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quarta-feira, 21 de janeiro de 2026

Fábrica de Cimento da Ilha Verde: 1886-1936

A 7 de Maio de 1886 celebrou-se o contrato entre o Seminário de S. José (proprietário) e Creasy Ewens que estabelecia, na Ilha Verde, a "Green Island Company Limited",a primeira do género na China. 
Quatro dias depois, a 11 de Maio, era concedido alvará pelo governador (1883-1886) Tomás de Sousa Rosa (1844-1918) ao solicitador judicial de Hong Kong, Creasy Ewens para o estabelecimento da referida fábrica.
"(...) "Faço saber aos que este meu alvará virem que tendo o subdito inglez, mr. Creasy Ewens, requerido licença para estabelecer uma fabrica de cimento na Ilha Verde, e não havendo inconveniente algum em se lhe conceder tal licença por isso que esta fabrica, apezar de ser um estabelecimento comprehendido na 2.ª classe mencionada no decreto de 21 de outubro de 1863, pretende instituir-se em logar despovoado, aonde nenhum damno pode causar;
Concedo, em conformidade com o artigo 4.º do citado decreto, a licença requerida, que caducará nos casos seguintes:
1.º Se a fundação do estabelecimento não começar dentro de seis mezes da data d'esta licença;
2.º Se a sua laboração não principiar dentro de dois annos, depois da mesma data;
3.º Se a laboração se interromper por mais de dois annos;
4.º Se a fabrica fôr transferida para local differente do que por este alvará é auctorisado;
5.º Se forem introduzidas no estabelecimento modificações de tal ordem, que mudem as condições designadas n'este alvará.
As auctoridades, a quem o cumprimento do presente alvará pertencer, assim o tenham entendido e cumpram.
Palacio do governo de Macau, 13 de maio de 1886."
O jornal O Independente publicou a notícia a 22 de Maio de 1886.

Durante muitos anos a empresa 青洲英坭
 prosperou - e até abriu uma nova fábrica em Hong Kong - mas no início da década de 1930 as autoridades da província de Guangdong impuseram um embargo à importação de cimento e, com a perda de sua principal fonte de receita, a Green Island Cement foi forçada a fechar portas em Macau em 1936.
Postal com a legenda errada. Mostra a fábrica de Hong Kong e não a de Macau.

segunda-feira, 5 de janeiro de 2026

A morte do cardeal Tournon

"Breve y compendyosa noticia del pasaje de Manila á China del Exmo Señor Don Carlos Thomas Mailard de Tournon, Patryarcha de Antiochia, Cardenal del título de Sta. Sabina en Roma, Comisario y Visitador general apostolico de las misiones de aquel imperio que es de China, de su prisión y de su muerte, que sucedió en Macan el Domingo Pentecostes, 8 de Junio año de MDCCX."
Este documento manuscrito por Juan Antonio de Ondarza Munave e datado de 1710 faz um relato dos trabalhos missionários e do martírio do Cardeal Charles-Thomas Maillard De Tournon que morreu numa prisão de Macau a 8 de Junho de 1710 após uma controvérsia sobre o uso de ritos tradicionais chineses na prática cristã. 
Outro relato destes acontecimentos pode ser lido aqui.
O Cardeal de Tournon foi enviado pelo Papa à China em 1701 para resolver a Questão dos Ritos, proibindo os cristãos chineses de praticar ritos ancestrais. Esta decisão opôs-se diretamente às políticas do Imperador Kangxi e aos interesses dos Jesuítas (que defendiam a adaptação cultural). Na viagem fez escala em Manila tendo chegado a Pequim em 1705 onde foi recebido pelo Imperador. que viria a decretar que nenhum europeu residisse na China sem licença especial do imperador e que a ninguém seria concedida sem que primeiro aprovasse os ritos e costumes do celeste Império. Como resultado, Tournon acabou por ser entregue pelas autoridades chinesas aos portugueses em Macau, onde morreu sob custódia, isolado e em condições precárias.

Excerto:
"Breve, y compendiosa noticia de el passage de Manila a China del Illmo y Excmo Sr. Dn. Carlos Thomas Maillard de Tournon Patriarca de Antiochia, Comissario, Visitador Apostolico General de las Missiones de aquel Imperio, y de las otras de Oriente &c. De la execucion de su Comission en dicho Imperio; de su prision, y de su muerte, que sucedió en Macan el Domingo de Pentecostes 8 de Junio de 1710 siendo ya Cardenal de la Santa Iglesia Catholica Romana.
Llegó el Sr. Patriarca de Antiochia al Puerto de Cabite, acompañado de 12 Europeos (siete de los quales eran Missioneros Appcos y los cinco domesticos, y familiares) el dia 22 de Septiembre de 1704 en un Barco llamado Santa Cruz, del Capn Ignacio Marcos morador, y Republicano de Manila, que volvia de la costa de Choromandel. Dicho Sr. Patriarca vino con intento de passar de aqui a China con todo su acompañamiento, porque de la costa no havia podido lograr el passage en derechura a aquel Imperio, en donde devia executar algunas Comissiones por las quales era embiado desde Roma por su Santidad.
El dia 25 del mismo mes pasó de Cabite a Manila, a donde haviendo remitido el dia precedente un Breve de su Santidad al Maestro de Campo Dn Thomas de Endaya... (...)
Al 2 de Abril del mismo año de 1705 llegó el Sr. Patra a la vista de Macan, y sabido por el Pe Fran.co Pinto que era entonces Provincial de la Compañia de la Provincia que llaman de Japon...
...que la mañana siguiente mui temprano con el Pe Antonio Dantas a complimentarle y combidarle a una casa de recreo que tienen alli los Pes. en medio del Rio, que llaman Isla Verde; adonde el dia siguiente le llevaron en su barquinho...
Detuvose en Canton, adonde llegó a los 8. cerca de cinco meses, esperando que los Pes de la Corte dieran noticia de su llegada al Emperador... (...)

Inclui um poema/epitáfio dedicado ao Cardeal, destacando o seu sofrimento na prisão em Macau.
"El Cardenal de Tournon Legado del Padre Santo Murio con grande quebranto En Macan en la Prission. Con mucha disposicion Puso fin à la carrera: Fue su virtud verdadera; Padeció por la Justicia; Y le puso la malicia, En una misera esphera."

Tradução/Adaptação:
Breve e compendiosa notícia da passagem de Manila à China do Ilustríssimo e Excelentíssimo Senhor D. Carlos Tomás Maillard de Tournon, Patriarca de Antioquia, Comissário e Visitador Apostólico Geral das Missões daquele Império [China] e das outras do Oriente &c. Da execução da sua Comissão no dito Império; da sua prisão e da sua morte, que aconteceu em Macau no Domingo de Pentecostes, 8 de Junho de 1710, sendo já Cardeal da Santa Igreja Católica Romana."
A 2 de Abril do mesmo ano de 1705, chegou o Senhor Patriarca à vista de Macau. Sabendo disso o Padre Francisco Pinto, que era então Provincial da Companhia [de Jesus]... veio na manhã seguinte, muito cedo, com o Padre António Dantas para o cumprimentar e convidar para uma casa de recreio que os Padres ali têm no meio do Rio, chamada Ilha Verde.
Para lá o levaram no dia seguinte no seu barquinho... e ali foi cumprimentado pelo Bispo e pelos Capitães Gerais e pessoas mais graves da cidade.
A última página do manuscrito contém um poema que resume o sentimento de injustiça em relação ao seu cativeiro em Macau:
"O Cardeal de Tournon Legado do Santo Padre Morreu com grande sofrimento Em Macau, na Prisão. Com muita prontidão Pôs fim à sua jornada: Foi a sua virtude verdadeira; Padeceu pela Justiça; E a malícia colocou-o Numa mísera condição."

quinta-feira, 7 de agosto de 2025

Vista sobre a ilha Verde há 100 anos

Em mais um registo de Macau há 100 anos para o post de hoje selecionei uma vista da ilha Verde na década 1920.

segunda-feira, 20 de março de 2023

"The city of calm and of the past"

"All Round the World: An Illustrated Record of Voyages, Travels, and Adventures In All Parts of the Globe with two hundred illustrations" é o longo título de um livro cuja primeira edição data de 1860, em Londres, da autoria de William Francis Ainsworth (1807-1896), cirurgião, geógrafo, geólogo e viajante britânico.
O livro é composto por quatro volumes e foi publicado ao longo de vários anos. William Ainsworth viajou por várias partes do mundo mas não por todas as que se referem no livro, tendo recorrido a relatos de outros viajantes para esta compilação de viagens pelo mundo.
Macau surge no primeiro volume ("First Series"), entre as páginas 91 e 99 incluindo duas ilustrações assinadas por um dos vários desenhadores que assinam as centenas de gravuras dos milhares de páginas deste livro. Entre eles estão Gustave Dore, Bayard e Jules Noel.
Macau está 'dentro' do capítulo intitulado "China, Cochin China and Japan". Para além de algumas informações de carácter histórico e geográfico do território em meados do século 19, destaque ainda para a descrição detalhada do assassinato do governador Ferreira do Amaral em Agosto de 1849, o Jardim de Camões, na época ainda propriedade privada, o cemitério dos parses, o Porto Interior, o Templo da Barra, etc...
"(...) Macao. We leave Hong Kong as quickly as any man should do who has no business to keep him there and taking the steamer a pleasant voyage of thirty miles the last four of which is through shallow water arrive at the Praya Grande the celebrated promenade and landing place seep to the quaint old settlement of the early Portuguese kings Macao This voyage short as it is and through a narrow sea as crowded as the Thames was not until the present year secure from disorderly roving bands of Chinese seamen and boatmen who organise themselves into fleets as pirates and way lay vessels not even excepting the passage steam boats one of which The Queen it will be remembered that they captured and murdered all the foreign passengers.
The first thing an European landing at Macao in olden times did was to go and see the Chinese Pagoda at the Rocks. He could wend his way there and back in a tanka or native boat or he could stroll there by the sea side. Now we can visit pagodas of far more imposing aspect and dimensions; nay, we even meet one that far surpasses it on his way the great Pagoda of Singapore. But if the temple Macao is poor and badly kept its position is picturesque. The inner harbour with its legion of junks and tankas lies at its feet above it are huge blocks of granite and secular trees whose vigorous roots fasten in the crevices while close by are kiosks and little oratories in honour of inferior divinities. On the portico is a great junk painted in red and there is an inscription in Chinese on the neighboring rock. The air of respectable antiquity presented by the old Portuguese settlement of Macao is refreshing after the parvenu character with which its ostentatious magnificence invests Hong Kong.
The narrow streets and grass grown plazas the handsome facade of the fine old cathedral crumbling to decay the shady walks and cool grottoes once the haunts of the Portuguese poet, his tomb, and the view from it all, combine to produce a soothing and tranquilising effect. Hong Kong represents the commercial and political movement of the present. Macao is the city of calm and of the past.
The time is gone by when the intrepid Portuguese navigators dominated in these seas. Their degenerate descendants are now reduced in order to obtain a livelihood to seek for employment in the great English or American houses. The bright day for Portugal is gone by and fickle fortune rallies under other standards.
If the colony passes by chance into the hands of a man of genius like Amaral, he is assassinated by the emissaries of the mandarins, and if the Court of Lisbon bent upon avenging the outrage despatches its best frigate to the Chinese seas it is blown up in the very harbour of Macao by a reprobate who gluts his vengeful fury for a slight punishment by the destruction of 300 of his countrymen!
Amaral, a captain in the Portuguese navy, had displayed so much energy and abilityas Governor of Macao as to have drawn upon himself the most malevolent feelings of a reprobate race of people and mandarins He had defeated organized bands of robbers on several occasions and visited piracy with condign punishment A price had in consequence been set upon his head but the brave old captain who had lost one arm in the service of his country disdained to take any precautions. Every evening he used to ride out accompanied only by his aide de camp and with only a brace of pistols in his holsters. On the 22nd of August 1849 he was returning from his usual ride at sunset when a number of Chinese suddenly presented themselves to obstruct his progresso. A child who carried a bamboo to the extremity of which it appeared as if a bouquet had been attached moved out from the crowd towards the Governor Amaral thinking that he came to present a petition was about to stoop when he felt himself struck violently on the face. Manto, rascal! he exclaimed and pushed his horse on as if to punish his assailant. But at the same moment six men rushed upon him whilst two others attacked his aide de camp.
The assassins drew from beneath their garments their long straight and not very sharp swords generally used by the Chinese and repeatedly struck the governor with these upon his only arm. Taking the bridle in his teeth Amaral made vain efforts to get at his pistols. Attacked on all sides and covered with wounds he was soon struck down from his horse when his murderers throwing themselves upon him tore off his head rather than out it off and added to their horrid trophy the only hand that remained. This accomplished they fled into the interior the Chinese soldiers who were on duty at the town gates close by witnessing the tragedy without condescending to interfere In the meantime the terrified horse had galloped into the town without a master the first who saw it felt that an accident had happened and hastened towards the gate but on their way they were met by the aide de camp who had only received some slight wounds and whose torn habiliments and expression of horror told too plainly of the sad event which was soon confirmed by the discovery of the unfortunate old Governor's mutilated remains.
The neighbourhood of Hong Kong takes from Macao almost all its advantages as a free port add to which the sea is daily invading its harbour as it does the whole of the right shore of the Canton river Vessels of considerable tonnage are obliged to anchor a mile or two from the harbour and only small gunboats can lay off the quay of Praya Grande. Nevertheless Macao notwithstanding its decline is not wanting in claims to interest the claims of memory more especially .
This town was for a long period of time the sole centre of the relations of Europeans with the Chinese. Camoens, Saint Francois Xavier and other great men have lived there. Its churches, its convents, its public monuments dark with age attest of splendour long gone by.
The garden of Camoens is in the present day private property; it belongs to a Portuguese gentleman of the name of Marques who allows strangers to saunter beneath shady recesses so rare in China. Within this garden is the celebrated grotto where the poet is said to have in main composed his Lusiad Quotations from that immortal epic are now cut into the marble and what is more delightful to French visitors some Gallic verses in honour of the poet and the locality.
The inner port can be contemplated from a terrace in this garden as from the Pagoda of Rocks with a less oppressive noise the shouts of the tnnkaderes or boatmen and boatwomen and terrible gongs heard assiduously beaten to drive away the evil spirits a junk about to proceed on its journey come softened by distance.
The Parsees have a cemetery that rises in steps or terraces above the sea and this with the Portuguese forts built like eagles nests the so called Green Island the narrow strip that encircles Macao to the main island and the wide extent of the Celestial Empire beyond fill up a picture that is not easily forgotten by those who have once seen it. We wandered about this splendid relic of gaiety and wealth now a disjointed collection of deserted palaces haggard boat women ugly dames of Portuguese descent with handkerchiefs pinned over their faces long narrow alleys decaying churches walks parades gardens forts all corroded by time.
From the top of a great stone arbour in the old palace garden we had a fine view the old town and both harbours the inner and the outer. We came back through the Chinese town where with restless activity mechanics were working at their respective trades. Shopmen were doing a thriving business while barbers never were busier and your barber is an important personage here as elsewhere as such a man needs must be where every man has his head shaved twice a week.
No Chinaman uses anything but hot water his razor is onlytwo inches long by an inch wide which is sold for twopence and the strop a piece of stout calico may be had for a penny. See here the sallow Chinaman stretched at full length in an easy chair is enjoying his shampooing and pommellings. Shaving the head costs half n farthing yet there are seven thousand barbers in the city of Canton only. To which city we will now go steaming on as fast as the crowd of boats will let us. (...)

Nestas cerca de 10 páginas o 'retrato' de Macau é feito por um oficial da armada britânica por volta de 1859. Não se refere o nome embora nas muitas e longas notas de rodapé surjam nomes como Robert Fortune, um botânico, e George Wingrove Cooke (1814-1865), formado em direito e história que durante a Segunda Guerra do Ópio foi correspondente (jornalista) do jornal The Times (1857)
As ilustrações têm como título: The Landing Place at Macao e The Pagoda of the Rocks at Macao, representando o Porto Interior na zona do Pagode da Barra.

terça-feira, 18 de outubro de 2022

Green Island Cement Co.

Green Island (Ilha Verde) Cement é o nome da única fábrica de cimento de Hong Kong. Ainda labora e as origens remontam a Macau e ao ano de 1886. O actual logotipo da empresa remete para a colina da referida ilha. Na época era de facto uma ilha...
Anúncio de 1897

Anúncio de 1917

Vejamos um pequeno texto de 1922 intitulado "Green Island Cement Works"
Two cement works are operated by the Green Island Cement Co Ltd a British corporation operating under a Hongkong_charter with its head offices at Hongkong and managed by Shewan Tomes & Co. One of these plants is at Kokun, a suburb of Kowloon just across the bay from Hongkong. The second is on Green Island Ilha Verde at Macao about 40 miles by water from Hongkong. This is the original plant for which the company is named It was established in 1886.
The Green Island plant at Macao consists of five vertical kilns with necessary crushing mixing and grinding machinery of English make. The clinker is ground to 180 mesh in tube mills using local pebbles. The average production is about 350 barrels of 375 pounds net each. Barrels are made at the plant from pine brought from North China which cost 0.72 Mexican each. 
Limestone is brought down the river from Yintak on the North River in Kwangtung about 200 miles distant by water and costs 3.50 Mexican per ton at the plant. Clay is dug from the mud flats about one half mile from the plant and is dried on extensive drying floors in good weather and in kilns in wet weather. This plant supplies about 900 tons of this clay each week to the allied plant 40 miles distant at Hokun. The coal used varies according to the price at which the coal can be obtained. When visited by the writer, the plant was using Japanese coal from Ochi which was then quoted at 24.30 Mexican per ton in the open market at Hongkong. Before the war the price was approximately 9 Mexican for the same coal. Cement from this old type plant probably costs 5 Mexican per barrel considering the prices for raw materials to be those already stated. (...)
Excerto de Cement Industry of China, Julius Morgan Clements, 1922
Informação de um directório/lista de classificados de 1920

sexta-feira, 10 de agosto de 2018

Green Island Cement Factory: história breve


Green Island Cement (GIC) is the oldest cement company in Asia, established in Macau in 1886 (May 11). On that day Tomás de Sousa Rosa, Governor of Macau and Timor Province, granted a license to solicitor Creasy Ewens of Hong Kong to establish a cement factory in Ilha Verde (Green Island). The factory site was conveniently close to the Inner Harbor where barges brought in limestone from neighboring Kwantung Province and loaded cement for export to China.
On tha nest year Green Island Cement was also established in Hong Kong (January 3, 1887) with a factory on the kowloon coast.
For many years the company flourished but in the early 1930’s the authorities in Canton placed an embargo on imported cement and with its major source of revenue lost, Green Island Cement was forced in 1936 to close its Macau factory.

Em "Macau extracto de uma monografia", da autoria de Jaime do Inso, na década de 1920 pode ler-se: "Existe uma importante fábrica pertencente à companhia inglesa «The Green Island Cement Works», que aproveita os lodos do porto interior, ao Norte da Ilha Verde, onde se encontra instalada. A média diária da produção é de 70 toneladas, que aumentará lôgo que termine instalação de dois novos fornos, mandados fazer por a produção ser muito inferior à procura. A exportação faz-se para vários portos, principalmente para Hong Kong."
A Ilha Verde deixou de ser “ilha” em 1890 com a construção do dique que o ligava a Macau. O istmo de ligação no início conhecido pela designação de Estrada do Dique da Ilha Verde, viria a ficar com o nome do governador que o mandou construir, Avenida Conselheiro Borja. (Governador Custódio Miguel Borja, 1890-1894).
Final século 19 (em cima)
Década 1950 (em baixo)
A 7 de Maio de 1886 celebrava-se o contrato entre o Seminário de S. José e Creasy Ewens que estabelecia, na Ilha Verde, a «Green Island Company Limited» e quatro dias depois, a 11 de Maio, era concedida licença assinada pelo governador (1883-1886) Tomás de Sousa Rosa (1844-1918) ao solicitador judicial de Hong Kong, Creasy Ewens para o estabelecimento, nessa Ilha Verde, da referida fábrica.

sexta-feira, 30 de janeiro de 2015

A Zona Interdita da Ilha Verde

As origens da Ilha Verde remontam a tempos antigos. Para este post resolvi recordar o que foi em tempo a "Zona Interdita" da ilha, fruto da presença militar.
Segundo o padre Manuel Teixeira na década de "parte da Ilha Verde está alugada ao Governo da Colónia, que ali tem um pequeno destacamento de soldados, os quais escavaram trincheiras, fizeram campos de jogos, caramanchões, etc.”
A partir da década de 1960, por via da revolução cultural na China e dos momentos de instabilidade política e social que se viveram no território, o local é visto como importante do ponto de vista estratégico (vista sobre a China) e uma parte significativa da área é vedada aos civis. Foi de tal forma a interdição que os alunos do Seminário que habitualmente faziam retiros na ilha deixaram de o fazer. Aliás,  a residência de férias e dos retiros, serviram para aquartelar a Companhia Independente de Caçadores nº 3, por exemplo.
Acima, uma imagem do armazem de combustível "Mei Fu" na antiga zona interdita da Ilha Verde. O Quartel da Ilha Verde ficava no fim da Av. Conselheiro Borja e só era permitida a entrada aos residentes nessa zona considerada interdita mediante apresentação duma medalha de alumínio fornecida pelo Corpo da PSP. As medalhas era requisitadas na esquadra nº 4 (junto ao Canídromo)
Ponte-cais para os barcos de abastecimento de combustíveis aos depósitos da Ilha Verde
A zona interdita contornava o quartel e ficava a cerca de 200 metros da China. Do outro lado, também havia um posto militar pelo que se vigiavam uns aos outros. Toda a zona da ilha verde tinha casa-matas e trincheiras.
Segundo Carlos Dias, que conhecia bem o local na década de 1970, o espaço  "ficava mesmo atrás do antigo Matadouro Municipal perto da Estrada D. João Paulino, onde anualmente durante o inverno, a partir de Novembro a Fevereiro, os aficcionados em fotografia iam lá tirar fotos de gaivotas que eram atraídas pelos restos de sangue, gordura e outros despojos resultantes do matadouro. Este lugar já não existe. Fizeram lá um pequeno aterro conquistado ao mar e está um edifício e um parque para estacionamento de viaturas…"
No início de Dezembro de 1970 a CCAÇ8 estava no Quartel da Ilha Verde e foi 'reforçada' com elementos da CCAÇ2760 que era comandada pelo capitão de infantaria António Manuel Salavessa da Costa e que ali fica até Janeiro de 1973. 
A CCAÇ8 tb chegou a fazer serviço em Coloane e foi desactivada no final de 1974, ano em que o Comando Territorial de Macau terminou

As CCAÇ 2760 e a 2761 chegaram a Macau na mesma data (12 Dez. 1970 - julgo que no 'Índia'): uma 'marchou' para a Ilha Verde e outra para Mong Há. Muitos militares, recorda um recruta local na época, eram oriundos da Madeira e no final da comissão de serviço acabaram por ficar em Macau/emigrar para a Austrália com a ajuda do padre Lancelote Rodrigues.
1970: curso de Sargentos Milicianos. Foto de M. Cardoso
A ilha Verde ao fundo ligada à península pelo istmo. Década 1930-40
Vista a partir do Quartel. Foto de Alfredo Silva

sexta-feira, 27 de setembro de 2013

Fábrica de cimento da Ilha Verde

Ainda a Ilha Verde não estava integrada na Península de Macau, ligação que ocorreu em 1890-92 por ordem do governador Conselheiro Custódio Miguel Borja quando, a 7 de Maio de 1886, o seminário de S. José realizou um contrato com o senhor Creasy Evens. Este inglês pretendia, numa parte da ilha, estabelecer a Companhia de Cimento da Ilha Verde, ‘Green Island Cement Company, Limited’; era a primeira existente na China. Após o Governo de Macau, em 13 do mesmo mês, ter passado o alvará de licença, publicado no Boletim Oficial n.º 20, de 20 do dito mês de Maio, ali ficou estabelecida a fábrica. Este contrato, em anos posteriores, sofreu alterações nas suas cláusulas, sendo também reconhecido pela P.P. nº 51 de 10-6-1889.
A 10 de Agosto de 1887, por se reconhecer operacionalidade na Companhia Industrial de Cimento na Ilha Verde é-lhe cometida a tarefa de extracção do lodo, que rapidamente se acumulava nos fundos do rio Oeste no Porto Interior. Tinha adjacente a produção de tijolos e cal e, para além de servir Macau, também exportava. Decaiu quando, cerca de meio século mais tarde, deixou de receber matéria-prima de Cantão.
Em 1911, dá-se início, pela Casa MacDonald, à abertura do canal entre a Rada e a Ilha Verde. Mas “além dessa importantíssima fábrica, propriedade de uma companhia inglesa, arrendatária, como já se disse, ao Seminário de S. José e licenciada legalmente pelo Governo de Macau e deste contribuinte e cujas instalações ocupam uma grande área da antiga ilha, nesta existem um destacamento militar, uma delegação oficial da Direcção das Obras dos Portos de Macau com os seus depósitos e pessoal, várias outras construções, parques de ostreiras pagando os seus impostos ao Governo Português, havendo também ali a indústria da exploração, já iniciada há muitos anos, de pedreiras de natureza granítica, com uma produção verdadeiramente apreciável, e para a exploração da qual é paga renda ao Seminário de S. José e são satisfeitos impostos ao Governo de Macau”. 
Breve Memória Documentada acêrca da Soberania de Portugal na Ilha Verde, do Governo da Província de Macau, (Imprensa Nacional, de 1922 Macau).
Nota do autor do blog: Este postal - imediatamente acima - foi editado no início do séc. XX e a julgar pela legenda seria de supor que retrata a fábrica de cimento da ilha Verde. Um olhar mais atento prova que não. Trata-se da Taikoo Sugarworks em Hong Kong. O erro deveu-se ao facto do postal ser impresso na então colónia britânica havendo uma troca de imagens. No postal acima pode ver-se o que foi a verdadeira fábrica de cimento da ilha Verde. Neste em baixo a fábrica de Hong Kong. O erro/lapso tem vindo a ser replicado ao longo dos anos e pode ser encontrado, p.e., no livro "Macau 1844-1974" na pág. 78. A imagem que se afirma ser da fábrica de cimento em Macau em 1920 é de facto a de Hong Kong. Estamos perante um erro que se perpetua há mais de cem anos...
 
Os terrenos conquistados ao mar em finais de década de 20 do século XX nos novos aterros do Porto Interior e exterior e na ilha da Taipa, numa superfície de quase 150 hectares, equivaliam a um terço da área da península de Macau nessa altura. Pelos aterros unira-se definitivamente à Ilha Verde a parte peninsular, a mesma ilha Verde onde já havia falido a empresa a que antes se vaticinara: “A fábrica de cimento, vasta, espaçosa, muito bem construída e movida a vapor, deve dar um excelente resultado, pois todo o cimento que se gasta no Oriente é importado da Europa. (...) além da fábrica apenas existe uma construção que pertence ao seminário. A ilha, ouriçada de penedos, de mato e de algumas árvores é tão pequena que essa volta se faz a pé em meia hora” .
Conde de Arnoso no livro Jornadas pelo Mundo.
Segundo Silveira Machado no seu livro Macau na Memória do Tempo: Em 1925 a fábrica foi transferida para Hong Kong e faliu em 1936. “Os quatro fornos de altas chaminés, a complicada maquinaria e todos os outros equipamentos e apetrechos desapareceram da extensa área que aquela unidade industrial ocupava.”
De acordo com o contrato, todas as construções, incluindo a residência do gerente, edificadas no terreno da Missão, juntamente com todos os edifícios levantados dentro dos muros da Ilha Verde, foram entregues ao Seminário. Também entregues foram o armazém de ferro fundido e os dois edifícios que serviam de secretaria da Companhia, que estão construídos uma parte sobre o terreno da Missão e a outra sobre terrenos conquistados ao mar. Após a Green Island Cement Company ter rescindido o contrato, o senhor L. R. Brown arrendou parte da Ilha Verde em 1937, ocupando algumas casas deixadas pela falida Companhia de cimento. Boletim Eclesiástico da Diocese de Macau. “Depois da retirada deste arrendatário e dado o grande número de refugiados chineses devido à Guerra Sino-nipónica, as casas da Ilha Verde foram arrendadas a vários chineses para habitação, indústria, armazém e escolas. Parte está (1940) arrendada ao Governo.” Padre Manuel Teixeira
As residências dos proprietários e administradores passaram então a ser casas de férias dos alunos do Seminário de S. José. “O edifício que servia de secretaria da Companhia (do cimento) foi aumentado com 45 quartos pelo bispo D. Paulo José Tavares, servindo de Casa de Retiros”, segundo o padre Manuel Teixeira.
Os militares militares na Ilha Verde
Devido ao facto de a Ilha Verde ser o único ponto saliente no curso do rio, por onde todas as embarcações teriam de passar, esta foi aproveitada para baluarte de defesa da fronteira.
O padre Manuel Teixeira escreve em 1940: “Hoje parte da Ilha Verde está alugada ao Governo da Colónia, que ali tem um pequeno destacamento de soldados, os quais escavaram trincheiras, fizeram campos de jogos, caramanchões, etc.”
Para a Ilha Verde foi enviada em 1949 uma companhia militar do exército português e durante a Revolução Cultural vedada aos civis, deixando os alunos do Seminário de irem aí fazer os seus retiros, para que os militares vigiassem as movimentações da parte chinesa. A residência de férias e de retiros, na costa sul da ilha, logo à direita da entrada do portal em arco, serviram depois, em 1962/3 para aquartelar a Companhia Independente de Caçadores nº 3. Em 12 de Maio de 1953 realizou-se a festa de Nossa Senhora de Fátima no Aquartelamento da ilha Verde, havendo a inauguração de um altar-gruta.
Segundo o professor Jorge Cavalheiro, durante o período da Revolução Cultural, a ilha Verde era um local militar, estando vedado à entrada de civis. Por isso, os retiros que os estudantes do Seminário até então faziam, deixaram-se de se realizar. Os militares nas vigias que em torno da ilha se encontravam observavam os descampados do território chinês de Zhuhai. O exército português saiu de Macau no fim do ano de 1975.
Artigo da autoria de José Simões Morais publicado no JTM de 2-9-2011

segunda-feira, 12 de agosto de 2013

A construção dos muros na Ilha Verde

Quando por ordem do Conselheiro Borja se começou em 1890 a construir o dique para ligar a ilha Verde à península de Macau, o bispo D. António Joaquim de Medeiros começou a perceber quais poderiam ser as intenções do governador. Lembrou-se então que, já em 1873 o delegado do Procurador da Coroa e Fazenda contestara o direito do Seminário de S. José à posse da Ilha Verde, pois aí pretendia fazer um logradouro público. Como o tribunal decidira a favor do Seminário, o problema parecia ter ficado resolvido. Agora, seria possível que, com a construção do istmo, se voltasse a pensar fazer da Ilha Verde, com uma frondosa vegetação, um lugar privilegiado de recreio para a população de Macau?
Pelo sim, pelo não, o bispo D. António Joaquim de Medeiros (1885-97) mandou amuralhar a ilha, que pertencia ao Seminário de S. José. Também a questão do muro, que em 1834 estava já feito em três quartas partes, apesar do edital de 3 de Setembro de 1831, redigido pelo mandarim Cso-tang de Macau, proibir a construção de muros na ilha Verde pois o terreno fora dos muros (da cidade cristã) pertencia ao palácio imperial, parecia ter ficado resolvida após 1849, com Ferreira do Amaral. Assim, ao terminar a obra do dique, o bispo mandou fechar o portão da ilha Verde, participando em 19 de Janeiro de 1892 ao governador que todas as vezes que quisesse ir lá para piquenique, pedisse a chave ao reitor do Seminário.
No dia da inauguração do dique, o prelado “escreveu ao governador a felicitá-lo e a oferecer-lhe hospedagem na Ilha” nestes termos: “Quando lá quiser ir descansar ou veranear, é só pedir a chave ao Reitor do Seminário, que terá muito gosto em lhe ser agradável”. Foi só pelo “memorandum” n.º 2 apresentado pelo Comissário Chinês Kao, na 3ª sessão de 2 de Agosto de 1909, da Comissão de delimitação de Macau e suas dependências, que teve lugar em Hong Kong, sendo Alto-Comissário por parte do Governo Português o general Joaquim Machado, que o governo chinês reconheceu expressamente a ocupação portuguesa na Ilha Verde.
Os aterros da Ilha Verde
Não deixa de ser curioso o facto da propriedade da diocese se restringir à parte montanhosa da ilha e a algumas dependências da antiga fábrica de cimento, com os seus campos de recreio e anexos. Já a parte plana, que se estende até à beira do rio e ao Canal dos Patos, foi sendo ocupada por população chinesa. De ambos os lados da montanha, com o tempo, os terrenos foram invadidos e depois vendidos, a particulares, para construção. Dado o grande número de refugiados chineses devido à Guerra Sino-nipónica, as casas da Ilha Verde que ficavam fora do muro do Seminário foram já antes de 1940 arrendadas a vários chineses para habitação, indústria, armazém e escolas.
O Bairro da Ilha Verde foi construído com barracas e as 12 ruas que o compõem têm o nome com números. Em 13 de Dezembro de 1950, o bairro foi palco de um incêndio, que deixou sem abrigo 2.500 chineses pobres. O Governo da Província, com a colaboração da Comissão Central de Assistência Pública e das três principais associações chinesas, reconstruiu no espaço de um mês o bairro. Para a sua segurança, a C.C.A.P. dotou-o com um posto de incêndio e uma retrete pública. Também foi construído um amplo barracão onde foi instalada uma escola gratuita para as crianças aí residentes.
Mas de novo, em 10 de Janeiro de 1955, um outro incêndio devorou todas as casas feitas de madeira, ficando sem habitações cerca de 5 mil chineses. Com a contribuição de Macau, passado um mês e meio já as novas casas de zinco estavam prontas.
O padre Lancelote angariou apoios para serem construídas centenas de casas de pedra, no istmo da Ilha Verde e aí fundou a Casa de S. José em 1957, hoje Escola de Santa Teresa do Menino Jesus.
O padre Manuel Teixeira diz: “Na zona SW desta pequena ilha, ora ligada à Península pelo Istmo Conselheiro Borja, encontra-se um vasto recinto vedado, ainda hoje (1960) ocupado por dependências do Seminário de S. José. Este recinto, que pela vegetação existente, facilmente se constata que seguia pela orla oriental englobando, antigamente, terrenos que, hoje, fazem parte da Companhia Independente de Caçadores nº 3, que, por aluguer, os ocupa”...”Hoje da opulenta e riquíssima vegetação, já, pouco, resta, pois, entregues à Natureza, à míngua de cuidados especiais, que o seu exotismo requeria, muitas espécies foram degenerando e morrendo. Por outro lado, a cobiça e a ignorância de certos homens, a pouco e pouco acabaram por destruir as espécies mais valiosas tais como árvores de sândalo, que, há menos de meio século, ainda existiam dentro da zona militar.”
Nos anos 80 em torno da ilha foi-se conquistando terra ao rio, para onde foram colocadas muitas empresas. Segundo Silveira Machado no seu livro Macau na Memória do Tempo “O aplanamento à volta da ilha (realizado nos anos 80 do século XX), a construção de cais e pontes ali próximo, o alinhamento do rio naquela extensão e para o lado do istmo, permitiram que outras indústrias ali se instalassem, contando-se entre elas, além de outras de menor volume, uma fábrica de papel de embalagem, cartão e cartolina, uma fábrica de gelo, outra de fabrico de louça esmaltada e, ainda uma de produtos de espuma de borracha. Assim, foi-se modificando o aspecto físico e paisagístico da ilha, o que levou a um crescimento das actividades concentradas nessa zona. E, hoje, a par de outras unidades industriais, de oficinas de reparação de carros, e de bastante comércio, ali laboram dois complexos de relevante importância para a economia de Macau e abastecimento da sua população: o Matadouro de Macau e a Fábrica de Coca-Cola.”
No final do primeiro decénio do terceiro milénio, na parte Noroeste da zona da Ilha Verde começou a construção de dois enormes edifícios para habitação económica. Parada há uns anos, encontra-se a fase de preparação do terreno para albergar a Universidade de S. José em terrenos da Ilha Verde. Presente na memória de todos está a recente demolição das barracas nos aterros da Ilha Verde.
Artigo da autoria de José Simões Morais, investigador, publicado no JTM de 5-9-2011

segunda-feira, 5 de agosto de 2013

A decadência da Ilha Verde

Devido ao decreto pombalino de 3 de Setembro de 1759, os jesuítas são presos e expulsos de Macau em 5 de Julho de 1762. Em 13 de Dezembro de 1763, a quinta da Ilha Verde foi entregue com todos os pertences, judicialmente pelo juiz ordinário e dos feitos da Coroa e da Fazenda, por auto público, a Manuel José Batalha, alferes de infantaria da Fortaleza de S. Paulo do Monte. Por este documento fica-se “a saber que existiam na Ilha Verde uma capela, uma sacristia, uma galeria que conduzia ao coro, uma habitação próxima ao refeitório com seus pertences. Não se faz menção aí do colégio, observatório, ou jardim botânico. Este inventário devia servir de consto no caso que qualquer pessoa que viesse a ser dono da ilha tivesse em qualquer tempo de a restituir ao Rei de Portugal, quando uma reversão tivesse lugar.” Mas como os Colégios de S. Paulo e S. José dos Jesuítas deviam 6147 taéis a Simão Vicente Rosa, ele, que nessa altura se encontrava em Goa, como forma de reaver essa dívida em 1765 consentiu ficar com a Ilha Verde por essa quantia. Tentou-se ainda leiloar a propriedade da ilha, mas não houve ninguém que oferecesse coisa alguma. Em 14 de Abril de 1766 o Governo de Goa dá ordem ao Senado para entregar a ilha a Simão Vicente Rosa. Esta durante algum tempo conservou-se em bom estado e tratada e qualquer pessoa respeitável podia, com a devida permissão, passar um dia na ilha.
Em 31 de Janeiro de 1773 faleceu Simão Vicente Rosa, legando a ilha Verde à sua filha, Ana de Araújo Rosa. Os anos foram passando e os edifícios foram demolidos e os materiais vendidos, ficando a ilha ao abandono. Quando Ana de Araújo Rosa faleceu, a ilha foi vendida em leilão e arrematada por Manuel Homem de Carvalho e Bernardo Gomes de Lemos por 501 taéis, em 1 de Setembro de 1813. A controvérsia estalou sobre o legítimo herdeiro da ilha, que opôs em 22 de Agosto de 1814 a neta de Simão Rosa, Margarida Carvalho Milner ao seu pai, Manuel Homem de Carvalho. A contenda só terminou em 18 de Abril de 1822, quando o ouvidor Miguel de Arriaga obrigou Margarida Milner a pagar as custas do processo.
No jornal Abelha da China, veio um aviso na página 20 do dia 10 de Outubro de 1822 que dizia: “Pelo Juizo da Ouvidoria Geral se há-de vender a Ilha Verde, havendo a pregoações nos dias quarta-feira, sábado, e quarta-feira, 9, 12, e 16 do corrente, para ser arrematada no ultimo dos dias referidos, a quem mais der.” Já no dia 24 de Outubro de 1822 na página 28 no espaço referenciado como Leilão se pode ler: “Pela Repartição do Juizo da Ouvidoria Geral se ultimará no dia sábado 26 do corrente a venda do Brigue S. Pedro e da Ilha Verde, esta sobre 5000 patacas, e aquele sobre 3000 patacas.” Mas já em 15 de Março de 1820, a Ilha Verde (com árvores frutíferas e casas nela construídas) fora comprada por 2000 patacas Espanholas pelo Pe. Nicolau Rodrigues Pereira de Borja, Superior do Seminário de S. José, por conta do mesmo Colégio. A Ordem dos Jesuítas fora restaurada em 1814. A escritura, lavrada nas notas do tabelião de Macau, José Gabriel Mendes, sobre a posse pelo Seminário de S. José (que faz parte do Padroado Português no Oriente) da Ilha Verde foi feita a 15 de Março de 1828, apesar dos Jesuítas muito antes se terem aí estabelecido. Beatriz Basto da Silva na Cronologia da História de Macau: “A ilha tinha 3300 paos ou côvados chineses medidos por cima do alicerce do muro velho, em circuito.” O dinheiro, entregue antecipadamente, serviu para Bernardo Gomes de Lemos pagar as dívidas contraídas aos chineses que, por isso iam ocupando a ilha e aí construindo barracas. Passava a ilha a servir de recreio próprio a uma casa de educação.
A 4 de Novembro de 1828 o Mandarim de Heong-San proibiu por Edital que se continuasse a quebrar um grande rochedo na ilha Verde. Os jesuítas voltam a construir na ilha Verde uma capela, uma casa com uma sala para receber hóspedes e quartos para professores, que vão para aí passar os dois meses de férias. Há também “casas para o feitor e para os guardas bem como currais para quadrúpedes domésticos e abrigos para galinhas e pombos etc.. no meio há uma área espaçosa aberta, e no alto há muitas árvores de pinheiro, nos lugares mais conspícuos há árvores frutíferas, há hortaliças e lugares para pastagem dos animais.” Os jesuítas começam a cercar a ilha com um muro como era antigamente.
Em 3 de Setembro de 1831, um edital do mandarim Cso-tang de Macau, Chen, proíbe a construção de muros na ilha Verde já que o terreno fora dos muros (da cidade cristã) pertence ao palácio imperial. “Ora a ilha Verde, que está fora de Macau, situada no meio do mar, em distância de alguns lis, nada tem com as habitações europeias. Não se pode, portanto, consentir que seja designada como propriedade europeia, e que ali se fabriquem muros porque deste modo se transgridem leis.” Já anteriormente, em 21 de Julho desse mesmo ano o mandarim de Heong-San tinha reclamado contra as obras que se estavam a efectuar na Ilha Verde. “Em 1833, o P. Leite construiu lá uma casa, uma capela e um muro, pelo que foi louvado pela Rainha D. Maria I em 23-11-1842.” (Macau e a sua Diocese). Esse muro em 1834 estava já feito em três quartas partes, prevendo-se para breve a sua conclusão. Defronte da casa principal há um cais para desembarque e entre elas encontram-se muitas árvores de pagode e ao sul há uma pequena bacia com comporta. Em 23 de Julho de 1834, procede-se à bênção da capela. Estão na ilha um inspector e cinco escravos para tratar dela.
Em 1844, a Comunidade Americana fez uma festa na Ilha Verde para celebrar a assinatura do I Tratado Sino-Americano que fora realizada na mesa de pedra do pagode de Kun Iam. Em 1865, no cume da colina da ilha Verde foi iniciada a construção de uma fortificação que não chegou a ser concluída e de que nada resta, segundo informação de Jorge Graça no livro Fortificações de Macau. A sua função era vigiar o continente chinês devido à afronta que o governador Ferreira do Amaral fizera aos chineses abrindo três estradas para fora das portas da cidade e ocupando as várzeas chinesas, removendo inúmeras campas.
Segundo o P. Manuel Teixeira “Em 1872, o P. António Luís de Carvalho construiu lá uma capela dedicada a S. António.” “Em 1873, o Delegado do Procurador da Coroa e Fazenda contestara o direito do Seminário de S. José à posse da Ilha Verde, pretendendo fazer dela um logradouro público; mas o Tribunal decidiu a favor do Seminário como se pode ver do processo de Julho desse ano.” A Educação em Macau P. Manuel Teixeira. 
Esse episódio está narrado em mais uma das muitas disputas entre os jornais, O Independente e a Gazeta de Macau e Timor do ano de 1873. Enquanto O Independente, apregoava ter sido a Ilha Verde “sempre um logradouro público desde épocas remotas, sem entrarmos na discussão acerca de ser ou não ser ela uma propriedade do seminário de S. José, cujos pontos são diferentes, apesar de parecerem a mesma coisa. Vamos por tanto demonstrar esta diferença para acabar com essa confusão”...”Toda a cidade de Macau pertence à nação portuguesa, e é o governo que concede ou afora terrenos às pessoas particulares para o fabrico de casas, chácaras, etc. Uma pessoa qualquer que queira obter um bocado de terreno em qualquer parte da cidade, e mesmo no campo, tem de o pedir ao governo para o aforar: e o governo que pode dispor deste terreno, não pode contudo impedir a pessoa alguma o seu passeio nem pela cidade nem pelo campo. É isto que o bom senso chama logradouro público; e é debaixo deste ponto de vista que sustentámos e sustentaremos que a Ilha Verde é um logradouro público como é o campo e toda a parte da cidade que não é ocupada por casas, quintais, jardins, ou hortas.” 
A Gazeta de Macau e Timor tinha publicado pelo Pe. Carvalho quatro documentos para provar que a Ilha Verde não é um lugar público, pois pertence ao Seminário de S. José. Entre Agosto e Setembro de 1888 foram montados lazaretos em várias partes de Macau, entre eles na ilha Verde, para acolherem as tropas portuguesas, que de barco chegaram à praia de Cacilhas e vinham contagiadas com cólera morbus contraída durante a sua passagem por Hong Kong. Talvez tenha sido por esse motivo que a ilha ficou abandonada e assim muitas embarcações chinesas por aí permaneciam o que levou o Governo Português de Macau a apresentar um protesto ao Vice-Rei de Cantão, datado de 15 de Junho de 1890, contra essa ocupação.
Artigo da autoria de José Simões Morais publicado no JTM de 18-8-2011

terça-feira, 23 de julho de 2013

Departamento asiático da Biblioteca do Congresso EUA

O departamento dedicado à Ásia da Biblioteca do Congresso dos EUA tem hoje mais de um milhão de documentos. Tudo começou em... Macau no já longínquo final do século 19.
Foi precisamente numa mesa de pedra localizada num dos jardins do templo de Kun Iam Tong que foi assinado o primeiro tratado sino-americano em 3 de Julho de 1844 pelo Vice-Rei de Cantão, Ki Jing, e o ministro Caleb Cushing dos EUA. Este tratado é também conhecido como o "Tratado Sino-Americano de Mong-Há".
Tratado de Wanghia (望廈條約, pinyin: Wàngxià tiáoyuē) foi um acordo diplomático assinado entre a Dinastia Qing e os Estados Unidos. É considerado um exemplo dos chamados “tratados desiguais". Instituía, por exemplo, só para os cidadãos norte-americanos residentes na China, o privilégio da extra-territorialidade.


Chinese books played a central role in the development of the Library's Asian language collection during the nineteenth and early twentieth centuries. In fact, the Library's first special unit to take care of Asian holdings, established in 1928, was called the "Division of Chinese Literature." How did the Library's Chinese collection begin? A good starting point is February 23, 1844, when the USS Brandywine dropped anchor in Macau's harbor, on China's southern coast. The Brandywine's arrival attracted more than usual attention in the Portuguese colony, for aboard was the first U.S. Minister to China, Caleb Cushing. A politician and lawyer, Cushing had been appointed by President Tyler to negotiate the Treaty of Wang hsia, which would give the United States the same trading privileges China had granted Great Britain only two years earlier in the Treaty of Nanking. Cushing intended to proceed on to Peking but the Chinese insisted he wait in Macau for the arrival of the emperor's representative. During the nearly four months before the Chinese delegation arrived, Cushing set up a legation on Macau's pleasant Praia Grande, overlooking the harbor, and continued his study of China, including both the Chinese and Manchu languages.Cushing had excellent tutors. One of those was Dr. Peter Parker, an American medical missionary working in Canton. Cushing appointed Parker and another missionary, Elijah Coleman Bridgeman, as joint "Chinese Secretaries" to the mission. A third American missionary, S. Wells Williams, became an unofficial adviser and will reappear later in the story of the Library's Chinese collection. Williams and Bridgeman published a missionary newspaper, The Chinese Repository, still an important resource for scholars and available in the Library's Rare Book and Special Collections Division. An avid bibliophile, Cushing also used his long wait to buy Chinese books, relying on the three missionaries, who in turn appear to have been assisted by Chinese Christian convert, Liang Afa, who was a printer with wide contacts among Canton's booksellers. By the time Cushing had completed the treaty and was ready to leave Macau at the end of August 1844, he had developed an excellent library of Chinese classics. It was this collection, acquired in 1879, that formed part of the original core of the Library's Chinese holdings. In addition, Cushing's personal papers, including his original card catalog, can be found in the Manuscript Division of the Library. The 237 titles (2,547 volumes) that make up the Cushing collection include history, medicine, classics, poetry, fiction, ethics, astronomy, essays, and dictionaries. It took thirty-five years, however, before the Cushing collection found its way to the Library. In the meantime, another group of Chinese books had the honor of being the first on the Library's shelves. In 1869, America's interest in China was growing, in part as the result of the previous year's visit to Washington, D.C., of an official Chinese delegation led by the former U.S. minister to China, Anson Burlingame, whose personal papers are now in the Library's Manuscript Division. It was also in 1869 that the U.S. legation in Peking received ten works, consisting of some 934 volumes, from the Chinese government as the result of an international exchange system authorized by Congress in 1867. The American diplomat who played a central role during the two years it took the legation in Peking to negotiate the exchange was none other than S. Wells Williams, the former missionary publisher who had assisted Caleb Cushing in 1844. Carefully listed and annotated by Williams, the books included the Confucian classics and works on medicine, botany, language, philosophy, and mathematics, each with the notation: "Presented to the Government of the U.S.A. by His Majesty the Emperor of China, June 1869."
View of Green Island, Macau, 1844. George West was the official artist attached to U.S. Minister Caleb Cushing's delegation during negotiation of the first U.S. treaty with China in 1844. During Cushing's five-month stay in the Portuguese territory of Macau on China's southern coast, West sketched and painted numerous local scenes. In this watercolor, West shows Green Island (Ilha Verde), a prominent feature in Macau's inner harbor and the site of a seventeenthcentury Jesuit monastery, abandoned by the time West saw it. Today, as the result of land reclamation, Green Island is part of the Macau peninsula. (Caleb Cushing Collection, Manuscript Division)
Texto (em inglês) e imagem da Biblioteca do Congresso dos EUA