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quinta-feira, 30 de abril de 2026

Uma avenida dividida em duas

Já aqui me referi à antiga Avenida Dr. Oliveira Salazar que após o 25 de Abril de 1974 foi renomeada Avenida da Amizade. Mais tarde, um troço entre a rotunda Ferreira do Amaral e a Av. da Praia Grande passou a chamar-se Av. Dr. Mário Soares.

薩拉沙博士馬路
Pinyin (mandarim): Sà lā shā bó shì mǎ lù

Sa La Sha (Salazar), Po Se (Dr.) e Ma Lou (Avenida).

sábado, 25 de abril de 2026

A excepção à regra no processo da descolonização

Uma das questões centrais do 25 de Abril de 1974 foi o processo de descolonização das então colónias portuguesas (designadas províncias ultramarinas na época).
Na edição de 11 de Setembro de 1974, o jornal Tai Chung Pou (chinês e publicado em Macau) escreve: "o Chefe da Repartição do Gabinete do Governo de Macau, Tenente Coronel Henrique Manuel Lages Ribeiro, apontou que uma notícia emanada da agência noticiosa Reuters fora mal interpretada, e que Macau tem uma posição peculiar", pois "a maneira de resolver o seu futuro é diferente em relação a outros territórios ultramarinos portugueses." 
O jornal acrescenta, citando Almeida Santos, na altura ministro português da Coordenação Interterritorial: "seria permitido a todos os territórios ultramarinos portugueses escolher a forma de independência como meio para solucionar o seu próprio problema, com a excepção de Macau que, sendo um território muito especial, requer uma maneira também especial para solucionar o seu problema".

No livro “Macau nos anos da revolução portuguesa 1974-1979”, Garcia Leandro escreve: "a República Popular da China teve o cuidado de, em 1972, no Comité de Descolonização da ONU, deixar bem claro que o futuro destas duas possessões europeias [Macau e Hong Kong] não faria parte da agenda das actividades daquele organismo, sendo o assunto tratado bilateralmente".
A legislação que entrou em vigor em Portugal a partir do 25 de Abril de 1974 só seria publicada no Boletim Oficial de Macau a 11 de Maio desse ano. Nomeadamente a "Lei nº1/74 de 25 de Abril" e outros decretos da Junta de Salvação Nacional.

sexta-feira, 24 de abril de 2026

"A Hora Presente da Nação"

A notícia da revolução de Abril de 1974 em Portugal só chegou aos jornais de Macau alguns dias depois. A primeira informação pública sobre os acontecimentos em Lisboa foi dada aos microfones da rádio Macau, através de Rui de Mascarenhas, cantor português de enorme sucesso na época e que por esses dias atuava em Macau no âmbito do evento "Abril em Portugal", organizado pelo Hotel Lisboa (STDM), actuando no restaurante Portas do Sol.

Na imagem a primeira página do jornal Gazeta Macaense de 27 de Abril de 1974.
Excertos:
CONSTITUÍDA A JUNTA DE SALVAÇÃO NACIONAL
Lisboa, Abr. 25 (R)
O general António Spínola, presidente da Junta Militar, fez esta manhã uma breve alocução ao País pela televisão, tendo depois apresentado outros cinco membros da junta. A Junta Militar de Salvação compromete-se a garantir a sobrevivência de Portugal como nação soberana e independente na "sua integridade multi-continental". Além do general Spínola fazem parte da junta os seguintes oficiais superiores: 
General do exército Francisco da Costa Gomes; Brigadeiro do exército Jaime Silvério Marques; Capitão-de-mar-e-guerra José Batista Pinheiro Azevedo; Capitão-de-fragata António Rosa Coutinho; General Manuel Diogo Neto e coronel Carlos Galvão de Melo, ambos da aeronáutica. O general Diogo Neto foi o único que não esteve presente na emissão televisionada, por se encontrar ausente no ultramar.
(...)
Tudo indica que 25 de Abril de 1974 vai entrar na História Política Portuguesa como mais uma efeméride célebre.
De facto, as últimas vinte horas que se viveram em Portugal Continental devem registar-se como das mais dramáticas e surpreendentes da vida nacional nos últimos 48 anos.
O «Movimento das Forças Armadas», cuja chefia até à hora do fecho desta edição (18 horas), ainda se não conhece com exactidão, parece ter abalado profundamente os alicerces em que há muitos anos assentava o edifício político nacional. Se for confirmado por individualidades verdadeiramente respeitáveis na vida nacional o que tem vindo a ser proclamado, de há 20 horas para cá, pelo chamado «Movimento das Forças Armadas», prova-se que a palavra e a propaganda podem ter mais força do que poderosas armas de guerra. O Movimento soube aplicar o sistema ao iniciar a sua acção com a conquista dos mais poderosos meios de informação do País.
Continua-se a aguardar a revelação dos nomes dos principais responsáveis pelo «Movimento das Forças Armadas» e as declarações que então deverão ser feitas por aqueles sobre quem cairão as responsabilidades de governar a Nação. Logo que nos cheguem mais elementos informativos, faremos a sua transmissão, certos de que a Nação Portuguesa, que não é apenas Portugal Europeu, há-de sentir que mudanças de fórmulas políticas não correspondem a quebras de unidade, antes procuram atingir, servindo o ideal comum e antigo de amor à Pátria e a sua grandeza histórica.
Que mudem os sistemas políticos será sempre secundário, pois o que importa é que os governantes de ontem, de hoje e de amanhã, sejam verdadeiros portugueses, pois isso é, sobretudo e sobre todos, o que interessa. (...)

sexta-feira, 25 de abril de 2025

Testemunho sobre o 25 de Abril

Testemunho de Manuel Tomé
"Estava eu em Macau. Era estudante no Liceu Nacional Infante D. Henrique e trabalhava em part-time como locutor na Radiodifusão de Macau. Prestes a sair de serviço, ouvi tocarem as campainhas - sinal de notícias importantes - dos faxes da Reuters e France Press. Em língua inglesa e francesa, noticiavam ambas as agências, que se dera um "coup-de-état" em Portugal. Tanto uma como outra das agências noticiosas, usavam a terminologia francesa.
Surpreso, liguei para casa do Sr. Alecrim - pai da Hortense Alecrim -, dando conhecimento. E pela manhã, estava eu e o Sr. Alecrim no Palácio do Governo e perante o Governador de Macau. Fui apresentado como a pessoa que tinha alertado para o facto. Após cerca de meia-hora de reunião, determinou o General Nobre de Carvalho, que devíamos, ambos, ficar calados sobre a notícia.
Mas foi impossível, manter tal estado de coisas - quanto mais não fosse por que de Hong Kong e através das rádios locais e televisão, não se falava de outro assunto. Todavia e em Macau, só três dias depois, tal facto, passou (oficialmente) a ser de conhecimento público. Não tinha eu, 16 anos de idade e fazia - com muito orgulho - parte da história de Portugal em Macau. E isso, não vou nunca esquecer - até por toda emoção que vivi."
Campo dos  Operários, Hotel Lisboa, Liceu, Estátua gov. Ferreira do Amaral e padrão henriquino frente ao liceu (canto inferior direito). A Ponte Macau-Taipa/Nobre de Carvalho foi inaugurada em Outubro de 1974


A este propósito recordo um excerto de uma notícia da agência Lusa de 2024:
"Quando há 50 anos Portugal saiu à rua para celebrar o fim da ditadura, foi um músico do regime que revelou a novidade em Macau, onde o alcance do Estado Novo não se sentia da mesma forma.
Rui de Mascarenhas atuava no Mermaid, um clube noturno no Hotel Lisboa, em Macau, quando a Revolução dos Cravos derrubou a ditadura a mais de dez mil quilómetros. E foi através deste “cantor do regime”, nascido em Moçambique, que a notícia chegou ao centro do poder do território, conta à Lusa o investigador da história de Macau João Guedes.
Mascarenhas deu a novidade ao então diretor da Emissora de Radiodifusão de Macau (atual Rádio Macau) Alberto Alecrim, que a transmitiu ao governador José Nobre de Carvalho. Só mais tarde a informação da liberdade chegou a todos, através de um noticiário da rádio britânica BBC, “retransmitido pelas estações de rádio de Hong Kong”.
Esta é a “história corrente” de como abril de 1974 alcançou Macau. Mas e como é que a notícia foi comunicada a Mascarenhas?
“Eu só vejo uma hipótese que é a seguinte: ninguém tinha telefones para ligar para Lisboa, a não ser a tropa. Terá ido aos correios telefonar para alguém?”, sugere.
Nobre de Carvalho abandonou o posto nesse mesmo ano, mas não imediatamente após Abril, “ao contrário dos outros governadores das colónias”, provavelmente pelo caráter “não extremista” e por não ter sido “ostensivamente defensor de Salazar”, analisa o investigador. (...)"
Rua 25 de Abril em Macau - perto da Praça do Lago Sai Van
Foto (recente) de Luís Almeida Pinto

quinta-feira, 24 de abril de 2025

Na véspera de Abril de 1974

Através de uma leitura breve por várias edições do jornal Notícias de Macau - "visado pela censura" - aqui ficam alguns elementos sobre o território na véspera do 25 de Abril de 1974. O jornal custava na altura 40 avos.
Entre os anunciantes assíduos nas páginas do jornal estavam o Hotel Central, o restaurante Fat Siu Lau, a Farmácia Popular (Largo do Senado como tel. 3739), a Tai Fong - cambistas, ourives e joalheiros (Av. Almeida Ribeiro) e o Banco do Oriente, na altura ainda com sede provisória no 1º andar do Hotel Lisboa.
Uma visita às "inolvidáveis ilhas da Taipa e Coloane" ou uma ida ao cinema - Império, Nam Van ou Apollo" eram algumas das possibilidades para ocupar os tempos livres.
Os ferrys Chung Shan, Nam Shan, Wah Shan e Tai Shan, da empresa Shun Tack, asseguravam as ligação marítimas entre Macau e Hong Kong, atracando no Porto Interior. O Porto Exterior era utilizado pelos hidroplanadores Guia, Penha, Taipa, Patane, Cacilhas, etc... Efectuavam cerca de 20 viagens diárias entre as duas cidades, apenas durante o dia.
No início de Macau anunciava-se a realização entre 16 e 17 de Novembro de 1974 de mais uma edição do Grande Prémio de Macau.
O Hotel Lisboa, na altura com apenas 4 anos de existência, proporcionava várias ofertas de entretenimento. Para além do clube nocturno Mermaid, entre 1 e 7 de Março, a artista Jezabel dava um espectáculo no restaurante "Portas do Sol", um dos vários restaurante do hotel.
A STDM era proprietária do Hotel Lisboa e também do Estoril (o primeiro), os dois com casino. O hotel Sintra estava prestes a ser inaugurado. Tinha ainda o casino flutuante "Macau Palace" no Porto Interior.

quinta-feira, 25 de abril de 2024

terça-feira, 16 de abril de 2019

"Relato fiel e fundamentado da história"

Já aqui referi por mais de uma vez o livro “Macau nos Anos da Revolução Portuguesa 1974-1979” (Gradiva, Lisboa, 2011), do General José Eduardo Garcia Leandro, primeiro Governador de Macau designado após a revolução de Abril de 1974. Desta vez volto ao tema dando a conhecer um pequeno excerto da nota introdutória de um livro que foi publicado segundo o seu autor tendo "como única finalidade deixar registado para actuais e vindouros interessados e investigadores o que foi a governação de Macau e muitas outras sensíveis questões associadas ao período tão difícil de 1974 a 1979, através do testemunho do seu primeiro responsável”.
António de Almeida Santos, então Ministro da Coordenação Interterritorial, escreveu no livro "Quase Memórias" (2º Vol.) que “Macau, sobretudo à época, era tudo menos fácil de governar", e o gov. Garcia Leandro, “impecavelmente sério, reflectido e prudente”, “exerceu o cargo com sabedoria verdadeiramente chinesa”.
Garcia Leandro em 1976 na Assembleia Legislativa de Macau
Excerto da introdução:
Como foi possível que eu e quem me acompanhou e ajudou tivéssemos conseguido conduzir Macau pelos melhores caminhos?
Todo o enquadramento sociopolítico era indiscutivelmente mau. Desde o processo revolucionário em Portugal (e a descolonização consequente), passando pela situação na China ― com a Revolução Cultural, o fim do maoísmo e a consequente luta pelo poder ―, os últimos anos da Guerra do Vietname até à má situação da economia mundial, ainda não recuperada do choque petrolífero de 1973. A isto, acrescia a própria (e permanente) fragilidade estrutural de Macau, ainda não totalmente reequilibrado após os incidentes do «1-2-3» de 1966. Sem esquecer a idade com que iniciei funções de Governo, o que, no início, criou alguma desconfiança (compreensível) em certos sectores mais conservadores. Também não podia contar com grande apoio de Lisboa, onde se viviam outras preocupações bem mais prementes e onde os problemas passavam por abordagens ideológicas muito marcantes e demasiado genéricas que não interessavam, nem se deviam aplicar em Macau.
 A instabilidade política nacional era muito grande. Basta lembrar que, durante o meu período de Macau, passaram por Portugal oito governos (do III ao VI Provisórios e do I ao IV Constitucionais) e cinco primeiros-ministros. Como Macau deveria ter um caminho próprio, não podia estar sujeito às consequências negativas de tanta mudança. Daí a minha visão política da questão: para controlar bem o que se ia passar em Macau, não poderia dar problemas a Lisboa, nem deixar que dali viessem instruções que pudessem prejudicar o futuro do Território. Havia, pois, que evitar a existência de poderes paralelos e, ao mesmo tempo, recusar a aplicação local de modelos desajustados. Macau não podia ser prejudicado pelo envolvimento no jogo dos partidos políticos nacionais.
 O meu Governo tinha vontade de fazer bem e de deixar um bom exemplo, trabalhando para todos os que ali viviam, sem discriminações. A população chinesa pugnava pela tranquilidade e a República Popular da China, a atravessar grandes dificuldades internas, não queria novas fontes de problemas em Hong Kong e em Macau.
 A consciência do momento difícil – se não único – que se vivia também foi sentida pelos responsáveis das comunidades locais e pelo Governo de Hong Kong. Recebi um apoio muito claro da comunidade chinesa e da Igreja Católica, e foram consolidados os mecanismos de coordenação e entendimento com o Governo da colónia britânica, ao mesmo tempo que se procurava diminuir o jugo económico que esta exercia sobre Macau.
A evolução foi boa e o crescimento económico permanente. Mas a memória é curta e hoje, em Portugal, são poucas as pessoas que têm conhecimento da situação de Macau em 1974, pensando muitos que este sempre foi uma espécie de «árvore das patacas» onde nunca existiram dificuldades económicas, políticas ou sociais.

Palacete de Santa Sancha
Acresce que o conhecimento sobre Macau sempre foi reduzido em Portugal, mesmo entre muitos responsáveis da cultura e da política. Com o passar do tempo e a nossa saída de Macau, em finais de 1999, tal vazio de informação agravou-se. Encontro-me frequentemente com pessoas que assim pensam ou que tudo desconhecem, mas que têm ideias feitas sobre Macau. Fico perplexo com o desconhecimento com que deparo, por vezes com o desinteresse em conhecer a realidade, e com os erros de interpretação permanentes. É também para deixar um testemunho factual que este livro é necessário! Mas sinto que também tenho responsabilidades por não o ter escrito mais cedo. Por tudo isto, não ficaria bem com a minha consciência e com a História se nada fizesse para ajudar a corrigir esta situação.
 Esta é a resposta à pergunta se vale a pena este trabalho mais de trinta anos depois. Crê-se que, desta forma, se contribui para um relato fiel e fundamentado da História. O tempo a todos vence, pela morte, pela mudança de gerações e pelo esquecimento, a menos que fiquem registos dos conceitos, das intenções e dos factos. E porque as pessoas envolvidas, com responsabilidades naquela época, têm vindo a morrer sem deixar registos, a memória vai desaparecendo. Daqui a dez anos, quase todos os testemunhos dessas experiências vividas terão desaparecido. Embora Macau já não esteja no centro de interesse dos portugueses, nem nas primeiras páginas dos jornais, este registo escrito é indispensável para quem queira compreender a evolução ocorrida a partir do 25 de Abril.”

quarta-feira, 6 de maio de 2015

"O Século Ilustrado": 23 Novembro 1974

Ainda a propósito de mais um aniversário da "revolução dos cravos" a 25 de Abril de 1974 e suas implicações em Macau, encontrei esta edição do Século Ilustrado de 23.11.1974 onde é publicada uma reportagem dedicada ao território intitulada "Macau Hoje".
Três fotografias ilustram o pequeno texto: na primeira vê-se o Liceu, o hotel Lisboa e as obras relativas à ponte Nobre de Carvalho inaugurada a 5 de Outubro desse ano; a segunda imagem retrata a Travessa da Paixão com a legenda: "Uma rua de Macau, vendo-se ao fundo a lendária igreja de São Paulo, construída pelos padres jesuítas japoneses em 1602"; na terceira fotografia surge uma placa toponímica do Pateo do Terraço com a legenda: "Intensificar as boas relações entre portugueses e chineses de Macau está na nova linha de rumo anunciada para aquele enclave português em território da China".
"O futuro de Macau está na ordem do dia entre as preocupações da imprensa estrangeira: o governo de Lisboa já pode dar resposta a tanta inquietação: o novo governador de Macau, major Garcia Leandro, anunciou, à sua partida para aquele enclave, o aumento do ritmo de produção, com a consequente criação de mercados, a incentivação de outras indústrias, sem rivalizar com as vizinhas, o aproveitamento das ilhas Taipé* e Coloane, o desenvolvimento turístico da ilha e, ponto importante, o estreitamento de relações entre Lisboa e Pequim. Fundada em 1557 pelos portugueses, Macau é hoje ponto de escala obrigatório para os turistas de Hong Kong, da Indonésia e da Austrália, que têm colaborado "generosamente" para fazer de Macau o "casino" por excelência daquela região do mundo".
* leia-se Taipa. copyright Camera Press, A.D.S. e S.I.

domingo, 26 de abril de 2015

Assembleia Constituinte de 1975

Uma das primeiras preocupações do Movimento das Forças Armadas, expressa nas medidas imediatas do seu programa - fundamentado na necessidade de definição de uma "política ultramarina que conduza à paz (...) só possível com o saneamento da actual política interna e das suas instituições, tornando-as, pela via democrática, indiscutidas representantes do Povo Português" - foi a convocação, no prazo de um ano após a revolução de 25 de Abril de 1974, de uma Assembleia Constituinte eleita por sufrágio universal directo e secreto.
Depois da realização de um recenseamento eleitoral considerado exemplar, votaram todos os cidadãos maiores de 18 anos, independentemente do sexo, nível de instrução ou capacidade económica, com excepção dos responsáveis e colaboradores do anterior regime. A capacidade eleitoral passiva coincidia com a activa: todos os eleitores podiam ser eleitos, apenas com algumas excepções, como era o caso dos militares.
Nas eleições para a Assembleia Constituinte participaram 14 partidos e coligações: Associação para a Defesa dos Interesses de Macau (ADIM), Centro Democrático de Macau (CDM), Centro Democrático Social (CDS), Frente Eleitoral dos Comunistas (marxistas-leninistas) (FEC (m-l)), Frente Socialista Popular (FSP), Liga Comunista Internacionalista (LCI), Movimento Democrático Português/Comissão Democrática Eleitoral (MDP/CDE), Movimento de Esquerda Socialista (MES), Partido Comunista Português (PCP), Partido Socialista (PS), Partido Popular Democrático (PPD), Partido Popular Monárquico (PPM), Partido de Unidade Popular (PUP) e a União Democrática Popular (UDP).
As eleições para a Assembleia Constituinte a 25 de Abril de 1975 foram as primeiras por sufrágio verdadeiramente universal realizadas em Portugal, com uma afluência histórica de 91% dos cidadãos recenseados. Foram eleitos 250 deputados. Entre eles, Diamantino Ferreira deputado eleito por Macau. No território houve candidatos da ADIM, mais conservadores, e do CDM, de ideais mais liberais.
A Associação para a Defesa dos Interesses de Macau (ADIM), associação política de matriz portuguesa e de cariz conservador fundada em 1974 no território por um grupo de macaenses, entre os quais estavam Delfino José Rodrigues Ribeiro e Carlos Augusto Corrêa Paes d’Assumpção, tinha uma relação de estreita com o Centro Democrático Social (CDS) português e nas eleições para a AC de 1975 obteve 1622 votos (0,03%), derrotando a CDM e conseguiu eleger um deputado, Diamantino de Oliveira Ferreira, pelo círculo eleitoral de Macau.
O co-fundador e líder da ADIM, Carlos d'Assumpção, participou activamente na elaboração do novo Estatuto Orgânico de Macau e conduziu a ADIM à vitória nas primeiras eleições legislativas livres de Macau, em 1976.#

sábado, 25 de abril de 2015

1º aniversário 25 de Abril 1974: envelope e selo

Envelope e selos alusivos ao 1º aniversário do 25 de Abril de 1974 que também teve eco em Macau. A emissão filatélica é referente ao primeiro dia de circulação - 29 de Agosto de 1975 - com uma ilustração de um vendedor ambulante uma das muitas e já praticamente desaparecidas antigas profissões do território.
Na imagem acima uma vendedora de rua em Macau na década de 1950 recorrendo ao transporte/venda de mercadorias com o chamado sistema 'pinga'.

sexta-feira, 24 de abril de 2015

Teatro no Fat Sio Lau: 1948

As imagens reproduzem o folheto de uma Sessão no Teatro do "Fat Sio Lau" a 24 de Abril de 1948. "Savel & Sanfé" apresentam "A Festa de Despedida" em homenagem ao Dr. Francisco Barata Feio e a Dr. João Albino Ribeiro Cabral, ambos médicos. Barata Feio trabalhou ainda em Angola e Moçambique. Sobre Macau deixou escrito "Programa de acção sanitária e profilática", editado pela Imprensa Nacional em 1947.
Nota: a referência a este teatro parece-me tratar-se nada mais nada menos que o restaurante como o mesmo nome existente na Rua da Felicidade e que, a propósito desta data, ficaria ligado às repercussões em Macau do 25 de Abril de 1974 em Portugal.

sexta-feira, 25 de abril de 2014

25 de Abril de 1974


NM: capa das edições dos dias 26 e 27 de Abril de 1974

Em Macau, o dia 25 de Abril de 1974 amanheceu quente e húmido, “talvez com mais sol que o habitual”, recordam os contemporâneos. Rui de Mascarenhas “atracção nacional e vedeta internacional” era o homem do dia em Macau. Cantava no festival “Abril em Portugal” com o patrocínio do Hong Kong Hilton Hotel, British American Tobacco e Vinhos do Porto “Ferreirinha”. O serviço de cozinha “tipicamente portuguesa” mais o espectáculo custava 25 patacas - 105 escudos ao câmbio da altura.
“Os Segredos de um Vendedor de Porta à Porta" era, para maiores de 17 anos, o filme mais sugestivo dos quatro “teatros” que, em Macau, exibiam cinema em sessões quase contínuas. Os restantes filmes, todos de produção de Hong Kong, falavam de “O caso” e de “Quatro Verdadeiros Amigos”.
Os jornais do dia seguinte mostraram que o 25 de Abril foi um dia cheio de peripécias. O “Notícias de Macau” dava conta que uma interna de 16 anos, fugira do Asilo de S. Francisco Xavier das Irmãs Canossianas, em Mong Há, desconhecendo-se o seu paradeiro. Já o comerciante Lim Fu Shou queixava-se à PSP de lhe terem roubado o carro “Honda” e o recheio que consistia, segundo a queixa, “em 44 garrafas de vinho do porto, três de vinho “Rosé”, quatro de “Coca-Cola”, um transístor de marca “Phillips” e dois baldes de plástico.
Ho Yin ao centro discursando
A “Gazeta Macaense”, por outro lado destacava que o carro de outro comerciante, Luís Bonifácio Fão, não estava onde o tinha deixado na noite anterior e cautelosamente “presumia que tivesse sido furtado”.
O que os jornais não contavam era que em Portugal tinha havido um golpe de Estado, mas ninguém ficou admirado. As notícias nacionais e internacionais, aceites para publicação pela comissão de censura local, eram apenas as enviadas pela ANI e a Lusitânia e tinham mais de uma semana de atraso. Os responsáveis pelos dois jornais de língua portuguesa de Macau só muito mais tarde souberam que as agências não lhes tinham enviado trabalhos nesse dia.
Assim, o “Notícias de Macau” publicava um trabalho do “cronista parlamentar”, Haendel de Oliveira(1), datado de 17 de Abril, sobre o magno problema das “Transplantações-um problema técnica e moralmente delicado”, em que se elogiava que “pertinente observação se nos afigura ser a que ontem fez a deputada pelo Estado da Índia Drª Teresa Lobo (...) sobre transplantações de tecidos ou órgãos de pessoas vivas”(2).
Mas toda a gente já sabia o que se estava a passar. “Ao fim da tarde, a rádio de Hong Kong, que transmitia o noticiário da BBC, falou do golpe em Portugal” recordou o arquitecto José Maneiras, na altura já “do reviralho”, como então se dizia, ou mesmo o Comendador Morais Alves(3), das fileiras do regime, que recordou ainda que “foi o Pedrinho Lobo(4) que me avisou das notícias”.
José Maneiras diz que “as primeiras notícias foram confusas”. Falavam do controlo pelos golpistas do Terreiro do Paço, de que o Governo “estava em fuga”, mas também que “ainda havia bolsas de resistência nos quartéis”. Apressou-se a telefonar a outro “do contra” – o arquitecto Francisco Figueira(5) – mas este não acreditou às primeiras. E com boas razões.
Vizinha da grande China onde imperava Mao Tse-tung, a população portuguesa não sentia a “asfixia” do regime como em Portugal. A PIDE/DGS não existia, ainda que se soubesse de “uns bufos mais ou menos encartados”. A censura era feita pelo Gabinete do Governador mais por “inerência de funções”, embora também não houvesse nada para censurar pois a informação já vinha controlada de Lisboa.
Macau servia mesmo de “refúgio” para uns velhos republicanos (Damião Rodrigues(6) e Vivaldo da Rosa) ou recém-saídos das lutas estudantis como Neto Valente, Francisco Figueira, etc. Na pacatez que então se vivia, estes e mais uns tantos portugueses, naturais ou radicados em Macau, iam reunindo no café, falando do que se dizia e sabia da vida portuguesa e da governação local “tudo com muito cuidado”.
Nas Forças Armadas em serviço em Macau também sopravam “novos ventos” por força da vinda de oficiais mais novos. Rocha Vieira era então Chefe do Estado Maior do Quartel General e pela “província” encontravam-se os capitães Pinto Ferreira e Ghira, o 1º tenente Ramalho e os comandantes Guerra da Mata e Catarino Salgado.
Em 1974, os oposicionistas tinham ganho novo alento. Spínola publicara “Portugal e o Futuro” e era já indisfarçável a dissidência no interior do regime. José Maneiras, recém-regressado de Portugal, onde se licenciara em Arquitectura, trouxera as entrelinhas duns recortes dos jornais “República”, “Diário de Lisboa” e “Expresso” e a convicção de que “a coisa estava para breve”. Aumentaram os telefonemas para Lisboa que na altura podiam demorar cinco ou mais horas a efectivar-se.
Quando se soube do 16 de Março, os anti-situacionistas viram justificado o optimismo. A casa de Francisco Figueira (o “solteiro geográfico” do grupo) serviu então, de base, para se “viverem” as peripécias do “golpe das Caldas”, em longas noites passadas “a vodka e cigarros tentando apanhar a BBC ou a Voz da América”. Duas semanas depois, porém, o ânimo já tinha definhado. O regime parecia são como um pêro, os “golpistas tinham sido detidos ou transferidos e Spínola e Costa Gomes não davam de si”.
“Estava já tudo conformado e a 1 de Abril, resolvi pregar uma peta ao Figueira”, conta José Maneiras. Com o pano de fundo dos receios de um golpe de extrema-direita, “contei-lhe que tinha ouvido as notícias de um golpe em Portugal e tinha sido formado um novo Governo com o Rapazote(7) como presidente do Conselho, o Kaulza(8) para a Defesa e um outro “ultra” para o Ultramar. Relembra Maneiras que a reacção de Francisco Figueira foi tão violenta - “nunca mais ponho os pés em Portugal e vou-me embora de Macau” - que teve de lhe explicar que era “brincadeira do Dia das Mentiras”. Por isso quando, em 25 de Abril lhe contou o que estava a passar em Portugal, foi difícil fazê-lo acreditar que desta vez era a sério.
Edição da Gazeta Macaense de 27 de Abril 1974
GOVERNADOR FALA À PROVÍNCIA
O então Governador general Nobre de Carvalho, também estava confuso, pois os acontecimentos precipitavam-se a um ritmo e com um “conteúdo” a que a então “Província” não estava habituada. Já com muitos anos em Macau, Nobre de Carvalho acabara, a 23 de Abril de falar na sessão de abertura da Assembleia Legislativa, de que era, também presidente(9).
O Governador salientara, então que “vendavais procelosos fustigam a Nação portuguesa que continua a ser alvo de uma cabala internacional visando, em especial, a nossa política ultramarina acerca da qual se fazem afirmações falsas e caluniosas”.
Nobre de Carvalho prosseguiu que “o venerando Chefe do Estado Senhor Almirante Américo Thomaz, evidenciando, como sempre, o seu espírito firme e calmo continua dando ao País um alto exemplo de trabalho, dedicação e espírito de sacrifício” e que “sob a sua égide, prossegue o Governo Central, chefiado pelo Professor Marcello Caetano – esse clarividente estadista, homem de pensamento e acção – que atenta e devotadamente dirige a política geral do País, onde é já bem evidente a profunda transformação para melhor, operada em todos os sectores da vida nacional, como consequência de uma acentuada melhoria económica e da aceleração da politica social”.
Foi um discurso grande – o “Notícias de Macau” deu-lhe as primeiras páginas e interiores de três dias seguidos (com a mesma manchete, para não destoar), discurso que terá agradado muito à Assembleia pois o vogal Henrique de Senna Fernandes entendeu caber-lhe “em nome da Assembleia Legislativa, felicitar, em primeiro lugar, Vossa Excelência, Senhor Presidente, pelo realismo com que se referiu à hora grave que a Nação atravessa”.
Diz o “Notícias de Macau” que o orador, “certo de reflectir a vontade dos vogais daquela Assembleia”, propôs que fosse enviado ao ministro do Ultramar um telegrama onde se lhe solicita que “se digne transmitir Sua Excelência Presidente do Conselho Professor Doutor Marcello Caetano rendido preito respeitosa admiração grato reconhecimento desta Assembleia (...) e expressa seu inteiro apoio política ultramarina que define o rumo melhor serve superiores interesses nacionais e que impõe nesta hora grave país atravessa a maior coesão todos os portugueses”. O texto foi aprovado “por aclamação” e combinada nova reunião para dia 29.
SILÊNCIO NO PALÁCIO
Enquanto a informação portuguesa local “desconhecia” o que se passava em Portugal, as rádios e televisões de Hong Kong iam acrescentando pormenores, a partir de certa altura já com imagens dos acontecimentos. Aos olhos de todos era claro que o movimento vencera e que Spínola era a primeira figura de proa. “Abrimos o champagne, festejámos o fim do anterior regime, mas não ficámos muito convencidos de que alguma coisa iria mudar em Macau”, disse-nos um dos elementos do grupo anti-situacionista. A oficialidade mais nova - onde António de Spínola era “herói” - tentava levar o Governador Nobre de Carvalho a “ligar-se” ao novo regime, enquanto o então comandante militar, Mesquita Borges(10), o tentava convencer do contrário. O Governador hesitava. Pretendia que “a nova ordem política anunciada, salvo em alguns aspectos, em pouco irá afectar a vida político-administrativa desta terra”, e justificava que “em Macau, a excelente convivência e a mútua compreensão entre cidadãos de diferentes etnias, credos, ideologias e culturas já revelava à evidência uma forma de pensar e de viver, diferenciada, digamos assim, sob certos aspectos das restantes regiões do território nacional”.
A pressão, e as dúvidas, eram tantas que a 30 de Abril, decidiu-se a enviar um telegrama ao ministro do Ultramar a solicitar instruções. O ministro Rebello de Sousa(11) já não governava há quatro dias, mas os jornais de Macau ainda lhe atribuíram a resposta a informar Nobre de Carvalho sobre a sua manutenção no cargo. Possivelmente foi confusão. Como entre as primeiras leis da Junta de Salvação Nacional, a 29 de Abril se contava uma que exonerava “das suas funções os Governadores Gerais de Angola e Moçambique”, depreendia-se que o de Macau, entre outros, se mantinha. Assim se explica, aliás, que a 30 de Abril, Nobre de Carvalho agradecesse directamente a Spínola a confiança da Junta e lhe manifestasse o apoio.
PRIMEIRAS NOTÍCIAS SURGEM A 27
Finalmente nos jornais do dia 27 de Abril aparecem as primeiras notícias sobre o “Movimento das Forças Armadas”. Ainda visado pela Censura, o “Notícias de Macau” anunciava que “o General Spínola foi proclamado Chefe do Portugal Novo”, mas adiantava que “continua a aguardar-se a revelação dos nomes dos principais responsáveis pelo MFA e as declarações que então deverão ser feitas por aqueles sobre quem recairão as pesadas e honrosas responsabilidades de governar a Nação”. Comentava candidamente “que mudem os sistemas políticos será sempre secundário, pois o que importa é que os governantes de ontem, de hoje e de amanhã, sejam verdadeiros portugueses, pois isso é sobretudo e sobre todos o que interessa”. Só a importância desta notícia retirou a quarta parte do discurso do Governador para a parte debaixo do jornal. Ao lado, Dutra Faria, director executivo da ANI escreve sobre “Miterrand, o inquietante”, “o socialista que se apresenta como candidato das esquerdas, apoiado pelos comunistas”...
“GOLPE DE RINS” QUASE GENERALIZADO
No dia 29 de Abril, a Assembleia Legislativa de Macau dá um verdadeiro “golpe de rins” que nem todos aceitarão. Antes da Ordem do Dia, Nobre de Carvalho (depois de saber que se mantinha como Governador) afirma que “trata-se de uma oportunidade única aquela que agora é proporcionada a toda a Nação Portuguesa, graças à iniciativa de um punhado de cidadãos e oxalá o país compreenda a importância de tal facto e comprove, pelo seu espírito cívico, que merece uma remodelação da vida portuguesa uma nova ordem politica, nos moldes que foram anunciados pela Junta de Salvação Nacional”.
Na mesma sessão, o vogal Carlos Assumpção acentua o “indefectível fervor patriótico e a doação total à causa pública que animam os ilustres homens de armas que compõem a Junta”, o vogal Ho Yin(12) acha que a continuação do Governador Nobre de Carvalho é “motivo de júbilo para esta Província” e o vogal Humberto Rodrigues(13) destaca a presença na Junta de Salvação Nacional do general Jaime Silvério Marques, ex-Governador de Macau, o que é “motivo de grande júbilo e de fé e de esperança no novo regime de que em boa hora faz parte, designadamente no engrandecimento de Macau”.
José Maneiras, também vogal da Assembleia Legislativa, estava noutra. “Desafecto ao antigo regime, com o qual nunca me identifiquei ideologicamente e sem disso fazer segredo) conscientemente desenquadrado de todas as suas formações e estruturas politicas e sem me deixar seduzir por posições confortáveis que me poderiam advir, tudo a bem da coerência dos princípios que me norteiam (...) afirmo a minha adesão aos princípios estabelecidos para a edificação de um Portugal Novo, solidamente alicerçado nos mais sagrados ideais da democracia”, relata o “Notícias de Macau”.
E começa um discurso na Assembleia, lendo na íntegra o poema “No Meu País há uma Plavra Proibida" de Manuel Alegre, puxando “de uma folha de papel que clandestinamente guardava, com enternecido carinho”. A certa altura surge a ideia (as fontes não determinam por parte de quem) de enviar à Junta de Salvação Nacional um telegrama de apoio. A professora Graciette Batalha(14), vogal da Assembleia já falecida recusa-se a assinar. Em livro de memórias, publicado nos finais da década de 80, Graciette Batalha recorda a sua posição contra a incoerência de uma Assembleia que, uns dias antes, tinha enviado a Thomaz e Caetano, um telegrama de idêntico teor.
O Leal Senado de Macau, “como lídimo representante da população da cidade de Macau e atentas às suas honrosas e gloriosas tradições de lealdade à Pátria” e a Câmara Municipal das Ilhas enviaram moções de apoio “aos princípios e objectivos” da Junta, e, em especial, pela manutenção do Governador.
Nobre de Carvalho, mais descansado quanto ao seu futuro próximo, recebia D Duarte Pio de Bragança, príncipe da Beira, de passagem por Macau, e diversas individualidades, entre as quais o Intendente Pires Estrela “acompanhado de alguns funcionários mais categorizados dos serviços de Administração Civil”, segundo o “Notícias de Macau”.
NM: 3 Maio 1974
CDM NASCE NO “FAT SIU LAU”
Os desafectos do regime não estavam dispostos a deixar tudo na mesma. Às 18 horas de 30 de Abril, no restaurante “Fat Siu lau”, na popular “Rua da Felicidade” nascia o CDM – Centro Democrático de Macau, tendo com o fundadores “médicos, advogados, engenheiros, arquitectos, oficiais da Armada e do Exército, funcionários públicos e de instituições privadas”.
À reunião-jantar presidiu o Dr Vivaldo Eurico Modesto da Rosa que, segundo o relato da “Gazeta Macaense”, “historiou os antecedentes da revolução e condenou o regime do governo deposto e em termos entusiásticos e enérgicos manifestou a esperança que da referida revolução saísse uma sociedade mais digna e mais livre”.
Segundo o relato deste jornal – o evento passou só chegou ao “Notícias de Macau” a 3 de Maio – foi decidido enviar “um telegrama à Junta da Salvação Nacional e a um jornal de Lisboa, manifestando a adesão dos democratas portugueses de Macau aos correlegionários de Portugal”, eleita uma comissão coordenadora “para orientar as futuras reuniões e elaborar os estatutos da organização a criar” e sugerido pelo comandante Guerra da Mata “que nas próximas reuniões se convidassem senhoras que estivessem integradas no movimento democrático em Portugal”.
Publicado na revista Macau em Abril de 1994
Foram mais de três dezenas os fundadores do CDM. Das assinaturas dos telegramas ficaram para a história os nomes de Vivaldo da Rosa, José Fernandes, Martins Dias, Dias Brito, Manuel Gomes Eusébio, Herculano Estorninho, Damião Rodrigues, Adolfo Aboim, Roçadas Ramalho, Francisco Figueira, Jorge Saraiva Parracho, José Celestino Silva Maneiras, Palmiro Augusto Estorninho, Fernando Augusto Batalha da Silva, Geraldo Maria Lopes do Rosário, Jorge Neto Valente, Valdemar Gamaral Garcia, Augusto António Catarino Salgado, Armindo Costa, António Júlio Estácio, Mário Fernandes Ribeiro, António Manuel Vieira Pinto Ferreira, Anízio Rómulo Luiz, Manuel Palha Calado, Alfredo Ghira, António Vicente Gracias, Tarcísio Luz, e Francisco Arnaldo Mendes Joaquim Silvério Guerra Mata.
Nasceu assim a primeira Associação Cívica de Macau, que assinaria depois um protocolo de cooperação com o Partido Socialista que teve uma enorme importância na resolução de questões do funcionalismo públicos antes de 1999 e que ainda hoje se mantém. O CDM é hoje a única associação de cariz política devidamente registada na RAEM.

CENSURA ACABOU A 3 DE MAIO
A “Gazeta Macaense”, que tinha Leonel Borralho como principal animador (o director era o arquitecto Pereira Chan, mas apenas para cumprir a lei de Imprensa de então que obrigava a ter um licenciado como director) apercebeu-se que “Da Junta Militar, de 7, 3 estiveram em Macau" e como de Macau, então com jogadores integrados na selecção nacional portuguesa, resolveu mandar dois telegramas ao general Spínola.
Um a saudá-lo “nesta hora histórica e quando os hoquistas macaenses se integram na selecção nacional pela primeira vez” e outro pedindo a extensão a Macau da “abolição da censura prévia, dando como fiador sua integridade jornalista General Jaime Silvério Marques”.
Coincidência ou não, nesse mesmo dia, o major Henrique Lajes Ribeiro(15), na qualidade de chefe da Repartição do Gabinete do Governador reuniu com os directores e representantes dos jornais portugueses locais para “em nome de Sua Exª o Governador, como representante da Junta de Salvação Nacional, lhe dar conhecimento de que fora abolida nesta Província, a censura à Imprensa”.
Diz o “Notícias de Macau” que foi depois apresentada “uma comissão in loco” (sic) constituída por dois militares, o capitão-tenente Catarino Salgado e o capitão Estrela Soares. Assim, só a partir de 4 de Maio de 1974, os jornais portugueses de Macau deixaram de inserir o “Visado pela Censura”. Nesse dia são abundantes as notícias de Lisboa: dá-se conta do comício do 1º de Maio e da participação de Mário Soares e Álvaro Cunhal; do regresso do exílio de Fernando Piteira Santos e Manuel Alegre; da suspensão de sete funcionários da Emissora Nacional, entre os quais o Dr Clemente Rogeiro, presidente da Direcção vitalício; a custódia militar a que ficou confinado o ex-deputado Cazal Ribeiro; a mudança do nome do Ministério das Corporações para Ministério do Trabalho “por vontade dos sindicatos” e “tendo sido ocupadas as suas instalações pelo Exército”. Que a “Província” estava, apesar de tudo, muito longe de Portugal, prova-o essa edição do “Notícias de Macau” quando insere um trabalho de António Maria Zorro, director da ANI para o Ultramar subordinado ao título “a praga do esbanjamento” em que protestava contra o dinheiro gasto pela população no Entrudo. Vinha datada de Lisboa, Abril, 23, e foi a última peça da ANI a ser publicada em Macau...
*Este texto resulta de um trabalho inicialmente publicado pela “Tribuna de Macau” por ocasião da passagem do 20.º aniversário do 25 de Abril. O texto recebeu algumas notas explicativas sobre figuras menos conhecidas dos leitores que então não estavam em Macau, até porque já passaram várias décadas dos acontecimentos.
NOTAS
1. Nos meados dos anos 80 foi director do Gabinete de Comunicação Social de Macau no tempo do consulado Almeida e Costa;
2. A existência de um deputado pelo Estado da índia que tinha sido anexado pela União Indiana nos anos 60 era uma das ficções do regime anterior em Portugal;
3. O Comendador Morais Alves foi uma importante figura de Macau, onde desempenhou variadíssimos cargos com grande competência. A sua morte foi muito sentida nas variadas comunidades de Macau, onde gozava de grande prestígio;
4. Pedro Lobo foi uma figura da comunidade macaense com relevantes serviços na área da hotelaria e turismo;
5. Francisco Figueira haveria de ficar na história da vida pública de Macau pela defesa do património que nas décadas de 70 a 90 esteve “sob fogo” dos interesses dos promotores imobiliários;
6. Pai de José Manuel Rodrigues, advogado e actual presidente da APIM;
7. António Gonçalves Rapazote, foi ministro do Interior entre 1968 e 1973, responsável directo pela PIDE. Era considerado um dos “duros” do regime;
8. O general Kaulza de Arriaga ficou conhecido pelas campanhas militares em Moçambique. Era tido como um dos duros do regime desde que em 1961 contribuiu para desmontar o fracassado golpe de Estado de 1961;
9. Em 1974 já se chamava Assembleia Legislativa, mas não tem nada a ver com a AL criada pela Estatuto Orgânico de Macau. Tinha funções meramente consultivas e era composto por vogais escolhidos pelo Governador, que presidia;
10. Engenheiro. Mais tarde foi deputado eleito na Assembleia Legislativa;
11. Pai do ex-líder do PSD e actual comentador político Marcelo Rebelo de Sousa. Foi Governador Geral em Moçambique;
12. Pai de Edmund Ho, primeiro Chefe do Executivo da RAEM. Foi o líder da comunidade chinesa de Macau durante décadas;
13. Engenheiro. Responsável durante décadas pela firma H. Rodrigues que ainda hoje tem porta aberta na Nam Van, perto do BNU;
14. Docente do ensino secundário, Graciette Batalha foi a maior investigadora do “patuá”;
15. Nos anos 90 foi secretário-adjunto para a Segurança do Governador Rocha Vieira;
Artigo da autoria de José Rocha Dinis publicado no JTM de 25-4-2012

sábado, 5 de abril de 2014

A revolução a mais de dez mil quilómetros de distância

O 25 de Abril apanhou Macau "de surpresa",  com o Governo local, a mais de dez mil quilómetros de Lisboa, a reconhecer a nova situação política em Portugal apenas quatro dias depois do golpe. Hoje coronel na reserva, Manuel Geraldes era, aos 23 anos, um jovem alferes, quando na madrugada de 25 de abril de 1974 participou na tomada dos estúdios da RTP, em Lisboa, sob o comando do capitão Teófilo da Silva Bento.  "É quase como se nos saísse a taluda: uma pessoa ter o privilégio de participar num acontecimento desses", disse Manuel Geraldes à agência Lusa em Macau, onde reside desde o final dos anos 1980.   
Palácio do Governo em 1973. Foto W.L.
Aquela que "foi uma noite especial" para Manuel Geraldes terá sido um dia normal para António Dias Azedo, então "um jovem estudante, no quinto ou sexto ano do Liceu Nacional Infante D. Henrique" de Macau. "Deve ter sido o meu pai - ele era polícia - que nos disse quando voltou do serviço", recordou António Dias Azedo, sem conseguir precisar o momento da notícia da revolução.   Mas a sua primeira reação foi de receio: "Falavam num golpe, numa revolução, depois é viemos a saber que era a revolução dos cravos, com poucas mortes."
 Advogado em Macau, António Dias Azedo estava em abril de 1974, "na fase do cabelotugal é reconhecida pelo Governo de Macau a 29 de abril de 1974, o mesmo dia em que, segundo relata a Gazeta Macaense, o arquiteto José Maneiras declamou a "liberdade" de Manuel Alegre na Assembleia Legislativa onde era vogal. "No meu país há uma palavra proibida/ Mil vezes a prenderam mil vezes cresceu/ E pulsa em nós como o pulsar da própria vida", bradou José Maneiras, jubiloso por o poema conter já "verdades do passado".    
Molhe no Porto Exterior: ao fundo o hotel Lisboa e o edifício residencial dos CTT
(de Manuel Vicente - já demolido)
Em "Macau nos Anos da Revolução Portuguesa 1974-1979", Garcia Leandro escreve que a Revolução dos Cravos apanha Macau de surpresa e deixa uma população portuguesa - europeia e macaense - dividida. "Os mais velhos, com maiores responsabilidades e interesses locais, sentiram-se quase perdidos, levantando muitas interrogações quanto ao futuro. Os mais novos aderiram rapidamente à revolução", sustenta aquele que viria a ser o primeiro governador de Macau no pós-revolução, sucedendo a Nobre de Carvalho. No seu livro, Garcia Leandro recorda a nova realidade de Macau com o fim da censura nos jornais em língua portuguesa - a chinesa nunca terá estado sob o lápis azul, segundo o autor - e a formação de movimentos associativos ligados a partidos políticos em Portugal. 
Mas para estudantes como António Dias Azedo, a Revolução dos Cravos trouxe o fim das "paradas enfadonhas" da Mocidade Portuguesa e mais alunos de Portugal para os bancos das escolas de Macau, com mais liberdade "no vestir, no estar e no pensar".  "Os rapazes começaram a fumar mais e as meninas subiram um bocado as saias. As festas duravam até à meia-noite. O pessoal e os professores começaram a ter mais barba, mais bigode, mais cabelo, não é?", atirou, entre risos.   
No 25 de Abril, António Dias Azedo tinha 16 anos, os mesmos com que Manuel Geraldes assistiu, pela televisão, a comemorações do Estado Novo, realizadas em Braga, sem saber que viria a participar na viragem do regime quase uma década depois.  "Eram umas comemorações de uma formalidade tremenda, e de pessoas velhas, mas hoje, ver a juventude participar espontaneamente nas celebrações do 25 de Abril? De facto, não pode haver melhor para nos sentirmos felizes e compensados por algum risco da nossa participação na revolução", afirmou Manuel Geraldes.  "Valeu a pena, sem dúvida", rematou. 
Artigo da agência Lusa (FV/NS/PJA) de 3.4.2014  
Baía da Praia Grande em 1973/74 com destaque para o Liceu e os hotéis Lisboa e Sintra (ainda em construção)
PS: no lado direito da homepage do blog procure pela 'etiqueta' "25 de Abril" e encontra mais 11 posts sobre o tema.

sexta-feira, 21 de fevereiro de 2014

Fevereiro 1979: reatamento relações diplomáticas

O reatar das relações diplomáticas entre Portugal e a China aconteceu há 35 anos... Quatro anos depois do 25 de Abril de 1974 e em que "Descolonizar" era um dos três "D's" da revolução dos cravos. Ao contrário do que se passou nas restantes colónias, a China não tinha interesse em que tal acontecesse. Em Setembro de 1974, em entrevista à RTP, o ministro da Coordenação Interterritorial, Almeida Santos, afirmava que "Macau é um caso especialíssimo. A China Continental sempre entendeu ser Macau um território próprio, e por isso, na agenda da ONU, Macau não figura na lista dos territórios não autónomos".  As declarações são reproduzidas no Notícias de Macau, 21/9/74, citando um despacho da agência de notícias Lusitânia.
A foto de 1993 (W.L.) retrata um restauro da Porta do Cerco que suscitou um lapso entretanto remediado.
Em vez de "A pátria honrai" foi pintado "Honrai a pátria"
Mário Soares, na qualidade de Ministro dos Negócios Estrangeiros do 1.º Governo Provisório, vai à ONU para falar de descolonização, quando recebe um pedido de audiência do embaixador da República Popular da China, que lhe solicitou não incluísse Macau no rol das colónias portuguesas, já que "do ponto de vista da China, Macau sempre fora um território chinês, não havendo pois lugar a descolonização, e que mais tarde os dois países encontrariam uma justa solução para o legado da História". As palavras são de Mário Soares durante uma conferência de imprensa no final de uma visita a Macau em 1993.
Desde a implantação da RPC, em 1949, Portugal não reconheceu o 'novo' regime, pelo que não existiam relações diplomáticas entre os dois países. E assim aconteceu durante mais 30 anos.
O processo de restabelecimento das relações diplomáticas inicia-se em Paris com a chegada do novo embaixador, Coimbra Martins, em 1975, que convida para jantar o seu homólogo chinês na capital francesa, Tseng-Tao. Segundo consta a embaixada não tinha grandes condições para receber convidados mas o embaixador mandou preparar de improviso um pato, partido do pressuposto que os chineses gostavam muito.
Estava dado o primeiro passo para o reatar das relações entre os dois países mas a mudança sucessiva de governos em Portugal fará com que as negociações se prolonguem por mais quatro anos. Em Dezembro de 1978, o Comité Central do Partido Comunista define uma nova política externa de "abertura ao mundo" e três meses depois, a 8 de Fevereiro de 1979, é assinado em Partis o documento que oficializa o reatamento das relações diplomáticas entre Lisboa e Pequim. Então e pela primeira vez na história do território, fica claramente definido que "Macau faz parte do Território chinês e será restituído à China", algo já implícito no ponto 4 do artigo 5º da Constituição Portuguesa de Abril de 1976 (e mais tarde transferido para o art.º 292.º - Estatuto de Macau): "O território de Macau, sob administração portuguesa, rege-se por estatuto adequado à sua situação especial."
Curiosidade: este selo da Libéria a assinalar a transferência de soberania em Macau
A 'troca' de embaixadores ocorre em Setembro de 1979. O acordo desse ano estabeleceu o princípio de que o estatuto do território poderia ser objecto de negociações. Duas décadas depois consumava-se a transferência de soberania cujos principais marcos foram a visita do Presidente Ramalho Eanes a Pequim, em Maio de 1985, durante a qual a parte chinesa exprimiu pela primeira vez a vontade de iniciar negociações com aquele objectivo; a assinatura da Declaração Conjunta, em Abril de 1987; e o processo de transição, que culminou com a cerimónia da transferência em 20 de Dezembro de 1999.

quarta-feira, 24 de abril de 2013

25 de Abril: o fim de uma era antiga

(...) À margem das diligências oficiais que referi a semana passada, um amplo grupo de democratas reunia-se, entretanto, no restaurante “Fat Siu Lau”, à rua da Felicidade, redigindo um telegrama emocionado por intermédio do “Jornal República” (um dos símbolos da luta republicana contra Salazar e Caetano), em jeito de carta aberta a todos os portugueses. Nele saudavam “o patriótico” movimento de 25 de Abril que pôs fim ao “período fascista”, celebrando também o facto de levarem a cabo a primeira reunião política livre dos últimos 40 anos em Macau.
Ao fim da noite, os 38 subscritores da missiva abandonavam por entre vivas e aclamações o restaurante de regresso a casa sem receio de terem cometido qualquer acto criminoso previsto e punido pelo “Código Penal”, nem serem presos pelos subordinados do agente Noronha que sob a cobertura da Polícia Judiciária dirigia de facto a “PIDE-DGS” em Macau comandando de facto, ainda que oficiosamente, os serviços de informações da PSP.
Mas, a reunião do “Fat Siu Lau”, apenas culminou um dia de conquistas democráticas. Nessa mesma tarde, o chefe de gabinete do Governador (Lajes Ribeiro), reunira no Palácio da Praia Grande os directores e representantes dos jornais, comunicando-lhes oficialmente o fim da censura. A partir desse momento os periódicos portugueses poderiam escrever livremente o que quisessem. Os jornais chineses não foram convocados pelo simples facto de nunca terem sido submetidos à censura. Lajes Ribeiro, fazia-o com agrado e genuína convicção tanto quanto posso avaliar das inúmeras conversas que com esse oficial (actualmente general reformado) pude manter bem como com pessoas de vários quadrantes políticos que com ele conviveram em diversas épocas.

Depois de numa primeira vez se ter recusado a integrar como vogal a comissão de censura, ao ser para o efeito convidado quando era ainda oficial da polícia, acabaria por se tornar presidente da mesma comissão alguns anos mais tarde por inerência do cargo, facto de que não se apercebera antes de aceitar o convite de Nobre de Carvalho para ser seu “Chefe de Gabinete”. Nem tinha que se aperceber, digo eu, tendo em conta que se vivia então num regime totalitário onde qualquer lugar, ou posto nas forças armadas, ou na função pública implicava aceitar implicitamente tudo quanto não só a lei ditava como a sua regulamentação obrigava. O discurso de Lajes Ribeiro ainda que sincero, não se traduziria em imediata liberdade já que meses depois o velho jornal “Notícias de Macau” acabaria por ser sancionado com uma coima de tal ordem por “excesso de liberdade de imprensa” que teve que encerrar portas.
San Ma Lou 1976. Foto Braun Bros
Na sequência da fundação do CDM, também as forças conservadoras locais se sentiram na necessidade de se agruparem fundando a Associação para a “Defesa dos Interesses de Macau, ADIM, liderada pelo antigo deputado à Câmara Corporativa Carlos Assumpção, forte personalidade que para além da comunidade portuguesa estendia a sua influência à sobrepujante comunidade chinesa. Ao contrário do CDM, não era a democratização da sociedade o principal objectivo da ADIM, mas sim a criação de um grupo de pressão capaz de lutar contra os receios de curto prazo de alguns sectores da população de que o processo de descolonização em curso pudesse ser de alguma forma apressadamente aplicado em Macau.
Com a formação da ADIM, ainda que exponencialmente mais conservadora do que o CDM acentuava-se a pressão no sentido da transformação das estruturas coloniais ancilosadas que Nobre de Carvalho, embora dizendo oficialmente aderir aos princípios da revolução dizia simultaneamente que “as alterações que podiam ser implementadas” não estava em condições de as fazer ele próprio.
Entretanto nos quartéis registava-se grande turbulência, reflectindo as mudanças de conceitos e de objectivos das forças armadas que punham termo à guerra do “Ultramar” e ocupavam vitoriosamente o poder político. Nesse contexto de indefinição o chefe de estado-maior (Rocha Viera) decidiu eximir-se a ser árbitro na situação local. Pediu licença militar (que foi aceite) e partiu para Lisboa a fim de verificar “in loco” quais eram os novos rumos dos ventos da política nacional. Rocha Vieira, curiosamente, mais tarde acabaria por regressar a Macau afirmando-se delegado do MFA (Movimento das Forças Armadas).
Nessa altura, no Território o comandante Salgado, Capitão dos Portos, dizia igualmente que o era antes dele e provavelmente teria razão. Porém à falta de documentos credíveis, vá lá saber-se quem era o verdadeiro delegado do “MFA” em Macau?... O que se sabe ao certo é que o comandante Salgado acabaria preso e recambiado para Portugal, enquanto Rocha Vieira regressava como secretário adjunto para as Obras Públicas do novo governador Garcia Leandro. Mas, na verdade as suas funções excediam largamente as Obras Públicas, já que na prática se perfilava como comandante operacional da pacificação do Território e da sua guarnição que se tinha esquerdizado em demasia conforme o próprio Rocha Vieira afirma. Independentemente de quem comandava oficial, ou oficiosamente o MFA em Macau a agitação social mantinha-se dentro de limites aceitáveis face aos novos tempos revolucionários que tinham surgido de supetão. Mas isto é o depois da história.
Antes Nobre de Carvalho aguardava indicações claras de Lisboa sobre qual a política a seguir e fazia saber (no limiar da sua própria reforma) que fosse qual fosse a evolução dos acontecimentos deixaria o território no final do mandato para que tinha sido nomeado, ou seja Outubro de 1974. Embora beneficiando ainda da simpatia de grande parte da população, simpatia que lhe advinha dos tempos conturbados do “1,2,3”, Nobre de Carvalho começava a tornar-se alvo cada vez mais exposto: “Grande parte da população não aceitava a sua continuação, sofrendo por isso uma grande contestação durante muitos meses”, recorda o general Garcia Leandro, que seria juntamente com o major Rebelo Gonçalves o primeiro a deslocar-se a Macau como enviado oficial do novo regime.
O próprio Nobre de Carvalho, por seu turno, ia mais longe preferindo usar o termo “revolução” a contestação: “Foi uma outra revolução, que houve, desta vez dentro da população portuguesa (chinesa não!) macaenses e outros europeus (o que quereria dizer com outros europeus?). Mas foi uma minoria que estou convencido - muitos já morreram - que no fundo se devem ter arrependido do que fizeram porque foi uma vergonha essa actuação”. Apesar destas amargas palavras, o velho general no entanto não chegaria a conhecer os verdadeiros tempos de agitação que se seguiriam em Macau após a sua resignação do cargo.
Artigo da autoria de João Guedes publicado no JTM de 3-5-2011