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sábado, 20 de dezembro de 2025

"José Cabral, um herói português na II Guerra Mundial"

Publicado em 2023 o livro "O Piloto de Casablanca" é da autoria de José António Barreiros, advogado e ex- Secretário Adjunto do Governador de Macau para a Administração e Justiça, entre 1987 e 1988.  Advogado criminalista, é autor de vários livros sobre essa área jurídica. e tem também investigado e publicado livros sobre "a guerra secreta em Portugal no período 1939-1945." O livro aqui referido é uma biografia de José Cabral (1897-1984) que em Macau
foi o primeiro comandante (era na altura 1º tenente) do Centro de Aviação Naval (pertencia à Marinha de Guerra Portuguesa), inaugurado a 10 de Novembro de 1927 na Taipa. O hangar para abrigo dos hidroaviões ficava na antiga praia de N. Sra. da Esperança  (ver fotos abaixo). A base tinha três aeronaves Fairey III, incluindo o Santa Cruz - em que Gago Coutinho e Sacadura Cabral fizeram a histórica travessia do Atlântico - e que actualmente está no Museu de Marinha, em Lisboa.
Sinopse: Durante a Segunda Guerra Mundial, quando voar era uma aventura arriscada, a ligação aérea entre Lisboa, Tânger e Casablanca, celebrizada num dos mais emblemáticos filmes de Hollywood, com Humphrey Bogart e Ingrid Bergman, era exclusivamente assegurada por Portugal, enquanto país neutro no conflito. O piloto que fazia essa rota, por vezes em condições de grande perigo, chamava-se José Cabral e era um comandante de marinha, corajoso e audaz. Graças a esta figura notável da aviação naval, com contactos nos serviços secretos britânicos e norte-americanos, refugiados de guerra salvaram-se da ameaça nazi e diplomatas e militares das forças Aliadas cumpriram missões na operação de desembarque no Norte de África, o princípio do fim do III Reich.
Cabral viria a ser galardoado com a mais alta distinção concedida pelos EUA a militares estrangeiros, mas cairia no esquecimento no país onde nasceu. Resgatando a sua memória, José António Barreiros recorda a vida, a bravura e as missões clandestinas deste herói português.

Referência do autor nas páginas do livro "O Piloto de Casablanca"
ao apoio que prestei com recurso ao blogue Macau Antigo e arquivo pessoal

Nascido em 1897 José Cabral iniciou os estudos em Lisboa no início da década de 1910. Em 1916 entrou para a Escola Naval onde se dedicou à Aviação Naval. Desde cedo pretendeu servir na Aviação Marítima de Macau o que veio a acontecer em 1929 sendo colocado no Centro de Aviação, na ilha de Taipa. Na época a China já vivia em grandes as tensões do que viria a ser a guerra civil entre as forças nacionalistas e comunistas. Cabral participou em missões de salvamento e segundo Barreiros recebeu "condecorações" pelas operações de salvamento de pilotos franceses caídos na China. Regressaria a Portugal em 1932.
Foto publicada na revista Macau, Agosto 1992

No livro "Aviação em Macau, um Século de Aventuras" (1990) Luís Andrade de Sá escreve:
"Esteve três anos no território e escreveu no relatório o que fora a sua actividade na Colónia: quase 500 voos, num total de 218 horas e 15 minutos. Os aviões , só podiam ser usados em certas condições, com a maré cheia ou quando a água tivesse pelo menos sete pés de profundidade; o pessoal europeu da Aviação Naval não ultrapassava a meia dúzia com ele e com o sargento, ajudante de carpinteiro, Joaquim Carpeta; havia ainda seis loucanes e um guarda africano, um cavalo e algumas cabras que querendo em liberdade, insistiam em destruir as árvores e plantas do jardim da Taipa, perante o desespero e indignação da Comissão Municipal das Ilhas e a bonomia do comandante da Aviação Naval que não via como pôr termo a tal abuso".

domingo, 26 de outubro de 2025

A aviadora inglesa Mrs. Bruce

Em 1930, a britânica Mildred Mary Petre - Victor Burce (1895-1990) iniciou um voo solo ao redor do mundo aos comandos do avião Blackburn Bluebird IV, que ela baptizou de "Bluebird". O voo, que partiu da Inglaterra em 25 de Setembro de 1930, tinha como objectivo estabelecer um novo recorde e torná-la a primeira mulher a voar sozinha ao redor do mundo. E assim foi. Após muitas peripécias - certos percursos não foram feitos a voar - chegou a Nova York no início de Fevereiro de 1931 após uma viagem de 19,000 milhas.
In 1930, british Mrs. Victor Bruce (Mildred Mary Petre) began a solo round-the-world flight in her Blackburn Bluebird IV aircraft, which she named "Bluebird". The flight, which started from England on September 25, 1930, aimed to set a new record and made her the first woman to fly around the world alone. After several challenges, she managed to complete the flight - 19,000 miles - reaching New York in early February 1931.

Na etapa de Hanoi a Hong Kong, "Mrs. Bruce" sobrevoou o Porto Exterior de Macau às 13h45 de 9 de Novembro de 1930 - um domingo - segundo o Jornal de Macau na edição de 11.11.1930. Seguiu rumo a Tóquio onde chegou a 24 de Novembro, ao fim de 25 dias de viagem. Dali atravessou o Pacífico abordo de um navio rumo ao Canadá, de onde prosseguiu a viagem.

On the leg from Hanoi to Hong Kong, "Mrs. Bruce" flew over Macau Outer Harbour at 1:45 p.m. on November 9, 1930 - a Sunday - according to newspaper Jornal de Macau in its November 11, 1930 edition. On 24 November 1930, having covered 10,330 miles (16,620 km) in 25 flying days, she reached Tokyo and after crossed the Pacific aboard the Empress of Japan to Vancouver.

Curiosidades:

- No livro The Bluebird's Flight, de 1931, Mrs. Bruce explica que sobrevoou não só o Porto Exterior como também a zona do hipódromo - escreve "racecourse" - na zona da Areia Preta, junto às Portas do Cerco, local que tinha sido referenciado como hipótese de aterragem em caso de emergência.

- A revista The Aeroplane na edição de Janeiro de 1931 publicou uma fotografia de Mrs. Bruce em Hong Kong.

sexta-feira, 11 de julho de 2025

Crónica de Lisboa: "De Lisboa a Macau"

Parte da "Crónica de Lisboa" publicada na edição de 11 de Julho de 1925 - há cem anos - do jornal "A Pátria". O título é uma referência à primeira ligação aérea entre Portugal e Macau ocorrida no ano anterior.

 

sexta-feira, 23 de maio de 2025

"Asas gloriosas - De Lisboa a Macau pelo ar"

Capa da edição de 12 de Maio de 1924 do Diário de Notícias
Asas gloriosas - De Lisboa a Macau pelo ar
A imprensa - não só o DN mas também o jornal A Capital, o Século, etc - teve um papel decisivo na divulgação da aventura e na angariação de fundos para que um dos maiores feitos da história da aviação portuguesa tivesse sucesso. Nesta data os aviadores ainda não tinham chegado a Macau. O primeiro raide aéreo Portugal-Macau começara a 7 de Abril de 1924 em Vila Nova de Mil Fontes e terminaria a 20 de Junho desse ano.
PS: No blogue existem várias publicações sobre o tema; basta usar o motor de pesquisa (no topo do lado esquerdo).

sexta-feira, 13 de dezembro de 2024

“O Vôo Audaz das Águias Portuguesas”

Na edição de 13 de Dezembro de 1924 - há 100 anos - a Empresa Cinematográfica Macaense anunciava no jornal "A Pátria" (Macau) a estreia no Star Theatre em Hong Kong de um documentário intitulado "O Vôo Audaz das Águias Portuguesas" que documentava a chegada a Macau em Junho desse ano dos aviadores, Major Brito Pais, Capitão-tenente Sarmento Beires e do mecânico Alferes Manuel Gouveia. Partiram de Vila Nova de Mil Fontes em Abril para pela primeira vez realizaram uma ligação aérea entre Portugal e Macau, um dos maiores feitos da aviação portuguesa.
Este ao foi assinalou-se o centenário do 'raid' e no blogue existem inúmeros artigos sobre o mesmo. Basta utilizar o campo de pesquisa. Em baixo mais um documento raro, publicado em Portugal, que inclui no verso a "chronometragem" e o mapa com a rota percorrida.

sábado, 19 de outubro de 2024

Criação do Centro de Aviação Marítima

O Centro de Aviação Marítima foi criado para a Marinha Privativa de Macau através do Diploma Legislativo nº 22 (14.6.1928) publicado no Boletim Oficial a 14 Junho de 1928. Era governador Artur Tamagnini Barbosa. Este CAM seria extinto a 11 de Abril de 1933.


A 10 de Novembro de 1927 era inaugurado Centro de Aviação Naval.
Nas imagens o diploma legislativo da criação do CAM e a localização do hangar na Baía de Nossa Senhora da Esperança - primeira imagem - na ilha da Taipa, em 1935 num levantamento feito pelas Obras Públicas e numa carta do Comando Militar datada de 1955.

sábado, 21 de setembro de 2024

1º Raide Aéreo Lisboa-Macau: resumo

A Hélice numa das paredes do restaurante do Club Lusitano
 (Ice House Street, Central, Hong Hong), no 26º andar

Depois de alguns testes e ensaios, o voo inaugural teve lugar a 2 de Abril de 1924, com o aparelho a descolar da Amadora cerca das 16 horas, perante numerosa assistência e presença de personalidades – e a aterrar em Vila Nova de Milfontes 50 minutos depois.
Nos dias que se seguiram, o mau tempo, surgido inesperadamente, fez com que a aeronave e os seus tripulantes ficassem retidos em Milfontes. Somente no dia 7 desse mês de Abril, pelas seis horas da manhã, o Pátria se elevou nos ares, rumo a Oriente.
Em Tunes, 11 dias depois da partida de Milfontes, aguardava-os Manuel Gouveia, que havia seguido de barco até ali. A partir de então, a equipa ficava completa. De Tunes até à Índia, com paragens em Tripoli, Benghazi, Cairo, Rayak (Líbano), Bagdad, Bushire, no Irão (aqui, as autoridades locais colocaram obstáculos à partida do avião, situação somente ultrapassada por meio de suborno), Bandar-Abbas (cidade iraniana à entrada do golfo de Ormuz), Chahbahar (extremo sueste do Irão) e Carachi, já na Índia, onde chegam a 4 de Maio de 1924, ou seja, mais de um mês após a partida de Lisboa.
No dia sete, partiram com destino a Agra, cidade do famoso Taj Mahal, no estado de Uttar Pradesh ao passarem sobre Bhudana, empurrados pelo terrível vento – sempre esse implacável inimigo –, viram-se forçados a aterrar no deserto em condições tão difíceis que o Pátria se partiu, ficando irremediavelmente inutilizado. Inicialmente acolhidos por habitantes de um oásis, os viajantes, saídos ilesos de tão aparatoso desastre, foram conduzidos à via-férrea e, por esse meio, seguiram para Jodhpur, cidade indiana no estado do Rajastão, onde ficaram alojados na Gest House, sumptuoso bungalow pertença do marajá local.
Foi aí que receberam, poucos dias depois, um telegrama, anunciando que o Governo Português havia, entretanto, autorizado aquisição de um novo avião para que a odisseia pudesse ser prosseguida.
Montado e preparado o novo aparelho, trabalho que se prolongou por alguns dias, o Pátria II (este o nome já esperado) fez o seu primeiro voo de ensaio no dia 29 de Maio. Nos dias seguintes, rumo a oriente, sucederam-se as etapas: Lahore – Amballa – Allahabad – Calcutá – Akyab – Rangum (Birmânia, actual Myanmar) – Banguecoque – Oubon – Hanói – Macau. Face ao espaço acanhado da carlinga deste Pátria II, Gouveia viu-se obrigado a prosseguir por terra, viajando de comboio ou de barco e acompanhando, sempre que possível, as escalas.


A última etapa (Hanói – Macau), no dia 20 de Junho, iniciou-se pelas 10 horas da manhã, com um céu límpido e o avião a fixar-se, nesta fase, numa velocidade cruzeiro de 170 quilómetros por hora. Pouco a pouco, porém, o céu começou a toldar-se; a aeronave, fustigada por furiosa tempestade, aproxima-se de Macau – Ilha da Lapa, Ilha Verde, Portas do Cerco –, a água caindo em cortinas grossas tornavam impossível a aterragem. Os pilotos rumam a norte, tentando subir o rio Cantão; depois, divisando alguma claridade para os lados de Hong Kong para aí se dirigem, porém o Pátria II, ave ferida pela fúria dos elementos, já exausta, não responde, a hélice imobiliza-se. Aos comandos, Sarmento de Beires efectua uma aterragem de emergência sobre o que julga ser um terreno aberto no meio dos arrozais. Num espaço curto, aos solavancos devido à irregularidade do solo, o aparelho acaba por embater numa saliência de terra, partindo a hélice e o tem de aterragem. Tinham, afinal, aterrado num cemitério chinês, em Sâm-Tchan próximo de Kowloon, Hong Kong. 
Eram 14:48 horas; a longa viagem estava cumprida e cumprido estava também o sonho de muitos portugueses de Lisboa e de Macau, de verem reafirmadas as glórias pátrias. Odisseia aventurosa, sentimental, intelectual e de fraternidade com a província e o povo de Macau, conseguida em 117 horas e 41 minutos (tempo total de voo), sobre desertos, mares, planícies e montanhas, num total coberto de 17 570 quilómetros.Após aterrarem, tiveram de andar a pé cerca de dois quilómetros até ao pequeno burgo que era então a cidade de Sâm-Tchan; aí tomaram um comboio para Hong Kong, onde foram calorosamente recebidos por residentes portugueses, à frente dos quais o cônsul de Portugal, Cerveira de Albuquerque.


Entretanto a Cidade do Nome de Deus na China enviou a lancha-canhoneira Macau a Hong Kong ao encontro dos heróis. Sob o comando do primeiro-tenente Santos Pedro, o pequeno navio, de fundo chato, venceu as cinquenta milhas de mar revolto durante toda essa noite tempestuosa, fundeando nas águas mais calmas da colónia inglesa pela manhã do dia 21 de Junho. Na tarde desse dia chegou um outro navio português, a canhoneira Pátria, e foi neste que, ao raiar do dia 25, os intérpretes do feito heróico que ilustrava toda a nação portuguesa foram transportados até Macau. De notar o pormenor curioso de o dia anterior, 24 de Junho, ser o dia da cidade de Macau e, por essa razão, terem começado as festas da cidade.
Recebidos pelo governador, Dr. Rodrigo Rodrigues, pela alta oficialidade e por personalidades macaenses, os ilustres visitantes foram cumulados de elogios, ofertas e gentilezas. Pelas ruas de Macau, os festejos em honra dos bravos aviadores tomaram um cariz popular – marchas aux flambeaux, panchões, estalinhos chineses. Todo o território se engalanou, garridamente, para receber os ases da aviação portuguesa, sendo isso um testemunho inequívoco do quanto as gentes de Macau se orgulhavam de pertencer a uma comunidade sob jurisdição portuguesa. Para custear as despesas com estes festejos, foi aberta uma subscrição na Secretaria-Geral do Governo de Macau. 
Também o poeta Camilo Pessanha, natural de Coimbra, mas residente em Macau desde 1894, se associou a estas festividades, escrevendo então um pequeno opúsculo com o elucidativo título "Homenagem aos Aviadores que Completaram o 1º Raid Aéreo Lisboa – Macau". 
Mesmo depois da partida dos aviadores as homenagens continuaram, como é exemplo o facto de a 4 de Julho o Grupo de Teatro e Amadores de Música de Macau ter apresentado, no Teatro D. Pedro V, uma Récita em honra dos Heróis do Raide Lisboa – Macau. Foi ainda sob auspícios do governador de Macau que se providenciou o regresso dos aeronautas portugueses à Metrópole, por mar, via Estados Unidos.
Gazeta de Coimbra: 20 Dezembro 1924
"A nossa viagem tinha dois fins. Primeiro: sendo nós oficiais do Exército e patriotas, precisávamos de vir a Macau, terra portuguesa entre as terras portuguesas (…). Aqui estamos. Segundo: sabendo-se que todas as nações se empenhavam na realização de grandes viagens aéreas, a Aviação Portuguesa não podia permanecer apática e indiferente e cumpria-lhe não deixar de participar condignamente na grande competição. Atingimo-lo também." Capitão Brito Pais num discurso em Macau.

quarta-feira, 28 de agosto de 2024

Récita em homenagem aos Gloriosos Aviadores

A 4 de Julho de 1924 o Grupo de Amadores de Teatro e Música organizou no teatro D. Pedro V uma homenagem aos protagonistas da primeira ligação aérea entre Portugal e Macau. Foi umas das muitas homenagens realizadas em Macau.
No programa da récita incluiu-se um texto do poeta Camilo Pessanha (1867-1926) que aqui se reproduz. De acordo com a imprensa da época não há registo da presença de Pessanha nas homenagens.
Programa impresso pelo tipografia Mercantil, de N. T. Fernandes e Filhos, 1924

"Associo-me comovido, como antigo residente da colónia, (mais de trinta anos de residência), às gerais manifestações de entusiasmo pela chegada triunfal dos ínclitos aviadores Brito Pais, Sarmento Beires e Gouveia. Pelas condições da sua realização, é a sua visita a mais honrosa que Macau recebe desde há séculos.
Toda a população desta remotíssima terra portuguesa estremeceu de patriótico júbilo ao saber que Macau foi a meta escolhida para a grandiosa prova de audácia esclarecida que os dois ilustres aviadores, assumindo para tal fim a representação da nação portuguesa, desinteressadamente se impuseram e que com tanta perícia, e tão deslumbrante êxito levaram a cabo.
Júbilo que não resultou apenas da satisfação de uma fútil vaidade, aliás justificável, de burgo, mas também, e principalmente, de todos compreendermos que o raid Lisboa-Macau foi utilíssima empresa para o prestígio do nome português no Extremo-Oriente, demonstrando do modo mais palpável às populações destes países distantes que Portugal ainda tem filhos capazes dos mais heróicos sacrifícios, dispõe de competências técnicas rivalizando com as das mais cultas nações e acompanhando, portanto, brilhantemente, o progresso do Mundo."
Camilo Pessanha no Teatro D. Pedro V, a 4 de Julho de 1924.

terça-feira, 30 de julho de 2024

"Precisávamos de vir a Macau"

Por esta altura há 100 anos os heróis da aviação portuguesa e mundial no início do século 20 já regressavam a Portugal. Partiram de Macau rumo a Xangai e dali para o continente americano chegando a Portugal só em Setembro.
Em Macau o povo saiu à rua - Praia Grande - para saudar os aviadores portugueses

"A nossa viagem tinha dois fins. Primeiro: sendo nós oficiais do Exército e patriotas, precisávamos de vir a Macau, terra portuguesa entre as terras portuguesas, onde Camões se inspirou para escrever Os Lusíadas. Aqui estamos. Segundo: sabendo-se que todas as nações se empenhavam na realização de grandes viagens aéreas, a Aviação Portuguesa não podia permanecer apática e indiferente e cumpria-lhe não deixar de participar condignamente na grande competição. Atingimo-lo também."
Discurso de Brito de Paes em Macau citado por José Manuel Sarmento de Beires no livro "De Portugal a Macau: a viagem do Pátria", Seara Nova, 1925.
Cartaz para a recepção em Lisboa

quinta-feira, 20 de junho de 2024

"Os aviadores atingiram Macau"

A 20 de Junho de 1924 terminava a primeira ligação aérea entre Portugal e Macau. Nesse dia e nos seguintes o feito histórico para a aviação mundial foi notícia em todo o mundo...
Brito Pais e Sarmento de Beires (e Manuel Gouveia em algumas etapas) percorreram cerca de 17.000 kms e voaram mais de 115 horas entre Vila Nova de Milfontes e Macau usando para o efeito dois aviões. Em cima o Pátria II numa escala já na segunda parte da viagem.
Primeira página do Diário de Lisboa a 21 de Junho de 1924
Youngtown Vindicator 20.6.1924

St. Petersburg Times 20.6.1924

Strait Times 21.6.1924

The Evening Independent 20.6.1924

The Washington Reporter 21.6.1924

quarta-feira, 19 de junho de 2024

A "Gloriosa Viagem"

Há 100 anos, a 19 de Junho de 1924, estava nas bancas mais uma edição da Gazeta das Colónias. Numa das páginas podia ler-se:
"Quando este número da Gazeta das Colónias sair ao público, deve estar a terminar essa gloriosa viagem, com que os heroicos aviadores Brito Pais e Sarmento Beires, auxiliada pelo dedicado e infatigável mecanico Manuel Gouveia, vem aumentar o brilho do Nome Português e abrir mais uma página da historia, ainda curta mas já cheia de sacrifícios e de glória, que é a da nossa Aviação. (...)"
E assim foi... a 20 de Junho a "gloriosa vigem" chegava ao fim com o Pátria II a sobrevoar Macau em dia de tufão tendo feito uma aterragem forçada a 45 milhas do território, já no continente chinês, na localidade de Sam Chun, muito perto de Hong Kong, para onde seguiram primeiro antes de chegarem a Macau no dia da cidade, a 24 de Junho.

sexta-feira, 31 de maio de 2024

A "heróica jornada" prossegue nos céus da Índia

Excelsior (França) 29.5.1924

No final de Maio de 1924 a "heróica jornada" da primeira viagem aérea entre Portugal e Macau prosseguia já a bordo de uma outra aeronave, baptizada de "Portugal"/"Pátria II". A imprensa nacional e internacional continua a acompanhar o feito dos "bravos aviadores" Brito Pais, Sarmento Beires e Manuel Gouveia.
Diário de Lisboa 30.5.1924

The Hong Kong Telegraph 31.5.1924

Diário de Lisboa 31.5.2024


Com o Pátria I danificado o que sobrou do avião foi enviado para Portugal. Foi então comprado aos ingleses um DeHavilland DH-9A (motor de 450 cv) por 4.700 libras, dinheiro angariados por subscrições junto dos portugueses em Portugal e Brasil. A 30 de Maio de 1924 o Pátria II - o nome voltou a ser pintado na fuselagem - descolou às primeiras horas da manhã com destino a Ambala (Índia). Seria o tenente Oliver da aviação militar inglesa a acompanhar as primeiras horas de voo e a dar instrução sobre como navegar no novo aparelho. A 1 de Junho o Pátria II chega a Calcutá após uma viagem de 850 Km tendo atravessado a região de Ganges e as montanhas de Parasnath. Ainda faltavam muitos quilómetros e 19 dias para a chegada a Macau, o destino final...

sexta-feira, 12 de abril de 2024

"Portugal Buys British Planes"

A 16 de Dezembro de 1937 o jornal The Straits Times (Singapura) informava que Portugal comprara aviões ingleses* para uma "nova base naval em Macau".
"Portugal Buys British Planes - Arming New Air Base At Macao.
Lisbon, Dec. 15
Wing-Comdr Jose Cabral** left for London by air today to take delivery of a number of seaplanes bought by the Portuguese Government from Great Britain. They will be sent to the new Portuguese air base at Macao. Reuter"
* Referência aos Hawker Osprey (na imagem)

** José Cabral foi comandante da Aviação Naval de Macau cujo centro foi inaugurado em 1927 (na Taipa), era na altura 1º tenente-aviador. O CAN seria desactivado em 1933 e reactivado em 1937/38. Esta reactivação deveu-se à invasão da China pelo Japão. Ao todo foram adquiridos a Inglaterra seis aviões que seriam transportados para Macau pelos navios  da marinha portuguesa, Afonso de Albuquerque e Bartolomeu Dias.

terça-feira, 9 de abril de 2024

Centenário da primeira travessia aérea Portugal-Macau: 1924-2024

A deposição de uma coroa de flores no monumento existente em Vila Nova de Mil Fontes e uma sessão oficial no Museu do Ar em Sintra marcaram o arranque, no passado domingo, das comemorações do centenário da primeira travessia aérea entre Portugal e Macau. 
A viagem teve início a 7 de Abril de 1924 em Vila Nova de Mil Fontes e a Junta de Freguesia associou-se às iniciativa com uma medalha comemorativa de um dos maiores feitos da história da aviação. É apenas uma das várias manifestações agendadas que vão decorrer até Setembro em Portugal, Hong Kong e Macau.
"Há cem anos, a viagem aérea de Portugal a Macau constituiu um notável feito aeronáutico de destaque internacional. Com a sua realização, Portugal competiu com êxito no plano das grandes viagens aéreas intercontinentais que então eram promovidas pelas grandes potências internacionais. Mas, contrariamente a essas grandes potências, o Estado português não apoiou este raide. Foi o povo que se mobilizou para o financiar, através de ampla subscrição pública, numa ação solidária e entusiasta que galvanizou o país
inteiro, desejoso de feitos que animassem os tempos sombrios da I República.
O raide foi sonhado e meticulosamente preparado pelos aviadores Brito Paes e Sarmento de Beires, com o apoio do mecânico Manuel Gouveia. A 2 de abril, o avião «Pátria» (um Breguet 16) dirigiu-se da Amadora para Vila Nova de Milfontes (terra a que Brito Paes estava pessoalmente ligado), pela vantagem oferecida pela pista dos Coitos, a única que garantia a descolagem segura do avião em carga plena.
Partindo a 7 de abril, os aviadores viveram momentos de elevado risco, como o da aterragem de emergência na Índia, que danificou definitivamente o avião e obrigou à aquisição de um um novo aparelho, igualmente custeado pelo povo português. Os aviadores percorreram um total de 16.760 Km em 25 etapas, até aterrarem a 20 de junho em Shum-Chum, na China, após terem sobrevoado Macau, onde não conseguiram aterrar devido a um ciclone." (leia-se tufão).
Texto da Comissão de Organização das comemorações constituída pelo Município de Odemira, Universidade do Porto e Força Aérea Portuguesa.
Os três protagonistas da travessia aérea: Sarmento Beires, Manuel Gouveia e Brito Paes, natural de Colos, concelho de Odemira, a que pertence também a freguesia de Vila Nova de Mil Fontes.

No verso o brasão de V. Nova de Mil Fontes: escudo de prata, semeado de fontes heráldicas de azul e prata e, brocante, uma cruz da Ordem de Santiago, de vermelho; planície ondeada de ouro, perfilada de verde. Coroa mural de prata de quatro torres. 

domingo, 7 de abril de 2024

"Levantou hoje vôo o Pátria"

Há 100 anos tinha início a primeira ligação aérea entre Portugal e Macau. O jornal A Capital (Portugal) noticiou o facto protagonizado pelos "denodados aviadores capitães Sarmento Beires e Brito Pais" na primeira página da edição de 7 de Abril de 1924 com o título "Levantou hoje vôo o Pátria". 
O mecânico e também aviador Manuel Gouveia 'apanharia' o avião um pouco mais à frente no percurso que só terminaria em meados de Junho desse ano na cidade de Macau. Foi um dos maiores feitos da avião mundial na época.
Poucos dias antes da partida em Coitos (Vila Nova de Mil Fontes) o "Pátria" viera da Amadora o principal pólo da aviação em Portugal na época. 
Na fuselagem do aparelho pode ler-se "Esta é a ditosa pátria minha amada. Foi extraída do Canto III de Os Lusíadas, de Luís de Camões, cujo quinto centenário do nascimento também se assinala este ano.

terça-feira, 12 de março de 2024

Primeira ligação aérea Portugal-Macau: medalha do 50º aniversário

Por estes dias, há 100 anos, ultimavam-se os preparativos para o que viria a ser um dos maiores feitos da aviação portuguesa e mundial. A primeira ligação aérea entre Portugal e Macau. Este é um dos vários posts com que assinalarei a efeméride. 
Um telegrama da agência noticiosa Reuters, a partir de Londres no dia 2 de Abril deu a conhecer a partida ao mundo:
"London, April 2. Lisbon The Portuguese airship will depart at dawn on a projected flight to Macao."
"Londres, 2 de Abril. Lisboa Um avião português partirá de madrugada num voo que tem Macau como destino previsto."
Em 1974, no 50º aniversário da viagem, o Governo de Macau encomendou ao escultor Vasco Costa uma medalha de bronze.
Tem 8 cm de diâmetro, 4 mm de espessura e pesa 211 gramas. Brito Pais, Sarmento de Beires e Manuel Gouveia foram os protagonistas deste feito histórico a nível mundial.

quarta-feira, 4 de outubro de 2023

Flying Around the World

Na década de 1920 vários países, oficial e oficiosamente, empenharam-se nas travessias aéreas intercontinentais. Portugal foi um deles e uma das aventuras, feita sem o apoio oficial do Estado, teve como destino Macau.
Em 1924 - faz no próximo ano um século - dois aviadores militares, José Manuel Sarmento de Beires e António Jacinto da Silva Brito Paes, acompanhados pelo mecânico Manuel Gouveia, fizeram a primeira ligação aérea entre Portugal e Macau.
Num feito notável para a aviação mundial, partiram a 7 de Abril do Campo dos Coitos (Vila Nova de Mil Fontes) e chegaram ao destino a 20 de Junho. Numa viagem muito atribulada e com recurso a duas aeronaves (com o nome Pátria) percorreram 16,760 Km - o dobro da distância da travessia do atlântico sul realizada em 1922 por Gago Coutinho e Sacadura Cabral - num total de 117 horas e 41 minutos de voo.
O excerto de texto abaixo é retirado da edição de Setembro de 1924 da revista Us Air Services.
"(...) The idea of flying around the world is not new it has been the dream of aviators from the beginning and only waited development of a suitable airplane. The United States Army Air Service seriously considered the project in 1921. Sir Ross and Sir Keith Smith, the first to fly from England to Australia, also had planned to make the flight in 1921. Major Blake succeeded in reaching Akyab India in his attempt in 1922 when his plane was wrecked and his crew all but lost their lives. With the approach of 1924 came realization of the high hopes of some and the disappointment of others. The stage was set for circumnavigation of the world by air. The plans of three expeditions representing three great nations were completed and the world waited and watched with interest ready to acclaim the first to accomplish this difficult task. The first to start was the English Flight under the leadership of Capt Stuart MacLaren which left Calshot England on March 15. The British Government was not officially back of this attempt which was financed privately by the company which built the plane.
The Portuguese were next to start leaving Lisbon on April 2. This expedition, like the British, was not an official flight of the Portuguese Government being financed by the donation of Major Brito Pais and by popular subscriptions from the Portuguese people. The pilots were Major Brito Pais and Major Sarmento Beires.
The American Flight left Seattle Washington on April 6 1924 and is the only flight that represents the official effort of any of the nations represented in the race around the world. On July 26 came unexpected announcement that Major Pedro Zanni of the Argentine Army had taken off from Amsterdam, Holland to fly around the world making the fourth entry this year.
Stuart MacLaren, the gallant English man, was forced out of the competition when after a series of misfortunes he was trapped in a dense fog while attempting to fly from Petre pavlosk Kamchatka to Nikolski in the Kom andorski Islands of the North Pacific and upon landing near the shores of Behring Island August 2 his plane was hopelessly damaged MacLaren sent the following message to the Air Ministry in London. For the sake of the Royal Air Force I am sorry I failed but conditions here now are im possible for flying
The Portuguese Flight ended after a game fight against continuing misfortune at Shamiehun China near Macao, the Portuguese settlement. These airmen had suc in southeastern China ceeded in attaining their first goal after having traversed 11,000 miles in 118 hours flying time.  The crash of their plane brought to an end the hope that they could circumnavigate the globe this year.
As this is written Major Zanni commanding the Argentine Flight has reached Hanoi the capital of Indo China In attempting to take off he wrecked the plane and was trying to obtain another plane from Japan after which he hoped to follow the same route proposed by the ill fated MacLaren It is hoped he will have better weather conditions than were experienced by his predecessors.
With the landing of the Am erican World Flyers in Labrador their next stop they will again be on the American continent and although they must reach Seattle before their mission is completed they shall have covered 20,091 miles a greater distance than has ever before been flown by a single aerial expedition Though still 5,000 miles away from their goal they have placed behind them the great obstacles presented by the Pacific and Atlantic Oceans and we may therefore look forward to a successful completion of their great undertaking.(...)
in US Air Services, Setembro 1924
Monumento construído em 1992 em Vila Nova de Mil Fontes.

sábado, 12 de fevereiro de 2022

MATCO: passenger ticket and baggage check

A Macao Air Transport Company (MATCO), nascida em Hong Kong - com outros sócios - no ano de 1947 pela iniciativa de Pedro José Lobo e dirigida pelo filho Roger Lobo, serviu principalmente para o transporte de ouro.
O logótipo da empresa tinha 'demasiadas' semelhanças com o brasão de Macau mas a designação era assumidamente a versão inglesa.
Anúncio de 1961 publicado em Hong Kong

Nas imagens abaixo um bilhete de passageiro e respectiva bagagem chamando-se a atenção para as "condições do contrato". Nestas destaco a indemnização limitada a 30 mil dólares em caso de morte e 4 mil dólares por danos/perda de bagagem, e o facto de qualquer diferendo que pudesse ocorrer entre o cliente e a empresa ter de ser resolvido nos tribunais de Hong Kong, onde era a sede da empresa. Entre algumas situações em que a empresa declinava responsabilidade mencionava-se qualquer acto de guerra ou pirataria.
Macao AirTransport Company: MATCO

A viagem entre Kai Tak e o Porto Exterior de Macau - aviões anfíbios - durava 15 minutos e custava cerca de 40 dólares de Hong Kong (simples) e 75 dólares (ida e volta).
Também era conhecida pela designação Companhia de Transportes Aéreos de Macau*, Lda., era considerada a companhia aérea internacional mais pequena do mundo.

*na década de 1990 surgiu a Companhia de Transportes Aéreos Air Macau, S.A.R.L.