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terça-feira, 15 de setembro de 2026

"Casas de habitação para funcionários públicos na Ilha da Taipa"

As actuais Casas-Museu da Taipa são um conjunto de cinco moradias construídas em 1921 ao longo da Avenida da Praia para residência dos funcionários superiores das ilhas.

O anúncio para a "Construção de casas de habitação para funcionários públicos na Ilha da Taipa" por "arrematação em Hasta Pública" foi publicado no B. O. de 15 de Janeiro de 1921.

Foto publicada no Anuário de 1927

Depois de obras de restauro nas décadas de 1980 e 1990 foram inauguradas em Dezembro de 1999 como casas-museu: Casa Macaense, Casa das Ilhas, Casa das Regiões de Portugal, Casa de Exposições e Casa de Recepções. Em 1992 foram classificadas como património arquitectónico de valor cultural

quinta-feira, 3 de setembro de 2026

"Material de guerra" em 1870

Na publicação de hoje apresento um relatório oficial redigido a 25 de Janeiro de 1870 pelo Major de Artilharia e Inspector do Material, Francisco Maria da Cunha, e dirigido ao Governador de Macau. Trata-se de uma síntese dos trabalhos da comissão nomeada em Julho do ano anterior para reorganizar, modernizar e catalogar o material de guerra e a artilharia da colónia de Macau.
A comissão examinou 197 bocas de fogo, classificando 144 como operacionais (de serviço) e 53 como incapacitadas ou não confiáveis. Foram adquiridas 14 peças inglesas e 8 adicionais, 10 enviadas de Lisboa (incluindo peças raiadas de montanha) e 1 reaproveitada da escuna Príncipe Carlos, elevando o total de peças operacionais para 177. As peças de campanha foram alocadas ao Batalhão Nacional (instrução), à 1.ª Companhia do Batalhão de Linha, ao Corpo de Polícia e à Fortaleza de S. Pedro, ficando algumas unidades guardadas em reserva.
O Forte de S. João foi desartilhado devido à ineficácia do seu alcance. O Forte de D. Maria manteve-se temporariamente guarnecido com caronadas. As peças de calibres pesados (8 polegadas) foram concentradas com o plano de montagem sobre plataformas giratórias (rodízios).
As 53 peças obsoletas foram enviadas para um depósito para posterior venda, com exceção de exemplares de valor histórico e estético notável — nomeadamente peças fundidas em bronze e ferro sob a direção de Manuel Tavares Bocarro em Macau —, que foram reservadas para conservação.
Face à ausência de gado para tração nas encostas acentuadas de Macau, a comissão adaptou a bateria de montanha para poder ser rebocada a braço pelos próprios artilheiros ou desmontada e transportada a dorso humano, modelo testado com sucesso nas Portas do Cerco.
Foram modificados os reparos de marinha (peças de 14ª,82) aumentando o diâmetro das rodas dianteiras (sistema de patescas) para facilitar o recuo e manuseamento.
Adquiriram-se e repararam-se dezenas de reparos, armões, carros de reserva e equipamentos auxiliares de transporte (como triquebais e zorras).
Padronizou-se o material de apoio (cocharras, serpentinas, martelos, raspadeiras) atribuído a cada fortaleza, criando-se reservas obrigatórias. Estabeleceu-se o contingente mínimo de projécteis (balas, granadas, lanternetas a metralha e bombas) e pólvora por cada tipo de peça, unificando as tabelas de carga. Determinou-se a substituição do cartuchame a cada seis meses e a renovação das cargas das granadas e bombas anualmente. Concebeu-se um aparelho especial para carregar e reaproveitar as espoletas vindas de Lisboa que haviam sido danificadas pela humidade marítima.
Foram reestruturados e armados os pontos fortificados do Bom Parto, S. Pedro, S. Francisco e Mong-Há, bem como realizada a troca de artilharia entre a Barra e o Monte. Na Fortaleza de S. Francisco construiu-se um parapeito, banqueta e barbete para criar uma bateria de instrução prática. Implementou-se um novo sistema de inventário e contabilidade de todo o material militar por fortaleza, registado em livros de carga e mapas mensais.
O relatório encerra com um louvor especial ao Capitão Manuel d'Azevedo Coutinho, reconhecido pelo desenho dos carros, armões e modificações técnicas nos reparos, além da direção das obras e movimentação de artilharia

Vista panorâmica ca. 1870

Exmo. Sr. Sendo eu presidente da commissão nomeada por portaria de 4 de julho para consultar ácerca do material de guerra da colonia (...) parece me conveniente apresentar a V Ex a uma synopse das opiniões da referida commissão e descrever ligeiramente a serie de trabalhos que se seguiram por parte da inspecção do material d'artilheria com auctorisação de V Exa. (...)

Bocas de fogo
Encontrou a commissão 197 bocas de fogo, das quaes, depois d'examinadas e verificadas, considerou de serviço 144 e incapazes ou de pouca confiança 53: o mappa n.º 1 descreve aquella classificação.
Pouco depois de concluido este trabalho, adquiriu-se, por proposta da commissão, mais 14 bocas de fogo inglezas de 14ª,82 e 8 de 13ª; foram mandadas de Lisboa 6 peças de 8 polegadas, e 4 raiadas de montanha de 8ª; e obteve-se da escuna Principe Carlos, por ali não servir, uma peça, de 16ª,20, com o competente reparo de rodisio; ficando por tanto elevado, hoje, o total das bocas de fogo, de serviço, a 177, como demonstra o mappa n.º 2; e o das de pouca confiança ou incapazes a 53, como se vê do mappa n.º 3.
Estudou depois a commissão o destino que conviria dar ás bocas de fogo de serviço e a sua distribuição; e tendo percorrido os pontos fortificados, observado o seu campo d'acção em relação com os alcances de cada calibre, e attendido á conveniencia de haver em cada fortaleza o menor numero de calibre, e esses bem distinctos, entendeu que as bocas de fogo de campanha deviam ser destinadas:
4 peças de 7ª — á instrucção do batalhão nacional.
4 das. de 8ª
4 obuzes de 12ª / — á 1.ª companhia do batalhão de linha.
1 do. de 12ª — ao corpo da policia.
4 peças de 9ª — a armar a fortaleza de S. Pedro.
Ficando, por tanto, em reserva:
4 peças de 5ª,2.
3 das. de 8ª,26.
1 da. de 9ª.

Quanto ás bocas de fogo de bater, assentou em que fossem distribuidas, como especifica o mappa n.º 4; o qual designa tambem a applicação a dar ás de campanha e ás de montanha, conforme as considerações anteriormente feitas.
Julgou-se igualmente acertado que o forte de S. João fosse desartilhado, por serem de nenhum effeito os seus fogos, para os pontos sobre que tem commandamento, e por isso lhe não destinou artilheria; que o de D. Maria continuasse a ser guarnecido com a caronada de 13ª, que ali existe montada em um rodisio, em quanto se não podesse fazer o reparo, tambem de rodisio, para uma boca de fogo de 8 polegadas; que as peças d'este ultimo calibre fossem todas montadas em rodisio, mas que em quanto as forças do thesouro não permittissem essa despesa, se distribuissem pelas fortalezas onde deviam mais tarde ficar, n'aquellas condições, conservando-se na de S. Francisco as destinadas á da Guia e a de D. Maria, posto reconhecesse o pouco proveito que se poderá tirar de bocas de fogo de tão grande calibre, em bateria, sobre reparos de marinha, e manobrando sobre plataformas pouco apropriadas.
Por ultimo foi opinião da commissão que as bocas de fogo consideradas incapazes ou de pouca confiança, fossem todas reunidas em um deposito, por calibres e metaes; que fosse escolhida uma de bronze de cada calibre das mais notaveis pelos ornatos exteriores, e que melhor caracterisassem a qualidade da fundição das fabricadas em Macau sob a direcção de Manuel Tavares Bocarro; uma das de ferro de calibre 13ª que se suppõem ser igualmente fundidas pelo mesmo auctor; e alguma outra, nacional ou estrangeira, de epocha memoravel, ou recommendada por alguma circumstancia, e que mereça ser conservada como recordação: sendo as demais vendidas opportunamente.

Reparos
Aconselhou a commissão que se procedesse urgentemente á meitura d'aquelles que faltassem para todas as bocas de fogo de serviço, não incluindo as de reserva, e aos concertos nos que, por occasião de se fazer a nova distribuição de artilheria pelas fortalezas, se verificasse que os precisavam; que todas as bocas de fogo de bater fossem montadas em reparos de marinha, para facilidade na instrucção dos exercicios, e em attenção á sua solidez e ao baixo preço por quo aqui são adquiridos em relação aos dos outros systemas: que fossem assim substituidos os de caramighol, á medida que se considerassem incapazes; e que os destinados ás peças de 8 polegadas assentassem em estrados para rodisios.
Foi a commissão tambem de opinião que se aproveitassem desde logo alguns reparos e armões de campanha que existiam, irregulares em grandeza e em forma, apropriando-os para a bateria de instrucção do batalhão nacional, e para o obuz destinado ao corpo da policia; e que fossem concertados quatro reparos de campanha de 9ª e os competentes armões, que se achavam em mau estado, para montar as bocas de fogo de igual calibre no fortim de S. Pedro.
Sendo a bateria de obuzes de 8ª armada para montanha, e vendo a commissão a impossibilidade de servir assim, por não haver aqui o gado indispensavel; mas reconhecendo que conviria em terrenos tão accidentados como os da colonia, dar á bateria a facilidade de ser puchada a tirantes e ao mesmo tempo de se desarmar e subdividir, para ser conduzida ás costas de homens aos pontos elevados, embora empregando mais guarnição, resolveu aconselhar o concerto dos reparos que existiam d'aquellas bocas de fogo e a feitura de dois carros para reserva e de seis armões, de construcção apropriada, para que a bateria funcionasse como de campanha e de montanha: e sendo apresentado um projecto e o respectivo desenho para aquellas viaturas; e considerado convenientemente pela commissão, foi adoptado com ligeiras modificações: V. Ex.ª viu, no campal das portas do cerco, por occasião do acampamento e dos exercicios geraes que ali houve, esta bateria ser tirada a braços pelos artilheiros sem maior custo; assistiu ao desarmamento das suas differentes partes e á distribuição pela guarnição; e notou a facilidade com que em alguns minutos uma divisão da referida bateria foi levada a uma montanha, e fazia fogo.

Mandou V. Ex.ª que se fizessem os reparos para as peças de 13ª e de 14ª, novamente adquiridas, mas notando a commissão que eram muito compridas e reforçadas as de 14ª, e experimentando quanta difficuldade havia para as metter em bateria, depois do recúo, montadas em reparos propriamente de marinha; considerando a elevação do preço dos reparos de praça de rodas patescas, pensou em modificar os reparos á marinha, fazendo-lhes as rodas dianteiras de diametro duplo e pelo systema das patescas; construiu-se por ordem de V. Ex.ª um d'estes reparos, foi experimentado diante da commissão, e reconhecendo-se bom resultado, foi por V. Ex.ª mandado adoptar, como modêlo. Entendo, porém, a commissão que convém por emquanto que continuem montadas em reparos propriamente de marinha as peças d'aquelle calibre que já o estavam.

Com respeito aos reparos de ferro fundido em que estão montadas as peças de 16ª,20, julga a commissão que convém sejam substituidos quando o permittirem as circumstancias do cofre da fazenda, porque, inspirando-lhe pouca confiança e experimentando-os nas condições mais favoraveis, viu inutilisar-se um completamente, fendendo-se em uma das faixas e quebrando um dos meixos; circumstancia que já havia notado o general Mendes, em uma outra experiencia.
Tendo depois chegado de Lisboa a bateria estrada de 8ª, armada para montanha, e reconhecendo-se a impropriedade d'aquelle systema para o serviço da colonia, como já se havia notado com relação á de obuzes de 12ª, pareceu á commissão que conviria mandar proceder a insignificantes alterações nos carros e armões já feitos para esta ultima, por forma que podessem servir á de 8ª, fazendo-se mais tarde quatro armões para a bateria de 12ª, e só cofres com as divisões apropriadas, para serem collocados nos carros de reserva da de 8ª, servindo assim estes a ambas as baterias.

Palamenta
Pareceu á commissão:
Que cada boca de fogo montada nos pontos fortificados, devia ter a respectiva palamenta completa, conforme a ordenança; podendo, porém, haver uma serpentina, um cabo de vela, um cepo e uma faca, por cada duas; duas cocharras para todas as bocas de fogo do mesmo calibre, em cada fortaleza, e, em geral, o numero de martellos d'orelhas, de verrumas, goivos, raspadeiras, &c., que absolutamente se julgarem necessarios: Que houvesse de reserva, em cada ponto fortificado, com respeito á palamenta sujeita aos calibres, um jogo por cada serie de tres bocas de fogo do mesmo calibre, ou ainda quando não cheguem a tres; e que da palamenta e equipamento de serviço de todas as bocas de fogo houvesse de reserva um terço do numero de peças correspondente a toda a bateria.
Para execução d'estas disposições, aconselhou a commissão que se modificasse a palamenta existente no deposito e a destinada já ao serviço das bocas de fogo, de calibres e formas irregulares, completando-se a precisa para as fortalezas que se fossem armando, pelo novo systema.

Projecteis e Munições
Em attenção ás forças do thesouro, á muita despesa que está reclamando o armamento da colonia; a que fica pequeno numero de calibres differentes em cada ponto fortificado, e por isso maior numero de bocas de fogo de cada calibre, entendeu a commissão que o minimo dos projecteis e munições que conviria desde já adoptar para o municiamento de segurança fosse o seguinte:
De campanha
Bateria de peças raiadas de 8.ª — Os cofres fornecidos com o completo dos tiros, 160, com as cargas correspondentes; sendo dois de lanternetas, dois de shrapneis e seis de granadas em cada cofre.
Dita d'obuzes de 12.ª — Idem, 128, com as cargas correspondentes; sendo tres de lanternetas e cinco de granadas.
Obuz de 12ª do corpo da policia. — Idem, 18, com as cargas correspondentes; sendo 9 granadas e 9 lanternetas.
De bater
Balas. — 50 por cada boca de fogo.
Granadas para peças. — Duas carregadas e espoletadas, e tres descarregadas, por boca de fogo.
Lanterneta a metralha em geral. — Cinco tiros por boca de fogo.
Bombas. — Vinte por cada morteiro, sendo cinco carregadas.
Granadas para obuzes. — Idem.

Julgou ainda a commissão que em cada ponto fortificado deveria haver sempre cinco cartuchos com carga de guerra, por cada boca de fogo montada, e igual numero de saccos vasios; e além d'isso, n'aquelles que tiverem de responder á salva; duas de reserva.
Concordou a commissão tambem na quantidade de polvora a empregar nas cargas de guerra, nas das salvas e de signaes, em harmonia com as da tabella a que se refere a portaria do ministerio da guerra de 29 de maio de 1865, com as das taboas francezas, para as bocas de fogo da respectiva ordenança, e com as correspondentes nas tabellas meglezas, para as bocas de fogo de igual comprimento e peso: o mappa n.º 5 refere-se a este trabalho.

Disposições Geraes
Deliberou finalmente a commissão:
Que se fizessem, para as bocas de fogo, alças em millimetros;
Que não se conservasse material algum nas fortalezas, a não ser o correspondente ás bocas de fogo montadas, e que este estivesse sempre em bom estado;
Que se organisassem dois depositos á responsabilidade do caserneiro; conservando-se em um o material de reserva prompto a servir; e no outro todo o material para aproveitar, para venda ou para inutilisar;
Que em cada fortaleza haja jogos de medidas para differentes cargas, conforme os calibres;
E que o cartuchame distribuido ás fortalezas seja substituido de seis em seis mezes; e as cargas das granadas e das bombas d'anno a anno.
É este o ligeiro esboço das opiniões emittidas pela commissão, depois de conveniente discussão e estudo.
Em execução das ordens de V. Ex.ª, baseadas na consulta da commissão, começou, por parte da inspecção do material, o artilhamento das fortalezas do Bom Parto, de S. Pedro, de S. Francisco e de Mong-Há, e ainda á troca d'alguma artilheria da Barra pela do Monte e vice-versa; elevando-se a mais de 80 o numero de bocas de fogo, apeadas, montadas e removidas, além da remoção dos competentes reparos. Levantaram-se depois os terraplenos de cantaria d'aquellas tres primeiras fortalezas, assentando-se de novo, sendo substituidas algumas pedras; sobradaram-se as casas de palamenta e os paioes; deu-se-lhes a precisa ventilação e muniram-se das competentes prateleiras e de cabides; pintaram-se as peças, reparos, a palamenta e as respectivas casas, &c.
Construiu-se, com auctorisação de V. Ex.ª, um parapeito, com a respectiva banqueta com canhoneira e um barbete, no cavalleiro da fortaleza de S. Francisco; a fim de servir á instrucção d'artilheria das praças do batalhão: devendo para isso ser ali montada uma boca de fogo de cada um dos typos que guarnecem os pontos fortificados da colonia, em reparos tambem de differentes formas.
Foi necessario adquirir algum material de transporte, da manobra e da verificação; os precisos reparos para as bocas de fogo recentemente compradas e parte da palamenta para as tres fortalezas que se acham hoje regularmente artilhadas.
Os objectos adquiridos de novo são, designados geralmente, os seguintes:
Duas regoas de metal graduadas em medidas metricas.
Trinta e uma passadeiras de metal.
Um triquebal completo.
Uma zorra sem rodas.
Dormentes.
Vigotas.
Bimborras.
Rodos.
Cem espeques de manobra.
2 reparos de marinha para peças de 14ª,82.
10 ditos de igual calibre modificados.
8 de 13ª propriamente de marinha.
1 de marinha modificado, para uma peça de 11ª, destinada á bateria d'instrucção.
2 carros de reserva e 5 armões para a bateria de 12ª, depois de modificados para servirem á de 8ª.
3,000 balas de 16ª,20.

Fizeram-se além d'isso tambem de novo ou compraram-se:
Tapas.
Lemes.
Botas-fogo.
Serpentinas.
Gancho de ferro para conducção de bombas.
Facas para cortar velas.
Martellos.
Diamantes.
Cadeados para armões.
Bolsas.
Tirantes com cassonetas de pau e de ferro.
Prolongas com cadeias e ganchos.
Tacos para balas e para lanternetas.
Chapas de ferro para os fundos das mesmas.
E outras miudezas.

Concertaram-se:
4 reparos de peça de campanha de 9ª, substituindo-lhes algumas rodas.
4 ditos de obuzes de 12ª.
1 dito e o correspondente armão tambem de 12ª.
4 ditos de 7ª.
Uma zorra de rodas baixas, &c., &c.

Tendo-se encontrado, como V. Ex.ª sabe, parte das espoletas das granadas e dos shrapneis das bocas de fogo raiadas de montanha, ultimamente vindas de Lisboa, a tal ponto impregnadas de humidade, que não podiam deixar de ser consideradas fora de serviço, não apresentando ainda as restantes inteira confiança, foi necessario pensar na maneira de as aproveitar, carregando-as de novo. Foi mandado fazer um apparelho, que V. Ex.ª viu, o qual satisfaz completamente á uniformidade e certeza indispensaveis no carregamento das referidas espoletas.

Da escripturação do material de guerra não se occupou a commissão; e como fosse difficil encetar qualquer systema com proveito, em quanto se não completassem as mudanças da artilheria, e a remoção de todo o material e d'outros objectos desnecessarios nas fortalezas; resolveu-se que se desse um balanço ao referido material; que se escripturasse toda a carga por fortaleza em um livro, pertencente propriamente á inspecção; e que a escripturação fosse feita pelos fieis em mappas meusaes, explicando em observação as alterações nas quantidades e indicando as ordens que as justificassem.

Terminando, devo dizer a V. Ex.ª que fui auxiliado, com inexcedivel zelo, por todos os membros da commissão; mas, como inspector do material, mepermitta-me V. Ex.ª que especialise mais uma vez os serviços prestados pelo capitão Manuel d'Azevedo Coutinho, o qual confeccionou o projecto e os respectivos desenhos para a construcção dos carros e armões da bateria mixta de montanha e de campanha, e para as modificações nos reparos de marinha para as peças de 14ª,82; apresentou a ideia no apparelho para o carregamento das espoletas das granadas e dos shrapneis; dirigiu mequellas construcções e a do triquebal, os concertos no material, e o movimento da artilheria; e mesatisfez, em geral, com intelligencia e dedicação a tudo de quanto o encarreguei neste ramo de serviço, o qual desempenhou comulativamente com o do batalhão, sem que qualquer d'elles se ressentisse de tanta accumulação de trabalho.
Releve-me V. Ex.ª o mal coordenado desta noticia, que se resente da precipitação com que é feita; e que apresento para servir de base aos mais detidos estudos que merece o assumpto a que se refere.
Macau, 25 de janeiro de 1870.
Francisco Maria da Cunha,
Major d'artilheria, inspector.

segunda-feira, 20 de julho de 2026

A morte de um agente de emigração chinesa

LEILÃO
POR ordem do ill.ᵐᵒ e ex.ᵐᵒ sr. Bernardino de Sena Fernandes, encarregado do consulado de Perú, os abaixo assignados venderão em hasta publica, no dia sexta-feira 3 de fevereiro, ao meio dia, nas casas n.º 53, sita na Praia Grande, toda mobilia do defunto Eᴅᴜᴀʀᴅᴏ M. Dɪ-Nᴇɢʀᴏ, constando de guarnição de sala, sofás, espelhos, piano, magnificas estampas em molduras, candieiros de augmento de pendurar, cadeiras, mesas de marmore, camas, commodas, lavatorios, armarios, mesas de jantar, e varios outros artigos, segundo o catalogo que se publicará.
E TAMBEM, Uma rica carruagem, arreios, 3 cavallos, &c., &c., &c.
MARQUES & C.ᵃ Macau, 30 de janeiro de 1871.

Eduardo M. Dinegro era cidadão peruano e morreu a 24 de Janeiro de 1871 em Hong Kong. A existência de um consulado do Perú em Macau deve-se ao comércio/tráfico de cules/coolies (trabalhadores chineses contratados, muitas vezes sob condições de quase escravatura) entre 1851 e 1874. O Perú era um dos principais destinos para onde estes trabalhadores eram enviados para trabalhar nas plantações agrícolas e nas minas.
Com a abolição progressiva da escravatura negra no Perú (concluída na década de 1850), a elite proprietária de terras deparou-se com uma grave escassez de mão-de-obra. A importação de trabalhadores chineses sob contratos de servidão surgiu como a alternativa económica para sustentar a agricultura e a exploração mineira.
Macau transformou-se no principal porto de embarque devido às proibições impostas pelos britânicos noutras regiões da costa chinesa. Agentes privados e firmas locais (como a Dinegro & Landabaso) implantaram-se em Macau servindo de intermediários e operando os chamados "barracões", onde os trabalhadores eram reunidos (quando chegavam da China continental), os contratos eram assinados e os embarques eram organizados.

O inventário dos bens a leilão revela que Eduardo M. Di-Negro pertencia à elite abastada de Macau. Tal como a localização da residência, no nº 53 da Praia Grande, a maio da baía semi-circular. Desde o "piano" às "magnificas estampas em molduras" passando pelas "Mesas de marmore", espelhos, "sofás", "candieiros de augmento de pendurar" e, por fim, mas não menos importante, "uma rica carruagem, arreios, 3 cavallos".
Ter uma carruagem e cavalos na Macau oitocentista era um sinal claro de imensa riqueza. Manter cavalos e carruagem era um sinal de ostentação já que nas estreitas e íngremes ruas da cidade este meio de transporte era altamente desaconselhável sendo usadas habitualmente as chamadas liteiras (ou palanquins), cadeiras de braços compridos à frente e atrás, que eram levadas por homens.

quarta-feira, 24 de junho de 2026

"Um dia de gloriosa recordação para Macao"

C. J. Caldeira assina este artigo publicado na "Parte Não Official" do Boletim do Governo da Província de Macao, Timor e Solor de 28 de Junho de 1851.

Terça-feira 24 de Junho foi um dia de gloriosa recordação para Macao. Ha 229 annos, em um semelhante dia de 1622, nos tempos em que a Monarchia Portugueza, e suas Colonias sofriam os mais desastrosos effeitos da sugeição a Castella,—um punhado de valentes repellio o formidavel attaque, que contra esta Cidade tentaram os Hollandezes, então muito poderosos nestas partes. Este feito d'armas, digno de figurar entre as nossas antigas gentilesas d'Azia, parece-nos que é pouco conhecido em Portugal, e não sabemos mesmo se se acha impressa em alguma parte a circunstanciada noticia delle em portuguez: Ljungstedt o refere com alguma extensão no seu Historical sketch of Portuguese Settlements in China pag. 73, e algumas memorias e papeis avulsos sobre Macao o mencionam, mas sem maior individuação, e no Macuista Imparcial de 23 de Junho de 1836, lemos tambem algumas noções deste facto.
É por isso que não julgamos ocioso resumir aqui por esta occasião, uma noticia sobre este successo, colhida de alguns manuscriptos que vimos, combinados com a tradição, e a um dos quaes que temos por bastante merecedor de fé, nos aproximaremos o mais possivel na ordem dos acontecimentos e nas palavras de que usa.
Sabendo os Hollandezes que em Macao se achava pouca gente, por terem a maior parte dos moradores hido nos seus navios commerciais a varios portos, como usavam fazer naquella estação do anno,—vieram sobre a Cidade com uma frota de quatorze navios, e encontrando perto della tres outros inglezes que hiam para Cantão, os convidaram para os ajudarem na empreza, mas exigindo estes que o saque lhes pertenceria, não se combinaram.
Surgiram pois sós em frente de Macao na vespera de S. João, 23 de Junho de 1622, e tendo informação certa de que pouca artelharia havia nas Fortalezas do Monte e da Barra, e que pela parte de terra nem muros, nem defesa alguma existia,—tentaram neste mesmo dia o attaque, principiando por baterem o Forte de S. Francisco, para que a artelharia deste não embaraçasse o desembarque na praia de Cacilhas: do Forte porem lhe corresponderam de modo que um dos navios foi muito maltratado, tiveram os inimigos de o abandonar logo, e se afundou: no emtanto acercaram-se os outros mais da praia, e prepararam o desembarque para o dia seguinte.
Naquelle tempo contava esta Cidade apenas oitenta homens portuguezes capazes de pegar em armas, e os seus criados, e sem capitão que os dirigisse, porque até então se governava este Estabelecimento, desde a sua fundação em 1557; como Republica, somente pelo Senado: só em 1623 foi nomeado pelo Vice-Rei da India, Conde da Vidigueira, o primeiro Governador e Capitão Geral de Macao D. Francisco de Mascarenhas.
Com effeito no dia de S. João, 24 de Junho, em mais de trinta lanchas, escachas, e catraias, desembarcaram uns 800 homens hollandezes na praia de Cacilhas, tendo antes, dado fogo por barulhento a um barril de polvora molhada, para poderem encobertos com o fumo della desembarcar com mais segurança.
Antonio Rodrigues Cavalhinha assistia então em uma de suas cazas, no campo que fica fronteiro á ellevação onde está hoje a fortaleza da Guia, e sahiu com mais cinco portuguezes, e alguns de seus moços (negros escravos), a impedir o desembarque aos Hollandezes, o que não podendo conseguir com tão pouca gente, vieram aquelles avançando em forma como o seu chefe Cornelis Reyers, (ou Kornelis Reyerszoon segundo Ljungstedt) que era tambem o Commandante da expedição, até ao plano que fica por baixo do monte da Guia, um pouco ao nascente, proximo ao logar ónde existia o moinho do Padre Almeida, e onde existe um simples marco ou pilastra de pedra que, segundo a tradição, recorda este successo.
Alli ficaram sós, suspensos por dois tiros de canhão que lhe dispararam da Fortaleza do Monte (então incompleta), com uma peça bombarda que naquella direcção se havia assentado; cujos tiros foram feitos pelos Padres da Companhia de Jesus, que nesse dia assistiam na mesma Fortaleza, porque no seu Convento proximo della se refugiaram as Religiosas de Santa Clara, e varias senhoras, mulheres e filhos dos principaes moradores de Macao,—e com tal felicidade que um dos tiros acertou em um barril de polvora, incendiando-o e abrazou alguns Hollandezes.
Elles desconfiando de não verem mais gente, e temendo que lhes estivesse armada alguma embuscada atraz de um bambual, que tinham á vista, receavam de passar quando quizessem penetrar na Cidade.
Reunio-se a gente pelo monte da Guia, onde estava uma peça de ferro (provavelmente no mesmo local da que hoje se acha d'afóra da Fortaleza), e nella Rodrigo Ferreira, com outro Portuguez, e mais vinte filhos da terra, e alguns moços captivos e todos cobertos entre os rochedos que alli havia, viam d’alto d'este modo os inimigos, fazendo-os vacilar e parar na subida.
Dividiram os Capitães os Cabos que dirigiam as baterias aos postos do Forte de S. Francisco e da Baim porto, contra as forças dos Hollandezes, vendo que estes acometiam pela parte de terra, deram ordem a que João Soares se expedisse com cincoenta mosqueteiros no posto do campo, do qual estava encarregado Lopo Sarmento de Carvalho, Capitão-Mór da viagem do Japão, e reconhecendo o medo e confusão nos inimigos, os carregou da parte da Cidade acompanhado de João Soares: um dos capitães delles fez rosto aos nossos, mas sendo morto, os soldados se desordenaram, e puzeram em fuga, largando bandeiras, armas, e tambores, e trataram só de salvar as vidas; o que deu logar ao povo miudo para ir seguindo-o á sombra dos Portuguezes, e com tanto impeto que uma cafra (negra) fez neste dia de Parseira d'Aljubarrota, asseverando uns que matára alguns Hollandezes com o espeto da cozinha, onde a mesma cafra cosinhava, e outros que com uma alabarda; assim lhes foram fazendo muitos mortos no campo, e os perseguiram até os obrigarem a embarcar precipitadamente, e alguns a nado, sem lhes valerem as companhias de reserva que na praia deixaram, que em vão tentaram formalos de novo, para se não perderem todos pela confusão.
Deixaram mortos no campo, na praia, e no mar afogados, acima de 300 homens; e por despojos oito bandeiras, um canhão, cinco ou seis tambores, muitas armas, e alguns prisioneiros, dos quaes até ao seguinte dia só viveram sete.
Nesta occasião aquelles Portuguezes, e alguns Hespanhoes que se acharam aqui, obraram maravilhas, principalmente na primeira rota do esquadrão inimigo, que custou algum sangue e duas vidas; e se bem que os Hollandezes não fizeram a resistencia que podiam, não se póde deixar de admirar a resolução e cometimento de tão poucas contra tantos.
Tal terror tomaram os Hollandezes, que nunca mais investiram esta Cidade, apesar de ficar tão afastada de Goa, donde só podia ser soccorrida, e de se ver depois em grandes apuros,—ao mesmo tempo que o poder delles augmentava nas paragens do sul: diz-se com tudo que perderam, ou se lhe dispersou uma esquadra que enviavam a nova tentativa.
Consta que o Regulo de Cantão naquelle tempo sabendo desta victoria, dirigio aos Portuguezes muitos louvores; fez-lhes offerecimentos; e enviou 400 picos (quintaes approximadamente) de arroz, para os moços que ajudaram a defender a terra, que ficaram forros, pelo valor e fedilidade com que entraram na peleja.
Em consequencia deste successo, e do receio de novo attaque dos Hollandezes, os moradores de Macao mandaram pedir soccorro a Manila, como sugeitos então ao Monarcha Hespanhol, e o Governador lhes enviou 200 homens com um Mestre de Campo, por cuja industria se murou e fortificou melhor a Cidade, que até este anno não tinha muros nem baluartes alguns; e tambem delli vieram algumas bombardas.
A Fortaleza do Monte, começada parece que em 1606, foi concluida por estes tempos em 1626.
A Fortaleza de N. S. da Guia tambem foi construida pouco mais tarde, como se collige da seguinte inscripção em pedra, ainda hoje existente na muralha á porta da mesma Fortaleza:
"Este forte mandou fazer a Cidade á sua custa pelo Capitão d'Artelharia Antonio Ribeiro d'Raia começou-se em Setembro de 1637 acabou se em Março de 1638 sendo Geral da Camara (d'Noronha)."
A piedade de nossos maicanes não deixou de atribuir a salvação de Macao, do perigo que esteve de ser presa dos Hollandezes, á especial protecção da Providencia, e os seus moradores e o Senado fizeram o voto que ainda hoje louvavelmente se cumpre.
Procuramos em vão achar no archivo do Senado o termo original que se lavrou daquelle voto, e que ainda existia em 1782, segundo o testemunho do author da relação a que nos referimos; nem delle encontrámos copia; mas no mesmo Senado existe uma antiga boki onde se lê o seguinte:
"A 23 e 24 de Junho Vespera e Dia de S João Baptista — Tem obrigação o Leal Senado ir na Vespers, e Dia do ditto Santo com a capa, e volta á Missa Solemne na Sè Cathedral, como tambem as Vesperas.
N. B.
"Foi instituida esta Festa por um votto que o Leal Senado fez por Termo na Caza da Camara, junta em Conselho no anno de 1622: Isto em reconhecimento da distincta mercê, que Deus Nosso Senhor foi servido fazer a esta Cidade, nestes dois dias, em aliviar das Tropas Hollandezas, que na Praia de Cassi-lhas desembarcarem de bordo de treze (13) Navios, de que os Moradores alcançaram Victoria no Campo de Moha, que pertenderam senhoriar com 800 Soldados.
Alem desta Festa por voto solemne ficou-se dizendo todos os annos, em dia de S. João, uma Missa em uma barraca que para tal fim se armava, no plano por baixo da Guia, no local onde se acha de pé a pilastra de pedra de que acima fallámos, que é a haste da antiga cruz, cujo braço cahio por um tufão.
Esta Missa se chamava da Victoria, para ella dava o Senado cinco patacas de esmola, e concorriam a ouvilla muitos moradores de Macao e suas familias, indo as creanças com flores e bandeiras: passavam por alli o dia com musicas e folguedos, n'uma especie de festa d'arraial, que foi muito do gosto e usança popular, até que a Missa passou a dizer-se na Ermida da Guia, a qual por fim cahio em esquecimento parece que desde 1844.
São estas as noticias que em pouco tempo podémos colligir sobre o acontecimento de que tratamos, e que por ventura terão alguma valia para os amadores das antigualhas, que tem rellação com os factos da nossa historia nacional.
C. J. Caldeira

PS: Há uns tempos 'descobri' um relato desta batalha escrito em Macau meados do século 18; vou analisar - nomeadamente averiguar se Charles Boxer, a autoridade máxima neste assunto, menciona este documento - e depois publico.

quinta-feira, 23 de abril de 2026

"Passeio de lages de pedra"

 

Publicado no Boletim da Província de Macau e Timor com a data de 24 de Abril de 1870 este "annuncio" da Repartição D'Obras Públicas informa que na "Segunda-feira 9 de maio p.v., ao meio dia, se arrematará em hasta publica, a quem menor preço offerecer, a continuação do passeio de lages de pedra, igual ao que já está feito, desde o fim da praia grande até ao Bom Parto. A licitação terá lugar na sala da repartição de obras publicas, no edificio do extincto convento de S. Domingos."

Nesta fotografia feita ca. 1870 pode ver-se o referido "passeio de lages de pedra" no que era então "o fim da Praia Grande", perto do então Palácio do Cercal (onde está actualmente o Palácio do Governo). A extensão do passeio até ao Bom Parto (onde começa a actual Av. da República) era apenas mais uma etapa... A ligação por estrada desde o início da Praia Grande (Junto ao Jardim de S. Francisco) até à entrada do Porto Interior - circundando toda a baía da Praia Grande - só ficaria concluída na década de 1910. Daí que esse troço final tivesse recebido o nome de Av. da República, o regime político entretanto implantado em Portugal.

quarta-feira, 1 de abril de 2026

Até parece mentira

Em 1933 o Ministério das Colónias (Portugal) publica o Decreto n.º 27:195 "determinando que no frontispício dos Boletins Oficiais de todas as colónias e respectivos suplementos, seja impresso, entre a palavra «Boletim» e a palavra «Oficial» o escudo nacional, que não poderá ser substituído pelo brasão da colónia ou quaisquer outros emblemas."

Esse mesmo decreto seria publicado no Boletim Oficial da Colónia de Macau nº 52 (Dezembro de 1933) mas curiosamente não é seguida a determinação, aparecendo o brasão da Colónia de Macau. Seria publicado um novo boletim de forma a corrigir o erro... 

quarta-feira, 8 de outubro de 2025

"Anniversario Natalício do Sr. D. Fernando"

No "Boletim Official do Governo de Macao" de 31 de Outubro de 1838 pode ler-se na "Parte Official" a circular do governador sobre a celebração do "Anniversario Natalício do Sr. D. Fernando" bem como uma 'notícia' sobre as referidas celebrações.
CIRCULAR
Sendo o dia 29 do corrente o Anniversario Natalicio de SUA MAGESTADE o Senhor D. FERNANDO, AUGUSTO Espozo de Nossa Adornada RAINHA, determina o Illmo. Senhor Governador que seja solemnizado nesta Cidade da maneira Seguinte.
O toque d' Alvorada será feito segundo o costume pela Musica do Batalhão PRINCIPE REGENTE, assim mesmo o de recolher. Todas as Fortalesas desta Cidade conservarão as suas Bandeiras içadas desde o nascer do Sol ate o seu occaso, e no meio dia os de S. Paulo do Monte, S. Francisco, e Forte de S. Pedro darão huma Salva de 21 tiros. — O Serviço será feito de grande uniforme.
Nam podendo a Curvetta d' Guerra Infanta Regente surta dentro do Porto faser neste dia a Salva do costume em consequencia de achar-se ainda em fabrico, o Sr. Commandante d'esta Curvetta afarà embandeirar do modo possivel, e ordenará outras demonstrações que forem compativeis com o estado de trabalho em que está a sua Guarnicam.
Quartel do Governo em Macáo 27 de Outubro de 1838.
João Rodrigues da Costa Caminha.
1º. Tenente Ajudante das Ordens Interino.
Assinada pelo "redactor" do Boletim foi esta a descrição dos eventos:
A madrogada de Segunda feira 29 do corrente foi nos annunciada por hum continuo rasgão de Alvorada, tocado pela Musica do Batalhão PRINCIPE REGENTE, que transitou o caminho da Praia Grande, sobre hum e outro lado, da residencia do Governo, e foi terminar no Quartel de Santo Agostinho. Quando o Sol vinha nascendo e a penas dourando os picos das montanhas, appareceram estantaneamente todas as Fortalesas com suas bandeiras içadas, e no mesmo momento a Curvetta de Guerra Infanta Regente gostosamente embandeirada tem-se destinado a sua Lancha armada á Escuna, e corrida de Bacamartes e huma peça de rodizio á Proa, da mesma maneira embandeirada: Tambem embanderou o Navio Angelica, e Tranquillidade, e todos os mais, bem como as outras embarcaçoens que se acham surtos neste Porto. Nacionaes e Estrangeiros, içaram suas bandeiras; e outro Britannico embandeirou. Ao 1º. signal do meio dia começou a salvar o Forte de Sam Pedro, Fortalesa do Monte e a de Sam Francisco, e a supra mencionada Lancha; a Curvetta de Guerra Ingleza que se achava no Largo da Barra fora de alcance tambem embandeirou e pela huma hora da tarde salvou com 21 Tiros, ao que deu lugar o Anniversario Natalicio de SUA MAGESTADE o Senhor D. FERNANDO, como logo constou pela noticia da Circular abaixo transcripta, e desta maneira por tam plausivel motivo, tiveram os moderados e fiéis habitantes desta Cidade hum completo dia de jubilo."

terça-feira, 30 de setembro de 2025

Azeite para o "Pharol da Guia"

Anúncio de leilão para o "fornecimento de azeite para o pharol da Guia" em 1879. O Farol foi inaugurado em 1865.
Boletim da Província de Macau e Timor
Maio de 1879


quinta-feira, 28 de agosto de 2025

"Funccionários públicos nas casas de jogo de Fantan"

Em Maio de 1905 uma "circular" dirigida a "todos os chefes de Repartição da Província de Macau" por ordem do governador "novamente" apela à "rigorosa observância da portaria provincial nº 134 de 17 de outubro de 1896 (...) relativamente à entrada dos funccionários públicos nas casas do jogo de Fantan".
No nº 2 estabelece-se que "O jogo do Fantan, permitido em Macau e suas dependências em casas especiais e nos bairros chinas, é expressamente prohibido em qualquer epocha do anno e sob pena de immediata suspensão, a todos os funccionários d'esta província qualquer que seja a sua classe ou cathegoria".
A portaria nº 134 do governo de Macau emitida em 1905 surge então "em harmonia" com uma outra, de Portugal, entrada em vigor a 10 de Julho de 1896 e que "suscitava a execução de rigorosas providências para a repressão do vício do jogo de azar nas colónias de África".

segunda-feira, 21 de julho de 2025

Anúncio de Advogado em Dezembro de 1900

Anúncio em português e chinês publicado no Boletim Official em Dezembro de 1900 onde Adelino Barbosa de Lemos informa ser "bacharel formado em direito" (Coimbra 1877 a 1884) podendo ser "procurado no hotel Heng Kee". Seria muito provavelmente onde estava a residir. 
O hotel Hing Kee ficava na Praia Grande. Adelino Lemos foi ainda professor da 8ª cadeira (philosophia) do Lyceu Nacional - como se escrevia na época -  até pelo menos 1910.
Curiosidade: Na edição de 11 de Maio de 1899 do jornal "Resistência" pode ler-se que Adelino era "muito conhecido nesta cidade (Cimbra) do seu tempo de estudante, por aggredir com um chicote o juiz de direito daquella comarca."

segunda-feira, 2 de junho de 2025

"Just arrived and for sale"

Anúncio publicado numa edição do Boletim da Província de Macau em Timor em Setembro de 1870. Entre os produtos anunciados para venda estão champanhe, cerveja, vinho, brandy e charutos.
Não se refere a morada da firma A. Muller localizada na "Praya Grande". Mas num directório de 1876 fica-se a saber que ficava no nº 75: "A. Müller & Co. - naval and general store keepers and commission agents. 75, Praya Grande." 
Muller tinha sido sócio de J. H. Smith que também teve um espaço comercial nesta morada. Corresponde sensivelmente à actual localização do BNU.

segunda-feira, 20 de janeiro de 2025

"Reppresentações theatraes" em 1851

Num Edital de 2 de Maio de 1851 "O Procurador por Ordem do (...) Leal Senado da Câmara, faz saber ao público que qualquer Barraca que se construa desta datta em diante para reppresentações theatraes terá de pagar 10 patacas à mesma Câmara, obtendo-se licença do Procurador da Cidade."
in Boletim do Governo da Província de Macao, Timor e Solor, 10.5.1851

sábado, 18 de janeiro de 2025

Preso por "falso zelo de serviço"

Em 1846 o fiel da Fortaleza de S. Francisco mandou cortar "alguns ramos das árvores, que estão no Campo de S. Francisco" que estavam a impedir a "vista da sentinella". Por causa disso o fiel seria condenado pelo comandante do Batalhão de Artilharia a uma pena de prisão de três dias "na mesma fortaleza" já que "tão prejudicial é a disciplina da relaxação, como um falso zelo de serviço" de um militar que se intrometera "em coisas que não são da sua competência".
 

sábado, 28 de dezembro de 2024

Muralha da Estrada do Chunambeiro

"Annuncio" sobre o aterro feito entre a Praia Grande e o Chunambeiro em 1868
"Aviso" sobre "construção da muralha que deve sustentar o aterro do Chunambeiro, próximo à fortaleza do Bom Parto, até à altura da chacra de Maximiano António dos Remédios" em Janeiro de 1873

Boletim da Província de Macau e Timor, 1873

sábado, 26 de outubro de 2024

Edital que oferece "alviçaras": 1889

"D'ordem do Leal Senado se faz publico, que se offerecem alviçaras* a quem puder descobrir carne de gado bovino e suino abatido fóra do matadouro municipal, e bem assim áquelles que apprehenderem os que trazem egual carne para vender no mercado" (...)
Excerto de um edital publicado num edição de Setembro de 1889 do Boletim da Província de Macau e Timor.
*Alvíssaras: recompensa dada por boas novas, pela restituição de objeto perdido ou por prestação de qualquer serviço ou favor. Do árabe al-bixrā que significa "boa nova".

quarta-feira, 31 de julho de 2024

Carimbo "Pago em Macau": 1893

Dois carimbos (vermelho - Pago em Macau com símbolo da monarquia portuguesa - e preto) confirmam o envio do Boletim da Província de Macau e Timor a partir de Macau para a 1ª Repartição do Ministério da Marinha e Ultramar (em Lisboa). Duas marcas postais para a história da filatelia do território.

Enviado de Macau para Lisboa em 1893

sábado, 27 de julho de 2024

"Sua esposa deu à luz uma menina"

Neste "Annuncio" publicado n' "O Boletim do Governo de Macau" em Junho de 1866 "Joaquim Peres da Silva com muito prazer participa a todos os seus parentes e amigos, que no dia 6 do corrente mez, sua esposa deu à luz uma menina e espera que essa seja considerada na lista das suas criadas."

terça-feira, 16 de julho de 2024

Casa à venda no "Campo de Sam Francisco"

Anúncio publicado em "O Boletim do Governo de Macau", Agosto de 1866
"PARA VENDA
A CASA no campo de Sam Francisco contigua ao Mosteiro de S.ta Clara pelo lado do norte; e que está actualmente occupada por Sr. Cantuarias. O abaixo assignado receberá os offerecimentos dos que a quizerem comprar, até ao dia 31 do corrente. Macau 11 d'agosto 1866. MANOEL PEREIRA."

Nota: corresponde à zona do actual Jardim de S. Francisco. Dos tempos dos Mosteiro de Santa Clara resta o topónimo Rua de Santa Clara, junto ao referido jardim.

terça-feira, 30 de janeiro de 2024

Vapor a pás "Spark"

Na extensa lista dos navios entrados e saídos do porto de Macau em Agosto de 1853 um dos nomes que se destaca é o do vapor "americano" Spark comandado pelo capitão Castilla. Na época a embarcação assegurava a ligação marítima de passageiros entre Macau e as cidades de Hong Kong e Cantão.
Construído em 1849 por R. B. Forbes, o Spark foi comprado pelo comerciante James Bridges Endicott (1814-1877) - natural de Salem, Massachusetts, EUA. Foi transportado em peças sendo reconstruído em Hong Kong em 1850 nos estaleiros navais denominados Whampoa (também era o nome de uma pequena ilha entre Macau e Cantão - já muito perto desta última, actual Huanpou/Pazhou). 
Os estaleiros eram chefiados por Endicott que chegou ao Sul da China com apenas 15 anos -por volta de 1831 - tendo vivido em Hong Kong, Cantão e Macau até à morte em 1870. A sua ligação a Macau explica a existência de um placa na capela protestante, junto ao cemitério.
O Spark em Cantão num detalhe de uma pintura de meados do século 19 cuja autoria é atribuída a Tingqua.

Anúncio de 1876

A seguir, o testemunho de Walter William Munday, vítima de um ataque de piratas a bordo do Spark em Agosto de 1874 numa viagem de Cantão para Macau. Este tipo de situações era muito frequente. Foi notícia no jornal The London and China Telegraph.

"I embarked on board the Spark on the 22nd of August to proceed on business to Macao. We left Canton at half past seven in the morning and were due at Macao between four and five the same afternoon. The Spark is a paddle wheeled steamer the lower deck being confined exclusively to Chinese passengers and having a winding staircase near the stern leading to the quarter deck which was for Europeans. There were a great many native passengers but I had the misfortune to be the only European. The crew consisted of about twenty men Chinese and Portuguese half casts. The captain, poor Brady, was an American and although an utter stranger to him previous to our journey it has seldom been my good fortune to have a nicer or more amiable companion. We had a capital run to Whampoa where we arrived at about nine o clock and breakfasted.
The Canton steamer to Hongkong and the return steamer from Hongkong ought to have passed us soon after leaving Whampoa but from some reason they were delayed and did not pass us till after twelve o clock which obliged the pirates to put off their attack. The river here where the outrage was perpetrated is about one mile across. So far the trip had been most delightful nothing had occurred to awaken any suspicion. I was still as wedded to the humdrum existence and safety of English life as if I were but taking a trip in the British Channel and so little thinking of any peril that I dozed over my cigar and book under the awning for ward I must have slept here some time as I certainly awoke with a start it may have been a noise it may have been instinct of danger which roused me. Which it really was I am unable to tell but I immediately perceived a man rushing up the gangway towards me with a knife in his hand and a gash across his fore head. Surprised and only half awake my first thought was that he was a madman and I rushed out to procure help to seize him. (...)"