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sábado, 25 de julho de 2026

"Sinais indicativos de tufão"

Julho é por norma um mês de muita chuva em Macau, prenunciando a época dos tufões.  Refira-se chuva diluviana... intensa e muitas das vezes num curto espaço de tempo. Nesta altura o tufão Noul aproxima-se da região.
Nos primórdios do século 20 os sinais de tufão eram içados nos mastros da Fortaleza da Guia, Fortaleza do Monte, Capitania dos Portos e Taipa. Eram ainda usados silvos de sereia ou tiros de peça na Fortaleza do Monte, de acordo com a intensidade prevista da tempestade tropical.
Zona da Av. da República em 1983 durante o tufão Ellen

A história regista que os tufões mais graves a atingir Macau ocorreram no mês de Setembro. Aqui ficam alguns exemplos:

22 Setembro 1874 - o mais grave de sempre
2 Setembro 1937 - ainda não havia a prática de atribuir nomes
3 Setembro 1948 - Gertrudes
8 Setembro 1949 - Lise
22 Setembro 1957 - Gloria
1 Setembro 1962 - Wanda
5 Setembro 1964 - Ruby
10 Setembro 1964 - Sally
9 Setembro 1983 - Ellen
17 Setembro 1993 - Becky
16 Setembro 1999 - York
"Sinais indicativos de tufão" há um século: 1926/27
A escala máxima era "8"
Curiosidades:
Os nomes surgiram após a segunda guerra mundial e começaram por ser femininos por influência de uma prática militar; os meteorologistas inspiraram-se nas tradições navais e em hábitos pessoais para baptizar as tempestades com nomes de esposas, namoradas ou mães. A partir da década 1970 terminou este critério.

Macau faz parte do Comité de Tufões da Ásia, os Serviços Meteorológicos e Geofísicos de Macau criaram uma lista com 10 nomes inspirados na cultura e geografia da cidade.
Esses nomes entram num "saco comum" com os nomes escolhidos pelos outros países da região (China, Japão, Hong Kong, etc.) e vão sendo usados um a um à medida que surgem novas tempestades no Oceano Pacífico.
Lista actual: Bebinca (Sobremesa da gastronomia macaense) - usado em 2000; Sanba (Ruínas de S. Paulo); Vongfong (Vespa); Nuri (Papagaio); Penha (Colina da Penha); Muifa (Flor de ameixoeira); Baboqu (Espécie de pássaro); Peilou (Nomenclatura local); Pulasan (fruta tropical); Soulik (Nome regional).

domingo, 24 de maio de 2026

Farol da Guia "provisório de madeira"

Inaugurado em 1865 o Farol da Guia foi o primeiro do género na China revelando-se essencial no apoio à navegação. Estando no topo da colina da Guia, o ponto mais elevado de Macau, a luz do farol ficava a 101,5 metros acima da superfície do mar em marés altas.
No livro de 1887 "A Description and List of the Lighthouses of the World", Alexander G. Findlay descreve assim o farol:
"Macao 22 11 - 113 33.5 N 
One rev br lt 1 min  
White tower 45 ft high on Fort Nossa Senhora da Guia on the Macao Peninsula. 
Faint light visible within 12 miles. A buoy with a green lt. on N.E. end of Macao Fort Rock and a buoy with a red light on SW edge of Haeshin Rock."

Macau 22 11 - 113 33.5 N (coordenadas geográficas)
Uma luz branca rotativa, 1 min.
Torre branca com 13.5 metros de altura na Fortaleza de Nossa Senhora da Guia, na Península de Macau.
Luz ténue visível num raio de 12 milhas. Uma boia com luz verde na extremidade N.E. da Rocha da Fortaleza de Macau e uma boia com luz vermelha na extremidade S.O. da Rocha de Haeshin.

Menos de 10 anos depois de entrar ao serviço seria destruído pelo tufão que assolou Macau em Setembro de 1874. 
Nesta fotografia podem ver-se os efeitos destruidores do tufão na zona da Praia Grande e Colina da Guia (sem o farol), onde o hospital, inaugurado nesse ano, também foi bastante afectado.
Com data de 14 de Setembro de 1874 - e publicado dois dias depois - um aviso assinado pelo secretário-geral do Governo informa sobre a "Interrupção do Pharol da Guia":
"Avisa-se, para conhecimento dos navegantes, que o pharol da Guia á entrada do porto de Macau, deixou de funccionar desde a noite de 22 do corrente, em virtude dos estragos causados pelo tufão, e será feito novo aviso quando estiver competentemente reparado.
Secretaria do governo de Macau, 24 de setembro de 1874. O secretario geral, Henrique de Castro."
Poucos meses depois, em Janeiro de 1875, seria construído no mesmo local uma farol provisório feito de madeira.
No anúncio do Boletim Oficial de Janeiro de 1875 pode ler-se:
"Foi mandado construir na plataforma da fortaleza da Guia um farol provisorio, de madeira, aproveitando o apparelho de illuminação do antigo farol."
Seria preciso esperar até 1910 para que fosse construído de raiz um novo farol.

sábado, 2 de maio de 2026

Memórias de viagens no Fat Shan

Um dos icónicos navios da travessia entre Macau e Hong Kong e meados do século 20 foi o navio Fatshan. Uma viagem que demorava cerca de 4 horas. Aqui ficam alguns testemunhos de quem nele viajou bem com algumas fotografias.
Curiosidade: o nome remete para um local na China continental hoje denominado Foshan.
Embarque no Fat Shan na ponte-cais nº 20 em 1961

Testemunho de William Lawrence:
When we arrived in Hong Kong in 1970, we often spent weekends exploring. One memorable journey was taking a ride on the Fatshan to Macau. This was a journey right out of a book. From the wicker seats to the overnight cabins, it was memorable. More than once, we took her up the river, feeling like colonial explorers. Macau was a Portuguese colony at the time, and sure enough, the little hotels and restaurants served excellent food for a weekend getaway. When the faster boats came along, it sure shortened the trip; however, I missed the statley. kinda’ creaky Fatshan to take me on my holiday.


Luke Gong:
"I took this trip as an 8 year old with my parents in 1964. I remember spending the night on a canvas cot on the trip over from Hong Kong and arriving in the early morning hours."

Christine Mark:
"Loved the Fatshan. We used it often between 1961 and 1965."

John Garbett:
"We went to Macau a number of times in 1972/1973. As you say a wonderful colonial style experience complete with a large Union Jack painte amidships for easy recognition as a British ship. We usually had one of the old fashioned deck cabins where sandwiches etc were brought. On one night just before midnight as we were cueing to disembark in Hongkong I stood just outside the galley window. No exaggeration the stove, wall and table tops were thick, and I do mean thick, with scurrying cockroaches. Never had food aboard Fatshan again."

Law Hin Lau:
"When my class-Mate became son-in-law of famous Macau Merchant Mr. Ho Yin. He was made a Manager in that ship company. He once brought me onboard to see the vessel. On the top deck there were stacks of stacks of lockers for stowing the gold bullions for conveying them from Hong Kong to Macau then further to mainland China. He also showed me the Radio Room as I was also at R/O on ocean-going ships. That old Spark scared me that I might be taking over his job. I told him I only enjoy working on ocean-going vessels but not the river boat like Fat Shan that set his mine at ease."

Karen Campbell:
"When I first arrived in HK, i used to go on it with my parents- loved it and do remember the old wicker chairs. It never seemed quite the same when the hydrofoils started - except quicker of course. Macau was beautiful then"

Em Agosto de 1971 o tufão Rose atingiu Hong Kong e Macau. Na madrugada de 17, o SS Fatshan foi uma das vítimas da tempestade tendo afundado. Morreram 88 pessoas.

Testemunho de Jack Bishop:
"I saw the capsized Fatshan the day after Typhoon Rose on the shore line of Lan Tau Island. A few other ships were damaged during that storm."



quinta-feira, 6 de novembro de 2025

Ernesto Gherzi (1886-1973): o jesuíta cientista

Nascido em Sanremo, Itália, em 1886, Ernesto Gherzi, foi um padre jesuíta que se dedicou à ciência, em especial aos fenómenos meteorológicos. Viveu a maior parte da sua vida na China (a partir de 1910) tendo uma breve passagem por Macau na década de 1950.
Entrou para a Companhia de Jesus em 1903 em França. Enquanto missionário esteve pela primeira vez na China (Shangai) entre 1910 e 1913 onde deu aulas de Física na Universidade de Aurora (dos jesuítas). Em 1916 foi nomeado sacerdote em Inglaterra . Regressou à China em 1920 onde ficou cerca de 30 anos a trabalhar no Observatório de Zikawei. Nomeado responsável pelas secções de Sismologia e Meteorologia, é de destacar o eficiente sistema de aviso de tufões que ele criou, entre outros notáveis contributos que lhe valeram o reconhecimento da comunidade científica.
Nesta área realce para os seus estudos sobre a natureza dos tufões na climatologia da China onde relacionou as previsões meteorológicas com as mudanças ocorridas nas diferentes camadas da ionosfera. Na sismologia foi pioneiro ao estabelecer uma relação entre a origem dos micro-sismos e as oscilação da pressão atmosférica provocada pelas tempestades.

Serviços de Meteorologia na Fortaleza do Monte década 1960

Em 1949, quando regressava de um congresso nas Filipinas, não foi autorizado a entrar na China cujo regime político mudara entretanto com a subida ao poder do partido comunista. Numa primeira fase ficou em Hong Kong sendo depois convidado para reorganizar os serviços de meteorologia de Macau. O Bispo de Macau era Dom João de Deus Ramalho e o Governador de Macau, Albano Rodrigues de Oliveira. Entre 1950 e 1954 viveu no Seminário de São José e trabalhou como director adjunto do Observatório de Macau.
Ernesto Gherzi com o governador Joaquim Marques Esparteiro (1951-56) e a mulher

Publicou algumas obras relacionadas com os fenómenos meteorológicos de Macau e viu ainda editada, porventura a sua obra maior, os dois volumes de The Meteorology of China, mais de 600 páginas, com milhares de dados e dezenas de mapas.
Depois de Macau passou pelos EUA onde deu aulas nas universidades de Saint Louis e Loyola seguindo depois para o Geophysical Observatory of collége Jean-de-Brébeuf, no Canadá, onde estudou a radiação solar, propagação das ondas rádio, ionosfera, entre outras matérias.
Foi membro da Academia das Ciências do Vaticano (1936) e da Academia das Ciências de Lisboa e Nova Iorque. Morreu a 6 de Dezembro de 1973, no Canadá, com 87 anos.

Deixou mais de uma centena de livros e artigos das quais seleccionei alguns sobre Macau:
- The meteorology of China: Serviço meteorológico, Vol. 1 e Vol. 2. Macau, 1951.
- A ionosfera e o tempo (Ionosphere and weather), and, Aguaceiros em Macau durante a monção de sudoeste (Showers at Macao during the S.W. monsoon), Macau, 1952.
- Note on the forecasting of the times of the maxima and minima temperatures and of the lowest daily relative humidity, Macau 1953.


Em Macau, muito provavelmente nas traseiras do Hospital S. Januário.
Foto AJC, Fonds du Père Ernesto Gherzi, s.j.

Nota: O primeiro posto meteorológico de Macau foi criado em 1900 junto à Ermida da Penha. Em 1904 foi transferido para o antigo fortim de S. Jerónimo, localizado nas traseiras do Hospital do Governo/S. Januário. Só na década de 1960 passou para a Fortaleza do Monte.

quinta-feira, 20 de fevereiro de 2025

O tufão de Maio de 1875 e os estragos na Praia Grande

A 31 de Maio de 1875 um violento tufão atinge Macau causando inúmeros estragos, nomeadamente na zona da Praia Grande. Um dos edifícios atingidos foi o Palácio do Governo conforme se pode ler no Boletim da Província de Macau e Timor do início de Junho desse ano. 
No ano anterior, em Setembro de 1874 outro violento tufão atingira Macau fustigando também a Praia Grande onde ainda decorriam alguns trabalhos de reparação.
Nesta altura o "palácio do governo" era onde estavam instaladas também as repartições públicas, um edifício construído poucos anos antes e que cedo se provou ter grandes debilidades sendo constantes as obras.
No "relatório dos trabalhos executados entre Agosto de 1871 e o fim do anno de 1872" elaborado pela Direcção das Obras Públicas (Boletim da Província de Macau e Timor 14.6.1873) pode ler-se que o "edifício que devia ser um dos primeiros de Macau, em sua esmerada construcção, mostra ter sido feito com o despreso, dos preceitos e regras mais triviaes das edificações d'esta ordem".
Uma das obas feitas entre 1871 e 1872 visou "melhoramentos na decoração exterior" consistindo principalmente "no addicionamento d'um vestíbulo com arcos saliente à entrada principal, tendo superiormente uma varanda em forma de columnata com platibanda de balauste, terminando por ornatos, assentes em cada um dos lados da balaustrada".
Nota: este edifício seria demolido surgindo no seu lugar em 1951 o Edifício das Repartições/Tribunal, edifício que ainda hoje existe ao lado do hotel Metrópole.

quinta-feira, 5 de setembro de 2024

quarta-feira, 14 de dezembro de 2022

O estúdio de Floyd em Macau

William Pryor Floyd (1834 - c.1900) nasceu em Cornwall, Inglaterra, e é considerado um dos fotógrafos ocidentais de maior sucesso estabelecido no Sul da China entre 1863 e 1874.
Por volta de 1863, com 31 anos, Floyd trabalhou como assistente no estúdio fotográfico de R. Shannon & Co., em Xangai. Daqui mudou-se para para Macau onde instalou um estúdio na zona sul da Praia Grande, dedicando-se sobretudo aos retratos mas sempre fotografando as várias cidades costeiras da China, bem como Macau e Hong Kong. Em simultâneo passou a colaborar no conceituado estúdio de fotografia de Hong Kong, o Silveira & Co.,  de que mais tarde, em 1867, viria a ser proprietário. Mas não se ficou por aí. Na então colónia britânica viria ainda a criar a 'Victoria Photographic Gallery'  (activa até 1872) da empresa com o seu nome, a Floyd & Co.
Em anúncios que publicou na imprensa no ano de 1868 informava possuir séries de fotografias das cidades de Hong Kong, Cantão, Macau, Amoy e Foochow.
No final de 1874 Floyd publicou um pequeno livro de 17 páginas intitulado "The Typhoon -  Hongkong, September, 1874". Alusivo aos efeitos do tufão que assolou o Sul da China em  Setembro de 1874. Nesse livro, T. Preston, do Hong Kong Times, assina o prefácio onde escreve "Macao, a small peninsula belonging to Portugal, - suffered worse even than Hong Kong; being left literally a colossal ruin." / "Macau, uma pequena península pertencente a Portugal, - sofreu ainda mais do que Hong Kong; ficando literalmente uma ruína colossal."
Em 1875 Floyd vendeu o negócio e mudou-se para as Filipinas. Morreu ca. 1900
Fotocomposição com 4 fotografias da Praia Grande da autoria de Floyd tiradas ca. 1870

Duas notícias publicadas no ano de 1866 no jornal The Hong Kong Daily Press provam a existência em Macau de um estúdio de fotografia do "Sr. Floyd". A primeira é de 25 de Janeiro de 1866 com o título "Fire at Macao / Incêndio em Macau" e dá conta de um incêndio que destruiu o estúdio localizado na zona sul da Praia Grande. A notícia é feita tendo por base declarações do próprio Floyd.

The Hong Kong Daily Press: 25 Janeiro 1866
Fire at Macao – We have received accounts from Macao of the destruction by fire of Mr. Floyd’s photographic establishment at that place. He says “on Friday last about 8.30 A.M. two Chinese came to my place and were conversing near the window of the waiting room on the west side of the building; shortly after one came and addressed me, the other remaining near the window as above mentioned, the former wishing to learn the business and to purchase apparatus &c. I invited him inside and had verbally agreed to prices &c. 
About 2.30 P.M. whilst taking a cup of coffee in the Hotel, fire broke out on the west side and near the window of the waiting room; in less than fifteen minutes the entire building was in flames from end to end. I ran into the burning building and saved a camera which had just caught fire a chair and a pedestal; these are all that I saved from the fire, with the exception of a few chemicals that were in the Hotel. I cannot overestimate my loss as the goods cannot be replaced in this country.”

"Recebemos relatos de Macau sobre a destruição por incêndio do estabelecimento fotográfico do Sr. Floyd naquele local. Diz ele que "na sexta-feira cerca das 8h30 da manhã dois chineses vieram ao meu estúdio e estavam à conversa perto da janela na sala de espera no lado oeste do edifício e logo depois, um dirigiu-se a mim, enquanto o outro permaneceu perto da janela como mencionado acima, o primeiro desejando aprender o negócio e comprar aparelhos etc. Convidei-o a entrar e acertamos preços. 
Por volta das 14h30, enquanto tomava um café no Hotel, o fogo começou na ala oeste e perto da janela da sala de espera; em menos de quinze minutos todo o prédio estava em chamas de ponta a ponta. Dirigi-me ao edifício e conseguiu salvar uma câmera que tinha acabado de pegar fogo a uma cadeira e um pedestal; isto é tudo o que salvei do incêndio, com excepção de alguns produtos químicos que estavam no Hotel. Não posso fazer uma estimativa do que perdi já que nada pode ser substituído neste país.”
Apesar do incêndio onde Floyd garante ter perdido praticamente tudo, um anúncio de 25 de Agosto de 1866, no mesmo jornal, informa que o negócio está activo, pelo que Floyd não terá perdido todos os negativos.
Fotografia. O abaixo-assinado implora para chamar a atenção dos Excursionistas que visitam Macau, para o seu conhecido estabelecimento de Insuperável Carteirinha de Retratos. Uma Visita confirmará esta afirmação. Os pedidos podem ser encaminhados para Hong Kong através de um Agente, para qualquer endereço, a serem pagos na entrega, ou seja, $ 4 para a primeira dúzia, ou $ 9 para 3 dúzias, incluindo o negativo, que serão encaminhados com as notas de encomenda.
W. P. FLOYD, Artista fotográfico. Praia Grande, Sul,
Macau, 6 de Agosto de 1866 
Photography
The Undersigned begs to call the attention of Excursionists visiting Macao, to his well-known establishment for Unsurpassed Card Portraiture.
A Visit will confirm this assertion. Orders can be forwarded to Hongkong through an Agent, to any address, to be paid for on delivery, viz., $4 for the first dozen, or $9 for 3 dozen, including the negative, which will be forwarded with the Orders.
W. P. FLOYD,
Photographic Artist.
Praya Grande, South, Macao, 6th August, 1866

terça-feira, 19 de outubro de 2021

Construção de uma bateria em forma de luneta: 1872

A 26 de Julho de 1872 o governador de Macau Visconde de S. Januário assina a Portaria Provincial nº 48 que determina a construção de uma bateria em forma de luneta na ponta da praia de S. Francisco para peças de grosso calibre.

Boletim da Província de Macau e Timor: 27.7.1872

A 1 de Dezembro de 1872 é feito o lançamento da primeira pedra para a construção da Bateria Rasante que viria a ficar conhecida pelo nome "1.º de Dezembro". A planta é da autoria do capitão de engenharia Dias de Carvalho e do Barão do Cercal.

A imagem abaixo é de meados de 1874, embora algumas vezes surge referenciada como posterior. A explicação é simples. Em Setembro desse ano Macau foi assolado por um dos tufões mais violentos de sempre que viria a destruir, por exemplo, a cúpula do Farol da Guia (que se pode ver no topo do lado direito). Nesse mesmo ano foi inaugurado o Hospital S. Januário (incluído na fotografia) que também sofreu estragos. A fisionomia do Quartel de S. Francisco é já a versão das obras de remodelação de 1864 que lhe deram uma forma mais rectangular.
Relatório das Obras Públicas sobre "trabalhos executados em 1872":
"Esta nova bateria é feita na ponta praia de S Francisco principiou a construcção no 1 o de dezembro de 1872. Pertencendo esta obra á classe das fortificações maritimas podia o seu traçado ser irregular a fim de que os fogos fossem todos perpendiculares aos pontos a bater; no entanto julgou-se que, sem prejudicar estes principios, se lhe desse forma da conhecida obra de fortificação, denominada luneta, com os angulos arredondados, o que faz com que sejam decompostas as grandes pressões exercidas pelos embates do mar; é formada de uma espessa e sólida muralha, revestida de cantaria que estavelmente pode supportar o terrapleno, feito de terras caldeaveis, homogeneo em densidade e compressão. A superficie de todo o terrapleno é de 1374 m2."
Perspectiva da bateria sobre a baía da Praia Grande com a colina (e ermida) da Penha ao fundo ca. de 1900.

terça-feira, 13 de outubro de 2020

"A Grande Chacina" e o "Tufão Perdido no Mundo"

Nas "Efemérides da História de Macau", Luíz Gonzaga Gomes refere que a 13 de Dezembro de 1924 "Seis prisioneiros chineses que estavam trabalhando na construção duma estrada na Ilha de Coloane, tentaram evadir, agredindo de surpresa e barbaramente duas praças africanas que os estavam vigiando e, depois de as terem desarmado, dirigiram-se ao quartel, onde mataram o 1.º Sargento Manuel Ferreira da Silva que comandava o posto militar da povoação de Ká-Hó, sendo depois mortos cinco e capturado um."
O tema viria a ser capa de um semanário em Portugal, o "Domingo Ilustrado" (1925-1927) na edição de 8 de Fevereiro de 1925, com o título "A Grande Chacina de Macau". 
O jornal é o equivalente aos actuais tablóides de pendor sensacionalista. 
O caso ocorreu em Ka-Hó, na ilha de Coloane.
Escreve o jornal que “Em pleno areal de Cka–Hó, um posto numa ilha de um kilómetro quadrado, os presos insubordinaram-se, assassinando com as ferramentas do trabalho os soldados portugueses. Depois correram ao quartel e mataram o sargento comandante, ferindo mais praças. 
Por fim, no meio da carnificina, ficaram abatidos cinco dos revoltados e todos os soldados feridos e mortos”.
A ilustração, explica a publicação, é uma "reconstituição (dos acontecimentos) sobre documentos e fotos fornecidos na Sociedade de Geografia, por um oficial que já comandou este posto".


Veja-se outro exemplo da abordagem jornalística,  na mesma publicação, também sobre Macau, na edição de 3 de Outubro de 1926, mas a propósito de um tufão.
A ilustração é acompanhada do título "O Tufão que anda perdido no Mundo!" e com a seguinte legenda:
Na Metrópole, nas ilhas, em Macau, um tufão, que os homens de sciencia classificam como sendo o mesmo, produz estragos formidaveis. Quando tomará pressão normal a enorme massa de ar?
Trata-se de um tufão que assolou Macau a 25 de Setembro de 1926.
O Diário de Lisboa escreve a 28 de Setembro:
"Um violento tufão assolou esta cidade. Nem todos os juncos de pesca que estavam ao largo recolheram, receando-se que a maior parte se tenha afundado causando a perda de muitas vidas. Os estragos no litoral são relativamente pouco importantes."
O cruzador "República" viria a ser afectado pelo tufão "indo encalhar sem avaria no lôdo para as bandas da Lapa. (…) Devo no entanto informar V. Exa.ª de que este tufão foi anormal, surpreendendo os observatórios de Hong Kong e Macau, os quais só poucas horas antes da passagem do meteoro anunciaram a sua aproximação desta região. O navio continua sem a menor avaria, devendo fazer-se a primeira experiência de o flutuar no próximo dia 12 de Outubro", explica Guilherme Ivens Ferraz, Comodoro do "República", numa carta enviada a partir de Macau ao Ministério da Marinha, a 8 de Outubro desse ano.

sábado, 15 de setembro de 2018

Os tufões de 1874 e 1875

A 22 e 23 de Setembro de 1874 Macau foi assolada pelo mais devastador tufão de que há memória. Mal refeita dos estragos causa, menos de um ano depois, a 31 de Maio de 1875 um novo tufão viria a atingir o território.
Artur Lobo d'Ávila, filho de José Maria Lobo de Ávila (1817-1889), governador entre 7 de Dezembro de 1874 e 30 de Dezembro de 1876), deixou um relato do que se passou nesse dia no Palácio do Governo.
“O Governador, Visconde de S. Januário, aconselhara a família do seu sucessor, a transferir-se para a ala direita do palácio, por ter sido a menos batida pelo tufão. Assim fizemos , mas com resultado exactamente negativo, pois foi essa ala a que ruiu com a nova tormenta de Maio de 1875.
O tufão começou, como de costume, por uma lestada. E quando da Secretaria da junta, quis regressar a casa, já os cules não puderam trazer-me na cadeira; e, de gatas, tive de atravessar o jardim na parte posterior do palácio para entrar em casa.
Os tufões ficam assinalados com os nomes dos governadores. No de S. Januário, o barómetro desceu tanto, que acabou por estoirar a coluna de mercúrio, a ponto de o oficial às ordens - 1.º tenente Júlio Elbão de Sampaio - dizer ao Governador, que a agulha doidejava, marcando o nome do fabricante.
Durante essas tormentas, os telhados são descosidos e, em pedaços, voam pelos ares. Quem se arrisca a sair, corre perigo de vida, mesmo resguardado com um tundum, espécie de capacete de duríssimo bambu. (...)
António de Azevedo e Cunha defendeu o palácio, enquanto foi possível. As janelas foram interiormente, revestidas com taipans de madeira e escoras. Mas, mesmo assim, o mar, rugindo furiosamente, despedaçou as da secretaria, instalada no rés-do-chão. Foi neste momento que o Cunha, o ajudante do Governador, a ordenança Carlos, - filho de macaístas - eu, alguns soldados e operários, descemos ao referido andar, onde a tremenda inundação começava a causar terríveis e trágicos efeitos.
O Cunha, que empunhava uma pequena lanterna, vendo os da frente atingidos por uma derrocadas, gritou aos que o seguiam: – Para trás, rapazes. . .
Quinze pessoas, entre europeus e chinas, ficaram soterrados nos escombros negros e tristes.  Quando foi possível, à luz de archotes desenterrámos o ajudante-de-ordens do Governador, Alferes Caetano Diniz Junior, que tinha ficado entre as ruínas, a sua figura era confrangedora e arrepiante. Tinha perdido os sentidos e ao recobrá-los todo ensanguentado e de olhos esbugalhados, muito a custo, disse-nos: - Lembrei-me de meu pai...  Vi-o...  Foi ele que me salvou...
Depois foram desenterrados e socorridos, como era possível, os demais sinistrados, que, entre ais e gemidos, aflitivamente, pediam que os salvassem. A ordenança de cavalaria, Carlos de Manila, achou-se também às portas da morte; o china, Paulo, morreu.
Um pesado banco chinês, revestido de mármore, depois de despedaçadas as janelas, deslocou-se com o furacão e veio bater nas pernas do Governador, meu pai, ferindo-o profundamente. Este desastre, porém, evitou que ele caísse do primeiro andar para o montão de ruínas que aumentava no pavimento inferior.
Até ao amanhecer, os que escaparam aos horrores desta tragédia e os feridos, estiveram refugiados num godão - pequena arrecadação, semi-subterrânea, em que entrava a água do amor, depois de ter galgado as ruínas do aterro da Paria Grande - sobre feixes de lenha.
A população de Macau, passada a tormenta, julgou que no palácio só havia cadáveres…E pela tarde, uma proclamação do Governador terminava assim:
“Macaenses – A cidade de Macau, que ia ressurgindo das ruínas do terrível tufão do ano passado, foi novamente experimentada por idêntico flagelo. Peço-vos serenidade, conformidade e trabalho, para vencermos esta nova crise, pois que, como vosso Governador, velarei por vós, assim como convosco partilhei os horrores do cataclismo que, como é notório, esteve a ponto de deixar sem família."

sexta-feira, 14 de setembro de 2018

Tufão "Ruby": 5 Setembro 1964

Tal como por estes dias, há 54 anos Macau era atingida por um tufão. As duas imagens deste post ilustram os estragos provocados por um dos mais violentos tufões que assolou o território no século XX.
Ao lado a primeira página do jornal "Notícias de Macau" que na primeira página titula: "O tufão Ruby causou grandes estragos em Macau". E acrescenta: "Um armazém completamente destruído por um dos maiores incêndio registados em Macau nos últimos anos. O Governador de Macau esteve no local do sinistro. Uma morta e seis feridos nos hospitais. Foram registadas rajadas de 211 quilómetros por hora." Destaque ainda para os danos causados no armazém-fábrica Tai Wah Hong avaliados em 400 mil patacas e para a destruição do parque coberto do Grande Prémio.
A pressão mínima registada foi de 954.6 com os ventos fortes a fustigarem o território durante seis horas. O centro da tempestade tropical esteve a menos de 185 km de Macau.

quarta-feira, 29 de agosto de 2018

Tufão em Setembro de 1906

O vapor Tak Hing, de Cantão, afectado pelo tufão a 18 Setembro 1906

O tufão de 18 de Setembro de 1906 afectou sobretudo Hong Kong, sendo considerado então o segundo mais mortífero de sempre. Pelo menos 10 mil pessoas morreram  e dezenas de barcos foram destruídos. A intempérie que tb se fez sentir em Macau afectou as ligações marítimas entre os dois territórios já que várias embarcações acabariam destruídas/afundadas registando-se centenas de mortes.
Dois dos vapores registados em Macau, o Heungshan, foi desviado para Sau-Chau, perto da ilha de Lantau, com 500 passageiros a bordo. Só teve socorro no dia seguinte tendo morrido alguns passageiros. O Kinshan  embateu no fundo do rio junto a Castle Peak e o Perseverance, conseguiu que todos os passageiros saíssem em Chung Chow, mas acabaria por afundar-se no regresso aMacau

quarta-feira, 6 de junho de 2018

O 'Tai Fong' de 1874


No final do século XIX o brigue português Concórdia, com capacidade para 226 toneladas, era presença assídua no porto de Macau fazendo transporte de passageiros e carga para Goa e Malaca.
No Boletim do Governo do Estado da Índia, de 1876, pode ler-se: "Administração geral dos correios, 8 de abril de 1876  O administrador geral, M. J, da Costa Campos. As malas para Macau, Singapura e Pinang pelo brigue Concordia fechar-se-hão nesta repartição no dia 19 do corrente às 3 horas da tarde".
Como era Macau nessa época?
Recorro ao "Macau Factos e Lendas" de Luís Gonzaga Gomes para responder...
"Corria, suavemente, o Outono, em Macau, no ano de 1872 (...) Vivia-se assim, despreocupadamente, pensando cada um em divertir-se da melhor forma que pudesse, sem precisar de pensar no dia de amanhã, pois o próspero negócio da emigração dava para que toda a gente andasse ocupada e passasse os dias sem problemas económicos que a atribulassem. Surtos no porto, viam-se três barcos de guerra nacionais, a corveta a vapor «Duque de Palmela», a escuna de guerra «Príncipe Carlos» e o vapor de guerra «Camões», além dos navios mercantes como a galera «Viajante» do comando de Francisco Jerónimo de Mendonça; a barca «Cecília» comandada por H. Mesquita e o brigue «Concórdia». Naves doutras nações demandavam também o nosso porto, como o vapor italiano «Glensannox», o vapor espanhol «Buenaventura», que sairia no dia 30, com destino a Havana, levando a bordo 84 colonos chineses, a galera da mesma nacionalidade «Alaveza», as barcas francesas «Blanche Marie» e «Veloce», os brigues «Maggie» e «Water Lily» e a galera «Star of China», que navegavam sob bandeira inglesa, a barca da confederação germânica «Vidal» e os vapores de guerra chineses «An-Lan», «Chien-Jui» e «Ngan-Tien» (...) As disponibilidades que abarrotavam os cofres do tesouro público foram, no entanto, bem aproveitadas, pelo inteligente governador, Visconde de S. Januário, de nome, Januário Correia de Almeida, bacharel formado em Matemática, que chegara a Macau, com o posto de capitão do Estado-maior, tendo exercido, anteriormente, o cargo de governador geral da Índia. (...)"
Até que em Setembro de 1874 um violento tufão atingiu Macau... O Concórdia foi uma das 'vítimas'...
Sugestão de leitura: O Maior Tufão de Macau, de Pedro Fragoso de Matos, Editorial Minerva, 1985


No livro "O Caminho do Oriente", da autoria de Jaime do Inso, editado em 1932, é assim relatada a passagem do tufão de 1874 por Macau...
Na fortaleza do Monte, e na Guia, tinha-se içado o último dos sinais de tufão, o peior, o mais terrível, constituído por uma sinistra cruz negra, que significa que o tufão está prestes a passar por cima de nós.
Ao mesmo tempo, ouviram-se os três tiros de prevenção, lúgubres, espaçados, ecoando pela cidade. Havia muito que as últimas lorchas tinham vindo acolher-se, como gaívotas de asas abertas, ao abrigo do porto interior, e que as pobres tankareiras fugiram aterradas ao grito de «Tai-Fong!» - grande vento! - puxando nervosas ao «Liu-Liu» em busca de uma doca, um recanto, onde pudessem aguardar com mais esperança a fúria da destruição.

A população marítima de Macau é importante, contando mais de cincoenta mil habitantes que, na maior parte, não têm outra habitação além dos seus barcos, alguns dos quais uns pobres esquifes, os «tankás» onde, num prodígio de arrumação, vive uma família completa - mãe, pai e filhos - com a sua cosinha, as suas esteiras, o seu altar.
Vem um tufão, e os pobresitos, que são aos centos, já sabem que alguns têm de ser sacrificados, pois que só por milagre escaparão todos àquela roleta da morte. A China, até no furor das tempestades manifesta o seu cunho inconfundível e aterrador. Um tufão, é qualquer coisa de estupendo, de monstruoso, a desafiar a estabilidade do mundo.
Desaparece a noção de segurança, e toda a Natureza se reveste de uma maldade tétrica e tão profunda que, ao pé dela, a tristeza que, mais ou menos, sempre paira no Oriente, chega a parecer uma alegria de invejar!
Com dias de antecedência, o terrível fenómeno meteorológico que, em geral, se forma muito ao largo, no Pacífico, vai dando sinal de si, por várias formas, ainda a centenares de milhas de distância. A temperatura subindo e que asfixia, a cor do céu em fogo ao pôr do sol, a convergência das nuvens altas, ou cirros, em forma de penas - os «rabos de galo» - a pressão atmosférica cujas perturbações nas marés se vão acentuando à medida que o tufão avança, a altura das águas e, até, o aparecimento do chamado «bicho tufão» - tudo constitui outros tantos sinais percursores da passagem de tão indesejável fenómeno.
Além disso, a atmosfera, e todo o ambiente, revestem um tal aspecto de quietação sufocante, como que uma pausa ameaçadora da convulsão que se prepara, que o tufão, por assim dizer, se pressente num mal estar que nos aflige.

Içado o último dos sinais, e mesmo antes disso, tomam-se precauções especiais, tanto em terra como no mar.
Efeitos do tufão de 1874 na zona da Praia Grande

Portas e janelas são trancadas para evitar que o vento as abra, o que poderia acarretar sérios prejuísos como, por exemplo, fazer saltar os telhados, e chegam a apagar-se todos os fogos, pelo perigo de incêndios a que ninguém poderia acudir. A vida paralisa, as ruas ficam desertas à espera que o cataclismo passe e, para se fazer idéia da violência com o que o vento sopra, basta citar o facto sucedido uma vez, quando, tendo-se avariado as linhas telefónicas, foi preciso mandar um homem ao Monte, para onde teve de ir subindo de gatas, e onde chegou quási nu, porque o vento lhe tinha arrancado o fato aos pedaços!
No mar, paira sempre uma incerteza, - apesar dos cuidados, das amarras reforçadas e dos abrigos que se procuram - porque os golpes do tufão são traiçoeiros e difíceis de parar. Com a antecedência possível, arriam-se os mastaréus, ferram-se os toldos, etc., e tudo se fecha e amarra, ficando o navio preparado para receber um dilúvio. As máquinas prontas, um oficial - quando não é o Comandante na ponte, e tudo a postos como se fosse a navegar.
A passagem de um tufão que vai sendo assinalado dia a dia, e até hora a hora, pelos observatórios do mar da China, trás sempre uma perturbação considerável em todos os pontos por onde passa, e que é acompanhada de prejuísos de toda a sorte, inclusive nas vidas. Compreende-se pois, como a época dos tufões na China, de Junho a Outubro, não encontre paralelo nas nossas estações, e imprima mais um «fades» especial àquele clima, a que não faltam certos quadros duma grandiosidade tétrica.
Assim, uma vez, era em Cheong-Ma-Koc, no Rio do Oeste, e em véspera de tufão. O navio estava com os dois ferros, a meio do rio e em frente do pagode. Veio o pôr do sol e o céu tomou o aspecto mais fantástico que se possa imaginar. Não era céu, era um brazeiro, o poente a arder - uma loucura de fogo, uma fornalha incandescente, um vermelho de metal fundido ferindo a vista, desconcertando a imaginação!
Tenho visto muitos poentes lindos, emocionantes, desde os do Cabo da Boa Esperança, de reflexos típicos, nostálgicos, aos coloridos surpreendentes de Zanzibar, do Mar Vermelho, do Índico, até à delicadeza das cores do céu no Japão e à tristeza indízível de um sol de inverno na Sibéria; tenho visto no céu, maravilhosas pinturas de luz que chego a recordar com saudade, tanto elas me afectam e encantam.
Mas um pôr do sol assim, como aquele de Cheong-Ma-Koc - um quadro que tinha não sei quê de diabólico, de dantesco, línguas de fogo inverosimeis cobrindo três quartos do céu no maior incêndio imaginável, como se fosse o próprio céu a arder, irradiando cores impossíveis de reproduzir, que não há palavras que pintem, nem imaginação que possa fantasiar - um pôr de sol assim, nunca vi nem espero mais tornar a ver.

No dia seguinte, caiu a tempestade sobre aquelas terras da China, com todo o furor, e a velha Pátria, alterosa, sem que se lhe pudesse ter mão, foi garrando a pouco e pouco, e esteve em risco de ficar sepultada numa extensa várzea onde a água subiu tanto, que só restavam visíveis os últimos ramos das árvores. Com um trabalho insano para toda a guarnição, e com a ajuda das máquinas, lá se foi palmilhando mais para meio do rio, quando o vento permitiu, e sempre com um ferro no fundo. Só depois de passadas quatorze horas na ponte pude ver o navio, finalmente, em segurança, se bem que já muito a montante do pagode.


quinta-feira, 15 de setembro de 2016

O tufão Gertrudes: Setembro de 1948

A 3 de Setembro de 1948 Macau foi atingida por um forte tufão denominado Gertrudes. As fotos abaixo mostram a zona da Praia Grande, um troço da Av. da República e outro da Av. Almeida Ribeiro (San Ma Lou) bem como a ponte-cais nro 1 do Porto Interior.
 Zona do Bom Parto
 Av. da República (Calçada da Praia do lado direito)
 Vista sobre o hotel Bela Vista e Penha
Em baixo inundações na Av. Almeida Ribeiro

 Ponte cais nro. 1 no Porto Interior


O tufão Gertrudes que se formou em 27 de Agosto de 1948 a WNW de Guam, passou, em 3 de Setembro, a 110 milhas a Sul de Macau, e causou enorme estragos que foram avaliados em alguns centenas de milhares de patacas e ter provocado grandes inundações. 
Excerto do livro Tufões que Assolaram Macau. Serviço Meteorológico de Macau, Imprensa Nacional, Macau 1957, de Agostinho Pereira Natário.