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quarta-feira, 30 de setembro de 2026

"Rua do Roquette" e "Travessa da Misericórdia": desde 1888

"As ruas abertas no local onde esteve o antigo edificio e egreja da Misericordia, receberam os seguintes nomes: Rua do Roquette a que começa no largo do senado e vai desembocar na rua da Sé; e Travessa da Misericordia a que fica parallela á primeira."
in O Independente 14.02.1888
Estes edifícios foram demolidos para a construção
do edifício dos CTT no início da década 1930
É curioso notar que, a estar correcta a notícia, começou por ser uma rua e mais tarde adoptou a designação Travessa do Roquete que ainda hoje mantém na fachada lateral do edifício da SCM. Com cerca de 80 metros de extensão é uma homenagem ao comerciante Francisco Xavier Roquete que fez fortuna na região entre meados do século 18 e o início do século 19 e que doou a sua herança (62 mil patacas) à Santa Casa de Misericórdia de Macau antes de morrer em 1817 em Calcutá sendo considerado o maior benfeitor de sempre da instituição. 
O seu retrato (de corpo inteiro), bem como o de Marta da Silva Merop, podem ser vistos no museu da SCM (Travessa da Misericórdia). Foram feitos "sob contorno e direcção" de José Tomás de Aquino ca. 1833 e executados pelo retratista chinês Vo Qua (ou Yo Qua).
Na fachada estão três elementos que merecem atenção.

Placa Toponímica (Azulejos):
羅 結 地 巷 - TRAVESSA DO ROQUETE

Lápide Antiga em granito:
ESTA CAZA DO RECOLHIMENTO
DAS ORFANS FOI FVNDADA EM
6 DE JANEIRO DE 1637 SENDO
PROVEDOR MIGVEL DE MACEDO

Placa Comemorativa (abaixo)
Texto Principal (Português):
ESTA LÁPIDE FOI ENCONTRADA E RECUPERADA
PELO LEAL SENADO A 20 DE MARÇO DE 1996 NAS
OBRAS DE REPAVIMENTAÇÃO, DEFRONTE DO
Nº 1 DA TRAVESSA DO ROQUETE, LOCAL DA
"CASA DE RECOLHA DE ORFÃOS", SUPOSTA
DEPENDÊNCIA DA SANTA CASA DA MISERICÓRDIA
DE MACAU, INSTITUIÇÃO PÚBLICA, FUNDADA
EM 1569 PELO BISPO BELCHIOR CARNEIRO.

Texto em Chinês:
此石碑於一九九六年三月二十日,市政廳於羅結地巷一號前
進行鋪設地面工程時被發現。此處曾為"孤兒院"之原址
屬一五六九年由賈尼路主教 (Bispo Belchior Carneiro) 創
辦之澳門仁慈堂附屬機構之古蹟。

Texto de Inauguração (Português):
A CERIMÓNIA DE RECOLOCAÇÃO FEITA A
6 DE JANEIRO DE 1997, FOI PRESIDIDA PELO
EXMO. O PRESIDENTE DO LEAL SENADO DE
MACAU, DR. JOSÉ SALES MARQUES E PELO
PROVEDOR DA SANTA CASA DA MISERICÓRDIA
DE MACAU, ARQ. CARLOS MARREIROS.

Texto de Inauguração (Chinês):
此石碑重新安放儀式於一九九七年一月六日舉行,
由市政廳主席麥健智先生及仁慈堂堂長馬若龍建築師主持。

Largo do Senado visto da Travessa do Roquete no séc. 21
Ilustração gerada por Ia a partir de fotografia
Travessa da Misericórdia no séc. 21

A Travessa do Roquete (em cima) e a Travessa da Misericórdia (em baixo) contornam o edifício da SCM. Ilustrações criadas por IA a partir de fotografias do século 21.

terça-feira, 29 de setembro de 2026

Templo Pou Tai Un (菩提禪院) na Taipa

Este postal ilustrado da década 1980 mostra o Templo Pou Tai Un (菩提禪院) na ilha da Taipa.
Década 1980

Do final da década de 1980 recupero este texto inserido numa brochura em português e chinês sobre os templos da Taipa:
"Se quiser passar um dia agradável, venha à Taipa pela ponte velha e antes de chegar ao hotel Hyatt, vire à direita e no fim desta estrada, Lou Lim Ieok, está o templo. Construído em 1925, é um mosteiro budista com um templo dedicado aos Três Budas Preciosos e a Kun Iam. De visita obrigatória, nele se encontram Jardins com estátuas, viveiros de carpas e um conjunto de santuários ou lugares de oração onde se confraternizam os deuses do panteão indu, taoista e budista chinês. Neste lugar, com mesas e bancos espalhados pelos jardins, fazem-se belos piqueniques e  come-se boa comida vegetariana dos monges que ainda aí vivem num andar destinado a mosteiro, no pavilhão central. Neste pavilhão, de varandas e beirados ricamente trabalhados encontra-se no andar superior uma estátua, diga de ser vista, de mais de 9 metros de altura, do fundador do budismo, Saquiamuni, o Buda Iluminado que pode ver e compreender todo o universo."
菩提園   
如果你想愉快地過一天,請由舊澳氹大橋到氹仔來菩提園吧!當到達凱悅酒店前應往右轉,再走進盧廉若馬路的盡頭就可以見到菩提園。它建於一九二五年,內有供奉三尊珍貴佛像和觀音像的殿堂,是遊人必到的一座佛教禪院。院內設有一些鑲有石像、養有鯉魚的池塘的庭園,並有一列供參拜中國佛教、道教和印度教等諸神用或唸經用的空間。這裡的庭園均備有枱、櫈,可讓遊人在此野餐,又或品嚐僧侶所做的美味素菜,他們都住在中央寺院的禪房內。在這座經精工修建並附有陽台和屋檐的中央寺院的最高一層內,有一尊高九米、十分值得參觀的佛教始祖釋迦牟尼像,他是一位能看透及洞悉整個宇宙的智者。
Na década 1990

Lá dentro está uma estátua dedicada ao Buda Saquiamuni. Feita de bronze tem a altura de 5,4 metros e um peso de 6.5 toneladas
Altar a estátua de Buda no Templo de Pou Tai Un
氹仔菩提園大佛像

No "Roteiro das Ilhas – Ilha da Taipa. Câmara Municipal das Ilhas", de 1996, pode ler-se:
"O templo chamava-se originalmente mansão (ou jardim) Pou Tai e foi construído pela família Lo em 1927.Um dos seus membros chamava-se Lo Pou San, e era então um dos pintores mais famosos da província de Guangdong, da Escola de Pintura de Lignan, morando na mansão com a sua mãe. O espaço total da mansão foi registado oficialmente em 1933 com uma área tão espaçosa que incluía ainda uma parte da terra onde ficava a Fábrica de Panchões “Him Son” e a terra onde ficava o edifício contíguo da “Wa Seng”. Depois da morte de Lo Pou San, seu filho Lo Vai Chong mudou de residência para Hong Kong e vendeu os terrenos da mansão Pou Tai, que foram comprados por cinco entidades. No dia 16 de Julho de 1964, uma destas entidades, Mestre-Monge Sik Chi Un, comprou a parte principal da mansão, que incluía um pequeno templo que se chamava Palácio Lok Chou, e a maior parte do jardim com a área de 3330 m2.
O mestre Sik Chi Un introduziu o ramo do budismo Cheng Tou (Terra Limpa/Pura) em Macau. Nasceu na província de Zhejiang na China. Tornou-se monge no templo Chiu Heng na cidade de Hangzhou em 1928, e começou a difundir a doutrina budista, pregando no distrito de Zhongshan na província de Guangdong durante alguns anos. No período da guerra entre o Japão e a China, mudou-se para Macau e estabeleceu o ramo Budista Chi Sam. No mosteiro Pou Tai encontram-se actualmente deuses do Budismo e do taoísmo."

quarta-feira, 23 de setembro de 2026

"Vinhos de arroz, de sorgho, etc."

Loja de vinho chinês em Macau: meados do séc. 20

Vinhos de arroz, de sorgho, etc.
Sam-chú, que significa litteralmente vinho queimado, é uma aguardente, muito forte e com um cheiro empyreumatico, que se obtem pela distillação das sementes de algumas gramineas e principalmente do arroz. E' usada em todo o imperio. Segundo Debeaux (de quem tiro estes dados) fabrica-se o Sam-chú molhando o arroz em agua quente, até que os grãos estejam completamente inchados, que é quando se deitam em agua na qual se dissolveu o Péká, preparação composta de farinha de arroz, de raiz de chicorea e alho. O Péká accelera a fermentação do arroz, mas communica-lhe um cheiro particular a empyreuma. Em seguida distille-se o mixto. O Sam-chú é por assim dizer a primeira preparação do excellente Arrack das Indias, que, segundo o mesmo auctor, é distillado em grandes alambiques quer em Java, quer em Goa (sic) ou misturando-se previamente o Sam-chú com xarope de assucar ou com a agua do coco. Segundo o viajante Osbeck, para se obter a aguardente de arroz, ajuntava-se aos liquidos destinados á distillação hastes frescas ou verdes do Holcus saccharatus (Lin), planta cultivada no centro e no norte da China. Os chins tambem usam o vinho de arroz ou d'outros cereaes, fermentado, mas sem ser distillado; emquanto o de uvas é quasi desconhecido, apesar de haver a vinha em muitas provincias do Imperio, cultivada desde a mais remota antiguidade e se referirem os annaes chinezes ao uso d'este vinho. O vinho de cereaes, não distillado, é fabricado por meio do kiu-tzé ou semente de vinho, que é a borra dos toneis em que fermentaram o arroz e outras sementes gramineas. Mistura-se uma pequena porção d'esse kiu-tzé á farinha de arroz (ou de trigo, de milho, de cevada, etc.) que se deita n'umas grandes jarras ou kangs, onde se deixa fermentar tudo. Ao vinho assim fabricado, e especialmente ao de arroz, chama-se Cha-sin-kiú. De maneira que é conveniente não confundir este vinho com a aguardente propriamente dita, que é o sam-chú. Com o sumo do sorgho assucarado, tambem se fabrica vinho e aguardente que contem um oleo essencial, que lhe dá um gosto sui generis. O liu-pun de Macau é uma especie de vinho aguardentado de arroz, muito usado por toda a população china, que tambem tem os deliciosos vinhos de ameixas, de rosas, etc., que são uns verdadeiros licores.

Excerto de "Asia Sinica e Japonica" do frei José de Jesus Maria. Esteve em Macau em meados do século 18. O original é um manuscrito da época dado a conhecer pela primeira vez na publicação "Ta-ssi-yang-kuo: archivos e annaes do Extremo-Oriente portuguez" já no final do século 19. Na década de 1930 Charles Boxer encontrou uma cópia do manuscrito à venda em Lisboa e publicou-o em livro.

quinta-feira, 17 de setembro de 2026

Procissão de Nossa Senhora dos Remédios é Património Cultural Imaterial

A procissão e a devoção a Nossa Senhora dos Remédios passaram a integrar a lista do Património Cultural Imaterial de Macau segundo o boletim Oficial de 15 de Setembro último.
A devoção a Nossa Senhora dos Remédios é promovida pela paróquia de São Lourenço e a procissão realiza-se anualmente em Outubro.
Entre as manifestações católicas já reconhecidas como Património Cultural Imaterial de Macau contam-se a procissão de Nossa Senhora de Fátima, realizada anualmente a 13 de maio, e do Senhor dos Passos, celebrada no primeiro fim de semana da Quaresma.
Na fotografia uma procissão religiosa tendo à frente D. Policarpo da Costa Vaz, Bispo de Macau de 1954 a 1960. Atrás, de fato claro e gravata escura, o Almirante Joaquim Marques Esparteiro, Governador de Macau entre 1951 e 1957. Ao lado, de fato escuro e chapéu branco a mulher, Laurinda Marques Esparteiro.

quarta-feira, 19 de agosto de 2026

A Casa-Forte que acabou Fortaleza

Entrada da Fort. do Monte
Postal da década 1970

Se a História de Macau fosse escrita por um romancista de génio — digamos, um Camilo de sobrancelhas carregadas e pena afiada — ninguém acreditaria nela.
Porque Macau, desde o berço, parece ter sido governada por uma lógica própria, meio divina, meio trapalhona, sempre engenhosa e invariavelmente portuguesa.
No princípio eram os jesuítas.
Não apenas pregadores, mas administradores, urbanistas, diplomatas, médicos, contabilistas e, quando necessário, cobradores de impostos com zelo quase bíblico.
D. Melchior Carneiro, bispo e fundador político da cidade, organizou o Leal Senado, a Santa Casa, o Hospital de S. Rafael — e, sobretudo, o sistema que garantia a sobrevivência de tudo isto: o célebre um por cento dos lucros do comércio da seda e da prata do Japão.
Ora, esse um por cento não era bagatela. Era fortuna. E fortuna, como bem sabia qualquer padre prudente, precisa de paredes grossas. Assim nasceu a obra que hoje chamamos Fortaleza do Monte — mas que, na sua origem, não era fortaleza nenhuma. Era casa forte, cofre monumental, arca de pedra onde os jesuítas pretendiam guardar o tesouro que sustentava Macau.
A ideia de fortaleza viria depois, como tantas coisas em Portugal: por necessidade, improviso e um certo fatalismo que transforma depósitos em bastiões.
Na segunda década do século XVII ergueu-se, pois, a grande torre: paredes de um metro e dez, porta de dupla segurança, escadas lançadas com método e ambição.
Não era ainda fortaleza, mas já tinha o ar severo de quem guarda dinheiro alheio.
E como não havia militares disponíveis — nem vontade de os pagar — a obra ficou entregue aos padres e aos seus escravos. Uns construíam, outros carregavam, todos obedeciam. Macau, desde cedo, habituou-se a esta mistura de devoção e contabilidade.
Quando, a 24 de Junho de 1622, os holandeses tentaram desembarcar, a casa forte ainda não era fortaleza completa. Mas era o que havia.
Os jesuítas, que tinham aprendido a manejar canhões com a mesma destreza com que manejavam almas, puseram os escravos a postos. E, segundo testemunhos dos próprios invasores, deram-lhes uma mistura de vinhos — português, chinês e o que mais houvesse — que produziu nos pobres diabos uma coragem tão súbita quanto devastadora.
Os escravos lançaram-se sobre os holandeses com fúria bíblica. Uma bala disparada da torre — ainda inacabada — veio cair no exacto local onde hoje se ergue o Monumento da Vitória.
Foi milagre, disseram uns. Foi vinho, disseram outros. Foi Macau, digo eu.
Mas a glória durou pouco.
Em 1623, o governador D. Francisco de Mascarenhas, recém-chegado e sem residência digna, decidiu que a casa forte — agora fortaleza — não podia continuar nas mãos de padres.
Mandou vir um destacamento espanhol de Manila e tomou a fortaleza à força, expulsando os jesuítas como se fossem intrusos naquilo que eles próprios haviam erguido para guardar o tesouro da cidade.
E assim, a casa forte dos jesuítas, defendida por escravos, só voltou à Coroa quando militares espanhóis a conquistaram.
Depois disso, o Monte foi residência de governadores, quartel, presídio, comando militar, abrigo de polícias e, por fim, museu.
Cada época deixou-lhe uma cicatriz, uma pedra, uma história.
E assim ficou para a posteridade: começou casa forte, tornou-se fortaleza, foi defendida por escravos, tomada por espanhóis, abandonada por soldados, ressuscitada como museu. Uma obra que nasceu para guardar dinheiro e acabou a guardar memórias.

Artigo da autoria de João Guedes publicado a 13.7.2026 na página da rede social FB "Macau Meio Milénio de Aventura".
Vista parcial da cidade a partir da Fort. do Monte: década 1980

sexta-feira, 24 de julho de 2026

Uma mansão na Rua do Hospital

A Igreja Batista de Macau ( 澳門浸信教會), também conhecida como Primeira Igreja Batista de Macau, é a igreja batista chinesa mais antiga de Macau e está localizada na Rua de Pedro Nolasco da Silva, nº 41.
Legenda: "John and Lillian Galloway Mission House Macao (1935)"

As origens remontam a Dezembro de 1903 quando o reverendo Charlton Todd e a mulher foram enviados a Macau pela Convenção Batista do Sul dos Estados Unidos para realizarem trabalho missionário. Em 1904 há registo de terem baptizado cinco pessoas e, em 1905, o número de membros tinha crescido para vinte e cinco. A igreja foi formalmente estabelecida nesse ano como "Igreja Fé e Bênção", a antecessora da atual Igreja Batista de Macau. Inicialmente, alugaram uma casa de três andares na Rua do Campo para reuniões e trabalho missionário.
Em 1908, o Rev. Charlton Todd morreu vítima de doença enquanto regressava aos Estados Unidos para um relatório missionário. No mesmo ano, a igreja americana enviou o Reverendo John Galloway para assumir o cargo que, juntamente com Lilian Lamont Reeves Todd Galloway, a viúva do Rev. Charlton Todd, desenvolveu o trabalho missionário em Macau. Mais de uma década depois os dois viriam a casar.
A Igreja Batista de Macau estabeleceu sucessivamente a "Escola Primária Pui Chi", a "Escola Secundária Pui Ching" (1908-24) e a "Escola de Orientação Espiritual para Meninas" (1913-31). Também adquiriram embarcações para ajudar os filhos dos pescadores a aprender a ler e para transportar alimentos e mantimentos para hospitais de leprosos.
Em 1927, utilizando uma doação da mãe do Reverendo Charlton Todd, a igreja adquiriu o terreno da actual 'sede' da igreja e que na época chamava-se "Todd Memorial Hall" (Salão Memorial Todd). Assim nasce a mansão no então nº 9 da Rua do Hospital (referência ao Hospital S. Rafael), o actual nº 41 da Rua Pedro Nolasco da Silva onde fica a Igreja Baptista de Macau.
A fotografia faz parte do livro "Like A Tree Planted By Streams of Water" da autoria de R. Lawrence Ballew, publicado em 2020.

terça-feira, 9 de junho de 2026

Antigos "Cruzeiros"

A presença de cruzeiros (grandes cruzes de pedra ou madeira) no adro ou em frente às igrejas é uma tradição profundamente enraizada na Europa e muitos países espalharam esse hábito pelos então territórios conquistados um pouco por todo o mundo. Portugal não foi excepção. Em Macau embora muitos já tenham desaparecidos, ainda existem alguns.
Entre os que desapareceram pela voragem do tempo contam-se o do Largo do Senado junto à Igreja de Misericórdia e o que ficava junto à Igreja e Convento de S. Francisco. A cruz é o elemento simbólico do cristianismo. Sendo o seu elemento mais universal assinala o sagrado sobre o profano. Para além da função religioso tinham também um função Social e de identidade, assumindo-se como "ponto de encontro" por excelência de um determinado local. Eram o centro da vida social da aldeia ou vila (em frente à igreja principal) e era ali que se discutiam negócios, que se davam novidades e se tomavam decisões comunitárias.
Entre os cruzeiros que ainda hoje se podem encontrar em Macau estão os do Largo da Sé (embora numa versão moderna pois o anterior estava danificado), junto à igreja de S. Lázaro, da igreja do Carmo (Taipa), Igreja S. Francisco Xavier (Coloane), Ermida da Penha, Igreja de Santo António, etc...
No adro da igreja de Santo António com a inscrição "1638"

O do adro da Igreja de Santo António afere que a construção da igreja na actual localização é datável de 1638, data inscrita no cruzeiro de pedra existente no adro. Embora a primitiva construção seja anterior. É mesmo a mais antiga de Macau remontando ao final do século 16.
A referida construção de pedra e cal e estilo neoclássico sofreu inúmeras remodelações, nomeadamente, em 1810 e 1876

A razão da sua construção resulta da combinação de funções religiosas, sociais e até práticas, funcionando como a sagração do espaço público. O cruzeiro funcionava como uma extensão do altar para o exterior. Marcava o limite entre o mundo profano (a rua) e o mundo sagrado (a igreja). Ao colocar uma cruz na frente do edifício, toda a praça ou adro passava a ser considerada solo sagrado, preparando o fiel espiritualmente antes de ele cruzar o umbral da porta.
Cruzeiros assinalados num 'mapa' do século 17

Muitas vezes, as igrejas eram pequenas demais para acolher multidões em festas populares. Assim os padres pregavam junto ao cruzeiro - púlpito ao ar livre - para que todos na praça pudessem ouvir. Eram também usados em procissões e vias-sacras com uma escala, uma "estação" onde se rezava e entoavam cânticos.
Cruzeiro junto à Igreja/Convento de S. Francisco: pintura 1812

Assumindo a função de protecção espiritual acreditava-se que a cruz protegia a comunidade contra pestes, tempestades e "más energias". Alguns exemplares foram erguidos enquanto "marcos de piedade", fruto de promessas de famílias ricas ou por ordens religiosas (como os Franciscanos ou a Ordem de Cristo) para incentivar a oração dos transeuntes.
Em tempos antigos, os cemitérios situavam-se junto aos adros das igrejas e aí o cruzeiro servia como um monumento central de oração pelas almas ali enterradas.

segunda-feira, 8 de junho de 2026

Os "religiosos de Santo Agostinho" e os 'frescos' da Ermida da Guia

22 de Agosto de 1589
Os religiosos de Santo Agostinho tomaram n'este dia posse do convento de Nossa Senhora da Graça, em Macau, que já antes haviam fundado os padres hespanhoes da mesma ordem, os quaes o cederam por determinação d'el rei D. Fellipe I intimada pelo governador da India Manuel de Sousa Coutinho. Affirmam alguns manuscriptos que no anno de 1591 se mudou o local do convento para onde se vê ainda formoso alto da cidade de onde se descobre toda a Praia Grande e o mar. Querem outros que só fosse a mudança de algumas portas e não de todo o corpo do convento por se não encontrar noticia nem vestigios do que se pretende dar por mais antigo.
in Commemorações da historia de Macau e das relações da China com os póvos christãos
Curiosidade:
A ermida da Guia é dedicada a Nossa Sra. das Neves. Durante trabalhos de restauro em 1996 foram descobertos alguns 'frescos', incluindo o desenho de uma águia bicéfala. Ainda hoje continua por esclarecer a origem deste 'fresco'. A águia bicéfala é frequentemente associada à Igreja Ortodoxa ou a impérios do Leste Europeu. No entanto, a sua presença na Capela de Nossa Senhora da Guia pode ser explicada por três hipóteses principais que os historiadores têm debatido:
Hipótese Agostiniana: Esta é a mais provável e encontra paralelo numa pedra gravada com um símbolo semelhante e pode ser visto do antigo Leal Senado. A águia bicéfala é um símbolo da Ordem de Santo Agostinho. Embora a capela não fosse formalmente gerida pelos agostinhos, a influência visual desta ordem na Ásia era imensa no século XVII, e o símbolo representa a elevação espiritual e a visão divina.
União Ibérica (1580–1640): O período em que as pinturas foram feitas coincide com a época em que os reis de Espanha (Habsburgo) também eram reis de Portugal. A águia bicéfala era o símbolo heráldico dos Habsburgos. Apesar de Macau manter a bandeira portuguesa, a presença do símbolo imperial em edifícios daquela época era uma forma de reconhecimento da autoridade monárquica global.
Pista Arménia: C. A. Montalto de Jesus sugeriu a presença de comerciantes arménios em Macau como a causa. Para os arménios, a águia bicéfala é um símbolo nacional e religioso antigo. Provas documentais Montalto admitiu não ter encontrado.

quarta-feira, 13 de maio de 2026

Procissões N. Sra. de Fátima: 12 e 13 de Maio de 1956

 

Edição de 20 de Maio de 1956 do jornal Notícias de Macau
Nota: Este ano, mais uma vez, realizou-se a procissão nas ruas de Macau.

quarta-feira, 29 de abril de 2026

O novo Centro Católico da Diocese de Macau

No ano em que a Diocese de Macau comemora o 450º aniversário* (fundação em 1676) será inaugurado o novo edifício do Centro Católico em Junho próximo. O edifício é composto por 17 pisos e inspira-se no conceito de "encontro entre Deus e a Humanidade". Foi desenhado em "forma de abraço, com uma cruz no topo para simbolizar a presença de Deus". Uma pintura na fachada inclui a inscrição "come and see" (Vinde e Vede), convidando à entrada do público.
Está localizado no cruzamento da Avenida da Praia Grande com a rua do Campo, no mesmo local onde foi construído o anterior edifício na década 1950. Ali, no nrº 113 da Rua da Praia Grande, estava localizada a biblioteca D. Policarpo, o Centro Diocesano dos Meios de Comunicação Social (criado em 1977) e a Livraria S. Paulo (do lado da Rua do Campo).
As novas instalações vão incluir uma capela, unidade hoteleira, instalações para refeições, salas de aula, salas de conferências e espaços para exposições.

O painel central em primeiro plano ilustra a passagem bíblica do Encontro de Jesus com a Mulher Samaritana no Poço de Jacob (João 4). Há uma legenda discreta no mosaico que identifica a cena em chinês e inglês: "撒瑪黎雅婦人 / Samaritan Woman".
Jesus é representado sentado, com vestes em tons de azul e branco, numa postura de diálogo e acolhimento. A Samaritana está de pé, segurando um cântaro amarelo, simbolizando a "água viva" referida na passagem.
O mural lembra outros existentes em Macau, nomeadamente os da autoria de Francisco Borboa.
Antigo edifício do Centro Católico construído na década 1950

*"Lema das comemorações "De Macau para o Mundo: 450 Anos de Missão e Misericórdia".

sexta-feira, 10 de abril de 2026

120 anos dos Salesianos em Macau

Este ano assinala-se o 120.º aniversário* da chegada dos Salesianos a Macau. A primeira expedição salesiana a chegar a Macau, em Fevereiro de 1906, era composta por seis pioneiros que lançaram as bases da obra de Dom Bosco na região. O grupo era liderado pelo Padre Luís Versiglia (director da missão) e incluía os padres Ludovico Olive e João Fergnani. Acompanhavam-nos três irmãos coadjutores, especialistas em artes e ofícios, que seriam essenciais para o ensino técnico: Feliz Borsio, Luís Carmagnola e Gaudêncio Rota. Juntos, estes seis missionários iniciaram o trabalho no Orfanato da Imaculada Conceição.
A iniciativa pertenceu ao Bispo de Macau, Dom João Paulino de Azevedo e Castro, que buscava apoio especializado para a educação e formação profissional de jovens carenciados e órfãos no território.

O Pe. Joaquim Taveira da Fonseca foi um desses salesianos já na década de 1970 e é o protagonista do artigo (texto) da autoria de Raquel Fragata publicado no Boletim Salesiano n.º 614 de Março/Abril de 2026. Suplemento 150 anos das Missões Salesianas - "1906, Macau, a primeira casa na China" que a seguir se reproduz:
Foram quatro frutuosos anos que o Pe. Joaquim Taveira da Fonseca trabalhou em Macau. Tinha regressado de Moçambique em 1975, onde serviu como Capelão Militar do Exército Português no período de transição para a Independência após o 25 de Abril, quando – depois de dois anos no Colégio dos Órfãos do Porto como diretor –, vai para Mogofores para completar o Curso de Matemática na Universidade de Coimbra. É o Provincial, Pe. José Maria Ferreira Maio, que o envia a seguir para Macau, onde fica como vice-diretor, professor de Matemática no Colégio Dom Bosco e professor de Filosofia na Escola Comercial de Macau, para portugueses.
Conheceu o Padre Gaetano Nicosia, o salesiano que humanizou a colónia de doentes de lepra na ilha de Coloane**. Do missionário salesiano, cujo processo de beatificação começou em 2025, o Pe. Taveira recorda “um asceta”. Diariamente, o Pe. Nicosia atendia a duas obras a seu cargo: a leprosaria em Coloane e uma creche perto do Porto de Macau. “Fiquei a saber que não comia. Não tinha tempo.” O Padre Taveira tentava fazê-lo passar pela comunidade salesiana, a pretexto de se querer confessar, e recebia-o com leite ou chá e uma sanduíche. “Um confessor fabuloso. Um homem de Deus. De uma dedicação, entrega e simplicidade absolutas”.
Nesses anos o Pe. Joaquim Taveira colabora também com uma coluna de opinião e a secção de Religião com “O Clarim”, o jornal de língua portuguesa mais antigo de Macau e ainda em circulação. O convite foi feito por D. Arquimínio Rodrigues da Costa, o último Bispo português de Macau, natural dos Açores, da ilha do Faial. Era diretor o Padre Manuel da Fonseca Moreira.
Nos quatro anos de missão, visitou Taiwan, a China, as Filipinas e o Japão. Regressou a seu pedido, devido ao estado de saúde do Pai. Antes da partida um grupo de mais de 50 amigos organizou um jantar surpresa de despedida e de agradecimento.
Leprosaria de Ka-Ho ca. 1960
Transcrição (da direita para a esquerda)
Linha superior:
典學開校學罪原無門澳日二月四年六零九一
Cerimónia de abertura da Escola da Imaculada Conceição de Macau, 2 de Abril de 1906.
Linha inferior:
照合生學與父神賀父神雷教主鮑門澳禮
Fotografia dos alunos com o Padre Horta, Padre Lei, o Bispo de Macau Dom João Paulino e outros.
Ao centro com a cruz peitoral está o bispo Dom João Paulino (1902-1918).  No topo há um retrato do Papa Pio X, pontífice na época 1903-1914. O retrato segurado por um dos alunos no centro da imagem é o de Dom Bosco, o fundador da congregação Salesiana.

* Os primeiros missionários salesianos para Meliapor e Macau partiram da Basílica de Maria Auxiliadora, em Turim, a 23 de Novembro de 1905. A primeira missão salesiana em Macau iniciou-se a 13 de Fevereiro de 1906.

** Em 2025 teve oficialmente início o processo de Beatificação e Canonização do Pe. Gaetano Nicosia (1915-2017), missionário salesiano que viveu 48 anos na leprosaria da ilha de Coloane, em Macau.

domingo, 5 de abril de 2026

"Haveria neste tempo na Cidade de Macao novecentos Portuguezes"

"Haveria neste tempo na Cidade de Macao novecentos Portuguezes, alem de hu grande numero de Christãos da terra, que davaõ larga matéria ao exercicio de nossos ministerios. Frequentavaõ os Sacramentos de oyto em oyto, ou quinze em quinze dias. Nos Domingos, e dias Santos acodiaõ à doutrina perto de mil escravos, cõ os quaes se fez muyto fruto."

Relato relativo a meados do século 16 (1562) incluído no 1º volume de "Oriente conquistado a Jesus Christo pelos Padres da Companhia de Jesus da Provincia de Goa", obra "Ordenada pelo P. Francisco de Sousa* Religioso da mesma Companhia de Jesus. Lisboa: na Officina de Valentim da Costa Deslandes, Impressor de Sua Magestade, 1710."
* Jesuíta Francisco de Sousa (1649-1712).
Igreja Mater Dei/Ruínas de S. Paulo: o 'santuário dos jesuítas em Macau
(ainda não existia na época deste relato)
Ilustração criada por IA a partir de fotografia

Em português actual:
"Haveria, neste tempo, na cidade de Macau, novecentos portugueses, além de um grande número de cristãos da terra, que davam ampla matéria ao exercício dos nossos ministérios. Frequentavam os sacramentos de oito em oito, ou de quinze em quinze dias. Aos domingos e dias santos, compareciam à doutrina cerca de mil escravos, com os quais se colheu muito fruto."

sexta-feira, 3 de abril de 2026

Procissão do Senhor da Cruz (ou dos Passos)

25 de Março de 1708
"N'este dia se fez a procissão do Senhor da Cruz (ou dos Passos) pelos ordinarios por ordem do senhor bispo, visto acharem-se os padres Agostinhos impedidos no seu convento por causa das controversias a respeito do patriarcha. Os irmãos que acompanhavam o Senhor iam com opa branca e murça rouxa. A procissão foi até S Domingos onde ficou o Senhor."
in "Ephemerides commemorativas da historia de Macau e das relações da China com os povos christãos", António Marques Pereira, 1868.
Procissão religiosa em Macau no século 20.
Foto de autor desconhecido


quinta-feira, 26 de fevereiro de 2026

Ano Novo Chinês em 1837: Galo de fogo

O Ano Novo Chinês de 1837 - começou a 5 de Fevereiro - foi o Ano do Galo (Galo de Fogo).

Letter from Macau, by Henrietta Shuck (1817-1844), the First American Female Missionary to China, to her father

"Jan. 27, 1837
In a few days from this time the Chinese new year will commence. Precisely at the beginning of the New Year’s Day, they bathe their bodies in perfumed water, dress in their nicest clothes, and, remaining at home, worship their household gods, and fire off crackers. After they have concluded family worship, they go to worship the gods at the temples. All mercantile business is stopped for eight or ten days, during which time visits of rejoicing are made to their friends and relations, that are all returned; and they invite each other to indulge in the joy of the Chuntseu — ‘the wine of spring.’ From the ‘Yuetan,’ or New Year’s Day, to the fifteenth of the month, they choose lucky days to suspend flower lanterns on the houses and temples. Those days are lucky, they consider, when the wind blows from the north, west, east-north, or north-east. I expect the place will be quite in an uproar, and we shall have nothing but noise and bustle for a number of days."

Carta de Macau, de Henrietta Shuck (1817-1844), a primeira missionária americana na China, para o pai.

"27 de Jan. de 1837
Dentro de poucos dias, a partir desta data, terá início o ano novo chinês. Precisamente ao romper do Dia de Ano Novo, eles banham os corpos em água perfumada, vestem as suas melhores roupas e, permanecendo em casa, prestam culto aos seus deuses domésticos e rebentam panchões. Depois de concluírem o culto familiar, dirigem-se aos templos para adorar os deuses. Toda a actividade comercial é interrompida por oito ou dez dias, período durante o qual são feitas visitas de celebração a amigos e parentes, as quais são todas retribuídas; e convidam-se uns aos outros para desfrutar da alegria do Chuntseu — ‘o vinho da primavera’. Desde o ‘Yuetan’, ou Dia de Ano Novo, até ao décimo quinto dia do mês, escolhem dias de sorte para pendurar lanternas de flores nas casas e nos templos. Consideram que esses dias são de sorte quando o vento sopra de norte, oeste, leste-nordeste ou nordeste. Prevejo que o lugar fique num alvoroço total e que não teremos nada além de ruído e azáfama durante vários dias."

Retrato incluído no livro de J. B. Jeter de 1849:
"Memoir of Henrietta Shuck First American Female Missionary to China"

The title of the first American female missionary to China belongs to Henrietta Hall Shuck, a native of Virginia who felt a profound religious calling from a very young age. In 1835, at the age of only 18, she married the Baptist missionary Jehu Lewis Shuck and set sail for the East under the Baptist Board of Foreign Missions. After spending time in Singapore they arrived in Macau in 1836. The missionaries worked there about six years, until the end of the first Opium War (1839–1842). Henrietta established a small boarding school, with two to eight pupils at a time. She also bore another son, Ryland, and a delicate daughter, Henrietta. In 1842 the couple eventually settled in Hong Kong in 1842, following the conclusion of the First Opium War.
Unlike many women of her era who were viewed merely as "assistant missionaries" to their husbands, Henrietta took a leading and highly active role in her work. She established some of the first schools for Chinese children in Hong Kong, focusing on literacy and education while raising her own children in often difficult and precarious conditions. Her letters home were widely published in the United States, providing many Americans with their first detailed—though Western-centric—glimpses into Chinese life and culture. Tragically, her journey was cut short in 1844 when she died following the birth of their fifth child, at the age of 27. Despite her brief life, her legacy became a cornerstone for the women's missionary movement, proving that women could endure the rigors of international service and paving the way for future pioneers.
Ilustração criada por IA a partir do retrato

Natural da Virgínia e fervorosa na sua fé baptista, Henrietta Hall Shuck, partiu para o Oriente em 1835, com apenas 18 anos, logo após casar com o também missionário Jehu Lewis Shuck. O casal chegou a Macau em 1836 onde Henrietta fundou um pequeno colégio interno, com turmas de dois a oito alunos. Teve ainda outro filho, Ryland, e uma filha, Henrietta.
Em 1842 mudaram-se para Hong Kong, logo após a fundação da colónia britânica na sequência da Primeira Guerra do Ópio.
Ao contrário de muitas esposas de missionários da época, que eram vistas apenas como acompanhantes, Henrietta assumiu um papel protagonista e muito activo. Fundou uma das primeiras escolas para crianças chinesas em Hong Kong, dedicando-se à alfabetização e ao ensino religioso, enquanto criava os seus próprios filhos em condições muitas vezes precárias. As suas cartas para os Estados Unidos foram amplamente publicadas e serviram como uma das principais fontes de informação para o público americano sobre a vida e a cultura na China naquele período. Morreu a 26 de Novembro de 1844, com apenas 27 anos, devido a complicações no parto do quinto filho. Apesar da sua curta vida, o seu legado tornou-se um pilar para o movimento missionário feminino, provando que as mulheres podiam suportar os rigores do serviço internacional e abrindo caminho para futuras missionárias.

domingo, 15 de fevereiro de 2026

Ano Jubilar da Dioecesis Macaonensis

"De Macau para o Mundo: 450 Anos de Missão e Misericórdia 1576-2026" é o mote do Ano Jubilar da Diocese de Macau (Dioecesis Macaonensis), a primeira do Extremo-Oriente.
Foi estabelecida a 23 de Janeiro de 1576 pela bula "Super Specula Militantis Ecclesiae" emitida pelo Papa Gregório XIII, desligando-se da diocese de Malaca. Desde início foi consagrada a Santa Catarina de Senna e São Francisco Xavier.
Aguarela das Ruínas de S. Paulo - 1951
pelo pintor macaense Luís Demée (1929-2014)

Celebrações
Até Janeiro de 2027 um vasto programa assinala a efeméride com exposições, espectáculos musicais, competições desportivas e simpósios académicos que pretendem promover uma reflexão sobre os últimos quatro séculos e meio de missão em Macau.
A grande cerimónia comemorativa está marcada para o dia 31 de Outubro de 2026 e inclui uma recepção e uma Celebração Eucarística. Os fiéis vão unir-se em torno da Eucaristia nesta ocasião para demonstrar gratidão a Deus "pelas graças e pela missão concedidas ao longo de quatro séculos e meios" e rezar "para que Ele continue a orientar o caminho a seguir" nos anos vindouros, segundo a Diocese.
Emissão filatélica
A Direcção dos Serviços de Correios e Telecomunicações (CTT) emitiu uma emissão filatélica especial que "integra um conjunto de quatro selos, sendo que cada um apresenta um edifício emblemático intimamente associado ao catolicismo em Macau: (...) o Paço Episcopal, a Igreja de S. Lázaro, o Seminário de S. José e a Sede da Cáritas de Macau." 
A emissão inclui ainda um bloco "com a imagem de um mapa antigo da região como fundo a contrastar com o recém-construído Centro Católico da Diocese em primeiro plano, aludindo a uma fusão entre o velho e o novo para delinear o contexto histórico e expressar ainda a importância de Macau como berço e centro da expansão do catolicismo no Oriente. A parte inferior do bloco ilustra várias igrejas listadas como património cultural de Macau, que destacam, no seu conjunto, o profundo valor histórico, cultural e social da Diocese de Macau."

sexta-feira, 6 de fevereiro de 2026

"Flora Cochinchinensis" de João de Loureiro (1717-1791)

O ananás, fruto nativo da América do Sul, nomeadamente do Brasil, foi introduzido na China pelos portugueses através de Macau no final do século XVI, sendo o ano de 1594 a data histórica mais consensual para este marco por via dos registos documentais chineses. Após terem descoberto a fruta no Brasil, os navegadores portugueses transportaram as plantas nas suas embarcações para outros destinos. Devido à resistência da planta, esta sobreviveu às longas viagens marítimas, passando primeiro por entrepostos em África e depois em Goa, na Índia, antes de chegar ao enclave de Macau. A partir deste ponto estratégico, a planta espalhou-se rapidamente pela província de Guangdong e por todo o sul da China, nomeadamente em Fujian, onde o clima subtropical favoreceu uma adaptação perfeita. Existem referências em crónicas chinesas da dinastia Ming que descrevem uma "fruta estranha com pele de escamas e uma coroa de folhas" vinda das mãos dos "estrangeiros do mar" (os portugueses). 
Em chinês, a fruta é chamada de Feng Li (鳳梨) - significa "pêra fénix", devido à semelhança da sua coroa de folhas com as penas da cauda de uma fénix e à textura da sua polpa - e também de Boluò (菠萝), nome mais habitual em Macau e que aparece em textos médicos e botânicos pouco tempo depois dessa introdução.
Além do ananás, os portugueses foram responsáveis pela introdução na China do milho, batata-doce, amendoim, malagueta, tabaco...
Planta do Ananás: ilustração criada com recurso a IA

No livro publicado em 1790 (2 volumes em latim) - "Flora cochinchinensis: sistens plantas regno Cochinchina nascentes, quibus accedunt aliae observatae Sinensi imperio, Africa Orientali, Indiaeque locis variis, omnes dispositae secundum systema sexuale Linnaeanum" o padre jesuíta João de Loureiro - viveu em Macau entre 1779 e 1782 - antes de regressar a Lisboa, classifica a planta como Bromelia ananas.
João de Loureiro nasceu em Lisboa em 1717. Aos 15 anos ingressou na Companhia de Jesus, partindo pouco depois para as missões no Oriente. Após passagens por Goa e Macau, estabeleceu-se em 1742 na Cochinchina, região que hoje corresponde ao centro e sul do Vietname, onde permaneceria durante 36 anos. A sua permanência prolongada num período de instabilidade política deveu-se ao seu valor prático para a corte local, onde serviu como matemático e, sobretudo, como médico. Foi a necessidade de curar sem acesso a fármacos europeus que o levou a estudar profundamente a flora local e a medicina tradicional, tornando-se um botânico autodidata de excecional rigor.
Em 1777/79 Loureiro retirou-se para Macau, permanecendo no território até 1781. No regresso a Lisboa ainda passa por Moçambique onde continua a recolher plantas. A espantosa colecção que reuniu despertou o interesse da comunidade científica europeia.
A sua obra principal, a Flora Cochinchinensis, foi publicada em 1790 (um ano antes de morrer)  pela Academia Real das Ciências de Lisboa. Escrito em latim e organizado segundo o sistema sexual de Lineu, o livro descreve mais de mil e duzentas espécies, muitas das quais desconhecidas na Europa, como certas variedades de citrinos e plantas medicinais asiáticas. 
MONOGYNIA. GENUS I. BROMELIA.
Charact. Gener. Cal. 3 - fidus, superus. Petala 3 : squamâ nectariferâ ad basim. Bacca 3 - locularis. Lin. syst. pl. G. 427.
Sp. 1. BROMELIA ANANÁS. v. Thái Thom. Differ. spec. Brom. foliis ciliato-spinosis: spicâ comosâ. Lin. sp. 1. Hab.; & notæ. Caulis 1 - pedalis, perennis, crassus, teres, erectus, foliis ad basim imbricatus, fructu magno, solitario terminatus. Folia 3 - pedalia, subulata, margine utrâque spinosa, canaliculata, crassa, cinereo-glauca, glabra, reclinata. Bacca composita, 8 pollices longa, cylindracea, saepe sub-conica, ovata, aut subrotunda, diametro 5 - pollicari, rubra, squamosa. Flores nitidè purpurei, singulis baccae squamis singuli adnati, supra medium exerti, ante maturescentiam baccae decidui. Cal. 3 - fidus, minimus. Corolla oblonga, campanulata, 3 - petala, in acutum definens. Filamenta 6, tenuia receptaculo inserta. Stigmata 3: stylo profundè 3 - sulcato, & in tres facilè divisibili. Baccae partiales inferae, oblongae, coalitae, succosae, odorae, dulcissimae, sub-acidae, sapidissimae, salubres, 1 - loculares: seminibus tribus, longiusculis.
Habitat in magnâ copiâ in agris, & hortis Cochinchinae, ubi, quamvis optima, vili pretio venditur, praecipuè in provinciâ Doung-nai ad decimum gradum latitudinis Borealis. Anassa. Rumph. Amb. l. 8. cap. 41. tab. 81. Ananás. Tournef. Inst. p. 653. tab. 426, 427, 428. Acosta. Arom. p. 44. Virtus: fructus. Diuretica, Stomachica. Ex fermentatâ fit vinum, & hujus spiritus, sapidum quidem, sed minus salubre. Varietas Bromeliae occurrit, in Cochinchinâ dicta Thom nép, cujus fuetus sapore non inferior, in maturescentiâ permanet viridis, & pulpa alba, sed specie non differens.

MONOGYNIA (Uma só estames/estilete). GÉNERO I. BROMELIA.
Características do Género: Cálice trilobado, superior. 3 Pétalas: com escama nectarífera na base. Baga com 3 lóculos. (Ref. Linnaeus).
Espécie 1. BROMELIA ANANÁS. Nome vulgar: Thái Thom. Diferença da espécie: Bromélia de folhas com espinhos ciliados: espiga com penacho. Habitat e Notas: Caule de 1 pé de altura, perene, grosso, cilíndrico, ereto, com folhas sobrepostas na base, terminado por um fruto grande e solitário. As folhas têm 3 pés de comprimento, em forma de sovela, espinhosas em ambas as margens, sulcadas, grossas, de cor cinza-azulado, lisas e reclinadas. A baga é composta, com 8 polegadas de comprimento, cilíndrica, frequentemente subcónica, oval ou arredondada, com 5 polegadas de diâmetro, vermelha e escamosa. As flores são de um roxo brilhante, cada uma ligada a uma escama da baga, projetando-se acima do meio, caindo antes da maturação do fruto. Cálice muito pequeno. Corola oblonga, em forma de sino, com 3 pétalas terminando em ponta. 6 filamentos finos inseridos no recetáculo. 3 estigmas: estilete profundamente sulcado em 3 e facilmente divisível em três partes. As bagas parciais são inferiores, oblongas, fundidas, suculentas, perfumadas, muito doces, ligeiramente ácidas, de sabor muito agradável, saudáveis, com 1 lóculo e três sementes compridas.
Habitat: Em grande abundância nos campos e hortas da Cochinchina [atual Vietname], onde, embora de excelente qualidade, é vendido a preço baixo, especialmente na província de Dong Nai, aos dez graus de latitude Norte. 
Referências: Anassa (Rumphius), Ananás (Tournefort), Acosta (Aromatum et Medicamentorum). 
Virtudes: Do fruto: Diurético e estomacal. Do fruto fermentado faz-se vinho e um espírito (destilado), saboroso, mas menos saudável. 
Variedade: Ocorre uma variedade de Bromélia, chamada na Cochinchina de Thom nép, cujo fruto não é inferior em sabor, permanece verde na maturação e tem a polpa branca, mas não difere na espécie.

Nota: Entre as várias espécies da flora de Macau que João de Loureiro classificou, aqui ficam alguns exemplos: Longane (Euphoria longan (Lour.) Steud.); Vompi (Clausena lansium (Lour.) Skeels); Tangerineira Anã (Fortunella marginata (Lour.) Swingle); Árvore da Pata de Pato (Schefflera octophylla (Lour.) Harms); Falso Castanheiro (Aleurites montana (Lour.) Wils.); etc., Alfenheiro da China (Ligustrum sinense Lour.) e a Laranja-Mandarim (Citrus nobilis Lour)"...
Terá por certo recorrido ao Horto dos Jesuítas/Horta da Companhia de Jesus, junto ao colégio de S. Paulo. Na toponímia local chegou a a existir a Rua da Horta da Companhia, actual Rua de D. Belchior Carneiro.

Curiosidade: 
A palavra ananás deriva de "nana" - termo nativo Tupi - que significa "fruto excelente".

quinta-feira, 5 de fevereiro de 2026

Visão de um dominicano sobre os jesuítas no início do séc. 18

RELATION DE LA NOUVELLE PERSECUTION DE LA CHINE, JUSQU'A LA MORT DU CARDINAL DE TOURNON: DRESSE'E Par le R. P. FRANÇOIS GONZALES DE S. PIERRE, Religieux de l'Ordre de S. Dominique, & Missionnaire Apostolique à la Chine, SUR Une plus ample Relation des Missionnaires du même Ordre, qui ont été chassés de la Chine. MDCC XIV."
"RELAÇÃO DA NOVA PERSEGUIÇÃO DA CHINA, ATÉ À MORTE DO CARDINAL DE TOURNON: PREPARADA Pelo R. P. FRANCISCO GONZALES DE S. PEDRO, Religioso da Ordem de S. Domingos e Missionário Apostólico na China, BASEADA NUMA Relação mais ampla dos Missionários da mesma Ordem que foram expulsos da China. 1714."

O Padre Francisco González de San Pedro foi um missionário espanhol da Ordem dos Dominicanos e uma das vozes mais críticas e influentes no debate religioso da Ásia do início do século XVIII. Actuando como Missionário Apostólico na China, ele tornou-se um aliado próximo do Cardeal de Tournon durante a célebre "Questão dos Ritos". San Pedro posicionou-se firmemente contra a estratégia de adaptação dos Jesuítas, que permitiam aos convertidos chineses a prática de ritos ancestrais; para ele, tais actos eram formas de idolatria incompatíveis com o cristianismo. Após a expulsão de vários missionários e a morte do Cardeal de Tournon em Macau, San Pedro publicou o seu relato em 1714 com o intuito de denunciar o que considerava ser uma perseguição à "verdadeira fé" e uma excessiva submissão das autoridades locais aos interesses jesuítas e chineses.
Na sua descrição de Macau, o autor apresenta a cidade não como uma colónia europeia plena, mas como um território de equilíbrio precário e soberania dividida. Ele sublinha que, embora os portugueses tenham erguido a cidade, o domínio supremo pertence ao Imperador da China, o que obriga os habitantes a viverem sob a constante vigilância e "vexames" dos Mandarins de Xiangshan, sempre ávidos por tributos. 
A população é descrita como um mosaico social onde a maioria chinesa, maioritariamente "pagã", convive com uma mistura de nações e poucos portugueses de origem, muitos dos quais vivendo em condições de pobreza. Para o autor, esta realidade social torna Macau um local de trânsito e logística — uma porta essencial para as missões no interior da China e do Sudeste Asiático — em vez de um centro de conversão directa.
Um dos pontos mais detalhados do seu relato é o choque cultural e religioso que presenciava nas ruas. San Pedro descreve com amargura como as procissões e sacrifícios rituais chineses, envolvendo queima de figuras de cartão e oferendas de animais, ocorriam publicamente, por vezes coincidindo com solenidades católicas e diante das portas das igrejas. Ele critica abertamente o Bispo de Macau e as ordens religiosas locais, especialmente os Jesuítas, pela sua passividade perante estas práticas. Administrativamente, ele detalha o funcionamento do Senado, composto por juízes e cidadãos eleitos que geriam a justiça civil e a polícia, e a presença das cinco casas religiosas da cidade. Em suma, a Macau de San Pedro é um retrato de uma cidade sitiada por interesses políticos e financeiros, onde a Igreja estava profundamente dividida e a autoridade portuguesa era constantemente desafiada pela proximidade do poder imperial chinês.

Excerto:
"Description de la Ville de Macao.
MACAO est une petite ville, bâtie il y a déjà long-tems par les Portugais, qui obtinrent cet emplacement de l'Empereur de la Chine, à la charge de lui païer un tribut annuel, outre d'autres droits. Cette ville est habitée par des gens de diverses nations: une moitié de la ville est de Chinois tous païens, excepté un petit nombre de Chretiens, qui ne passent pas quarante ou cinquante: l'autre est composée d'un mélange de gens ramassez de toutes les autres nations, la plûpart très-pauvres; & il n'y a qu'un très-petit nombre de vrais Portugais. Le domaine souverain de cette Ville apartient à l'Empereur de Chine, & elle est soumise à la juridiction du Gouverneur de la ville de Hiang-xan, éloignée de Macao d'une journée de chemin. L'Empereur entretient dans le voisinage des murailles de Macao des Soldats & des Capitaines, & il y a dans la ville même des tribunaux des Mandarins Chinois, qui viennent regulierement de Hiang-xan, où ils font leur residence, y tenir leur seance, lors que les affaires du Gouvernement le demandent.
Tous les Chinois qui demeurent à Macao dépendent absolument de ces tribunaux. Ils ont leurs temples d’idoles hors de la ville: mais ils font publiquement leurs processions superstitieuses dans les rues de Macao, comme dans les autres villes de la Chine. Et ce qui nous affligea le plus, c’est un jour dans l’Octave du Rosaire, que le saint Sacrement étoit exposé chez nous, ils préparerent un sacrifice tout vis à vis dans la petite place qui est devant notre Eglise. Il consistoit dans un bufet garni d’oiseaux artificiels, très-délicatement faits, de deux cerfs & de certains habits. Le tout étoit de carton & devoit être brûlé à l’honneur de leurs Ancêtres défunts. Il y avoit outre cela beaucoup de fruits, & diverses autres choses bonnes à manger, avec un cochon, & une chevre, qu’ils avoient tuez, & qui étoient exposez sur une table portative très-bien ornée. Ils porterent tout cela en procession avec des Étendards, des flambeaux, des trompettes & autres instrumens de Musique, hors de la ville devant un sepulchre, où se fit le sacrifice. Nous vîmes passer aussi plusieurs fois devant la porte de notre Couvent, qui est situé au milieu de la ville, les processions qu’ils font pour aller ensevelir leurs morts, ou pour leur rendre les honneurs acoutumez. Et une chose singuliere qui nous étonna, c’est qu’à un des convois, le fils du défunt, qui selon l’usage des Chinois doit porter avec d’autres le cercueil de son pere, ne le portoit pas: mais portoit à la place la machine de la Tablette; s’imaginant sans doute que l’ame du défunt étoit dedans.
On n’y voit aucune apparence de l’exercice de la Religion Chrétienne parmi les Chinois, excepté chez quelques-uns, qui l’embraissent plûtôt par nécessité, que par une véritable piété. Nous n’osons non plus rien faire pour les instruire ou pour les attirer à notre sainte Foi, parce que les Mandarins y apporteroient d’abord un obstacle invincible; outre que l’Empereur ne permet pas aux Européens d’y faire aucune fonction de Missionnaires, sous peine d’être bannis de Macao. C’est ce qui rend cette Ville un lieu de passage plûtôt que de Mission: car comme c’est le seul endroit où les Européens puissent demeurer librement avec les Chinois, c’est de-là que les Missionnaires de toutes les Nations se répandent ensuite par toute la Chine, par le Tonquin, par la Cochinchine, & par les autres Roiaumes voisins. On y voit des Religieux de divers Ordres: il y a des Jesuites, des Jacobins, des Augustins, & des Cordeliers, qui y ont chacun leur Couvent; mais ces deux derniers ne sont composez que de deux ou trois Religieux chacun."


Suite de la description de Macao. 
Il y a à Macao cinq maisons religieuses, favoir un Couvent de notre Ordre, où l’on a coutume d’entretenir regulierement deux ou trois Religieux, dont l’un est le Vicaire, qui a foin de la maison, & l’autre ou les deux autres font des vieillards ou des Religieux qui par leurs infirmitez ne font plus en état de rendre service dans les Missions, ni de remplir les autres emplois de notre Ordre dans ces païs-là. ...Couvent d’Augustins, qui en entretient deux ou trois : un College de Jésuites, qui est le plus nombreux de tous: & enfin un Monastere de Religieuses de sainte Claire. 
Le Vicaire de notre Couvent, dans le tems que nous y arrivâmes, étoit le Pere Sebastien de saint Antoine, homme de peu de science, & qui avoit été fait Vicaire, par raport à Diego de Pigno de Texeira présentement Capitaine General de Macao, qui l'amena de Goa comme son ami particulier, aiant été élevé ensemble au Noviciat de Goa, où cet Officier avoit pris l'habit de notre Ordre, soit par devotion, ou veritablement dans le dessein d'être Religieux : ce que nous n'avons pas apro-fondi. Il obtint la charge de Capitaine General de Macao, du Vice-Roi de Goa à la priere du Pere François Pinto, Jésuite, Provincial du Japon, resident à Macao, comme il paroît par une lettre de ce Vice-Roi écrite au Pere Pinto, donnée par ce Pere à M. le Patriarche, & dont nous avons une copie. Cette raison fit que le Pere Sebastien prit de fausses impressions sur les affaires de M. le Patriarche, s'attacha au parti du Capitaine General & des Jésuites, & comme eux ne voulut point reconnoître M. le Patriarche : quoique tout notre Ordre dans les Indes défendit, & défend encore sa juridiction. Au mois de Juillet de la même année le Pere Pierre d’Amaral vint de Goa à Macao, pour succeder au Pere Sebastien dans la charge de Vicaire & de Visiteur de notre Cou...Couvent. Il avoit des talens bien au dessus de son prédecesseur, & la conduite qu’il a tenüe a manifesté sa vertu à tout le monde, ainsi qu’on le verra dans la suite de cette Relation. Le Domaine immediat de Macao apartient au Roi de Portugal, & de lui dependent absolument tous les autres habitans, excepté les Chinois, qui dépendent, comme nous l’avons deja remarqué, de l’Empereur de la Chine. Sa Majesté Portugaise entretient dans la ville une garnison composée de peu de soldats; sous un Gouverneur qui a le titre de Capitaine General. Les Portugais ne laissent pas d’être exposez à de grandes vexations & à de grandes injustices de la part des Mandarins Chinois, qui sont toujours avides d’argent, & qui veulent en avoir à quelque prix que ce soit; & ces vexations sont telles, que s’ils les souffroient chrétiennement, ils s’aquerreroient un grand merite devant Dieu & devant l’Eglise, en conservant avec tant de souffrances, cette ville, qui est la porte, non seulement pour la Mission de la Chine : mais encore pour plusieurs autres. Mais ils ne s’aquierent que peu de merites, la conservant seulement par des motifs tous humains, & se rendant toujours les persecuteurs des Missionnaires, au lieu d’être leur refuge & leur apui."

Tradução/Adaptação:

Descrição da Cidade de Macau. 
MACAU é uma pequena cidade, construída há já muito tempo pelos Portugueses, que obtiveram este local do Imperador da China, com a obrigação de lhe pagar um tributo anual, além de outros direitos. Esta cidade é habitada por pessoas de diversas nações: uma metade da cidade é de Chineses, todos pagãos, exceto um pequeno número de Cristãos, que não passam de quarenta ou cinquenta: a outra é composta por uma mistura de pessoas reunidas de todas as outras nações, a maioria muito pobre; e há apenas um número muito pequeno de verdadeiros portugueses. O domínio soberano desta Cidade pertence ao Imperador da China, e ela está submetida à jurisdição do Governador da cidade de Hiang-xan, distante de Macau uma jornada de caminho. O Imperador mantém, na vizinhança das muralhas de Macau, Soldados e Capitães, e há na própria cidade tribunais de Mandarins Chineses, que vêm regularmente de Hiang-xan, onde têm a sua residência, para realizar as suas sessões quando os assuntos do Governo o exigem.
Todos os Chineses que residem em Macau dependem absolutamente destes tribunais. Eles têm os seus templos de ídolos fora da cidade: mas realizam publicamente as suas procissões supersticiosas nas ruas de Macau, tal como nas outras cidades da China. E o que mais nos afligiu foi que, um dia durante a Oitava do Rosário, estando o Santíssimo Sacramento exposto entre nós, eles prepararam um sacrifício mesmo em frente, na pequena praça que fica diante da nossa Igreja. Este consistia num bufete guarnecido de pássaros artificiais, feitos com muita delicadeza, de dois veados e de certas vestes. Tudo era de cartão e devia ser queimado em honra dos seus Antepassados falecidos. Havia, além disso, muitas frutas e diversas outras coisas boas de comer, com um porco e uma cabra que haviam matado, e que estavam expostos sobre uma mesa portátil muito bem adornada. Levaram tudo isto em procissão, com estandartes, archotes, trombetas e outros instrumentos de Música, para fora da cidade, diante de um sepulcro onde se realizou o sacrifício. 
Vimos também passar várias vezes diante da porta do nosso Convento, que está situado no meio da cidade, as procissões que fazem para ir enterrar os seus mortos ou para lhes prestar as honras habituais. E uma coisa singular que nos espantou foi que, num dos cortejos, o filho do defunto, que segundo o costume dos Chineses deve carregar com outros o caixão do seu pai, não o carregava: mas carregava, em vez disso, a armação da Tabuleta [ancestral]; imaginando, sem dúvida, que a alma do falecido estava lá dentro.
Não se vê ali qualquer aparência do exercício da Religião Cristã entre os Chineses, excepto em alguns poucos, que a abraçam mais por necessidade do que por uma verdadeira piedade. Nós também não ousamos fazer nada para os instruir ou para os atrair à nossa santa Fé, porque os Mandarins colocariam imediatamente um obstáculo invencível; além de que o Imperador não permite aos Europeus exercerem ali qualquer função de Missionários, sob pena de serem banidos de Macau. É isto que torna esta Cidade um lugar de passagem mais do que de Missão: pois, sendo o único local onde os Europeus podem residir livremente com os Chineses, é de lá que os Missionários de todas as Nações se espalham em seguida por toda a China, pelo Tonquim, pela Cochinchina e pelos outros Reinos vizinhos. Veem-se ali Religiosos de diversas Ordens: há Jesuítas, Jacobinos [Dominicanos], Agostinhos e Cordelários [Franciscanos], que têm ali, cada um, o seu Convento; mas estes dois últimos são compostos apenas por dois ou três Religiosos cada um.

Continuação da descrição de Macau.
Há em Macau cinco casas religiosas, a saber: um Convento da nossa Ordem, onde se costuma manter regularmente dois ou três Religiosos, sendo um o Vigário, que cuida da casa, e o outro ou os outros dois são idosos ou Religiosos que, pelas suas enfermidades, já não estão em condições de prestar serviço nas Missões, nem de cumprir as outras funções da nossa Ordem naqueles países; o Convento de Agostinhos, que mantém dois ou três [religiosos]: um Colégio de Jesuítas, que é o mais numeroso de todos: e, por fim, um Mosteiro de Religiosas de Santa Clara. 
O Vigário do nosso Convento, na época em que lá chegámos, era o Padre Sebastião de Santo António, homem de pouca ciência, e que fora feito Vigário por conta de Diogo do Pinho Teixeira, atualmente Capitão-Geral de Macau, que o trouxe de Goa como seu amigo particular, tendo sido criados juntos no Noviciado de Goa, onde este Oficial havia tomado o hábito da nossa Ordem, fosse por devoção ou verdadeiramente com o intuito de ser Religioso: o que não aprofundámos. Ele obteve o cargo de Capitão-Geral de Macau do Vice-Rei de Goa, a pedido do Padre Francisco Pinto, Jesuíta, Provincial do Japão, residente em Macau, como consta de uma carta desse Vice-Rei escrita ao Padre Pinto, entregue por este Padre ao Senhor Patriarca, e da qual temos uma cópia. Esta razão fez com que o Padre Sebastião formasse falsas impressões sobre os assuntos do Senhor Patriarca, ligando-se ao partido do Capitão-Geral e dos Jesuítas e, tal como eles, não quis de modo algum reconhecer o Senhor Patriarca: embora toda a nossa Ordem nas Índias defendesse, e ainda defenda, a sua jurisdição. No mês de julho do mesmo ano, o Padre Pedro de Amaral veio de Goa para Macau, para suceder ao Padre Sebastião no cargo de Vigário e de Visitador do nosso Convento Ele tinha talentos muito superiores aos do seu predecessor, e a conduta que manteve manifestou a sua virtude a todo o mundo, como se verá na continuação desta Relação. O domínio imediato de Macau pertence ao Rei de Portugal, e dele dependem absolutamente todos os outros habitantes, exceto os Chineses que dependem, como já observámos, do Imperador da China. Sua Majestade Portuguesa mantém na cidade uma guarnição composta por poucos soldados, sob um Governador que tem o título de Capitão-Geral. Os Portugueses não deixam de estar expostos a grandes vexames e a grandes injustiças por parte dos Mandarins Chineses, que estão sempre ávidos de dinheiro e que o querem obter a qualquer preço; e estes vexames são tais que, se os sofressem cristãmente, adquiririam um grande mérito diante de Deus e diante da Igreja, ao conservarem com tanto sofrimento esta cidade, que é a porta, não apenas para a Missão da China, mas também para várias outras. Mas eles adquirem apenas poucos méritos, conservando-a somente por motivos puramente humanos, e tornando-se frequentemente os perseguidores dos Missionários, em vez de serem o seu refúgio e apoio."
Igreja e Convento S. Domingos ca. 1900
Foto de Man Foc/Man Took/Man Fook 

Nota: O Convento de S. Domingos - demolido no início do séc. 20 - estava anexado à igreja com o mesmo nome - que ainda existe - fundada em 1587 sendo a primeira igreja construída pela Ordem dos Dominicanos na China.