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domingo, 31 de maio de 2026

Dicionário Chinês-Português /中 葡 字 典 : 1964

Impresso na Imprensa Oficial de Macau entre 1962 e 1964 este "Dicionário Chinês-Português /  中 葡 字 典" tem a particularidade de ser dedicado pelo Governo de Macau a Sun Iat Sen e incluir uma breve história de Macau.


中 葡 字 典
中 (Zhōng): Abreviação para China ou língua chinesa.
葡 (Pú): Abreviação para Portugal ou língua portuguesa (derivado de 葡萄牙).
字 典 (Zì diǎn): Significa literalmente Dicionário




quarta-feira, 5 de maio de 2021

Sun Yat-Sen em Macau: Maio de 1912

Sun Yat Sen está ligado a Macau por diversas formas e em diferentes fases da sua vida. Passou por Macau pela primeira vez com 12 anos, em Maio de 1878, para apanhar o barco que o levaria até ao Hawai ao encontro do irmão de seu pai. Em 1892, com 26 anos e terminado o curso de medicina, decide vir estabelecer-se em Macau. Escreverá assim: "Acabado o curso de medicina, comecei a exercer a profissão em Macau e em Cantão. Foi em Macau que iniciei a minha carreira a e a minha vida de revolucionário. Ao longo de vários anos, quando não tinha aulas sempre viajava entre Hong Kong e Macau fazendo propaganda revolucionária sem medo nenhum."
Começa a trabalhar, como médico, no Hospital Kiang Wu. Reside no prédio n.º 19 do Largo do Senado e abre consultório no n.º 48 da Rua de Estalagens, praticando medicina europeia, fundando ainda uma Farmácia chinesa, recentemente restaurada e aberta ao público.
Fundada a República na China, em 1911, sendo ele dos fundadores, Sun Yat Sen, voltaria a Macau em Maio de 1912 onde foi alvo de uma grandiosa recepção. Dessa visita existem pelo menos três registos fotográficos: um no Grémio Militar, outro no hospital Kiang Wu e ainda no Yui Yuen, o Pavilhão Iong Sam Tóng da residência de Lou Kao ou Lou Lim Iok (hoje Jardim Lou Lim Ieoc), onde Sun Iat Sen esteve hospedado duas noites.
Esta última é a imagem acima. Na primeira fila, sentados, à esquerda, podem ver-se Camilo Pessanha e, ao centro da foto, ao lado do Dr. Sun Yat Sen, a mulher do Governador de Macau, e o próprio governador, Álvaro de Melo Machado. Do lado esquerdo do Dr. Sun, a filha mais velha, Sun Wan e Francisco Hermenegildo Fernandes, um dos seus grandes amigos macaenses.
No Grémio Militar a 25 de Maio de 1912

sábado, 28 de novembro de 2020

Reverendo Charles Robert Hager

A autoria desta fotografia da baía da Praia Grande é atribuída a Charles Robert Hager e foi tirada por volta de 1890-1900. Pode também dar-se o caso de ser apenas uma fotografia que ele comprou e que ficaria nos arquivos pessoais sendo-lhe atribuída a autoria.
O Reverendo Dr. Charles Robert Hager (1851-1917), de origem suíça mas nascido nos EUA, foi um dos mais notáveis missionários protestantes na China (cujo pioneiro foi Robert Morrison) no final do século 19 e início do século 20. Foi enviado para Hong Kong em 1883 pelo American Board of Commissioners for Foreign Missions (ABCFM)/Conselho Americano de Comissários para Missões Estrangeiras. 
Hager ficaria conhecido por ter baptizado* o Dr. Sun Yat-sen, o primeiro presidente e fundador da República da China. Foi ainda fundador e o primeiro responsável da Igreja Congregacional da China em Hong Kong.

*Nasceu a 12 de Novembro de 1866 numa família de camponeses na pequena aldeia de Choy Heng (Cuiheng), no distrito de Heong-Sán (Xiangshan, actual Zhongshan), província de Liangguan (Guangdong e Guangxi), situada a cerca de 50 quilómetros a Norte de Macau, sob o nome de Sun Wen Dixiang. O pai trabalhava como alfaiate em Macau tendo regressado à sua aldeia antes do nascimento do filho, segundo o Monsenhor Manuel Teixeira.
Foi quando Sun Wen estudava na Escola Diocesana da Igreja Anglicana em Hong Kong, que foi baptizado pelo missionário protestante Dr. Charles R. Hager tendo recebido o nome de Sun Yat-sen.

quinta-feira, 23 de janeiro de 2020

Farmácia Chong Sai - Rua das Estalagens, 80



Fachada e corte. Plantas do ICM

Sun Yat-sen, oriundo do distrito de Xiangshan, na província de Guangdong, era originalmente conhecido por Wen e só mais tarde adoptou o nome Yat Sen. No Japão, durante as suas actividades revolucionárias, utilizou o nome de “Zhongshan Qiao” (Nakayama Sho), mas os chineses conheciam-no pelo nome de Sun Zhongshan. No decurso da sua estadia em Macau, abriu a Farmácia Chong Sai, na Rua das Estalagens, em 1892 e também um consultório, situado num edifício do Largo do Senado. Segundo o jornal chinês “Ching-Hai Tsung-Pao”, Sun dava consultas entre as 13 e as 15 horas. Em 1893 Sun deixou Macau, tendo criado a Sociedade para o Renascimento da China em 1894, que em 1905 se transformaria na Aliança Revolucionária Chinesa (Tongmenghui), defendendo como valores cruciais na construção da nova China os “Três Princípios do Povo”, ou seja, independência nacional, democracia e bem-estar das massas populares. No dia 10 de Outubro de 1911, a insurreição Wuchang foi, finalmente, bem sucedida e Sun Yat-sen tornou-se, em 1912, o primeiro presidente provisório da recém-criada República da China.
Em 2011 o Governo de Macau comprou o edifício situado no nº 80 da rua das Estalagens por 36 milhões de patacas.

terça-feira, 17 de abril de 2018

O número 1 da Rua Silva Mendes


Em Macau existe a chamada Casa Memorial de Sun Iat Sen. Ao contrário do que muitos pensam, não foi nunca a sua residência. Foi mandada fazer em 1912/1913, pela sua mulher, Lu Muzhen e pelo filho, Sun Fó /孫科, no nº 1 da Rua de Silva Mendes, junto à Av. Sidónio Pais, na zona da Flora.
Sun Iat Sen é o 4º em último plano a contar da direita
O edifício destruído em Agosto de 1931 pela explosão do paiol da Flora

Em Agosto de 1931 ficou praticamente toda destruída na sequência da explosão do Paiol da Flora sendo reconstruída em 1933. Em 1958 tornou-se Casa Memorial e foi aberta ao público como se mantém até hoje. De seguida, reproduz-se um texto da autoria de Luís Gonzaga Gomes, escrito em 1953, sobre aspectos da vida de Sun Iat Sen.
"O vulto mais proeminente da história contemporânea da China é, sem dúvida, Sun-Iât-Sin, que os chineses deificaram, cognominando-o de “Kuók-Fu”, isto é, “pai da nação”, não só por ter ele sido um dos principais fautores da República Chinesa, como ainda pelo facto de ter sacrificado, com modelar abnegação, toda a sua vida, em proveito da grande reforma social, que visava transformar o seu país numa nação próspera o europeizadamente civilizada.
Natural de Tch’ói-Hâng, insignificante vilório que dista apenas uns poucos de quilómetros de Macau, era petiz de treze anos quando partiu para Honolulu, a fim de se juntar a um irmão mais velho que prosperava nessa longínqua “Pérola do Pacífico”.
Após cinco anos de estudos elementares, regressou à terra natal, para seguir pouco depois para Hongkong, onde fez os preparatórios no “Queen’s College” e, em 1892, formou-se brilhantemente no “Medicai College” dessa mesma cidade.
Os ininterruptos vexames impostos pelo estrangeiro à sua pátria, despertaram pouco a pouco, lentamente, no seu ser o espírito de revolta, e não lhe foi difícil ver que o motivo primacial porque o seu país se encontrava debilitado e incapaz de reagir à então desenfreada cupidez dos estranhos, residia na completa inépcia do caquético e anacrónico regime monárquico, totalmente arruinado e enfraquecido pela corrosiva venalidade e pela estulta incompetência de imbecilizados eunucos que eram os que nesse tempo retinham de facto, nas suas mãos, os destinos da nação chinesa.
O malogrado Kuóng-Sôi, jovem e inexperiente monarca, quando subiu ao trono, em 1875, tentara reformar o país. Mal avisado, porém, pelo aliás bem intencionado Hóng-lâu-Uâi, ousou prematuramenta derruir, no curto espaço de cem dias, costumes e leis milenariamente consuetudinários mas, traído vilmente pelo seu lugar-tenente, Un-Sâi-Hói (Yuan-Shih-Kai) - o maior funâmbulo da política chinesa que, vindo depois a ser Presidente da República, tentou restabelecer a Monarquia, proclamando-se seu imperador,— foi por este entregue à valetudinária e cruel imperatriz reinante que, ao saber que uma das intenções do incauto Kuóng-Sôi era afastá-la definitivamente do trono, não hesitou em repetir um desses actos de tragédia medieval, fazendo sequestrar o malaventurado imperador, durante quarenta longos anos, entre as quatro paredes desprovidas de janelas dum dos pavilhões da Cidade Interdita.
Gorara assim um infortunado tentame cujo desígnio almejava uma drástica reforma do complicado sistema político chinês - a introdução do sistema democrático, no seu aspecto mais liberal possível, em substituição dum absolutismo intransigente e imutavelmente conservador.
Desfeita a ténue esperança que os espíritos liberais - os verdadeiros patriotas daquela época - mal vislumbraram, não existia outro meio de salvar a nação, que estava caminhando a passos largos para o vórtice, senão escorraçar do mando os odiados eunucos, conselheiros da déspota imperatriz-mãe, e segregar do mando os incompetentes e malversadores mandarins, os sátrapas do sistema monárquico chinês.
Não era fácil lutar contra os interesses dum sistema político que séculos de experiências constituíra em uma admirável organização; contra uma escola mental, formada por retrógrados letrados que, por se encontrarem obcecados com os obsoletos conceitos filosóficos dos seus cânones clássicos se julgavam possuidores da sabedoria universal, repudiando por isso qualquer ideia inovadora; contra os mandarins, classe privilegiada que retinham o poder e a riqueza; e, contra milhões de indivíduos mal dispostos a ceder o seu modo do vida que supunham irrefragavelmente o melhor do mundo por outro deles inteiramente desconhecido. Provocar, pois, uma revolução, num meio tão hostil, era tarefa hercúlea que demandava longos anos de proselitismo para se poder obter algumas probabilidade de êxito.
Estava, porém, lançada a sorte, e Sun-lât-Sin não trepidaria ante nenhuma dificuldade. Impulsivo, dominando facilmente quem o ouvia com a magia das suas palavras, principiou a sua campanha de aliciação, organizando uma sociedade secreta que tentou um ataque contra o “Yamen” de Cantão, em 1895. Fracassada a tentativa e acossado pela polícia manchú, o visionário patriota foi obrigado a exilar-se. Fugiu para Hauai, para Londres, para terras diversas, sempre perseguido. Na sua vagabundagem, de cidade em cidade, o seu lúcido espírito não descansava, ia observando, estudando e absorvendo novas idéias que ficariam mais tarde consubstanciadas no “Sám-Mân-Tchü-I” (os Três Princípios do Povo). Em todos os lugares ondo encontrava um núcleo de compatriotas não lhe faltava o apoio moral e financeiro dos mesmos.
Durante esse agitadíssimo período da sua vida, Sun-Iât-‘Sin   teve de albergar-se  várias vezes em Macau, e, numa ocasião estabeleceu a sua residência e consultório na Rua das Estalagens, no prédio onde hoje se encontra instalada a firma de sedas “U-Tip-P’ât-Tâu”, porventura o primeiro onde a clínica europeia foi exercida por um cidadão chinês. Sun-Iât-Sin, necessitava de se dedicar à, sua profissão de médico, não só para ocultar a sua verdadeira actividade, como para obter recursos, a fim de poder manter-se, tanto a si como aos seus correligionários mais necessitados.
Esse consultório em breve se transformou em refúgio dos mais importantes monarcómanos, tais como: lèong-Hók-Leng, lâu-Lit, Uóng-Hák-Kéong, o mais ardente de todos, lu-Tchéong-Pou e outros. Pela calada da noite, os conjurados efectuavam o seu corrilho no consultório e aí recebiam as instruções do chefe, e, numa mesma cama, dormiam os lugares-tenentes de Sun-Iât-Sin, quando após horas de truculenta discussão a fadiga os obrigava a descansar.
Como médico, Sun-Iât-Sin era extremamente habilidoso. Entre a sua numerosa clientela, figurava um nevrópata, filho do ricaço Lou, que, minado pela atroz doença que o lançava em constantes ataques de melancolia, depois de ter recorrido sem sucesso algum à ciência dos mais famosos curandeiros da época, só alcançou ser curado por Sun-Iât-Sin.
Grato   por  quem   conseguira   restituir a serenidade ao espírito atribulado do seu estremecido filho, Lou-Si   ofereceu-lhe   um  medaIhão de oiro,   onde  estava  gravado  o eterno testemunho   do   seu  reconhecimento, nos seguintes termos:  “São mútuas a sua habilidade e a sua bondade”. Pouco depois, Sun-Iât-Sin teve de abandonar o seu consultório para ir exercer a sua actividade de revolucionário em outros lugares.
Todos os seu pertences foram então confiados à guarda de Ièong-H’ók-Leng e, quando este morreu, foram entregues aos cuidados da viúva do ricaço Lou-Si. Entre essas relíquias existia um filtro onde lèong-H’ók-Leng pincelara este conceito ditado pela sua admiração ao caudilho: “Ansioso desígnio tão puro como a água”. Com o decorrer dos anos, o filtro passou a ser propriedade de Lèong-Im-Mêng, director que foi da Escola Secundária Sông-Sât de Macau, que o ofereceu ao Museu dos Cinco Andares de Cantão, a fim do mesmo poder ser admirado e reverenciado por todos os cantonenses.


No intuito de perpetuar a memória de Sun-Iât-Sin em Macau, Tch’àn-Tchân-U, aliás Tch’ân-Meng-Sü, quando foi escolhido pelo general Tchèong-Kái-Seak para presidente do Governo Provincial de Kuóng-Tông, com sede em Cantão, pensou em adquirir o edifício onde aqui esteve instalado o consultório de Sun-Iât-Sin, a fim de o transformar em um “Pavilhão de Recordação de Tchông-Sán”. Esta ideia, porém, não chegou a vingar porque Tch’àn-Meng-Sü pouco tempo se demorou no poder, em virtude do golpe de estado, provocado em 28 e 29 de Abril de 1931, pelo seu rival o general Tch’àn-Tchái-T’óng, comandante do  8.° Corpo do Exército Nacional Revolucionário.
Em frente do Quartel de Artilharia, na Rua Silva Mendes, existia uma casa que servira de habitação à mulher de Sun-Iât-Sin e que foi destruída no pavoroso desastre da explosão do paiol da Flora, em 1928. Em seu lugar ergue-se hoje um magnífico edifício (foto acima), em estilo mourisco-modernista, encontrando-se no meio do seu pequeno jardim a estátua de Sun-Iàt-Sin, em bronze e tamanho natural. É nesta casa que o seu filho Sün-Fó, um dos mais importantes vultos da política chinesa, costuma residir, quando de passagem por Macau para a sua aldeia natal."
PS: utilizando o motor de pesquisa do blogue e/ou as "etiquetas" podem ser encontrados inúmeros posts sobre o tema.

sábado, 25 de março de 2017

O clã Lou

No final do século XIX um comerciante chinês iria marcar de forma decisiva e a vários níveis a vida em Macau, tal foi a sua influência. Refiro-me a Lou Wa Sio, mais conhecido po Lou Kao, nono filho do clã Lou, originário de Xinhui, na província de Guangdong, muito perto de Macau.
No território deixou como legado uma mansão com marcas do período da dinastia Qing, na Travessa da Sé (imagem ao lado), e um dos jardins mais bonitos e mais chineses de Macau, feito à imagem e semelhança dos da cidade de Suzhou, e que acabaria por receber o nome do seu primogénito, Lou Lim Ieoc.
A mansão, com traços chineses e alguns elementos da arquitectura occidental, foi construída por volta de 1889 e era conhecida pela designação Salão do Ouro e dos Jades (Kam Yuk Tong).
Mas as marcas do legado não se ficam pelo património edificado. Lou Kao foi também um dos primeiros magnatas da indústrias do jogo.
Nos filhos vai deixar a semente da intervenção política. Lou Lim Ioc chegou a ser membro do Leal Senado e Lou Yi Ieoc (o terceiro filho) foi também um dos apoiantes da causa de Sun Yat-sen, o fundador da República na China em 1911. Em Macau Sun teve outros importantes apoios, como foi o caso do amigo Francisco Hermenegildo Fernandes e dos governadores Álvaro de Mello Machado (1910-1913) e Carlos da Maia (1914-1916).
Carlos da Maia e Lou Lim Ioc lado a lado em Macau em 1915
“É com verdadeiro prazer que venho exprimir-lhe os meus sinceros agradecimentos pela extrema bondade que testemunhou, em repetidas circunstâncias a todos os meus amigos políticos, sobretudo durante os últimos acontecimentos que tiveram lugar não longe de Macau. Não tenho palavras para vos expressar o reconhecimento profundo que dedico a tantos testemunhos de simpatia da vossa parte. Transmitindo-vos assim esses sentimentos, eu estou certo de ser o intérprete fiel de todos os republicanos chineses. Formulo ardentes votos, meu caro Governador, para que a ordem e a paz sejam rapidamente restabelecidas na China, a fim de que nós possamos, com a ajuda e o exemplo da República Portuguesa, instaurar na China os princípios e as bases de uma administração que traduza as aspirações do povo”.
Rotunda Carlos da Maia em Macau. Década 1920

terça-feira, 17 de janeiro de 2017

Rua das Estalagens, nº 80

Em Dezembro último, a farmácia de medicamentos ocidentais Chong Sai, de Sun Yat-sen, reabriu ao público em Macau, mais de 120 anos após a fundação, sendo agora uma casa museu. O trabalho esteve a cargo do ICM.
  
Sun Yat-sen, que viria a ser o primeiro Presidente da China, chegou a Macau em 1892 para exercer medicina no Hospital Kiang Wu e um ano depois abriu a farmácia, onde além de assistir pacientes no seu consultório.
Com um pequeno espaço museológico com recibos, documentos, recortes de jornais e fotografias, na nova farmácia pode-se ver como a casa era originalmente e conhecer um pouco mais da relação entre Macau e o Dr. Sun Yat Sen.
O número 80 da Rua das Estalagens encontra-se no coração do bazar chinês, numa das mais antigas zonas comerciais da cidade. O prédio estreito, de dois andares, faz parte de um tipo de estrutura típica, em que o rés-do-chão é uma loja e os andares de cima são para habitação.

Fotos: M. J. Freitas
Neste post pode ver o edifício antes de ser restaurado.

sábado, 2 de janeiro de 2016

School at Macao: 1903

Dr. Oscar Francis Wisner
Our much loved preacher, You are about to go away from us for a visit to your homeland. You have loved, protected, and taught us all. Some for three years, some for more than ten years. We find it impossible to put into words the gratitude we feel for all that you have done for us. And yet at this time we cannot remain entirely silent. Words of farewell and godspeed. When you first came to Kwongtung, you were once eager to give education and the gospel to the minds of our countrymen. At that time, Dr. Noyes’s institution in Canton was but a small school for boys. Now nearly one hundred students attend that school each year. More than twenty have finished its course of study and have gone out here and there to teach or to preach. These young men are, as it were, the foster sons of you and Dr. Noyes, given to China. But this work did not content you. When you returned to China, about five years ago, you opened “the Christian College in China”, and at the present time one department of this institution is established, almost complete. In south China your college will be a great light, growing ever brighter, and sending forth, an ever-widening circle, the radiance of education and the gospel. We are sure you will succeed in achieving what you desire, and will satisfy us with that for which we hope. This paper we present to you as a pledge of united purpose between you and us, until you shall have returned and we shall meet again.
Faithfully your friends, Ts’uikomtong W. K. Chung, Mok T’in So, Marvin Mark, Liu Tak Shaan, Kw’aan Yan Ch’o
Macao December 1903
Tendo como 'ponto de partida esta fotografia 'cheguei' a esta carta (do mesmo ano) dirigida a Oscar Francis Wisner que está ligado à Escola de Lingnan - Canton Christian College - criada em 1884 em Cantão por Andrew P. Happer, médico e missionário, e que chegou a viver em Macau. Em 1899 a escola transferiu-se para Macau durante 4 anos na altura da guerra dos boxers e passou a denominar-se 嶺南學堂. Nesse período Oscar F.Wisner foi o responsável pela escola (até 1907).
Esta escola está na origem do que é actualmente a Universidade de Sun Iat Sen (criada em 1924), actualmente a mais reputada do Sul da China e no top 6 a nível do país. Tem 'sucursais' em Hong Hong e Macau (Escola Leng Nam).
 


quinta-feira, 12 de novembro de 2015

150.º aniversário do nascimento de Sun Yat-sen em 2016

A China anunciou que em 2016 celebrará o 150.º aniversário do nascimento de Sun Yat-sen (1866-1925), pai da revolução que em 1911 implantou terminou com o período dinástico e implantou a República e com fortes ligações a Macau. Sun seria ainda o  fundador do Partido Nacionalista Kuomintang (KTM), que após a guerra civil chinesa se refugiou na ilha de Taiwan.
As celebrações anunciadas pelo governo chinês vão-se concentrar, sobretudo, no dia 12 de Novembro de 2016, em homenagem a um "grande patriota, herói nacional e líder da revolução democrática", escreveu a Xinhua, agência noticiosa oficial chinesa.
O anúncio surge após um histórico encontro, no sábado passado, entre os líderes do Partido Comunista chinês (PCC)e do KMT, os presidentes da China e Taiwan, Xi Jinping e Ma Ying-Jeou, respectivamente.
Do ponto de vista da diplomacia internacional, existe a República Popular da China, governada pelo PCC, e a República da China, dirigida pelos nacionalistas, mas ambos os lados rejeitam uma divisão definitiva.
Apesar da divisão, que dura desde 1949, a figura de Sun Yat-sen, o "pai" da China moderna, foi sempre admirada no continente chinês, visto que a hostilidade contra o PCC foi iniciada pelo seu sucessor, o general Chiang Kai-shek.

segunda-feira, 20 de julho de 2015

Antigo cais sob farmácia de Sun Yat-sen

O Instituto Cultural de Macau (ICM) anunciou a semana passada a descoberta de vestígios arqueológicos do que se acredita terá sido o antigo cais da cidade, durante trabalhos de recuperação da antiga farmácia do médico Sun Yat-sen, primeiro presidente da China. Em 2012 foi encontrada uma estrutura em pedra num nível abaixo das fundações originais, na parte traseira do edifício, revelou hoje o IC. Já este ano, a equipa de restauro voltou a encontrar uma nova estrutura de pedra, de grande escala. 
Fachada da farmácia. Foto JT

A antiga farmácia, com mais de um século, fica localizada na Rua das Estalagens, no coração do antigo bazar chinês, uma zona que fica está a cerca de dez minutos a pé do actual cais do Porto  Interior. Com esta descoberta os trabalhos de recuperação e consequente abertura de uma casa-museu ficam atrasados. A ideia do projecto é transformar o edifício, representativo dos edifícios comerciais de Macau", num pequeno núcleo museológico, exibindo alguns documentos e objectos relacionados com Sun Yat-sen e a sua passagem pelo território. Os especialistas ainda não conseguiram datar este cais, garantindo apenas ser anterior ao edifício, do século XIX, mas lembram que era nessa zona marítima que se efectuava grande parte do comércio entre portugueses e chineses.
As investigações realizadas até agora indicam que o número 80 da Rua das Estalagens terá sido ocupado pelo fundador da República da China, que exerceu medicina em Macau e ali abriu a Farmácia Chong Sai, que disponibilizava medicamentos ocidentais, em 1892. A farmácia só terá funcionado durante cerca de um ano, motivo pelo qual se perdeu todo o recheio e mesmo a maior parte dos elementos decorativos.

 
Além das escavações, o ICM vai tentar recuperar as paredes, feitas do tradicional tijolo cinzento chinês, muito deteriorado devido à água salgada do subsolo, as pinturas no tecto, as janelas, portadas e frisos. Junto à traseira da casa, de três pisos, foi construído um anexo, moderno, com um elevador e casa de banho, para integrar o futuro museu.

quarta-feira, 22 de outubro de 2014

Carlos Gomes Bessa: 1922-2013

Falecido no final de 2013 o coronel Carlos Gomes Bessa não prestou serviço militar em Macau mas visitou o território várias vezes. Para além de militar foi também historiador. Na vasta bibliografia que produziu, Macau esteve presente em diversas obras.
Coordenou o volumoso “Presença Portuguesa no Oriente”, um número especial da Revista Militar (Janeiro de 1999), que inclui os artigos “Restauração em Macau – património e perspectivas do futuro de Portugal no Oriente” (1989), “Macau do Santo Nome de Deus na China e a União das Coroas Peninsulares” (1999), “Aljubarrota – sua evocação em Macau” (ICM, 1986) e “Macau e a Implantação da República da China – uma carta de Sun Yat-Sen para o Governador José Carlos da Maia” (Fundação Macau, 1999). 



Considerado "o pai da China moderna" Sun Yat-sen foi o primeiro presidente da República chinesa, proclamada a 10 de Outubro de 1911. Nascido no sul da China em 1867, Sun Yat-sen exerceu medicina em Macau e era um admirador da República portuguesa, proclamada um ano antes. Uma admiração que ficou expressa numa carta que Sun Yat-sen escreveu em 1916 ao então governador de Macau, José Carlos da Maia, agradecendo a "ajuda" da administração portuguesa aos seus partidários.
"Formulo ardentes votos, meu caro Governador, para que a ordem e a paz sejam rapidamente restabelecidas na China, a fim de que nós possamos, com a ajuda e o exemplo da República Portuguesa, instaurar na China os princípios e as bases de uma administração que traduza as aspirações do povo".

quinta-feira, 10 de outubro de 2013

10 de Outubro: década 1950

Arco comemorativo no final da década de 1940-50. Largo do Senado.
Bandeira portuguesa à esquerda e bandeira nacionalista à direita.
A 10 de Outubro de 1911 tinha início a revolução que iria terminar com a dinastia Qing (o imperador Pu Yi só viria a abdicar em Fevereiro de 1912) e dar início à primeira República na China e da qual Sun Iat-Sen seria o primeiro presidente.
In 10th October of 1911, a group of revolutionaries in southern China led a successful revolt against the Qing Dynasty, establishing the Republic of China and ending the imperial system. Dr. Sun Yat-sen was chosen the provisional first president of the newly declared Republic of China in 1912.

sexta-feira, 4 de outubro de 2013

Sun Yat-sen e a revolução de Outubro

A propósito do centenário da Revolução de Outubro de 1911 e da subsequente implantação da República na China, que teve como primeiro presidente o Dr. Sun Yat Sen, o Instituto Internacional de Macau (IIM) promoveu várias iniciativas na forma de seminários e palestras, centradas na vida e obra daquela que é a mais prestigiada e respeitada referência política da história moderna e contemporânea da China e no papel que Macau teve na sua formação e actuação. Assim, no dia 22 de Junho 2011, organizou um colóquio intitulado “Sun Yat Sen e, a fundação da República na China e Macau”, no Palácio da Independência, sede da Sociedade Histórica da Independência de Portugal, em Lisboa.
Dois conhecidos académicos, ambos ligados a Macau por funções aqui desempenhadas e por relevantes estudos efectuados, foram os palestrantes convidados: António Vasconcelos de Saldanha e Ming K. Chan, do Instituto Superior de Ciências Sociais e Políticas da Universidade Técnica de Lisboa e da Universidade de Stanford (Califórnia, EUA), respectivamente.
10 de Outubro de 1966 na Casa de Sun Iat Sen
Na sua muito bem elaborada comunicação que teve por título “Macau visto pelas duas Repúblicas”, Vasconcelos de Saldanha caracterizou o período histórico complexo que Macau atravessou no fim da monarquia e no advento da república em Portugal, com inevitáveis reflexos políticos no território, e, com base nos seus extensos e profundos trabalhos de investigação, explicou a evolução de Macau num tempo em que se operavam também tremendas mudanças na própria China, com um processo revolucionário eivado de contradições e marcado por sangrentos confrontos e acesas disputas do poder. (...) 
Coube a Ming K. Chan dissertar sobre Sun Yat Sen, que assumiu formalmente as funções de primeiro presidente da China no dia 1 de Janeiro de 1912, desta feita inaugurando uma nova era da sua história milenar, com uma clara afirmação de modernidade.

Intitulada “The Luso-Macau Chinese Connections in Sun Yatsen’s Modern Chinese Revolution”, esta comunicação cobriu três tópicos fundamentais: a situação única de Macau, nos contextos geopolítico e sócio-cultural no Delta do Rio das Pérolas e na região de Guangdong-Lingnan, assim como as influências intercontinentais lusófonas que deram ao território características singulares como enclave intercultural e transnacional; a influència de Macau na vida, no pensamento e nas opções de Sun Yat Sen, como primeira janela aberta para ele ao mundo, berço de novas ideias e valioso ponto de apoio para os seus intentos revolucionários; e o impacto da revolução republicana portuguesa de 1910 na campanha pela implantação da república na China e na afirmação de um ideário democrático-social de inspiração europeia. Ming K. Chan enfatizou o papel de Macau na formação e na ascensão política de Sun Yat Sen, primeiro pela proximidade da sua terra natal e pelas visitas feitas a familiares residentes no território, pela influência ocidental e cristã que recebeu, pela actividade profissional aqui exercida, como médico, pelas relações excelentes mantidas com intelectuais e profissionais locais e pelos importantes apoios aqui recebidos. Uma referência oportuna foi feita ao processo de implantação do regime republicano em Portugal e ao estímulo que este facto político, comemorado no território, representou para o sucesso das causas revolucionárias abraçadas por Sun. 
Mais do que uma cidade de matriz europeia na costa da China, Macau era um centro cultural vivo onde fervilhavam novas ideias e se desenvolviam redes de contactos, ao mesmo tempo que se mobilizavam recursos para a mudança de mentalidades e para profundas reformas sociais. Todo este ambiente foi da maior utilidade para Sun e para os movimentos que, interna e externamente, o sustentavam. Investigador do Centro de Estudos da Ásia Oriental da Universidade de Stanford e da Hoover Institution, onde dirigiu os arquivos documentais de Hong Kong, sua terra natal, Ming K. Chan obteve os três graus académicos nos EUA (Iowa - Ames, Wash - Seattle e Stanford), doutorando-se com apenas 25 anos de idade. Foi professor da Universidade de Hong Kong e professor visitante nas Universidades de Duke, California (UCLA), Mount Holyoke e El Colegio de Mexico. Esteve também ligado ao St. Anthony´s College de Oxford e às Universidades de Swathmore e Grinnell e, ao longo da última década, tem participado regularmente em seminários, conferências e estudos de instituições de ensino superior de Macau, sendo igualmente qualificado colaborador académico do IIM. É autor ou editor de 13 volumes académicos e mais de 70 artigos publicados sobre a História da China, Relações Externas Chinesas, Hong Kong e Macau. No prelo tem “China’s Macao Transforned” e “The China Factor & Hong Kong External Links”. Nasceu na povoação de Cuiheng (Tsui Hang), situada a 64 quilómetros de Macau, no distrito de Zongshan, no dia 14 de Novembro de 1866. 
Instalou-se em Macau em Novembro de 1894, e, no ano seguinte, fundou a Sociedade para a Regeneração da China, constituída maioritariamente por chineses ultramarinos, para instigar o derrube da dinastia manchu. Em Agosto de 1905, numa reunião em Tóquio, viu nascer a Aliança Revolucionária, organização politicamente mais consistente e eficaz, cuja presidência assumiu. Derrubada a dinastia Qing no dia 10 de Outubro de 1911, Sun Yat Sen foi proclamado presidente da nova república, cargo que exerceu apenas até 15 de Fevereiro do mesmo ano, quando entregou as responsabilidades ao general Yuan Shikai, o qual abandonou os princípios básicos de uma democracia constitucional e enveredou pelo caminho do poder autocrático. Seguiu-se um novo período turbulento em várias regiões da China, quando vários dos mais comprometidos seguidores de Sun se refugiaram em Macau, onde tiveram o apoio do governador José Carlos da Maia e de influentes personalidades locais. No dia 23 de Junho de 1916, Sun Yat Sen escreveu uma carta de agradecimento ao governador de Macau pela protecção dada aos seus correlegionários, com os quais, numa base cada vez mais alargada, foi fortalecendo a sua frente unida nacionalista. No Congresso do Partido Nacionalista Chinês, que decorreu em Guangzhou, de 20 a 30 de Janeiro de 1924, Sun Yat Sen foi apoteoticamente aclamado como dirigente máximo, com direito a veto. 
Sun Yat-sen no Kiang Wu
Um ano depois preparou o seu testamento político e faleceu em Pequim no dia 12 de Março de 1925, vítima de doença prolongada. Macau foi, efectivamente, a porta de acesso de Sun ao ocidente, quando daqui partiu para Honolulu, onde o seu irmão Mei já residia. A sua primeira mulher morreu em Macau. O seu grande amigo macaense, Francisco Hermenegildo Fernandes, proprietário da Tipografia Mercantil e do jornal “Echo Macaense”, apoiou-o em momentos cruciais da sua vida. Impedido de exercer em Hong Kong, o Hospital Kiang Wu, de Macau, aceitou a sua colaboração como médico. Este território proporcionou-lhe boas condições para preparar e lançar a sua acção política. Teve aqui, no n.º 21 da Rua do Volong, a filial do seu movimento, responsável pela angariação de fundos. Três meses depois de abdicar da sua efémera presidência da nova república, voltou a Macau, onde foi recebido pelo governador Melo Machado, por Lou Lim Ioc, chinês riquíssimo residente em Macau, e por destacados membros da maçonaria local, de todos obtendo expressões claras de apoio. Visitou Macau pela última vez em Maio de 1913. Durante o seu exílio em Tóquio, Macau, como atrás foi salientado, acolheu os seus apoiantes, a quem foi sempre garantida a segurança pelo governador José Carlos da Maia, que assumiu funções no dia 10 de Junho de 1914. O centenário da mudança de regime na China é uma excelente oportunidade para que novos estudos sejam feitos e mais trabalhos sejam publicados sobre Sun Yat Sen e sobre as suas ligações a Macau.
Artigo da autoria de Jorge Rangel, Presidente do Instituto Internacional de Macau, publicado no JTM de 11-7-2011

quinta-feira, 2 de maio de 2013

Quatro nomes que marcaram um século de jornalismo em Macau

A história da imprensa em Macau remonta a 1822, com o aparecimento do primeiro jornal, “A Abelha da China”. Desde essa data, o jornalismo praticou-se quase sem quebras, embora se tivessem registado períodos em que Macau, passou sem jornais e mesmo épocas, embora curtas, em que jornais foram mesmo dados à estampa escritos à mão.
 Edição fac-simile de 1994. UM/FM

No entanto o jornalismo verdadeiramente profissional é fenómeno muitíssimo mais recente, que surge quase explosivamente na primeira metade da década de 80 do século XX, com o aparecimento nas bancas de vários títulos diários, fenómeno que nunca anteriormente tinha acontecido. Antes disso, a maior parte dos títulos que a história regista eram quase todos semanários e o número de jornalistas que a eles se dedicavam a tempo inteiro muito diminuto.
O primeiro jornal diário a ser impresso com regularidade e longevidade foi “A Voz de Macau”, jornal que seria calado à bomba pelos japoneses durante a Guerra do Pacífico (a “Voz de Macau” sofreu três atentados bombistas, de que não resultaram vítimas mas que causaram avultados estragos nas instalações e abalaram seriamente a saúde financeira da empresa).
Seguiu-se-lhe em 1945 o “Jornal de Notícias”, que não era mais do que o sucedâneo do anterior “A Voz”, com nome diferente.
O “Jornal de Notícias” manter-se-ia em publicação, até 1975, data em que obrigado ao pagamento de multas, por infracções à liberdade de imprensa e sujeito a pressões de vária ordem, acabaria por encerrar definitivamente. Depois disso manter-se-ia em publicação, a “Gazeta Macaense”, como único diário, até à década de 80, data em que como se viu começaria a poder falar-se em jornalismo profissional em Macau. Essa nova situação resultou em parte do impacte em Macau, da revolução de 25 de Abril de 1974, que consigo trouxe novos conceitos atribuindo novos papéis à comunicação social e aos seus agentes.
Na estreita conjuntura histórica anterior, do jornalismo em Macau, é natural que jornais e jornalistas tenham desempenhado um papel, muito mais relevante na sociedade, do que se poderia supor. Caminhando isolados, o estatuto do editor e do próprio jornal eram, pode dizer-se em certa medida desmesurados.
Macau era, politicamente, uma cidade controlada pela figura do governador dotado praticamente de plenos poderes e socialmente pela Igreja católica.
Apesar do aparente cosmopolitismo era igualmente uma sociedade bastante fechada e conservadora. Todavia, pode dizer-se que a imprensa ainda que relativamente subserviente em certos aspectos, dadas as condições vigentes mostrou sempre um significativo grau de inconformismo. Esse posicionamento pode ser entendido na forma como era vista na generalidade pela Igreja Católica através do historiador, Monsenhor Manuel Teixeira, ele que era simultaneamente membro da União Nacional, o partido único do Estado Novo de Salazar.
Diz assim: - ...Os jornais liberais de Macau fizeram-se campeões das doutrinas condenadas do racionalismo, indo até à negação da divindade de Cristo, do naturalismo, prescindindo da religião na sociedade, do estatismo, como o monopólio do ensino pelo Estado e a supressão das ordens religiosas e até do derrotismo, advogando-se a extinção do Padroado do Oriente e da gesta missionária que nimbou de glória a Nação Portuguesa. Grande parte dos jornais macaenses malbarataram o tempo em lutas mesquinhas de política estéril. Tais foram o Independente, Oriente, O Porvir, A Verdade, O Liberal, o Echo do Povo, a Opinião, O Combate, O Petardo e o Echo Macaense. Por esta triste amostra se vê que o nosso meio ainda não atingiu a maturidade suficiente para dispensar a censura.
Monsenhor Manuel Teixeira, que escrevia este texto em 1965, deixava de fora pouco periódicos da história da imprensa de Macau, que não se tinham feito “campeões das doutrinas condenadas do racionalismo”. Todavia coibiu-se de mencionar o “Jornal de Notícias” (porque era nele que publicava os seus artigos?).
Curiosamente, o proprietário e editor do “Jornal de Notícias”, Herman Machado Monteiro, era ele próprio também um campeão do tal racionalismo “execrando”.
Republicano da primeira hora, Herman Machado Monteiro, abandonaria Portugal, fixando-se em Macau, numa espécie de auto-exílio político, por altura do golpe de 28 de Maio de 1926. Foi baseado nos princípios que defendia e na oposição à ditadura que sempre conduziu o seu jornal, que teria em Macau um estatuto semelhante ao que possuía em Portugal o jornal “República” de Raul Rego, salvaguardadas as diferenças de modo e de lugar. Apesar de não hostilizar directamente nem o regime vigente em Portugal, nem os poderes instituídos locais, o “Jornal de Notícias”, não deixava de utilizar as subtilezas da linguagem, ou os paralelismos com situações que ocorriam no estrangeiro, para denunciar atentados à liberdade e prepotências, que a censura activa, vigilante e rigorosa em Macau, no que tocava à imprensa de língua portuguesa, não deixaria passar em claro.
O jornal seria entretanto acusado de conformismo e alinhamento com o poder, mas nas entrelinhas lá ia dizendo o que podia.
No entanto as acusações de conformismo teriam mais a ver com a personalidade do proprietário, figura de prestígio e feitio conciliador sempre pronto a evitar conflitos, quando o podia fazer. Isto, apesar de ter visto o seu jornal várias vezes suspenso e multado.
O “Notícias de Macau” acabaria irremediavelmente em 1975, na sequência de um conjunto de multas por alegados atentados à liberdade de imprensa e pressões de vária ordem num momento da vida em que Herman Machado Monteiro já não se encontrava em condições de arrostar com a má fortuna, como dantes.
Figura bastante distinta de Herman Machado Monteiro tinha sido Domingos Gregório da Rosa Duque, que o antecedeu na liderança de “O Combate”, igualmente alvo dos anátemas de Monsenhor Manuel Teixeira. Em matéria de pergaminhos, Rosa Duque não ficava atrás do sucessor. De facto o seu republicanismo não suscitava dúvidas, já que tinha sido um dos poucos militares, que com Machado Santos, tinha estado na Rotunda, sem vacilar, de armas na mão, ajudando a proclamar a República, em 5 de Outubro de 1910.
Porém Rosa Duque possuía um feitio bem menos conciliador do que Herman Machado Monteiro, não se eximindo à polémica que chegava a ser por vezes truculenta.
O seu desassombro era tal que um ano depois da proclamação da ditadura militar em Lisboa, nas páginas de “O Combate”, de 23 de Abril de 1927, proclama a sua condição de alto dirigente da Maçonaria portuguesa, em polémica que manteria ao longo de vários números e que iniciou com o seguinte título de primeira página: - A Maçonaria, os estudantes reaccionários e “A Pátria”(“A Pátria” era o jornal católico rival, favorecido pelo governador, contra o qual Rosa Duque, terçava armas quotidianamente). Aliás “O Combate” tinha como lema que se destacava sob o cabeçalho - “pela Pátria e pela República”.
Mas o desassombro de Rosa Duque rivalizava, por seu turno com a personalidade igualmente frontal e determinada, de Constâncio José da Silva, director de “A Verdade”.
Igualmente estrénuo republicano, que, nunca se eximia da mesma forma que Rosa Duque, à polémica ou à campanha, sempre que achava haver justo motivo, Constâncio pontificou na imprensa de Macau durante as duas décadas anteriores.
Tão temido enquanto Jornalista, como respeitado causídico, a “Verdade” de Constâncio, esteve na base das alterações políticas resultantes da proclamação da república em 1910. Seriam as suas denúncias, que levariam a guarnição militar a pronunciar-se, cercando o Palácio da Praia Grande e obrigando à ponta da baioneta o Governador e o Juiz da Comarca a tirarem da gaveta os decretos da República e pô-los em execução.
A mesma “Verdade” levaria também, à efectivação da ordem de expulsão das ordens religiosas de Macau e finalmente à demissão do próprio governador Eduardo Augusto Marques (Eduardo Marques, que nunca abandonaria as suas convicções monárquicas e viria mais tarde a integrar um dos governos da ditadura).
Igualmente republicano, mas com personalidade distinta de Rosa Duque e Constâncio José da Silva, seria finalmente Francisco Hermenegildo Fernandes, cujo perfil se assemelharia bem mais ao de Herman Machado Monteiro, figura que nunca conheceu, já que morreu em 1923, ou seja, alguns anos antes da chegada daquele a Macau.
Francisco Fernandes, dirigiu durante muito tempo o principal jornal de Macau de então, o “Eco Macaense”, igualmente citado por Monsenhor Manuel Teixeira, que singrou nas últimas décadas da Monarquia.
De todas as personalidades ligadas à imprensa de Macau, Francisco Fernandes, foi sem dúvida uma das suas mais enigmáticas figuras. Apesar de ser um dos principais protagonistas do apoio local à revolução na China, que acabaria por desembocar também ali na proclamação da República em 10 de Outubro de 1911. Isto devido, principalmente às suas ligações íntimas com Sun Yat-sen. Pouco se conhece da sua vida e apesar das buscas empreendidas nesse sentido. Dele também não se conhece uma única fotografia que o identifique. Nem mesmo na campa onde jaz no Cemitério de S. Miguel.
Para além do jornalismo Francisco Fernandes, manteve também uma constante actividade política, integrando nomeadamente a vereação do Leal Senado. No entanto, das actas da câmara não consta igualmente nenhuma intervenção de vulto, da sua autoria. Nas actas da Câmara pouco resta mais do que o seu nome nas notas de presença e a respectiva assinatura. Esse facto contrasta com as posições por vezes radicais que o seu jornal assumia. Posições que por vezes chegavam a melindrar o relacionamento entre o governo de Macau e de Cantão nomeadamente quando o “Eco Macaense” empreendeu uma campanha pública em defesa das actividades de Sun Yat-sen em Macau (claramente subversivas) a coberto do exercício da sua actividade médica.
Esta e outras posições semelhantes redundaram naturalmente em várias suspensões do periódico e pelo menos uma vez na condenação em tribunal do próprio Francisco Fernandes, por difamação. Esta condenação que o levou à prisão, resultou de uma das polémica do jornal que teve como alvo o então secretário-geral do Governo, Horácio Poiares, que ganhou a causa. Curiosamente o bom relacionamento pessoal de Francisco Fernandes, com sucessivos governadores (a que a lei concedia poderes discricionários, para expulsar qualquer cidadão da colónia sem grandes justificações, o que não era expediente raro, nunca se verificou quanto a ele) foi sempre uma constante. Francisco Fernandes, já numa época tardia da sua vida, acabaria por, com a aquiescência do governador Tamagnini Barbosa, ver aprovado o seu ingresso num lugar confortável do funcionalismo público de Macau. A mesma estrutura administrativa da qual o seu “Eco” nunca deixara de denunciar os compadrios e as prepotências fosse em que circunstâncias fosse.
Francisco Fernandes, Constâncio José da Silva, Rosa Duque e Herman Machado Monteiro, foram as quatro figuras que mais marcaram um século peculiar da imprensa de Macau, feito de voluntarismo, causas, profissões de fé arrebatadas e talvez alguns excessos, mas sempre declaradamente em nome do ideal Republicano.
Artigo da autoria de João Guedes, jornalista e investigador da História de Macau, publicado no Jornal Tribuna de Macau.