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quinta-feira, 17 de setembro de 2026

Procissão de Nossa Senhora dos Remédios é Património Cultural Imaterial

A procissão e a devoção a Nossa Senhora dos Remédios passaram a integrar a lista do Património Cultural Imaterial de Macau segundo o boletim Oficial de 15 de Setembro último.
A devoção a Nossa Senhora dos Remédios é promovida pela paróquia de São Lourenço e a procissão realiza-se anualmente em Outubro.
Entre as manifestações católicas já reconhecidas como Património Cultural Imaterial de Macau contam-se a procissão de Nossa Senhora de Fátima, realizada anualmente a 13 de maio, e do Senhor dos Passos, celebrada no primeiro fim de semana da Quaresma.
Na fotografia uma procissão religiosa tendo à frente D. Policarpo da Costa Vaz, Bispo de Macau de 1954 a 1960. Atrás, de fato claro e gravata escura, o Almirante Joaquim Marques Esparteiro, Governador de Macau entre 1951 e 1957. Ao lado, de fato escuro e chapéu branco a mulher, Laurinda Marques Esparteiro.

quarta-feira, 9 de setembro de 2026

"Batalha de Flôres" em 1918

A fotografia retrata uma carruagem frente ao Palácio do Governo em 1918. 
"Carro do governador da provincia de Macau, capitão tenente sr. Vieira de Matos, com sua esposa a sr. D. Raquel Swart Vieira de Matos, promotora da festa e sua filha."

A decoração exuberante da carruagem remete directamente para uma manifestação cultural muito popular na viragem do século - a chamada Belle Époque - de origem europeia. A tradição de ornamentar carruagens com arranjos florais teve origem no Carnaval de Nice, em França, espalhando-se rapidamente um pouco por todo o mundo. Nestas celebrações - muitas vezes associadas a efemérides locais/nacionais - a alta sociedade desfilava em carruagens exibindo trajes formais - como os chapéus de aba larga visíveis nas senhoras e os fatos claros dos cavaleiros - enquanto os participantes arremessavam pétalas e botões de flores entre si.
O evento foi notícia na edição nº 642 (10.6.1918) da Illustração Portugueza que dedicou duas páginas profusamente ilustradas à "Batalha de flôres em Macau"...

"Tambem os nossos compatriotas residentes em Macau quizeram testemunhar o seu acendrado patriotismo e patentear o preito que dedicam aos soldados portuguezes que, em luta com os inimigos da cívilisação, honram as gloriosas tradições herdadas.
Por iniciativa da sr.ª D. Raquel de Matos, esposa do distinto capitão tenente sr. Vieira de Matos, governador interino d'aquela florescente colonia, realisaram-se ali varias festas a favor dos nossos mobilisados e da indigencia local, entre elas uma batalha de flores, em que tomaram parte 60 carros, ornamentados com fino gosto, e a que acorreu quanto ha de mais distinto na nossa provincia ultramarina do Extremo-Oriente.
O produto d'estas festas, que, levadas a efeito com manifesto entusiasmo, decorreram com grande brilhantismo, atingiu uma soma consideravel, para o que contribuiu devéras o muito prestigio de que gosa o sr. Vieira de Matos, cujas excelentes qualidades de caracter e esclarecida inteligencia, são justamente apreciadas por todos que anceiam o desenvolvimento d'aquela nossa possessão, no que ele se acha devéras empenhado.
Sua esposa, que com grande devotamento se desobrigou da espinhosa missão, a que se propoz, de minorar a sorte dos nossos soldados e dos que o infortunio avassala, tem recebido inumeros testemunhos de homenagem e de gratidão. E, nunca foram melhor e mais justificadamente merecidos."
Algumas das legendas das fotografias:
Um aspéto da Avenida Vasco da Gama*, onde se realisou a batalha de flôres, vendo-se no primeiro plano a nau S. «Gabriel».
Na Avenida Vasco da Gama onde se realisou a festa, alguns dos carros que n'ela tomaram parte. No primeiro plano o submarino «23», de Mr. Gellion, tripulado por senhoras de sua familia, vestidas de oficiaes de marinha, vendo-se entre elas Mrs. Gellion, trajando um vestido que simbolisava a Inglaterra.
Carro do sr. dr. Americo de Sousa, juiz de direito, e sua familia.
Carro de Madame Ricou.

* inaugurada em 1898 - tendo na altura decorrido também uma "Batalha de Flores" - corresponde a parte do que é hoje a Av. Sidónio Pais.

segunda-feira, 7 de setembro de 2026

Carimbo da "Direcção das Obras Públicas de Macau" no séc. 19

Embora já existisse desde pelo menos 1845 o cargo de Inspector das Obras Públicas (exercido por um militar), a fundação do serviço de Obras Públicas no governo de Macau remonta ao mandato do Governador de Macau e Timor José Maria da Ponte e Horta (1866-1868) que face à necessidade urgente de reformar os serviços da administração pública nomeou várias comissões para propor alterações.
Carimbo da "Direcção das Obras Públicas de Macau" no séc. 19

Assim, a 18 de Setembro de 1867, uma comissão nomeada por portaria do dia 14 desse mês - composta por Francisco Maria da Cunha, major de artilharia, presidente, Jerónimo Osório de C. C. d’ Albuquerque, capitão às ordens, secretário e W. A. Read, E. C. - elaborou um relatório - publicado no Boletim da Província de Macau e Timor de 23 de Setembro de 1867 - onde é apresentado o projecto de organização de um corpo especial de obras públicas.

terça-feira, 25 de agosto de 2026

Marco toponímico Conselheiro Borja

As traseiras das Ruínas de S. Paulo foram durante muitos anos um depósito improvisado de artefactos que o progresso obrigou a retirar dos locais originais. É o caso deste marco toponímico com a inscrição em português e chinês fotografado na década 1960:
Governo Conselheiro Borja 路政參布 (Rua/Travessa Conselheiro Borja)
Em Macau existe uma avenida, uma rua e uma travessa com o seu nome.
Custódio Miguel Borja (1849-1911) foi governador de Macau e Timor entre 16.10.1890 e 24.03-1894. Nesse âmbito foi também Ministro plenipotenciário de Portugal na China, Japão e Tailândia.
Seria exonerado a 10 de Novembro de 1893:
"Hei por bem exonerar o capitão de fragata supranumerario da armada conselheiro Custodio Miguel Borja do logar de governador da provincia de Macau e Timor para que fôra nomeado em decreto de 2 de abril de 1890 e que serviu com zêlo e intelligencia O ministro e secretario d estado dos negocios da marinha e ultramar assim o tenha entendido e faça executar."
Seguiu-se José Maria de Sousa Horta e Costa, nomeado novo governador no mesmo dia:
"Attendendo ás circumstancias que concorrem no capitão de estado maior de engenheria do exercito de Portugal José Maria de Sousa Horta e Costa hei por bem nomeal o para o logar que se acha vago de governador da provincia de Macau e Timor O ministro e secretario d estado dos negocios da marinha e ultramar assim o tenha entendido e faça executar."

domingo, 23 de agosto de 2026

Uma visita guiada em 1867

Entre 11 e 14 de Fevereiro de 1867 o jovem Conde Ludovic de Beauvoir, acompanhando o Duque de Penthièvre numa viagem à volta do mundo, visitam Macau. Partiram em Abril de 1866 e visitaram a Austrália, a ilha de Java, o Sião, Hong-Kong, Macau e Cantão, depois a China do Norte, o Japão e a Califórnia e voltaram para França em Setembro de 1867.
Os viajantes franceses chegaram a Macau vindos de Hong Kong a bordo do vapor a pás Fire-Dart e partiram em direcção a Cantão poucos dias depois.
Dois anos depois o conde publica um livro sobre a viagem. Num tom muito crítico resume o declínio económico da cidade afirmando que, se não fosse o êxodo forçado dos cules e o lucrativo contrabando de ópio, a "erva cresceria nas ruas de Macau abandonada". Para ele, o dinamismo comercial tinha sido totalmente absorvido pela vizinha Hong Kong britânica, restando a Macau a dependência deste comércio humano degradante e que só seria proibido uma década depois.

Excertos do diário a 12 de Fevereiro (tradução/adaptação) publicado em Voyage autour du monde: Java, Siam, Canton" logo em 1869:
"Graciosamente conduzidos durante a primeira parte do dia por Dom Osório, ajudante de campo do Governador, e durante a segunda por Sua Excelência em pessoa, Dom José Maria da Ponte e Horta, major de artilharia, visitamos hoje toda a possessão, o que é fácil, visto parecer-me ter cinco quilómetros de comprimento por dois de largura. Esta península tem exatamente a forma de uma pegada humana, cujo calcanhar está voltado para o mar, enquanto o polegar termina numa língua de terra com quatrocentos metros de largura que a une à grande ilha de Hiang-Chan.
O calcanhar é formado por nove altas colinas rochosas que dominam os fortes de Bom Parto, Barra, São João e São Jerónimo; a grande curva interior da planta do pé está preenchida pelas habitações amontoadas dos chineses, que são em número de cento e vinte e cinco mil, enquanto os dois mil residentes portugueses estão domiciliados no lado oposto e exterior. A Praia Grande, esplanada marítima, é o seu boulevard; solares de grades escuras, o Palácio do Governador, a Capitania do Porto, vivendas oficiais ou comerciais estão ali alinhadas, apresentando absolutamente o cunho colorido, arqueado e monástico da mãe-pátria.
Suponha-se então que uma muralha escala o peito do pé (...) e que todas as articulações dos dedos se crispam e se erguem; não são mais do que montanhas em sobressalto no topo das quais se erguem os fortes de São Francisco, da Guia, de São Paulo do Monte e sete ou oito outros; depois vêm a planície cultivada pelos hortelãos, a aldeia de Mong-Há e a barreira de dezasseis pés de altura que separa a colónia do território chinês.
As estradas que seguimos na nossa interessante viagem são escavadas em cornija no granito e do efeito mais pitoresco; uma centena de canhões de grande calibre apontados nas alturas partilham a tarefa de defender a península do lado do mar envolvente ou de bombardear o bairro das cento e vinte e cinco mil tranças em caso de motim.
Depois visitamos a Praça da Sé, a catedral, os velhos paços do concelho onde fica o Senado e onde figura esta inscrição desde 1654: CIDADE DO NOME DE DEOS NAO HA OUTRA MAIS LEAL. 
Percorremos os quartéis, os mosteiros, a igreja de São Paulo construída em 1594 pelos Jesuítas e hoje três quartos incendiada, o Asilo dos Pobres, etc., etc.; numa palavra, uma série de edifícios antigos e cristãos encimados por cruzes, ornados com santos em nichos, cobertos de frescos curiosos. Adicione a mantilha que esconde a cabeça das mulheres, o imenso chapéu preto e oblongo sob o qual caminham os monjes, a cornoita branca das Freiras da Caridade, e jurar-se-ia, garanto-lhe, que estamos à sombra das basílicas de Lisboa ou de Génova.
Após os espetáculos modernos que nos acabam de dar, há dez meses, os mundos inteiramente novos e os mundos asiáticos onde, pelo menos, a invasão industrial tem todo o cunho da atualidade, é como uma ilusão encontrar à porta do Império do Meio uma caixa de doces antiga, com ruínas cristãs que parecem atestar que não houve nesta terra distante senão os nossos velhos monumentos e as nossas velhas crenças. (...)
O crepúsculo está a terminar no momento em que termina também para nós o território da colónia: estamos sobre a estreita língua de terra que liga Macau a Hiang-Chan. A cerca de duzentos metros de nós, tanto à direita como à esquerda, quebram-se as vagas da maré montante, e a barreira granítica do Império chinês detém-nos. Ei-lo, pois, o famoso solo onde flutua livremente a bandeira amarela do Imperador!*
Mas que desilusão! É coberta de imundícies, de podridão e dos trapos dos descendentes do Fogo que nos aparece a Terra Celestial das Flores. Um grupo de cerca de sessenta homens vestidos de branco, batendo em tam-tams e uivando com uma voz aguda, leva um morto a sepultar e desfila diante de nós (...). 
Foi neste mesmo lugar que morreu assassinado o penúltimo Governador de Macau, o valente Ferreira do Amaral. Tendo tomado em mãos a reivindicação inteira de Macau por Portugal, atraiu a si a cólera dos mandarins de Cantão, que queriam a todo o custo manter os seus esbirros com paridade de autoridade na colónia portuguesa. Não recorreram à guerra aberta e lutaram pelo homicídio, o que lhes custava bem menos caro: a 22 de Agosto de 1849, os seus sicários lançaram-se sobre Amaral no momento em que ele passeava a cavalo ao longo desta muralha com um ajudante de campo, e levaram até aos pés do Governador de Cantão a cabeça e as mãos ensanguentadas do desgraçado oficial. (...)"
* Porta do Cerco

sábado, 1 de agosto de 2026

Um "explendido baile" em 1867

"Começaremos o noticiario d'esta semana registrando o explendido baile offerecido na noite de 22 do corrente mez a S. Exa. o Governador da colonia pelo sr. Maximiano dos Remedios, negociante muito abastado d'esta cidade. A festa foi brilhante, e os salões onde se reunio uma mui selecta e luzida sociedade estiveram radiantes de luz e alegria desde o principio do baile até ao fim. Á ceia que foi servida alta noite, e a que não faltou nem a profusão nem o bom gosto, trocaram-se diversos brindes, mui apropriados ás circumstancias, e que foram devidamente recebidos e correspondidos.
A entrada da casa do sr. Remedios estava illuminada com intencional primor. Via-se ali uma estrella e umas letras que explicavam brilhantemente qual a pessoa em cuja honra a festa era dada. — S. Exa. o Governador da colonia ficou muito penhorado com semelhante obzequio e soube bem fazel-o sentir n'um brinde affectuoso que dirigiu a toda a familia Remedios n'um dos momentos da ceia, quando lhe coube responder áquelle que lhe endereçou um dos Patriarchas da familia. A festa dos srs. Remedios foi tão agradavel como sympathica a todos aquelles que tiveram a fortuna de tomar parte n'ella."
Foto de John Thomson ca. 1870

A notícia foi publicada a 28.10.1867 no Boletim da Província de Macau e Timor. O governador homenageado neste baile era José Maria da Ponte e Horta (1866-1868).
Filho de António dos Remédios e de Rita de Sousa Peres - casaram em 1791 e tiveram 16 filhos* - Maximiano António dos Remédios (1808-1875) foi de facto um rico negociante e proprietário, fazendo parte em 1871 da lista dos 40 maiores contribuintes de Macau. Ou seja, dos que mais impostos pagava devido às propriedades que possuía.
A residência da família Remédios ficava na colina da Penha onde a família Remédios tinha várias chácaras**, incluindo uma denominada S. José (junto a Santa Sancha) e aquela onde viria a 'nascer' o hotel Boa Vista (em 1890). Tudo indica que a que é referida nesta notícia de 1867 era esta última.
No livro de 1867 "Os Chins de Macau" Manuel de Castro Sampaio escreve que "Uma das primeiras povoações fica próxima da fortaleza da Barra e é por isso chamada Povoação da Barra. A outra acha-se na encosta outeiro da Penha, onde está a fortaleza do Bom Parto, e onde se encontram as mais lindas chácaras de Macau. Esta é conhecida pelo nome de Tanque-Mainato, nome derivado de um tanque de lavadeiros ou mainatos, como lhes chamam no paiz. As outras três povoações são denominadas de Patane, de Mong-ha e de S. Lázaro."

** na toponímia local ainda hoje existe na zona a Calçada das Chácaras.

quarta-feira, 15 de julho de 2026

"Luto na Colónia"

Na sequência da morte do governador Tamagnini Barbosa a 10 de Julho de 1940, nesse dia e no seguinte, foram proibidos "divertimentos" em hotéis, restaurantes, casas de espectáculos e outros lugares". No jornal A Pátria de 10 de Julho uma pequena notícia refere o "Luto na Colónia:
"Por virtude do luto determinado pelo Govêrno da Colónia pelo falecimento de S. Exa. o Governador, os proprietarios e gerentes de hoteis, restaurantes*, casas de espectaculos e outros lugares onde se realizam divertimentos publicos, foram avisados de que, sob pena de desobediencia aos mandados da autoridade, hoje e amanhã, 10 e 11 do corrente mês, não são permitidos quaisquer divertimentos que nêsses estabelecimentos é costume realizar. A este respeito foi publicado um Edital da Administração do Concelho."

No dia seguinte à morte o jornal A Pátria não se publicou. No dia 10, os cinemas Vitória, Capitol e Apollo, que já tinham contratos de publicidade publicando regularmente anúncios viram os anúncios dos filmes 'cortados'.

O funeral realizou-se a 11 de Julho. No dia 10 o jornal A Pátria antecipava o programa das cerimónias fúnebres:
Nos actos funebres para o funeral de S. Exa. o Governador Artur Tamagnini de Sousa Barbosa, Sua Exa. o Encarregado do Governo determinou que se observe o cerimonial seguinte:
O cadáver de Sua Exa. o Governador ficará exposto no salão nobre do Leal Senado da Camara de Macau a pedido do povo desta cidade, feito ao Govêrno da Colonia por intermédio da Vereação, desde hoje, 10, até á saída do funeral, sendo o ataúde conduzido e colocado na eça pelos Vogais do Conselho do Govêrno.
O cadáver emquanto estiver em câmara ardente será velado por turnos organizados pelo Chefe da Repartição Central dos Serviços de Administração Civil e Chefe do Estado Maior, incumbidos de dirigir os funerais.
Amanhã, ás 11 horas, deverá ter lugar o funeral, que sairá do edificio do Leal Senado da Câmara de Macau para a Sé Catedral, onde o féretro ficará depositado até seguir para a Metrópole, sendo a chave da urna funerária entregue ao Sr. Encarregado do Govêrno.
Toda a fôrça armada disponivel formará em alas nas ruas por onde passar o cortejo fúnebre.
Uma bateria de artilharia achar-se-á postada nos terrenos do Pôrto Exterior a fim de dar a salva da ordenança, de 21 tiros.
Durante o dia de hoje e amanhã a Fortaleza do Monte dará um tiro de peça de meia em meia hora, desde as 8 ás 19 horas.
Durante os mesmos dias a bandeira Nacional será colocada a meia adriça, em todos os edificios públicos.
Durante 2 dias, a contar de hoje, é suspenso o serviço em todas as Repartições públicas dependentes do Govêrno, exceptuando aquelas em que o serviço pela sua natureza, não possa ser interrompido; ficam proibidos todos os espectaculos ou divertimentos públicos durante os referidos dias, ordenando as autoridades todas as demonstrações que costumam praticar-se em ocasiões semelhantes.
O funeral de S. Exa. é feito por conta do Estado."

terça-feira, 14 de julho de 2026

O funeral de Tamagnini Barbosa em Julho de 1940

Retrato a óleo (oficial) 
Imagem restaurada com a recurso a IA

A morte do governador (pela terceira vez) Artur Tamagnini Barbosa a 10 de Julho de 1940 ocupou toda a primeira página da edição desse dia do jornal A Pátria.
O padre Manuel Teixeira assina o artigo "Preito de Saudade" onde escreve ter acompanhado o governador nos últimos momentos de vida no Palacete de Santa Sancha, a residência oficial.
"Rodeado por quase todos, senão todos os Chefes de Repartição, assistido pelos médicos do corpo e da alma, amparado pelos amigos e tendo á cabeceira o seu filho estremecido, ás 7.25 horas da manhã*, S. Exa. o Governador* da Colónia, Artur Tamagnini de Sousa Barbosa, expirou plácidamente no ósculo do Senhor, com a cabeça inclinada para o lado direito."
A grande mancha da capa do jornal tem como título "O Governador de Macau, Artur Tamagnini Barbosa, faleceu ás 7.25 horas de hoje" e inclui uma fotografia.

"Artur Tamagnini de Sousa Barbosa, o governador predilecto de Macau, deixou hoje de viver nêste mundo de misérias e amarguras. De meia em meia hora a voz da artilharia está anunciando a todos a morte do preclaro cidadão.
Nesta mimosa e serena cidade de Macau, a que ele tanto se afeiçoou, berço de entes queridos, irmãos e filhos, nesta parcela de Imperio Colonial Português a que sempre dedicou cuidados especiais e pela qual, pelo muito que lhe queria, não hesitou em abandonar a situação culminante a que o seu mérito o guindára, para, sem olhar á saude, á categoria e aos proventos, vir ocupar o mesmo lugar com que iniciára quasi, há bem longos anos, a sua notavel carreira politica, Artur Tamagnini exalou o seu ultimo alento, após um prolongado e cruciante sofrimento, de que afectuosas dedicações não conseguiram salvá-lo.
Neste tão decantado e mimoso torrão português findou a existencia de Artur Tamagnini Barbosa, longe dos entes queridos — apenas o acompanhava um filho, Marco Antonio — sem conseguir vêr coroado do completo exito que desejava o seu esfôrço patriotico e desassombrado em prol de Macau.
Cidadão honesto, sincero, patriota, a sua vida, toda de trabalho, de honradêz, de lealdade e de dedicação pode sêr exposta á luz clara do dia, para exemplo dos que queiram seguir, sem tergiversar, a estrada do Dever.
O grande, imenso prestigio que carinhosamente cercava a inconfundivel figura de Tamagnini Barbosa, a admiração e o respeito que lhe tributavam as autoridades inglesas e chinesas e outras das circunvisinhanças desta Colónia, revelam bem o aprêço em que era tido o distinto colonialista nestas melindrosas paragens do Extremo-Oriente, hoje mais que nunca o ponto nevrálgico do mundo.
Estimado de longa data por tôda a comunidade chinesa e população macaense e europeia, era o perfeito colonizador e o mais excelente representante da civilização portuguesa. As manifestações de consideração e amizade de que foi alvo durante todos os periodos do seu govêrno em Macau são o melhor testemunho de quanto valia Sua Excelencia, que com lhaneza e refinado trato sabia manter a estima e o respeito de todos.
Artur Tamagnini de Sousa Barbosa foi nomeado a primeira vez governador de Macau por decreto de 1 de Junho de 1918, tomando posse em 12 de Outubro do mesmo ano. Uma mudança de ministério alguns mêzes depois originou o seu regresso a Portugal.
Por decreto de 19 de Junho de 1926 foi, pela segunda vez, nomeado governador da Colónia, o primeiro governador que para Macau foi nomeado pelo governo da Ditadura, tomando posse em 8 de Dezembro do mesmo ano, cargo que deixou em 1931 aureolado de invulgar prestigio nos meios estrangeiros, cujas autoridades frequentemente o visitavam.
Nomeado pela terceira vez governador de Macau, por decreto de 12 de Dezembro de 1936, cargo de que tomou posse em 11 de Abril de 1937, a morte abruptamente lhe interrompeu a carreira, hoje, ás 7.25 horas, contando 59 anos de idade.
A seus queridos filhos e irmãos e mais familia enlutada apresenta A Voz de Macau sentidas condolencias."
Aspecto do cortejo fúnebre a 11 de Julho de 1940
entre o Largo do Senado e o Largo de S. Domingos
Foto colorida com recurso a IA.
Original muito provavelmente da autoria de Neves Catela

Nota: Devido à Segunda Guerra Mundial o caixão forrado de zinco ficou muitos anos depositado na igreja da Sé. O corpo do governador só foi transladado para Portugal a 7 de Dezembro de 1946 a bordo do paquete Quanza que chegou a Lisboa a 21 de Janeiro de 1940 tendo nesse dia sido realizado um novo funeral no cemitério do Alto de S. João.

quarta-feira, 1 de julho de 2026

"Residência campestre dos governadores"

No final do século 19 Bento da França escrevia assim: "Nos arrabaldes da cidade encontram se algumas quintas bem cuidadas sendo para especialisar a residencia campestre dos Governadores denominada Palacio da Flora que hoje tem habitação e dependencias esmeradamente tratadas."
A ilustração reproduz uma fotografia do final do século 19 que mostra o Palacete da Flora. Era aqui a "residência campestre", assim referida porque bastante longe do centro da cidade. Comprado pelo governo na década 1870 era habitualmente usada pelos governadores como residência de Verão. Foi construído originalmente em 1848 pelo Padre Vitorino José de Sousa e Almeida e desenhado pelo arquiteto José Tomás de Aquino. Em redor havia uma extensa área de terreno. Tão extensa que o espaço viria a ser usado como um viveiro de árvores e arbustos. Estão aqui as origens do Jardim da Flora, ainda que numa área muito menor que a original.
O palacete foi destruído em Agosto de 1931, juntamente com várias casas nos arredores, devido a uma violenta explosão num paiol de munições próximo.

domingo, 31 de maio de 2026

Dicionário Chinês-Português /中 葡 字 典 : 1964

Impresso na Imprensa Oficial de Macau entre 1962 e 1964 este "Dicionário Chinês-Português /  中 葡 字 典" tem a particularidade de ser dedicado pelo Governo de Macau a Sun Iat Sen e incluir uma breve história de Macau.


中 葡 字 典
中 (Zhōng): Abreviação para China ou língua chinesa.
葡 (Pú): Abreviação para Portugal ou língua portuguesa (derivado de 葡萄牙).
字 典 (Zì diǎn): Significa literalmente Dicionário




quinta-feira, 28 de maio de 2026

"Revolução em Portugal": Maio de 1926

Há 100 anos um golpe militar derrubava a 1.ª República em Portugal seguindo-se a instauração da ditadura militar e abrindo caminho ao Estado Novo. O principal líder dos revoltosos, foi Manuel Gomes da Costa (1863-1929).
Em Macau o jornal A Pátria dá conta dos eventos na edição de 31 de Maio de 1926 numa breve citando um telex de Lisboa com a data de 28 de Maio:
"À última hora
LISBOA, 28 — As comunicações com o interior estão cortadas.
O general comandante dos revoltosos em que estão incluídos a 8.ª divisão, a divisão do Porto e outras unidades declarou numa proclamação que vai marchar sôbre Lisboa."
Na edição de de Junho o jornal publica na primeira página uma série de artigos sobre os acontecimentos em Portugal: 
A revolução em Portugal
Cai o ministério
Lisboa, 29. — Os chefes da revolução foram ter com o sr. Presidente da República a quem pediram que formasse um Govêrno extra-parlamentar e citasse os leaders dos partidos políticos. Num comunicado, o Govêrno declara que reina absoluto sossêgo em todo o país. Os elementos revoltosos compõem-se apenas de uma divisão aquartelada em Braga e comandada nessa cidade pelo General Gomes da Costa e no Porto pelo General Peres.

Ainda na primeira página do jornal pode ler-se:
Ditadura militar em Portugal
Um govêrno sem políticos
LONDRES, 31 — O Correspondente do Daily News em Lisboa diz que o movimento revolucionário se estendeu por todo o país e que o Presidente da República conferenciou com os delegados revolucionários, consentindo em que êles governem o país.
LISBOA, 31 — A revolução acabou pelo estabelecimento de uma ditadura militar, a quinta na Europa, existindo as outras na Itália, Espanha, Grécia e Polónia. A revolução fez-se quási sem disparar um tiro. Num comunicado de sábado o Govêrno dizia que estava senhor da situação mas afinal os revolucionários marcharam sôbre Lisboa, não podendo o Govêrno opor-se-lhes por não poder dispor de transportes que lhe foram negados pelas companhias do caminho de ferro. Numa proclamação ao povo português, o General Gomes da Costa diz que o movimento revolucionário teve por fim salvar o país da ruína a que o levavam os políticos. 
Mais tarde — A revolução triunfou e o Presidente da República encarregou o chefe das fôrças revolucionárias, Comandante Mendes Cabeçadas, de formar govêrno. O comandante Cabeçadas aceitou e tomou conta de tôdas as pastas provisoriamente. Entrevistado, o sr. Cabeçadas declarou que o novo Govêrno seria composto de militares e civis sem partidos e de perfeito acôrdo com os delegados das divisões militares.
Manuel Firmino de Almeida Maia Magalhães era então o Governador (até 1 de Agosto de 1926). Seguiu-se Hugo de Carvalho de Lacerda Castelo Branco que assumiu interinamente o cargo entre 1 de Agosto e 8 de Dezembro de 1926. Antes, em Julho, já tinha sido nomeado Artur Tamagnini de Sousa Barbosa, que assumiu o cargo efectivo a 8 de Dezembro de 1926.

Na última página uma notícia informa que a informação oficial chegou ao governador de Macau no dia 31 de Maio:
Revolução em Portugal
Telegrama recebido pelo Governo de Macau, ontem de manhã
LISBOA 31-5-1926
Governador Macau
800 Circular virtude movimento militar Ministério demitiu-se ponto. Está sendo organizado novo Ministério que, comunicarei ponto. Sossêgo em todo País.
Parte da infância de Gomes da Costa e das suas irmãs, Lucrécia (1869 - ?) e Maria Amália (1871-1953), foi passada em Macau, onde o pai, recentemente promovido a tenente, se encontrava destacado.
A carreira militar de Gomes da Costa progrediu de forma fulgurante: tenente (novembro de 1889); capitão para o Ultramar (julho de 1893); capitão (janeiro de 1898); major (fevereiro de 1908); tenente-coronel (junho de 1912); coronel (junho de 1914); general graduado (maio de 1917) e marechal (setembro de 1926).
De 1893 a 1916, viveu quase ininterruptamente na Índia e em África, ao serviço do então Exército Colonial. Esteve em praticamente todas as colónias, em missões de combate, reconhecimento, inspeção e administração.
Em 1922 foi nomeado inspector Extraordinário às Colónias do Oriente e nessa qualidade esteve em Macau e no Estado da Índia. Chegou a Macau a 8 de Outubro de 1922 acompanhado do filho Carlos Nunes Gomes da Costa, como Secretário, e do Tenente Salgueiro Rego, ajudante de campo, para inspeccionar os serviços militares locais.
O jornal O Liberal informa na edição desse dia:
"É esperado hoje em Hongkong o sr. general Gomes da Costa, tendo ido áquela colonia esperalo o sr. capitão Serrão dos Reis."
Na edição de 12 de Outubro de 1922 o mesmo jornal cita o jornal O Mundo:
"O sr. general Gomes da Costa — escreve O Mundo —, cuja larga folha de serviços lhe grangeou dentro e fóra do exercito uma situação de alto prestigio, é uma das mais distintas figuras militares do nosso pais. Cooperador de Mousinho, em Moçambique, onde a sua bravura tantas vezes teve ocasião de se assinalar, o sr. Gomes da Costa tinha já um honroso e brilhante passado militar quando, com a nossa entrada na Grande Guerra, mereceu ao governo, que então geria os negocios publicos, o encargo de comandar na frente da batalha da Flandres, no sector português, o comando de uma divisão. A maneira como se houve nesse posto de enormes responsabilidades, sabem-no toda a gente e, em especial, os heroicos soldados que por ele tinham, a par de uma funda admiração, uma grande estima. Nas vesperas de uma hora, simultaneamente tragica e sublime, do 9 de Abril, o sr. general Gomes da Costa foi ainda o patriota veemente que, em tão sucessivos quanto baldados apelos, soube frizar ao governo de Sidonio Pais a critica situação das forças sob o seu comando, procurando chamar aos seus postos todos aqueles que deviam estar na linha de combate e, todavia, não estavam. A este respeito, o seu livro A Batalha do Lys, lançado á publicidade com invulgar desassombro, constitue um eloquente depoimento do seu caracter, do seu zelo militar e do seu ardente patriotismo. A missão que lhe foi recentemente cometida e que hoje o leva para longe de Portugal é mais uma distinção — e uma distinção merecida. Saudamo-lo, por isso, na certeza de que, fazendo-o, saudamos numa das suas mais brilhantes figuras o heroico exercito que se bateu na Africa e na Flandres."
Depois de um largo período de tempo em Macau - recheado de peripécias - Gomes da Costa regressaria a Lisboa em 1924.
Ficou historicamente conhecido por liderar a Revolução de 28 de Maio de 1926 e por exercer o cargo de 10.º Presidente da República Portuguesa por um curto período de tempo.

quarta-feira, 27 de maio de 2026

Recepção em Santa Sancha na década 1950

Recepção no Palacete de Santa Sancha - residência oficial do governador - na década de 1950. No jardim o governador Joaquim Marques Esparteiro fala com os convidados. 

quarta-feira, 25 de março de 2026

Primeiro aniversário do mandato do Governador Pedro Correia de Barros

No Boletim Geral do Ultramar, edição XXXIV (Março de 1958), é publicado um artigo sobre a celebração do primeiro aniversário do mandato do Governador Pedro Correia de Barros (sábado, 8 de Março de 1958). Foi governador de 8 de Março de 1957 a 17 de Setembro de 1959.
Correia de Barros em Março de 1957

1. Homenagem e Alianças Políticas
Recepção no Palácio: Antes do banquete principal, diversas figuras de relevo dirigiram-se ao Palácio da Praia Grande para felicitar o Governador, incluindo o Bispo de Macau, D. Policarpo da Costa Vaz, e o Diretor da Fazenda, Manuel Peixoto Nunes.
Representação Chinesa: A elite chinesa foi representada por Hó Yin, que falou em nome da Associação Comercial e do Hospital Kiang Wu, destacando o apoio governamental ao comércio e à beneficência.
Banquete de Gala: Cerca de quinhentos convidados participaram num banquete oferecido pela Comunidade Chinesa, reforçando os laços diplomáticos e sociais.
2. Fomento Económico e Industrial
Desenvolvimento: O Governador destacou o novo ritmo das obras de fomento e a segurança do Plano de Fomento, financiado pela "Metrópole" (Portugal Continental).
Industrialização: Um grupo de industriais chineses agradeceu publicamente as facilidades concedidas para a instalação de novos estabelecimentos fabris na província.
Medidas Fiscais: Hó Yin elogiou a redução e supressão de taxas, bem como a simplificação do licenciamento de importação e exportação para dinamizar a economia.
3. Filantropia e Cooperação
Donativo à Assistência: Como gesto de agradecimento, a comunidade chinesa ofereceu um donativo de 20 mil patacas à Comissão Central de Assistência Pública para fins de caridade.
Solidariedade Ultramarina: O Governador mencionou que Macau recebia ajuda inestimável de outras províncias do ultramar português através de isenções aduaneiras para os seus produtos.
4. Contexto de Estabilidade
Experiência de Guerra: Correia de Barros recordou a sua passagem anterior por Macau durante a Segunda Guerra Mundial, o que lhe conferia um conhecimento profundo das virtudes e necessidades da comunidade local.
Clima Social: O tom geral dos documentos de 1958 é de otimismo e "desejo de progresso",

Artigo do B. G. U.:
Informa a agência ANI que a imprensa local, tanto portuguesa como chinesa, se referiu com relevo ao primeiro aniversário da posse do senhor comandante Pedro Correia de Barros no cargo de governador de Macau.
Os jornais chineses publicaram um número especial, profusamente ilustrado, incluindo saudações de entidades da província e uma resenha dos actos governativos e dos principais acontecimentos da província no ano que passou.
Esse número especial foi distribuído aos convivas que tomaram parte no banquete que a Comunidade Chinesa de Macau ofereceu ao comandante Correia de Barros.
Foram promotores do banquete as direcções da Associação Comercial de Macau, da Associação de Beneficência do Hospital Kiang Wu e da Associação de Beneficência Tong Sin Tong e os senhores Hó Yin, Fu Tak Iam, Y. C. Liang e Kou Fok Meng.
O banquete reuniu cerca de quinhentos convivas, entre os quais as individualidades de maior relevo na vida da província. Foram servidos numerosos pratos da cozinha chinesa e, no final, segundo a etiqueta chinesa, o governador, acompanhado pelos anfitriões, percorreu, uma a uma, todas as mesas, bebendo à saúde dos convivas.
Aos brindes, o Sr. Hó Yin, presidente da Associação Comercial e da Associação de Beneficência do Hospital Kiang Wu, proferiu um discurso, declarando:
«É com grande alegria que vimos celebrar o primeiro aniversário do hábil governo de V. Ex.ª, porque sabemos quanto se tem esforçado e trabalhado pelo progresso e desenvolvimento do comércio e indústria de Macau, perante as medidas legislativas e fiscais tão inteligente e prudentemente determinadas por V. Ex.ª, no sentido de facilitar o intercâmbio comercial entre este território e territórios tanto nacionais como estrangeiros, introduzindo modificações no sistema de licenciamento de artigos de importação e exportação, reduzindo e suprimindo taxas e, enfim, promovendo o desenvolvimento do turismo, com o alto objectivo de consolidar a situação financeira de Macau e melhorar as suas condições económicas.
Esperamos, confiadamente, que da actuação precisa de V. Ex.ª, nos diferentes sectores da administração pública, advirão os mais lisongeiros resultados, pois a notável experiência e o conhecimento directo que V. Ex.ª possui desta terra nos oferecem a mais preciosa garantia do bom êxito dos seus esforços nos campos político, económico e comercial.
E, assim, sabendo e reconhecendo os trabalhos e sacrifícios que V. Ex.ª tem feito desde a sua chegada a Macau, no exercício das suas altas funções, nós queremos neste lugar render a V. Ex.ª as nossas homenagens de admiração e deixar nas suas mãos o nosso tributo de apreço e gratidão.
E marcando a passagem desta data auspiciosa, oferecemos um donativo de 20 mil patacas à Comissão Central de Assistência Pública, para fins de beneficência e caridade, fazendo-se a distribuição do mesmo donativo pela forma que V. Ex.ª, seguindo o seu sentimento humanitário, se dignará determinar.
Bebemos pelas prosperidades do governo de V. Ex.ª e pelas felicidades pessoais de V. Ex.ª e de sua Ex.ma esposa».
Seguidamente, o presidente da Comissão Central de Assistência Pública, administrador Alberto Eduardo da Silva, recebeu das mãos do governador o sobrescrito com o donativo da comunidade chinesa de Macau.
Agradecendo, o senhor governador Correia de Barros proferiu o seguinte discurso:
«Tiveram V. Ex.as a gentileza de nos convidarem, a minha mulher e a mim, nesta data em que completo um ano de permanência na província. Muito vos agradeço e sensibiliza-me a ideia que tiveram em convidar, também, número grande dos colaboradores mais directos do Governo e da Administração.
Muito agradeço as palavras que V. Ex.ª, senhor presidente da Associação Comercial, acabou de me dirigir e é com prazer que às mesmas respondo.
O que se conseguiu neste ano de trabalho pouco será, em face de tantos problemas agudos que gostaríamos de resolver. Verifico, porém, existirem condições que lentamente poderão trazer a Macau melhores dias.
Iniciado o ano de 1957 com a visita de Sua Excelência o subsecretário de Estado do Ultramar, a série de obras de fomento atingiu novo ritmo.
A sua continuação, na segunda fase do Plano de Fomento, pode-se considerar assegurada.
É um investimento notável, feito com dinheiros da Metrópole, o que não pode deixar de influenciar a vida futura de Macau.
Ao longo deste ano, todo o ultramar português nos ajudou, recebendo alguns dos nossos produtos com isenção de direitos aduaneiros. Esta ajuda tem sido e será para nós inestimável.
Na província tenho usufruído da ajuda franca de muitos que com sacrifício dos seus afazeres me têm dado horas de trabalho dedicado.
Dentro da administração e fora dela, nunca bati a uma porta que se me não abrisse. Sem tal ajuda teria sido impossível adiantar a resolução de tão grande número de problemas.
Embora devedor de todos, estando nesta sala como convidado da Comunidade Chinesa, seja-me relevado mencionar especialmente esta. Trabalhadora activa de séculos, com virtudes de inteligência e bom senso, tem-me dado permanentemente compreensão para o dia a dia do meu governo.
Reconhecia-lhe as qualidades e virtudes quando, durante a guerra, trabalhei em Macau. Hoje, agradeço-lhe a contribuição que nos dispensa para o progresso geral desta cidade.
Sem desejo de progredir, nenhuma orientação no sentido de progresso pode trazer resultados sensíveis. Na província de Macau noto, em todos e bem nítido, esse desejo de progresso.
Termino as minhas palavras pedindo a todos os convidados que me acompanhem num brinde pela saúde de V. Ex.ª e pelas prosperidades da Comunidade Chinesa».
As palavras do Sr. Hó Yin foram traduzidas para português pelo Sr. João José Lopes, chefe da Secção Especial do Expediente Sínico, dos Serviços de Administração-Geral.
Os dois oradores foram alvo de demoradas salvas de palmas de todos os convivas.
Antes do banquete dirigiram-se ao Palácio da Praia Grande numerosas entidades, entre as quais o bispo de Macau, D. Policarpo da Costa Vaz, que, em nome das Missões Católicas, felicitou o comandante Correia de Barros, agradecendo-lhe o valioso apoio e auxílio dispensados às suas actividades; o Conselho do Governo, cujo vice-presidente, Manuel Peixoto Nunes, director da Fazenda, interpretou os sentimentos do Conselho e dos organismos e instituições nele representados; os chefes de Serviços, em nome dos quais usou da palavra o director dos C. T. T., António de Magalhães Coutinho; as direcções da Associação Comercial de Macau, da Associação de Beneficência do Hospital Kiang Wu e da Associação de Beneficência Tong Sin Tong, em nome das quais falou o Sr. Hó Yin, presidente das duas primeiras, felicitando o governador e agradecendo-lhes o impulso dado às actividades comerciais e beneficentes; e um grupo de industriais chineses, que quiseram também associar-me à homenagem, agradecendo ao senhor governador as facilidades concedidas para a instalação de estabelecimentos fabris na província.

quinta-feira, 12 de fevereiro de 2026

Prémio Fundação Jorge Álvares – General Vasco Rocha Vieira – Amizade Portugal-China

A Fundação Jorge Álvares lançou este ano a primeira edição do Prémio General Vasco Rocha Vieira-Amizade Portugal-China. 
O objetivo é incentivar o estudo e a investigação das relações entre Portugal e a República Popular da China, através de Macau, bem como reconhecer as instituições que promovam iniciativas relevantes no sentido de reforçar a aproximação entre as comunidades portuguesa, chinesa e macaense. 
O prémio compreende duas categorias: instituições, a atribuir em anos pares, a começar em 2026; e trabalhos de investigação, a atribuir em anos ímpares, a começar em 2027. O valor do prémio é de vinte cinco mil euros.
Rocha Vieira no gabinete no Palácio do Governo, Praia Grande, Macau
Desenho a lápis criado por IA a partir de fotografia de Rui Ochoa

Objectivo: Homenagear o último Governador de Macau, General Vasco Rocha Vieira, incentivando o estudo, investigação e projetos que reforcem os laços entre Portugal, China e Macau.
Periodicidade e Valor: Prémio anual de 25.000,00€, atribuído alternadamente a instituições (cultura, língua, educação, filantropia) e trabalhos de investigação.
Edição 2026 (Instituições): Focada em entidades que promovam o estreitamento das relações entre as comunidades.
Edição 2027 (Investigação): Tema definido como “Da assinatura da Declaração Conjunta à transferência da Administração Portuguesa de Macau”.
Candidaturas para 2026 (instituições): de 1 de Janeiro a 30 de Junho de 2026.

terça-feira, 10 de fevereiro de 2026

Macau: A Última Transição – Vasco Rocha Vieira (1991-1999)

É apresentado hoje em Lisboa o livro "Macau: A Última Transição – Vasco Rocha Vieira (1991-1999)". Da autoria do historiador Alfredo Gomes Dias, a obra apresenta "as grandes linhas do pensamento e da acção do último Governador de Macau, o general Vasco Rocha Vieira".

Rocha Vieira no gabinete no Palácio do Governo
Foto de capa de Rui Ochoa

De acordo com a editora Guerra & Paz, o livro é "baseado nos documentos pessoais do general Rocha Vieira e nas conversas que o autor com ele manteve, esta obra reflecte o complexo processo de transição da administração de Macau de Portugal para a China, concluído com a cerimónia da transferência em 19 de Dezembro de 1999."
Na obra revela-se "a perspectiva do Governador de Macau sobre a sua acção política, quer nas diversas áreas da administração do território quer nas relações que manteve com os órgãos da República, em Lisboa, e com as autoridades chinesas."
"Macau: A Última Transição" é desde já uma fonte documental "essencial para todos aqueles que se queiram dedicar ao estudo dos últimos anos da presença portuguesa em Macau."

segunda-feira, 9 de fevereiro de 2026

Picturesque Macao: 1926

Há 100 anos era publicado "Picturesque Macao", livro da autoria de "J. Braga" (Jack M. Braga/José Maria Braga) com edição de Henrique Nolasco da Silva e impressão da Livraria Po Man Lau (Largo do Senado, 12). 
Foi escrito em inglês para atrair o público de Hong Kong e turistas que visitassem o território durante um certame que estava em preparação. A obra é ainda valorizada pelas fotografias da época que registam locais emblemáticos como a Porta do Cerco, a Gruta de Camões ou as Ruínas de S. Paulo.
Excerto:
Introduction
Actuated solely by a desire to provide an illustrated handbook with, if I may modestly say so, interesting historical references, I set myself somewhat over a year ago to collect from many sources the meagre notes which are published this day.
I claim nothing of originality in the work: it was first suggested to me by Mr. Charles Gerken, at that time editor of the “Hongkong Sunday Herald”, for publication in his paper, and I have leisurely sought for details regarding the romantic nooks of Picturesque Macao.
Early in August the publishers of this work requested me to furnish the letterpress for a number of pictures intended for exhibition at the Macao Industrial Fair in October, 1926. Though loth to present for public gaze notes but hastily assembled and necessarily incomplete, I decided to offer them for publication, despite inaccuracies and shortcomings, feeling that their deficiences would be overlooked in the practical purpose to which the writer hopes his little work of love will be applied.
There are places which once seen are never forgotten and Macao is one of them. To the jaded spirit of an over-worked body and the tortured nerves of the tired business man Macao offers its priceless possession—an unhurried quiet—an atmosphere of peace.
Tradução/Adaptação:
Introdução
Movido unicamente pelo desejo de fornecer um guia ilustrado com referências históricas interessantes — se assim posso dizer modestamente —, propus-me, há pouco mais de um ano, a reunir de diversas fontes as parcas notas que são publicadas hoje.
Não reivindico qualquer originalidade nesta obra: ela foi-me sugerida pela primeira vez pelo Sr. Charles Gerken, na altura editor do "Hongkong Sunday Herald", para publicação no seu jornal, e tenho procurado pausadamente detalhes sobre os recantos românticos da Macau Pitoresca.
No início de Agosto, os editores desta obra solicitaram-me que fornecesse o texto para uma série de fotografias destinadas a serem exibidas na Feira Industrial de Macau em Outubro de 1926.* Embora relutante em apresentar ao olhar do público notas reunidas apressadamente e necessariamente incompletas, decidi oferecê-las para publicação, apesar das imprecisões e falhas, sentindo que as suas deficiências seriam relevadas perante o propósito prático ao qual o escritor espera que o seu pequeno trabalho de amor seja aplicado.
Existem lugares que, uma vez vistos, jamais são esquecidos, e Macau é um deles. Ao espírito exausto de um corpo sobrecarregado e aos nervos torturados do homem de negócios cansado, Macau oferece a sua posse mais valiosa: um sossego sem pressas — uma atmosfera de paz.
Picturesque Macau
by J. Braga. Edited by Henrique Nolasco Da Silva
Printed and Published by
Po Man Lau, 1926

* A Exposição Industrial e Feira de Macau realizou-se de 7 de Novembro a 12 de Dezembro de 1926 numa vasta área das várzeas de Mong Ha (perto do Templo de Kun Iam Tong) atraindo 290.000 visitantes. Idealizado no governo de Carlos da Maia ocorreu já no governo de Maia Magalhães.

domingo, 8 de fevereiro de 2026

Relatório de Macau em Janeiro de 1863 pelo governo de Portugal

O post de hoje é sobre o "Relatório dos Negócios do Ultramar apresentado à Câmara dos Deputados em sessão de 12 de Janeiro de 1863 por s. exa. o Ministro e Secretario d'Estado dos Negócios da Marinha e Ultramar."
A sessão decorreu no parlamento de Portugal que estava sob o reinado de D. Luís I e o tutelar da pasta era José da Silva Mendes Leal. Na altura o governador de Macau era Isidoro Francisco Guimarães. Terminou o seu longo mandato (iniciado em 1851) a 30 de Janeiro de 1863, sendo sucedido por José Rodrigues Coelho do Amaral, que assumiu o cargo nesse ano e governou até 1866.

Resumo dos Pontos Principais
1. Relações Internacionais e Diplomacia
O Governador de Macau é elogiado por concluir tratados com o Sião (Tailândia), Japão e, mais recentemente, com o Império Chim (China).
O tratado com a China visava estabilizar as "mal definidas relações" do estabelecimento com o império vizinho.

2. Educação e Religião
Seminário de S. José: Houve uma melhoria na instrução com a fusão da escola pública ao seminário, oferecendo cadeiras de Gramática Portuguesa, Latim, Francês, Inglês, Língua Chim e Teologia.
Recursos: O seminário é financiado por rendimentos próprios, fundos escolares (9.000 patacas) e uma loteria anual.
Educação Feminina: Realizada no Recolhimento de Santa Rosa de Lima (Convento de Santa Clara, embora considerada insuficiente para a população europeia.
Missões: Destaca-se a importância do Colégio de Sernache do Bom Jardim (em Portugal) para a preparação de professores e missionários enviados a Macau.
Nova escola estabelecida pelo Barão do Cercal a expensas particulares, destinada à instrução do sexo masculino.

3. Economia e Obras Públicas
Prosperidade Financeira: A receita (249.313 patacas) superou a despesa (180.013 patacas).
Causa da Bonança: Ironicamente, a guerra civil na China (Rebelião Taiping) impulsionou a economia local.
Infraestrutura: Investimentos em vias de comunicação, no Palácio do Governo, a construção prioritária de uma muralha (cortina) para defesa marítima e de um novo quartel (o de S. Francisco).
Segurança Marítima: Encomenda de um navio a vapor na Inglaterra por 70.000 patacas para proteger o comércio.

4. Questões Militares e Sociais
Reforço Militar: Envio de 200 praças do Exército para conter atos de insubordinação ocorridos anteriormente.
Trabalho: Menção à organização do sistema de coolies/cules (trabalhadores braçais chineses), um tema sensível na época devido às condições de trabalho.
Óleo sobre tela com uma vista da baía da Praia Grande em meados do séc. 19


Transcrição:
Macau.
Não tem este estabelecimento decaido da excellente situação em que o deixára o ultimo relatorio, que vos foi presente, e é de esperar que assim prosiga, não sobrevindo eventualidades que não é dado prever. O seu atilado e muito solicito Governador, que já com bom exito concluíra o tratado com Siam e com o Japão, de que tantas vantagens póde auferir o commercio nacional, se quizer aproveita-las, continua a mostrar-se digno de louvor por sua intelligencia e zêlo a bem do paiz. Pelo mesmo funccionario foi ultimamente negociado com o governo do Imperio chim um tratado de amisade, navegação e commercio, para assentar em bases solidas as mal definidas relações d’aquelle estabelecimento com a China, negociação a que estava auctorisado com a antecedencia conveniente, e para que fôra habilitado com os necessarios meios, a fim de aproveitar, como aproveitou, a occasião mais opportuna. D’esse tratado tomareis conhecimento quando pela repartição competente for apresentado ao vosso exame. 
Sobre o estado da instrucção tenho a satisfação de annunciar-vos que melhora sensivelmente, como era muito desejado e para desejar em cidade tão importante e populosa. Depois que ao seminario de S. José se reuniu a escola publica, estabeleceram-se alli cadeiras de grammatica portugueza, de latim, francez, inglez, de lingua chim e de theologia. Para que este estabelecimento possa porém corresponder aos seus fins é ainda indispensavel crear mais cadeiras, para as quaes hão de ir de Portugal os professores, por não haver em Macau sujeitos habilitados para as reger. O seminario, além dos rendimentos proprios, que não são escassos, administra os fundos da escola, que tendo sido de 5:000 patacas estão hoje elevados a 9:000, e recebe o producto de uma loteria que lhe dá annualmente um bonus de 900 patacas. Já vedes portanto que não faltam os recursos para desenvolver alli a instrucção, pelo menos o principal d’ella e o mais consentaneo ao estabelecimento, não se achando já absolutamente descurada a do primeiro grau, como vereis, e sendo ainda possivel, n’este e no segundo, encher lacunas sensiveis, introduzir modificações que systematisem, completar emfim uma adequada organisação. 
D’esta organisação se occupa seriamente o Governo, ouvindo e consultando as estações competentes, como pede a circumspecção em tão grave assumpto. Para a educação do sexo feminino ha n’esta cidade o recolhimento de Santa Rosa de Lima, que se acha estabelecido actualmente no convento de Santa Clara*; prestando bons serviços, mas não bastando á população europea. Estabeleceu tambem o barão do Cercal, a expensas particulares, uma escola para instrucção do sexo masculino, que se abriu ha pouco tempo, e que o Governo julgou dever efficazmente auxiliar, sem todavia prescindir de determinar a fundação de outro estabelecimento de instrucção popular, que effectivamente foi ordenada em 29 de Fevereiro ultimo. N’este logar vem a ponto mencionar-vos o collegio das missões ultramarinas, albergado em Sernache do Bom Jardim, por se tratar de assumpto que tem com elle proximas relações, e porque, recebendo de Macau subsidio annual que vem a constituir uma quota importante da sua dotação, tem com as instituições de instrucção d’aquella cidade communidade de fins e de interesses. Mandou ultimamente este estabelecimento dois professores para o referido seminario de S. José, os quaes estão já leccionando alli com grande satisfação e approvação de todos, e continua preparando diligentemente alguns aspirantes ao estado ecclesiastico, para as religiosas e elevadas funcções que o proprio nome do collegio designa. Como em differentes partes d’este relatorio deixo indicado, tem o Governo extremamente a peito tornar uma realidade as missões ultramarinas, que trata de incitar; e para isso cuida em vigiar e devidamente entender n’aquelle collegio, que, bem organisado, administrado e localisado, póde vir ainda a prestar os grandes serviços de ordem religiosa e moral, que são muito para desejar. 
O estado da Fazenda Publica em Macau prosegue em prosperidade. Tem para esta prosperidade concorrido, entre outras causas, a guerra civil no Imperio chim, guerra a que não é ainda possivel prever termo; e a administração aproveita assiduamente a opportunidade para assentar em bases solidas e permanentes a fortuna do estabelecimento. Foi a receita no anno anterior de 249:313 patacas, e a despeza de 180:013, a saber: 110:108 de despeza ordinaria, e 69:905 de despeza extraordinaria. A encommenda para Inglaterra de um vapor adequado ao serviço especial do estabelecimento, satisfaz as justas instancias do commercio local, e a construcção de um vaso que realise as desejadas condições de força, tonelagem, tirante de agua e lotação, como espero que sairá este, ha de poderosamente concorrer para a segurança do mesmo commercio, e consequentemente para o seu desenvolvimento. 
Pormenor da pintura mencionada
à esq. o fortim de S. Pedro e por trás a residência do governador

Algumas vias de communicação se têem alli construido, e muitos concertos executado no palacio do Governo, cadeia, fortalezas, etc. Fôra auctorisado o Governador a proceder á edificação de um novo quartel**, e por Carta de Lei de 5 de Junho do anno preterito, igual auctorisação foi concedida á Junta de Fazenda para despender no proximo anno economico até á quantia de 20:000$000 réis em obras publicas, entre as quaes figura em primeira linha de urgencia a cortina ou muralha que do lado do mar deve resguardar a cidade. A verba ultimamente applicada a obras publicas em Macau, sem contar a auctorisação acima referida, sobe a 30:077 patacas. O custo do vapor mencionado orçará por 70:000. 
Foram já devidamente requisitadas, e poderão embarcar no proximo Fevereiro, duzentas praças do Exercito, que vão reforçar e completar a guarnição da cidade. Confiada esta guarnição aos cuidados do estimado e experiente official superior, que o Governo ultimamente enviou, não se repetirão os deploraveis actos de insubordinação que o Governador teve recentemente de reprimir com louvavel resolução. 
Diversas providencias de outra ordem, que opportunamente examinareis, têem sido adoptadas, como instantemente convinha á nova phase em que parece destinado a entrar este estabelecimento. Outras disposições de superior importancia, como as que respeitam aos coolies, á procuratura da cidade, e ás attribuições dos consules nos paizes com os quaes foram celebrados os tratados já referidos, apressa o Governo, sem prejuizo da madureza e reflexão com que importa serem predispostas, e confia que dentro em pouco vos serão apresentadas.

* em 1875 passou a ser Colégio de Santa Rosa de Lima
** Demolido o Convento e Igreja de S. Francisco foi construído o Quartel de S. Francisco