domingo, 12 de julho de 2020

Os gémeos S.S. Sui An e S.S. Sui Tai

SS Sui An (Low Tide) and SS Sui Tai  (High Tide) were twin screw steamers, with 1651 tons each, built in 1899 by S.C. Farnham Shanghai for Rickmers Linie Bremerhaven for the Shanghai/Hankow trade. 
In 1906 they were purchased by the Hong Kong, Canton & Macao Steamboat Company for the HK - Macao service; 

Num anúncio da década de 1900/1910 destaca-se "These vessels are lighted throughout by electric light".

Both vessels were rebuilt following fire damage - the Sui An caught fire at Macao on 08/11/16 and the Sui Tai was gutted by fire on 24/08/28 at H.K.
On 19/11/22 the Sui An whilst en route to Macao was seized by pirates and looted leaving two dead.
The Sui An was sold in 1936 to San Peh S.N. Co. Ltd. Shanghai as the Lung On and was removed from Lloyds Register in 1959/60.
The Sui Tai was sold in 1938 to the same Shanghai company retaining her name. She too was RLR in 1959/6

Na imagem acima o Sui Tai em Hong Kong

quinta-feira, 9 de julho de 2020

"Soda Water", "drogas medicinaes" e "medicamentos"


Anúncio de 1872: Soda Water/Água gaseificada

Nesta factura de 1868 pode ver-se que J. das Neves e Souza foi, pelo menos, o segundo proprietário (desde 1866), da Pharmacia Lisbonense, que ficava no nº 16 da Praia Grande. 
Já no anúncio acima, de 1872, a farmácia estava no nº 42. Viria a mudar-se pelo menos mais um vez...
Nesta época, para além de Neves (tinha negócio sob nome próprio até 1866 - ver anúncio acima publicado no Boletim do Governo em Dezembro de 1866 - também L. Figueiredo tinha uma farmácia. E deveriam ser as únicas no território. Para além das boticas, claro...

quarta-feira, 8 de julho de 2020

George R. West: 1826-1859

A propósito do post de ontem, refira-se que entre a comitiva do enviado norte-americano para a negociação de um tratado com a China estava o pintor e fotógrafo George R. West. Para além de várias paisagens da China George West pintou várias aguarelas em Macau. No post de hoje deixo alguns exemplos. 
Sobre a via e obra de West sabe-se pouco. Era suporto ter regressado aos EUA com Caleb mas acabaria por não o fazer. Numa carta de West para Caleb datada de Dezembro de 1844 ficamos a saber as razões:
"Dear Sir, The ship ‘Moslem’ I left Macao in with the intention of going home in her via Manila was found after arriving in Manila to be rotten or defective in the timbers – so I abandoned her & came to Macao with the intention of immediately sailing for home, but having to wait some time for an opportunity until my money became so reduced as not to leave sufficient to pay my passage home. I am now in Canton making use of the Daguerreotype instrument in connection with painting which I hope will soon enable me to return home. With much Respect yours truly. Geo. R. West"
Segundo um anúncio de 6 de Março de 1845, publicado no jornal China Mail, nos primeiros tempos West radicou-se como fotógrafo em Hong Kong:
"Mr West begs leave to inform the inhabitants of Victoria that he has opened a Photographic or Daguerreotype Room in Peel Street, near Queen’s Road. His room will be open from 10 a.m. until 4 p.m. Single miniatures $3. $2 charged for each additional head in a group."
Num documento de 1852 West surge na lista dos estrangeiros residentes na China como trabalhando na empresa de Hong Kong, Bush & Co. E o mesmo acontece no "An Anglo-Chinese Calendar" referente a 1850.

Pouco depois regressou aos EUA. Em Macau, Hong Kong e China viveu cerca de 7 anos. Os trabalhos que executou nesta altura seriam usados - tal como os de William Heine, entre outros - para o "panorama" intitulado "China and Japan Illustrated" (voltarei ao tema em breve) e visto pela primeira vez em Nova Iorque em 1856. 
Foi designado para decorar algumas das salas da Câmara dos Representantes e do Senado norte-americano mas acabaria por abandonar o projecto chegando mesmo a destruir o trabalho que já tinha produzido para o efeito.
Nomeado como comissário dos EUA para a Nova Zelândia morreu pouco depois de chegar aquele país em 1859 com apenas 33 anos.
Templo de Kun Iam Tong
Vendedores de rua
Gruta de Camões
Ilha Verde

terça-feira, 7 de julho de 2020

O tratado sino-americano de 1844

The image shows the temple in Macao where the first Sino-American treaty was signed in July 3rd 1844 clarifying the status of Americans in China and granting to the United States commercial privileges equal to those afforded to Great Britain.
Caleb Cushing, the first American emissary to China, was the one who negotiated the treaty. He arrived in Macau on February 1844. Is known as Wanghsia treaty, the mandarim name for the cantonese name Mong Ha.
Desde a fundação e até ao século 19 Macau teve um papel decisivo ao servir de 'ponte' nas relações entre o Ocidente e a China. O território, único estabelecimento europeu na costa chinesa, era um entreposto comercial já que as leis do Império do Meio não permitiam a entrada de mulheres e estrangeiros.
Na sequência da guerra do ópio, através da assinatura de um tratado, em 1842, a China ficou obrigada a pagar uma indemnização a Inglaterra no valor de 21 milhões de dólares, a abolir o monopólio do comércio, a abrir cinco portos ao comércio internacional (Cantão, Xiamen, Fuzhou, Ningbo e Xangai), a ceder Hong Kong e a estabelecer taxas alfandegárias fixas.
Com a China 'aberta' ao mundo as principais potências mundiais quiserem aproveitar esse novo mercado. Estados Unidos e França exigiram as mesmas regalias que os ingleses. 
Os Estados Unidos enviaram então Caleb Cushing a Macau em Fevereiro de 1844 para concluir o acordo com a China e entregar uma carta do presidente John Tyler ao imperador chinês Daoguang.
Algumas das folhas do tratado (imagens Capitol Visit Center)

Qiying, representante do imperador chinês rumou a Macau a estabeleceu residência no templo de Kun Iam Tong (no sopé da colina de Mong Há) e seria aí assinado o primeiro tratado sino-americano, a 3 de Julho de 1844, numa mesa de pedra ao ar livre que ainda hoje existe. 
O tratado é conhecido sob o nome de Wanghia, a designação em mandarim de Mong-Ha (cantonense). Com este tratado, os americanos obtiveram todos os privilégios dos britânicos, excepto a cedência de um território e a indemnização monetária. Após a assinatura do documento os norte-americanos continuaram a usar Macau como base para os seus negócios na China.

domingo, 5 de julho de 2020

Macao's Cuisine is a Curious Blend

William Schwalbe, escritor que na década de 1980 residia em Hong Kong, assina o artigo com o título "Macao's Cuisine is a Curious Blend" publicado na edição de 1 de Março de 1987 do jornal The New York Times.
O enfoque é na cozinha macaense e a reportagem é feita tendo por base o restaurante Pinóquio (Pinocchio) na Taipa (fundado na década 1970). Aborda-se também a gastronomia portuguesa (bacalhau, caldeirada, etc...) incluindo os vinhos (verde, rosé, porto, etc...). O artigo inclui ainda um pequeno guia de visita para os turistas estrangeiros referindo dois hotéis, o Oriental e o Hyatt.

On Taipa Island, down a dusty alley in Taipa Village, is Cozinha Pinocchio, a restaurant that has a cultish following among residents of Macao - Chinese, Portuguese and Macanese - and among the weekend gamblers and pleasure seekers who spill over to Macao from Hong Kong, like jackpot coins from a slot machine.
Taipa Island, once known for building junks and manufacturing firecrackers, is part of the territory of Macao and is connected to the Macao peninsula by a 1.6-mile bridge. A larger island, called Coloane, is connected to Taipa by a 1.4-mile causeway.
Pinocchio serves a synthesis of Portuguese and Macanese cooking, and Macanese cuisine itself is an outgrowth of the improbable mixture of cultures that have been thrown together in the territory.
After Macao's establishment as a Portuguese colony in 1557, the produce and wealth of Africa, Burma, China, Europe, India, Japan, Malaysia, South America and Thailand passed through the city in an elaborate trading chain. Macao is now a fairly sleepy city of 420,000 crowded onto six square miles and is eclipsed as a trading center by its relatively young neighbor Hong Kong, which China ceded to England in 1841. But even though Macao's decline as a world trading center began in the mid-17th century, many of the countries that traded through the city left an impression on the architecture, cultural identity and cuisine.
Macao is still administered by Portugal, and much Macanese food is Portuguese, although less salty and more flavorful. Spices and foodstuffs introduced to Macao's cuisine from Portugal's former colonies include saffron and chillies from Goa, kidney beans, peanuts and tomatoes from Brazil, nutmeg, cinnamon and white pepper from Malacca and piri-piri peppers used in African chicken, Macao's signature dish. They come from Angola and Mozambique.
Wines, sardines and sausages are imported from Portugal. The food also makes ample use of ginger and soy sauce and other products of China. Local produce provides the staples: chicken, pork, prawns, vegetables, quail and pigeon.
Since 95 percent of Macao is Cantonese (almost 90 percent of Pinocchio's customers are Chinese), the food is usually served Chinese style, with each dish placed in the center of the table for everyone to share. Still, two people can have a varied meal since many items are offered individually (order one prawn, for example, for each person). The menu, incidentally, is in English, Chinese and Portuguese, the three languages spoken in Macao.
Back-opened hot prawns (about $4.50 each; prices have been converted to United States dollars) are, perhaps, the most admired dish at Pinocchio. The prawns are the size of small lobsters. The meat is springy, moist and swollen with garlic. The prawns are harvested locally, from the Pearl River estuary, beside which Macao sits. (Macao is at the mouth of the Pearl River on the South China coast, about 40 miles southwest of Hong Kong and 87 miles south of Canton.) The water is brackish; the prawns thus have a flavor associated with seafood yet the subtlety of freshwater fish. Also worth trying are smaller hot prawns with garlic and salt (about $7.20 for enough for four people).
Roast quail is 85 cents apiece. The skin looks like well-polished rosewood, and they are sweet, with every pore, cartilage and ligament surrounded by garlic. Sardines (65 cents each), imported from Portugal, are about six inches long; they are charcoal grilled and served on lettuce. Squeeze plenty of lemon on both quails and sardines.
African chicken is chicken spiced with peppers and then charcoal grilled. Coconut is sometimes used as a marinade. But it is not served at Pinocchio. For African chicken, try Grill Fortaleza at the Pousada de Sao Tiago . Pinocchio does serve Portuguese chicken ($2.60), which has potatoes and is prepared with curry, coconut, tomatoes, olives and saffron.
Another specialty at Pinocchio is curried crab (about $10 for three people). The crab comes from local waters, is heaped with onions and makes for messy eating.
Pinocchio's cod stew (codfish caldeirada Portuguese style; $2.80) is salty and tough, a chewy layered mixture of cod slabs and vegetables popular with Macao Portuguese - but not with most Chinese. The cod is imported from Norway. Equally popular with the Portuguese are codfish cakes and caldo verde, a vegetable and potato soup.
Roast pigeon ($5.80 each) comes laid out smartly on a plate, cut into sections and with the head separate. This is the Chinese style of presentation, but the pigeons taste different from Cantonese roast pigeon. Pinocchio's are rich but not gamey and, as with quail, garlic is used in preparation; lemon should be squeezed on top.
Hot rolls (which sometimes have to be requested) are free. They are delicious, yeasty and sweet. And the Portuguese fried rice ($1.15 for a heaping plate) is a tawny red from tomatoes fried with it. It is usually ordered at the end of the meal.
Most of the restaurant, which seats around 200, is a roofed courtyard. At the front is a brick wall; to the back is the kitchen; on one flank is a little house with an office upstairs, and on the other is a small wing. Both the house and wing have a small dining room. These two indoor eating spaces are air-conditioned in summer and protected from the wind in winter; the extra charge for sitting in them is 10 percent of the cost of the meal.
Most regular customers like the more raucous, slapdash, open feel of the central part of the restaurant. Red plastic lampshades dangle against the slope of the corrugated metal ceiling, which is held up by thin green girders. A tent-shaped skylight cut into the ceiling runs the length of the courtyard.
Several fans are scattered about: hanging fans, fans attached to the wall and, when it it hot, fans standing on the earthy red, tiled floor. Stacked below a marble counter are cans of soda. Goldfish swim around tanks on both sides. The walls are brick with mint-green plaster above. Some plants in dragon pots are placed beside the entrance but are overshadowed by a mulberry tree that grows just inside.
There are two table sizes, long ones for large groups or combinations of small groups and square ones for two to four people. The tables lend themselves to a good deal of improvisation in seating. There are no tablecloths, but there are cloth napkins. Towels and finger bowls are passed around after the messier dishes have been consumed.
The din in the central part of the restaurant is a combination of loud talk, clanging silverware and three raucous birds in cages suspended above the entrance. If the afternoon grows hotter, shirts come off and rubber flip-flops are kicked under the table. Stripping down, in hot weather, is encouraged.
Unless it is very cold, Sunday lunch is the most hectic time with the restaurant reaching a high degree of noise and activity, but not, amazingly, total confusion. Lines of people waiting throng around the tables nearest the door, waiters hurtle by with great dripping dishes, food is passed over heads, and the sound of slurping and clinking glasses is intense.
A bottle of vinho verde is the usual companion to a meal at Pinocchio or any Macanese meal. These young, slightly sparkling Portuguese wines are easy to drink and are not too heavy. The wine list is long, and diners who need advice are usually escorted by waiters to the glass-front refrigerator for help in choosing. Casal Garcia and Quinta da Aveleda as well as Mateus rose are $4.60 a bottle.
Also ubiquitous in Macao is port. A glass of Offley 20-year-old port is $1.15. White Ferreira port (50 cents) is particularly tasty. A snifter of cognac is $1.05; powerful espresso 75 cents.
A taxi from Macao's ferry pier to Taipa Village takes 20 minutes at most. The fare is about $2.20, and there is a 65-cent surcharge for the trip to the island (there should be no extra charge for the return - but often there is). The alley, Rua do Sol, is easy to miss. Look for the small Pinocchio sign, on Rua do Cunha, with green lettering on a weathered white background.
If you have questions or need help ordering, ask any of the permanent staff, all of whom wear name tags.
A word of caution: There is a restaurant named Pinocchio in Hong Kong. It has copied the menu and even the logo of the original, but it is not connected with the Macao restaurant.
Pinocchio is open from noon to 10 P.M. every day but Monday unless the Monday is a public holiday, in which case the restaurant is open. Reservations are usually necessary and are essential on weekends and holidays. Closing time is strictly observed. Last orders are taken at 9:45, and at the stroke of 10 the lights go out and the bill appears on the table. Hong Kong dollars and
Macao patacas are accepted. Diner's Club and Federal are the only credit cards accepted. There is no service charge; a tip of about 10 percent is appropriate.
Cozinha Pinocchio is at 4 Rua do Sol on Taipa Island. For reservations, call 27128 or 27328. 

PLANNING A VISIT TO MACAO 
Getting There One can get to Macao by water from Hong Kong (or overland at the end of a China trip). There is no air transport. The two most pleasant modes of travel are the jetfoil and the high-speed ferry. The regular ferry is slow, taking almost three hours, and the hydrofoils tend to induce sea sickness.
It is important, especially on weekends, to buy tickets for both directions well in advance. And remember to bring your passport.
Far East Hydrofoil Company, which operates jetfoils (8593333; 8153043 in Hong Kong), has departures from Hong Kong every half hour from 7 A.M. to 1:30 A.M. and every half hour from 7 A.M. to 2 A.M. from Macao. First-class tickets for the 50-minute trip range from $8.50 to $13.20 ($7.30 to $11.80 regular class), depending on direction of travel, day of week and time of day.
First-class seating is on the upper deck and is slightly more spacious; coffee, juice and newspapers are free, and first-class passengers disembark first.
Jetfoil tickets can be bought in the basement of the Macao Ferry Terminal in Shun Tak Center (Sheung Wan stop on the subway) from Ticketmate booths in certain subway stations including Wan Chai, Causeway Bay and Tsim Sha Tsui or by Telecharge (8593288 in Hong Kong).
Tickets for the high-speed ferries (8152789; 8152299 in Hong Kong) can be bought in the basement of the Macao Ferry Terminal or at booths in subway stations but not by Telecharge.
There is an outdoor deck on the ferries, for use by passengers traveling VIP class ($9 to Macao and $7 from) and first class ($7.70 and $5.75), which is especially enjoyable on sunny days. There are five sailings daily from Hong Kong and six from Macao. The trip takes about an hour and a half. Where to Stay The best place is Pousada de Sao Tiago (telephone 78111); its 23 rooms are built into the 17th-century Barra Fortress. Rooms are elegantly furnished, and there is a small pool. Standard rooms are $77 for two, deluxe rooms with balcony $90; suites are $109 to $205. A 20 percent discount is given Sunday to Thursday. For reservations in Hong Kong call 261288.
The above rates and the following ones do not include 5 percent tax or 10 percent service charge.
The Oriental Hotel (567888), part of the Mandarin Oriental chain, has comfortable rooms, first-rate service, a pool, sauna, gymnasium, squash courts, tennis courts and a casino. Rooms range from $64 to $103, single or double occupancy; suites are $177 to $538. All suites and $103 rooms have balconies. For reservations, call 212-752-9710 in New York.
The Hyatt Regency (27000) on Taipa Island has a large free-form pool, a health club and tennis and squash courts, but members crowd the facilities on weekends, rooms are small and the service not particularly good. Rooms range from $64 to $90, single or double occupancy; suites are $180 to $641. On weekends some rooms are offered at $55 a night for two and include breakfast, a welcome drink and admission to a discotheque. For reservations, call 800-228-9000 in the continental United States. Walking Tour An interesting walk on Taipa Island is to a 1920's house that has been turned into a museum. Continue past Rua do Sol to the far end of Rua do Cunha, then turn left, following signs to Casa Museu (telephone 27088). It is open from 9 A.M. to 1 P.M. and from 3 P.M. to 5 P.M. Closed Monday.
The easiest place to catch a taxi is at the end of Rua do Cunha nearest Cozinha Pinocchio.

sábado, 4 de julho de 2020

Cemitério de S. Paulo

O que hoje se conhece como ruínas de S. Paulo chegou a funcionar como cemitério dois depois depois do incêndio fatídico de 1835. 
Nos "Annaes maritimos e coloniaes" de 1843 (nº 10 - 3ª série parte não official) encontra-se a explicação:
"Na fabricação do cemiterio em que avisadamente se aproveitou o frontispicio do collegio, e as paredes da Igreja, demoliram-se estas até meia altura, e por meio de pilares dispostos parallelamente, se construio na parte superior um passeio calçado de tijolo em toda a circumferencia. Por baixo abriram-se catacumbas na parede e sepulturas no pavimento. Aos lados da estrada principal do cemiterio se edificaram dois carneiros de abobeda para receberem as ossadas e no assento da Capella mór da Igreja queimada uma pequena Capella onde se depositam os cadaveres antes de se darem á sepultura. Todo o terreno interior està plantado de cedros. Paga-se uma taxa pelas sepulturas e catacumbas que reverte em beneficencia da Misericordia e junto ao cemiterio ha logar destinado para enterramento dos expostos. Esta obra,  tão util e tão recommendavel, com a qual se converteu em tão santa applicação o que as chammas não poderam tragar desse edificio grandioso, foi levada a effeito no anno de 1837 sob a direcção do Superior do collegio de S José o Rv do Joaquim José Leite e á custa do cofre da Misericordia."
Segundo Monsenhor Manuel Teixeira, na obra A Voz das Pedras, "os cadáveres" começaram a ser sepultados nas "catacumbas do cemitério de São Paulo" a 30 de Maio de 1837. O processo de transladação dos corpos para o cemitério de S. Miguel só viria a ficar concluído em 1878

Na época era prática habitual os enterramentos nas igrejas o que veio a ser proibido em 1835 mando-se criar cemitérios "muralhados" fora dos limites das cidades. Em Macau esta medida só veio a ser aplicada muito mais tarde. Recorde-se que só a 2 de Novembro de 1854 foi aberto o Cemitério de S. Miguel.
Nota retirada do Boletim do Governo relativo ao ano de 1849. 

sexta-feira, 3 de julho de 2020

"José Calvet de Magalhães, um diplomata entre dois regimes": 2ª parte

(Continuação do post de ontem)
Como é sabido, os acontecimentos precipitar-se-iam nos meses seguintes, e num sentido que obrigaria o governo português a ter de equacionar os termos do seu relacionamento com o regime comunista de Pequim. Apesar de bolsas de resistência subsistirem ainda em vários pontos do território, a vitória de Mao parecia mais sólida do que aquilo que Calvet antecipara. Com o seu sentido pragmático, este passaria então a advogar um ajustamento da posição portuguesa às novas realidades. Apesar de não subestimar o peso do factor ideológico na conduta dos comunistas chineses – o qual, entre outras coisas, se traduziria no seu alinhamento com a URSS a partir de Fevereiro de 1950 (celebração do tratado de amizade e aliança sino-soviético) – vai todavia elencar um conjunto de razões que aconselhariam Portugal a enveredar pelo reconhecimento da RPC. Esse ajuste de agulhas justificava-se por vários motivos. A despeito da inclinação de Mao a favor de Moscovo, havia boas razões para supor que dissensões começassem a surgir entre as duas potências, e que os dirigentes comunistas mais realistas se rendessem à evidência de que uma cooperação com o Ocidente seria indispensável para levarem por diante a reconstrução económica do seu país.
Tratava-se, porém, de uma questão dilemática para um regime como o de Salazar, que à data não mantinha relações diplomáticas nem com a URSS nem com qualquer estado comunista. A posição extremamente vulnerável de Macau, porém, terá levado a que esse passo fosse ponderado em Lisboa. O próprio Salazar o terá admitido, desde que feito em concertação com outras potências ocidentais, nomeadamente aquelas que se haviam tornado parceiras de Portugal na NATO desde Abril de 1949. Essa concertação diplomática, contudo, acabaria por não ter lugar. As perseguições e vexames infligidos pelos comunistas a funcionários consulares americanos e o apoio de Pequim a Ho Chi Minh obstaram a que potências como os EUA, a França e até alguns membros da Commonwealth acompanhassem a Grã-Bretanha na sua política de reconhecimento.
(...)
O início da Guerra da Coreia (Junho de 1950) veio contudo exacerbar as divisões ideológicas entre os dois campos e agudizar as recriminações acerca da “perda da China” em países como os EUA, cada vez mais os parceiros indispensáveis de Portugal em matéria de defesa. Apesar de tudo isto, Calvet (à semelhança de Ferreira da Fonseca, ministro de Portugal na China até à queda do Kuomintang) manteve a sua posição inicial: para a defesa diplomática de Macau ser viável, Lisboa deveria dispor de canais directos com Pequim, a fim de evitar “enredos e mal-entendidos que fatalmente se formam numa região tão propícia à intriga política e aos negócios mais ou menos escuros”. A alternativa seria ficar refém dos “representantes dos interesses comerciais da colónia” – ou seja, daqueles que historicamente se tinham revelado menos fiáveis para Portugal. Escrevendo novamente sobre o assunto em Junho de 1951, admitia que o conflito na Coreia não só impossibilitava uma reaproximação luso-chinesa, como até trazia perigos acrescidos. Não seria de descartar, por exemplo, no caso de a China averbar um revés na península coreana, que os seus líderes se sentissem tentados, em jeito de compensação, a empreender um assalto a Macau. Mas esse cenário, argumentava, apenas tornaria mais premente um diálogo com Pequim através dos agentes e canais apropriados. E, neste ponto, a sua faceta “orientalista” exprimia-se sem qualquer ambiguidade:
Sempre que a mentalidade oriental predominou na nossa administração, a colónia entrou em crise; quando essa mentalidade foi tenazmente combatida por homens públicos da têmpera e patriotismo de Ferreira do Amaral, vimos a nossa soberania reafirmada nessa nossa minúscula relíquia do nosso império oriental.
Tendo trocado o consulado em Cantão por uma colocação como segundo secretário em Paris, em 1951, nem por isso Calvet deixou de seguir de muito perto os assuntos respeitantes à China. Na realidade, o mais provável é que a sua nomeação tivesse sido motivada pelo desejo do MNE em contar com alguém com sólidos conhecimentos da situação na China e no Extremo-Oriente para representar Portugal na Comissão de Coordenação dos Controlos de Exportações para o Bloco Soviético e na Comissão da China, os dois órgãos que deveriam zelar pela imposição de um embago estratégico ocidental às duas grandes potências comunistas. Ora, permanecendo precária e incerta a presença portuguesa em Macau, rapidamente se tornou claro que o preço que os portugueses teriam de pagar para garantir a benevolência das autoridades comunistas era fazerem vista grossa ao contrabando de produtos de que a China continental carecia, desde o petróleo ao alumínio, através de Macau. 
No auge da guerra da Coreia, Calvet estava pois incumbido do papel ingrato de ter de dar a cara pelos “desvios macaenses” ao embargo ocidental – em suma, uma charada diplomática largamente ditada pela difícil conciliação de dois desideratos maiores da política externa portuguesa, a pertença a um pacto de segurança anti-comunista (a NATO) e a defesa da soberania colonial. Apesar da dificuldade que tal incumbência lhe trazia, Calvet parecia retirar um verdadeiro prazer desse tipo de missões espinhosas, nas quais determinadas aptidões dos agentes diplomáticos eram postas à prova de uma maneira muito clara. (...)

quinta-feira, 2 de julho de 2020

"José Calvet de Magalhães, um diplomata entre dois regimes": 1ª parte

Excertos sobre Macau do artigo "A arte do compromisso: José Calvet de Magalhães, um diplomata entre dois regimes" de Pedro Aires Oliveira, Revista Ler História, nº 71/2017 p. 103-126.
Livro de 1992
Entre os diplomatas portugueses de carreira da segunda metade do século XX, porventura poucos se poderão equiparar a José Thomaz Cabral Calvet de Magalhães (1915-2004) em termos de influência e notoriedade. (...)
A sua estadia americana, porém, foi curta. Lisboa tinha-lhe reservado um outro destino. No Verão de 1946 é chamado às Necessidades para receber instruções acerca do posto que lhe fora confiado – o consulado em Cantão. Tratava-se, bem entendido, de uma missão eminentemente política, dada a reduzida expressão da comunidade portuguesa na capital de Guangdong. Macau, à semelhança de Hong Kong e outros estabelecimentos europeus, estava na mira de várias correntes de opinião nacionalistas chinesas, há muito ressentidas com as humilhações infligidas pelos ocidentais desde as guerras do ópio do século XIX e os “tratados desiguais” daí resultantes. Apesar de fragilizado pela guerra civil contra os comunistas, e outros problemas não menos intratáveis, o governo do Kuomintang conseguira duas proezas assinaláveis – o reconhecimento como um dos “Cinco Grandes” nas recém-constituídas Nações Unidas (um assento permanente no Conselho de Segurança) e a cessação dos privilégios de extra-territorialidade auferidos pelas potências estrangeiras na China (Mitter 2013, 125).
Embora aceitando a inevitabilidade dessa perda, as autoridades portuguesas resistiram à ideia de inscrever uma cláusula relativa ao futuro de Macau no acordo de troca de notas que celebraram com o governo de Chiang Kai-shek, em Abril de 1947. Essa circunstância daria azo ao surgimento de uma aguerrida campanha de imprensa contra os interesses portugueses, tão mais virulenta quanto, durante a segunda guerra mundial, o ministro português na China não seguira para o interior com o governo de Chiang (mantendo-se na zona ocupada pelos japoneses), e Lisboa adiara até à última hora a assinatura de um acordo similar àquele que os EUA e outras potências ocidentais haviam celebrado com a China, com vista à renúncia dos seus direitos extraterritoriais.
Perante a volatilidade da situação, e a possibilidade de certas dinâmicas relativas à “retrocessão de Macau” acabarem por escapar ao controlo da liderança de Chiang, a missão de Calvet era delicada. Como lhe terá confidenciado o secretário-geral Marcello Mathias, Salazar já daria Macau como “um caso perdido”. Gozando de instruções bastante abertas, o novo cônsul rapidamente revelou notável desembaraço na condução de uma série de iniciativas visando esvaziar a pressão desses sectores mais militantes, desde a organização de uma visita de jornalistas cantoneses a Macau ao estabelecimento de um relacionamento pessoal com T. V. Soong, governador de Guangdong, cunhado e antigo ministro das Finanças de Chiang Kai-shek, junto do qual foi capaz de garantir um acordo para o fornecimento de arroz a Macau – proeza tão mais assinalável quanto a guerra civil em curso viera trazer enormes dificuldades ao abastecimento de Cantão e outras cidades. Porventura fundamental para esse à-vontade que foi evidenciando terá sido a sua apetência pela compreensão da história, da cultura e da sociedade chinesas, mesmo que as suas impressões nos pareçam agora tingidas do “orientalismo” típico daquela época (Klein 2003). Embora maioritariamente apoiados em fontes ocidentais, ou em traduções inglesas dos pronunciamentos dos líderes chineses, os relatórios que entre 1947 e 1952 foi produzindo acerca da evolução da situação política na China e na Ásia Oriental estão recheados de observações certeiras e premonitórias, como veremos a seguir.
Duas questões fundamentais atravessavam algumas dessas monografias – por que razão a China aceitara a presença portuguesa em Macau desde o século XVI? E quais as orientações que Portugal deveria seguir para conservar a sua soberania no enclave, agora que o nacionalismo chinês se mostrava mais aguerrido e intransigente?
Para responder à primeira questão, Calvet socorria-se de vários exemplos históricos que, no seu entender, atestavam o sentido eminentemente pragmático dos burocratas imperiais chineses face aos benefícios que poderiam advir da interacção com um pequeno poder ocidental. Portugal era simplesmente demasiado fraco para constituir uma ameaça equiparável àquela que outras potências estrangeiras começaram a representar para o Império do Meio a partir do século XVIII, sem esquecer que a China nunca verdadeiramente considerou que alguma vez tivesse abdicado da sua soberania no enclave – uma circunstância facilmente verificável pelo pagamento de tributos aos vice-reis de Cantão à presença de “magistrados chineses exercendo jurisdição e aplicando leis chinesas” em Macau. Em segundo lugar, Calvet entendia que as pressões mais difíceis de gerir sobre Macau eram sobretudo as oriundas de Cantão (do vice-rei ou dos mandarins dos distritos vizinhos), circunstância que havia levado os portugueses a procurar uma interlocução directa com o centro imperial, primeiro através do sistema de embaixadas extraordinárias, mais tarde através da acreditação dos governadores de Macau como ministros plenipotenciários junto da corte em Pequim.
Uma perspectiva histórica era igualmente útil para a definição de políticas realistas relativamente aos poderes que governavam a China. Segundo Calvet, havia uma tensão permanente que perpassava a história de Macau – o choque entre uma tendência “nacional” (geralmente encarnada por governadores, bispos ou ouvidores e procuradores do povo) e uma tendência “macaísta” (personificada por influentes locais que dominavam o Leal Senado). Mas – homem do seu tempo – em vez de sugerir uma conciliação entre estas duas correntes, Calvet pronuncia-se claramente a favor da primeira, mesmo sem ignorar o precedente trágico de Ferreira do Amaral (1803-49), o governador que ao tentar transformar Macau numa verdadeira colónia, no rescaldo da I Guerra do Ópio (1839-42), pusera em xeque os mandarins chineses que exploravam parte das alfândegas do enclave, acabando depois assassinado a mando destes. Sem ocultar alguma sobranceria em relação aos “comerciantes semi-analfabetos de Macau”, Calvet entendia que tudo deveria ser feito para se impedir que estes desempenhassem uma influência relevante nas políticas portuguesas, o que implicaria que estas fossem conduzidas o mais autonomamente possível pelas autoridades nomeadas por Lisboa. Demasiadas vezes, considerava Calvet, a administração portuguesa tinha-se vergado aos vexames orquestrados pelos mandarins chineses dos distritos vizinhos sempre que algum administrador mais enérgico tentava pôr termo aos seus privilégios.
Em Junho de 1948, com menos de dois anos de posto, Calvet permitia-se já delinear uma série de directrizes com vista à “consolidação portuguesa em Macau” e a uma “aproximação luso-cantonense”: intensificar contactos directos entre autoridades portuguesas e cantonenses, mas com uma “intermediação” o mais reduzida possível da elite macaense; tratar as autoridades cantonenses com a maior “lealdade e franqueza”, atendendo à sua educação sofisticada; e ter presente que, apesar de alguns pontos de convergência, os interesses de Portugal e outras potências ocidentais na China, nomeadamente a Grã-Bretanha, estavam longe de se equivaler. Este último ponto merece ser salientado, dada a estreiteza dos laços que subsistiam entre Lisboa e Londres. No seu registo desassombrado, Calvet argumentava que, independentemente da colaboração que pudesse existir entre Macau e Hong Kong, Portugal nada tinha a ganhar em se associar demasiadamente à “velha aliada” naquele contexto. Enquanto o seu interesse fundamental na China praticamente se reduzia à retenção de Macau, a Grã-Bretanha jogava muito na manutenção de Hong Kong, dos privilégios comerciais que fora arrancando à China no último século, e até na obtenção de novas concessões, como a abertura dos portos do Yangtzé à navegação estrangeira. Numa altura em que a derrota do Kuomintang estava ainda por se consumar, Calvet acreditava que Portugal não deveria descurar um possível apoio da potência ocidental que estava em melhores condições de influenciar o curso da política chinesa – os EUA.
O momento em que possivelmente a personalidade de Calvet mais sobressaiu neste contexto foi quando Portugal teve de se posicionar relativamente ao reconhecimento da República Popular da China, proclamada por Mao Tsé-tung a 10 de Outubro de 1949. A possibilidade de uma vitória comunista na guerra civil chinesa vinha-se desenhando há algum tempo, não obstante Calvet ter permanecido céptico quanto à perspectiva de uma derrocada tão fulminante das forças nacionalistas como aquela que veio efectivamente a suceder. Escrevendo em Agosto, e já com o Norte e o vale do Yangtzé sob domínio comunista, não dava ainda por inevitável a hipótese de um regime “vermelho” se estabelecer duradouramente na China – o mais provável seria que Mao e os seus correligionários se mostrassem incapazes de realizar a ocupação militar de um país tão vasto, estabelecer uma administração eficiente e enfrentar o caos económico. Essa situação daria azo a que certos constrangimentos emergissem para frustrar as ambições dos comunistas quanto a uma unidade da China sob a sua égide – o desejo de autonomia das regiões; o “primitivismo dos meios de comunicação”; e “o poder extraordinário de resistência passiva do povo chinês, a sua aversão nata a sistemas bem definidos ou a teorias políticas baseadas na lógica de certos princípios”. Mais a mais, as atitudes de hostilidade já patenteadas pelos comunistas em relação aos ocidentais em cidades como Xangai iria provavelmente levar à constituição de uma frente anti-comunista; um impasse seguir-se-ia e, eventualmente, um novo período de caos e intervenção estrangeira.
Tal cenário retiraria provavelmente pressão sobre Macau, cuja defesa, sublinhava Calvet, teria de radicar essencialmente não em meios militares mas na diplomacia – como sempre acontecera, de resto. O apelo à aliança inglesa, ou a uma intervenção norte-americana, só seriam de considerar num caso extremo, e mesmo assim seria improvável que ambos se dispusessem a arriscar uma escalada num conflito com a China para defender um enclave colonial de reputação dúbia. Mas outras acções mais pacíficas poderiam eventualmente ser exploradas, nomeadamente a procura de um modus vivendi com as elites cantonenses que, em seu entender, iriam provavelmente tentar mitigar as tendências mais radicais dos líderes comunistas, fazendo-lhes ver, por exemplo, o perigo de alienar os chineses “ultramarinos”, cujas remessas constituíam uma das principais fontes de divisas estrangeiras na China. Pacientemente, Calvet ia acumulando factos que aconselhavam à adopção de uma atitude flexível, de forma a que Portugal fosse mantendo várias opções em aberto. “A nossa pequena e atribulada Colónia assistiu já à queda de duas dinastias chinesas: a dos Mings e a dos Manchús”, escrevia ele em Agosto de 1949. “Confio em Deus que a ruína do Kuomintang não lhe será fatal”.

terça-feira, 30 de junho de 2020

"Viaje de la China" do padre Adriano de las Cortes

Adriano de las Cortes, foi um jesuíta espanhol (1578-1629) que chegou às Filipinas em 1605 tendo a partir de então desempenhando várias funções missionárias no arquipélago que estava a ser  ocupado por Espanha. 
A 25 de Janeiro de 1625 largou de Manila a bordo da Nuestra Señora de Guia com destino a Macau onde iria resolver questões de âmbito económico. A viagem seria interrompida por uma violenta tempestade que provocou o naufrágio da nau espanhola ao largo da província de Guangdong. Entre os sobreviventes estava o padre jesuíta. Seriam aprisionados pelas autoridades chinesas durante um ano e 4 meses até serem libertados a 21 de Fevereiro de 1626. Seguiram para Macau e cerca de dois meses mais tarde embarcaram rumo a Manila onde chegaram a 20 de Maio. Cortes morreu 3 anos mais tarde, a 6 de Maio de 1629, em Manila.
Durante a estadia na China conseguiu redigir um manuscrito de 174 folhas (frente e verso) onde fez um relato do sucedido bem como uma descrição pormenorizada de como era o Celeste Império no início do século 17, incluindo dezenas de ilustrações (desenhos) feitos pelo padre Cortes
O manuscrito está divido em duas partes: Primera parte de la Relación que escribe el P. Adriano de las Cortes de la Compañía de Jesús del viaje, naufragio y cautiverio que con otras personas padeció en Chauceo, Reino de la Gran China con lo demás que vio en lo que de ella anduvo e Segunda parte de la relación, en la cual se ponen en pinturas y en plantas las cosas más notables que se han dicho en la primera parte, citándose a los capítulos de ella y añadiendo algunos nuevos puntos y declaraciones sobre cada una de las pinturas.
Na época a obra foi de circulação restrita e durante séculos permaneceu nos arquivos espanhóis até à publicação de uma edição comentada em 1991 com o título "Viaje de la China" de Beatriz Moncó Rebollo. Em 2001 surgiu uma edição em francês.
Curiosidade: "Macan" é como o padre Cortes se refere a Macau.
Excertos:
Aos vinte e três do mês de Junho [de 1625], foi Nosso Senhor servido de nos consolar com segundas novas e cartas, depois da de cinco de Março, a que já acima fizemos referência, sendo esta recebi-da em três de Maio, escritas em Cantão, e a seis do mesmo mês de Junho. Entre elas vinham duas para mim, do padre procurador do Japão, o padre João Rodrigues, e do padre procurador da China, Simão da Cunha, membros da Companhia (de Jesus), os quais nos enviavam, a mim e ao padre Miguel Matsuda, pelos chineses portadores (das referidas cartas), algum vestuário, para socorrer a necessidade que neste particular aspecto sofríamos, e também 20 pesos para outras necessidades, e para repartir pelos demais, juntamente com uma esmola de 14 pesos, recolhida entre alguns dos mercadores portugueses que estavam na cidade de Cantão. Ainda que o dinheiro destes socorros, um e outro, fosse pouco, tanto pelo risco em enviá-lo, como por se esperar que muito em breve se alcançaria licença do tutão para nos libertarem com tudo o que fosse necessário para o caminho, os chineses que o traziam apropriaram-se da metade, ou mesmo mais, com mentiras e embustes, como se lhes importasse mais esta paga do que o bem que mais tarde lhes poderíamos fazer.
É curioso como não conseguem soltar da mão a prata que recebem por qualquer meio, ficando to-dos os chineses verdadeiramente ofuscados com a vista da mesma, de uma forma que não se encontra em nenhuma outra nação. A um dos nossos portugueses, perguntou um dos mandarins se era verdade que nos haviam trazido prata de Macau, porque os soldados que nos dão de comer tinham dito aos mandarins de Chauchiufu que nô-la tinham trazido; e caso a tivéssemos, deveria-mos comer dela e avisá-los, para que deixassem de nos sustentar. Respondeu-lhe o nosso português que sim, (prata), mas que era pouca para tantos, pois o portador chinês tinha ficado com grande parte dela. Retorquiu o mandarim: "Até me espanta terem-vos dado alguma (refere-se a prata), pois entre nós dificilmente conseguimos recuperar a prata que tivermos de passar para as mãos de outro chinês, ainda que tenha de fugir e de desaparecer para sempre; e isto ainda que seja de filho para pai. Pois se este vos deu alguma, não deveria ser senão chinês cristão de Macau".
Avisaram-me (seria de Macau) que tinham recebido algumas cartas, minhas e de outros dos meus companheiros, depois de terem sido levantadas as barreiras que havia pelos caminhos, que serviam a outros intentos do tutão e para negócios que com certos mercadores chincheus tinha, mas que também impediam a passagem das nossas cartas para Macau e de Macau para nós.
Soube-se também, com algum pesar, que a sobredita (envio e recebimento de cartas) tinha sido impedida por a cidade de Macau ter estado cercada por mar e por terra, para que nela não entrassem mantimentos, e muito apertada pelo tutão e pelos seus chineses. As coisas tinham-se finalmente acalmado, estabelecendo-se de novo um clima de paz e de harmonia com os chineses, depois da cidade ter derrubado o lanço de muro que caía para a parte da terra, cumprindo assim ordens do rei da China, que havia recebido acusações antigas, e muito falsas, contra a cidade de Macau. Sucedeu isto na mesma altura da nossa perdição, quando dela se veio a saber em Cantão e em Macau.
Em seguida, o acima citado padre João Rodrigues e uns fidalgos cidadãos da cidade de Macau estavam em Cantão, de caminho para a cidade de Chao-ching, chamados pelo tutão para assinarem as pazes e saudarem o dito tutão em nome de Sua Majestade e da cidade de Macau. Pretendiam ainda obter dele uma chapa, que logo nos enviariam, com autorização para que fôssemos libertados do reino de Chauchiufu e levados a Cantão.
Transporte do Mandarim - imagem da edição espanhola de 1991

Sugestões de leitura: 
- Historia de la Provincia de Philipinas de la Compañia de Jesus, Segunda parte (1616-1716), de Pedro Murillo Velarde, 1749.
- Voyage en Chine du père Adriano de las Cortes s.j. (1625), Traducteur: Pascale Girard , Juliette Monbeig, 2001

segunda-feira, 29 de junho de 2020

Travessa do Armazém Velho


Conhecida em chinês por Lán Kuai Lau (Hong) -爛鬼樓巷 - a Travessa do Armazém Velho fica entre a Rua da Tercena e a Travessa do Pagode. Tem pouco mais de 4 metros de extensão e é muito provavelmente a placa toponímica com o maior número de caracteres chineses do território.
Segundo Luís Gonzaga Gomes a designação em chinês significa “ruínas da casa em estilo estrangeiro”, numa referência a um edifício de dois pisos que ali existiu em que foi destruído no incêndio que destruiu o colégio de S. Paulo a 26 de Janeiro de 1835.
Nota: Também existiu na toponímia local o Beco do Armazém Velho.

domingo, 28 de junho de 2020

A colecção de postais de Adolf Feller

Adolf Feller (1879-1931), conhecido empresário suíço, iniciou uma colecção de postais em 1899. Ao saberem do hobby, amigos e familiares passaram a enviar-lhe alguns. Após a morte de Adolf, a filha Elizabeth (1910-1973) continuou a colecção que reúne um total de 54 mil exemplares de 140 países, sobretudo do período entre 1894 e 1970. 
Actualmente a colecção faz parte do Arquivo de Imagens da Escola Politécnica Federal de Zurique (ETH Zurich). Entre os postais de Macau nesta colecção estão os que publico neste post.



sábado, 27 de junho de 2020

Postal "The Fountain" Avenida Vasco da Gama Macao

Ainda a propósito da derrota dos holandeses na tentativa de invasão de Macau em 1622, recordo este postal ilustrado publicado cerca de 1900. Nele pode ver-se o Monumento da Vitória e uma fonte - que mais tarde foi transferida para o Jardim da Flora - na então denominada Avenida Vasco da Gama (inaugurada em 1898 nas celebrações do Quarto Centenário do Descobrimento do Caminho Marítimo para a Índia por Vasco da Gama)
O monumento está actualmente no Jardim denominado Vitória. É do final do século 19 mas antes houve um outro conhecido como "Monumento de S. João", alusão à data de 24 de Junho.
"The Fountain", Avenida Vasco da Gama Macao
Sold by Graça & Co, Hong Kong, China

sexta-feira, 26 de junho de 2020

Macau em 1978 por Keith Macgregor




Keith Macgregor has been photographing Hong Kong for nearly 50 years. He comes from a family with long term connections to Hong Kong and China, his great grandfather having arrived in Shanghai in the late 1850s where set up Caldbeck Macgregor Ltd, a wine & spirits importing business which eventually opened offices all over Asia, China & Hong Kong (1884). Keith was educated in England from 1954, finishing up at Oxford University in 1964. In 1970 he returned to Hong Kong to set up as a portrait and later a commercial photographer which led to the creation of his publishing business, Cameraman Limited. 
The books, calendars and postcards published were very successful. “An Eye on Hong Kong”, first published in 1997, sold out 6 editions. His 2nd book: “Neon City, Hong Kong, at Night ” also sold out and became a collector’s item. A "50th Anniversary of photographing Hong Kong” edition is in the pipeline, as well as a book of his Panoramic images. Despite having lived in London for the past 26 years he returns frequently to take photographs of Hong Kong's ever changing landscape.
Note: Info from Keith's website; this photos were taken in 1978.

quarta-feira, 24 de junho de 2020

A última bandeira da porta do Cerco

Esta foi a última bandeira de portugal a ser hasteada na Porto do Cerco, fronteira terrestre com a China, em Dezembro de 1999. 

Dimensões: 128 cm x 204 cm. Faz parte do espólio do Museu de Macau. 
Seria substituída pela bandeira da República Popular da China e pela bandeira da RAEM. 

terça-feira, 23 de junho de 2020

A Derrota dos Holandeses em Macau no ano de 1622

A Derrota dos Holandeses em Macau no ano de 1622. Subsídios inéditos, pontos contorversos, informações novas. 
Livro de 43 páginas da autoria de C. R. Boxer, publicado em Macau pela Escola Tipográfica de Orfanato em 1938.
A versão holandesa dos acontecimentos confirma a versão portuguesa e é contada pelo padre Manuel Teixeira...
"O mar chegava até ao sopé da Colina da Guia, formando uma baía, chamada a Praia de Cacilhas. Foi nesta praia que desembarcaram, em 24 de Junho de 1622, os holandeses. O governador de Manila, D. Fernando da Silva, escrevendo em 1624, disse que «los Holandeses com mas de 800 hombres saltaron em tierra para tomar por fuerza de armas aquella ciudade, y matar todos los varones de 20 anos arriba y casarse com las mujeres, y hacer de aquella ciudad su Metropoli, y ellos hacerse Senhores de todo el Oriente
Mas saiu-lhes o gado mosqueiro, segundo relata o próprio almirante Reijersen, comandante dos holandeses: «No batalhão do comandante Ruffijn, deu-se a explosão dum barril de pólvora que feriu alguns dos nossos homens. O inimigo, ao ver isto, carregou com grande bravura, e não possuindo a nossa gente reserva de munições, debandou correndo para a praia, onde muitos foram mortos ou se afogaram. Pela fuga das duas companhias da retaguarda, mais de 70 dos nossos foram mortos, quando bastaria que 20 ou 30 mosqueteiros se mantivessem firmes para que facilmente se tivesse feito a retirada para bordo. O que é, porém, certo é que perdemos muita gente e um canhão, tendo também muitos feridos. Todas as nossas baixas nesse desembarque foram de 136 mortos e 120 feridos gravemente. Também perdemos 10 bandeiras, 7 capitães, 4 tenentes, 7 alferes, 7 sargentos, e 9 tamboreiros … de maneira que a nossa gente voltou para bordo muito desalentada».
Jaime do Inso, em Macau, a mais antiga Colónia portuguesa no Extremo Oriente, p. 23, nota: «Em 1926, uma companhia holandesa, ao proceder às dragagens no porto exterior, encontrou em frente da antiga praia de Cacilhas, que os aterros fizeram desaparecer, vários projécteis de artilharia que deviam ser restos daquela batalha».

segunda-feira, 22 de junho de 2020

Visita ao estúdio de George Chinnery

Ainda neste ano de 2020 foram leiloadas duas pinturas de George Chinnery (1774-1852) cujo preço base de licitação rondava as 100 mil libras. Um dos quadros é uma vista sobre o que viria a ser o Jardim Camões (com o Porto Interior ao fundo) - imagem abaixo - e o outro retrata a gruta de Camões.
Chinnery chegou a Macau em 1828. Tornou-se amigo de Christopher Fearon e terá sido na casa deste - no jardim - que foi criado o primeiro estúdio de pintura, até se mudar para uma casa própria no númeo 8 da rua Inácio Batista onde montou o seu atelier. A amizade com o casal Fearon (a mulher chama-se Elisabeth) fez com que Chinnery fosse o padrinho de um dos filhos, Robert, e ensinasse pintura aos três filhos.
Ser alvo de uma pintura de Chinnery era um ritual pelo qual os mais abastados não abdicavam. Os oficiais ingleses não perdiam essa oportunidade. Outro caso foi o de Harriet Low que em 1833, pouco tempo antes de sair de Macau foi pintada por Chinnery.
Sugestão de leitura: 
George Chinnery: no bicentenario de seu nascimento 1774-1974, Manuel Teixeira, Macau.
Autoretrato de Chinnery feito a lápis. Data de 1832 e portanto feito em Macau.


(...) let us leave it and pay a visit to Mr Chinnery an old gentleman upwards of seventy years of who has resided many years in China and devoted himself to painting. By his labours many people at Macao posses some exquisite pictures of Chinese grouped in various combinations and situations and valuable as well for their intrinsic merit as paintings as for the subjects they delineate. A visit to Mr Chinnery's studio is well repaid by an inspection of his numerous sketches by his explanations of the scenes they represent by his ancedotes but more particularly by his enthusiastic expressions of admiration of the beautiful curve in Chinese pigs backs Hogarth's famous line of beauty was but a faint copy of it.
This admiration is evinced in all Mr Chinnery's pictures which are as uniformly distinguished by the presence of a Chinese pig as Wouvermann's are by a white horse Mr Chinnery however does not confine his talents to figures and pigs backs only he has also sketched many curious and peculiar styles of architecture among the Chinese and it was by his recommendation that I visited a temple near the southern end ot Macao looking on the inner harbour. 
This temple or joss a corruption of the Portuguese word Dios God house is placed on the steep and rough side of a hill and is an excellent specimen of the fantastic and artificially picturesque style of building and situation that the Chinese so much delight in. The large building or main body of the the temple to which we gain access through a richly carved and gateway is situated on the level ground at the foot of the hill and is with much gilding carving and many grotesque figures while flights of steps winding paths ornamented altars terraces large circular arches and other etceteras are scattered up the hill side intermingled in confusion with imasses of rock shrubs and trees. (...)
To the various places I have mentioned an occasional walk is taken but the general promenade of foreign residents is in a different direction. At about half past five or six o clock in the afternoon numerous groups of persons on horseback and foot every pedestrian being provided with a stout walking cane are to be sceu bending their steps along the Praya Grande to its northern end where two ways that afterwards again unite lie before them.
One of these only is used by equestrians, who turning somewhat to the left, pass out of the city gate, and through a valley called the Campo, along an ill made road or path which is nevertheless the great thoroughfare to the barrier and the interior while pedestrians either take the same route or proceed along the Quay to the Point already more than once mentioned were under the walls of Fort Saint Antonio at the same time that the eye is gratified by a view of the open sea with the shipping at anchor in the roads and the health refreshed by the deliciously cool sea breeze arc discussed the news of the day whence this spot is in Macaocse parlance denominated Scandal Corner.
A path runs from it gradually ascending on the side of the cliffs that shut out the Campo from the sea an coininanding a most extensive and interesting view of the islands scattered along the coast and through the waters and of the innumerable and various vessels that arc at anchor or moving about in all directions. A few yards up this path from Scandal Corner is a i stone bench that would seem to be the unquestioned property of nursery maids and children who are every fine cvening assembled here in considerable numbers and present as pretty healthy rosy und merry a set of faces as any country town in England can boast of here also the mammas srcquently stop and chat always followed by the sedan chairs without which they never leave the house.
Excerto do jornal The Anglo American (Nova Iorque, EUA), edição de 2.3.1844
Nota: o autor do texto acima faz ainda uma referência a um outro pintor, Lam Qua, discípulo de Chinnery, e que também teve um estúdio de pintura em Macau:
"One day at Macao I asked Lanqua, a well known and deservedly sainous portrait painter, why he did not move over to Hong Kong where he would get so much employment. His answer was: "No proper that all bad Chinamen there".

domingo, 21 de junho de 2020

Pousada de Macau ***

Pousada de Macau *** Travessa do Padre Narciso. 
A charming, authentic Portuguese Inn with just four twin rooms decorated in traditional style. One of the most famous dining rooms in the Far East plus bar. 
Rates: M$60.00 Cards: AE, DC. 
Telephone 3637. 
Cables. POUSADA
O texto acima é de um folheto turístico feito para o mercado de Hong Kong em meados da década de 1970. 
A "Pousada Macau" também conhecida por "Pousada Macau Inn" ficava no nº 1 da Travessa do Padre Narciso, ao lado do Palácio do Governo
Tinha apenas 4 quartos duplos e um dos principais atractivos, para além da vista e da localização, era o restaurante onde o chefe Ângelo ganhou fama com a "galinha africana", um prato com um molho especial que, segundo consta, era feito com 52 ingredientes.
Década 1960 (acima) e década 1980 (abaixo)

sábado, 20 de junho de 2020

Macau no "Archivo Popular" de 9 Janeiro 1841

“A Cidade do Nome de Deus de Macau está situada em uma península, ou estreita língua de terra, unida por um istmo de cinquenta braças de largura à ilha de Hiam-San, dependente da província de Cantão. A extensão desta península é de uma légua e a sua largura de menos de uma milha. Toda ela é montanhosa, ou antes é um só monte de pedras; porém os portugueses construindo em umas eminências as suas fortalezas, em outras diversas igrejas e ermidas, e nos vales os edifícios públicos e habitações particulares, fizeram deste monte de pedras uma bela cidade, cuja perspectiva pode comparar-se com a de muitas e boas cidades da Europa”.
Artigo não assinado, de página e meia, publicado na edição nº 2 do "Archivo Popular semanário pintoresco", 9 de janeiro de 1841. Segue-se um excerto.

A cidade do Nome de Deos de Macáo está situada em huma peninsula ou estreita lingua de terra unida por hum isthmo de cincoenta braças de largura á ilha Hiam San, dependente da provincia de Cantão. A extensão desta peninsula he de huma legua e a sua largura de menos de huma milha. Toda ella he montanhosa, ou antes, he hum só monte de pedras, porém os portuguezes, construindo em humas eminencias as suas fortalezas, em outras diversas igrejas e ermidas, e nos valles os edificios públicos e habitações particulares, fizeram deste monte de pedras huma bella cidade cuja perspetiva póde comparar-se com a de muitas e boas da Europa.
Não tem a cidade de Macáo mais de humas mil braças de comprido sobre tresentas de largo e compõe se de 1200 fogos com 3500 moradores portuguezes e 1300 escravos, afora a população chineza que monta a mais  20 mil almas e vivem de mistura com os portuguezes, mas sugeitos sómente aos seus mandarins.
He cabeça de bispado e tem um cabido, três freguezias, casa de Misericordia com dois hospitaes, hum recolhimento de meninas, hum seminario de padres da congregação, além de tres conventos de frades e varias ermidas Tem boa casa de camara, espaçosa alfãndega e  palacio do governo. (...)
Tendo este primeiro estabelecimento crescido em commercio e riqueza e sendo já o número de casas no anno de 1585 o erigírão portuguezes em cidade intitulando a do Nome de depois de terem conseguido do vice rei de Cantão a de se governarem a si e administrarem aos seus pelas suas proprias leis Durante o governo dos Filippes em Portugal hollandezes inimigos de Castella tendo roubado todas as nossas possessões da Asia tentárão tambem varias vezes apoderar-se de Macáo por surpreza até em 24 de junho de 1622 resolvêrão dar hum ataque á cidade para o que desembarcárão 800 homens sitio de Cacilhas porém forão pelos nossos atacados valor tal que apezar da inferioridade do número os conseguindo sobre elles huma completa vitoria. (...)

sexta-feira, 19 de junho de 2020

Panchões da "Po Sing"

A fábrica de panchões Po Sing Firecracker Factory foi fundada na China (Cantão) em 1894. Na década de 1960 instalou-se na Taipa (terá sido a última a fazê-lo), junto à Estrada Nova para o Matadouro. 
Na península de Macau tinha escritório na Rua da Ribeira do Patane, 50-52. Tinha sucursais em Cantão e Hong Kong, sendo a partir da vizinha colónia britânica que efectuava os negócios, fruto das melhores condições para as exportações, em especial para os EUA. A marca Peacock, por exemplo, foi registada nos EUA em 1947.

Abaixo detalhe de um dos raros rótulos escritos em português (com gralha): 
"Fábrica de Pauchões" - "Po Sing" Marca "Peacock"
Actualmente a Po Sing Fireworks Limited. existe apenas na China continental - em LiuYang - trabalhando em associação com várias fábricas em Hunan e Guangdong e com representação em Hong Kong.
Entre as muitas marcas produzidas pela Po Sing as mais conhecidas foram a Peacock e a Lion Globe. Mas existiram mais:  Sky Ship, Apollo, Companion, Double Voice, Sky Ship, Companion, etc...