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segunda-feira, 14 de setembro de 2026

Troço da Rua do Hospital no início do século 19

Intitulado "Part of the Hospital Street near the Franciscan Gate - Macao. The redoubt named Nostra Senhosa Gaya on the Hill" - 'Parte da Rua do Hospital* perto da Porta Franciscana - Macau. O reduto na colina chama-se Nossa Senhora da Guia" este desenho é da autoria de John Michael Houghton (c. 1797-1874), um aspirante a oficial que serviu a bordo do HMS Discovery como parte de uma escolta naval que andou pelo sul da Ásia nos primeiros anos de 1800.
A Rua do Hospital corresponde à actual Rua Pedro Nolasco da Silva (desde 1942). A Porta Franciscana referida era uma das existentes na muralha que circundava a a chamada cidade cristã, separando o núcleo urbano do resto da península. Esta porta em concreto permitia a passagem para a zona do campo que posteriormente dava acesso, por exemplo, à fronteira terrestre com a China continental onde fica a Porta do Limite (a versão edificada pelos chineses) e que era aberta em alguns períodos para permitir a entrada de víveres em Macau.
E não foi o único desenho que Houghton fez em Macau. Desenhou ainda, por exemplo, o "Franciscan Monastery at Macao, taken from the window of the Swedish Factory", ou seja, o "Mosteiro de S. Francisco em Macau, visto da janela da Feitoria Sueca."
A passagem do navio Discovery (e de outros navios homónimos) por Macau no início do século XIX insere-se num período de forte tensão geopolítica, exploração hidrográfica e conflitos pelo comércio no Sul da China. O Discovery era um navio de levantamento hidrográfico e exploração Companhia das Índias Orientais (East India Company / EIC). Sob o comando do Capitão Daniel Ross (1780-1846) - conhecido como o "Pai da Hidrografia na Índia" - o Discovery realizou intensos levantamentos cartográficos no Mar da China Meridional, no Estreito de Malaca e ao longo da costa chinesa na primeira e segunda décadas de 1800.
Macau servia frequentemente como o porto de reabastecimento, refúgio contra tufões e ponto de apoio diplomático e logístico para a tripulação.
Em Novembro de 1807, num período de grande atrito entre o Império Qing, os britânicos e as autoridades portuguesas em Macau, o Discovery esteve envolvido na apreensão e inspecção de embarcações suspeitas ao largo das águas de Macau, gerando protestos das autoridades chinesas de Cantão devido à violação da soberania territorial e comercial chinesa.
Naquele início do século XIX a presença de navios de guerra e de exploração britânicos em Macau intensificou-se drasticamente devido às Guerras Napoleónicas. Com a invasão de Portugal por tropas francesas, a Marinha Real Britânica enviou uma frota militar para Macau com o pretexto de "proteger" o território português de um eventual ataque francês. As autoridades portuguesas de Macau e o governo Qing opuseram-se firmemente ao desembarque e à presença de navios de guerra britânicos na baía de Macau. O impasse forçou o recuo britânico após os chineses ameaçarem cortar o abastecimento de mantimentos a Macau e o comércio estrangeiro em Cantão.

sexta-feira, 11 de setembro de 2026

"Tomb of Lord John Churchill at Macau": 1840

Estes desenhos aquarelados feitos a lápis e caneta com tamanho 14x19cm foram vendidos num leilão em Londres em Julho de 2026 por pouco mais de 5 mil libras. Sem indicação do autor é muito provavelmente uma obra de um autor britânico, militar integrado no contingente que na época combatia as forças chinesas em plena primeira guerra do ópio.
O lote incluía: 
- 4 folhas com esboços de figuras humanas chinesas (estudos) 
- uma ilustração da batalha a 25 de Maio de 1841 mostrando ataques ingleses a Cantão a partir das colinas que circundavam a cidade.
- ilustração panorâmica em duas folhas intitulada "Macau/Fort St Francis, June 16th 41'"
- desenho a lápis aquarelado a cores com a legenda "Lord John Churchill's Monument at the burial ground at Macau, 1840"
- desenho a duas folhas com a legenda "Tomb of Lord John Churchill at Macau"
Lord Henry John Spencer-Churchill, foi um oficial naval britânico de alta patente. Em 1839 assumiu o comando do navio de guerra HMS Druid da Royal Navy (Marinha Real Britânica) e um ano depois seguiu para a região de Macau para se juntar à frota britânica que se concentrava para a Primeira Guerra do Ópio. Acabou por contrair disenteria grave a bordo morrendo em Macau a 2 de Junho de 1840, com 42 anos de idade. Foi sepultado no cemitério protestante, um local histórico hoje classificado como Património Mundial da UNESCO. O seu túmulo ostenta o brasão de armas da família Churchill e um monumento erguido pelos seus oficiais em sinal de estima e afecto.
O cemitério remonta a 1815 quando o proprietário e comerciante português Manuel Pereira arrendou/cedeu parte da sua extensão propriedade (o actual Jardim de Camões e Casa Garden) à Companhia Inglesa das Índias Orientais, mesmo nos limites da então denominada cidade cristã. Aliás, parte dos muros que o delimitavam faziam parte da muralha que rodeava a cidade. Desses tempos ficou na toponímia local nomes como a Escada do Muro e rua do Patane. Esta última em chinês designa-se Rua do Muro de Pedra, e não é por acaso...
O desenho mostra ainda a Fortaleza do Monte com a bandeira da monarquia portuguesa e as traseiras da fachada da Igreja Mater Dei (Ruínas de S. Paulo).

quarta-feira, 2 de setembro de 2026

Uma pintura do período “China Trade” na Colecção de Arte da Fundação Jorge Álvares

Na página de internet da Fundação Jorge Álvares e no banner da sua newsletter mensal está uma pintura a óleo sobre tela da coleção de arte da Fundação que retrata a baía da Praia Grande em Macau em meados do século XIX. É um exemplo típico do período denominado "China Trade Art", desenvolvido por artistas chineses para o mercado ocidental entre os séculos 18 e 19.
A baía da Praia Grande é imediatamente reconhecível pela curva característica e pela linha contínua de edifícios de estilo neoclássico europeu com arcadas junto à linha de água. Alguns desses edifícios eram arrendados a empresas de comércio estrangeiras, nomeadamente a EIC (East India Company), a Companhia Inglesa das Índias Orientais.
Apresenta-se uma perspectiva panorâmica ligeiramente elevada - praticamente o chamado "olho de pássaro" ligeiramente acima do nível de água - permitindo ver tanto a actividade no mar como o edificado da cidade.
Toda a pintura é marcada por cores em tons suaves. O mar calmo e a abundância de navios simbolizam Macau como um porto seguro e um comércio florescente. As bandeiras hasteadas nos fortes e nos navios servem como sinais de identificação e soberania. Ao fundo destacam-se as colinas de Macau tendo no topo edifícios de cariz religioso e militar, como as ermidas da Penha e da Guia e a Fortaleza do Monte. A baía está repleta de embarcações do tipo ocidental e oriental - juncos, sampanas, veleiro... - testemunhando a vitalidade comercial da época.
Na paleta de cores predominam tons terrosos, ocres e verdes suaves, típicos da pátina de pinturas a óleo antigas. O céu ocupa uma grande parte da tela, com uma tonalidade amarelada que sugere o amanhecer ou o entardecer.
Para além dos óleos, este tipo de obras eram também feitas em aguarela e guache sobre papel (e outros suportes). Numa altura em que a fotografia ainda não tinha sido inventada assumiam-se como uma espécie de postais ilustrados, lembranças que os comerciantes estrangeiros encomendavam enquanto faziam negócios em Cantão - a partir de Macau - para levar como recordação /souvenir no regresso a casa.
Embora haja registo da presença de alguns destes pintores em Macau, a esmagadora maioria estava estabelecida em Cantão onde há registo de vários ateliers de pintura. Estes artistas adaptaram a técnica tradicional da pintura chinesa ao gosto ocidental e por norma não assinavam as obras que eram sobretudo de cenas portuárias, navios, vistas de cidades, retratos...
Estamos perante um óleo sobre tela de média dimensão (41 x 80 cm) mostrando a baía da Praia Grande de frente, uma perspectiva rara, face aos inúmeros exemplos de pinturas que mostram a baía na perspectiva Sul/Norte ou Norte/Sul.
Em primeiro plano destaca-se um navio híbrido (paddle steamer) que utilizava tanto a força do vento como a tecnologia a vapor, comum entre 1830 e 1860. Podem até ver-se pessoas no convés. É visível a roda de pás lateral (paddle wheel) no centro do casco, protegida por uma estrutura semicircular. Também se nota uma chaminé fina logo à frente da roda, libertando um pouco de fumo. A embarcação possui dois mastros com uma configuração de brigue-escuna ou escuna de gávea. O mastro de vante (frente) tem vergas para velas redondas, enquanto o mastro de ré parece preparado para velas latinas (longitudinais). O casco é longo, baixo e escuro, típico de navios de aviso, correios ou pequenos navios de guerra da época, desenhados para velocidade. A bandeira na popa (parte traseira) é a Blue Ensign britânica: tem um campo azul sólido com a Union Jack (a bandeira do Reino Unido) no canto superior esquerdo. Na época, a Blue Ensign era utilizada por navios mercantes comandados por oficiais da reserva da Marinha Real. Poderia ser um vapor de correio ou de passageiros da era vitoriana inicial, ou um pequeno navio de guerra britânico utilizado para patrulha costeira ou missões diplomáticas. Espalhados por toda a baía, vemos juncos chineses de vários tamanhos com as suas características velas de esteira. Estão ainda representadas pequenas embarcações a remos (sampanas e tancares), típicas de Macau e das cidades costeiras do sul da China, que vendiam provisões aos navios maiores e também funcionavam como táxis aquáticos transportando pessoas até à terra.
Na pintura está representado o Palácio do Barão do Cercal. Projectado pelo arquitecto macaense José Agostinho Tomás de Aquino foi construído em 1849. Identifica-se pelos dois corpos avançados nas laterais e a varanda ao centro.
Já perto da Fortaleza do Bom Parto, destaca-se um edifício semicircular - na zona de S. Lourenço - que foi residência de comerciantes estrangeiros durante muitos anos.
Da esquerda para a direita podem ver-se os godões/armazéns da Companhia Inglesa das Índias Orientais seguidos do portal com colunas e um brasão no topo que dava acesso à então residência do Governador. Pode ainda ver-se a igreja de Santo Agostinho, o Fortim de S. Pedro com uma bandeira içada e a Sé Catedral com as duas torres laterais.
Resultado da reconstrução de raiz entre 1844 e 1850, a igreja da Sé passou a ter a fachada principal virada para o lado oposto (Norte), pelo que esta disposição terá sido uma 'interpretação' do autor da pintura. Na anterior configuração, a fachada tinha apenas uma torre lateral e estava virada para Oeste.
Muralha ao longo da colina da Penha com a Ermida no topo
Junto à água a Fortaleza do Bomparto onde começa a muralha
Casario ao longo do cais; no topo a fortaleza de S. Paulo do Monte (com bandeira da monarquia portuguesa) e à esquerda a fachada da igreja Mater Dei - vulgo ruínas de S. Paulo - após o incêndio de 1835. Do lado direito entre o edifício de inúmeras colunas e a cerca do convento de Santa Clara - corresponde ao actual cruzamento da Av. da Praia Grande com a rua do Campo - a então denominada estrada do campo, por dar acesso ao território que ficava para lá das muralhas que cercavam a chamada 'cidade cristã'.
Na então denominada ponta de S. Francisco, um dos extremos da baía da Praia Grande, podem ver-se o Convento e a Igreja de S. Francisco, tendo ao lado o forte de S. Francisco. No topo da colina a Fortaleza e Ermida da Guia (sem farol, portanto, anterior a 1865). Ambas as fortificações militares têm bandeira da monarquia portuguesa hasteada. O largo ao centro, pontuado por algumas árvores, denominava-se Campo de S. Francisco. Após a demolição do convento de Santa Clara, e em 1861, do convento/igreja de s. Francisco (para ali ser construído o Quartel de S. Francisco em 1864/65), aquela área viria a ser o primeiro "jardim público" de Macau... conhecido por Jardim de S. Francisco e que ainda hoje existe.
Eis uma 'leitura' resumida da muita história que esta pintura tem para contar...

Publicado na Newsletter da FJA - Setembro 2026.

Excerto do Editorial assinado por Maria Celeste Hagatong, Presidente da Fundação Jorge Álvares:
"Os nossos agradecimentos ao jornalista João Botas pelo seu artigo de opinião muito interessante sobre um quadro que retrata a Baía da Praia Grande em Macau no século XIX, que faz parte da Coleção de Arte da Fundação Jorge Álvares. João Botas é o dinamizador do Blogue Macau Antigo que ao longo de 18 anos de existência já ultrapassou os 6 milhões de visualizações."

terça-feira, 1 de setembro de 2026

Novo recorde mensal de audiência

Depois das quase 500 mil visualizações em Março último, o blogue Macau Antigo voltou a registar o melhor mês de sempre em termos de audiência com mais de 700 mil visualizações em Agosto último (711.434), de acordo com a plataforma Blogger onde o projecto está alojado.
Para assinalar mais este marco importante no projecto criado em 2008 e que já conta com cerca de 7 mil postagens e mais de 6 milhões de visualizações, durante o mês de Setembro serão publicados alguns documentos inéditos e outros raros.
Uma fotografia das Ruínas de S. Paulo feita menos de 30 anos depois do derradeiro incêndio de 1835, uma carta escrita em crioulo patuá no século 18 e aguarelas do início do século 19 são alguns dos destaques dos futuros conteúdos em publicações feitas diariamente desde 2008.
Os sucessivos recordes de audiência do Blogue Macau Antigo consolidam o projecto como o maior acervo online sobre a História de Macau e representam um incentivo para continuar a fazer mais e melhor.

Alguns dados estatísticos:
Top 5 dos países de origem dos leitores:
Estados Unidos, Portugal, Brasil, Macau e Singapura.
Total de visualizações desde 2008: 6,4 milhões
Macau Antigo Blog Reaches New All-Time High with Over 700,000 Monthly Views

The historical blog Macau Antigo has broken its all-time audience record, recording 711,434 page views in August, according to figures provided by its host platform, Blogger. This achievement surpasses the blog’s previous record set in March, when it approached the half-a-million mark, further solidifying its status as the largest online archive dedicated to the history of Macau.
Founded in 2008, the daily-updated project has now accumulated over 6.4 million total views and nearly 7,000 published entries. According to readership metrics, the blog's top five audience origins are the United States, Portugal, Brazil, Macau, and Singapore.
To mark this milestone, Macau Antigo will publish a series of rare and previously unpublished historical items throughout September. Among the upcoming highlights are 19th-century watercolors, an 18th-century letter written in Macau’s native Patuá creole, and an exceptionally rare photograph of the St. Paul’s Ruins.

A Rare Glimpse of 19th-Century St. Paul’s
One of the cornerstone releases for September is a rare photograph captured between 1861 and 1863 by pioneering photographer Milton Miller—believed to be one of the earliest photographs ever taken of Macau’s iconic landmark.
Taken less than three decades after the catastrophic fire of January 1835 that destroyed the Jesuit College of St. Paul and the adjacent Mater Dei Church, the photograph offers significant architectural insights:
Structural Remains: Stone walls that once supported the wooden roof remain visible, alongside a vaulted structure with a dome near the back wall.
Missing Bell Tower: The bell tower that historically stood on the right side of the main facade is notably absent. Damaged sections of these walls were likely repurposed to establish the St. Paul’s Catholic Cemetery at the rear of the site, which operated until the opening of St. Michael’s Cemetery in 1854.
Pre-Na Tcha Era: The image captures the site decades before the construction of the neighboring Na Tcha Temple in 1888.
"The successive audience records serve as an incentive to continue expanding and refining this archive, keeping the history of Macau accessible to a global audience," stated the project's creator.

At a Glance: Macau Antigo Statistics
Launch Year: 2008
Total Posts: ~7,000
Total Lifetime Views: 6.4+ Million
Top 5 Geographic Markets: United States, Portugal, Brazil, Macau, Singapore

About Macau Antigo
Established in 2008, Macau Antigo is a daily digital platform dedicated to researching, preserving, and sharing the historical and cultural heritage of Macau through photographs, historical documents, maps, and specialized commentary.

“Macau Antigo” 博客八月浏览量突破70万创历史新高

根据Blogger平台的数据统计,致力于记录与研究澳门历史的“澳门古今”(Macau Antigo)博客在八月份创下历史最高单月浏览量,达到了711,434次。这一成绩超越了该博客在同年三月创下的近50万次浏览纪录,进一步巩固了其作为网络上最大澳门历史数据库的地位。
该项目创立于2008年,保持每日更新,至今已累计发表约7,000篇文章,总浏览量超过640万次。在读者分布方面,访问量排名前五的国家和地区分别为:美国、葡萄牙、巴西、澳门和新加坡。
为庆祝这一重要里程碑,“澳门古今”博客宣布将在9月份陆续公开发布一系列未经披露及罕见的历史文献。预告的重点内容包括:19世纪初的水彩画、写于18世纪的澳门土语(Patuá crioulo)信件,以及一张极其珍贵的圣保禄教堂遗址(大三巴牌坊)早期照片。

19世纪大三巴牌坊珍贵旧照曝光
在9月即将发布的文献中,最引人瞩目的是摄影先驱米尔顿·米勒(Milton Miller)于1861月至1863年间拍摄的大三巴牌坊照片。该照片被认为是这一澳门标志性建筑现存最早的照片之一。

这张照片拍摄于1835年1月摧毁圣保禄学院及附设的圣母雪地殿教堂的惨烈大火发生后不到30年,展示了许多宝贵的建筑细节:
建筑遗存: 照片中仍可见当年支撑木制屋顶的部分石墙,以及靠近后墙处带穹顶的拱顶结构。
消失的钟楼: 原本位于教堂主界面右侧的钟楼在照片中已不复存在。据分析,这些受损的墙体很可能被拆卸并用于在教堂后方修建圣保禄公墓(供天主教徒使用),该公墓一直使用至1854年城外圣弥额尔小堂公墓启用为止。

哪吒庙修建前貌: 照片记录了该区域在1888年于圣母雪地殿教堂旧址后方修建哪吒庙之前的原始面貌。
“持续创下的浏览纪录是对本项目的极大鼓舞,激励我们继续做好做优,让澳门的历史文化能够面向全球传播。”博客创办人表示。

数据一览:“澳门古今”博客统计
创立年份: 2008年
累计文章: 约 7,000 篇
历史总浏览量: 640万+ 次
8月单月浏览量: 711,434 次
主要读者来源(前五名): 美国、葡萄牙、巴西、澳门、新加坡

关于“澳门古今”(Macau Antigo)
“澳门古今”博客成立于2008年,是一个每日更新的数字平台,旨在通过历史照片、文献、地图及专业点评,研究、保护和分享澳门的历史与文化遗产。


Conjunto raríssimo de quatro vistas no início do século XIX. Estamos perante pinturas a óleo sobre latão de 9x13cm. A primeira retrata Macau vista do continente com embarcações ocidentais; a segunda, os fortes de Boca Tigre na foz do Rio das Pérolas; a terceira, Whampoa vista da Ilha de Dane; e a quarta, os Hongs de Cantão hasteando as bandeiras dinamarquesa, espanhola, americana, sueca, britânica e holandesa. 

sábado, 29 de agosto de 2026

Praia Grande num guache sobre papel de medula

Vista da Praia Grande
guache sobre papel de medula (pith paper) com linhas de enquadramento pintadas 
17,8 x 28,5 cm
Primeira metade do século 19

View of the Praya Grande, Macau
gouache on pith paper with painted framing lines
17.8 x 28.5cm
Early 19th century

澳門南灣風光
水粉 - 帛本 - 附畫框線
17.8 x 28.5厘米
19世纪上半叶

Vista panorâmica da baía da Praia Grande a partir da Fortaleza do Bom Parto, um dos temas mais emblemáticos da arte de exportação chinesa (China Trade paintings) da primeira metade do século XIX produzida nos ateliers de pintura de Cantão e Macau destinadas ao mercado ocidental e por norma sem assinatura do autor.

Panoramic view of Praia Grande Bay from the Bom Parto Fort, one of the most emblematic themes of Chinese export art (China Trade paintings) from the first half of the 19th century. Produced in the painting workshops of Canton and Macau for the Western market, these works were typically unsigned by the artist.

《从烧灰炉炮台远眺南湾景色》,为十九世纪上半叶外销画(中国外销画)中最具代表性的题材之一。此类画作多由广州及澳门的画室为西洋市场绘制,按惯例均无作者签名。

quarta-feira, 26 de agosto de 2026

"Movimento do Porto" no primeiro semestre de 1835

Neste artigo publicado no jornal Chronica de Macao a 25 de Julho de 1835 dá-se conta do "Movimento do Porto" entre Janeiro de Julho desse ano.
Nesse período 19 navios espanhóis realizaram 51 viagens para Macau, transportando uma grande quantidade de arroz (mais de 383 mil sacos) e feijão-mungo. Embora o arroz pagasse apenas emolumentos (e não direitos alfandegários), a receita da Alfândega mantinha-se aceitável devido ao regime de franquia.
O autor do artigo sublinha que a Alfândega é a única fonte de rendimento de Macau. Defende, por isso, a urgência de implementar o sistema de depósito para mercadorias europeias para garantir a sustentabilidade da cidade e o pagamento dos funcionários públicos, apelando à atenção do Governo.
O ópio é apontado como o principal e mais importante ramo comercial da época. O artigo nota com optimismo que Macau estava a conseguir praticar melhores preços e a atrair mais comércio de ópio do que a ilha de Lintin (ponto central do contrabando na altura), com as embarcações a preferir descarregar directamente em Macau para negociar com os mercadores chineses.
O preço do arroz fixava-se em três patacas, prevendo-se uma colheita abundante na China. Nota-se ainda que as restantes mercadorias da Europa e da Ásia se mantinham estáveis, com exceção do vinho tinto, que estava escasso e, por isso, valorizado.
Pintura da Praia Grande - autor anónimo ca. 1840
Vista a partir do actual cruzamento da rua do Campo com a Av. da Praia Grande

Movimento do Porto
Desde Janeiro até ao presente os dezanove Navios Hespanhoes, como se ve do mapa abaixo, tem feito cincoenta e huma viagens, e tem trazido 383,702 sacos de Arros e 1,890 ditos de Mungo. Tem dado pouco interesse á Alfandega, porque naõ pagaõ direitos de arros só pagaõ emolumentos; mas n'este anno tem a Alfandega rendido soffrivelmente, pela razaõ da Franquia, e mais renderá admittindo-se-lhe tambem depozito dos generos d'Europa. Sabemos, que já se tem lembrado do depozito, porém ignoramos se ha ou naõ ha ideya de o fazer effectivo; he certo, que o unico rendimento d'esta Cidade he a Alfandega, se está naõ render, entaõ naõ sabemos o que será d'esta Cidade, e dos seus empregados publicos; por isso esta repartiçaõ deve merecer toda a attençaõ do Governo.
O opio, esse importante, e unico ramo de commercio, em que traficaõ, e especulaõ os negociantes nacionaes, e estrangeiros, tem sido procurado aqui, e tem tido melhor preço que em Lintim, e ha esperança de que venha tudo para aqui. Ha dias chegaraõ dous navios de Lintim com Opio, e na Rada importava o opio para esta Cidade, fizeraõ tambem entrega d'elle a Chinas, que acharaõ mais conveniencia em recebe-lo cá, do que em Lintim, que naõ tem tido nem tanta extracçaõ, nem taõ bom preço.
O Arros tem tido variaçaõ no preço e agora está a tres patacas; a colheita d'este anno na China hade ser mais abundante, que a do anno passado, porém assim mesmo, he provavel continue a conservar o preço com pequena differença.
Os outros generos d'Europa e Azía naõ tem tido alterações: vinho tinto ha pouco, e tem preço.

segunda-feira, 11 de maio de 2026

"Praya Grande from the North" e "Praya Grande from the South" a lápis e carvão

"Praya Grande from the North."
"Praya Grande from the South" 

Estes dois desenhos a "pencil and crayon" (lápis e carvão) com 20 x 35 cm fazem parte do espólio do Peabody Essex Museum (EUA). Estão referidos no livro "The marine paintings and drawings in the Peabody Museum" - de M. V. and Dorothy Brewington, publicado em 1981 - como tendo sido ofertas ao museu por Richard B. Holman em 1956. A autoria é atribuída a "TA" e datam de cerca de 1887.
TA poderá ser referência a Thomas Allom (1804-1872) uma hipótese que inviabiliza a data aproximada referida no catálogo (ca. 1887). 
Richard B. Holman (1903-1983) foi um conceituado negociante de gravuras raras e desenhos em Boston, colaborador próximo de curadores do Peabody Museum (agora Peabody Essex Museum), como Marion Brewington, que organizou as coleções de arte marítima do museu.

sexta-feira, 8 de maio de 2026

Bicentenário do nascimento de Marciano Baptista na Revista Macau - Maio 2026

Na edição de Maio 2026 da Revista Macau um artigo sobre o bicentenário do nascimento de Marciano Baptista (1826-1896), o maior vulto da arte macaense do século XIX.
Artigo pág. 58 a 66. Edição na íntegra através do link



domingo, 26 de abril de 2026

大三巴牌坊 por 李德勝

Li Dezhi / Li Desheng (李得之) é o autor desta obra a tinta da china que mostra as ruínas de S. Paulo (大三巴牌坊). Ainda que sendo receite, foi feita em 2012, remete para tempos bem antigos. Mostra a fachada da antiga igreja Mater Dei (Ruínas de S. Paulo) vista a partir do acesso ao Pátio do Espinho (茨林圍).

Coluna da Direita (Título e Contexto):
Transcrição: 茨林圍望大三巴牌坊。壬辰年蟬聲初聞時。雨歇轉晴。撥溪李得之德勝寫生。
Tradução/Adaptação: "Vista das Ruínas de São Paulo a partir do Pátio do Espinho (茨林圍). No ano de Rénchén (2012), quando se ouvem as primeiras cigarras. A chuva parou e o tempo abriu. Pintado no local por Li Dezhi (nome artístico Desheng)."
Coluna da Esquerda (Descrição da Paisagem):
"曲徑迂迴小巷通,道廊那堂鼎其融。一堵泥墻喧市隔,對門鄰里樂相通。"
Tradução/Adaptação: "O Pátio do Espinho e as Ruínas de São Paulo parecem unir-se numa só estrutura. Caminhos sinuosos e vielas estreitas conectam-se; os corredores e a igreja fundem-se em harmonia. Uma muralha de taipa (terra/barro) isola o barulho da cidade, enquanto vizinhos de portas opostas partilham alegremente a sua convivência."
Esta outra obra do mesmo autor sobre as ruínas de S. Paulo foi feita em 2008.

Os quatro caracteres maiores no topo são escritos num estilo estilizado:
Transcrição: 澳門聖迹 (Àomén Shèngjì)
Tradução/Adaptação: "Sítio Sagrado de Macau".
A coluna de texto mais pequeno indica o momento da criação e o autor:
Transcrição: 戊子年秋月畫於濠江 李德勝
Tradução/Adaptação: "Pintado no mês de outono do ano de Wuzi, em Haojiang (Macau), por Li Desheng."
Nota: O ano de Wuzi (戊子年) no ciclo chinês refere-se, neste contexto contemporâneo, ao ano de 2008. Haojiang (Rio das Ostras) é um nome poético e histórico muito comum para designar a cidade de Macau.

李德勝, também conhecido pelo pseudónimo de Qu Beizhai, nasceu em Xiaolan, Zhongshan, em 1963. Estudou caligrafia e pintura sob a tutela de Pan Dongliang na juventude. Licenciou-se em Educação em Artes Visuais pelo Instituto Politécnico de Macau e é mestre em Ensino e Investigação de Pintura Chinesa pela Academia de Belas Artes de Cantão. Tem exposto com regularidade em Macau e na China continental.

quinta-feira, 12 de março de 2026

Retrato a óleo de Camilo Pessanha por Pedro Barreiros

Retrato a óleo da autoria de Pedro Barreiros, 1976
No canto superior direito o "ex-libris" do poeta
 
A obra serviu como ilustração da capa do livro "Homenagem a Camilo Pessanha", editado pelo Instituto Português do Oriente - Instituto Cultural de Macau, com "Organização, prefácio e notas de Daniel Pires".

quinta-feira, 19 de fevereiro de 2026

Em memória do pai...

Em Maio de 2019 a galeria At Light, no Pátio do Padre Narciso em Macau, acolhia a exposição "Casa das Duas Filhas - Fotos da Família de José Vicente Jorge".
As duas filhas (de José Vicente Jorge) que deram o mote à mostra eram Henriqueta* e Maria. As irmãs foram as mães dos primos Pedro Barreiros e Graça Pacheco Jorge que acabariam por casar.
Pedro e Graça são um exemplo na perpetuação da memória da história da família intimamente ligada a Macau. Basta lembrar livros como "A Cozinha de Macau da Casa do meu Avô" (1992), "Danilo no Teatro da Vida" (2010), "José Vicente Jorge: Macaense ilustre" (2012), entre outros, mas também inúmeras iniciativas de índole cultural, incluindo exposições com as pinturas de Pedro Barreiros que morreu a 15 de Janeiro de 2022.
Pintura de Pedro Barreiros: exposição em 2013

Miguel Barreiros, filho de Pedro, não teve oportunidade de ver esta exposição e após a morte do pai prometeu "dar continuidade" ao seu trabalho "para preservar a memória da nossa família de Macau e do meu bisavô, José Vicente Jorge".
Por estes dias recebi um e-mail do Miguel com votos de "Kung Hei Fat Choi! 恭喜發財" onde explica que o pai "tinha a tradição de celebrar o Ano Novo Chinês partilhando um desenho do animal do zodíaco que iniciava o seu ciclo". Na ausência física do pai, Miguel decidiu "retomar esse gesto em memória dele e em honra às nossas raízes de Macau. Partilho convosco este desenho que fiz inspirado nessa tradição e pela mestria dos seus traços. É a minha forma de o homenagear e de manter viva a sua arte e o seu espírito."
Aqui fica... Kung Hei Fat Choi e um abraço Miguel!
* Henriqueta Pacheco Jorge Barreiros - filha de José Vicente Jorge e mulher de Danilo Barreiros - foi aluna de Camilo Pessanha (1867-1926) em Macau. Henriqueta ambicionava ir estudar para Portugal mas o pai não concordava. Foi Pessanha que não só o convenceu como pagou uma mesada à estudante. 
Pedro Barreiros (1943-2022), filho de Danilo Barreiros e neto de José Vicente Jorge que foi amigo de Pessanha, revelou esta história em Outubro de 1990 aquando de uma exposição em Macau com pinturas suas sobre Pessanha: "Foi Camillo Pessanha, seu amigo e grande frequentador da sua casa que o conseguiu convencer a deixá-la partir estabelecendo-lhe uma mesada e escrevendo uma carta à sua irmã maçónica D. Ana de Castro Osório a recomendar a “gentil menina” e a pedir-lhe que a recebesse em sua casa. E assim a Tia Amália veio para Lisboa estudar Medicina, sob a égide do Poeta!"

sábado, 14 de fevereiro de 2026

Marciano Baptista: do desenho a lápis à aguarela

O Forte de S. Tiago da Barra é uma das muitas aguarelas produzidas por Marciano Baptista  (1826-1896) na segunda metade do século 19. No espólio de José Maria (Jack) Braga (1897-1988) à guarda da Biblioteca Nacional da Austrália está o desenho a lápis e caneta que Marciano fez antes da aguarela. A indicação manuscrita no desenho - "S. Tiago Fort, Macao by M. Baptista" - terá sido feita por Marciano ou por Braga, quando fez a doação do seu espólio em 1966. Tal como Marciano, também Jack Braga, viveu em Hong Kong.
Uma pequena descoberta para assinalar os 200 anos do nascimento daquele que é considerado o maior nome da pintura macaense no século 19. Em baixo o resultado de uma imagem criada por IA onde solicitei a sobreposição do desenho e da aguarela.

domingo, 8 de fevereiro de 2026

Relatório de Macau em Janeiro de 1863 pelo governo de Portugal

O post de hoje é sobre o "Relatório dos Negócios do Ultramar apresentado à Câmara dos Deputados em sessão de 12 de Janeiro de 1863 por s. exa. o Ministro e Secretario d'Estado dos Negócios da Marinha e Ultramar."
A sessão decorreu no parlamento de Portugal que estava sob o reinado de D. Luís I e o tutelar da pasta era José da Silva Mendes Leal. Na altura o governador de Macau era Isidoro Francisco Guimarães. Terminou o seu longo mandato (iniciado em 1851) a 30 de Janeiro de 1863, sendo sucedido por José Rodrigues Coelho do Amaral, que assumiu o cargo nesse ano e governou até 1866.

Resumo dos Pontos Principais
1. Relações Internacionais e Diplomacia
O Governador de Macau é elogiado por concluir tratados com o Sião (Tailândia), Japão e, mais recentemente, com o Império Chim (China).
O tratado com a China visava estabilizar as "mal definidas relações" do estabelecimento com o império vizinho.

2. Educação e Religião
Seminário de S. José: Houve uma melhoria na instrução com a fusão da escola pública ao seminário, oferecendo cadeiras de Gramática Portuguesa, Latim, Francês, Inglês, Língua Chim e Teologia.
Recursos: O seminário é financiado por rendimentos próprios, fundos escolares (9.000 patacas) e uma loteria anual.
Educação Feminina: Realizada no Recolhimento de Santa Rosa de Lima (Convento de Santa Clara, embora considerada insuficiente para a população europeia.
Missões: Destaca-se a importância do Colégio de Sernache do Bom Jardim (em Portugal) para a preparação de professores e missionários enviados a Macau.
Nova escola estabelecida pelo Barão do Cercal a expensas particulares, destinada à instrução do sexo masculino.

3. Economia e Obras Públicas
Prosperidade Financeira: A receita (249.313 patacas) superou a despesa (180.013 patacas).
Causa da Bonança: Ironicamente, a guerra civil na China (Rebelião Taiping) impulsionou a economia local.
Infraestrutura: Investimentos em vias de comunicação, no Palácio do Governo, a construção prioritária de uma muralha (cortina) para defesa marítima e de um novo quartel (o de S. Francisco).
Segurança Marítima: Encomenda de um navio a vapor na Inglaterra por 70.000 patacas para proteger o comércio.

4. Questões Militares e Sociais
Reforço Militar: Envio de 200 praças do Exército para conter atos de insubordinação ocorridos anteriormente.
Trabalho: Menção à organização do sistema de coolies/cules (trabalhadores braçais chineses), um tema sensível na época devido às condições de trabalho.
Óleo sobre tela com uma vista da baía da Praia Grande em meados do séc. 19


Transcrição:
Macau.
Não tem este estabelecimento decaido da excellente situação em que o deixára o ultimo relatorio, que vos foi presente, e é de esperar que assim prosiga, não sobrevindo eventualidades que não é dado prever. O seu atilado e muito solicito Governador, que já com bom exito concluíra o tratado com Siam e com o Japão, de que tantas vantagens póde auferir o commercio nacional, se quizer aproveita-las, continua a mostrar-se digno de louvor por sua intelligencia e zêlo a bem do paiz. Pelo mesmo funccionario foi ultimamente negociado com o governo do Imperio chim um tratado de amisade, navegação e commercio, para assentar em bases solidas as mal definidas relações d’aquelle estabelecimento com a China, negociação a que estava auctorisado com a antecedencia conveniente, e para que fôra habilitado com os necessarios meios, a fim de aproveitar, como aproveitou, a occasião mais opportuna. D’esse tratado tomareis conhecimento quando pela repartição competente for apresentado ao vosso exame. 
Sobre o estado da instrucção tenho a satisfação de annunciar-vos que melhora sensivelmente, como era muito desejado e para desejar em cidade tão importante e populosa. Depois que ao seminario de S. José se reuniu a escola publica, estabeleceram-se alli cadeiras de grammatica portugueza, de latim, francez, inglez, de lingua chim e de theologia. Para que este estabelecimento possa porém corresponder aos seus fins é ainda indispensavel crear mais cadeiras, para as quaes hão de ir de Portugal os professores, por não haver em Macau sujeitos habilitados para as reger. O seminario, além dos rendimentos proprios, que não são escassos, administra os fundos da escola, que tendo sido de 5:000 patacas estão hoje elevados a 9:000, e recebe o producto de uma loteria que lhe dá annualmente um bonus de 900 patacas. Já vedes portanto que não faltam os recursos para desenvolver alli a instrucção, pelo menos o principal d’ella e o mais consentaneo ao estabelecimento, não se achando já absolutamente descurada a do primeiro grau, como vereis, e sendo ainda possivel, n’este e no segundo, encher lacunas sensiveis, introduzir modificações que systematisem, completar emfim uma adequada organisação. 
D’esta organisação se occupa seriamente o Governo, ouvindo e consultando as estações competentes, como pede a circumspecção em tão grave assumpto. Para a educação do sexo feminino ha n’esta cidade o recolhimento de Santa Rosa de Lima, que se acha estabelecido actualmente no convento de Santa Clara*; prestando bons serviços, mas não bastando á população europea. Estabeleceu tambem o barão do Cercal, a expensas particulares, uma escola para instrucção do sexo masculino, que se abriu ha pouco tempo, e que o Governo julgou dever efficazmente auxiliar, sem todavia prescindir de determinar a fundação de outro estabelecimento de instrucção popular, que effectivamente foi ordenada em 29 de Fevereiro ultimo. N’este logar vem a ponto mencionar-vos o collegio das missões ultramarinas, albergado em Sernache do Bom Jardim, por se tratar de assumpto que tem com elle proximas relações, e porque, recebendo de Macau subsidio annual que vem a constituir uma quota importante da sua dotação, tem com as instituições de instrucção d’aquella cidade communidade de fins e de interesses. Mandou ultimamente este estabelecimento dois professores para o referido seminario de S. José, os quaes estão já leccionando alli com grande satisfação e approvação de todos, e continua preparando diligentemente alguns aspirantes ao estado ecclesiastico, para as religiosas e elevadas funcções que o proprio nome do collegio designa. Como em differentes partes d’este relatorio deixo indicado, tem o Governo extremamente a peito tornar uma realidade as missões ultramarinas, que trata de incitar; e para isso cuida em vigiar e devidamente entender n’aquelle collegio, que, bem organisado, administrado e localisado, póde vir ainda a prestar os grandes serviços de ordem religiosa e moral, que são muito para desejar. 
O estado da Fazenda Publica em Macau prosegue em prosperidade. Tem para esta prosperidade concorrido, entre outras causas, a guerra civil no Imperio chim, guerra a que não é ainda possivel prever termo; e a administração aproveita assiduamente a opportunidade para assentar em bases solidas e permanentes a fortuna do estabelecimento. Foi a receita no anno anterior de 249:313 patacas, e a despeza de 180:013, a saber: 110:108 de despeza ordinaria, e 69:905 de despeza extraordinaria. A encommenda para Inglaterra de um vapor adequado ao serviço especial do estabelecimento, satisfaz as justas instancias do commercio local, e a construcção de um vaso que realise as desejadas condições de força, tonelagem, tirante de agua e lotação, como espero que sairá este, ha de poderosamente concorrer para a segurança do mesmo commercio, e consequentemente para o seu desenvolvimento. 
Pormenor da pintura mencionada
à esq. o fortim de S. Pedro e por trás a residência do governador

Algumas vias de communicação se têem alli construido, e muitos concertos executado no palacio do Governo, cadeia, fortalezas, etc. Fôra auctorisado o Governador a proceder á edificação de um novo quartel**, e por Carta de Lei de 5 de Junho do anno preterito, igual auctorisação foi concedida á Junta de Fazenda para despender no proximo anno economico até á quantia de 20:000$000 réis em obras publicas, entre as quaes figura em primeira linha de urgencia a cortina ou muralha que do lado do mar deve resguardar a cidade. A verba ultimamente applicada a obras publicas em Macau, sem contar a auctorisação acima referida, sobe a 30:077 patacas. O custo do vapor mencionado orçará por 70:000. 
Foram já devidamente requisitadas, e poderão embarcar no proximo Fevereiro, duzentas praças do Exercito, que vão reforçar e completar a guarnição da cidade. Confiada esta guarnição aos cuidados do estimado e experiente official superior, que o Governo ultimamente enviou, não se repetirão os deploraveis actos de insubordinação que o Governador teve recentemente de reprimir com louvavel resolução. 
Diversas providencias de outra ordem, que opportunamente examinareis, têem sido adoptadas, como instantemente convinha á nova phase em que parece destinado a entrar este estabelecimento. Outras disposições de superior importancia, como as que respeitam aos coolies, á procuratura da cidade, e ás attribuições dos consules nos paizes com os quaes foram celebrados os tratados já referidos, apressa o Governo, sem prejuizo da madureza e reflexão com que importa serem predispostas, e confia que dentro em pouco vos serão apresentadas.

* em 1875 passou a ser Colégio de Santa Rosa de Lima
** Demolido o Convento e Igreja de S. Francisco foi construído o Quartel de S. Francisco

terça-feira, 3 de fevereiro de 2026

Do Desenho à Litografia: O Processo e os Intervenientes

Esta "Vue génerale de Macao" foi publicada na edição de 6 de Fevereiro de 1858 da publicação francesa "L'Illustration - Journal Universel". Tem como legenda "Vue génerale de Macao d'aprés un déssin envoyé par M. E. Roux"
Seria depois publicada em outros jornais um pouco por todo o mundo e com ligeiras diferenças. E isto porque no século 19 o processo de composição para impressão assumia-se como uma reinterpretação artística do desenhador original. Em alguns casos a 'gravura' também podia ser colorida. Como se pode verificar neste exemplo, parecem iguais mas não são...

Do Desenho à Estampa: O Processo e os Intervenientes

1. O Desenhador (O Autor)
Profissional: Artista ou Desenhador 
Função: É quem faz o levantamento visual no local. Produz o original em papel (lápis ou aguarela). 

2. O Gravador (O Artífice Polivalente)
Técnico especializado que traduz o desenho para uma matriz que pode ser de diferentes suportes:
Sobre Madeira (Xilogravura): Se a imagem fosse para um jornal (como o Arquivo Pitoresco em Portugal), o gravador esculpia um bloco de madeira. Ele criava as hachuras em relevo para que pudessem ser impressas juntamente com o texto metálico.
Sobre Pedra (Litografia): Se o objetivo fosse uma estampa de maior qualidade, o gravador (aqui chamado de litógrafo) desenhava sobre uma pedra calcária com materiais gordurosos. É um processo químico, mas a mão que define o traço é a do gravador.
Sobre Metal (Calcografia): Para edições de luxo, o gravador utilizava o buril ou ácidos para abrir sulcos em chapas de cobre ou aço.

Nota: O gravador era tão importante que, muitas vezes, o seu nome aparece gravado na base da imagem (ex: "Gravado por..."), pois era ele quem decidia como interpretar as sombras e as texturas do desenho original.

3. O Impressor (O Mestre da Prensa)
O Impressor é o responsável pela oficina. Ele prepara as tintas, molha o papel (para que este aceite melhor a tinta) e opera as prensas. O seu domínio sobre a pressão da máquina é o que evita que as linhas finas (as hachuras) fiquem empastadas.

4. O Iluminador ou Colorista (O Acabamento)
Profissional: Colorista (frequentemente artistas anónimos em oficinas).
Este profissional aplicava a cor à mão, exemplar a exemplar, usando aguarela. Ele não gravava nada; apenas acrescentava valor estético à impressão a preto e branco que saía da prensa.

sexta-feira, 23 de janeiro de 2026

O "Canton System"

Em 1684 o imperador Kangxi (康熙) da dinastia Qing (清朝) levantou a proibição do comércio marítimo e abriu quatro portos da China ao comércio externo. São assim criados os postos alfandegários, os Hopu. Na região de Macau (a partir de 1688) existiam quatro postos alfandegários - dois deles na cidade: Porto Interior e Praia Grande - responsáveis ​​pela cobrança de tarifas, inspecção de embarcações estrangeiras e emissão de autorizações de entrada.
Ao longo do século 18 o cada vez maior interesse de potências ocidentais, incluindo a Grã-Bretanha, a França, a Suécia e os Estados Unidos, em negociar com a China levou o imperador a criar regras.
O "Sistema de Cantão" - do inglês Canton System - consistia numa série de regulamentos para governar as interações entre chineses e estrangeiros em Cantão. Foi criado em 1757 pelo imperador Qianlong que emitiu um édito proibindo os navios europeus de negociarem em qualquer outro porto chinês que não fosse o de Cantão.
Praia Grande de Macau por G. Chinnery ca. 1825/30

Os supercargueiros (supercargos) estrangeiros que desejassem comercializar em Cantão solicitavam uma licença em Macau antes de contratar um piloto local para navegar a embarcação pelo estuário do Rio das Pérolas até à estação alfandegária de Bocca Tigris. Após as autoridades inspeccionarem a licença, um “prático interno” assumia o comando do navio e guiava-o rio acima, passando por uma série de
bacias de areia e bancos de areia traiçoeiros, até à ancoragem designada em Whampoa, já muito perto de Cantão. 
Um membro do grémio de mercadores “Co Hong” (hang 行) autorizado pelas autoridades chinesas era então recrutado para garantir a segurança do navio, assumir a responsabilidade pela conduta da sua tripulação, fiscalizar o pagamento de diversas taxas portuárias e direitos aduaneiros e comercializar com a embarcação estrangeira. 
Era também contratado um 'comprador' para abastecer o navio enquanto este estivesse atracado em Whampoa, e um linguista ou intérprete licenciado pelo Estado ajudava a supervisionar as transacções comerciais entre o supercargo estrangeiro e o seu parceiro comercial chinês. 
Em Cantão, junto ao rio, foi criado um espaço onde estavam instaladas treze "feitorias" (factory em inglês). Ficava fora das muralhas da cidade onde o estrangeiros não podiam entrar. Os edifícios serviam de alojamento e armazém para os comerciantes estrangeiros enquanto estes permaneciam em Cantão e conduziam os seus negócios.
No fim de cada temporada de comércio (Março a Setembro), os comerciantes tinham de sair de Cantão, residindo em Macau os restantes meses do ano, onde também estavam as famílias e, por vezes, escritórios das empresas de maior dimensão.
O sistema gerou enorme frustração nos britânicos (liderados pela Companhia das Índias Orientais), que o consideravam humilhante e comercialmente limitador. O desequilíbrio comercial - o Ocidente comprava chá e seda, mas a China apenas aceitava em troca a prata - levou os britânicos a introduzirem o ópio no mercado chinês para equilibrar a balança.
Em 1802 e 1808 os ingleses tentaram ocupar Macau mas não lograram os objectivos. Estas intenções seriam mal vistas pelas autoridades chinesas que entretanto emitem éditos a proibir o comércio do ópio. 
Aguarelas de meados do séc. 19

Após o parlamento inglês ter revogado o monopólio da Companhia das Índias Orientais, em 1834, William John Napier foi nomeado superintendente-chefe do comércio britânico na China. Tentou negociar com as autoridades de Cantão em pé de igualdade, mas estas interpretaram o seu comportamento como contrário às relações sino-estrangeiras estabelecidas. A sua missão fracassou e Napier viria a morrer nesse ano em Macau. Foi substituído em 1836 por Charles Elliot.
Em Pequim, uma proposta de 1836 para aliviar as restrições ao ópio obteve um amplo apoio, mas o imperador Daoguang nomeou um patriota radical, Lin Zexu, como comissário imperial para uma campanha antiópio. Os esforços chineses contra o ópio, de facto, começaram a obter avanços consideráveis ​​no controlo do lado chinês do contrabando no final de 1838 e início de 1839. O lado estrangeiro crucial do comércio de ópio, no entanto, estava fora do alcance directo do Comissário Lin. Após chegar a Cantão, em Março de 1839, Lin confiscou e destruiu mais de 20.000 caixas de ópio. Em setembro, começaram as escaramuças entre os chineses e os britânicos.
Era o desencadear da primeira Guerra do Ópio (1839-1842). O "Sistema de Cantão" foi oficialmente abolido com o Tratado de Nanking, que pôs fim à Primeira Guerra do Ópio e forçou a China a abrir ao estrangeiro cinco novos portos - "Portos de Tratado" / Teatry Ports - e a ceder Hong Kong.

sexta-feira, 9 de janeiro de 2026

"Vestígios Sagrados de Macau" por Gao Jianfu

Esta pintura das Ruínas de S. Paulo (aguarela e tinta da china - 43.5 x 46.5 cm) é uma das últimas obras da autoria do conceituado pintor Gao Jianfu (1879-1951), nome maior da pintura chinesa moderna com fortes ligações a Macau. 
Produzida ca. 1950 inclui elementos das pinturas ocidental e chinesa evidenciando-se o domínio da técnica de caligrafia chinesa e da pintura de paisagem, incluindo árvores, animais e figuras humanas.
A fachada da igreja Mater Dei é apresentada numa perspectiva pouco habitual sendo vista a partir da Calçada de S. Paulo, aparesentando-se à direita o templo de Na Tcha.
No topo os caracteres na horizontal 馬交聖蹟 significam "Vestígios Sagrados de Macau". Em baixo para além da assinatura do pintor está um poema.
O texto começa com a identificação do local: 三巴門外 que significa "Fora da Porta de São Paulo". Segue-se uma descrição da atmosfera do local evocando a passagem do tempo e a decadência da antiga glória do Colégio e Igreja de São Paulo, mencionando o contraste entre as pedras sobreviventes e a vida humilde que se instalou ao seu redor. Referem-se ainda "vendedores" e "trabalhadores" (como os carregadores que vê na pintura) que circulavam naquelas ruas estreitas em meados do século 20.

Detalhe da 'assinatura' da pintura no canto inferior esquerdo: 
Caracteres pretos na vertical 劍父 (Jiànfù) e carimbo vermelho em estilo de sinete.

Nascido em Panyu (Cantão), Gao Jianfu (em chinês: 高劍父/ "Gou Gim Fu" é reconhecido por liderar o esforço da Escola Lingnan para modernizar a pintura tradicional chinesa como uma "nova arte nacional".
Aos treze anos ingressou no atelier do artista chinês Ju Lian, em Lishan, onde serviu como seu aprendiz durante os sete anos seguintes. Durante este período, Gao Jianfu pintou num estilo semelhante ao do mestre: vibrante, colorido e realista. Os temas das suas pinturas eram sobretudo pássaros, flores e paisagens[3]. No estúdio de Ju Lian, Gao Jianfu tornou-se amigo próximo de Chen Shuren, também ele artista.
Em 1903, Gao Jianfu começou a trabalhar com o pintor e colecionador Wu Deyi tendo os primeiros contactos com a pintura tradicional chinesa.
Estudou no Canton Christian College, hoje conhecido como Universidade de Lingnan. Dois dos seus professores mais influentes foram "um professor francês de pintura conhecido apenas pelo seu nome chinês, Mai La," e Yamamoto Baigai, um dos muitos professores japoneses que então viviam na China. Profundamente inspirado pelos seus professores, Jianfu viria a viajar para Tóquio no inverno de 1906 mas seria uma curta estadia. Devido à falta de recursos regressou a Cantão para passar o verão. Em 1907 regressou a Tóquio com o seu irmão de dezanove anos, Gao Qifeng, tendo convivido com o amigo Chen Shuren.
Durante a sua estadia no Japão, os três homens foram expostos aos debates nacionalistas "que então ocorriam no mundo da arte japonesa sobre o impacto modernizador da arte ocidental nas tradições artísticas locais do Japão". Jianfu interessou-se pelas sínteses das abordagens ocidentais e tradicionais, que eram paralelas ao trabalho no mundo da arte contemporânea japonesa. Jianfu, juntamente com os seus pares da Escola Lingnan, viu esta mistura de estilos como um modelo para a arte nacional moderna. Muitos dos estudantes da Lingnan juntaram-se ao movimento anti-Manchu de Sun Yat-sen, um movimento nacionalista revolucionário. Mais tarde, Gao juntou-se ao Corpo de Assassinos Chinês, um grupo anarquista chinês.
Em 1912, após a queda dos manchus, Gao Jianfu e o seu irmão mudaram-se para Xangai. Começaram a publicar um jornal intitulado Zhen xiang huabao (O Registo Verdadeiro). A publicação apresentava artigos sobre arte e política, bem como ensaios que promoviam uma nova arte nacional modernizada na China. Embora tenha durado apenas um ano, o jornal foi um dos primeiros a levar a arte ao grande público. Os irmãos defendiam o apoio governamental às artes e abriram a primeira galeria pública do país para a exposição e venda de obras de arte, a Livraria Estética. Em 1918 saíram de Xangai e foram para Cantão onde em 1923 fundaram a Academia de Arte do Despertar da Primavera em Cantão.
Em 1929 Jianfu foi acusado de sentimentos xenófobos durante o seu período como principal organizador da primeira Exposição Nacional de Arte do governo, realizada em Nanquim. Devido à grande importância da Escola Lingnan, houve uma reação hostil à inclusão de tendências artísticas não chinesas.
Em 1936, Jianfu começou a lecionar na Universidade Sun Yat-sen. Continuou a publicar artigos, nos quais defendia o seu conceito de nova arte nacional. Sugeriu que a pintura nacional abandonasse o "elitismo" da arte tradicional e se envolvesse mais directamente com o público chinês. Com a invasão da China pelo Japão em 1937 Gao Jianfu deixou Cantão e foi para Macau em 1938 onde viveu até 1945. Regressaria a Cantão onde viveu até 1949. Com a chegado ao poder de Tsé-Tung em 1949 fugiu novamente para Macau onde fundou uma escola e viria a morrer a 22 de Maio de 1951. Gao Jianfu legou a Macau um grande número de obras que constituem um verdadeiro tesouro artístico do território e tem sido exibidas em várias exposições.