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terça-feira, 26 de agosto de 2014
quinta-feira, 10 de fevereiro de 2011
Recordando Leonel Barros
A Sala de Colecções Raras da Universidade de Macau vai receber um exemplar de “Macau – Coisas da Terra e do Céu”, autografado por Leonel Barros. O autor do livro, que faleceu no início de Fevereiro, era considerado um contador de histórias de Macau e um “filho da terra”. Leonel Barros tem várias obras espalhadas pelo território. “Macau – Coisas da Terra e do Céu” foi publicado em 1999 e debruça-se em aspectos da vivência de Macau, lendas e tradições. Anteriormente detido pela Biblioteca Comendador Joaquim Morais Alves do Instituto Internacional de Macau, o livro vai agora ser entregue à Universidade de Macau, de forma a assinalar a morte deste promotor da cultura do território.Sempre ouvi dizer que as más notícias se espalham a velocidade bem maior que as boas e hoje, com os meios de comunicação disponíveis, é num instante que delas tomamos conhecimento. Vem isto propósito da infausta notícia do falecimento do Leonel Barros figura muito estimada da comunidade macaense com quem, ao longo de anos, partilhei muitos e agradáveis momentos.
Notícia do Hoje Macau de 10-2-2011
"Embora nunca tivesse estado em Portugal, evidenciou um grande sentimento de portugalidade e, como há anos tive oportunidade de referir, a simplicidade e a filantropia eram traves mestras da sua postura. Natural de Macau aí se criou tendo, desde muito cedo, manifestado uma invulgar propensão pelo desenho e a música, a que, anos mais tarde, se juntaria o gosto pela criação de animais, prática que fazia com enorme amplitude, pois além de dúzia e meia de cães, fui testemunha que, em casa, chegou a ter cobras que, perigosas ou não, guardava em sacos de pano e às quais ma-nuseava com afagos!
Notícia do Hoje Macau de 10-2-2011
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| A família esteve ligada aos vapores que faziam a ligação entre Macau e Cantão. 'Neca' fez muitas viagens ainda adolescente |
A nossa relação pessoal teve início aí por volta de 1974, quando vivíamos ao lado do demolido Bairro Albano de Oliveira e ele me deu a conhecer interessantes apontamentos sobre ofídios que, desde logo o incentivei a publicar, e vieram a público em 1978. A facilidade com que manuseava o lápis era impressionante e constituía um regalo vê-lo criar as mais diferentes imagens, delas se valendo e bem para ilustrar os textos que redigia. Por diversas vezes tive o privilégio de o ver desenhar, deliciando-me com as peças que com graça e subtileza fazia despontar. Como esquecer o trabalho que executou na sala de refeições do antigo Hotel Bela Vista, em que com pequenos azulejos reproduziu, com grande fidelidade, a Torre de Belém, desde há anos foi classificada como peça portuguesa de Património Mundial? E a sessão de desenho que, certa tarde no Hotel Hyatt proporcionou aos membros do Rotary Club Amagao! Durante os anos em que trabalhei nos SFAM, foi um excelente colaborador que contribuiu para ilustras temas relacionados com a conservação da natureza, a origem de animais e plantas, tem-do-lhe muito a ficado dever as primeiras “Semanas Verdes de Macau” realizadas no início dos anos oitenta. E, é com particular comoção que dele me recordo ao desfolhar o livro de poemas que editei por ocasião dos meus 25 anos de residência permanente em Macau, onde figuram sete desenhos de sua autoria e alusivos aos temas em apreço.
A música foi outra área em que se moveu com facilidade tendo-se revelado bom executante de diferentes instrumentos como sejam a flauta, viola e bateria. Tal dom e a afabilidade de relacionamento levaram-no a integrar conjuntos musicais, como o “Six Rockers”. Sempre sorridente e bem-disposto, a sua presença era contagiante e, por diversas vezes o vi actuar. Aliás, o Neco como vulgarmente era tratado, constituía presença obrigatória nas peças de autoria doutro grande macaense e amigo que foi José dos Santos Ferreira, vulgo Adé. Em minha casa, onde, de quando em vez, aparecia prendia a atenção das minhas filhas que, encantadas, o ouviam contar histórias locais, valorizadas pela abundância de gestos e a nunca faltavam os efeitos sonoros. Era o que se pode classificar com um entertainer nato. Funcionário do Montepio, entidade de que se aposentou em meados dos anos 70, cultivou, em profundidade e anos a fio, o gosto pelos animais, sendo muito requeridos os valiosos préstimos que, em sua casa, a qualquer hora e fosse a quem fosse, disponibilizava minimizando o sofrimento de animais e sem cobrar tratamentos cujos encargos suportava, chegando ao ponto de ceder medicamentos que adquiria e armazenava numa pequena farmácia. Os animais aprisionados em estreitas gaiolas de rede ou gradeadas a ferro e prontos a ser consumidos em alguns dos restaurantes da Rua da Felicidade tinham nele condoído protector, tendo chegado a conseguir que alguns fossem libertados e salvos. Quanto às peças existentes no Jardim da Flora tiveram nele um dedicado amigo a quem nem as inúmeras mordeduras dos macacos impediram de, com grande frequência, os visitar e tratar. Dotado dum arguto olhar, conseguia aperceber-se do estado dos animais em cativeiro e muitas vezes o vi recomendar determinado medicamento ou a aplicação dum reforço vitamínico. Aí, bem merecia que o seu nome fosse perpetuado junto à fonte ou ao lado do busto de Alfredo Augusto de Almeida ((1898-1971) outro conceituado macaense que se revelou ser profundo conhecedor da flora local. Seria a homenagem da sua terra.
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| Era assim Macau (1939) na juventude de Leonel Barros |
Com uma prodigiosa memória era capaz de descrever cenas ocorridas há dezenas de anos e chamar à colação intervenientes que delas guardavam vaga lembrança ou total esquecimento. Em boa hora a Associação Promotora da Instrução dos Macaenses (APIM) lhe encomendou a redacção de memórias e tradições macaenses, as quais veio a editar em alguns volumes que devem constituir leitura obrigatória para quem tencione conhecer o que foi Macau. Foi pois com imensa tristeza e uma lágrima incontida que soube que falecera. Paz à sua alma."
Artigo de António Estácio publicado no JTM de 8-2-2011
quarta-feira, 2 de fevereiro de 2011
Leonel Barros: referência da cultura macaense
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| Leonel Barros em 2007 - foto de António Falcão/Bloomland |
Natural de Macau onde nasceu em agosto de 1924, faleceu na noite de segunda-feira Leonel Zilhão Ayres da Silva Barros, conhecido contador de histórias de Macau a quem os amigos chamavam apenas “Neco”.
Português de nacionalidade, como se fazia referir em vários livros que publicou, Leonel Barros era oriundo de uma família tradicional de Macau e ao longo da sua vida dedicou muito do seu tempo à cultura e aos animais, uma das suas paixões.
Através dos desenhos, das aguarelas, da pintura a óleo ou em azulejo, Leonel Barros tinha várias obras em Macau, entre as quais um painel que executou para a sala de refeições do antigo hotel da Bela Vista, hoje a residência consular portuguesa, e na qual destacava a Torre de Belém.
Observador do quotidiano de Macau, Leonel Barros era um contador de histórias e nos últimos anos trabalhou em vários livros – como Igrejas e Ritos de Macau, publicado em 2010, Tradições Populares, de 2004, Memórias Náuticas (2003).
Funcionário público de carreira teve intervenção decisiva na construção do mini-zoológico do jardim da Flora, o a granja no parque de Seac Pai Van, na ilha de Coloane, que hoje alberga também o casal de pandas oferecido por Pequim aquando do décimo aniversário da transferência de poderes de Macau de Portugal para a China.
Em Macau, além do Governo, Leonel Barros trabalhou para a Companhia de Electricidade local e foi um dos responsáveis da equipa que criou e instalou o Museu Marítimo ou o Museu de Macau, onde teve um papel na “construção” da casa tradicional das famílias macaenses.
A sua dedicação a Macau valeu-lhe a Medalha de Mérito Cultural em 1995 ou um louvor pela Capitania dos Portos de Macau em 1999, ainda na administração portuguesa. Colaborador assíduo da imprensa, manteve sempre um espaço no Jornal Tribuna de Macau desde a fundação do periódico, na altura semanário, em Novembro de 1982.
A música levou-o a instrumentos como a viola, flauta e bateria, integrando vários conjuntos musicais como a antiga banda do Hotel Estoril, onde teve inicio a nova era do jogo em Macau com Stanley Ho, ou a banda Six Rockers que animava serões da Macau de outrora.
Notícia da agência Lusa de 1-2-2011.
2003
2004
2006
Leonel Barros só começou a escrever por volta dos 80 anos de vida, mas ainda muito a tempo de nos deixar cerca de uma dezena de títulos que são uma testemunho precioso da identidade macaense. Desde a primeira hora - e já lá vão três anos - que aqui no "Macau Antigo" Leonel Barros é presença assídua. E vai continuar sê-lo. Diversos posts revelam a sua passagem pelo Liceu, pela tropa (durante a Guerra do Pacífico), pela função pública, pela música ("Six Rockers"). Por onde passou deixou marcas da sua arte, quer fosse na música, no desenho, pintura e por fim na escrita.
Em boa hora o Jornal Tribuna de Macau e, mais tarde a APIM deram a conhecer o muito que fez pela preservação e divulgação da cultura macaense.
Livros:
“Macau – Coisas da Terra e do Céu” (Direcção dos Serviços de Educação e Juventude, 1999), “Templos, Lendas e Rituais – Macau” (Associação Promotora da Instrução de Macaenses – APIM, 2003), “Memórias Náuticas – Macau” (APIM, 2003), "Tradições Populares (APIM, 2004) e “Memórias do Oriente em Guerra – Macau” (APIM, 2006), "Homens Ilustres e Benfeitores de Macau" (APIM, 2007), "Igrejas de Macau e Cerimónias Religiosas" (APIM, 2010).
terça-feira, 1 de fevereiro de 2011
Leonel Barros: 1924-2011
Faleceu ontem com 87 anos de idade, Leonel Barros, uma figura invulgar da comunidade portuguesa. Escritor, pintor, desenhador, músico e activista cívico, Leonel Zilhão Ayres da Silva Barros teve participação muito importante na instalação do Museu Marítimo, no Mini-Zoo do Jardim da Flora ou na antiga Granja do Parque de Seac Vai Pan, onde foram anotados os seus conhecimentos de botânica e das ciências médico-veterinária. Recebeu a Medalha de Mérito Cultural em 1995. Foi funcionário público e trabalhou na CE M. Colaborador da “Tribuna de Macau” desde o início do semanário em Novembro de 1982, em cujas páginas deixou centenas de interessantes artigos sobre os costumes e tradições locais, “Neco” Barros esteve presente na festa do seu último aniversário, em Agosto de 2010, nas instalações do JTM a quem oferecera um desenho de pandas. Teve, então, a presença amiga dos principais responsáveis de todas as associações locais, que lhe cantaram os parabéns. Até domingo, trabalhou na APIM, que publicou a maior parte dos seus livros. Deixa o irmão Mário e dois sobrinhos e uma imensa saudade em todos os que com ele conviveram ao longo da sua vida.

in JTM 01-02-2011
Capa do livro "Macau, Coisas da Terra e do Céu" de Leonel Barros editado pela Direcção dos Serviços de Educação e Juventude.
Curiosidades sociológias e históricas: Cerimónias; Simbolos; Lendas; Recortes da China; Deuses; Ano Novo Chinês; Bolo Lunar; Papagaios; Festival das Lanternas; Dia Universal de Todas as Gentes; Tuo Tei Kóng; Tradições Culturais Chinesas; São Tiago; Fông Sôi; Adivinhas; Exorcismo; Geomantes; Jade; etc.
Neco, o contador de estórias
Nunca mais tinha ido à Taipa desde que construíram a ponte Nobre de Carvalho. Leonel Barros não se importa de repetir e desfazer possíveis dúvidas. Confirma-se. Não saía da península há mais de 30 anos. “E quem não vai à Taipa, não vai a Coloane”, ironiza Neco, nome que lhe colaram à nascença.
“Costumava ir a Coloane nadar, trepar as montanhas e ainda lá estive a trabalhar”. Mas só no tempo em que o caminho marítimo era o único porto de acesso às ilhas. Leonel Barros já nem se lembra quando é que isso foi, a memória por vezes tem destas coisas. Mas só quando quer. Aos 84 anos, Neco ainda é o contador de estórias de Macau.
“Eu tinha boa memória, nunca escrevi nada, só muito mais tarde, lá pelos anos 80”, refere Leonel que aproveita a deixa para desfiar duas ou três recordações de uma assentada só. “Ainda hoje me lembro de ver e ouvir o barco do meu avô, capitão de um dos vapores da carreira Macau - Cantão”, conta. Com 13 ou 14 anos, Neco foi pela primeira vez por esse rio acima. “Estava impressionado, fomos ver os estragos dos ataques aéreos japoneses e, uma das vezes, soaram as sirenes e fomos a correr para o barco”. A bandeira portuguesa, pintada na parte superior do toldo da embarcação, era o escudo que mantinha os aviões japoneses à distância.
“Ao cair da noite ou amanhecer, quando estávamos no vapor, ouvíamos os pregões das tancareiras com as suas lojas flutuantes, a vender tudo o que um homem precisava em casa”. Mas, estas vendedoras foram talvez as que menos impressionaram o rapaz: “O que eu queria mesmo era visitar os “barcos de flores”, eram uns 300, tão bonitos!”. O avô, porém, tirou-lhe logo as ilusões: “isso não é para a tua idade, para além de ser para ricaços”. As flores eram um eufemismo para as embarcações especializadas no ópio e prostituição.
O apito dos vapores da carreira calou-se passado algum tempo, com a invasão japonesa de Cantão. Meia dúzia de anos depois, em 1943, ficou também pelo caminho o 4º ano do Liceu Nacional Infante D. Henrique: Leonel Barros teve que abandonar os estudos para cumprir o serviço militar obrigatório no Quartel de São Francisco.
Neco, o antigo soldado (49)53, não precisa de vasculhar muito no fundo do baú, para sacudir episódios da tropa que só terminou em Outubro de 1945. “Os japoneses tinham ocupado a ilha da Lapa, onde começaram a matar os velhos. O sangue atraía os tubarões para esta zona”. Não foi preciso muito para se tornarem no alvo da pesca e serem introduzidos na dieta local. Até chegarem ao quartel foi também um tirinho. “O chefe de cozinha, o cabo 610, todos os dias tinha tubarão. A pele é muita áspera, uma lixa autêntica”, afirma, enquanto torce o nariz. Parte da refeição era passada a retirar a pele do animal, apesar de nem todos se darem ao trabalho.
“Tirávamos todos a pele, bem, nem todos, os portugueses comiam tudo. Comentavam ‘Ó 53 isto é mesmo bom!’”, recorda o titular do número. Leonel Barros ainda tentou camuflar as regras: o pai envia-lhe todos os dias uma marmita ao quartel. A estratégia durou até ao tenente Gomes ter descoberto e ter-se apropriado diariamente da marmita do Neco: “53, isto é muito bom, muito melhor que tubarão”. Leonel limitava-se a encolher ombros, o mesmo que fez quando resolveu protestar por receber um pré (vencimento) de 90 patacas, menos 30 patacas do que os soldados provenientes de Portugal. “Disseram-me que não fazia sentido porque eles comiam bife e eu peixe salgado”, relembra com um sorriso de quem nunca guardou rancores.
“Muitas vezes metia-me na floresta para ver as aves. O sítio mais lindo era o Mangal, onde ficava horas a vê-las a apanhar o peixe”
A Função Pública foi o caminho que se seguiu até que uma espondilose cervical lhe ditou a reforma. Falso alarme. Neco Barros esteve depois cerca de 15 anos na CEM, tirou um curso de veterinária por correspondência e perdeu-se de amores no mini-zoo do Jardim da Flora, no canil e na antiga Granja do Parque de Seac Pai Van. “Muitas vezes metia-me na floresta para ver as aves. O sítio mais lindo era o Mangal, onde ficava horas a vê-las a apanhar o peixe”, recorda com um brilhozinho nos olhos. A paixão pelos animais eternizou-a em alguns livros, escritos e ilustrados pela própria mão, sobre aves e cobras de Macau.
Da natureza Neco foi também guardando conchas, mais de duas mil, agora expostas no Museu Marítimo. O espaço teve, desde os primeiros traços, um dedo de Leonel. Além de ter feito parte da equipa de instalação, ajudou a embalsamar os animais e até colaborou na concepção do desenho do edifício. Aliás, desenhar é uma paixão das antigas, quase forçada pelo pai, homem duro nas regras que em tenra idade ficou órfão de pai e de mãe. “O meu pai era um bom desenhador. Chamava-nos, a mim e ao meu irmão, e obrigava-nos fazer desenhos iguais aos dele”, recorda, ao mesmo tempo que ri da rigidez paterna. A queda para desenhar e pintar também era conhecida do professor de desenho que, sempre que não comparecia às aulas, “mandava aqui o Barros tomar conta da classe”.
Podia não ter hábito da escrita, mas foi sempre anotando em papéis soltos ou na memória o Macau que ia vendo passar, “esse tacho de culturas”. A curiosidade nata conduziu-o pelas ruas, pelas gentes e costumes da terra. “Quando havia alguma festividade ou quando eu via os chineses a queimarem coisas à porta eu queria saber tudo, a fundo. Ia com um caderno na mão e perguntava ‘Dim gai a?’ (porquê?)”, explica Leonel. A língua de perguntador estendia-se aos templos, onde “falava com os bonzos, perguntava tudo, deixava-me ficar lá durante horas, comia com eles”. Horas a fio para saber a origem das coisas, vasculhar as lendas e as tradições populares. Foi coleccionando tudo isso e, já a partir dos anos 80, partilhou-o através da publicação de artigos nos jornais e de vários livros, ilustrados pelo próprio punho.
Leonel pode nunca ter conhecido nenhuma das três pontes (até Setembro de 2007), mas movimenta-se como ninguém no bairro que o viu nascer, onde ainda hoje vive. A primeira morada teve-a no número 9 da Rua Tap Seac. “Se me disserem para ir dar um passeio à cidade nova, eu não sei. Depois do Hotel Lisboa já não sei andar a pé.” Às vezes aventura-se para os lados do Porto Exterior, guiado pelo único autocarro que lhe pára à porta. “Apanho o 28C que termina o percurso no centro comercial New Yahoan. Saio, vou lá almoçar e volto pelo mesmo caminho, com o 28C. Não sei mais e não quero saber. Gosto de estar em casa, a desenhar, a fazer bonecos”, afirma com orgulho.
Os 84 anos que já leva a sua relação com Macau, resume em poucas palavras, emprestadas de uma língua estrangeira: “There is no place like your own home”.
quarta-feira, 14 de abril de 2010
Memórias do Oriente em Guerra - 2º post
O livro "Memórias do Oriente em Guerra - Macau", da autoria de Leonel Barros, é um testemunho histórico impressionante de um passado recente de Macau que ainda muita gente desconhece. O livro fala das privações que o território e as suas gentes passaram durante a ocupação japonesa e a Guerra do Pacífico. Macau era território neutral, dada a relação de amizade do Estado Novo tanto com a China como o Japão, mas o território vivia sobre constante ameaça do exército imperial japonês, que mantinha milhares de efectivos tanto em Hong Kong, como do outro lado das Portas do Cerco e nas ilhas próximas de Macau.
O Governo da província de Macau desdobrou-se em esforços diplomáticos para manter Macau neutro e a sua população segura. Neste aspecto destacam-se o governador Gabriel Maurício Teixeira, que governou Macau entre 1940 e 1947, certamente o período mais difícil da sua História, o chefe dos Serviços de Economia Pedro José Lobo, o chefe da Polícia Marítima, Botelho de Sousa, ou ainda o capitão Ribeiro da Cunha. A certa altura Leonel Barros conta que o exército japonês planeava mesmo ocupar definitivamente Macau, e o Governador dirigiu-se a um oficial japonês junto das Portas do Cerco, e com a ajuda de um tradutor fê-lo saber que "o teriam que matar primeiro".
O mais impressionante são os testemunhos, muitos deles na primeira pessoa, sobre os tempos difíceis vividos no território no início dos anos 40. Relatos de fome, crueldade, violência, morte, doenças, um verdadeiro estado de guerra. Impressionantes também os relatos da situação dos milhares de refugiados da China Continental e de Hong Kong - a população passou de 200 mil em 1939 para mais de 500 mil poucos anos mais tarde, numa área de 600 hectares. Destaque para a história do assassinato do comerciante português Francisco Fernandes Rodrigues (fundador da agência F. Rodrigues) e da história de Wong Kong Kit, um residente chinês pró-Japão morto pelo exército português no final da guerra.
"Memórias do Oriente em Guerra - Macau" é um livro cativante, da primeira à última página. Pode-se mesmo dizer com grande margem de segurança que daria um grande filme. Publicado em 2006 com a chancela da Associação Promotora da Instrução dos Macaenses (APIM) e com a coordenação da jornalista Mariana Palavra, o livro pode ser adquirido na Livraria Portuguesa pela módica quantia de 80 patacas. Praticamente dado. Uma experiência verdadeiramente única e apaixonante que nos permite conhecer a fundo um período negro da História de Macau.
Texto de Leocardo do blog Bairro do Oriente
Link para o 1º post sobre o tema: http://macauantigo.blogspot.com/2010/01/memorias-do-oriente-em-guerra.html
Escreveu a Revista Macau na altura do lançamento do livro:
"São memórias de quem testemunhou um período conturbado que marcou a vida e as gentes de Macau. O apego à terra e a curiosidade inata fez com que Leonel Barros nunca parasse de observar e colocar no papel os costumes e as vivências do território e da população. A Guerra Sino-Japonesa e a Guerra do Pacífico constituem um capítulo marcante da história de Macau no século XX. Apesar do estatuto de neutralidade, as consequências da guerra invadiram e ocuparam o território até 1945. Com a chegada dos japoneses ao sul da China, Macau tornou-se cada vez mais num porto de abrigo para refugiados. Foram momentos difíceis, mas assistiu-se também a uma onda de solidariedade sem precedentes e a um período de enriquecimento cultural nunca antes visto. A tudo isto assistiu Leonel Barros que foi acumulando relatos e histórias, agora reunidas neste livro."
Escreveu a Revista Macau na altura do lançamento do livro:
"São memórias de quem testemunhou um período conturbado que marcou a vida e as gentes de Macau. O apego à terra e a curiosidade inata fez com que Leonel Barros nunca parasse de observar e colocar no papel os costumes e as vivências do território e da população. A Guerra Sino-Japonesa e a Guerra do Pacífico constituem um capítulo marcante da história de Macau no século XX. Apesar do estatuto de neutralidade, as consequências da guerra invadiram e ocuparam o território até 1945. Com a chegada dos japoneses ao sul da China, Macau tornou-se cada vez mais num porto de abrigo para refugiados. Foram momentos difíceis, mas assistiu-se também a uma onda de solidariedade sem precedentes e a um período de enriquecimento cultural nunca antes visto. A tudo isto assistiu Leonel Barros que foi acumulando relatos e histórias, agora reunidas neste livro."
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