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terça-feira, 2 de junho de 2015

Refugiados de Xangai em Macau /上海葡裔難民在澳門 / Shanghai Portuguese Refugees: 1937-1964

Exposição Documental “Refugiados de Xangai. Macau (1937-1964)”
Associando-se à comemoração do Dia Internacional dos Arquivos, o Arquivo Histórico de Macau, organismo dependente do Instituto Cultural, organiza a exposição “Refugiados de Xangai. Macau (1937-1964)” que estará patente entre 10 de Junho e 6 de Dezembro de 2015, a exposição será inaugurada no dia 9 de Junho, pelas 18:30, nas instalações do Arquivo Histórico de Macau, na Praça do Tap Seac. Exibindo-se nesta exposição os documentos sobre os movimentos migratórios portugueses de Xangai, que ilustram os itinerários da diáspora macaense, a preservação do património identitário dos macaenses em integração na sociedade de Xangai, a recepção e o apoio aos refugiados portugueses por parte do Governo de Macau, bem como os documentos reconstituintes da inteira biografia migratória de Clementina Fernandes, refugiada macaense de Xangai no trânsito para outras partes do mundo.
Realizar-se-ão diversas palestras durante o período da exposição, sendo a primeira palestra em 11 de Junho, das 18:30 às 20:00, proferida pelo Doutor Alfredo Gomes Dias, Professor Adjunto da Escola Superior de Educação do Instituto Politécnico de Lisboa, Portugal, na qual o orador vai analizar as características da migração dos macaenses, bem como o sistema de registo dos refugiados portugueses em Macau, as medidas de apoio, de assistência e integração, etc. A palestra será feita em Língua portuguesa, com tradução simultânea para Cantonês, na Sala de Conferências do Edifício do Instituto Cultural na Praça do Tap Seac. A entrada é livre e aberta à participação de todos os interessados.
Datas de Exposição: 10/6 – 6/12‧2015
Horário de Exposição:10:00 - 18:00 (Encerra às segundas-feiras e feriados)
Arquivo Histórico de Macau - Av. do Conselheiro Ferreira de Almeida, 91- 93. Entrada Livre

Macau foi território de abrigo para milhares de pessoas (portugueses, chineses e outras nacionalidades) que tiveram de fugir dos conflitos que assolaram a China, em especial pós a invasão da China pelo Japão (1937-1945) e após a subida ao poder do partido comunista em 1949.
上海葡裔難民在澳門 (1937-1964)檔案專題展覽
為慶祝“國際檔案日",文化局澳門歷史檔案館將於本年六月十日至十二月六日舉辦《上海葡裔難民在澳門(1937-1964)》展覽,開幕式訂於六月九日下午六時三十分在塔石廣場澳門歷史檔案館舉行。是次展覽將展示澳門土生葡人全球遷徙的歷史背景、土生葡人融入上海社會的文化優勢、葡裔難民從上海到澳門避難的經歷、澳門對葡裔難民的援助,以及上海葡裔難民克萊門蒂娜‧費爾南德斯(Clementina Fernandes)的文獻資料和個人物品等。
展覽期間亦會舉辦多場專題講座,首場講座將設於六月十一日下午六時三十分至八時正,由葡萄牙里斯本高等教育學院副教授日諒 (Alfredo Gomes Dias) 為主講嘉賓,向市民剖析澳門土生葡人的移民特徵,講述當時澳門對葡裔難民的登記制度、援助措施和生活狀況等。講座以葡語進行,同場設有粵語傳譯,地點為澳門塔石廣場文化局大樓演講廳,免費入場,歡迎有興趣人士參加。
展覽日期:10/6 – 6/12‧2015
展覽時間:上午10:00至下午18:00 (逢星期一及公眾假期暫停開放)
地點: 澳門歷史檔案館 - 荷蘭園正街91-93號 - 免費入場


Archival Exhibition“Shanghai Portuguese Refugees in Macao (1937-1964)”
In celebration of International Archives Day, the Historical Archives of Macao under the auspices of Cultural Affairs Bureau will present an archival exhibition “Shanghai Portuguese Refugees in Macao (1937-1964)” from 10th June to 6th December 2015, and will be inaugurated at 18:30 on 9th June at the Historical Archives of Macao on Tap Seac Square. The exhibition illustrate the historical background of the Macanese Diaspora around the world, the social inclusion of Macanese in Shanghai, the flight of Portuguese refugees to Macao and the aid they received in Macao. Also on display will be documentation and materials, including personal items of one of the Shanghai Portuguese refugees Clementina Fernandes. 
A series of lectures on the theme are scheduled during the exhibition period. The first one will be given by adjunct professor at the Lisbon College of Education, Alfredo Gomes Dias, on the characteristics of Macanese emigration and the registration system, relief measures and living conditions for Portuguese refugees in Macao. The lecture will be conducted in Portuguese with Cantonese simultaneous interpretation at the Auditorium of the Cultural Affairs Bureau on Tap Seac Square from 18:30 to 20:00 on 11th June. Admission is free. Members of the public are welcome to attend.
Exhibition Dates:10/6 – 6/12/2015 Exhibition Hours: 10h-18h (Closed on Mondays and public holidays)
Historical Archives of Macao - Av. do Conselheiro Ferreira de Almeida, 91/93.
Free entrance
Sugestão de Leitura: "Macau 1937-1945: os anos da guerra", de João Botas.

quarta-feira, 7 de agosto de 2013

A recomposição dos macaenses

Em 2011 a investigadora Cristina Moreno (viveu em Macau nos anos 80 e 90) preparava no âmbito de uma tese de mestrado e projecto de doutoramento, na FCSH-Universidade Nova de Lisboa, um estudo que pretendia averiguar como a comunidade macaense se recompôs ao longo deste último século e meio de história e de como as migrações macaenses jogaram um papel na oscilação de uma “comunidade que sempre se sentiu ameaçada”. Segue-se a entrevista dada na altura ao jornal Hoje Macau.
Emissão de 1951
Como é que surge este seu interesse académico pela questão das migrações e pela comunidade macaense, ou em rigor, pelas comunidades, no plural?
- O tema das migrações é um tema que me interessa, principalmente perceber como os movimentos de população se ligam às questões transnacionais, da globalização etc. O meu interesse pelas migrações macaenses vem da minha estadia em Macau. São um grupo social que sempre me interessou imenso. São um grupo de charneira por estarem, assim em termos muito gerais, entre a comunidade portuguesa - e dizer isto é bastante problemático - e a comunidade chinesa; de serem filhos de um processo de colonização, sempre abandonados ou ostracizados. Mesmo dentro de Macau, pelos vários poderes, seja pelos chineses seja pela administração colonial.
Quando eu comecei a estudar melhor a comunidade macaense apercebi-me que havia um movimento migratório bastante antigo que tinha começado, mais ou menos, na altura da guerra do ópio, cerca de 1840, quando pessoas que trabalhavam para as companhias inglesas que, na altura estavam sediadas em Macau e que com a formação de Hong Kong se mudaram para lá. Este fenómeno levou uma série de famílias macaenses a deslocarem-se para aquele território e daí para cidades chinesas, principalmente Xangai.
Como caracterizaria este processos migratórios?
- Penso que estes processos migratórios - e esta é uma das minhas interrogações mas eu acho que pelas pesquisas exploratórias que fiz até agora se confirma - assentam em redes familiares. Nessa altura, há um triângulo que se forma, muito importante, entre Macau, Xangai e Hong Kong. Há uma série de macaenses que vão trabalhar, primeiro, para Hong Kong e depois para Xangai com essas companhias inglesas. A partir deste momento, dá-se o início daquilo a que os macaenses hoje chamam a si próprios uma diáspora. Ou seja, a partir daqui registam-se fluxos migratórios constantes, dependentes das situações e contingências político-sociais. Neste momento, existem comunidades macaenses no Brasil, nos Estados Unidos, na Austrália, no Canadá, em vários pontos da Europa e em Portugal. A diáspora começa a ser uma expressão usada para designar as comunidades que mantém laços entre elas – não só os mantém como os recompõem, reforçam e até lhes dão uma dinâmica que tinham vindo a perder.
Começa-se a falar de diáspora macaense mais ou menos na altura em que fica decidida a data da passagem da administração para a China. Por exemplo, há instituições que são formadas em Macau, como o Instituto Internacional de Macau que hoje estão viradas para as comunidades macaenses no exterior. Mas, enfim, o meu foco não vai ser tanto esse, das redes institucionais, mas vai antes ser mais baseado no estudo das próprias redes familiares. Aquilo que eu estou a tentar fazer é, através dos estudos de histórias de vida, da genealogia, através do confronto comparativo entre várias gerações, perceber como é que entre final dos anos 80 até hoje, os grupos dispersos de macaenses vão reconstruindo esses laços que tinham perdido e com base em quê. É curiosíssimo que o patuá, já ninguém o falava, e agora na internet vêm-se fóruns em patuá, por exemplo.
Trata-se de uma estratégia de sobrevivência?
- Poderá ser, sim. A comunidade macaense sempre viveu ameaçada pela extinção. Cada catástrofe socioeconómica ou política ameaçava a comunidade macaense – ou ela se sentia ameaçada. Refiro-me, pelo menos, aos discursos. É muito curioso ler, por exemplo, o livro “Macau histórico” do Montalto de Jesus, de cerca de 1920. Ali estão todos os fantasmas ligados a esta situação de permanente indefinição. Acho que há ainda poucos estudos nas ciências sociais sobre os macaenses e, principalmente, sobre as migrações macaenses. Outro ponto que me interessa é cruzar este estudo das migrações macaenses com o das grandes correntes migratórias, através da História e da Geografia Humana, - desde finais do século XIX - e com a recomposição dessas grandes correntes migratórias ao longo dos tempos.
Entrevista de Carlos Picassinos publicada no HM de 14-7-2011

domingo, 17 de fevereiro de 2013

Procissões: N. Sra. Fátima, Sto. António e Sr. dos Passos

Procissão N. Sra.de Fátima: década 1980-90
(...)esta cidade do Nome de Deus de Macau ajoelhou, mais uma vez, aos pés virginais da Senhora da Fátima. nesta pequena parcela de terra portuguesa vibraram sinfonias de amor milhares de corações unindo suas vozes ao hino de louvores que, no dia 13 de Maio, ecoou triunfante na catedral imensa do universo. O povo de Macau, tradicional e profundamente religioso, depressa ergueu nesta cidade um santuário à Senhora da Fátima e, todos os anos, aí celebra com toda a solenidade da liturgia católica, a festa da sua primeira aparição. É a velha igreja de S. Domingos o centro da devoção mariana em Macau. Aí os católicos desta cidade prestam a sua devoção à Virgem, sobretudo durante a novena que antecede a festa e nesse dia de apoteose em que a Senhora mais branca do que a luz é levada em procissão até à Ermida da Penha e daí abençoa esta Cidade do Nome de Deus estendida a seu pés. É dia de magnífica expressão católica em que a gente de Macau vive uma tradição que vem de oito séculos a vincar, no concerto das Nações, a presença dum povo” (...)
in Boletim da Repartição Provincial dos Serviços de Economia e Estatística Geral, Ano III, Maio de 1956 (de onde é tb a imagem de cima)
Do mesmo boletim segue-se um excerto de um texto que retrata a procissão do Senhor dos Passos na década de 1950.
A Festividade do Senhor Bom Jesus dos Passos – a mais arreigada tradição entre a gente portuguesa – ocupa lugar de proeminência entre as devoções do povo de Macau. É concorridíssima a Novena que precede a festa, realizada sempre no primeiro Domingo da Quaresma. A Igreja de Santo Agostinho enche-se de oração e de cumprimento de promessas feitas, sendo numerosas as Comunhões diárias. A Procissão da Cruz, ao anoitecer de sábado, em que a venerável Imagem do Senhor dos Passos é conduzida para a Sé Catedral, é o mais recolhido cortejo litúrgico da cidade. A túnica roxa do Senhor e os cortinados, da mesma cor, que envolvem o andor, de mistura com a luz misteriosa dos archotes, infundem respeito e põem na alma uma tristeza grande (...) O Primeiro Domingo da Quaresma representa, na vida católica de Macau, um dia de penitência e oração – é o dia da Procissão do Bom Jesus dos Passos. Todos os pensamentos e todas as acções gravitam nesse dia à volta do grande acontecimento. O povo de Macau enche, desde o alvorecer da manhã até à hora de saída da Procissão, a vasta Sé Catedral (…)”
Este domingo, 17 Fevereiro 2013, tem lugar em Macau e nas comunidades macaenses na diáspora a procissão do Senhor Bom Jesus dos Passos introduzida no território em 1586 pelo padres Agostinhos espanhóis, vindos das Filipinas, que trouxeram consigo o culto da Paixão de Cristo. Estes acabariam por partir para Goa em 1717 e a procissão deixou de se realizar Acontece que nos anos seguintes registou-se falta de alimentos o que para muitos, nomeadamente a população chinesa, foi atribuído ao ao facto de não se realizar a procissão. Foi então requerido ao Procurador do Senado a 14 de Fevereiro de 1721 “que fizesse andar pelas ruas aquele homem de pau às costas” (como era chamado) e prontificaram-se a pagar todas as despesas. 
Foi em 1721 e desde então todos os anos o Senhor dos Passos sai à rua em Macau num ritual que Fernando Sales Lopes explicou no jornal  Ponto Final do dia 15.02.2013. 
"No sábado véspera do primeiro domingo de Quaresma, ao fim do dia e ao som da Banda da Policia de Segurança Pública de Macau, sai da Igreja de Santo Agostinho em procissão até à Sé Catedral, onde passará a noite, a imagem do Senhor Bom Jesus dos Passos, coberta por uma cortina de renda bordada a fios de ouro. No domingo, pela tarde, com o sermão do Pretório seguido do canto de Verónica, parte da Sé a imagem do Senhor, agora descoberta, percorrendo o centro histórico de Macau Vivem-se as sete das catorze estações da Via-sacra, que representam o percurso de Jesus Cristo do Pretório ao Calvário. A procissão termina com o sermão do Calvário, já com imagem na Igreja de Santo Agostinho. Em Macau, contrariamente ao que é habitual nas outras procissões dos Passos, não há o habitual encontro das imagens do Senhor com Nossa Senhora, sua mãe. Esta é uma característica que diferencia o culto do Senhor dos Passos em Macau. Mas não se pense contudo não ser aqui bem forte o culto Mariano. A questão da data em que a celebração se realiza é outra das diferenças que a tornam, talvez, única. Não há, no calendário da Igreja Católica, uma data certa para a realização da procissão dos Passos. Pelo menos é o que a prática confirma, embora se saiba que entre os séculos XIV e XVIII, em Portugal ela se realizava na Quinta-Feira Santa. Encontramos procissões dos Passos desde a segunda à quinta semana de Quaresma. A originalidade do Nosso Senhor Bom Jesus dos Passos em Macau é que a procissão tem início no sábado anterior ao primeiro domingo de Quaresma, dia em que termina."
Para saber mais sobre procissões religiosas em Macau consultar os links abaixo indicados.
Imagem baixo de AJM Nunes da Silva

 Duas de Gina Badaraco:em cima, procissão do 13 de Maio de 1969. 
Em baixo, Procissão do Senhor dos Passos em 1959.
Procissão N. Sra. de Fátima: postal década 1980-90

sexta-feira, 8 de fevereiro de 2013

Receitas da tia Albertina correm o mundo

São segredos de fazer crescer água na boca. Cíntia Serro reuniu num livro cerca de 100 receitas da cozinha típica macaense. Depois da publicação na Língua de Camões, editada no ano passado, já estar a ter sucesso em várias partes do mundo, a macaense lançou ontem a versão inglesa na sua terra natal. Uma ocasião que teve um sabor especial.
Depois de apresentações em Portugal, Estados Unidos, Canadá e Brasil, o livro “As Receitas Tradicionais Macaenses da Minha Tia-Mãe Albertina” foi ontem lançado em Macau e apresentado pela primeira vez na versão inglesa. A edição lusa já tinha corrido o mundo, mas a publicação em inglês recebeu os primeiros aplausos ontem no território, assumindo esta ocasião um sabor especial. “Depois de quatro apresentações trago estes livros a Macau. Tem um significado especial porque estou a fazê-lo na minha terra”, disse Cíntia Serro, a autora da publicação, editada pelo Instituto Internacional de Macau.
Com cerca de 100 receitas, o livro guarda os segredos do passado para que a tradição sobreviva à passagem dos anos. Apenas uma parte da herança que recebeu. “A minha tia Albertina foi guardando as receitas ao longo do tempo. Algumas passaram de geração em geração outras trocava-as com as colegas de trabalho, quando estava nos Correios”, recordou ao JTM Cíntia Serro.
Para dar a oportunidade dos mais novos descobrirem e experimentarem os sabores que perduram há séculos, Cíntia Serro demorou um ano a seleccionar as receitas e a actualizar as medições. “Tive de rever as medidas para que os jovens pudessem continuar a manter a tradição”, disse. “Eram medidas antigas, mais feitas a olho. Para as actualizar tive de experimentar muito, por isso é que não pude seleccionar mais”.
A macaense, que vive entre o Canadá, Portugal e Macau, guarda ainda uma caixa cheia de receitas, mas acredita que com as publicações em português e inglês muitas pessoas já vão poder ter acesso a iguarias que, no passado, estavam muito bem guardadas. “A receita do caranguejo bispo ainda não vi noutro livro. A pessoa que tinha esta receita não a deixava ver, mas passou-a à minha tia e então ela ensinou-a a muita gente”, referiu a autora da publicação. Cíntia Serro guarda boas lembranças de uma tia que tratava como mãe. “Gostava muito de mim e fazia-me as vontades. Ela ficou muito feliz porque ainda viu a versão portuguesa. Leu-a de uma ponta à outra”, referiu. A macaense está confiante que os mais novos estão dispostos a seguir a tradição. “A juventude está aberta a manter este legado. Até o meu neto de 14 anos já faz estas receitas”, confidenciou.
Texto e foto de Fátima Almeida. Artigo publicado no JTM de 7.2.2013

sábado, 26 de janeiro de 2013

Município de Shangai... e a diáspora

Durante anos Shangai esteve 'dividida' pelas principais potências mundiais, mas não só. Cada uma tinha a sua área de possessão. Nesta bandeira pode ver-se a bandeira de Portugal (dos tempos da monarquia), da França, EUA, Inglaterra, etc...
Vem isto a propósito de uma noticia da agência Lusa de 23 de Janeiro 2013 com o título "História de portugueses em Xangai está feita, só falta um editor". 
Uma exaustiva história da antiga comunidade portuguesa de Xangai, uma das maiores da cidade, na primeira metade do século XX, está guardada em casa de um académico local, à espera de editor. No conjunto são cerca de 300 páginas, que incluem uma lista das famílias portuguesas residentes outrora na grande metrópole chinesa e das "68 empresas que eram propriedade de portugueses ou geridas por portugueses", contou à agência Lusa Wang Zhicheng, investigador da Academia de Ciências Sociais de Xangai. De acordo com o Censo de 1930, entre os 48.806 estrangeiros residentes então em Xangai contavam-se 1.599 portugueses, mais 193 que os próprios franceses, que governavam uma parte da cidade, conhecida ainda hoje como "antiga concessão francesa". A lista era encabeçada pelos japoneses (18.796), seguidos dos ingleses (8.449), russos, norte-americanos e indianos."Entre os europeus, os portugueses estavam em terceiro lugar", realça Wang Zhicheng.   
Xangai era uma das cidades mais cosmopolitas do mundo: "Paris do Oriente" e "Paraíso dos Aventureiros, assinalavam os guias turísticos. Quase todos oriundos de Macau, filhos de casamentos entre portugueses e chineses, os portugueses de Xangai constituíam também uma das mais antigas comunidades estrangeiras estabelecidas na cidade, após a Guerra do Ópio (1839-42). Em 1850 havia já seis portugueses a viver em Xangai e quinze anos mais tarde o número ultrapassava a centena. No século XX, a comunidade estava organizada em dezenas de associações recreativas e teve vários jornais, quase todos de reduzida tiragem e curta duração. "Os portugueses tiveram sempre uma posição influente na comunidade estrangeira de Xangai, mas o seu peso político, económico e cultural era bastante pequeno", afirma Wang Zhicheng.
Director do Centro de Estudos Eslavos da Academia de Ciências Sociais de Xangai, nascido em 1940, Wang Zhicheng começou por estudar os emigrantes russos que se refugiaram naquela cidade após o triunfo da revolução comunista na Rússia, em 1917. "Era um tema por que ninguém se interessava", diz. Em 1993, após dez anos de pesquisa, Wang Zhicheng publicou "História da Emigração Russa em Xangai", que seria depois traduzida e editada na Rússia, e que chamaria a atenção da Fundação Macau: "Eles entraram em contacto comigo e propuseram-me que fizesse uma história idêntica acerca dos portugueses". Parte da investigação teve "uma edição electrónica", há cerca de uma década, mas nos últimos quatro anos, Wang Zhicheng escreveu mais um capítulo, que continua inédito. O investigador descobriu também que, muito antes da "Guerra do Ópio", cujo desfecho obrigou a China a abrir cinco dos seus portos ao comércio internacional, um missionário chamado José Semedo construiu uma igreja em Xangai: "Foi o primeiro português a viver em Xangai, em 1622". Situada na costa leste chinesa, no estuário do rio Yangtze, Xangai é hoje a "capital económica" da China e a maior cidade do país, com cerca de 23 milhões de habitantes.
Notícia assinada por AC/HB

terça-feira, 8 de janeiro de 2013

Fragmentos do Oriente

A macaense Alda Carvalho Ângelo (falecida em 2010) viveu cerca de 30 anos em Macau antes de partir rumo ao Brasil. Foi aí que em 1965 publicou o livro "Fragmentos do Oriente" (contos, viagens, culinária) e que dedicou-o à sua mãe Cândida Maria dos Remédios Carvalho, falecida em Macau em 14 de Janeiro desse ano.
Excerto
(...) Vamos, então, dar um passeiozinho pelo convés? – sugeri ao Leitor Amigo, meu companheiro de viagem, com quem eu palestrava desde a saída de Hong-Kong sobre a história de Macau. – Vamos! — me respondeu ele — Estou curioso por conhecer a terra, depois que teve a gentileza de me pôr a par de sua história.
O Sui Tai, como eu dizia, tinha diminuído a marcha, deixando entrever cada vez mais os contornos da cidade iluminada a luz elétrica, os globos elétricos projetando sua luz sobre as barracas de banho, denotando que os banhistas ficavam até bem tarde, a beira-mar, deleitando-se com a brisa marítima ou banhando-se na água,
- Venha ver a cidade. — convidei meu companheiro. – Venha! Olhe ai! Estamos passando pelo porto exterior.
- Como é linda a cidade assim de longe! - exclamou ele.
- Estamos, neste momento, na foz de dois rios. — expliquei.
- A cidade é, então, banhada por dois rios?
- Sim, ela está privilegiadamente situada no delta comum de dois rios: Chu-Kiang (rio de leste, ou rio da Pérola) e Si-Kiang (rio de Oeste). O Chu-Kiang é também chamado de Rio de Cantão. Macau está a oitenta milhas da cidade e porto de Cantão, a capital do Sul, a capital da grande província de Kwang-Tung.
- Macau é uma ilha?
- Não, ela é uma península. É  ligada por um pequeno istmo - o istmo da Porta do Cerco - ao distrito de Heóng-Sán (montanha aromática). E, como vê - apontei para as ilhas em volta - Macau é cercada de ilhas: a da Lapa, a da Taipa, a de Coloane e, mais ao sul, a de D. João e a de Vong-Kâm…
- E qual a população?
- Em 1950, isto é, segundo o censo do ano de 1950, a população era de 187.772 habitantes, sendo a maioria chinesa.
Nesse instante, o barco seguia em linha reta, paralelo à baía da praia grande, em toda sua extensão, tomando a direção da Avenida República, preparando-se para contornar a “meia laranja”.

Porto Interior. Década 1950. Foto de Lei Iok Tin
- Olhe aí a ermida da Penha! - chamei a atenção do meu companheiro. - A ermida da Penha está situada no cume da Colina da Barra. É aí que se encontra a imagem de Nossa Senhora da Penha, venerada ainda hoje como naqueles tempos pelos nossos primeiros navegadores. No sopé dessa mesma colina está o Pagode da Barra, freqüentado principalmente pela gente do mar (pescadores chineses), onde se venera uma das mais importantes divindades da China, a “Rainha do Céu”, a deusa A-Má, donde proveio o nome de Macau. - Leitor Amigo me escutava com interesse. - Não acha você, Leitor Amigo, curioso, como homens tão diferentes e de religiões tão opostas tenham escolhido o mesmo local para venerar cada qual seus santos preferidos?
- Curioso, sim.
- Você tem que conhecer a gruta da Penha. Tem que subir até ao alto da colina e de lá desfrutar os mais belos panoramas.
- Devo ir na parte da manhã ou da tarde?
- Na parte da manhã, você verá o maravilhoso nascer do sol, verá dezenas e dezenas de
barcos de pesca deslizarem-se suavemente por sobre as ondas, as velas desfraldadas, afastando-se do porto…
- E na parte da tarde?
- Na parte da tarde, verá outro maravilhoso panorama. O pôr do sol, o belíssimo pôr do sol macaense… os barcos de pesca, regressando para o porto, carregados de peixes de todos os tamanhos e feitios …
- Tenho que subir até lá…
- Mas agora vamos descer — atalhei — Vamos descer e preparar-nos para o desembarque. Já estamos chegando.
- Já?!
- Já!
De facto, o barco estava a poucos metros do cais, depois de passar pela Fortaleza da Barra, pela doca e rumado reto ao longo do Porto Interior. Dirigia-se lentamente para o ancoradouro.
Nesse instante, o relógio do salão batia dez horas. Meia hora depois, eu me despedia do Leitor Amigo.
- Magnífica viagem. — exclamou ele. — Inda nos encontraremos?
- Acho que sim. — respondi.
- Algo me diz que nossos caminhos não tardarão a se cruzar novamente… (...)

sexta-feira, 12 de março de 2010

Memórias de Charlie Santos

Charlie Santos é o português nascido Carlos Alberto da silva Santos, e Canicha para família e amigos
Nascido em Lisboa e residindo no Brasil, a nacionalidade mais marcante é a macaense. Seu pai, o lisboeta Arnaldo da Silva Santos* conheceu a sua mãe, a macaense Maria Quevedo da Silva** , quando prestava serviço militar em Macau, no final dos anos 30.
Casaram-se em 1943, tiveram a primeira filha Deolinda em Macau, e decidiram tentar uma vida melhor em Lisboa logo após o término da II Grande Guerra. Não tendo conseguido um padrão de vida decente em Lisboa, e com o pai de Dna Maria Quevedo, o Sr. Alexandre Quevedo da Silva, gravemente enfermo em Macau, decidiram retornar em meados do ano de 1953. Naquele momento, além da Deolinda (Linda), já tinham mais dois filhos nascidos em Lisboa, o José Manuel (Santé) e o Carlos Alberto (Canicha).
Em Macau, após 1953, tiveram mais três filhos: Delfina Quevedo (Fina)*** , Catarina Quevedo e Alexandre Rui (ambos, atualmente, residentes no Brasil).
A adaptação não foi simples; nos primeiros anos, seus pais decidiram colocar os dois irmãos mais velhos (Linda e Zé), em internatos. Sozinho em casa, e com dificuldades de comunicação em chinês com os colegas de escola infantil, vivia solitariamente. Sua maior alegria era quando a sua mãe ia dar uma mãozinha à avó e aos tios no Café/Restaurante Cecília. Ali no Café podia brincar à vontade e falar português com os Militares Metropolitanos que lá freqüentavam. Foi também no Café Cecília que começou a curtir o gosto pelo “rock & roll”. Lá era música o dia inteiro: Elvis, Pat Boone, Paul Anka, Connie Francis, os Platters, e outros mais.
A adolescência já foi mais alegre. No início dos anos 60, junto com todos os irmãos, foi morar num prédio novo na Estrada do Cemitério. Curtiu bem a revolução cultural dos anos 60, estudando na Escola Comercial Pedro Nolasco de 1961 a 1966 e tendo como hobbies preferidos a música pop e a prática esportiva de Hockey em Campo (foi campeão estudantil em 1965 jogando pela equipe da Escola Comercial). De novembro de 1966 a novembro de 1967 teve seu primeiro emprego como recepcionista/ telefonista no então chique Hotel/ Casino Estoril e, exatamente no dia 23.12.67, emigrou para o Brasil a bordo do velho navio holandês MSV Tjitjalenka.
Chegou a São Paulo no dia 12 de fevereiro de 1968, e, nos primeiros anos ainda conseguiu manter a prática do seu esporte preferido, o Hockey. Jogando em uma equipe formada por vários macaenses e comandada por um dos maiores hoquistas macaenses do Século passado, João Bosco da Silva, foi bi-campeão paulista.
Depois, até meados dos anos 90, a clássica luta por um futuro melhor ocupou a maior parte do seu tempo. Foi aeroviário de 1973 a 1985 (Pan American); e, no próximo dia 02 de maio completará 25 anos no cargo de Diretor Financeiro de uma das maiores empresas de turismo do Brasil. É casado desde 1974 com Dna. Maria Ercilda, com quem teve dois filhos: Carlos Jr (25.07.75) e Renata Moreira (24.03.79).
Em 1992, o seu tio Gilberto Quevedo da Silva (o Chito), primeiro presidente da Associação da Casa de Macau de São Paulo e conhecedor do hobby de compositor pop do sobrinho, pediu ao mesmo que compusesse um Hino para a Associação. Nascia então a “Casa de Macau”, uma canção muito apreciada pelos macaenses espalhados pelo mundo.
Nos últimos dez anos, conseguiu dedicar-se novamente a seus hobbies. Já tem 20 composições gravadas em CD’s e, nos seus dois últimos trabalhos, decidiu contar a história do pop/rock gravando 40 grandes sucessos dos anos 50/60. Um de seus grandes prazeres no momento é localizar velhos amigos de infância e adolescência. Contate o Charlie Santos (Canicha), acessando o site www.charliesantos.com.br
* de out 1916 – dez 2000
* * de ago 1923 – nov 2009
*** de fev 1954 – jul 2003


Arnaldo (o primeiro à esquerda), pai do Canicha, com militares portugueses, no Café Cecília (1955 ou 56)
 Confraternização de servidores do Leal Senado
(Arnaldo, o pai do Canicha, é o terceiro sentado a partir da direita) (1963 ou 64)
Sala de aulas na Escola Comercial ca. 1962

Escola Comercial em 1966

terça-feira, 27 de outubro de 2009

Historiador português investiga diáspora macaense em Xangai

A História daqueles que partiram
Um historiador português está a fazer um trabalho de investigação sobre o primeiro grande movimento migratório da comunidade macaense. É uma viagem aos meados do século XIX e a Xangai, numa tentativa de perceber as características da comunidade que lá se instalou e das repercussões para a terra de onde partiu.
É uma abordagem da História em que o povo adquire mais importância do que os habituais protagonistas políticos. Mais do que relatos de vitórias e conquistas, são as estórias das pessoas que interessam a Alfredo Gomes Dias, historiador português que se dedica ao estudo de Macau há mais de duas décadas. Depois de uma série de estudos e livros publicados sobre diferentes temas, o investigador está agora no encalço dos movimentos migratórios dos meados do séc. XIX, aqueles que deram origem à diáspora macaense.“Estou a estudar a primeira fase da diáspora, que corresponde à saída para as regiões mais próximas: Hong Kong e Xangai”, explicou Gomes Dias ao PONTO FINAL.
A abordagem é feita nas perspectivas demográfica e social. Embora inclua o movimento migratório para a antiga colónia britânica, o estudo (feito para a tese de doutoramento) analisa detalhadamente a comunidade de Xangai, desde que foi fundada, nos finais de 1840, até à seu término, que aconteceu com a proclamação da República Popular da China, em 1949. Sobre a metodologia do trabalho, Alfredo Gomes Dias explica que tem “acesso quantitativo às pessoas que emigraram, através dos registos dos consulados”. É a partir destes dados que está “a tentar reconstruir o fluxo migratório, complementado com outras fontes no que toca à descrição das cidades e dos seus recenseamentos”.
A tese vai ainda incluir uma análise sobre o impacto que a emigração teve na própria sociedade macaense. “Há fenómenos sociais que ocorreram em Macau na segunda metade do século XIX que têm origem no fenómeno migratório e que, até agora, nunca foram abordados nessa perspectiva”, defende.
A diáspora macaense em Xangai enquanto tema da tese surgiu “um pouco por acaso”, conta. “Inicialmente, a ideia era fazer um estudo centrado no porto de Macau. Comecei a fazer alguma investigação no Ministério dos Negócios Estrangeiros (MNE), associada às questões da cidade e da demografia”. Durante esta pesquisa, encontrou os livros de registo do consulado de Xangai, “material abundante” sobre a diáspora. E assim decidiu pelo caminho do estudo das emigrações. Gomes Dias espera ter o trabalho concluído até ao final deste ano. “Estou a terminar a investigação empírica, o levantamento dos dados. A partir de Novembro e complementando com mais algumas leituras, estarei apto para começar a escrever a tese”, explicou, de passagem por Macau.
O trabalho, que está a ser feito no departamento de Geografia da Faculdade de Letras da Universidade de Lisboa, surge na sequência daquela que tem vindo a ser, nos últimos anos, a abordagem do académico: a História Social, a “História das pessoas”. “Esta minha aproximação ao movimento migratório e à diáspora é uma forma de tentar fazer uma História mais aproximada do povo, que muitas vezes é esquecido”, enquadra. Sobre a disparidade dos factos históricos locais consoante as fontes, o investigador minimiza o problema. “A história tem um lado subjectivo que depende sempre de quem a escreve, quer seja português, chinês ou francês. O que se passa com Macau não é diferente.” A grande dificuldade dos historiadores ocidentais prende-se com o acesso às fontes chinesas, mas até mesmo neste aspecto o cenário tem vindo a melhorar. “Temos cada vez mais acesso a textos escritos por autores chineses, que têm a sua versão, e que nos permite ir aproximando as nossas versões daquilo que é o olhar chinês.”
in jornal Ponto Final de 13.10.2008 - artigo da autoria de Isabel Castro

Foto do álbum de Maria Augusta de Gascia e Figueiredo, de Shanghai, lembrando os tempos passados em Shanghai/China nos anos 30. Photos from her album remember the old days passed in Shanghai/China in the 30's. Divulgação/published by Projecto Memória Macaense www.memoriamacaense.org