quarta-feira, 31 de janeiro de 2018

Antiga muralha na colina de S. Jerónimo


Pormenor da Praia Grande no final do séc. 19 (1880) onde se pode ver o Grémio Militar, o Quartel de S. Francisco e a bataria rasante 1º de Dezembro. Mas o maior destaque vai para o que mal se vê (pelo menos à primeira vista): um troço da antiga muralha da 'cidade-cristã'. Do lado direito, onde está o arvoredo do Jardim de S. Francisco ainda se pode ver de forma parcial um antigo edifício que pertenceu ao convento de Sta. Clara e seria depois ocupado pelas forças militares.
Década 1980
Começa precisamente a partir do canto de S Francisco com a futura Rua Nova à Guia em direção ao hospital Militar de S Januário, na colina de S Jerónimo. Por mais incrível que pareça uma parte deste troço da muralha ainda lá está, servindo de separação entre os terrenos do hospital e os que foram concessionados para a construção de casas ao longo da Estrada de S. Francisco. Em cima, junto ao Hospital, foi demolida para terraplanar o local, existindo um relatório sobre o assunto elaborado pelo projectista e encarregado da obra, o Capitão de Infantaria graduado Henrique Augusto Dias de Carvalho (um dos fundadores do Grémio Militar em 1870), fundador da Lunda, cidade que viria a ter o seu nome, e grande estudioso e escritor sobre aquela parte do Nordeste de Angola.
Planta de meados do séc. 17 atribuída a Barreto de Resende (a vermelho as muralhas)
No final do séc. 18 a cidade cristã, onde viviam os portugueses, estendia-se deste o portão da muralha na Rua do Campo, a norte, ao sopé da Colina da Penha, a sul. As casas distribuíam-se densamente por toda esta área, ao sul da Colina da Penha, incluindo a Colina da Barra. Subsistia a paisagem natural ao sul da Colina da Penha, em que campos e aldeias se entrelaçavam. Ao norte do portão da muralha, na Rua do Campo, ficava a área onde os chineses se aglomeravam. Campos cultivados bem ordenados ocupavam a parte central desta área fora da cidade. A Ilha Verde, que emergia do mar, aparecia isolada. A antiga Porta do Cerco (à esquerda na imagem) constituía um símbolo importante na definição do território de Macau.
Parte da antiga cerca do Convento de Santa Clara na rua Nova à Guia (acesso ao colégio de Sta. Rosa); imagem do séc. XXI

domingo, 28 de janeiro de 2018

Largo do Senado e Praia Grande: final década 1960

Postal ilustrado de Macau no início da segunda metade da década de 1960
Pode ver-se em primeiro plano parte do Largo do Senado numa perspectiva tomada a partir do Hotel Central - com os Correios ao centro e vista parcial da Santa Casa da Misericórdia à esquerdal; ao fundo, ao centro, o início da construção do Hotel Lisboa por volta de 1967; destaque ainda para o edifício Rainha D. Leonor, o Liceu (vê-se parte do ginásio) e a Escola Comercial cuja inauguração acontecera pouco tempo antes, em 1966. Em termos toponímicos, a Travessa do Roquete fica do lado esquerdo e a Av. Almeida Ribeiro do lado direito.

sábado, 27 de janeiro de 2018

A moradia Skyline

Segundo a arquitecta Ana Tostões, "A moradia Skyline é o único caso de vivenda moderna concebida de acordo com volumes cúbicos, brancos e de recorte preciso. Baixos‐relevos de gosto art déco valorizam este conjunto singular, onde a expressão moderna é assumida com radicalidade."
O arquitecto José Manuel Fernandes considera a moradia como "das mais exemplares do desenho purista do modernismo".

 Perspectiva actual (séc. 21) na Estrada D. João Paulino.
Concebido pelo arquitecto M. M. Creig, o edifício foi construído em 1934 e enquadra-se na corrente modernista.

sexta-feira, 26 de janeiro de 2018

A imprensa de língua portuguesa no Oriente

A obra "A imprensa de língua portuguesa no Oriente", da autoria de José Augusto dos Santos Alves é uma edição da Biblioteca Nacional de Portugal, com o apoio da Fundação Oriente, que será disponibilizada este mês.
Através da análise do percurso dos jornais portugueses – O Portuguez na China, O Procurador dos Macaistas, O Solitario na China, A Aurora Macaense, a Chronica Constitucional de Goa, o Echo da Lusitania, O Encyclopedico – Jornal d’Instrucção e Recreio, e O Investigador Portuguez em Bombaim –, nas terceira e quarta décadas do século XIX, traça-se não apenas a história da imprensa periódica de Macau, Goa e Bombaim, e dos seus posicionamentos políticos e sociais, como a dos próprios espaços geográficos em que se inserem.
Segundo o autor, a obra visa "caracterizar e avaliar as conexões entre ideias, imprensa e poder, entre comunicação e informação, e as estratégias seguidas no espaço geográfico nacional, ultramarino incluído, a partir, no caso em apreço, de uma fonte primordial de pesquisa: o periodismo de língua portuguesa no Oriente no período mediado entre 1835 e 1845".

Nota: Quando os navegadores portugueses inauguraram a rota marítima entre a Europa e o Oriente levaram consigo a língua portuguesa que aos poucos ganhou estatuto de língua comercial na costa africana e em alguns portos do Oriente, nomeadamente em Macau. Além do comércio, os portugueses foram os primeiros a promover a difusão do cristianismo pelas regiões onde passaram levando consigo missionários jesuítas, franciscanos, dominicanos que tiveram um papel decisivo na difusão da língua portuguesa.

quinta-feira, 25 de janeiro de 2018

2018 é o Ano da Gastronomia de Macau

Sabia que 2018 é o Ano da Gastronomia de Macau?
Durante todo este ano Macau celebra a sua recente designação como cidade membro da Rede das Cidades Criativas da UNESCO, na área da gastronomia, com inúmeras actividades e iniciativas.A propósito do tema recordo hoje uma edição de 1986 intitulada "Petisquera saboroso di Macau" (em português e inglês) da autoria da Direcção dos Serviços de Turismo de Macau que reúne cerca de duas dezenas de receitas da gastronomia macaense apresentadas no II Concurso de Cozinha Macaense em 1985.
"A riquíssima cozinha tradicional de Macau é fruto de uma experiência culinária, aperfeiçoada e apurada ao longo de vários séculos. Apesar da influência predominante das cozinhas Portuguesa e Chinesa, a culinária macaense poderá ser considerada também como uma das mais internacionais da Ásia, devido à hibridez dos seus ingredientes, alguns dos quais tiveram a sua origem nas antigas possessões portuguesas de Goa e Malaca. Um doa pratos mais populares da cozinha macaense é a «Galinha Africana», que, por exemplo, não sendo de Portugal nem chinês, mas oriundo dos antigos territórios portugueses em África, foi adaptado aos paladares distintos desta cozinha, passando a ser exclusivo de Macau."
Tendo por base este livro foi ainda publicada uma colecção de vários postais ilustrados com algumas das receitas do livro. Voltarei ao tema muito em breve.
Exemplo da receita de Lacassá de Fátima Nantes:
Ingredientes: Farinha de arroz «Mai Fan»: q.b.; Porco fumado: q.b.; Ovos mexidos: q.b.; Gengibre doce vermelho: q.b.; Rebentos de feijão: q.b.; Sal: q.b.; Pimenta: q.b.
Preparação:
Põe-se em água fria a massa de arroz até a amolecer. Corta-se depois em fios pequenos e deixe escorrer muito bem até perder toda a água. Corte igualmente em tiras finas a carne de porco fumado, ovos mexidos, gengibre doce vermelho e passe-os num tacho com óleo quente juntando os camarões, os rebentos de feijão, uma colher de chá de sal e um pouco de pimenta. À parte, frite em óleo aquecido alho bem picado. Junte-lhe a massa. Adicione os elementos já preparados e deixe a fritar durante cerca de cinco minutos.

quarta-feira, 24 de janeiro de 2018

"O Jantar Chinês" por Maria Ondina Braga


Não sei se os meus amigos já ouviram falar do Porto Interior de Macau. É como se fosse uma ou­tra cidade a balouçar no rio das Pérolas. Barcos pe­quenos e barcos grandes, ali, imensos, muito chegados uns aos outros, e as pessoas que lá vivem avançam de barco para barco como nós passeamos pelas ruas. Os barcos pequenos chamam-se sam-pans, que quer dizer três-tábuas, onde se abrigam famílias inteiras, e estão presos com varas de bam­bu enterradas na lama para que os ventos do tufão não os afundem. E os grandes, chamados juncos, são os que vão à pesca.
Ora bem, quando eu vivi em Macau, há mui­tos anos já, nos sam-pans amontoavam-se adultos e crianças quase uns por cima dos outros. E os juncos que, embora fossem barcos de pesca, serviam tam­bém de casa aos pescadores, eram conhecidos por fân-siuns, e tinham largueza.
Nesse tempo, no entanto, em Macau, todos os barcos navegavam à vela. Velas de pano remen­dado, cor de ferrugem, cor de lodo e até pretas. De qualquer modo, bonito ver essas velas desfraldadas que pareciam leques gigantes, rio fora, até ao meio do mar. Uma vista verdadeiramente extraordinária, sim, o Porto Interior, mas com um ar de velhice e de pobreza. Que nos dias de hoje é diferente. Hoje em lugar de velas, os barcos, têm máquinas a va­por.
Lembro-me de que me vieram lágrimas na primeira vez que visitei esse porto de abrigo. Numa pequena embarcação, junto ao cais, uma velha muito velha, com um menino ao colo, chupava um comprido cachimbo de água. Subiam rolos de fumo de minúsculas chaminés de lata. Num junco, ao largo, salgava-se peixe. E então um barco-loja carregado de mercadorias: sapatos de pano, te­cidos, tachos, tigelas, bules para o chá, cestos de palha de arroz, chapéus de fibra de bambu. Barco, portanto, para fazer negócio. E para que a gente do rio não precisasse de ir à cidade comprar o que lhe fazia falta. Também outro barco, este, restaurante, a cheirar a banha de porco, a picantes e a fritos. E à proa um chinês gordo a mexer com um pau novelos de massa, que em chinês se diz min, e que fer­viam num caldeirão com chouriço-china. Era a sopa-de-fita, a sopa-de-longa-vida, que até continha miúdos de galinha ou de pato. Esse barco-restaurante movia-se igualmente entre os outros, servindo, de onde em onde, por sobre a amurada, uma tigela de canja. Ou arroz chau-chau. Ou um frasco de tau-fu-mui, a que os portugueses chamavam queijo chinês. E cartuchinhos de iau-ii, choco frito com piri-piri, ainda quente, e uma colherada de molho.
Foi então que descobri, aninhado à ré de um sam-pan, um menino a desenhar com um pincel fino os caracteres da sua língua. Entardecia. O sol poente punha na cabeça do rapazinho uma chama de ouro.
Atravessei, pois, uma prancha e, em seguida, vários barquinhos, até chegar perto dele. Atento ao trabalho, porém, ele não deu por mim. A água ma­rulhava à nossa volta, escura, limosa. Uma mulher, a dona do barco em que eu me quedara, perguntou-me:
- Que quer daqui? 
Tinha uma cara larga, castanha, mal-humorada. Mostrei-lhe uma moeda:
- Vende-me esse periquito?
Foi a primeira coisa que me lembrou. Recea­va que ela me mandasse embora e não queria, de modo algum, partir sem falar com o pequeno. A verdade é que eu o conhecia do colégio. Pertencia à escola masculina, chamava-se Yu, que em português significa jade, uma pedra oriental muito preciosa e de cor verde. A mulher abriu os lábios grossos num sor­riso: - Com certeza!
Estendia a mão para o dinheiro. Escancarou depois a gaiola de vime, tirou o pássaro, entregou-mo.
O bichinho, assustado, tremia na palma da minha mão, sem tentar fugir.
Súbito, um barco, chocando com o nosso, fez-me desequilibrar. Abracei-me à mulher que ria. O passarinho, esvoaçando, foi pousar no ombro do rapaz, no barquinho ao lado.
E Yu viu-me.
- Sim-saml — gritou (sim-sam quer dizer «professora»).
E no seu português meio chinês, perguntou-me o que é que eu fazia ali.
- Vim ver-te! — respondi.
Yu mostrou os dentes todos num jeito de agrado.
- Oh, entre para a nossa casa! Para que com­prou a A-Mui o periquito? Eu podia dar-lhe um. Começou a mostrar-me o barco. Ao centro, debaixo da cobertura de colmo em forma de túnel, o quarto dele e do avô. À proa, a cozinha, a capoei­ra com duas galinhas, uma gaiola de periquitos, um canário, o casinhoto do cão. À ré, o lugar onde ele estudava e onde recebia as visitas. O sam-pan inteiro não tinha mais de três metros. A mobília do quar­to de dormir era uma esteira no chão. Na sala das vi­sitas havia um banquinho de bambu onde Yu me convidou a sentar. Entretanto a noite caíra. Yu apressou-se a acender o candeeiro de querosene e a ferver o chá. Falava sempre: que surpresa! O avô devia estar a chegar e ia gostar de me ver ali. Enquanto a água aquecia, chamou o cão e obrigou-o a fazer habilidades diante de mim. De­pois, voltando ao periquito:
- Comprou-o caro, não? A-Mui só quer di­nheiro. Tem gaiola para ele? Posso fazer-lhe uma. Gosta de cana ou de fibra de palmeira?
- Como quiseres. Igual à tua, que é bonita. Eu pago-te.
- Ora, eu não sou como A-Mui...
Baixou a voz. A nosso lado, a vizinha, debru­çada do barco, lavava na água turva o arroz do jan­tar num cesto de palha fina.
O pequeno foi guardar a minha ave na gaio­la dele, para que não fugisse. Em seguida apurou o ouvido.
- Oiço a campainha do sam-lun-ché do avô.
Sam-lun-ché é um meio de transporte usado em Macau e puxado por um chinês numa bicicleta com três rodas. Eram horas da ceia. Yu disse: - Sim-sam, janta connosco, sim? 

E logo o avô apareceu. Este também era do meu conhecimento. Quantas vezes não me levara ele a dar uma voltinha nas noites de estio? Era um ve­lho alto e magro, de cara e cabeça sem pêlo, boca larga, maçãs do rosto quadradas, gestos ágeis como se fosse jovem. Ao ver-me, o velhote mostrou-se ainda mais espantado do que o moço.
- Sim-sam aqui?
O melão da sua cabeça subia e descia em cum­primentos: - Yu! Não sabes como se recebem as pessoas? O moço foi buscar o incensador. O ancião desculpava-se: - Cheira a sujo... Maré baixa. Muita popu­lação.
Dentro em pouco o perfume purificava o ar e tomávamos chá. O incensador era um Buda de grés, e o fumo aromático passava por debaixo das pernas dobradas, gordas, do deus que tinha as mãos pousadas nos joelhos. O velho foi à cozinha. Do banquinho onde estava sentada descobri, no tecto do quarto de dormir, um Cristo de barro. - É teu, Yu?
- Sim, é meu. Fui eu que o fiz.
O avô voltava com um tabuleiro com três ti­gelas de arroz, hortaliça cozida, um ovo na minha tigela. Os dois sentaram-se no chão.
- Cozo sempre a arroz de manhã, antes de ir para o trabalho — explicou o avô — e agora é só aquecê-lo. Quanto à hortaliça, são rebentos de bambu. Cinco minutos abafados para ficarem tenros.
- Por que gastou um ovo comigo? — per­guntei. — Vim dar-lhe despesa.
- Oh, não! Para que queremos as galinhas se não para as visitas ou para os dias de festa?
A Lua subia por trás das ilhas da China. O rosto de Yu e do avô pareciam talhados em marfim. O canário começou a cantar. Era um som sua­ve e trémulo a que se juntava outro, também deli­cado, de mulher, algures.
- Nunca comi tão bem na minha vida, ami­gos! — disse eu, ao terminar.
Eles sorriram, mudos. Os meus pés calçados tocavam com intimida­de os pés deles, nus e cruzados, como o Buda. O perfume do incenso enchia tudo. Parecia que a própria Lua o aspirava, encantada. Yu levantou-se, foi pôr mais arroz numa tigela, chamou o cão, deu-lhe de comer. O velho sorvia goladas de chá. Oferecia-me mais. Era chá de jasmim.
- Yu — chamei —, guarda o periquito para ti. Só o comprei para poder chegar até aqui, afinal.
Oh, não, sim-sam. Vou fazer-lhe uma gaiola e levo-lho qualquer dia dentro dela.
O avô aprovou. Era bom ter asas em casa. Um passarinho dava sorte. A lua, agora dourada, boiava no chá, resplan­decia nos últimos fumos do incenso, brilhava nas faces pálidas de Yu e do avô, transformava as cinzen­tas águas do rio num lago de luz.
Maria Ondina Braga in "O Jantar Chinês e outros contos"

terça-feira, 23 de janeiro de 2018

Evocar Maria Ondina Braga, 15 anos depois

“Descobrir Maria Ondina Braga” é o título duma oportuna exposição biográfica que a Biblioteca Lúcio Craveiro da Silva do Museu Nogueira da Silva, em Braga, organizou no corrente mês (que é o do seu aniversário) para relembrar aquela escritora solitária e sóbria que cruzou culturas e percorreu espaços da memória lusa, flutuando entre o ocidente e o oriente e sentindo sempre o apelo da partida e o desencanto da chegada. Depois de Angola e da Índia (Goa), passou alguns anos entre nós, como professora do Colégio de Santa Rosa de Lima, na primeira metade da década de 1960. Também foi leitora de Português em Pequim e tradutora de obras marcantes de grandes vultos da literatura universal. Maria Ondina Braga (1932 – 2003) teria feito 85 anos em 2017 e em Março próximo completam-se 15 anos que embarcou na sua derradeira e definitiva viagem.

Embora naturalmente muito reservada, ainda a conheci nesse tempo em Macau, quando frequentava os últimos anos do Liceu. Todavia, só em Lisboa, anos volvidos, já depois do lançamento dos seus primeiros livros (“Eu vim para ver a Terra”, 1965; “A China Fica ao Lado”, 1968; “Estátua de Sal”, 1969; e “Amor e Morte”, 1970) e quando ela regressou a Macau, em 1991, para assistir à apresentação da 4.ª edição de “A China Fica ao Lado” e da primeira edição em chinês deste seu livro de leitura indispensável, pudemos falar mais demoradamente, sobre a cidade ainda muito provinciana que ela aqui conheceu e uma China a sair do pesadelo comunista para entrar na modernidade. E foi-nos proporcionado um novo e último contacto quando saiu do prelo, no mesmo ano, “Nocturno em Macau”, obra que também merece uma versão chinesa. (...)
Ao escrever estas linhas, lembrei-me de procurar nas minhas estantes, entre milhares de papéis mal arrumados, uma sentida homenagem póstuma que lhe foi prestada por Ana Maria Amaro, minha saudosa professora de Geografia no Liceu de Macau e depois catedrática no Instituto Superior de Ciências Sociais e Políticas (ISCSP), entretanto também falecida. Desse texto que ela me facultou (reformulado e publicado mais tarde no volume VII da série de “Estudos sobre a China” do ISCSP (2005), achei por bem reproduzir algumas passagens que contribuem para um melhor entendimento da personalidade da escritora:
“Conheci a escritora Maria Ondina Braga em Macau. A década de 1960 ia no seu princípio quando ela chegou. Naquele pequeno meio, onde todos os portugueses europeus se conheciam, imediatamente se fez notar. Chegara alguém estranho à terra. Alguém que foi para ver a terra, tal como o registou no seu primeiro livro sobre aquele território, publicado poucos anos depois.
Quem era? No círculo limitado das famílias de militares, chefes de serviço, meia dúzia de professores do Liceu, além de alguns membros da comunidade local de luso-descendentes, ninguém sabia. Chegara uma rapariga. Nova na terra. Morena, alta, bonita, cabelos lisos muito negros. Estava alojada no Colégio de Santa Rosa de Lima. Quem era? Donde viera? Fazer o quê? Ninguém sabia responder.
Depressa, essa mulher sozinha fez algumas amizades. Seriam amizades? E deixou-se mergulhar naquela terra desconhecida, ainda nos anos 1960 exótica terra mestiça e feiticeira. Ela ia para ver a terra. E viu-a, em pouco tempo, como poucos a viram mesmo em muitos anos de estadia.
Vivia no mundo austero das irmãs franciscanas onde as outras professoras, todas chinesas, comunicavam com ela em inglês. Fora desse mundo dava-se com outras jovens portuguesas, algumas delas professoras no Liceu local Infante D. Henrique. Eram minhas colegas naquele Liceu. E eram elas que comentavam as suas saídas nocturnas, as suas idas a Coloane, os flirts com os oficiais solteiros da guarnição. Aquele terrível malinguar de Macau.
Maria Ondina, porém, nunca se integrou nesse círculo de falsas amigas. Ouviu, sim, das colegas chinesas, histórias dum Macau profundo como a da casa assombrada: ‘a porta abriu-se, uma mão a abrir a porta, uma mão sem braços’ (Nocturno em Macau, p. 99). Também conheci essa casa; casa antiga, no ‘Largo das três luzes’, nos limites de Mong Há. Todos, ali, mudavam de passeio. Era uma ‘malissombrada’, um lugar ‘mofino’, no dizer da terra.
Nos seus livros perpassam não só essas cenas, mas também muitas outras que preenchiam as conversas das pessoas desocupadas. Os tenentes da guarnição, o ‘Solmar’, os restaurantes chineses mais pequeninos são imagens que perpassam nas páginas desse seu livro.
Aliás, neste livro, que a Maria Ondina me ofereceu, ela escreveu uma dedicatória onde o considera ‘modesto trabalho meu de ficção’. Eu, que vivi Macau nesse período, posso dizer que a ficção neste livro é apenas uma roupagem mais ou menos transparente que envolve um corpo bem real. Com nomes diferentes surgem nas suas páginas, personagens que eu conheci, tais como cenas e episódios a que assisti ou que ouvi contar. E no fundo de toda aquela fluída narração emerge a sua paixão pelo chá, a sua imensa solidão, a sua nostalgia e o seu desejo de encontrar o lugar certo para viver, que nunca era aquele onde ela se encontrava. (…)
Reencontrámo-nos em Lisboa na Embaixada da República Popular da China nos finais da década de 1970. Foi uma redescoberta e o início duma sincera amizade. Maria Ondina, diante duma chávena de chá, (eram assim os nossos convites para as nossas tardes de conversa) falava da China, de Macau e dos livros mais recentes que haviam saído bem como dos seus autores preferidos.
Alguns textos, pequenas crónicas dispersas, pouco conhecidos, são, aliás, o espelho da sua eterna melancolia de que nunca conseguiu libertar-se. Julgo que desistiu. Era a escrever que procurava sofrer menos a sua angústia de se sentir tão só e por vezes tão mal compreendida e tão mal-amada.
É habitual ouvir dizer que quem sofre traduz melhor em versos o que sente. E a Maria Ondina era uma poetisa sensível. Aliás, essa poesia reflecte-se em muitas páginas da sua obra em prosa. Mas também fez versos. Versos de que não gostava de falar por não os considerar ao nível da sua prosa. Recusava considerar-se poetisa. Apenas ficcionista. Mas a verdade é que é precisamente nesses seus poemas que toda a sua amargura se traduz, tal como nalguns textos inéditos que talvez não tenha querido nunca ver publicados. Como eu entendo esses textos! São conversas connosco, com memórias, com recordações dolorosas, com uma interrogação permanente. Numa busca de respostas nunca encontradas, com a angústia dum vazio que nada consegue preencher.”
Maria Ondina Braga foi distinguida com importantes prémios literários. Em 1994, a Câmara Municipal de Braga, sua terra natal, concedeu-lhe a Medalha de Ouro da Cidade e, em 2005, instituiu um prémio literário com o seu nome. O Museu Nogueira da Silva criou nas suas instalações o Espaço Maria Ondina Braga. Um colóquio internacional foi-lhe dedicado em 2016, de que resultou o volume de ensaios “Maria Ondina Braga. (Re)leituras de uma Obra”, coordenado por professores da Universidade Católica Portuguesa e da Universidade do Minho. Em 2017, uma semana do livro de Macau em Lisboa incluiu uma sessão dedicada à escritora na Biblioteca Nacional, muito bem protagonizada pelo advogado e escritor José António Barreiros. Chegou-nos, entretanto, a notícia de que está em preparação a reedição da sua obra completa.
Texto da autoria de Jorge Rangel publicado no Jornal Tribuna de Macau, 22.1.2018
Mais informações sobre Maria Ondina Braga aqui.

domingo, 21 de janeiro de 2018

Carlos Coelho: 1953-2018

"Quim nunca si cunhêce Macau na tempo antigo, senti qui nádi pódi sábi qui laia di terra sã Macau." Carlos Coelho
Texto e foto: Hoje Macau 22.01.2018
O macaense e professor Carlos Manuel Coelho morreu na sexta-feira, com 64 anos, após se ter sentido mal em casa. Conhecido pelo talento com que falava patuá, a devoção à Igreja e as qualidades culinárias, os membros da comunidade macaense, ouvidos pelo HM, recordam o homem "carinhoso", "afável", bem-disposto. Filho de pai português e mãe chinesa, Carlos Coelho nasceu em Macau, no ano de 1953, e seria no território que passaria toda a infância e adolescência. Enquanto professor, tendo leccionado na antiga Escola Luso-Chinesa, que ficava situada junto ao Jardim Vasco da Gama, Carlos Coelho integrou um dos primeiros grupos de professores do ensino primário de Macau que foram enviados para Portugal, com o objectivo de terem formação pedagógica. Isto numa altura em que havia falta de quadros qualificados para ensinar português, como recorda o médico e amigo Fernando Gomes, que leccionou a tempo parcial sobre a orientação de Carlos Coelho. "Apesar dele ser cerca de 13 ou 15 anos mais velho do que eu, sempre nos demos muito bem, enquanto mantivemos um contacto próximo. Eu na altura também dava aulas em part-time de português na Escola Luso-Chinesa, onde ele ensinava, e recordo que as orientações que ele nos dava eram muito importantes", afirmou Fernando Gomes, ontem, ao HM. "Era muito bom professor. E na altura foi um dos primeiros professores locais que foram enviadas para Portugal com o objectivo de aprenderem a pedagogia para ensinar as crianças", recorda. Memória semelhante foi partilhada por Rita Santos, presidente do Conselho Regional da Ásia e Oceânia do Conselho das Comunidades Portuguesas: "Era uma pessoa muito atenciosa, e sabia-se que os alunos gostavam muito dele e das suas aulas", disse, ao HM.
Característica igualmente marcante de Carlos Coelho era a forma como conseguia expressar-se em patuá, com uma grande fluência. Foi também por este motivo que o professor foi um dos escolhidos para recitar na reabertura do Teatro D. Pedro V, em Patuá, durante a visita do então presidente português Mário Soares, em Outubro de 1993. Também nesse ano que surge o grupo de teatro Dóci Papiaçám, com vários fundadores, como Mi-guel de Senna Fernandes, o próprio Fernando Gomes, entre outros. "Quando surgiram os Dóci Pa-piacám, ele era o actor principal e ficou conhecido como uma pessoa com grande talento para o teatro. Recordo-me que participou durante três ou quatro anos de forma activa nos Dóci Papiacám", contou Fernando Gomes. Uma característica reforçada por Rita Santos: "Contribuiu muito para a preservação do Patuá, que ele gostava muito de falar, depois era simplesmente um actor natural", apontou. Além disso, enquanto membro dos antigos Serviços de Educação, onde estava ligado à área cultural, dedicou-se a dirigir o Rancho Folclórico, português. Ao mesmo tempo, dançava em part-time no restaurante Portas do Sol, no Hotel Lisboa, o então salão de festas da elite português ligada ao Governo.
Com o aproximar da Transferência da Soberania, Carlos Coelho optou por ir para Portugal, mas acabaria por regressar no início dos anos 2000. Antes, foi o principal entrevistado da TVB de Hong Kong, num programa sobre as perspectivas da comunidade portuguesa no pós-transição. Um programa que filmou o professor a deixar Macau, com as lágrimas nos olhos. "Como macaense que era gostava muito de Portugal e era patriótico, apesar de também gostar da China. Quando se mudou de bandeira, ele optou por ir para Portugal. Só que depois, acredito que não se tenha adaptado bem e acabou por regressar", lembra Jorge Fão, presidente da mesa da Assembleia-Geral da APOMAC. No entanto, Fernando Gomes acredita que mudança foi principalmente motivada pelas saudades do território, que amava: "Não acredito que ele tivesse regressado desiludido com Portugal. Ele voltou para a terra onde tinha nascido, crescido e vivido. Também não nos podemos esquecer que do clima de apreensão e incerteza com que se encarava a transição", frisou o amigo. "Regressou quando as coisas já estavam mais estáveis. Acho que foi o amor por Macau que falou mais alto, porque foi algo que ele nunca esqueceu. Em jeito de brincadeira até lhe cheguei a dizer que o amor pela ‘Mátria’ tinha sido maior do que o amor pela Pátria", acrescentou.
Quando regressou a Macau, Carlos Coelho apostou nas suas raízes e abriu um restaurante de comida macaense na zona do NAPE. Um local que ainda hoje é recordado pela qualidade da comida, apesar de ter estado aberto durante um pequeno espaço de tempo. "Era descendente de uma família que tinha muito jeito para a culinária e era por isso que ele também fazia comida muito boa. Era comida macaense e o espaço tinha muito fregueses. Nunca percebi porque fechou", recorda Xeque Hamja, membro da comunidade local.
"Ele era muito pegado à cultura macaense e tentava sempre valorizá-la, além de também valorizar as culturas portuguesa e chinesa. O restaurante oferecia comida macaense com elementos das outras culturas, mas não durou muito tempo", explica Jorge Fão.

Nota do autor do blogue: De acordo com Gonçalo Xavier a mãe de Carlos Coelho era macaense e não chinesa.

sábado, 20 de janeiro de 2018

Exemplos de "consciência ecológica" no século XIX

No Boletim da Província de Macau e Timor, de 15 de Fevereiro de 1883 - Suplemento ao nº 6, Constantino José de Brito assina o Relatório da Direcção das Obras Públicas da Província de Macau e Timor relativo ao Ano de 1882, datado de 30 de Janeiro de 1883. Ali pode ler-se:
"1882 - "O principal jardim da cidade é o de S. Francisco, no fundo do qual existiam os restos duma cascata a desmoronar-se, e que foi reconstruída, dando-se uma nova disposição, tendo também sido substituído na casa do guarda o madeiramento do telhado, que tinha sido destruído pela formiga branca. O jardim é cercado duma balaustrada, que também foi reparada.
Como o prédio em que o Tribunal da Procuratura actualmente funciona tinha vizinho ao jardim de S. Francisco um quintal que deixaria de ser aproveitado, apesar do governo satisfazer ao mosteiro de Sta. Clara a renda correspondente, trata-se de o reunir ao jardim para recreio do público, por isso que no quintal existem algumas árvores frondosas, cuja sombra deve ser bastante agradável, na estação calmosa. E como o jardim de S. Francisco não tem árvores desenvolvidas, mas apenas arbustos e flores, deve tornar-se digno de muito apreço o acrescentamento que vai ter e ainda seria para desejar que se lhe acrescentasse um canto do largo de S. Francisco, onde se acham uns casebres, e de modo que ficassem incluídas no jardim as duas copadas e formosas árvores que ali existem."

O Jardim de S. Francisco é tido como primeiro jardim público de Macau. Na época, existiam outros, casos do jardim do Chunambeiro, do jardim particular da "horta da Mitra, jardim da Flora e do Jardim da Gruta de Camões.
Em 1881 Tancredo Caldeira de Casal Ribeiro, "agrónomo do districto de Aveiro" é nomeado para exercer o "logar de agronomo da provincia de Macau e Timor”.
Tancredo Caldeira do Casal Ribeiro (1856- ?) licenciou-se em 1897 pelo Instituto Geral de Agricultura, em Lisboa, e exerceu funções em Macau entre 1881 e 1886, tendo sido também professor no Seminário de S. José.
Entre os anos de 1883 e 1887 foram mandadas plantar pelo Governador Tomás da Rosa 60.000 árvores em Macau, a maioria na colina da Guia. Ora se tivermos em conta o recenseamento geral da população, efectuado a 31 de Dezembro de 1878 - "68.086 habitantes europeus, chinas e de outras nacionalidades" - dá praticamente uma árvore por cada habitante.
Lúcio Augusto da Silva assina o Relatório do Serviço de Saúde Pública na Cidade de Macau, Relativo ao Ano de 1882, datado de 30 de Março de 1883 publicado no Boletim da Província de Macau e Timor onde se inclui um relatório acerca da arborização de Macau pelo agrónomo Tancredo Caldeira do Casal Ribeiro: 

"(...) Confiado este ramo de serviço desde há muito à direcção das obras publicas, era no orçamento d'esta repartição que estava consignada a verba para esses trabalhos, verba mesquinha e insufficiente, englobada na dos jardins publicos e portanto sujeita a ficar mais reduzida, sempre que estes reclamassem qualquer obra de maior vulto. N'estas circumstancias, para evitar difficuldades de escripturação, continuaram as despezas a ser feitas por via d'esta repartição, sendo as folhas de trabalho processadas semanalmente pelo systema ali seguido. A escacez da verba applicada á arborisação não tinha permittido que até aqui se desse o desenvolvimento que merece um ramo tão importante de serviço, porque em Macau não basta arborisar as estradas, é mister tambem povoar as montanhas agora aridas e escalvadas e que tão feio aspecto apresentam ao viajante que se dirige a Macau. É tristonha e desagradavel a impressão que se sente ao entrar na rada e mais tarde no porto quando se vêem alvejar as casas destacando entre as pequenas montanhas nuas, manchadas de espaço a espaço pelo saibro avermelhado. Foi essa a impressão que senti ao entrar pela primeira vez n'esta cidade, e dei-me por feliz, quando encarregado d'estes trabalhos, por poder contribuir, na acanhada proporção dos meus recursos, para o aformoseamento d'essas montanhas que cobertas de vegetação poderão transformar esta colonia em verdadeira Cintra do sul da China. (...)
Assim, ficamos a saber que "plantaram-se por duas vezes em julho de 1883 e março de 1884 as seguintes especies.
Pinus sinensis - 20,000 pés; Cupressus japonica - de cada uma 300 pés; Aleurites triloba;
Ailanthus glandulosa; Poinciana pulcherrima; Laurus camphora; Ficus elastica; Erytrina; e
Morus alba - 3,000 pés." 

Macau no século 19
Augusto Pereira Tovar de Lemos no Relatório do Serviço Médico da Província de Macau e Timor, referido ao ano de 1885, datado de 1 de Fevereiro de 1886 com publicação no Boletim da Província de Macau e Timor escreve:
"A utilidade que resulta da arborisação, o elevadíssimo papel que ella assume na hygiene publica é tão conhecido e demonstrado que me abstenho de demorar, repetindo o que já é do dominio publico. Basta que diga que breve se devem sentir os beneficos efeitos da cultura emprehendida pelo Ex. mo Sr. Governador.
O arvoredo que, tirado d'um viveiro da quinta da Flora cuidadosamente tratado foi transplantado para varios pontos da cidade e em especial para a cordilheira que por E circunda o grande largo denominado Flora, já hoje se apresenta viçoso e bonito. A cultura é em larga escala, e entre os cinco ou seis annos lucrarão a hygiene e o aformoseamento da cidade. Aquelles montes que pela sua nudez, pelo seu granito, e rochas em pontos a descoberto impressionavam tristemente o viajante, aqueles montes que pela sua natureza mais convidavam a trabalhos de dynamite, e mais pareciam proprios a fornecer pedra para construção de casas, do que para alimentar em seu seio um vegetal qualquer, converter-se-ão em formosos cerrados bosques. O estrangeiro que visitar Macau receberá as mais gratas impressões."
Veja-se outro exemplo de "consciência ecológica" no século 19. Em 1871 é publicado pelo Leal Senado O Código de Posturas do Leal Senado e a Conservação das Árvores: 
Artigo 1. ° É prohibido prender, ou atar qualquer cousa ás arvores, que estiverem em terreno publico, ou subir a ellas; embora d'isso não provenha damno immediato, punivel pelo artigo subsequente: sob pena de $1 de multa. Art. 2. ° É igualmente prohibido varejar as mesmas arvores, atirar-lhes pedras, páus, ou cousas semelhantes, quebrar-lhes alguma haste ou vergontea, ou finalmente deterioaral-as por qualquer outro modo: sob pena de $2 de multa. Art. 3. ° Incorre no quintuplo da pena comminada no artigo antecedente, quem cortar, ou arrancar pela raiz qualquer d'essas arvores, não estando munido de licença da camara; ou quem tendo esta licença não cumprir todo, ou em parte as condições, com que ella for concedida.

sexta-feira, 19 de janeiro de 2018

Os cules dos "jerinxás"



No muito do quotidiano de Macau nas décadas de 1930 e 1940 registado pelo fotógrafo Neves Catela estão os jerinxás e os seus condutores (primeira e última foto deste post).
Criado no Japão, o nome original era jin–riki–gá, que significa homem-força-carro. Depois os ingleses romanizaram o termo e de seguida os portugueses adoptaram a designação jerinxá. Com as evoluções tecnológicas introduzidas no meio de transporte os ingleses viriam a eliminar o elemento jin (homem) passando a rick-shaw e os portugueses a riquexó.
Se esta explicação é aceite naturalmente, o mesmo não acontece com a origem do meio de transporte já que existem várias correntes...
Há quem atribua a  invenção missionário americano Jonathan Goble em 1867, outros defendem que foi o capelão do Consulado Britânico em Yokoama, M. B. Bailey. E são os japoneses que reivindicam a invenção do jerinxá em 1868 para ser utilizado por um indivíduo paralítico de Quioto que não gostava de ser transportado numa cadeirinha. Outros afirmam que a sua invenção. Ainda nas versões japonesas existe a teroia que foi Akiha Daisuke, em 1870, o inventor.
Certo é que o primeiro pedido oficial para produção de riquexós coube a Takayama Kosuku, entre 1867 e 1870. E certo também é que a partir do século XX o meio de transporte espalhou-se por toda quase a Ásia (China, Japão, Birmânia, Singapura, Vietname, Tailândia, Filipinas, etc...) com uma ou outra adaptação local. 
No Boletim "Macau" de 1953 encontra-se um artigo que faz um excelente retrato desta realidade macaense hoje praticamente desaparecida:
"Data de muitos anos, em Macau, a existência destes modestos trabalhadores, figuras típicas deste Oriente sempre desconhecido, exótico e fértil em sensações. Condutores de riquexós – veículos para transporte de um passageiro – os cules simbolizam a velha e tradicional China, onde se trabalha indiferente à natureza do serviço, ainda que este pela sua qualidade nos pareça vexatória de dignidade humana. No seu jeito característico e com uma passada de cadência matemática , palmilham diariamente – na melhor hipótese de numerosos clientes – alguns bons quilómetros.
Tomando apenas ligeiras refeições de arroz ou massa com peixe ou carne, ou a tijela de canja, percebe-se que não são indivíduos dotados de muita força. Possuem, no entanto, uma resistência inconcebível na sua corrida de fraca velocidade, mas sempre igual, em contraste com a sua aparência franzina e débil.
Desconhecedor dos costumes e tradições do Oriente, qualquer europeu ou americano que desembarque em Macau, sente uma desagradável impressão pelo quadro desumano ao ver um homem acarretar com outro, qual quadrúpede, num panorama idêntico à besta que puxa a carroça em qualquer terra da nossa metrópole. Não há dúvida, porém, que são mais carregadas as cores do cenário que a realidade dos factos. Segundo eles próprios confessam, não é a força o elemento principal a considerar, pois as ruas onde, estes carros transitam são, na sua maioria, planas e cimentadas.
À partida, após o esforço inicial no arranque do carro, que possui as duas rodas forradas de borracha , a virtude dos condutores está em conseguir manter o carro em equilíbrio e toada certa , conservando sempre o impulso primitivo, o que conseguem colocando as mãos nos varais de modo especial. E depois, no género de trotar, ritmo compassado, sem grande esforço, exceptuando numa ou noutra rua um pouco íngreme, lá seguem, lestos, sem frouxidão, na ânsia de bem servir. À falta de passageiro, utilizam o veículo para transporte de muitas e variadas coisas, causando, por vezes, profunda admiração, a quantidade de peças de mobiliário que acomodam num tão pequeno carro.
Os cules, na sua maioria, não têm horário definido para tomar as suas parcas refeições. Comem a qualquer hora, a sua tijela de arroz ou massa, com um pouco de peixe ou carne, servindo-se de ordinário, dos cozinheiros ambulantes que abundam pelas ruas de Macau.
Como distracção, vão uma vez por outra ao cinema, ao jogo de bolinha (futebol em miniatura) e só com grande sacrifício assistem ao Auto-China, espectáculo demasiado dispendioso para as suas reduzidas possibilidades financeiras. Como, aliás, quase todos os chineses, são singelos no seu trajar, e a sua indumentária, simples e prática, adequa-se bem à função que desempenham. Em pleno Verão, cálido, saturado de humidade, temperatura asfixiante, quase insuportável, usam apenas camisola, calção e alparcatas, trazendo alguns o característico chapéu largo «tudum», feito de fibras de bambu forradas de folhas de palmeira, para a chuva ou sol.
Nos dias chuvosos, vestem um impermeável o «so-i», feito apenas de folhas secas de palmeira. Em 1951 foram introduzidos em Macau os triciclos que comportam dois passageiros, veículos menos bárbaros à vista do visitante, mas que obrigam os cules a um maior esforço na sua condução.”





quinta-feira, 18 de janeiro de 2018

Moeda: 1 pataca de 1968

Para o post de hoje escolhi uma moeda de uma pataca relativa a uma emissão de 1968. Há 50 anos...
Recordo que só em 1952 foram introduzidas as moedas em Macau, nos valores de 5 e 10 avos de bronze, 50 avos de cuproníquel e as moedas de 1 e 5 patacas de prata de 720 milésimos. O latão de níquel substituiu o bronze em 1967, incluindo a última emissão de 5 avos. Em 1968, o níquel substituiu a prata em 1 pataca. Em 1971, foi produzida a emissão final da moeda de 5 patacas de prata de 650 milésimos.

Peso:10,3 gramas - Diâmetro:28,5 mm
Frente: Brasão de Armas (escudo da colónia em globo metálico coroado)
legenda: (topo, o nome de colónia entre espaçadores/estrelas de 5 pontas) * MACAU *
(esquerda/direita) Caracteres chineses (nome e valor); (baixo, valor entre 2 espaçadores/5 pontas estrelas) * 1 PATACA *
Verso: Escudo Português sobre globo metálico numa Cruz das Descobertas
legenda: (acima, o nome titular) REPÚBLICA • PORTUGUESA (fundo, ano entre pequenos espaçadores)

terça-feira, 16 de janeiro de 2018

Monumento ao Gov. Ferreira do Amaral no "Notícias Ilustrado" de 1928

Em Maio de 1928 - há quase 90 anos - o "Notícias Ilustrado", edição semanal do Diário de Notícias, publicava uma imagem com a maqueta da estátua do Governador Ferreira do Amaral. Na legenda pode ler-se "Maquette do monumento destinado a Macau, em memória do Governador Ferreira do Amaral, obra dos arquiteto Carlos de Andrade e escultor Maximiano Alves".
A estátua chegaria a Macau muitos anos depois e só seria inaugurada em Junho de 1940. Ficaria localizada nos então primeiros aterros da Praia Grande, um campo descampado à época. Só a partir da década de 1950 tiveram início as primeiras construções na zona, com destaque para o edifício do Liceu Nacional Infante D. Henrique (1958) e Edifício Rainha D. Leonor (ca. 1962), para além de outros edifícios residenciais e de escritórios e ainda a Escola Comercial (1966) e o Hotel/Casino Lisboa (1970), só para mencionar alguns exemplos. No início da década de 1990 a estátua foi retirada do local estando actualmente no Jardim da encarnação, em Lisboa.

domingo, 14 de janeiro de 2018

Americans and Macao


"Americans and Macao: Trade, Smuggling, and Diplomacy on the South China Coast"
É o título do livro da autoria de Paul A. Van Dyke, autor de outros livros como
este, editado pela Hong Kong University Press em 2012.
The theme of this volume is the American relationship with Macao and its region through trade, politics and culture, and the focus is mainly on the late 18th and 19th centuries. The essays address topics such as the role of the China trade in US pacific expansion and exploration, US consuls, smuggling networks, missionary and educational work, and American women's perceptions of China. In all of the encounters, Macao emerges as a central player, adding a new dimension to our understanding of Sino-American relations.
Sobre o livro, John Haddad escreveu no Journal of American History, Volume 100, Issue 2, 1 September 2013: "The rise of China has been accompanied by an increase in books that explore the historical relationship of China and the United States. Those that examine the early years of this relationship, from the sailing of the American merchant ship Empress of China (1784) to the Opium War (1839–1842), typically concentrate on Canton, where the buying and selling of goods took place. In contrast, Macao has received less attention, perhaps because historians view the Portuguese colony as a mere sidebar to Canton's emporium. With Americans and Macao,Paul A. Van Dyke and the volume's contributors aim to remedy this oversight. Each of the nine essays explores a different aspect of American engagement with China in Macao: American traders, opium smuggling, U.S. consuls and envoys, lending..."

sábado, 13 de janeiro de 2018

Documentos Chineses das dinastias Ming e Qing sobre Matteo Ricci

O Instituto Cultural lançou, em Xangai, um novo livro, intitulado “Documentos Chineses das dinastias Ming e Qing sobre Matteo Ricci”, da autoria de Tang Kaijian, docente da Universidade de Macau. A obra é fruto de uma parceria com a editora de clássicos chineses de Xangai.
Foi padre jesuíta, missionário na China, renascentista, cartógrafo. O homem que nasceu em Macerata, Itália, e que viria a falecer em Pequim, em 1610, deixou uma enorme obra que ainda hoje é alvo de estudos e de compilações. Na China, foi missionário durante o reinado da dinastia Ming, onde tinha o nome chinês de Li Madou, e onde foi o grande responsável pela introdução do catolicismo.
O Instituto Cultural (IC) acaba de publicar, com o apoio de uma editora de Xangai, mais um livro sobre o jesuíta, intitulado “Documentos Chineses das Dinastias Ming e Qing sobre Matteo Ricci”, da autoria de Tang Kaijian, docente da Universidade de Macau. Segundo um comunicado no IC, trata-se de uma “colectânea de materiais históricos relativos aos estudos sobre Matteo Ricci provenientes de arquivos documentais das dinastias Ming e Qing”, estando dividido em seis partes, com “biografia, prefácio e posfácio, documentos públicos, artigos de opinião, poemas, cartas e artigos variados”.
O livro fala da vida de Matteo Ricci, relatando “acontecimentos concretos da sua vida na China”, além de apresentar “uma compilação do seu pensamento e repercussões e análise da sociedade chinesa”.
O conteúdo da obra inclui “mais de quatrocentos documentos de todo o tipo provenientes de bibliotecas de todo o mundo, de diferentes bases de dados e colecções privadas”. O livro “procura reunir materiais de Matteo Ricci já publicados e traduzidos do italiano e de outras línguas ocidentais com registos do missionário em língua chinesa, a fim de permitir uma compreensão mais clara e precisa de Matteo Ricci e da sua época”, explica o comunicado do IC.
Reunir e analisar a obra de Matteo Ricci não tem sido fácil nos últimos anos, como denota o IC. “Uma dificuldade recorrente no passado era o facto de, por um lado, os académicos do ocidente não terem capacidade de compreender na totalidade e tirar pleno proveito dos materiais de Matteo Ricci escritos em língua chinesa.” Além disso, “os académicos orientais deparavam-se com os mesmos obstáculos relativamente aos materiais do missionário redigidos em línguas ocidentais”.
Tang Kaijian, o autor da obra, dá aulas no departamento de história da UM, sendo também orientador dos cursos de doutoramento. Dedica-se ao estudo da história de Macau, debruçando-se também sobre a história do catolicismo na China.
Excerto de artigo de Andreia Sofia Silva publicado no Hoje Macau 17.11.2017
 O Colégio Ricci no século 21 e ca. 1950

sexta-feira, 12 de janeiro de 2018

In praise of our silent giants


(...) The Department of Gardens and Green Areas, under Civic and Municipal Affairs Bureau of Macao (IACM), collaborated with experts from South China Botanical Garden to conduct a thorough assessment of Macao’s old trees in 2012, determining their ages based on respective growing speed, growing history, and its physical features such as tree girth, height, and crown width.
The investigation identified 795 old and valuable trees, belonging to 63 species, in both the public and private areas of the city. Around 98 per cent of them fell within the category of Third-Class Ancient Trees, or trees between 100 and 299 years old. The most common species include longans and camphor trees, as well as mock buddha trees and other ficus.
The department turned their research into The Charm of Old Trees, published in March 2013, providing the public an extensive record of the old and valuable trees in Macao. According to the book, while Coloane has the largest number of old trees, many old trees on Macao Peninsula can be found in Guia Hill and Camões Garden, largely due to historical reasons.
“Take a look at the old photos of Macao, and you will find that Guia Hill used to be quite barren with stunted vegetation. It only began to flourish when the Portuguese government started greening the area in the 19th century,” said Ung Sio Wai, chief of the Division for the Greening of the City under Department of Gardens and Green Areas.
Camões Garden, he explained, was originally a luxurious suite with garden leased to the British East India Company in the late 18th century. The company turned it into a nursery for Southeast Asian plants to be transported to Kew Gardens in England. After the Portuguese government purchased the property in 1885, the garden was opened to the public. Religious sites, such as temples, churches and cemeteries, have nurtured a number of old trees with religious significance. Notable examples include the towering Michelia Champaca and much smaller Mexican frangipani, two flowering trees commonly planted in Buddhist temple gardens. Even busy streets like Avenida da República are home to a great number of impressive mock buddha trees. (...)
Excerto do artigo In praise of our silent giants - Macao Magazine, Janeiro 2018.
Text Cathy Lai. Photos António Sanmarful and courtesy of IACM.
A propósito, sugiro a leitura da história da árvore dos amantes no templo de Kun Iam Tong.

quinta-feira, 11 de janeiro de 2018

António José Gonçalves Roliz (1873-1933)

Filho de José Gonçalves  Roliz (nascido em 1841(2?) no distrito da Guarda seguiu depois para Macau como militar) e de Maria Esperança Roliz (natural de Macau e filha de pais chineses), António José Gonçalves Roliz (jesuíta) nasceu  em Macau (na Sé) a 24 de Agosto de 1873, sendo um dos quatro filhos do casal. Formou-se no seminário de S. José em Macau onde em 1908 há registos de ser director espiritual do Seminário e prefeito da igreja do Seminário.
Era ainda professor de "Academia Sínica" e de "Philosophia" para os 1º e 2º anos. 
Em 1906 fez parte de uma comissão (juntamente com Manuel da Silva Mendes, Pedro Nolasco da Silva, Carlos Augusto d’Assumpção e José Vicente Jorge) nomeada pelo governador Martinho Montenegro "para estudar e fazer um projecto de organização do ensino da lingua sinica nesta cidade".
Seguiu pouco depois para a Europa onde prosseguiu os estudos em filosofia e teologia.
No livro editado em 1911 - "Proscritos: noticias circumstanciadas do que passaram os religiosos da Companhia de Jesus na revolução de Portugal de 1910", de L. Gonzaga de Azevedo - surge o nome do padre Roliz. Tinha na altura 37 anos. A expulsão dos jesuítas decorre da implantação da República em Portugal (Outubro) e é concluída a 4 de Novembro.
Excerto:(...) Eu nunca assisti na minha vida, nem já agora espero assistir, a uma scena mais selvagem, embora não sofressemos injurias corporaes muito graves. Imaginem boa parte da Praça do Commercio, de noite, convertida numa extensa jaula de feras a rugir; terão uma ideia pálida do que foi aquillo. Elles tripudiavam, elles uivavam, elles batiam palmas, elles gritavam furiosamente: morra! elles blasfemavam, elles davam pontapés a quem podiam, elles berravam as mais hediondas obscenidades. E depois de embarcados, depois de começar a mover-se a lancha a vapor, ainda ouviamos ecos prolongados d'aquella horrenda despedida. Os holophotes de um naviozito foram-nos iluminando pelo Tejo fóra, e assim a multidão teve ainda mais uns minutos de folia. Eu estava envergonhado, com os comentarios que faziam contra o nosso povo, uns quatro estrangeiros, que iam na mesma lancha comnosco. As 9 horas entravamos no Bürgermeister, navio de quatro a cinco mil toneladas, que estava muito afastado da margem direita. A' sombra da bandeira allemã, começamos enfim a respirar aragem livre, ainda refrescada com brisas portuguesas»

O vapor Bürgermeister pertencia à carreira da África Oriental. "Toda a noite de 3 para 4 de Novembro, esteve no Tejo carregando cortiça, com grande incommodo dos viajantes, dos quaes muitos não puderam dormir por causa do estridor dos guindastes. Só às 6 h. da manhã é que o navio levantou ferro."
Na imagem acima vê-se no "Caes do Sodré" parte do grupo de jesuítas (cerca de uma centena) que foi expulso no último navio, a 3 de Novembro de 1910.
Depois deste incidente o padre Roliz regressaria à Ásia para leccionar em Cochim (Índia), foi missionário na cidade chinesa de Shiu-Hing e seguiu depois para Macau onde foi professor e director espiritual do seminário. Foi ele um dos grandes impulsionadores do culto de Nª. Sª. de Fátima em Macau a partir do final da década de 1920 (1929).
Morreu em Macau a 22 de Dezembro de 1933. Tem uma rua com o seu nome no território.

quarta-feira, 10 de janeiro de 2018

Lou Kau (1848-1907): o primeiro magnata do jogo

No final do século XIX um abastado comerciante de Macau, Lou Cheoc Chi, também conhecido por Lou Va Sio, iniciou a construção de um jardim numa zona que era então de hortas conhecida por povoação de Long Tin. O jardim só viria a ficar finalizado em 1925 pelo seu filho, Lou Lim Ieoc e, após a morte deste, o recinto do jardim foi dividido em lotes e vendido.
Em 1938, a mansão que se situa na secção norte do jardim - foto abaixo - foi adquirida pela actual (ver foto a cores) Escola Secundária Pui Ching. Já a secção sul, em redor do Pavilhão de Relva Primaveril, acabou por ser adquirida pelo governo de Macau em 1973, tendo aberto ao público, após obras de restauro, em 1974, como Jardim Lou Lim Iok, também chamado Jardim Lou Kau.
De seguida publico um longo excerto de um artigo da Revista Macau nº 58 (Outu. 2017) da autoria de Catarina Domingues.
Lou Kau fez fortuna com o comércio de carne de porco, mas é hoje sobretudo relembrado por lançar as fundações da indústria do jogo em Macau. Líder da comunidade chinesa, o empresário foi agraciado pelo rei de Portugal por duas vezes. São poucos os estudos sobre a vida deste homem que, endividado, acabaria por se enforcar em casa, ainda não tinha completado 60 anos.
Nasceu pobre, morreu endividado. Mas entre este primeiro e último momento de vida fez fortuna, dominou a indústria do jogo de Macau, foi o mais influente membro da comunidade chinesa local da época, ponte entre portugueses e chineses, filantropo. Em apenas 59 anos de vida, Lou Kau deu muito mais à cidade do que apenas uma casa e uma rua com o seu nome. Mas a história deste homem, que começou por fazer fortuna com o comércio da carne de porco entre Macau e a Província de Guangdong, ainda está por ser estudada e escrita. Para tentar perceber quem foi Lou Kau é necessário recorrer a historiadores, bibliotecas, tradutores, perceber o que é mito, o que é realidade, atribuir uma forma humana ao herói.
“Há uma relativa escassez de estudos sobre o papel das famílias de comerciantes chineses no Macau moderno”, refere Lin Guangzhi, co-autor de uma compilação de trabalhos sobre Lou Kau, publicada em 2010 pelo Instituto de Assuntos Cívicos e Municipais (IACM). A obra, intitulada Colectânea de teses do seminário sobre a família Lou Kau e a comunidade chinesa, escrita em chinês e com prefácio e um resumo em português, reúne estudos de vários investigadores, presentes num seminário dedicado ao tema. “É o primeiro estudo sistemático sobre as famílias de comerciantes chineses que deram um contributo importante para o desenvolvimento de Macau moderno”, escreve Hao Yufan, director do Centro de Estudos de Macau da Universidade de Macau, que organizou o seminário em conjunto com o IACM.
Prova do estatuto adquirido pelo homem de quem hoje escrevemos, é a Mansão Lou Kau, no número 7 da Travessa da Sé, no coração da cidade. Esta casa-pátio de dois pisos foi construída em 1889 e integra hoje a lista de Património Mundial da UNESCO. “Era uma pessoa importante, porque tinha a possibilidade de ter uma casa junto à Sé Catedral, o que na altura não acontecia [entre os chineses]”, refere Vincent Ho, historiador da Universidade de Macau. (...)

Lou Kau, nome pelo qual ficou conhecido Lou Va Sio, nasceu em 1848 em Xinhui, actual Jiangmen, na Província de Guangdong, no seio de uma família humilde. Com apenas nove anos, mudou-se para Macau.
Pouco antes de Lou Kau nascer, Macau passou por momentos conturbados. Hong Kong, ocupada pelos britânicos durante a primeira Guerra do Ópio (1839-1842), retirou à cidade sob administração portuguesa o estatuto de porto comercial. À procura de novas fontes de receitas, Macau legalizou em 1847 o jogo, que se viria a tornar num dos principais motores económicos da região.
À semelhança de várias famílias de comerciantes chineses, também os Lou prosperaram com o negócio décadas mais tarde. E as regiões vizinhas deram um empurrão: em 1872 o governador de Hong Kong, Arthur Edward Kennedy, proibiu jogos de fortuna e azar na colónia britânica, fazendo com que os jogadores daquela cidade rumassem a Macau; também em 1875, Cantão proibiu a lotaria vae seng, jogo que acabaria por se tornar num dos mais populares de Macau, a par do fan-tan, das lotarias pacapiu e da Santa Casa da Misericórdia, negócios explorados ao longo de décadas pela família de Lou Kau.
“Lou deu um contributo muito importante para o desenvolvimento sustentável da indústria do jogo em Macau. Foi ele que lançou os alicerces da moderna indústria de Macau”, escreve ainda o historiador Lin Guangzhi na Colectânea de teses do seminário sobre a família Lou Kau e a comunidade chinesa. 
O especialista realça, no entanto, que o empresário é frequentemente lembrado pela actividade profissional na área financeira e do jogo, mas que foi a vender carne de porco que fez a primeira fortuna. No final da década de 60 do século XIX, Lou estabeleceu-se na Província de Guangdong, entrou para o negócio da carne de porco, abriu um pequeno banco privado e explorou o negócio do jogo.
É em 1882 que regressa a Macau. Do jogo ao ópio, passando pelo comércio e imobiliário, Lou actuava em vários sectores. “Eram todos negócios legais, ele tinha um clube privado onde os ricos podiam jogar, fumar e encontrar prostitutas”, nota o presidente da Associação de História de Macau, Chan Su Weng
Lou Kau enriqueceu e retribuiu à cidade. O “primeiro magnata do jogo”, como também ficou conhecido, contribuiu nas áreas da educação e da saúde, passando pela cultura e o urbanismo. “Foi um homem que fez muita caridade, foi um dos presidentes do Hospital Kiang Wu, cuja construção ajudou a financiar, e fez doações para o desenvolvimento da medicina”, diz Chan Su Weng. 
Lou Kau criou escolas de ensino gratuito, fundou a Escola dos Filhos e Irmãos dos Pescadores e, em conjunto com outros comerciantes chineses, estabeleceu a Associação de Beneficência Tung Sin Tong. Detentor de terrenos em Macau, construiu habitação económica e apoiou a urbanização da cidade, servindo de intermediário entre as autoridades e os moradores de zonas expropriadas pelo governo.
“Foi de longe a pessoa mais influente entre a comunidade chinesa”, salienta João Guedes, jornalista e investigador da história de Macau, realçando que Lou Kau facilitou a comunicação entre chineses e portugueses. Estatuto, nota ainda o jornalista, que lhe “permitiu fazer uma coisa importantíssima, que era a ligação com o Governo de Guangdong”. João Guedes recorda ainda uma história por poucos conhecida: “Lou Kau tinha dinheiro, mas precisava de ter nome e, por isso, pagou a uma pessoa para ir a Cantão fazer em seu nome os exames imperiais e foi assim que obteve o grau de mandarim”.
Em 1888 foi-lhe atribuída nacionalidade portuguesa. “Nessa altura era uma raridade”, recorda Guedes. “Só quando Salazar sobe ao poder é que a lei passa a ser a jus soli e qualquer pessoa que nascesse em território português era português.”
E não foi o único, completa o historiador Chan Su Weng: “Nesse mesmo ano, Lou Kau publicou no boletim do governo uma nota que dizia que seis dos seus filhos tinham nascido em Macau, o que não era verdade, e que gostariam de obter a nacionalidade portuguesa. Se essa nota não recebesse nenhuma objecção ao longo de um mês, então poderiam tornar-se portugueses.” E foi isso que aconteceu. 
Do rei de Portugal D. Carlos I, Lou Kau recebeu o título de Cavaleiro da Ordem Militar de Nosso Senhor Jesus Cristo, assim como a Comenda da Real Ordem Militar de Nossa Senhora da Conceição de Vila Viçosa. Aqui pesou a ajuda prestada a Macau entre 1895 e 1896, quando a cidade foi afectada pela peste bubónica.
Pouco claro na genealogia da família Lou é o número de descendentes que deixou. Registos históricos avançam diferentes teorias, sendo que a versão mais ambiciosa conta a história de dez mulheres, 17 filhos e 16 filhas. O historiador Chan Su Weng rejeita o número: “Morreu aos 59 anos, é muito improvável que tenha tido tantos filhos”. Dos sucessores de Lou Kau destacam-se vários varões, sendo o mais conhecido Lou Lim Ioc, que herdou o negócio do pai. “Nem sabemos como se chamavam as filhas, nessa altura não era suposto as mulheres serem populares”, vinca Chan. (...)
Em finais do século XIX, o governo regional de Guangdong abriu concurso para a atribuição de uma licença de jogo naquela província chinesa. A concessão foi atribuída pelo general Li Hongzhang a Lou Kau e a um grupo de investidores de Macau, Hong Kong e do Interior do País por um período de oito anos. Lou Kau pagou a pronto uma quantia avultada para a exploração do negócio da lotaria vae seng.
Porém, três anos depois, o general Cen Chunxuan, que substituiu Li Hongzhang, anunciou a proibição do jogo e anulou a concessão, recusando-se a devolver o capital investido pela empresa de Lou Kau. Durante as negociações, o empresário exigiu uma compensação de dois milhões de yuans e tentou angariar apoio entre as autoridades portuguesas, mas sem resultados. Com mais dívidas do que bens, Lou Kau acabaria por se enforcar na casa onde vivia. Tinha 59 anos.
Foi Lou Lim Ioc que tomou as rédeas dos negócios da família. E seguiu as pisadas do pai, mantendo investimentos no sector do jogo e apoiando a população através de acções de caridade. Lou Lim Ioc foi presidente honorário da Associação Comercial de Macau e director da Associação de Beneficência do Hospital Kiang Wu. 
Amante da botânica – aliás, como o pai – o filho mais velho de Lou Kau investiu uma soma significativa no Jardim Lou Lim Ioc, inspirado nos clássicos jardins chineses de Suzhou. 
Morreu aos 49 anos de doença grave. (...)
Foto da década de 1930/40 quando a escola Pui Ching começou a funcionar em Macau.

terça-feira, 9 de janeiro de 2018

José Maneiras, o macaense modernista

A obra do arquitecto macaense José Maneiras, focada na habitação e no planeamento urbanístico, vai ser alvo de uma exposição em Março em Macau, numa iniciativa da associação Docomo -Documentação e Conservação do Movimento Moderno.
Nascido em 1935 em Macau, José Maneiras passou nove anos em Portugal, onde chegou em 1953 e se licenciou em arquitectura na Escola de Belas Artes do Porto, em 1962.
Nesse ano Maneiras regressa a Macau onde integra uma equipa coordenada por Manuel Vicente, que desenvolve planos urbanísticos para a cidade. A partir de 1967 abre um atelier em nome próprio.

Segundo Ana Vaz Milheiro, José Maneiras "Sucede a Manuel Vicente no acompanhamento à obra do Liceu Pedro Nolasco de Raul Chorão Ramalho – um dos edifícios modernos mais significativos da presença portuguesa – batendo-se mais tarde contra a sua demolição. Os acontecimentos de 3 de Dezembro de 1966 no território (o amotinamento popular, que ficou conhecido por “1-2-3”, muito influenciado pelo clima vivido durante a Revolução Cultural chinesa), que coloca em causa o governo colonial, e o afastamento geográfico face à Metrópole, provocam um período de baixo investimento que se reflecte na quase inexistência de encomenda pública e privada. A partir de 1967, José Maneiras lança-se na actividade privada, mantendo um atelierde produção “artesanal”, com a colaboração de um ou dois desenhadores, e seleccionando as encomendas, o que lhe permite sobreviver aos tempos de menor solicitação de projectos. Da sua obra construída durante esta fase, e localizada essencialmente em Macau, torna-se tarefa difícil encontrar exemplares intactos. Muitos edifícios foram demolidos, intervencionados ou estão em risco de desaparecer. A falta de hábito de registo, por parte dos profissionais da sua geração, também não ajuda ao levantamento sistemático deste património quase desconhecido."
Da obra que criou destaque para vários edifícios residenciais  com marcas modernistas: Rua da Praia Grande (Conjunto São Francisco, 1964), na Estrada do Visconde de São Januário (duas residências, 1965), Belle Court na Penha (casa e bloco de apartamentos, 1968) ou o programa residencial para invisuais, a pedido da Santa Casa da Misericórdia (1970), na Rua Sete do Bairro da Areia Preta. Foi vereador do Leal Senado entre 1972 e 1989, vivendo em Macau o 25 de Abril de 1974. Entre 1989 e 1993 foi Presidente do Leal Senado.
É também autor do edifício comercial Si Toi – Hong Kong Bank (actual HSBC – Hong Kong and Shangai Bank Corporation) 1982 e, mais recentemente (2001), concebeu o Monumento à Diáspora Macaense.
Em 1987, José Maneiras participa no grupo que funda a Associação de Arquitectos de Macau (AAM) e desde 2006 é membro honorário da Ordem dos Arquitectos portuguesa.

Em 2014, em declarações à agência Lusa a propósito dos 40 anos da Ponte Nobre de Carvalho, José Maneiras referia-se assim: “Mesmo modesta como está, continua a ser um ex-líbris de Macau. É a mais bonita e elegante e continua a servir, na medida do possível, os transportes públicos, com o trânsito atenuado. Mas é percurssora: fez com que tudo o restante fosse acontecendo. Foi o primeiro passo para o desenvolvimento integrado do território."