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quarta-feira, 30 de setembro de 2026

"Rua do Roquette" e "Travessa da Misericórdia": desde 1888

"As ruas abertas no local onde esteve o antigo edificio e egreja da Misericordia, receberam os seguintes nomes: Rua do Roquette a que começa no largo do senado e vai desembocar na rua da Sé; e Travessa da Misericordia a que fica parallela á primeira."
in O Independente 14.02.1888
Estes edifícios foram demolidos para a construção
do edifício dos CTT no início da década 1930
É curioso notar que, a estar correcta a notícia, começou por ser uma rua e mais tarde adoptou a designação Travessa do Roquete que ainda hoje mantém na fachada lateral do edifício da SCM. Com cerca de 80 metros de extensão é uma homenagem ao comerciante Francisco Xavier Roquete que fez fortuna na região entre meados do século 18 e o início do século 19 e que doou a sua herança (62 mil patacas) à Santa Casa de Misericórdia de Macau antes de morrer em 1817 em Calcutá sendo considerado o maior benfeitor de sempre da instituição. 
O seu retrato (de corpo inteiro), bem como o de Marta da Silva Merop, podem ser vistos no museu da SCM (Travessa da Misericórdia). Foram feitos "sob contorno e direcção" de José Tomás de Aquino ca. 1833 e executados pelo retratista chinês Vo Qua (ou Yo Qua).
Na fachada estão três elementos que merecem atenção.

Placa Toponímica (Azulejos):
羅 結 地 巷 - TRAVESSA DO ROQUETE

Lápide Antiga em granito:
ESTA CAZA DO RECOLHIMENTO
DAS ORFANS FOI FVNDADA EM
6 DE JANEIRO DE 1637 SENDO
PROVEDOR MIGVEL DE MACEDO

Placa Comemorativa (abaixo)
Texto Principal (Português):
ESTA LÁPIDE FOI ENCONTRADA E RECUPERADA
PELO LEAL SENADO A 20 DE MARÇO DE 1996 NAS
OBRAS DE REPAVIMENTAÇÃO, DEFRONTE DO
Nº 1 DA TRAVESSA DO ROQUETE, LOCAL DA
"CASA DE RECOLHA DE ORFÃOS", SUPOSTA
DEPENDÊNCIA DA SANTA CASA DA MISERICÓRDIA
DE MACAU, INSTITUIÇÃO PÚBLICA, FUNDADA
EM 1569 PELO BISPO BELCHIOR CARNEIRO.

Texto em Chinês:
此石碑於一九九六年三月二十日,市政廳於羅結地巷一號前
進行鋪設地面工程時被發現。此處曾為"孤兒院"之原址
屬一五六九年由賈尼路主教 (Bispo Belchior Carneiro) 創
辦之澳門仁慈堂附屬機構之古蹟。

Texto de Inauguração (Português):
A CERIMÓNIA DE RECOLOCAÇÃO FEITA A
6 DE JANEIRO DE 1997, FOI PRESIDIDA PELO
EXMO. O PRESIDENTE DO LEAL SENADO DE
MACAU, DR. JOSÉ SALES MARQUES E PELO
PROVEDOR DA SANTA CASA DA MISERICÓRDIA
DE MACAU, ARQ. CARLOS MARREIROS.

Texto de Inauguração (Chinês):
此石碑重新安放儀式於一九九七年一月六日舉行,
由市政廳主席麥健智先生及仁慈堂堂長馬若龍建築師主持。

Largo do Senado visto da Travessa do Roquete no séc. 21
Ilustração gerada por Ia a partir de fotografia
Travessa da Misericórdia no séc. 21

A Travessa do Roquete (em cima) e a Travessa da Misericórdia (em baixo) contornam o edifício da SCM. Ilustrações criadas por IA a partir de fotografias do século 21.

segunda-feira, 28 de setembro de 2026

Oculista no hotel Hing Kee em 1888

Na edição de 31 de Julho de 1888 do jornal O Independente é publicado um anúncio e uma 'notícia' sobre a presença em Macau de um oculista.
O anúncio em inglês sob o título "Notice", dirige-se a todos os que valorizam a sua visão ("To All Who Value Their Sight") e confirma os detalhes divulgados na notícia do jornal em português. Através dele, informa-se que o Sr. Laurence, representante da conceituada firma de óticos Laurence & Mayo - com presença em Londres, Calcutá e Bombaim, visitará Macau na segunda-feira, dia 6 de agosto de 1888. Durante a sua breve passagem de apenas dois ou três dias, dará consultas no Hotel Hing-Kee Hotel* (referido na notícia em português como Heng-kee).
Graficamente, a publicação destaca-se por uma ilustração central de uns óculos com olhos desenhados nas lentes, uma técnica de design tipográfico bastante comum no final do século XIX para atrair o olhar do leitor. Como estratégia de promoção e garantia de credibilidade, a peça inclui ainda uma declaração de apoio assinada por A. G. Romano, Cônsul-Geral de Portugal e do Brasil em Hong Kong. Datada de 25 de Julho de 1888, a nota consular atesta a elevada qualidade dos óculos do especialista, sublinhando que estes permitiam ler durante várias horas seguidas sem cansar a vista.
Notícia do jornal:

Oculista - Na secção competente publicamos um annuncio enviado pelo sr. F. Laurence, da acreditada firma de Laurence & Mayo de Londres, Calcutta e Bombaim, oculista de grande reputação. O sr. Laurence deve chegar a esta cidade no dia 6 do proximo agosto e demorar-se-á no hotel de Heng-kee dois ou tres dias, onde dará consultas ás pessoas que queiram aproveitar seu valioso serviço. O attestado do sr. A. G. Romano consul geral de Portugal e Brazil em Hongkong, que vem publicado em seguida ao annuncio do sr. Laurence, é um documento que torna recommendavel o serviço do insigne oculista.
O Hotel Hing Kee no final do século 19. Ficava na Praia Grande, onde está actualmente o Hotel Metrópole



quinta-feira, 24 de setembro de 2026

Carta do Comodoro Perry escrita em Macau em Outubro de 1853

Em Outubro de 1853, o comodoro Matthew C. Perry ancorou perto de Macau, no âmbito da sua missão de abertura do Japão ao comércio com os Estados Unidos. Pouco tempo antes, em Julho, Perry tinha entrado na Baía de Edo (atual Baía de Tóquio) com uma frota de navios para entregar uma carta do presidente Millard Fillmore, exigindo que o Japão abrisse os seus portos ao comércio americano. Após este contacto inicial, Perry deixou o Japão para dar tempo ao governo japonês para considerar o pedido e preparar-se para o seu regresso. Durante este intervalo, Perry ancorou nas proximidades de Macau e noutros locais da região, preparando-se para regressar ao Japão, um regresso que culminaria com a assinatura do Tratado de Kanagawa, em Março de 1854.
Nas imagens uma carta escrita em Macau pelo Comodoro Perry a 20 de Outubro de 1853. Na época Perry e a comitiva encontraram-se algumas vezes com Sarah, mulher de um comerciante dos EUA e que deixou um diário recentemente descoberto.
Na carta escrita a bordo do US Flagship Mississippi, o Comodoro Matthew C. Perry dirige-se aos reverendos Dr. House e Dr. S. Mattoon para sondarem a possibilidade de uma futura missão diplomática ao Sião (actual Tailândia). Tendo em vista a conclusão da sua missão no Japão, Perry pretende modificar e expandir o tratado existente entre os Estados Unidos e o reino do Sião, mas procura agir com prudência para evitar uma rejeição que prejudique as relações entre os dois países, tal como aconteceu numa tentativa anterior liderada por Mr. Ballestier. Para esse efeito, o Comodoro solicita aos missionários que auscultem discretamente a disposição do Rei do Sião e dos seus conselheiros. Esta sondagem deve ser apresentada como uma iniciativa pessoal dos próprios missionários, informando as autoridades locais de que Perry possui plenos poderes para negociar, mas que só viajará até Banguecoque com as suas fragatas a vapor se tiver garantias de uma recepção favorável.  Perry sugere ainda a ideia de incentivar o Rei a enviar um dos seus melhores navios aos Estados Unidos com oficiais para estudar as instituições americanas, citando os exemplos bem-sucedidos do Sultanato de Mascate e do Império Otomano. O Comodoro conclui explicando que enviou o documento em duplicado por correios diferentes para garantir a sua chegada, esperando que um convite oficial do Rei viabilize o início formal das negociações. 
Transcrição:

US Flagship Mississippi
Macao October 20th 1853.
Rev.d Dr House.
Rev.d Dr S Mattoon

Dear sirs
Our friend the Rev.d Dr Parker of Canton informs me of his having written to you, with reference to a contemplated visit of mine to Siam, after I shall have accomplished my Japan mission.
He has doubtless intimated to you my desire to obtain some accurate information, as to the probability of a favorable reception by the King of Siam of any propositions, I might make, for modifying and enlarging the Stipulations of the present Treaty, between the United States and that Kingdom; and of inducing the King to send one of his finest ships to the United States, in charge of some of the most intelligent of his officers, that they might examine into our institutions, religious, civil, military, and commercial, and take back with them an account of what they shall have seen, as furnishing evidence of the advantages, that Siam would derive from a free and mutually liberal intercourse with us.
I am well aware of the impolicy of taking any steps in this business, until I can learn of a certainty, whether the King and his advisers would receive my proposition with favor, and be disposed to enter into friendly negotiation.
Another failure following that of Mr Ballestier, would put our relations on a worse footing than they now are, and this is the object of my addressing myself to You, to ask as a particular favor, that You would, if it be at all practicable, ascertain the feelings and disposition of the King and his Counselors, with respect to any diplomatic visit, I might make to Bankok.
These inquiries should be made, as if emanating directly from Yourselves as Americans, and well wishers of a more friendly understanding between the two Countries; You might say, that You have been credibly informed, that Commodore Perry has been charged with full powers to negotiate with Japan, Siam, Cochin China, and other Eastern Nations, but he is not disposed to make any advances towards Siam, until he is well assured, that such friendly demonstrations would be met in the same frank and liberal spirit, that the United States as a Nation is very powerful, and any rejection of proffers made by an accredited Ambassador of that Country, would if treated cooly, give great offence, that a reciprocal treaty with a nation of such vast commercial resources must result to the advantage of the weaker power; and if Commodore Perry could have sufficient proof from any authentic source, that a visit from him with one or more of the splendid Steam Frigates, he has under his command, would be favorably received, he would doubtless go to Siam, and pay his respects to the King. —
When at Galle in Ceylon in March last, I saw a Siamese Sloop of war at that Port, and was visited by her Captain, and some Buddhist Priests, who were on a pilgrimage to a Temple near by; I sent the Second King of Siam, the one who speaks English so well, a trifling present; since then a Siamese vessel at Whampoa has at the request of her Captain, been assisted by one of my Ships; these little acts are proofs of our friendly disposition towards the Siamese; and I feel assured, that if the King would send one of his Ships whether with cargo or not to the United States, the result would be most gratifying to him. —
The Sultan of Muscat sent some years ago a sloop of war to our Country, and her officers were treated with great kindness and distinction, the same with respect to an officer, sent a short time ago by the Sultan of Turkey to the United States.
If the King of Siam determines on despatching one of his ships, whether on a voyage for observation, or commerce, or both, it will give me pleasure to offer my services in every possible way, to facilitate so desirable an object. —
You will, my dear Sirs, readily understand the motives which actuate me in this delicate business, and whilst You are acting seemingly to effect some object desirable to Your own wishes, You may be the means of obtaining such information, as will make a visit of mine of great advantage to both Nations. If it were possible to bring about an invitation from the King, that I should visit Siam, negotiation would follow as a matter of course. —
I send a copy of this letter to each of you gentlemen; and by different mails in the possibility of the miscarriage of one of them.
Very respectfully
Your obedient Servant
M. C. Perry
Commander in Chief U.S. Naval Forces

segunda-feira, 14 de setembro de 2026

Troço da Rua do Hospital no início do século 19

Intitulado "Part of the Hospital Street near the Franciscan Gate - Macao. The redoubt named Nostra Senhosa Gaya on the Hill" - 'Parte da Rua do Hospital* perto da Porta Franciscana - Macau. O reduto na colina chama-se Nossa Senhora da Guia" este desenho é da autoria de John Michael Houghton (c. 1797-1874), um aspirante a oficial que serviu a bordo do HMS Discovery como parte de uma escolta naval que andou pelo sul da Ásia nos primeiros anos de 1800.
A Rua do Hospital corresponde à actual Rua Pedro Nolasco da Silva (desde 1942). A Porta Franciscana referida era uma das existentes na muralha que circundava a a chamada cidade cristã, separando o núcleo urbano do resto da península. Esta porta em concreto permitia a passagem para a zona do campo que posteriormente dava acesso, por exemplo, à fronteira terrestre com a China continental onde fica a Porta do Limite (a versão edificada pelos chineses) e que era aberta em alguns períodos para permitir a entrada de víveres em Macau.
E não foi o único desenho que Houghton fez em Macau. Desenhou ainda, por exemplo, o "Franciscan Monastery at Macao, taken from the window of the Swedish Factory", ou seja, o "Mosteiro de S. Francisco em Macau, visto da janela da Feitoria Sueca."
A passagem do navio Discovery (e de outros navios homónimos) por Macau no início do século XIX insere-se num período de forte tensão geopolítica, exploração hidrográfica e conflitos pelo comércio no Sul da China. O Discovery era um navio de levantamento hidrográfico e exploração Companhia das Índias Orientais (East India Company / EIC). Sob o comando do Capitão Daniel Ross (1780-1846) - conhecido como o "Pai da Hidrografia na Índia" - o Discovery realizou intensos levantamentos cartográficos no Mar da China Meridional, no Estreito de Malaca e ao longo da costa chinesa na primeira e segunda décadas de 1800.
Macau servia frequentemente como o porto de reabastecimento, refúgio contra tufões e ponto de apoio diplomático e logístico para a tripulação.
Em Novembro de 1807, num período de grande atrito entre o Império Qing, os britânicos e as autoridades portuguesas em Macau, o Discovery esteve envolvido na apreensão e inspecção de embarcações suspeitas ao largo das águas de Macau, gerando protestos das autoridades chinesas de Cantão devido à violação da soberania territorial e comercial chinesa.
Naquele início do século XIX a presença de navios de guerra e de exploração britânicos em Macau intensificou-se drasticamente devido às Guerras Napoleónicas. Com a invasão de Portugal por tropas francesas, a Marinha Real Britânica enviou uma frota militar para Macau com o pretexto de "proteger" o território português de um eventual ataque francês. As autoridades portuguesas de Macau e o governo Qing opuseram-se firmemente ao desembarque e à presença de navios de guerra britânicos na baía de Macau. O impasse forçou o recuo britânico após os chineses ameaçarem cortar o abastecimento de mantimentos a Macau e o comércio estrangeiro em Cantão.

sábado, 12 de setembro de 2026

Fotografia das ruínas de S. Paulo ca. 1861/63 por Marshall Milton Miller

Ex-libris por excelência de Macau, as vulgarmente designadas ruínas de S. Paulo, (fachada da igreja Mater Dei erguida em 1602 e destruída num incêndio em 1835), encerram uma história secular de um espaço ímpar que teve múltiplas funções. Actualmente é uma atracção turística e um museu a céu aberto, mas começou por ser um imponente templo católico depois universidade, quartel e cemitério. 


O fotógrafo Marshall Milton Miller (1830-1899) chega a Hong Kong a 19 de Julho de 1860 oriundo de S. Francisco (EUA). Trabalha na Weed & Howard cujos escritórios passa a ocupar a partir de Janeiro de  1861. Adquire o estúdio e espólio desta empresa de fotografia conforme atesta um anúncio publicado na imprensa da então colónia britânica.

No anúncio publicado no "The China Directory for 1862" pode ler-se:

Photography 
Mr. M. Miller, late Operator and Successor to Messrs Weed & Howard, begs to inform residents and visitors of Hongkong, that he has fitted up the room lately occupied by Mr Howard, on the Parade Ground, and is now prepared to take PHOTOGRAPHIC PICTURES of all kinds. Likenesses from Miniature to Life Size, Views of Houses & c., executed at short notice. As his stay at the above place is limited, those wishing his services will please call early. A Collection of Views of various places for sale.
Hongkong, 1st January 1861.

Fotografia
O Sr. M. Miller, antigo operador e sucessor dos Srs. Weed & Howard, tem a honra de informar os residentes e visitantes de Hong Kong de que preparou a sala recentemente ocupada pelo Sr. Howard, no Parade Ground, encontrando-se agora preparado para tirar FOTOGRAFIAS de todos os tipos. Retratos desde miniaturas até ao tamanho natural, vistas de casas, etc., executados com curto prazo de entrega. Como a sua permanência no local supracitado é limitada, solicita-se a quem desejar os seus serviços que se dirija ao local o quanto antes. Encontra-se também à venda uma coleção de vistas de vários locais.
Hong Kong, 1 de Janeiro de 1861.

Na época era um dos três fotógrafos em actividade em Hong Kong sendo a morada "Parade Ground". Em Agosto de 1861 estabelece durante um mês o "Guangzhou Studio", na North Parade Ground, na parte velha da cidade de Cantão
Uma notícia de 21 de Setembro de 1861 do jornal  Friend of China and Hongkong Gazette informa que Miller fora alvo de um roubo de uma caixa de negativos.
Nessas 'deambulações' temporárias pela China continental, Miller visita Macau várias vezes fotografando a Praia Grande, os telhados na zona do Porto Interior, View in Macao - Showing Fort on the Hill, a Gruta de Camões e as ruínas de S. Paulo. Em 1863 Miller regressou aos EUA.
Esta fotografia é raríssima e é muito provavelmente a primeira do actual ex-libris de Macau. Foi feita entre 1861 e 1863 menos de 30 anos depois do fogo que destruiu o colégio jesuíta de S. Paulo e a igreja Mater Dei anexa em Janeiro de 1835. Ainda podem ver-se algumas paredes de pedra que suportavam o tecto feito em madeira. Junto à parede posterior pode ver-se uma estrutura abobadada com uma cúpula. Outro aspecto importante a destacar é o facto da torre campanária que existia do lado direito da fachada principal da igreja já não aparecer na imagem. Muito provavelmente, esta e outras partes das paredes que ficaram danificadas foram utilizadas para a 'construção' nas traseiras da igreja de um cemitério, o cemitério de S. Paulo, para uso da população católica e que só seria desactivado com a construção em 1854, fora dos limites da cidade, do Cemitério de S. Miguel.
Note-se o facto de na altura ainda não existir o templo Na Tcha, que seria construído nas traseiras da antiga igreja Mater Dei em 1888.

sexta-feira, 11 de setembro de 2026

"Tomb of Lord John Churchill at Macau": 1840

Estes desenhos aquarelados feitos a lápis e caneta com tamanho 14x19cm foram vendidos num leilão em Londres em Julho de 2026 por pouco mais de 5 mil libras. Sem indicação do autor é muito provavelmente uma obra de um autor britânico, militar integrado no contingente que na época combatia as forças chinesas em plena primeira guerra do ópio.
O lote incluía: 
- 4 folhas com esboços de figuras humanas chinesas (estudos) 
- uma ilustração da batalha a 25 de Maio de 1841 mostrando ataques ingleses a Cantão a partir das colinas que circundavam a cidade.
- ilustração panorâmica em duas folhas intitulada "Macau/Fort St Francis, June 16th 41'"
- desenho a lápis aquarelado a cores com a legenda "Lord John Churchill's Monument at the burial ground at Macau, 1840"
- desenho a duas folhas com a legenda "Tomb of Lord John Churchill at Macau"
Lord Henry John Spencer-Churchill, foi um oficial naval britânico de alta patente. Em 1839 assumiu o comando do navio de guerra HMS Druid da Royal Navy (Marinha Real Britânica) e um ano depois seguiu para a região de Macau para se juntar à frota britânica que se concentrava para a Primeira Guerra do Ópio. Acabou por contrair disenteria grave a bordo morrendo em Macau a 2 de Junho de 1840, com 42 anos de idade. Foi sepultado no cemitério protestante, um local histórico hoje classificado como Património Mundial da UNESCO. O seu túmulo ostenta o brasão de armas da família Churchill e um monumento erguido pelos seus oficiais em sinal de estima e afecto.
O cemitério remonta a 1815 quando o proprietário e comerciante português Manuel Pereira arrendou/cedeu parte da sua extensão propriedade (o actual Jardim de Camões e Casa Garden) à Companhia Inglesa das Índias Orientais, mesmo nos limites da então denominada cidade cristã. Aliás, parte dos muros que o delimitavam faziam parte da muralha que rodeava a cidade. Desses tempos ficou na toponímia local nomes como a Escada do Muro e rua do Patane. Esta última em chinês designa-se Rua do Muro de Pedra, e não é por acaso...
O desenho mostra ainda a Fortaleza do Monte com a bandeira da monarquia portuguesa e as traseiras da fachada da Igreja Mater Dei (Ruínas de S. Paulo).

segunda-feira, 7 de setembro de 2026

Carimbo da "Direcção das Obras Públicas de Macau" no séc. 19

Embora já existisse desde pelo menos 1845 o cargo de Inspector das Obras Públicas (exercido por um militar), a fundação do serviço de Obras Públicas no governo de Macau remonta ao mandato do Governador de Macau e Timor José Maria da Ponte e Horta (1866-1868) que face à necessidade urgente de reformar os serviços da administração pública nomeou várias comissões para propor alterações.
Carimbo da "Direcção das Obras Públicas de Macau" no séc. 19

Assim, a 18 de Setembro de 1867, uma comissão nomeada por portaria do dia 14 desse mês - composta por Francisco Maria da Cunha, major de artilharia, presidente, Jerónimo Osório de C. C. d’ Albuquerque, capitão às ordens, secretário e W. A. Read, E. C. - elaborou um relatório - publicado no Boletim da Província de Macau e Timor de 23 de Setembro de 1867 - onde é apresentado o projecto de organização de um corpo especial de obras públicas.

quinta-feira, 3 de setembro de 2026

"Material de guerra" em 1870

Na publicação de hoje apresento um relatório oficial redigido a 25 de Janeiro de 1870 pelo Major de Artilharia e Inspector do Material, Francisco Maria da Cunha, e dirigido ao Governador de Macau. Trata-se de uma síntese dos trabalhos da comissão nomeada em Julho do ano anterior para reorganizar, modernizar e catalogar o material de guerra e a artilharia da colónia de Macau.
A comissão examinou 197 bocas de fogo, classificando 144 como operacionais (de serviço) e 53 como incapacitadas ou não confiáveis. Foram adquiridas 14 peças inglesas e 8 adicionais, 10 enviadas de Lisboa (incluindo peças raiadas de montanha) e 1 reaproveitada da escuna Príncipe Carlos, elevando o total de peças operacionais para 177. As peças de campanha foram alocadas ao Batalhão Nacional (instrução), à 1.ª Companhia do Batalhão de Linha, ao Corpo de Polícia e à Fortaleza de S. Pedro, ficando algumas unidades guardadas em reserva.
O Forte de S. João foi desartilhado devido à ineficácia do seu alcance. O Forte de D. Maria manteve-se temporariamente guarnecido com caronadas. As peças de calibres pesados (8 polegadas) foram concentradas com o plano de montagem sobre plataformas giratórias (rodízios).
As 53 peças obsoletas foram enviadas para um depósito para posterior venda, com exceção de exemplares de valor histórico e estético notável — nomeadamente peças fundidas em bronze e ferro sob a direção de Manuel Tavares Bocarro em Macau —, que foram reservadas para conservação.
Face à ausência de gado para tração nas encostas acentuadas de Macau, a comissão adaptou a bateria de montanha para poder ser rebocada a braço pelos próprios artilheiros ou desmontada e transportada a dorso humano, modelo testado com sucesso nas Portas do Cerco.
Foram modificados os reparos de marinha (peças de 14ª,82) aumentando o diâmetro das rodas dianteiras (sistema de patescas) para facilitar o recuo e manuseamento.
Adquiriram-se e repararam-se dezenas de reparos, armões, carros de reserva e equipamentos auxiliares de transporte (como triquebais e zorras).
Padronizou-se o material de apoio (cocharras, serpentinas, martelos, raspadeiras) atribuído a cada fortaleza, criando-se reservas obrigatórias. Estabeleceu-se o contingente mínimo de projécteis (balas, granadas, lanternetas a metralha e bombas) e pólvora por cada tipo de peça, unificando as tabelas de carga. Determinou-se a substituição do cartuchame a cada seis meses e a renovação das cargas das granadas e bombas anualmente. Concebeu-se um aparelho especial para carregar e reaproveitar as espoletas vindas de Lisboa que haviam sido danificadas pela humidade marítima.
Foram reestruturados e armados os pontos fortificados do Bom Parto, S. Pedro, S. Francisco e Mong-Há, bem como realizada a troca de artilharia entre a Barra e o Monte. Na Fortaleza de S. Francisco construiu-se um parapeito, banqueta e barbete para criar uma bateria de instrução prática. Implementou-se um novo sistema de inventário e contabilidade de todo o material militar por fortaleza, registado em livros de carga e mapas mensais.
O relatório encerra com um louvor especial ao Capitão Manuel d'Azevedo Coutinho, reconhecido pelo desenho dos carros, armões e modificações técnicas nos reparos, além da direção das obras e movimentação de artilharia

Vista panorâmica ca. 1870

Exmo. Sr. Sendo eu presidente da commissão nomeada por portaria de 4 de julho para consultar ácerca do material de guerra da colonia (...) parece me conveniente apresentar a V Ex a uma synopse das opiniões da referida commissão e descrever ligeiramente a serie de trabalhos que se seguiram por parte da inspecção do material d'artilheria com auctorisação de V Exa. (...)

Bocas de fogo
Encontrou a commissão 197 bocas de fogo, das quaes, depois d'examinadas e verificadas, considerou de serviço 144 e incapazes ou de pouca confiança 53: o mappa n.º 1 descreve aquella classificação.
Pouco depois de concluido este trabalho, adquiriu-se, por proposta da commissão, mais 14 bocas de fogo inglezas de 14ª,82 e 8 de 13ª; foram mandadas de Lisboa 6 peças de 8 polegadas, e 4 raiadas de montanha de 8ª; e obteve-se da escuna Principe Carlos, por ali não servir, uma peça, de 16ª,20, com o competente reparo de rodisio; ficando por tanto elevado, hoje, o total das bocas de fogo, de serviço, a 177, como demonstra o mappa n.º 2; e o das de pouca confiança ou incapazes a 53, como se vê do mappa n.º 3.
Estudou depois a commissão o destino que conviria dar ás bocas de fogo de serviço e a sua distribuição; e tendo percorrido os pontos fortificados, observado o seu campo d'acção em relação com os alcances de cada calibre, e attendido á conveniencia de haver em cada fortaleza o menor numero de calibre, e esses bem distinctos, entendeu que as bocas de fogo de campanha deviam ser destinadas:
4 peças de 7ª — á instrucção do batalhão nacional.
4 das. de 8ª
4 obuzes de 12ª / — á 1.ª companhia do batalhão de linha.
1 do. de 12ª — ao corpo da policia.
4 peças de 9ª — a armar a fortaleza de S. Pedro.
Ficando, por tanto, em reserva:
4 peças de 5ª,2.
3 das. de 8ª,26.
1 da. de 9ª.

Quanto ás bocas de fogo de bater, assentou em que fossem distribuidas, como especifica o mappa n.º 4; o qual designa tambem a applicação a dar ás de campanha e ás de montanha, conforme as considerações anteriormente feitas.
Julgou-se igualmente acertado que o forte de S. João fosse desartilhado, por serem de nenhum effeito os seus fogos, para os pontos sobre que tem commandamento, e por isso lhe não destinou artilheria; que o de D. Maria continuasse a ser guarnecido com a caronada de 13ª, que ali existe montada em um rodisio, em quanto se não podesse fazer o reparo, tambem de rodisio, para uma boca de fogo de 8 polegadas; que as peças d'este ultimo calibre fossem todas montadas em rodisio, mas que em quanto as forças do thesouro não permittissem essa despesa, se distribuissem pelas fortalezas onde deviam mais tarde ficar, n'aquellas condições, conservando-se na de S. Francisco as destinadas á da Guia e a de D. Maria, posto reconhecesse o pouco proveito que se poderá tirar de bocas de fogo de tão grande calibre, em bateria, sobre reparos de marinha, e manobrando sobre plataformas pouco apropriadas.
Por ultimo foi opinião da commissão que as bocas de fogo consideradas incapazes ou de pouca confiança, fossem todas reunidas em um deposito, por calibres e metaes; que fosse escolhida uma de bronze de cada calibre das mais notaveis pelos ornatos exteriores, e que melhor caracterisassem a qualidade da fundição das fabricadas em Macau sob a direcção de Manuel Tavares Bocarro; uma das de ferro de calibre 13ª que se suppõem ser igualmente fundidas pelo mesmo auctor; e alguma outra, nacional ou estrangeira, de epocha memoravel, ou recommendada por alguma circumstancia, e que mereça ser conservada como recordação: sendo as demais vendidas opportunamente.

Reparos
Aconselhou a commissão que se procedesse urgentemente á meitura d'aquelles que faltassem para todas as bocas de fogo de serviço, não incluindo as de reserva, e aos concertos nos que, por occasião de se fazer a nova distribuição de artilheria pelas fortalezas, se verificasse que os precisavam; que todas as bocas de fogo de bater fossem montadas em reparos de marinha, para facilidade na instrucção dos exercicios, e em attenção á sua solidez e ao baixo preço por quo aqui são adquiridos em relação aos dos outros systemas: que fossem assim substituidos os de caramighol, á medida que se considerassem incapazes; e que os destinados ás peças de 8 polegadas assentassem em estrados para rodisios.
Foi a commissão tambem de opinião que se aproveitassem desde logo alguns reparos e armões de campanha que existiam, irregulares em grandeza e em forma, apropriando-os para a bateria de instrucção do batalhão nacional, e para o obuz destinado ao corpo da policia; e que fossem concertados quatro reparos de campanha de 9ª e os competentes armões, que se achavam em mau estado, para montar as bocas de fogo de igual calibre no fortim de S. Pedro.
Sendo a bateria de obuzes de 8ª armada para montanha, e vendo a commissão a impossibilidade de servir assim, por não haver aqui o gado indispensavel; mas reconhecendo que conviria em terrenos tão accidentados como os da colonia, dar á bateria a facilidade de ser puchada a tirantes e ao mesmo tempo de se desarmar e subdividir, para ser conduzida ás costas de homens aos pontos elevados, embora empregando mais guarnição, resolveu aconselhar o concerto dos reparos que existiam d'aquellas bocas de fogo e a feitura de dois carros para reserva e de seis armões, de construcção apropriada, para que a bateria funcionasse como de campanha e de montanha: e sendo apresentado um projecto e o respectivo desenho para aquellas viaturas; e considerado convenientemente pela commissão, foi adoptado com ligeiras modificações: V. Ex.ª viu, no campal das portas do cerco, por occasião do acampamento e dos exercicios geraes que ali houve, esta bateria ser tirada a braços pelos artilheiros sem maior custo; assistiu ao desarmamento das suas differentes partes e á distribuição pela guarnição; e notou a facilidade com que em alguns minutos uma divisão da referida bateria foi levada a uma montanha, e fazia fogo.

Mandou V. Ex.ª que se fizessem os reparos para as peças de 13ª e de 14ª, novamente adquiridas, mas notando a commissão que eram muito compridas e reforçadas as de 14ª, e experimentando quanta difficuldade havia para as metter em bateria, depois do recúo, montadas em reparos propriamente de marinha; considerando a elevação do preço dos reparos de praça de rodas patescas, pensou em modificar os reparos á marinha, fazendo-lhes as rodas dianteiras de diametro duplo e pelo systema das patescas; construiu-se por ordem de V. Ex.ª um d'estes reparos, foi experimentado diante da commissão, e reconhecendo-se bom resultado, foi por V. Ex.ª mandado adoptar, como modêlo. Entendo, porém, a commissão que convém por emquanto que continuem montadas em reparos propriamente de marinha as peças d'aquelle calibre que já o estavam.

Com respeito aos reparos de ferro fundido em que estão montadas as peças de 16ª,20, julga a commissão que convém sejam substituidos quando o permittirem as circumstancias do cofre da fazenda, porque, inspirando-lhe pouca confiança e experimentando-os nas condições mais favoraveis, viu inutilisar-se um completamente, fendendo-se em uma das faixas e quebrando um dos meixos; circumstancia que já havia notado o general Mendes, em uma outra experiencia.
Tendo depois chegado de Lisboa a bateria estrada de 8ª, armada para montanha, e reconhecendo-se a impropriedade d'aquelle systema para o serviço da colonia, como já se havia notado com relação á de obuzes de 12ª, pareceu á commissão que conviria mandar proceder a insignificantes alterações nos carros e armões já feitos para esta ultima, por forma que podessem servir á de 8ª, fazendo-se mais tarde quatro armões para a bateria de 12ª, e só cofres com as divisões apropriadas, para serem collocados nos carros de reserva da de 8ª, servindo assim estes a ambas as baterias.

Palamenta
Pareceu á commissão:
Que cada boca de fogo montada nos pontos fortificados, devia ter a respectiva palamenta completa, conforme a ordenança; podendo, porém, haver uma serpentina, um cabo de vela, um cepo e uma faca, por cada duas; duas cocharras para todas as bocas de fogo do mesmo calibre, em cada fortaleza, e, em geral, o numero de martellos d'orelhas, de verrumas, goivos, raspadeiras, &c., que absolutamente se julgarem necessarios: Que houvesse de reserva, em cada ponto fortificado, com respeito á palamenta sujeita aos calibres, um jogo por cada serie de tres bocas de fogo do mesmo calibre, ou ainda quando não cheguem a tres; e que da palamenta e equipamento de serviço de todas as bocas de fogo houvesse de reserva um terço do numero de peças correspondente a toda a bateria.
Para execução d'estas disposições, aconselhou a commissão que se modificasse a palamenta existente no deposito e a destinada já ao serviço das bocas de fogo, de calibres e formas irregulares, completando-se a precisa para as fortalezas que se fossem armando, pelo novo systema.

Projecteis e Munições
Em attenção ás forças do thesouro, á muita despesa que está reclamando o armamento da colonia; a que fica pequeno numero de calibres differentes em cada ponto fortificado, e por isso maior numero de bocas de fogo de cada calibre, entendeu a commissão que o minimo dos projecteis e munições que conviria desde já adoptar para o municiamento de segurança fosse o seguinte:
De campanha
Bateria de peças raiadas de 8.ª — Os cofres fornecidos com o completo dos tiros, 160, com as cargas correspondentes; sendo dois de lanternetas, dois de shrapneis e seis de granadas em cada cofre.
Dita d'obuzes de 12.ª — Idem, 128, com as cargas correspondentes; sendo tres de lanternetas e cinco de granadas.
Obuz de 12ª do corpo da policia. — Idem, 18, com as cargas correspondentes; sendo 9 granadas e 9 lanternetas.
De bater
Balas. — 50 por cada boca de fogo.
Granadas para peças. — Duas carregadas e espoletadas, e tres descarregadas, por boca de fogo.
Lanterneta a metralha em geral. — Cinco tiros por boca de fogo.
Bombas. — Vinte por cada morteiro, sendo cinco carregadas.
Granadas para obuzes. — Idem.

Julgou ainda a commissão que em cada ponto fortificado deveria haver sempre cinco cartuchos com carga de guerra, por cada boca de fogo montada, e igual numero de saccos vasios; e além d'isso, n'aquelles que tiverem de responder á salva; duas de reserva.
Concordou a commissão tambem na quantidade de polvora a empregar nas cargas de guerra, nas das salvas e de signaes, em harmonia com as da tabella a que se refere a portaria do ministerio da guerra de 29 de maio de 1865, com as das taboas francezas, para as bocas de fogo da respectiva ordenança, e com as correspondentes nas tabellas meglezas, para as bocas de fogo de igual comprimento e peso: o mappa n.º 5 refere-se a este trabalho.

Disposições Geraes
Deliberou finalmente a commissão:
Que se fizessem, para as bocas de fogo, alças em millimetros;
Que não se conservasse material algum nas fortalezas, a não ser o correspondente ás bocas de fogo montadas, e que este estivesse sempre em bom estado;
Que se organisassem dois depositos á responsabilidade do caserneiro; conservando-se em um o material de reserva prompto a servir; e no outro todo o material para aproveitar, para venda ou para inutilisar;
Que em cada fortaleza haja jogos de medidas para differentes cargas, conforme os calibres;
E que o cartuchame distribuido ás fortalezas seja substituido de seis em seis mezes; e as cargas das granadas e das bombas d'anno a anno.
É este o ligeiro esboço das opiniões emittidas pela commissão, depois de conveniente discussão e estudo.
Em execução das ordens de V. Ex.ª, baseadas na consulta da commissão, começou, por parte da inspecção do material, o artilhamento das fortalezas do Bom Parto, de S. Pedro, de S. Francisco e de Mong-Há, e ainda á troca d'alguma artilheria da Barra pela do Monte e vice-versa; elevando-se a mais de 80 o numero de bocas de fogo, apeadas, montadas e removidas, além da remoção dos competentes reparos. Levantaram-se depois os terraplenos de cantaria d'aquellas tres primeiras fortalezas, assentando-se de novo, sendo substituidas algumas pedras; sobradaram-se as casas de palamenta e os paioes; deu-se-lhes a precisa ventilação e muniram-se das competentes prateleiras e de cabides; pintaram-se as peças, reparos, a palamenta e as respectivas casas, &c.
Construiu-se, com auctorisação de V. Ex.ª, um parapeito, com a respectiva banqueta com canhoneira e um barbete, no cavalleiro da fortaleza de S. Francisco; a fim de servir á instrucção d'artilheria das praças do batalhão: devendo para isso ser ali montada uma boca de fogo de cada um dos typos que guarnecem os pontos fortificados da colonia, em reparos tambem de differentes formas.
Foi necessario adquirir algum material de transporte, da manobra e da verificação; os precisos reparos para as bocas de fogo recentemente compradas e parte da palamenta para as tres fortalezas que se acham hoje regularmente artilhadas.
Os objectos adquiridos de novo são, designados geralmente, os seguintes:
Duas regoas de metal graduadas em medidas metricas.
Trinta e uma passadeiras de metal.
Um triquebal completo.
Uma zorra sem rodas.
Dormentes.
Vigotas.
Bimborras.
Rodos.
Cem espeques de manobra.
2 reparos de marinha para peças de 14ª,82.
10 ditos de igual calibre modificados.
8 de 13ª propriamente de marinha.
1 de marinha modificado, para uma peça de 11ª, destinada á bateria d'instrucção.
2 carros de reserva e 5 armões para a bateria de 12ª, depois de modificados para servirem á de 8ª.
3,000 balas de 16ª,20.

Fizeram-se além d'isso tambem de novo ou compraram-se:
Tapas.
Lemes.
Botas-fogo.
Serpentinas.
Gancho de ferro para conducção de bombas.
Facas para cortar velas.
Martellos.
Diamantes.
Cadeados para armões.
Bolsas.
Tirantes com cassonetas de pau e de ferro.
Prolongas com cadeias e ganchos.
Tacos para balas e para lanternetas.
Chapas de ferro para os fundos das mesmas.
E outras miudezas.

Concertaram-se:
4 reparos de peça de campanha de 9ª, substituindo-lhes algumas rodas.
4 ditos de obuzes de 12ª.
1 dito e o correspondente armão tambem de 12ª.
4 ditos de 7ª.
Uma zorra de rodas baixas, &c., &c.

Tendo-se encontrado, como V. Ex.ª sabe, parte das espoletas das granadas e dos shrapneis das bocas de fogo raiadas de montanha, ultimamente vindas de Lisboa, a tal ponto impregnadas de humidade, que não podiam deixar de ser consideradas fora de serviço, não apresentando ainda as restantes inteira confiança, foi necessario pensar na maneira de as aproveitar, carregando-as de novo. Foi mandado fazer um apparelho, que V. Ex.ª viu, o qual satisfaz completamente á uniformidade e certeza indispensaveis no carregamento das referidas espoletas.

Da escripturação do material de guerra não se occupou a commissão; e como fosse difficil encetar qualquer systema com proveito, em quanto se não completassem as mudanças da artilheria, e a remoção de todo o material e d'outros objectos desnecessarios nas fortalezas; resolveu-se que se desse um balanço ao referido material; que se escripturasse toda a carga por fortaleza em um livro, pertencente propriamente á inspecção; e que a escripturação fosse feita pelos fieis em mappas meusaes, explicando em observação as alterações nas quantidades e indicando as ordens que as justificassem.

Terminando, devo dizer a V. Ex.ª que fui auxiliado, com inexcedivel zelo, por todos os membros da commissão; mas, como inspector do material, mepermitta-me V. Ex.ª que especialise mais uma vez os serviços prestados pelo capitão Manuel d'Azevedo Coutinho, o qual confeccionou o projecto e os respectivos desenhos para a construcção dos carros e armões da bateria mixta de montanha e de campanha, e para as modificações nos reparos de marinha para as peças de 14ª,82; apresentou a ideia no apparelho para o carregamento das espoletas das granadas e dos shrapneis; dirigiu mequellas construcções e a do triquebal, os concertos no material, e o movimento da artilheria; e mesatisfez, em geral, com intelligencia e dedicação a tudo de quanto o encarreguei neste ramo de serviço, o qual desempenhou comulativamente com o do batalhão, sem que qualquer d'elles se ressentisse de tanta accumulação de trabalho.
Releve-me V. Ex.ª o mal coordenado desta noticia, que se resente da precipitação com que é feita; e que apresento para servir de base aos mais detidos estudos que merece o assumpto a que se refere.
Macau, 25 de janeiro de 1870.
Francisco Maria da Cunha,
Major d'artilheria, inspector.

sábado, 29 de agosto de 2026

Praia Grande num guache sobre papel de medula

Vista da Praia Grande
guache sobre papel de medula (pith paper) com linhas de enquadramento pintadas 
17,8 x 28,5 cm
Primeira metade do século 19

View of the Praya Grande, Macau
gouache on pith paper with painted framing lines
17.8 x 28.5cm
Early 19th century

澳門南灣風光
水粉 - 帛本 - 附畫框線
17.8 x 28.5厘米
19世纪上半叶

Vista panorâmica da baía da Praia Grande a partir da Fortaleza do Bom Parto, um dos temas mais emblemáticos da arte de exportação chinesa (China Trade paintings) da primeira metade do século XIX produzida nos ateliers de pintura de Cantão e Macau destinadas ao mercado ocidental e por norma sem assinatura do autor.

Panoramic view of Praia Grande Bay from the Bom Parto Fort, one of the most emblematic themes of Chinese export art (China Trade paintings) from the first half of the 19th century. Produced in the painting workshops of Canton and Macau for the Western market, these works were typically unsigned by the artist.

《从烧灰炉炮台远眺南湾景色》,为十九世纪上半叶外销画(中国外销画)中最具代表性的题材之一。此类画作多由广州及澳门的画室为西洋市场绘制,按惯例均无作者签名。

domingo, 23 de agosto de 2026

Uma visita guiada em 1867

Entre 11 e 14 de Fevereiro de 1867 o jovem Conde Ludovic de Beauvoir, acompanhando o Duque de Penthièvre numa viagem à volta do mundo, visitam Macau. Partiram em Abril de 1866 e visitaram a Austrália, a ilha de Java, o Sião, Hong-Kong, Macau e Cantão, depois a China do Norte, o Japão e a Califórnia e voltaram para França em Setembro de 1867.
Os viajantes franceses chegaram a Macau vindos de Hong Kong a bordo do vapor a pás Fire-Dart e partiram em direcção a Cantão poucos dias depois.
Dois anos depois o conde publica um livro sobre a viagem. Num tom muito crítico resume o declínio económico da cidade afirmando que, se não fosse o êxodo forçado dos cules e o lucrativo contrabando de ópio, a "erva cresceria nas ruas de Macau abandonada". Para ele, o dinamismo comercial tinha sido totalmente absorvido pela vizinha Hong Kong britânica, restando a Macau a dependência deste comércio humano degradante e que só seria proibido uma década depois.

Excertos do diário a 12 de Fevereiro (tradução/adaptação) publicado em Voyage autour du monde: Java, Siam, Canton" logo em 1869:
"Graciosamente conduzidos durante a primeira parte do dia por Dom Osório, ajudante de campo do Governador, e durante a segunda por Sua Excelência em pessoa, Dom José Maria da Ponte e Horta, major de artilharia, visitamos hoje toda a possessão, o que é fácil, visto parecer-me ter cinco quilómetros de comprimento por dois de largura. Esta península tem exatamente a forma de uma pegada humana, cujo calcanhar está voltado para o mar, enquanto o polegar termina numa língua de terra com quatrocentos metros de largura que a une à grande ilha de Hiang-Chan.
O calcanhar é formado por nove altas colinas rochosas que dominam os fortes de Bom Parto, Barra, São João e São Jerónimo; a grande curva interior da planta do pé está preenchida pelas habitações amontoadas dos chineses, que são em número de cento e vinte e cinco mil, enquanto os dois mil residentes portugueses estão domiciliados no lado oposto e exterior. A Praia Grande, esplanada marítima, é o seu boulevard; solares de grades escuras, o Palácio do Governador, a Capitania do Porto, vivendas oficiais ou comerciais estão ali alinhadas, apresentando absolutamente o cunho colorido, arqueado e monástico da mãe-pátria.
Suponha-se então que uma muralha escala o peito do pé (...) e que todas as articulações dos dedos se crispam e se erguem; não são mais do que montanhas em sobressalto no topo das quais se erguem os fortes de São Francisco, da Guia, de São Paulo do Monte e sete ou oito outros; depois vêm a planície cultivada pelos hortelãos, a aldeia de Mong-Há e a barreira de dezasseis pés de altura que separa a colónia do território chinês.
As estradas que seguimos na nossa interessante viagem são escavadas em cornija no granito e do efeito mais pitoresco; uma centena de canhões de grande calibre apontados nas alturas partilham a tarefa de defender a península do lado do mar envolvente ou de bombardear o bairro das cento e vinte e cinco mil tranças em caso de motim.
Depois visitamos a Praça da Sé, a catedral, os velhos paços do concelho onde fica o Senado e onde figura esta inscrição desde 1654: CIDADE DO NOME DE DEOS NAO HA OUTRA MAIS LEAL. 
Percorremos os quartéis, os mosteiros, a igreja de São Paulo construída em 1594 pelos Jesuítas e hoje três quartos incendiada, o Asilo dos Pobres, etc., etc.; numa palavra, uma série de edifícios antigos e cristãos encimados por cruzes, ornados com santos em nichos, cobertos de frescos curiosos. Adicione a mantilha que esconde a cabeça das mulheres, o imenso chapéu preto e oblongo sob o qual caminham os monjes, a cornoita branca das Freiras da Caridade, e jurar-se-ia, garanto-lhe, que estamos à sombra das basílicas de Lisboa ou de Génova.
Após os espetáculos modernos que nos acabam de dar, há dez meses, os mundos inteiramente novos e os mundos asiáticos onde, pelo menos, a invasão industrial tem todo o cunho da atualidade, é como uma ilusão encontrar à porta do Império do Meio uma caixa de doces antiga, com ruínas cristãs que parecem atestar que não houve nesta terra distante senão os nossos velhos monumentos e as nossas velhas crenças. (...)
O crepúsculo está a terminar no momento em que termina também para nós o território da colónia: estamos sobre a estreita língua de terra que liga Macau a Hiang-Chan. A cerca de duzentos metros de nós, tanto à direita como à esquerda, quebram-se as vagas da maré montante, e a barreira granítica do Império chinês detém-nos. Ei-lo, pois, o famoso solo onde flutua livremente a bandeira amarela do Imperador!*
Mas que desilusão! É coberta de imundícies, de podridão e dos trapos dos descendentes do Fogo que nos aparece a Terra Celestial das Flores. Um grupo de cerca de sessenta homens vestidos de branco, batendo em tam-tams e uivando com uma voz aguda, leva um morto a sepultar e desfila diante de nós (...). 
Foi neste mesmo lugar que morreu assassinado o penúltimo Governador de Macau, o valente Ferreira do Amaral. Tendo tomado em mãos a reivindicação inteira de Macau por Portugal, atraiu a si a cólera dos mandarins de Cantão, que queriam a todo o custo manter os seus esbirros com paridade de autoridade na colónia portuguesa. Não recorreram à guerra aberta e lutaram pelo homicídio, o que lhes custava bem menos caro: a 22 de Agosto de 1849, os seus sicários lançaram-se sobre Amaral no momento em que ele passeava a cavalo ao longo desta muralha com um ajudante de campo, e levaram até aos pés do Governador de Cantão a cabeça e as mãos ensanguentadas do desgraçado oficial. (...)"
* Porta do Cerco

segunda-feira, 10 de agosto de 2026

A 'febre' das bicicletas no início do século 20

Data de 1899 a criação da primeira empresa dedicada à construção, venda e conserto de bicicletas e riquexós. Denominada Macao Cycle Depôt, pertencia a L. A. da Silva e estava localizada nos números 97 e 99 da Praia Grande.
No início do século 20 era Carlos Ayres o proprietário da empresa que importava marcas como a "Raleight" de Inglaterra . O entusiasmo pela nova modalidade de passeio foi tal na sociedade macaense que nessa altura já existiam cerca de uma dezena de estabelecimentos onde era possível alugar bicicletas.
Num anúncio da empresa em 1910 podia ler-se:
MACAO CYCLE DEPOT
Esta conhecida e antiga loja de bicycletas acaba de receber de Londres uma remessa de bicycletas para homens e senhoras e de varios outros accessorios, taes como: cornetas acusticas, lanternas, travões, gomma, tinta, rodas, borracha interna e externa, presilhas para calças, etc. etc. Vão ser postas á disposição do respeitavel publico para aluguel muitas bicycletas novas. Pede-se aos amantes do sport de bicycletas uma visita a este estabelecimento onde se encontram á venda todos os accessorios de bicycletas e machinas completas por preços convidativos.
Macau, 28 de março de 1910.
Carlos Ayres.
Num relatório da polícia local de 1920 descreve-se o número de bicicletas como um "formigueiro perigoso" registando-se inúmeros acidentes, nomeadamente com peões e os primeiros carros que circulavam na cidade.
Perante este cenário de caos, o Leal Senado viria a criar três espaços (com diferentes horários) para se aprender a andar de bicicleta: no Campo de Mong-Há, na Avenida da República (desde o Tanque dos Mainatos até à Fortaleza da Barra) e na Avenida Vasco da Gama.
Ao mesmo tempo no Código de Posturas da cidade os agentes de autoridade tinham responsabilidade de fiscalizar com mais afinco a circulação de bicicletas e aplicar multas. Bicicleta sem campainha dava lugar a uma coima de duas patacas. A falta de lanterna custava uma pataca de multa.

domingo, 9 de agosto de 2026

Rotunda Tenente P. J. da Silva Loureiro / 盧伯德圓形地

A Rotunda Tenente P. J. da Silva Loureiro fica junto à Fortaleza da Taipa e não é por acaso...
盧伯德圓形地
盧伯德: Transliteração fonética de Loureiro
圓形地: significa terreno circular/rotunda


Filho de José da Silva de Loureiro (1745-1820) e de Genoveva Flora Joaquina da Cunha (1753-1833) ambos nascidos e falecidos em Ponta Delgada, Pedro José da Silva Loureiro nasceu em Ponta Delgada (Açores) a 29 de Junho de 1792.
Chegou pela primeira vez a Macau, como guarda marinha, acabando por fazer quase toda a sua carreira militar no Oriente. Em 1824 foi promovido a 2.º tenente da Armada e a 1.º tenente em 1853, sendo reformado em capitão de fragata da Armada de Goa.
Foi durante alguns anos capitão do porto de Macau sendo encarregado pelo Governador Ferreira do Amaral de construir o Forte da Taipa, facto que marcou a ocupação definitiva daquela ilha. Foi também comerciante, sendo eleito almotacé da Câmara em 1827. Casou em Macau (S. Lourenço) a 12-04-1826 com Ana Rosa Inocência do Espírito Santo Pereira de Almeida. Tiveram 16 filhos. Quatro deles, Luís, Pedro, Francisco e Eduardo frequentaram o Seminário de S. José em 1840.
Morreu a 16 de Setembro de 1855 de "uma apoplexia fulminante". Era 1.º tenente da armada. Foi sepultado no Cemitério de S. Miguel.
Notícia no Boletim da Província de Macau, Timor e Solor a 22 de Setembro de 1855:
Necrologia.
No dia 16 do corrente ás 5 horas da manhã falleceu o 1o. Tenente da Armada Pedro José da Silva Loureiro, Capitão do Porto de Macau. Uma apoplexia fulminante o roubou a este mundo, e cobrio em um instante de pesado luto a sua extremosa e inconsolavel familia.
Era um portuguez estabelecido ha muitos annos em Macau onde o prendeu o amor, que sempre consagrou a sua carinhosa e triste esposa.
Excellente pai, empregou todos os meios ao seu alcance para educação de seus filhos, objecto de seus disvellos e do seu orgulho, e morreu aos 63 annos de idade, legando-lhes essa riquesa que nenhuma das vicissitudes do mundo pode jamais tirar.
Numeroso concurso de pessoas entre os quaes se viam as mais notaveis da Provincia, tanto nacionaes como estrangeiras, acompanharam o enterro ao cemiterio de S. Miguel, e uma guarda do Batalhão de Artilheria com a banda de musica do mesmo corpo, e commandada por um official de patente igual á do fallecido, lhe fez as honras funebras do estilo.
Foi sepultado as 6 horas da tarde.
Deos lhe conserve a alma em sua santa gloria, e seu corpo descance em paz.
Na edição de 6 de Outubro desse ano na mesma publicação a família publica:
D. ANNA ROSA LOUREIRO e suas filhas e filho agradecem a todas as pessoas, a quem o não tenham feito mais particularmente, a bondade, que tiveram, de assistir no funeral de seu muito presado esposo e pai Pedro José da Silva Loureiro, e esperam que esta falta de lembrança se considere unicamente devida ao estado de afflicção e desgosto em que ficaram por tam triste e inesperado acontecimento.
Macao 6 de Outubro de 1855.
Fortaleza da Taipa no séc. 21

A primeira filha do casal, Genoveva Rosa Joaquina do Espírito Santo Loureiro (1827-?) casou na capela da Residência do Governador com Isidoro Francisco Guimarães (1808-1863), governador de Macau (1851-1863), capitão de mar-e-guerra, do Conselho de S. M. F., e visconde da Praia Grande de Macau.

quinta-feira, 6 de agosto de 2026

"Nova Paderia Nacional" em 1873

Em Outubro de 1873 surgia em Macau uma "Nova Paderia Nacional". O proprietário J. Bernardino publica este anúncio onde informa que "Sob esta denominação o abaixo assignado abre no dia 1 de novembro proximo a sua paderia, para a qual pede uma parte do patrocinio publico. O abaixo assignado, tendo no seu serviço empregados de reconhecida aptidão e experiencia, e empregando a melhor farinha americana na confeição de tudo que sae de seu novo estabelecimento, espera deixar satisfeitos aos que o queiram honrar com a sua freguezia. A Nova Paderia Nacional acha-se estabelecida nas cazas n.ºˢ 15 e 17 sitas na rua d'Albarda, a S. Lourenço."
A referida rua há muito que não existe... A Freguesia de São Lourenço, na zona sul/sudoeste da península era historicamente residencial e comercial, habitada por muitas famílias de matriz portuguesa e burguesia comercial, incluindo comerciantes estrangeiros o que justificaria a abertura de uma padaria de estilo ocidental neste perímetro.
Note-se o uso de "paderia" em vez de "padaria", uma variante comum no português oitocentista. O mesmo se aplica a palavras como "assignado", "confeição" (confecção), "sae" (sai), "cazas" (casas) e o acento agudo em "Macáo".

Anúncio publicado no jornal O Independente

sábado, 1 de agosto de 2026

Um "explendido baile" em 1867

"Começaremos o noticiario d'esta semana registrando o explendido baile offerecido na noite de 22 do corrente mez a S. Exa. o Governador da colonia pelo sr. Maximiano dos Remedios, negociante muito abastado d'esta cidade. A festa foi brilhante, e os salões onde se reunio uma mui selecta e luzida sociedade estiveram radiantes de luz e alegria desde o principio do baile até ao fim. Á ceia que foi servida alta noite, e a que não faltou nem a profusão nem o bom gosto, trocaram-se diversos brindes, mui apropriados ás circumstancias, e que foram devidamente recebidos e correspondidos.
A entrada da casa do sr. Remedios estava illuminada com intencional primor. Via-se ali uma estrella e umas letras que explicavam brilhantemente qual a pessoa em cuja honra a festa era dada. — S. Exa. o Governador da colonia ficou muito penhorado com semelhante obzequio e soube bem fazel-o sentir n'um brinde affectuoso que dirigiu a toda a familia Remedios n'um dos momentos da ceia, quando lhe coube responder áquelle que lhe endereçou um dos Patriarchas da familia. A festa dos srs. Remedios foi tão agradavel como sympathica a todos aquelles que tiveram a fortuna de tomar parte n'ella."
Foto de John Thomson ca. 1870

A notícia foi publicada a 28.10.1867 no Boletim da Província de Macau e Timor. O governador homenageado neste baile era José Maria da Ponte e Horta (1866-1868).
Filho de António dos Remédios e de Rita de Sousa Peres - casaram em 1791 e tiveram 16 filhos* - Maximiano António dos Remédios (1808-1875) foi de facto um rico negociante e proprietário, fazendo parte em 1871 da lista dos 40 maiores contribuintes de Macau. Ou seja, dos que mais impostos pagava devido às propriedades que possuía.
A residência da família Remédios ficava na colina da Penha onde a família Remédios tinha várias chácaras**, incluindo uma denominada S. José (junto a Santa Sancha) e aquela onde viria a 'nascer' o hotel Boa Vista (em 1890). Tudo indica que a que é referida nesta notícia de 1867 era esta última.
No livro de 1867 "Os Chins de Macau" Manuel de Castro Sampaio escreve que "Uma das primeiras povoações fica próxima da fortaleza da Barra e é por isso chamada Povoação da Barra. A outra acha-se na encosta outeiro da Penha, onde está a fortaleza do Bom Parto, e onde se encontram as mais lindas chácaras de Macau. Esta é conhecida pelo nome de Tanque-Mainato, nome derivado de um tanque de lavadeiros ou mainatos, como lhes chamam no paiz. As outras três povoações são denominadas de Patane, de Mong-ha e de S. Lázaro."

** na toponímia local ainda hoje existe na zona a Calçada das Chácaras.