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terça-feira, 29 de setembro de 2026

Templo Pou Tai Un (菩提禪院) na Taipa

Este postal ilustrado da década 1980 mostra o Templo Pou Tai Un (菩提禪院) na ilha da Taipa.
Década 1980

Do final da década de 1980 recupero este texto inserido numa brochura em português e chinês sobre os templos da Taipa:
"Se quiser passar um dia agradável, venha à Taipa pela ponte velha e antes de chegar ao hotel Hyatt, vire à direita e no fim desta estrada, Lou Lim Ieok, está o templo. Construído em 1925, é um mosteiro budista com um templo dedicado aos Três Budas Preciosos e a Kun Iam. De visita obrigatória, nele se encontram Jardins com estátuas, viveiros de carpas e um conjunto de santuários ou lugares de oração onde se confraternizam os deuses do panteão indu, taoista e budista chinês. Neste lugar, com mesas e bancos espalhados pelos jardins, fazem-se belos piqueniques e  come-se boa comida vegetariana dos monges que ainda aí vivem num andar destinado a mosteiro, no pavilhão central. Neste pavilhão, de varandas e beirados ricamente trabalhados encontra-se no andar superior uma estátua, diga de ser vista, de mais de 9 metros de altura, do fundador do budismo, Saquiamuni, o Buda Iluminado que pode ver e compreender todo o universo."
菩提園   
如果你想愉快地過一天,請由舊澳氹大橋到氹仔來菩提園吧!當到達凱悅酒店前應往右轉,再走進盧廉若馬路的盡頭就可以見到菩提園。它建於一九二五年,內有供奉三尊珍貴佛像和觀音像的殿堂,是遊人必到的一座佛教禪院。院內設有一些鑲有石像、養有鯉魚的池塘的庭園,並有一列供參拜中國佛教、道教和印度教等諸神用或唸經用的空間。這裡的庭園均備有枱、櫈,可讓遊人在此野餐,又或品嚐僧侶所做的美味素菜,他們都住在中央寺院的禪房內。在這座經精工修建並附有陽台和屋檐的中央寺院的最高一層內,有一尊高九米、十分值得參觀的佛教始祖釋迦牟尼像,他是一位能看透及洞悉整個宇宙的智者。
Na década 1990

Lá dentro está uma estátua dedicada ao Buda Saquiamuni. Feita de bronze tem a altura de 5,4 metros e um peso de 6.5 toneladas
Altar a estátua de Buda no Templo de Pou Tai Un
氹仔菩提園大佛像

No "Roteiro das Ilhas – Ilha da Taipa. Câmara Municipal das Ilhas", de 1996, pode ler-se:
"O templo chamava-se originalmente mansão (ou jardim) Pou Tai e foi construído pela família Lo em 1927.Um dos seus membros chamava-se Lo Pou San, e era então um dos pintores mais famosos da província de Guangdong, da Escola de Pintura de Lignan, morando na mansão com a sua mãe. O espaço total da mansão foi registado oficialmente em 1933 com uma área tão espaçosa que incluía ainda uma parte da terra onde ficava a Fábrica de Panchões “Him Son” e a terra onde ficava o edifício contíguo da “Wa Seng”. Depois da morte de Lo Pou San, seu filho Lo Vai Chong mudou de residência para Hong Kong e vendeu os terrenos da mansão Pou Tai, que foram comprados por cinco entidades. No dia 16 de Julho de 1964, uma destas entidades, Mestre-Monge Sik Chi Un, comprou a parte principal da mansão, que incluía um pequeno templo que se chamava Palácio Lok Chou, e a maior parte do jardim com a área de 3330 m2.
O mestre Sik Chi Un introduziu o ramo do budismo Cheng Tou (Terra Limpa/Pura) em Macau. Nasceu na província de Zhejiang na China. Tornou-se monge no templo Chiu Heng na cidade de Hangzhou em 1928, e começou a difundir a doutrina budista, pregando no distrito de Zhongshan na província de Guangdong durante alguns anos. No período da guerra entre o Japão e a China, mudou-se para Macau e estabeleceu o ramo Budista Chi Sam. No mosteiro Pou Tai encontram-se actualmente deuses do Budismo e do taoísmo."

domingo, 7 de junho de 2026

"Leitura" de um dos pavilhões do Templo de A-Ma

Este é um dos vários pavilhões do Templo de A-Ma. À semelhança dos demais a actual configuração remonta a 1828. Para esta 'leitura' subjectiva recorri a ilustrações - aguarelas -feitas por IA e partir de fotografias.

As inscrições são em escrita Lishu (escrita oficial/clerical), o que lhes confere uma aparência mais quadrada e monumental.

1. Dístico da Direita
Transcrição: 春風靜秋水明貢士波臣知中國有聖人伊母也力
Tradução Comentada: "A brisa da primavera é calma e as águas do outono são límpidas. Os oficiais e os súbditos do mar reconhecem que na China existe uma Santa; isto deve-se ao poder de protecção divina da Mãe (Mazu)."

2. Dístico da Esquerda
Transcrição: 海日紅江天碧樓船艘艚涉大川如平地唯德之休
Tradução Comentada: "O sol do mar é rubro e o céu sobre o rio é azul-safira. Grandes navios e embarcações atravessam os vastos oceanos como se caminhassem em terra plana; isto é a glória da sua virtude."
Os cantos do beiral terminam com figuras de dragão com a boca aberta. São os Chiwen, um dos nove filhos do Dragão, que, por gostarem de engolir fogo, são colocados nos telhados para proteger a estrutura contra incêndios e raios.

Painel Central (Superior)
Este é o relevo mais dinâmico e situa-se logo abaixo do telhado principal.
Três figuras principais: À esquerda e ao centro, dois Qilins (quimeras chinesas com corpo de escamas e cascos) que parecem estar a interagir ou a "brincar" com elementos circulares. À direita, uma ave de grande porte (provavelmente uma fénix ou um pavão mitológico) com as asas abertas, voltada para os Qilins.
Significado: Esta composição representa a "Harmonia Universal". O Qilin simboliza a paz e a benevolência, enquanto a ave mitológica representa a virtude. Juntos, indicam que este portal é um lugar onde a energia celestial está em equilíbrio.

Painel Lateral Esquerdo (acima da janela)
 Um cenário naturalista focado em aves pernaltas, identificadas como Garças (Xianhe). Elas aparecem integradas num cenário de rochas e vegetação (provavelmente pinheiros ou ameixeiras).
Significado: A garça é o símbolo máximo da Longevidade e da elevação espiritual. Estar no lado esquerdo reforça a ideia de uma vida longa e estável para quem entra.

Painel Lateral Direito (acima da janela)
Outra cena de fauna e flora, mas aqui a figura central é uma ave com plumagem exuberante e cauda longa, uma Fénix (Fenghuang) ou um faisão ornamental, pousada num ramo florido.
Significado: A fénix representa a Beleza, a Graça e a Prosperidade. Enquanto no lado esquerdo o enfoque é longevidade, o lado direito destaca a prosperidade.

segunda-feira, 23 de março de 2026

"We Sell Kodak Film"

Esta imagem é um 'recorte' de uma fotografia que mostra o Templo de A-Ma na década 1960. Mostra uma banca de rua com publicidade à Kodak (em amarelo e vermelho) e aos cigarros Kent. Dois dos muitos produtos à venda que por certo agradariam aos turistas. Nesses tempos a Kodak fornecia rolos para fotografias e para slides (como o mostrado abaixo).
Junto à escadaria de entrada no templo, uma turista e um riquexó com a sua capota verde distintiva e estrutura metálica. 
Slide década 1970

segunda-feira, 23 de fevereiro de 2026

Caracteres chineses na entrada do Templo de A-Ma / 妈阁庙

Esta ilustração produzida por IA foi feita a partir de uma fotografia da década 1950. Mostra a entrada do Templo de A-Ma (ou Ma Kok Miu), o templo mais antigo de Macau com uma história que remonta a 1488 (dinastia Ming).
No topo - horizontal - 媽祖閣 -  Templo de Mazu.
Mazu é a deusa do mar e protectora dos pescadores e marinheiros. 
Painel da esquerda - 澤潤生民  - "Sua benevolência nutre e protege o povo."
Refere-se às bênçãos da divindade que trazem prosperidade e sustento à população.
Painel da direita - 德周飽宇 - "Sua virtude envolve e preenche todo o universo."
Exalta o poder espiritual infinito da deusa.
Ao Fundo (interior do portal) - 神山第 - "A Primeira Montanha Sagrada."
Origem do nome "Macau":
Acredita-se que o nome Macau derive deste templo localizado no acesso ao Porto Interior.  Reza a história que quando os navegadores portugueses ali chegaram e perguntaram o nome do local os habitantes responderam "A-Ma-Gau" (Baía de A-Má). Fonéticamente adoptaram o nome "Macau".
A Divindade:
O templo é dedicado a Mazu, a deusa do mar e protectora dos pescadores e marinheiros; figura central na cultura popular chinesa e no Taoísmo.
Património da Humanidade:
Está classificado pela UNESCO desde 2025 como Património Mundial da Humanidade.
Arquitectura e Cultura:
O complexo é composto por vários pavilhões de oração, portais e pátios construídos na encosta de uma colina, integrando-se com a natureza. É um local de harmonia entre o Confucionismo, o Taoísmo, o Budismo e múltiplas crenças populares.

quarta-feira, 18 de fevereiro de 2026

Ano Novo Chinês na década 1990 por Vitor Cordeiro

Vitor Cordeiro trabalhou na Companhia de Electricidade de Macau (CEM) nas décadas de 1980/90. Nesses anos registou por diversas vezes imagens dos "momentos de vivência de espiritualidade" durante o Ano Novo Lunar nos templos de A Ma e Kun Iam Tong”. 
De um conjunto de fotografias feitas a preto e branco entre 1992 e 1999 concebeu uma exposição em 2014, a "Cultos, Templos, Ou Mun” de que na altura o blogue Macau Antigo deu notícia. Aqui ficam alguns desses registos.


Biografia
Vítor Cordeiro nasceu no Cadaval em 1953. Engenheiro electrotécnico, desde muito cedo manifestou interesse pela fotografia, mas foi a partir de 1983, altura em que se radica em Macau para exercer a sua actividade profissional, que passou a ter uma relação mais íntima com a objectiva. Sendo a Ásia uma área de interacção de diferentes culturas proporcionou-lhe um vasto e diversificado registo de imagens, levando-o a desenvolver ainda mais o gosto pela fotografia e entre 1992 e 1996 participa no curso de fotografia do Instituto Politécnico de Macau. Regressado a Portugal em 2000, embora rendido ao digital, mantém ainda o hábito de registar imagens em película a preto e branco, que trabalha num pequeno laboratório improvisado em sua casa.
Exposições e prémios
2º prémio no concurso de fotografia - Navio Escola Sagres (Macau) - 1984; Exposição colectiva (Macau)- 1996; Menções honrosas nos concursos da Junta de Turismo da Ericeira - 2001 a 2004; Exposição colectiva solidária (Cascais) – 2010, 2011, 2012, 2013, 2014. Exposições Individuais: Fotografia de Macau - Clube EDP (Lisboa) – 2009. Cultos, Templos, Ou Mun - Ano Novo Lunar em Macau na Delegação Económica e Comercial e Turismo de Macau (Lisboa) - 2010; Biblioteca Municipal do Cadaval; Festival Finisterra – Hotel Sana Sesimbra; Marshopping (Matosinhos), Palácio de Cristal (Coimbra) - 2012. Expressões Lorosae -Timor: Clube EDP (Lisboa); Clube TAP (Lisboa); Coop. Comunicação e Cultura (Torres Vedras) - 2010; Biblioteca Municipal do Cadaval; Palácio do Gelo (Viseu)- 2011; Elos Clube Lisboa e Maristas Carcavelos - 2012. A Música de Pragança: Junta de Freguesia de Lamas (Cadaval); Clube Pessoal EDP (Lisboa) –2011; Assembleia da República (Lisboa) e Pragança (Cadaval) - 2012.

sábado, 27 de setembro de 2025

"Um Templo Chinez"

Postal ilustrado da década 1920 com a legenda "Um Templo Chinez". Trata-se do Templo de A-Ma construído em 1605 no 33º ano do reinado do Imperador Wan Li. 
É um dos três principais templos Budistas de Macau, originalmente designado “Templo de Tin Hou”, depois “Templo de Ma Zu”, e vulgarmente referido como “Templo de A-Ma”, deusa protectora no mar, a mais popular manifestação religiosa de Macau.

terça-feira, 19 de agosto de 2025

"Macao - La Pagode des Rochers"

Versões a cores e a preto e branco da mesma ilustração que ao longo do século 19 surgiu em várias publicações, nomeadamente em 1858 no jornal L'Illustration e no volume 9 da obra Géographie générale, physique, politique et économique, de Louis Grégoire, publicada em 1875/6.

sexta-feira, 1 de agosto de 2025

Tirando água do poço há 100 anos

Na segunda metade da década de 1920 - há 100 anos - James Holmes visitou Macau e tirou várias fotografias. A que seleccionei para este post mostra um poço frente ao templo de Kun Iam Tong no que é hoje a Av. do Coronel Mesquita. Na mesma imagem coloquei uma perspectiva semelhante da actualidade.
 
James Dearden Holmes (1873-1937) foi um fotógrafo britânico notável pelas suas viagens à volta do mundo e pelo uso de uma câmara estereoscópica. Ele foi contratado pela empresa de tabaco Cavanders Ltd. para tirar fotografias um pouco por todo o mundo para os maços de tabaco que continham cartões ilustrados com imagens estereoscópicas.
Dessas viagens, que decorreram entre 1924 e 1927, resultaram numa vasta colecção de mais de 9.000 imagens, intitulada "World Travel" (Viagens pelo Mundo). Holmes visitou inúmeros países, como o Egito, a Índia, a Austrália, os Estados Unidos e muitos na Ásia.
James esteve em Macau em Fevereiro de 1926 tendo também passado por Hong Kong para celebrar o Ano Novo Chinês (13 de Fevereiro) antes de seguir para Xangai. É sabido que tirou pelo menos 17 fotografias em Macau, incluindo uma imagem de um "poço chinês" em frente ao templo de Kun Iam e cenas de pessoas no Largo da Caldeira (Porto Interior), uma zona de muito comércio e onde estavam localizadas a maior partes das casas de jogo, nomeadamente do fantan.

James Dearden Holmes (1873-1937) was a British photographer known for his extensive world travels and his use of a stereoscopic camera. He was hired by a tobacco company, Cavanders Ltd., to take photographs around the world for their cigarette cards, which were miniature stereoscopic pictures.
His travels, which took place from approximately 1924 to 1927, resulted in a collection of over 9,000 images titled "World Travel." He visited numerous countries, including Egypt, India, Australia, the United States, and many in Asia.
Specifically regarding Macau, Holmes was there in February 1926. He also visited nearby Hong Kong for Chinese New Year on February 13th of that year before traveling to Shanghai later in the month. He is known to have taken at least 17 photographs in Macau, including a photo of "A Chinese well" in front of the Kun Iam temple and scenes of people playing in the Largo da Caldeira (Inner Harbour). These photographs provide a historical glimpse into Macau in the 1920s.

sexta-feira, 25 de julho de 2025

Templo de A-Ma / A-Ma Temple / 媽閣廟: antes e depois

A imagem de cima é uma parte de uma fotografia cuja autoria é atribuída ao chinês Lai Afong e foi feita ca. 1860/80. A imagem abaixo é um postal ilustrado do início do século 21. Descubra as diferenças...

quarta-feira, 23 de abril de 2025

Procissão fúnebre junto ao templo de A-Ma

Esta fotografia não tem a melhor qualidade para permitir uma análise 100% correcta. Após algum tempo de análise conclui que no canto inferior esquerdo está timbrada a expressão "Po Man Lau Macao". Provavelmente da década 1930/40 mostra uma procissão fúnebre no largo frente à entrada do Templo de A-Ma, na Barra. 
Entre os vários elementos que permitem esta conclusão estão as "lanternas funerárias" (em 1º plano) usadas nestes cortejos. Incluí uma fotografia do mesmo local como prova praticamente inequívoca que se trata do local mencionado. A Po Man Lau era uma papelaria/livraria que teve morada na rua de S. domingos e no Largo do Senado na primeira metade do século 20. Também se dedicava à fotografia vendendo rolos e fazendo a revelação dos filmes. Tinha também uma tipografia e editada pequenos livros e postais ilustrados.

sábado, 12 de abril de 2025

"O grande templo de Macau — a maior maravilha que já vi"

Óleo sobre tela (38x46cm) da autoria de Auguste Borget (1808-1877), assinado pelo autor no canto inferior direito.
De 1836 a 1840, Auguste Borget embarcou em uma viagem à volta do mundo que o levou às Américas, ao Oriente, ao Extremo Oriente e à Oceania. Chegou à China em 1838, onde permaneceu cerca de ano e meio, incluindo oito meses em Macau, entre Outubro de 1838 e o final de Maio de 1839. Foi a estadia mais prolongada de toda a viagem, onde desenhou/pintou a lápis, óleo ou aguarela paisagens, edifícios e cenas da vida quotidiana.
Em Macau Borget tornou-se amigo do pintor britânico George Chinnery, residente em Macau desde 1825, que lhe deu aulas de pintura, permitindo-lhe dominar a pintura a óleo e a cor. O templo de A-Ma, que Borget descreveu como "o Grande Templo de Macau" foi o local que mais o fascinou sendo motivo de inúmeras obras. No sopé da encosta ocidental da Colina da Barra/Penha é composto pelo Pavilhão do Portão, o Arco Memorial, o Salão de Orações, o Salão da Benevolência, o Salão Guanyin e o Zhengjiao Chanlin (pavilhão budista), cada um formando uma parte de um complexo bem organizado em perfeita harmonia com o ambiente natural. A variedade de pavilhões dedicados à adoração de diferentes divindades dentro de um único complexo torna o Templo de A-Má uma representação exemplar da cultura chinesa, inspirada no confucionismo, no taoismo, no budismo e numa série de crenças populares.
Nesta pintura Borget retrata uma cena junto à entrada do templo. Ao pé da escadaria, uma pequena multidão agita-se em torno de um escrivão/escritor, alguém que dominava a escrita chinesa (os caracteres) e que, por exemplo, escrevia as 'preces aos deuses' para quem não sabia escrever. Pode ainda ver-se um barbeiro, meninos jogando dados e vendedores de legumes e chá. Toda a cena ilustra uma azáfama típica do local na época sendo o foco principal a figura do escrivão/escritor. O enquadramento é feito pelo muro que circunda o templo e as árvores centenárias.
No seu diário, Borget escreve a 2 de Maio de 1839 sobre "o grande templo de Macau — a maior maravilha que já vi":
"Quase diariamente visito este templo - cujo nome chinês, Neang-ma-ko, significa o Antigo Templo da Senhora - seja pela manhã, quando tudo é sombra, seja ao final da tarde, quando cada pedra, árvore e telhado reflectem o sol, ou ao meio-dia, quando o calor extremo me obriga a buscar a sua sombra grata. A cada hora e sob todos os aspectos, a vista do templo é impressionante e, embora longe de ser imponente pela sua magnitude, atrai pela delicadeza das suas proporções e, especialmente, pelo seu carácter eminentemente chinês. Nunca o visito sem observar algumas cenas interessantes, alguns detalhes novos que antes me escaparam. Tenho a certeza de sempre encontrar algum ponto de vista atraente e pitoresco e, de facto, poderia fazer um álbum muito curioso, apenas a partir do recinto do templo e da esplanada em que se ergue."

segunda-feira, 24 de março de 2025

"Temples consacrés à l'idolâtrie"

Les Chinois ont à Macao deux temples consacrés à l'idolâtrie: l'un est dans une situation pittoresque, à l'extrémité méridionale de la ville, parmi plusieurs grandes masses de granit entassées confusément. La terre, dans laquelle ces masses ont été sans doute ensevelies, a cédé à l'effort des pluies successives, et les rochers sont tombés au hasard, les uns sur les autres, et ont resté comme on les voit à présent. Le temple consiste en trois différens édifices, placés l'un audessus de l'autre, et accessible par un seul escalier tournant, pratiqué dans le roc. Ces édifices sont ombragés par des arbres, dont le feuillage est si épais, qu'on ne peut les découvrir à quelque distance.
in "Voyage dans l'intérieur de la Chine et en Tartarie fait dans les années 1792, 1793 et 1794 par lord Macartney", (Paris, 1798) tradução para francês por Jean-Henri Castéra do relato oficial da embaixada de Macartney à China, escrito pelo secretário, George Staunton, e publicado em Londres em 1797: "An authentic account of an embassy from the King of Great Britain to the Emperor of China".
 Templo de A-Ma: óleo sobre tela. Zhao Shao, 1996

Tradução/Adaptação:
Os chineses têm dois templos em Macau dedicados à idolatria: um está num local pitoresco, no extremo sul do cidade, entre várias grandes massas de granito empilhadas de forma confusa. A terra, na qual essas massas foram sem dúvida enterradas, cedeu ao esforço das chuvas sucessivas, e as pedras caíram aleatoriamente, umas em cima das outros, e permaneceram como as vemos agora. O templo consiste em três edifícios diferentes, colocados um acima do outro, e acessível por uma única escada em caracol. Estes edifícios estão sombreados por árvores, cuja folhagem é tão densa, que não se avistam à distância.

domingo, 12 de janeiro de 2025

Uma espera de cinco minutos... ou melhor... 20 dias

Em 1845 foi inaugurado na Washington Street em Boston (EUA) o "Chinese Museum" (Museu Chinês) que tinham no espólio cerca de 800 objectos relacionados com a arte, agricultura, trajes e outros costumes chineses. Na época a China era um motivo de bastante interesse já que apenas um ano antes os EUA tinham assinado o primeiro acordo de comércio e amizade com o Império do Meio, no templo de Kun Iam em Macau - Av. do Coronel Mesquita - a 3 de Julho de 1844. Ficaria para a história como o Tratado de Wanghia, designação de Mong-ha em chinês, zona de Macau onde fica(va) o templo e que na época, era considerada bastante afastada do centro da cidade.
Da comitiva dos EUA fazia parte George R. West (1811-1877), pintor oficial da expedição que registou para a posteridade várias aguarelas de Macau, incluindo esta onde se vê a entrada do Templo de Kun Iam.

Dois dos protagonistas desse acordo foram Caleb Chushing, o emissário do governo dos EUA - presidente John Tyler - e o secretário da missão, Fletcher Webster. Ambos fizeram inúmeras palestras públicas sobre a viagem, eventos amplamente noticiados na imprensa norte-americana.
Aqui fica um pequeno excerto de uma palestra de Webster feita em Nova Iorque e noticiada por jornais como o New York Courier and Enquirer em 1845. O excerto refere-se ao momento em que a delegação norte-americana aguardava pela chegada do representante do imperador da China.
"(...) The American embassy arived at Macao in February and the months of March, April and May, said Mr W., we passed in studying the and waiting as contentedly as we could for intelligence from Keying who was to meet us. At last we received a letter from him, 1,500 miles to West, saying that he was on his way, had been detained by want of water in the canals, and would be there in five minutes. We waited as patiently as possible in a city without society, walks or anything in the slightest degree amusing; and his five minutes proved to be according to our division of time, twenty days. At last he reached Canton, and finally a messenger announced that he was at Macao and had taken up his lodgings at a great temple a mile and a half out of town. He announced his intention of calling upon us the folowing day at 11'o clock precisely. The Chinese are very particular in all matters etiquette. (...)"

"(...) A embaixada americana chegou a Macau em Fevereiro e nos meses de Março, Abril e Maio, disse o Sr. W., passámos o tempo estudando e esperando da melhor forma que podíamos por informações de Keying, com quem nos íamos encontrar. Finalmente recebemos uma carta dele, 1.500 milhas a oeste, dizendo que estava a caminho, que havia sido detido por falta de água nos canais e que chegaria em cinco minutos. Esperamos com a maior paciência possível numa cidade sem sociedade, passeios ou qualquer coisa no mínimo divertida; os cinco minutos dele transformaram-se, de acordo com nossa divisão do tempo, em vinte dias. Por fim chegou a Cantão e finalmente um mensageiro informou que ele estava em Macau onde se alojara num grande templo, a uma milha e meia da cidade. Anunciou ainda que nos iria visitar no dia seguinte, precisamente às 11 horas. Os chineses são muito exigentes em todos os assuntos de etiqueta. (...)"

domingo, 6 de outubro de 2024

"Monuments de tous les peuples"

"Monuments de tous les peuples, décrits et dessinés d'après les documents les plus modernes" é uma obra em dois volumes publicada em Bruxelas no ano de 1843. Ernest Breton (1812-1875) é o autor dos desenhos (ca. 140) e do texto. 
Na parte dedicada à China neste livro dedicado aos "monumentos de todos os Povos", Breton inclui "o grande templo de Macau", ou seja, o templo de A-Ma na Barra.
Excerto do texto:
"Le grand temple de Macao (planche 24) est un des plus élégants édifices de l'empire; mais aussi il n'en est point dont l'aspect soit moins approprié à sa destination. Ses portiques gracieux coquets semblent, bien plutôt former l'entrée d'un lieu destiné au plaisir que donner accès à un sanctuaire consacré à la prière."
Breton inspirou-se muito provavelmente num desenho/pintura original de Auguste Borget.

domingo, 18 de agosto de 2024

Curiosidades sobre Templo/Pagode Lin Fong

Este templo é conhecido pelo nome Lin Fong, uma designação já do século 18, embora tenha sido construído em 1592 sob outro nome, Cihu. Na zona houve ainda outro denominado Tin Fei, também do século 16.
O Lin Fong é também conhecido por Templo do Lótus (fica no sopé da colina de Mong Ha também denominada de Lótus), Templo do Istmo (pequena língua terra que ia dali até à fronteira terrestre delimitada pela Porta do Cerco), ou Templo Novo.



Neste mapa de origem inglesa - final do século 18 - o templo é denominado "Sang Miu"

Quando os arruamentos passaram a ter nome fica na Estrada do Arco. Era o local de hospedagem dos mandarins superiores quando estes se deslocavam a Macau. Do lado esquerdo da imagem imediatamente acima pode ver-se uma pedra brasonada (brasão português), local próximo de onde foi assassinado o governador Ferreira do Amaral a 22 de Agosto de 1849.

O templo teve obras de restauro em 1876 que lhe deram a actual configuração na Av. do Almirante Lacerda (perto do antigo Canídromo). Teve também obras na década de 1980. 
No século 19 esta era ainda uma zona rural dominada pela aldeia de Mong Ha onde viviam sobretudo agricultores e pescadores.

Curiosidade: desde 1997 existe no local um memorial em honra Comissário Imperial Lin Zexu (1785-1850) que teve um papel relevante na primeira guerra do ópio e que visitou Macau em Setembro de 1839 tendo ficado alojado no templo/pagode Lin Fong.

sexta-feira, 2 de agosto de 2024

Mercado no Largo do Pagode do Bazar

Reza a lenda que os habitantes desta zona da cidade - o actual Largo do Pagode do Bazar -encontraram uma estátua de madeira do Marechal Hong Gong que flutuava no rio próximo e construíram um templo em sua homenagem por volta de 1860, o Hong Chan Kuan. Na altura o que é hoje a Rua 5 de Outubro era uma área ribeirinha com vários cais sendo usada pelos vendedores ambulantes para fazer negócio, uma prática que se manteve até praticamente ao final do século 20. Seguiram-se aterros no final do século 19 ao longo de uma grande parte do Porto Interior. 
No pavimento ainda hoje restam as longas pedras no largo que era usado pelos comerciantes locais para venda de produtos nascendo assim um mercado informal muito concorrido até pelo menos à década de 1980.
Foto da década 1970

terça-feira, 23 de abril de 2024

"A temple which faces the inner harbour"

Imagem não incluída na obra referida

Temple at Macao
There is at Macao a temple which faces the inner harbour which in addition to its very picturesque situation possesses an interest as the object of a singular superstition. It consists of several edifices of various dimensions built on points of the very abrupt and elevated rock surrounded by trees which conceal them in a great measure from sight. The naked roots cover the rock in many places penetrating the crevices to seek nourishment from the small accumulations of soil which they contain. Stairs cut in the rock lead in various di rections winding round the large masses to termi nate at the entrance of these shrines Large in scriptions are deeply cut in the rocks and filled with vermilion. The superstition which has rendered this temple celebrated is as follows. 
A fleet of boats being about to sail from Fuh Keën, a lady appeared in one of them and advised the fishermen to defer their sailing for that in spite of the favourable appearance of the weather a storm was certainly approaching. Regardless of the warn ing all the boats composing the fleet sailed with the exception of a single one all save this one were lost and every one on board perished. The boat on board of which this lady made her appearance sailed when the tempest had subsided and with her safely reached Macao where on landing she immediately disappeared.
This temple is built on the spot where the lady vanished and is called neang ma ko, a temple of the queen of heaven. She is esteemed the protectress of mariners who invoke her in distress crying a ma oh mother.
At the landing place are constantly to be seen fragments of vessels anchors spars & which have been left there in grateful recollection by sailors who have escaped danger by her supposed assistance.
On returning from sea it is customary for sailors to repair to this temple return thanks and make an offering of odoriferous matches gilt paper & which is burnt before one of the altars.
The whole neighbourhood is inhabited by the lowest classes of the Macao Chinese whose collections of houses are the most dirty and offensive that can be imagined. The houses being very small and the in habitants in most cases very numerous the army of fowls pigs and children which appertains to each is little conducive to cleanliness or quiet."
Excerto de 

Sketches of China, W. W. Wood, 1830

sexta-feira, 15 de março de 2024

Um erro sobre o "Makok temple at Macao"

Numa conhecida leiloeira internacional este óleo sobre tela do séc. 19 - imagem abaixo - está catalogado como sendo "Entrance to the Makok temple at Macao" / "Entrada do Templo de A-Ma em Macau". Na verdade, não é. Em nenhuma documentação escrita ou pictórica o templo de A-Ma/Pagode da Barra surge representado frente a uma linha de água. Tem sempre um terreiro em frente.
A pintura abaixo é semelhante. A autoria é atribuída a Nam Cheong, pintor com actividade na década de 1830.

Em baixo uma outra pintura, feita ao estilo de George Chinnery, do mesmo templo.
A pintura abaixo, do Museu de Arte de Hong Kong, é da autoria de Kwan Kiu Chang (Lamqua) e também de meados do séc. 19, representando o mesmo templo à beira rio.
Esta ilustração incluída no livro "The Chinese", de John Francis, publicado em 1840, ajuda a esclarecer algumas dúvidas. Tem como legenda "Esboço perto de Cantão" e é uma representação do mesmo templo localizado no "Canton river" (Rio Cantão).
Na pintura abaixo, do início do século 19, pode ver-se o terreiro a que me referia, onde pontuam os mastros e algumas figuras humanas. Por trás das árvores fica o templo de A-Ma.
Entrada do templo num slide da década 1980

domingo, 10 de março de 2024

"The Renascence of Macau"

Há cem anos era publicado em Macau o livro "The Renascence of Macau". Com 86 páginas foi escrito em inglês por Francisco Monteiro sendo impresso na Tipografia Mercantil de N. T. Fernandes e Filhos. Esta tipografia remonta ao século 19.
O livro incluiu inúmeras fotografias e informações sobre geografia, economia e o potencial desenvolvimento do território no âmbito da campanha de promoção no exterior levada a cabo pelas Obras dos Portos. Daí em alguns casos estar referido na capa que se trata de uma "publicação feita pela Direcção das Obras dos Portos de Macau" com "distribuição gratuita".
O título tem origem no facto de se ambicionar o "renascimento" económico de Macau com esta grande empreitada denominadas "obras dos portos". Na prática um conjunto de aterros e desassoreamentos que visavam tornar navegável por embarcações de grande calado nos portos interior e exterior. Com o passar dos anos a natureza encarregar-se-ia de voltar a fazer assoreamentos e das obras resultou uma benefício reduzido.
Logo no início do livro uma grande fotografia do templo de A-Ma
Nas imagens alguns aspectos das obras dos portos.