto-ponto (vai di 3 atê 18).
Gente qui jugá "clu clu" más tánto vez sã vai di volta casa raspiáti; pôco vez vai casa co sapeca na bólsa. Na estunga ancuza, iou sintí, "clu clu" sã igual "cussec" di agora. China-china qui abrí bánca têm ora fichá jogatina co bom respondéncia. Pôde ganhá quatro-cinco mil pataca. Olá qui bom; otrora sã quelê tánto sapeca; ilôtro pôde botá caréta co panelám di van-tan-min na unga cánto, pa tánto dia. Maz tamêm, têm ora, disgraçado di banquéro si ta vantú, masquí ôlo vivo, masquí capital fórti, pôde olá su bánca dislizá na águ vai a-pique.
Têm unga dia quatro sodado co rópa militar, cavá isvaziá quánto garafa di ceveza, já juntá ráncho vai unga bánca di Tap Siac jugá fórti-fórti. Nom sabe quelê-môdo ilôtro assi sórti, qui tudo mám ganhá. Únde botá sapeca, sã dado lôgo fazê ilôtro ganhá. A-Pio banquéro, co su quánto sócio, sôr grôsso-grôsso na testa, nom-têm fim di trucá dado, quimá pivête co papê di pagode; assi, tamêm acunga quatro sodado têm pa ganhá. Chegá ora, A-Pio nom-têm más sapeca pa pagá. Coitado! Entregá tábu, bánco, chaminica co tudo catá-cutí pa sodado-sodado. Estunga quánto demónio, di jugador virá ficá banquéro. Qui sabroso! Contente qui contente, boné virado pa lado, mánga aregaçado, ilôtro chocalhá dado co tudo fórça pa sai acunga som "clu, clu, clu", chomá tudo gente qui ta passá vêm jugá. Quelora têm na grándi animaçám, erguí cabéça, dá di cara-a-cara co sargénto di rónda. Santo pai! Priméro ancuza, sã panhá discompostura; cavá, sã uví sargénto dá voz "dréta-volvê, odinário-macha", já vai tudo quatro banquéro "sortista" di Infanteria co tábu, co bánco-bánco na riva di ombro, marchá trás di sargénto di ronda vai quartel.
Sã más ó menos assi Áno-Novo-China co "clu clu" na tempo antigo, na estunga cidádi sossegado qui chomá Macau.
Texto de José dos Santos Ferreira (Adé) - em patuá em 1988.
De seguida o mesmo texto em português.
Ilustração de Victor Marreiros. 1988
Para os nossos amigos chineses, a festa do seu Ano Novo (Sân Nin) é, de todas, a mais importante. Pouco antes da nin sám-sáp mán (noite do último dia do ano lunar), é vê-los em grande azáfama, girando dum lado para outro como baratas doidas, empenhados nos preparativos para celebrar a entrada do novo ano. Quem tem dívidas por saldar não pode deixar de as liquidar a tempo, nem que isso represente pesados sacrifícios. Se o não fizer, pode estar certo de que os credores lhe irão bater à porta e importuná-lo a toda a hora, a pedir a liquidação da dívida. É escusado fechar-se no quarto ou esconder-se na cozinha, é inútil fugir de casa saltando da janela para a rua. Não escapará, pois os credores irão no seu encalço, insistindo que pague a conta.
Os chineses costumam gastar com parcimónia durante o ano, economizando quanto podem, para virem a gastar com prodigalidade à chegada do novo ano em coisas necessárias, assim como em certas extravagâncias. Os abastados compram roupas e calçados novos para seu uso e para o de todos os seus; os que têm pouco contentam-se com um par de sapatos e outro de chinelos novos e uma toalha nova para lavar a cara. Entre outras coisas indispensáveis figuram os papéis encarnados rectangulares com pintas douradas, para aparecerem colados nas portas principais da casa, os sobrescritos encarnados para neles se introduzir o dinheiro de Iai-si, panchões e recipientes de madeira e laca cheinhos de variadas guloseimas para fazer as delícias da boca. Não podem faltar os tradicionais doces t'ónglin chi (sementes de Ioto), t'óng ling ngao (rodelas de raízes de loto), t'óng ma t'ai (coquinhos descascados), t'óng keong (talhadas de gengibre), t'óng ié si (tiras de coco), t'óng cam-cat (laranjinhas), t'óng tông kuá (pedaços de abóbora), etc., e uma porção de pitéus propositadamente confeccionados para aqueles dias, como sejam ch'in tôi (fritura doce), tai Iong kou (pudim seco preparado com a farinha de arroz glutinoso) e t'óng ván (farinha frita, doce).
Uns dois ou três dias antes da chegada do novo ano lunar já os interiores das casas estarão limpinhos. As donas das casas, terminados os trabalhos de limpeza, vão aos mercados comprar variadas flores frescas e uns vasos com tangerineiras para ornamentar as salas. Os homens de negócio, por sua vez, preocupam-se com o fecho das contas, ao mesmo tempo que vão procurando parceiros para partidas de p'ai kao, t'in kao, ma-cheoc.
Na noite nin sám mán, por volta das onze horas, os chefes de famílias costumam estar em casa com a sua prole, para a chamada abertura do ano. Depois da queima de panchões, que chega para ensurdecer pau e pedra, os da casa começam a acender pivetes e, uns atrás de outros, a seguir aos pais, avozinha e vovô, ajoelham no chão para "bater a cabeça". Diante do san t'ói (altar da sala), hão-de pedir tudo o que há do melhor, incluindo o afastamento dos maus ares e a vinda da boa sorte para toda a família, com muita felicidade, saúde e longa vida. Em seguida, os pais, a avozinha, o vovô oferecem Iai-sis a todos os filhos, netos e demais crianças, bem como aos criados.
No 1° dia do novo ano lunar, em casa todos comem chái (comida de vegetarianos); ninguém come carne. É dia em que estão reunidos em casa apenas os membros da família. Só no 2° dia de Lua é que vem para a mesa toda a sorte de boas iguarias, incluindo galinha, pato, ganso, leitão assado, para a casa inteira e os amigos comerem até empanturrar. Iniciado o novo ano, toda a gente relega para o esquecimento as arrelias e afasta da memória pensamentos tristes; ninguém deve proferir palavras de mau agoiro; não se pode pegar na vassoura para varrer o chão. Nesses poucos dias de festa, ninguém pode ter mau génio, há que se divertir e pandegar para alegrar a vida.
Quando éramos petizes - já lá vão mais de 50 anos - ficávamos contentes a não poder mais com a chegada do Ano Novo Chinês. Para nós que vivemos em Macau, habituados às festas tradicionais chinesas, tirando o nosso Santo Natal, a festa de que mais gostávamos era a do Ano Novo Chinês. Porquê? Eram dias seguidos de paródia, traquinices e algum dinheirinho no bolso. Comes e bebes à farta não faltavam e havia lai-sis para receber.. Não precisávamos de ir à escola, porque as escolas estavam fechadas; não sendo dias santificados, à Missa não tínhamos de ir. Ao anoitecer, podíamos recolher a casa um pouco tarde e pela manhã podíamos estar mais tempo na cama; a mamã não raIhava e a avozinha não resmungava. Era, realmente, uma delícia.
Uns mais descarados que outros, nós, os petizes, saíamos para a rua ao encontro de pessoas conhecidas. Ao vê-las, juntávamos as mãos e dizíamos o sacramental kong-hei, fát-ch'ói, desejosos de receber os lai-sis que os chineses distribuíam com prodigalidade. Quase que não havia "tio", mulher casada, velhote ou velhota que os não davam. Se alguém se fizesse de esquecido, esquivando-se de dar, nós, deveras endiabrados, dizíamos coisinhas que os chineses detestam ouvir, desatando depois a fugir. Cada lai-si não continha mais que dez ou vinte avos; era o suficiente para nos alegrar. Nunca era tão bom como agora, verem-se lai-sis rechonchudos de dez, vinte ou mesmo cem patacas. Um dia, certo chinês ricaço, amigo do meu irmão mais velho, deu-me um lai-si contendo uma nota de uma pataca. Pulei de contente, pouco faltando para o fazer tombar do riquexó para o chão. Com as algibeiras recheadas de lai-sis, não perdíamos tempo em retirar deles o dinheiro e deitar para o chão os envelopes encarnados vazios, indo em seguida à primeira tenda da esquina da rua comprar uma porção de guloseimas. Com 20 avos apenas já se podia comprar doces que nunca mais acabavam. Dentro da tenda, enquanto uns conversavam com o homem, outros estendiam rapidamente o braço e surripiavam das sacas expostas mãos-cheias de pevides que pesavam nos bolsos.
Noutros tempos, na década dos 30, durante os cinco dias festivos do Ano Novo Chinês, havia nas diversas esquinas das ruas, quer encostadas à parede, quer sobre os passeios, bancas de "clu-clu" que davam à cidade um aspecto deveras divertido. Havia bancas montadas por cules de riquexó, assim como outras exploradas por criados de restaurantes, vendilhões ambulantes de sopa de fita ou mesmo empregados de estabelecimentos comerciais. Era costume, dentro das respectivas profissões, associarem-se e "fazer vaca", arranjando, assim, capital para a exploração de não poucas bancas nas vias públicas. Cada licença de banca não custava mais que três ou quatro patacas.
O "clu-clu" antigo era semelhante ao "cussec" de agora; não havia as modalidades de "grande" e "pequeno", nem a combinação de três dados iguais, mas havia as restantes modalidades. Cada banca compunha-se de um tabuleiro grande, com a largura de dois braços abertos, e material apropriado. O tabuleiro, pintado a cores, era colocado sobre dois bancos estreitos ou sobre suporte de madeira, flexível, atado com corda fininha. O banqueiro colocava-se em pé à cabeceira da banca, de costas viradas para a parede e com os olhos bem atentos sobre o tabuleiro. O dinheiro do capital encontrava-se, parte em cima da mesa, à vista dos jogadores, e parte guardado nos bolsos. Quando, desfavorecido pela sorte, perdia tudo quanto tinha fora, o homenzinho ou refazia o capital tirando mais dinheiro dos bolsos, ou anunciava: "Pronto! Foi-se tudo; acabou!" Em seguida, levantava ferro com a tralha às costas, indo procurar outro sítio menos azarento.
Toda a banca tinha um pires com três dados e uma tijela de porcelana que servia para cobrir os dados. De noite, a banca era iluminada por um par de candeeiros de petróleo, colocados um em cada lado do tabuleiro, ou por lâmpada eléctrica, tratando-se de lojas. Cobertos os dados com a tijela, o banqueiro pegava nesta e no pires para agitar os dados, fazendo produzir o som "clu, clu, clu", ao mesmo tempo que convidava as pessoas a jogar. Deste som produzido pelos dados derivou a designação de "clu-clu" dada ao jogo. Em todas as bancas havia sempre grupinhos entretidos a jogar. Quando se acercavam não-chineses, era esta a cantilena que se ouvia: "loga, ioga! Siôlas, siôles! Ioga, ioga! Tem muito ganha! Nom tem perde! Ioga, ioga!"
Depois de os jogadores terem colocado na banca o dinheiro das apostas, o homem dizia "Ábli!" Dito isto, erguia a tijela para revelar o resultado da jogada. Se calhava o resultado ser "ás, duque, terno", o banqueiro anunciava no seu português arrevesado: "Ássi, lúqui, tiléno, sêsse punto! "Depois de estendidos os braços com ligeireza para recolher o dinheiro das apostas perdidas, ele começava, pachorrentamente, a pagar as ganhas. Tudo pago, lá recomeçava a cantilena de "ioga, ioga".
Nós, os miúdos, quietinhos num canto da banca, também arriscávamos uns cobres. Uma pataca em nota de Banco correspondia a uma pataca e quarenta avos em moedas de prata; cada moeda de dez avos trocava-se por vinte cobres. Era assim que nós, com apenas duas patacas, podíamos estar horas a fio entretidos a jogar. Porém, à medida que o número de adultos ia engrossando, o banqueiro, sem cerimónia nem perda de tempo, corria connosco. Uma noite, ao sermos corridos, dois companheiros meus mais travessos - eram dois irmãos - cumpriram a ordem, mas, à saída, levaram consigo os dois candeeiros de petróleo, deixando a banca na mais completa escuridão. Provocou-se uma algazarra medonha. O homem do "clu-clu", tendo reconhecido os dois manos, foi na manhã seguinte bater à porta para fazer queixa a seus pais. Os dois diabos apanharam tremenda sova e ficaram em casa de castigo por alguns dias.
Imensa gente de Macau gostava muito do "clu-clu". Havia bastantes homens e senhoras que jogavam mesmo com mestria. Mal acabavam de jantar, lá estavam eles e elas à beira das bancas para arriscarem a sorte, esquecidos de tudo e de todos. As combinações de dados preferidas pelas senhoras eram os três "setes" - sete-caveira (duque equina), sete-pique (ás e sena) sete-gordo (terno e quadra). Os homens gostavam mais de apostar nos pontos (de 3 a 18). No jogo de "clu-clu", o zé-povinho voltava mais vezes "teso" para casa do que com dinheiro no bolso. Quer-me parecer que, neste pormenor, o "clu-clu" em nada difere do "cussec" de agora. Os homens das bancas, a mor parte das vezes, fechavam o negócio com lucro. Este chegava, por vezes, a atingir quatro ou cinco mil patacas, o que, naqueles tempos, era muito dinheiro e dava-lhes para deixarem os seus riquexós ou as panelas de sopa de fita arrumados num canto por algum tempo. Mas também, às vezes, acontecia o inverso, pois não era difícil ver-se uma banca cair em bancarrota, não obstante toda a esperteza dos seus exploradores e a solidez dos respectivos capitais.
Certo dia, quatro soldados fardados, já com umas cervejas a mais no bucho, juntaram-se para jogar numa banca no bairro de Tap Siac, apostando forte. Não se sabe donde lhes vinha a sorte, mas o certo é que ganhavam todas as jogadas. Onde apostavam, onde acertavam. O A-Pio da banca e os seus sócios, suando por todos os poros, trocavam, de volta e meia, os dados, queimavam pivetes e papéis trazidos do pagode, suspirando por uma reviravolta da sorte. Apesar de tudo isso, os soldados continuavam a ganhar. Chegado o momento de não ter mais dinheiro com que pagasse as apostas ganhas, o A-Pio, coitado, lá teve de entregar o tabuleiro, os bancos, mais a tijela e o resto da tralha aos soldados. Estes, de jogadores passaram, então, a banqueiros. Que gozo! Assim, encantados de vida, boné para um lado, mangas arregaçadas, começaram a agitar os dados, fazendo "clu, clu, clu" com estrondosa barulheira e convidando os transeuntes a jogar. E iam já no auge da animação quando, erguendo a cabeça, deram com os olhos na presença do sargento de ronda. Primeiro, a descompostura e, em seguida, à voz de comando "direita-volver, ordinário-marche!", lá foram os quatro "felizardos" banqueiros da Infantaria com o tabuleiro e os bancos ao ombro, atrás do sargento de ronda a caminho do quartel.
Eram assim, pouco mais ou menos, o Ano Novo Chinês e o "clu-clu" daqueles tempos, nesta pacata cidade de Macau.

terça-feira, 13 de fevereiro de 2018

"Macau - Sa Carnaval"


Brincando ao Carnaval: Macau, 1925

Versão portuguesa de “Macau - Sa Carnaval” (“O Carnaval de Macau”), da autoria de Adé:

A nossa Avozinha, noutros tempos,
Mascarava-se em todos os carnavais.
Em grupinhos, com senhoras conhecidas,
Deixando os maridinhos em casa,
Elas adoravam sair à rua mascaradas,
Perfiladas atrás da tuna musical
Para fazer toda a casta de diabruras
E dizer coisas com imensa piada.
Recordar o carnaval doutros tempos
É para a Avozinha sentir saudades.
Carnaval era tempo de ladú,
Massa guisada e pudim de nabo.
Havia hora para cantar e dançar
E hora para os mascarados divertirem a gente.
Ninguém dava cavaco,
Quando eles se metiam com as pessoas.
Um mês antes do entrudo
A paródia começava em vários lugares.
Os mascarados, acompanhados da tuna,
ʻAssaltavamʼ casas de amigos,
Para dançar, cantar e alegrar o coração.
Os donos da casa não se preocupavam...
Os ʻassaltantesʼ que iam para se divertir
Levavam consigo ceia farta.
Chegado o carnaval, o Clube de Macau,
Clube dos Sargentos e Grémio Militar
Davam animados bailes.
A gentinha dançava até doer os pés,
Desde a noitinha até ao amanhecer.
Chegada a hora, serviam canja de galinha
E uma porção de iguarias,
Que todos comiam até se fartar.
Depois do carnaval, havia comédias
No dialecto antigo de Macau,
Para todos rirem às bandeiras despregadas.
Passados uns dias, vinha a ʻmicaremeʼ,
Com mais bailaricos nos clubes.
A tuna tornava a sair
Com os mascarados a fazer-lhe cauda,
Para ʻassaltarʼ mais alguns casarões.
Agora, o carnaval, chegada a hora
Vem e depressa se vai embora,
Ninguém sentindo a sua presença.
Gente entretida com a política
Não tem pachorra para se mascarar.
Para se verem por aí bobos,
Com a boca cheia de baboseiras,
Não é preciso esperar pelo carnaval.”

Hoje em dia, as festas de Carnaval (assaltos/desfiles/bailes) já não são nada do que foram, embora ainda se realizem. A sua importância foi-se perdendo ao longo da segunda metade do século XX.

José Silveira Machado, no livro “Macau na Memória do Tempo”, (2002) escreve a este propósito:

“Em épocas passadas, Macau ria a bandeiras despregadas. Vestia-se de fantasia e andava pelas ruas, cantando e galhofando, palhaçando, em gestos e atitudes de truão. Os sons alegres das tunas e os risos do rapazio explodiam em melodias ensaiadas durante muitas semanas e em gargalhadas estridentes, provocadas muitas vezes pela visão das máscaras, engraçadas e originais”.

domingo, 21 de janeiro de 2018

Carlos Coelho: 1953-2018

"Quim nunca si cunhêce Macau na tempo antigo, senti qui nádi pódi sábi qui laia di terra sã Macau." Carlos Coelho
Texto e foto: Hoje Macau 22.01.2018
O macaense e professor Carlos Manuel Coelho morreu na sexta-feira, com 64 anos, após se ter sentido mal em casa. Conhecido pelo talento com que falava patuá, a devoção à Igreja e as qualidades culinárias, os membros da comunidade macaense, ouvidos pelo HM, recordam o homem "carinhoso", "afável", bem-disposto. Filho de pai português e mãe chinesa, Carlos Coelho nasceu em Macau, no ano de 1953, e seria no território que passaria toda a infância e adolescência. Enquanto professor, tendo leccionado na antiga Escola Luso-Chinesa, que ficava situada junto ao Jardim Vasco da Gama, Carlos Coelho integrou um dos primeiros grupos de professores do ensino primário de Macau que foram enviados para Portugal, com o objectivo de terem formação pedagógica. Isto numa altura em que havia falta de quadros qualificados para ensinar português, como recorda o médico e amigo Fernando Gomes, que leccionou a tempo parcial sobre a orientação de Carlos Coelho. "Apesar dele ser cerca de 13 ou 15 anos mais velho do que eu, sempre nos demos muito bem, enquanto mantivemos um contacto próximo. Eu na altura também dava aulas em part-time de português na Escola Luso-Chinesa, onde ele ensinava, e recordo que as orientações que ele nos dava eram muito importantes", afirmou Fernando Gomes, ontem, ao HM. "Era muito bom professor. E na altura foi um dos primeiros professores locais que foram enviadas para Portugal com o objectivo de aprenderem a pedagogia para ensinar as crianças", recorda. Memória semelhante foi partilhada por Rita Santos, presidente do Conselho Regional da Ásia e Oceânia do Conselho das Comunidades Portuguesas: "Era uma pessoa muito atenciosa, e sabia-se que os alunos gostavam muito dele e das suas aulas", disse, ao HM.
Característica igualmente marcante de Carlos Coelho era a forma como conseguia expressar-se em patuá, com uma grande fluência. Foi também por este motivo que o professor foi um dos escolhidos para recitar na reabertura do Teatro D. Pedro V, em Patuá, durante a visita do então presidente português Mário Soares, em Outubro de 1993. Também nesse ano que surge o grupo de teatro Dóci Papiaçám, com vários fundadores, como Mi-guel de Senna Fernandes, o próprio Fernando Gomes, entre outros. "Quando surgiram os Dóci Pa-piacám, ele era o actor principal e ficou conhecido como uma pessoa com grande talento para o teatro. Recordo-me que participou durante três ou quatro anos de forma activa nos Dóci Papiacám", contou Fernando Gomes. Uma característica reforçada por Rita Santos: "Contribuiu muito para a preservação do Patuá, que ele gostava muito de falar, depois era simplesmente um actor natural", apontou. Além disso, enquanto membro dos antigos Serviços de Educação, onde estava ligado à área cultural, dedicou-se a dirigir o Rancho Folclórico, português. Ao mesmo tempo, dançava em part-time no restaurante Portas do Sol, no Hotel Lisboa, o então salão de festas da elite português ligada ao Governo.
Com o aproximar da Transferência da Soberania, Carlos Coelho optou por ir para Portugal, mas acabaria por regressar no início dos anos 2000. Antes, foi o principal entrevistado da TVB de Hong Kong, num programa sobre as perspectivas da comunidade portuguesa no pós-transição. Um programa que filmou o professor a deixar Macau, com as lágrimas nos olhos. "Como macaense que era gostava muito de Portugal e era patriótico, apesar de também gostar da China. Quando se mudou de bandeira, ele optou por ir para Portugal. Só que depois, acredito que não se tenha adaptado bem e acabou por regressar", lembra Jorge Fão, presidente da mesa da Assembleia-Geral da APOMAC. No entanto, Fernando Gomes acredita que mudança foi principalmente motivada pelas saudades do território, que amava: "Não acredito que ele tivesse regressado desiludido com Portugal. Ele voltou para a terra onde tinha nascido, crescido e vivido. Também não nos podemos esquecer que do clima de apreensão e incerteza com que se encarava a transição", frisou o amigo. "Regressou quando as coisas já estavam mais estáveis. Acho que foi o amor por Macau que falou mais alto, porque foi algo que ele nunca esqueceu. Em jeito de brincadeira até lhe cheguei a dizer que o amor pela ‘Mátria’ tinha sido maior do que o amor pela Pátria", acrescentou.
Quando regressou a Macau, Carlos Coelho apostou nas suas raízes e abriu um restaurante de comida macaense na zona do NAPE. Um local que ainda hoje é recordado pela qualidade da comida, apesar de ter estado aberto durante um pequeno espaço de tempo. "Era descendente de uma família que tinha muito jeito para a culinária e era por isso que ele também fazia comida muito boa. Era comida macaense e o espaço tinha muito fregueses. Nunca percebi porque fechou", recorda Xeque Hamja, membro da comunidade local.
"Ele era muito pegado à cultura macaense e tentava sempre valorizá-la, além de também valorizar as culturas portuguesa e chinesa. O restaurante oferecia comida macaense com elementos das outras culturas, mas não durou muito tempo", explica Jorge Fão.

Nota do autor do blogue: De acordo com Gonçalo Xavier a mãe de Carlos Coelho era macaense e não chinesa.

terça-feira, 28 de fevereiro de 2017

Olá Bôbo: o carnaval em verso

Transcrição de “Olá Bôbo”, de Adé, na “língu maquista”, o patuá.
Festa de Carnaval em 1939

Olá Bôbo
Cara limpo, cara suzo,
Vestí bôbo tudo iscondê;
Chacha véla lôgo olá
Si pôde jóvi parecê.
Dominó quelora suzo,
Nina-nina sã nádi usá;
Masquí seza Carnaval,
Nho-nhónha nunca sã igual!

Aqui bôbo, olá bôbo,
Ta passá na basso di janela!
Aqui bôbo, olá bôbo,
Tirá máscra pa nôs olá!
Nhónha jóvi, nhónha véla,
Qui capaz vai junto pandegá;
Bôbo tudo sã igual,
Qui muchado, qui donzela,
Vida sã unga Carnaval!

Gente pobre, gente rico,
Vestí bôbo pa divertí;
Chacha certo sabe olá
Si vôs sã vêm pa chicurí.
Tio Chai-Chai co Tico-Tico,
Olá saia mám ta cuçá:
Masquí seza Carnaval,
Hóme-hóme nunca sã igual!

Aqui bôbo, olá bôbo,
Ta passá na basso di janela!
Aqui bôbo, olá bôbo,
Tirá máscra pa nôs olá!
Nhónha jóvi, nhónha véla,
Qui capaz vai junto pandegá;

Bôbo tudo sã igual,
Qui muchado, qui donzela,
Vida sã unga Carnaval!