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segunda-feira, 14 de setembro de 2026

Troço da Rua do Hospital no início do século 19

Intitulado "Part of the Hospital Street near the Franciscan Gate - Macao. The redoubt named Nostra Senhosa Gaya on the Hill" - 'Parte da Rua do Hospital* perto da Porta Franciscana - Macau. O reduto na colina chama-se Nossa Senhora da Guia" este desenho é da autoria de John Michael Houghton (c. 1797-1874), um aspirante a oficial que serviu a bordo do HMS Discovery como parte de uma escolta naval que andou pelo sul da Ásia nos primeiros anos de 1800.
A Rua do Hospital corresponde à actual Rua Pedro Nolasco da Silva (desde 1942). A Porta Franciscana referida era uma das existentes na muralha que circundava a a chamada cidade cristã, separando o núcleo urbano do resto da península. Esta porta em concreto permitia a passagem para a zona do campo que posteriormente dava acesso, por exemplo, à fronteira terrestre com a China continental onde fica a Porta do Limite (a versão edificada pelos chineses) e que era aberta em alguns períodos para permitir a entrada de víveres em Macau.
E não foi o único desenho que Houghton fez em Macau. Desenhou ainda, por exemplo, o "Franciscan Monastery at Macao, taken from the window of the Swedish Factory", ou seja, o "Mosteiro de S. Francisco em Macau, visto da janela da Feitoria Sueca."
A passagem do navio Discovery (e de outros navios homónimos) por Macau no início do século XIX insere-se num período de forte tensão geopolítica, exploração hidrográfica e conflitos pelo comércio no Sul da China. O Discovery era um navio de levantamento hidrográfico e exploração Companhia das Índias Orientais (East India Company / EIC). Sob o comando do Capitão Daniel Ross (1780-1846) - conhecido como o "Pai da Hidrografia na Índia" - o Discovery realizou intensos levantamentos cartográficos no Mar da China Meridional, no Estreito de Malaca e ao longo da costa chinesa na primeira e segunda décadas de 1800.
Macau servia frequentemente como o porto de reabastecimento, refúgio contra tufões e ponto de apoio diplomático e logístico para a tripulação.
Em Novembro de 1807, num período de grande atrito entre o Império Qing, os britânicos e as autoridades portuguesas em Macau, o Discovery esteve envolvido na apreensão e inspecção de embarcações suspeitas ao largo das águas de Macau, gerando protestos das autoridades chinesas de Cantão devido à violação da soberania territorial e comercial chinesa.
Naquele início do século XIX a presença de navios de guerra e de exploração britânicos em Macau intensificou-se drasticamente devido às Guerras Napoleónicas. Com a invasão de Portugal por tropas francesas, a Marinha Real Britânica enviou uma frota militar para Macau com o pretexto de "proteger" o território português de um eventual ataque francês. As autoridades portuguesas de Macau e o governo Qing opuseram-se firmemente ao desembarque e à presença de navios de guerra britânicos na baía de Macau. O impasse forçou o recuo britânico após os chineses ameaçarem cortar o abastecimento de mantimentos a Macau e o comércio estrangeiro em Cantão.

segunda-feira, 13 de julho de 2026

Brasão de Armas na Porta do Cerco

Entre a ideia e a concretização do Museu Camões passaram tantas décadas que muitas peças do património arquitectónico - que pelas mais diversas razões tiveram de ser retiradas dos locais originais - foram sendo depositados em espaços como as traseiras das Ruínas de S. Paulo e a Fortaleza do Monte.
Aquando da Implantação da República em 1910 (Portugal) muitos dos símbolos monárquicos que estavam em edifícios/monumento foram retirados*. Foi o caso do escudo heráldico português que estava ao centro no topo do arco da Porta do Cerco. Tudo indica que foi removido para a Fortaleza do Monte. De uma fotografia de 1987 ali tirada identifiquei o que me parece ser o referido brasão. Tem a bordadura com os castelos e o interior preenchido com as "quinas". 
O escudo está danificado, apresentando uma fractura horizontal proeminente na rocha que pode ter ocorrido aquando da remoção e/ou transporte. A fotografia maior é do período anterior a 1910 vendo-se a bandeira da monarquia.

 

A disposição heráldica apresentada (quinas laterais na vertical e não inclinadas) foi fixada em Portugal no final do século XV (reinado de D. João II, em 1481). No entanto, o estilo da pedra, a textura e os elementos decorativos esculpidos na parte superior sugerem que se trata de uma obra produzida entre os séculos XVIII e XIX (períodos barroco e neoclássico). Ora a Porta do Cerco foi construída em 1870/71 pelo que considero a hipótese provável. Mas poderá ter tido outra origem...
* No caso da toponímia a Rua Nova Del Rei passou a denominar-se Rua Cinco de Outubro.

quarta-feira, 12 de novembro de 2025

"A colina perfumada"

Pictures and Rice paper Drawings
The first few days of my sojourn at Macao convinced me of what must be evident to a visitor at any Chinese port, the native taste for pictures and the desire of shopkeepers to gratify what they well know to be a passion too among all strangers for drawings, paintings & c. But the best specimens to be obtained at Macao are not to be taken as fair samples of the native unassisted art. At Canton, Macao and Hong Kong there has been for years so much imitation of foreign productions and not a little improvement has gradually crept over the designs of the native artists from the influence of Chinnery, an Englishman now deceased. That gentleman was for many years resident in Macao and much to his credit lent his aid in suitable suggestions and instructions to some of the Canton draughtsmen; Lamqua, for instance, known to foreigners for his portrait painting and his younger brother, Tingqua, for his sketches and miniatures. The effect of this upon the native artists of Canton may easily be guessed.
Nevertheless, genuine specimens of uneducated artists are to be found in the south, but especially at the ports farther north. The rude designs of their pencillings are such as may be seen on the commonest ware, the finest porcelain, wood engravings or wall scrolls. Although the want of perspective is a glaring blunder in all their delineations, yet, from the wood engravings in their topographies, or landscape sketches in their works on husbandry which every foreigner meets with now-a-days, it is clear that experience has taught some of them that, in describing the more distant objects, these should lessen in dimensions, as they recede from the point of view. But they have not detected that the more remote the objects become to give effect to them, the more should their outlines diminish in distinctness. (...)

Brief descriptions of Hong Kong, Canton and Macao
Any vessel bound to the port of Canton has to the delta of the Pearl River the area of which is largely occupied with isles and sandbanks This exten sive estuary forms a rough triangle measuring about 100 miles in length on each side Few rivers can be more protected than this for during the late visit of Admiral Seymour the forts along its banks amounted to thirty It is fed by large and numerous branches some of which run two and three hundred miles into the interior of the country When your ship has passed through the mouth of this wide embouchure you may if you please turn to the right to the English island of Hongkong which lies SE by E at a distance of nearly ninety five miles from Canton or to the left to the Portuguese settlement of Macao. (...)
Macao (pronounced Macow) is forty miles to the westward of Hongkong, a Portuguese settlement at precisely the same distance from Canton as Hongkong.
The position of Macao is agreeable to the English sojourner, as it has a pleasant variety of hill and dale in its little territory and is nearly surrounded with water and open to sea breezes on every side. But, apart from its having no good harbour whatever, it has the great drawback of a mongrel Portuguese society, and a low caste pig headed class of Chinese. Besides to some of the present generation of English residents in China, there can be anything but associations of a comfortable kind connected with Macao, recollecting as they must the unfriendly policy which the Portuguese on the spot pursued some sixteen or seventeen years since, and the bitterly hostile bearing which the Chinese of the settlement were encouraged to assume towards 'the red haired English'.
Macao is a peninsula not more than eight miles in circuit. It is attached to the south east point of a large island called in the Chinese tongue, Hiangshan, or as if again to delude the fancy 'the fragrant hill'.
The connecting band is a narrow isthmus which in the native topography is designated 'the stalk of a water lily.'! In 1840, a low wall stretched across this isthmus, the foundation stones of which had been laid about three hundred years ago, with the undisguised object of limiting the movements of foreigners, pedestrian or equestrian. This was the 'notorious barrier' which during the Chinese war of 1840 and 1841 was a source of great uneasiness to the Portuguese settlers of Macao, and the occasion of repeated fits of jealousy between Chinese and English.
As large numbers of the peasantry had to pass the 'barrier gates' with provisions for the mixed population at Macao, it was a frequent manœuvre with the Chinese authorities, out of revenge on the English, to stop the market supplies by closing this gate and setting over it a guard of half-starved and ravenous militia. But to leave Macao and make for Canton, your ship starts and glides by the notorious Bogue Forts threads her course through an involved network islets and mudbanks, and at last drops anchor twelve miles from Canton off the small island of Whampoo.
At Whampoo our near approach to the city of Canton is indicated by the numerous and grotesque egg boats, sampans, bumboats and other small fry of that class which are constantly ferrying between the two places, not to mention the mastheads of junks lying abreast of Canton and the flagstaffs of Chinese, British and other ensigns, which on a clear day are visible at some distance. (...) 
Excertos de "Life in China - Fourtheen Years among the Chinese" de William Charles Milne, 1857


Tradulão/Adaptação:
Quadros e Desenhos em Papel de Arroz
Os primeiros dias da minha estada em Macau convenceram-me do que deve ser evidente para um visitante em qualquer porto chinês: o gosto nativo por quadros e o desejo dos lojistas de satisfazer o que bem sabem ser também uma paixão de todos os forasteiros por desenhos, pinturas, etc. Contudo, os melhores exemplares que se podem obter em Macau não devem ser tomados como amostras justas da arte nativa não assistida.
Em Cantão, Macau e Hong Kong tem havido, durante anos, tanta imitação de produções estrangeiras, e uma melhoria não negligenciável infiltrou-se gradualmente nos desenhos dos artistas nativos por influência de Chinnery*, um inglês já falecido. Esse cavalheiro residiu em Macau durante muitos anos e, para seu grande mérito, prestou a sua ajuda através de sugestões e instruções adequadas a alguns dos artistas de Cantão; Lamqua, por exemplo, conhecido entre os estrangeiros pelos seus retratos, e o seu irmão mais novo, Tingqua, pelos seus esboços e miniaturas. O efeito disto sobre os artistas nativos de Cantão pode ser facilmente imaginado.
Não obstante, no sul, mas especialmente nos portos mais a norte, encontram-se espécimes genuínos de artistas não instruídos. Os traços rudimentares dos seus desenhos a lápis são semelhantes aos que se podem ver na louça mais comum, na porcelana mais fina, em gravuras em madeira ou em pergaminhos de parede.
Embora a falta de perspectiva seja um erro gritante em todas as suas representações, contudo, a partir das gravuras em madeira nas suas topografias, ou dos esboços de paisagens nas suas obras sobre agricultura, com que qualquer estrangeiro se depara actualmente, é claro que a experiência ensinou a alguns deles que, ao descreverem os objectos mais distantes, estes devem diminuir de dimensão à medida que se afastam do ponto de vista. Mas não detectaram que, quanto mais remotos os objetos se tornam para lhes dar efeito, mais as suas linhas de contorno devem diminuir em distinção. (...)
* Chinnery viveu em Macau entre 1827 e 1852, quando morreu
Breves Descrições de Hong Kong, Cantão e Macau
Qualquer navio com destino ao porto de Cantão tem, no delta do Rio das Pérolas, uma área largamente ocupada por ilhas e bancos de areia. Este extenso estuário forma um triângulo imperfeito com cerca de 100 milhas de comprimento em cada lado. Poucos rios podem ser mais protegidos do que este, pois durante a recente visita do Almirante Seymour, as fortalezas ao longo das suas margens ascendiam a trinta. É alimentado por grandes e numerosos afluentes, alguns dos quais se estendem por duzentas e trezentas milhas para o interior do país.
Quando o seu navio tiver passado pela boca desta ampla foz, pode, se assim o desejar, virar para a direita em direção à ilha inglesa de Hong Kong, que fica a Sudeste por Este, a uma distância de quase noventa e cinco milhas de Cantão, ou para a esquerda em direção ao estabelecimento português de Macau. (...)
Macau
Macau (pronuncia-se Macáu) fica quarenta milhas a oeste de Hong Kong, um estabelecimento português à mesma distância exacta de Cantão que Hong Kong.
A localização de Macau é agradável para o residente inglês, pois o seu pequeno território possui uma variedade aprazível de colinas e vales, estando quase totalmente rodeado por água e aberto às brisas marítimas em todas as direcções. No entanto, para além de não possuir nenhum bom porto, tem a grande desvantagem de uma sociedade portuguesa mestiça e uma classe de chineses teimosos e de baixa casta. Além disso, para alguns da actual geração de residentes ingleses na China, as associações a Macau não podem ser de natureza confortável, lembrando-se, como devem, da política hostil que os portugueses no local seguiram há cerca de dezasseis ou dezassete anos, e da postura amargamente hostil que os chineses do estabelecimento foram encorajados a assumir para com 'o inglês de cabelo vermelho'.
Macau é uma península com não mais de oito milhas de perímetro. Está ligada ao ponto sudeste de uma grande ilha chamada, na língua chinesa, Hiangshan, ou, como se para iludir novamente a fantasia, 'a colina perfumada'.
A faixa de ligação é um istmo estreito que, na topografia nativa, é designado 'o caule de um lírio-de-água'!** Em 1840, um muro estendia-se por este istmo, cujas pedras de fundação tinham sido colocadas há cerca de trezentos anos, com o objetivo não dissimulado de limitar os movimentos de estrangeiros, a pé ou a cavalo. Esta era a 'notória barreira' que, durante a guerra chinesa de 1840 e 1841, foi motivo de grande incómodo para os colonos portugueses de Macau e a causa de repetidos acessos de ciúmes entre chineses e ingleses.
Uma vez que um grande número de camponeses tinha de passar pelos 'portões da barreira' com provisões para a população mista de Macau, era uma manobra frequente das autoridades chinesas, por vingança contra os ingleses, parar os abastecimentos do mercado fechando este portão*** e colocando de guarda uma milícia faminta e voraz.
Cantão
Mas para deixar Macau e seguir para Cantão, o seu navio arranca e desliza pelas notórias Fortalezas da Boca do Tigre, abre caminho através de uma complexa rede de ilhéus e bancos de lama, e finalmente larga âncora a doze milhas de Cantão, ao largo da pequena ilha de Whampoa.
Em Whampoa, a nossa aproximação à cidade de Cantão é indicada pelos numerosos e pitorescos tancares, sampanas, barcos de provisões e outras pequenas embarcações daquela classe que estão constantemente a fazer a travessia entre os dois locais, para não mencionar os mastros dos juncos atracados ao lado de Cantão e os mastros de bandeira chineses, britânicos e de outras insígnias, que num dia claro são visíveis a alguma distância. (...)
** metáfora poética: caule de lírio-de-água; em chinês 蓮花/蓮葉 - Flor de Lótus.
*** Porta do Cerco (ver pintura acima)
Filho do missionário William Milne, William Charles Milne (1815-1863) chegou à China com apenas dois anos. A mãe morreu em 1819 e o pai em 1822. Nesse ano regressa a Inglaterra onde completa os estudos e integra como missionário a London Missionary Society que o envia para a China em 1839, tendo passado por Macau a 18 de Dezembro desse ano.  Ali vai viver até 1854. Durante esse tempo viveu largos períodos em Macau, nomeadamente entre 1840 e 1841. Apenas de ausente entre 1844 e 1846 quando está em Inglaterra e se casa.
Voltou à China com a mulher em 1846 fixando-se em Xangai. Com a morte de um delegado de Ningpo que fazia parte da comissão encarregue da tradução da Bíblia foi eleito para preencher a vaga. Finalizada a tradução do Novo Testamento, foi eleito para continuar como delegado para a tradução do Antigo Testamento, tarefa concluída em 1852. Regressou a Inglaterra por motivos de saúde mas em 1856 estava de novo na China como intérprete do consulado em Fuzhou. Com o estabelecimento da Legação Britânica em Pequim, Milne actuou como tutor de intérpretes no serviço público britânico. Viria a morrer a 15 de Maio de 1863 e foi sepultado numa área não consagrada do cemitério russo nos arredores de Pequim.
O livro foi primeiro publicado em Londres em 1857. No ano seguinte teve uma edição em francês - "La vie réelle en Chine".

domingo, 10 de agosto de 2025

Cavalos de frisa e arame farpado na Porta do Cerco

A imagem é um slide da década de 1960 e mostra cavalos de frisa e arame farpado na estrada de acesso à Porta do Cerco e a poucas dezenas de metros desta estrutura, fronteira terrestre com a China continental. Este sistema de segurança existiu desde pelo menos os anos da guerra (1937-1945) - quando a China foi invadida pelo Japão - durante os incidentes fronteiriços de Agosto de 1952 e até ao final da década de 1960, quando a Revolução Cultural provocou forte agitação social na China. Em todos os exemplos referidos Macau foi porto de abrigo para milhares de chineses que conseguiram fugir do continente chinês.

terça-feira, 10 de junho de 2025

Dia de Portugal, de Camões e das Comunidades Portuguesas

10 de Junho de 1982: carimbo da "1ª Exposição filatélica Macau e Portugal"

O Dia de Portugal, de Camões e das Comunidades Portuguesas é celebrado a 10 de Junho porque essa é a data da morte do poeta Luís Vaz de Camões em 1580. O feriado remonta a 1920. Durante o Estado Novo denominava-se "Dia de Camões, de Portugal e da Raça". A partir de 1978 passou a ser "Dia de Portugal, de Camões e das Comunidades Portuguesas".
Em Macau é desde 1923 assinalada, entre outros eventos, com uma romagem à Gruta de Camões.
1983: ano da emissão deste selo (de 1 pataca) da série Edifícios e Monumentos
Postal máximo: fotografia, selo e carimbo sobre o mesmo tema


No topo do arco da Porta do Cerco a expressão "A Pátria honrai que a Pátria vos contempla", divisa da Marinha portuguesa adoptado em 1863. 

Aspecto actual

Portaria de 20.3.1863:
«Manda Sua Majestade El-Rei declarar ao conselheiro inspector do arsenal da marinha, que sendo muito conveniente estimular por todos os modos os brios patrioticos e os nobres sentimentos, ha por bem ordenar que immediatamente faça apromtar e assentar nos navios que tenham tombadilho no vau d’este, e nos outros no ponto mais visível da tolda, a seguinte inscripção em letras de metal bem visíveis A PATRIA HONRAE QUE A PATRIA VOS CONTEMPLA».
PS: só o navio escola Sagres ainda cumpre esta portaria. 

sábado, 3 de dezembro de 2022

La Chine Ouverte

La Chine Ouverte, da autoria de Paul Émile Daurand Forgues (1813-1883), escritor e jornalista francês, é uma obra editada em Paris em 1845. O livro tem a particularidade de ser profusamente ilustrado com recurso a desenhos de Auguste Borget*, que viveu em Macau alguns meses no final da década de 1830.
As referências a Macau são sucintas já o mesmo não se pode dizer de Cantão e de, por exemplo, a descrição pormenorizada do hotel/taberna do tipo europeu que existia na zona das feitorias estrangeiras na primeira metade do século 19.
Excerto:
"Si les descriptions banales ne m'effrayaient, j'aimerais à raconter Macao ses maisons disposées en amphithéâtre, ses rues étroites en escaliers, son couvent de nonnes portugaises, sa grotte du Camoëns, ses clochers catholiques mêlés aux pavillons aériens du pays, et surtout sa jolie baie ronde sillonnée par ces barques-œufs (egg-boats), qui viennent vous prendre à l'entrée du port et vous déposent au pied des quais de granit. (...)"

"Se as descrições banais não me assustassem, gostaria de falar de Macau, das suas casas dispostas em anfiteatro, das suas ruas estreitas e íngremes, do seu convento de freiras portuguesas, da sua gruta de Camões, dos seus campanários católicos misturados com a paisagem aérea de pavilhões do país, e sobretudo a sua bonita e redonda baía pejada de tancares, que nos recolhem à entrada do porto e nos levam até ao cais granítico."

* No caso das ilustrações alusivas a Macau, temos um mercado de rua que aparenta estar localizado na então zona divisória entre Macau e a China continental, a porta do cerco, ainda na versão edificada pelos chineses; e uma cena marítima onde se mostram as pequenas embarcações denominadas tancares.

quinta-feira, 3 de novembro de 2022

Old Barrier Gate

Os desenhos que ilustram este post são da autoria de George Chinnery que os fez in loco por volta de 1836/39 e representam a antiga 'porta da barreira', vulgo Porta do Cerco cuja actual edificação remonta a 1870, posto fronteiriço entre Macau e a China continental.
"(...) Depois como os marinheiros dos navios portuguezes e os seus proprios escravos faziam repetidas correrias e insultos no territorio chinez, o que ja tinha dado logar a algumas desavenças, não se julgaram com força para reprimirem estes excessos e preferiram pedir aos mandarins chinezes que mandassem levantar uma muralha e barreira no isthmo o que elles fizeram de muito boa vontade em 1573 pois viram que por este modo voluntariamente cediamos do nosso direito a Ilha para além do mesmo isthmo. A esta muralha e barreira se poz o nome de Porta do Cerco. (...)" 
José Maria de Sousa Monteiro in Diccionario geographico das provincias e possessões portuguezas no ultramar, 1850

"(...) Muitos escravos dos portugueses de Macau fugiam a seus donos e iam praticar roubos nas povoações da ilha de Hian chan. Este facto deu motivo em 1573 á construcção da muralha e barreira do isthmo a que os nossos ficaram chamando Porta do Cerco e os chinas Kuan cháp. (...)
António Marques Pereira in As Alfândegas Chinesa de Macau, 1870

" (...) A occupação portugueza comprehendeu sempre toda a peninsula de Macau até a barreira que foi erigida no isthmo em 1573, isto é, poucos annos depois do principio d`essa occupação. É prova d isto a inscripção que se poz sobre a porta da dita barreira em caracteres chinas e que ainda lá existia em 1849. Nesse anno por motivos que não são para repetir agora mandou o governo de Macau derrùbar aquella porta mas a occupação não ha passado dali.(...)"
in Negocios externos: Documentos apresentados ás Cortes na sessão de 1888, 1888 

"(...) Na muralha havia uma porta que só devia abrir se uma vez por semana mas que se foi abrindo mais e mais até que chegou a abrir se todas as manhas. Esta porta ficou se chamando Porta do Cêrco ou do Limite Kuan chap em chinez. (...)" 
in Macau, Bento da França, 1890


"(...)In 1573 the Chinese erected a barrier wall across the isthmus which separates Macao from the island of Heang shan. (...)"  
John Francis Davies in The Chinese: a general description of China an its inhabitants, 1836

"(...) Macao is the extreme southern point of the Island of Heangshan and were it not for an isthmus which unites it to that island would itself form one about two miles in length. This isthmus or neck is threequarters of a mile in length and twenty rods broad. When the Portuguese were first allowed to settle on Macao a high party or barrier wall composed of stone and brick and extending into the sea on each side was erected by the Chinese across and nearly in the middle of this neck of land. In this wall is a gateway at which a Chinese guard is constantly kept to prevent the ingress of foreigners who are closely confined to the small spot of Macao but through this opening the Chinese themselves pass and repass the whole day it being the only means of getting to Macao on terra firma. (...)"
John Elliot Bingham in Narrative of the Expedition to China: From the Commencement of the War to its termination in 1842, Volume 1, 1843

"(...) Macao is a peninsula eight miles in circuit stretching out from a large island. The connecting piece of land is a narrow isthmus which in native topography is calle the stalk of a water lily. In 1840 a low wall stretched across this isthmus the foundation stones of which had been laid about three hundred years ago with the acknowledged object of limiting the movements of foreigners. This was the notorious barrier which during the Chinese war of 1840 was used to annoy the English. As large numbers of the peasantry had to pass the barrier gates with provisions for the mixed population at Macao, it was a frequent manœuvre with the Chinese authorities to stop the market supplies by closing the gate and setting over it a guard of half starved and ravenous soldiery. (...)"
Frederick Whymper in The Sea: Its Stirring Story of Adventure, Peril and Heroism, 1877

"(...) Across this isthmus, a wall was built from east to west from the outer bay to the head of the inner harbour and named the Barrier which marked the limit of the small territory granted to the use of the Portuguese. In the centre of this Barrier wall was a heavy gate closed in former times at night and thrown open in the morning that the Chinese could pass through in going to the city with provisions and returning by daylight but none of the Portuguese were permitted to go beyond it. On the top of the gate was a pavilion or look out and right and left the quarters of a Chinese guard. These have long since disappeared but the Barrier still stands and one may read on it the Chinese inscription cut on a stone let in the wall which states that it was built in the second year of the reign of the Emperor Wan Leih of Ta Ming or the great Ming dynasty, answering to the year 1573. (...)
William C. Hunter in Bits of Old China, 1885

quarta-feira, 2 de novembro de 2022

"We did not see a more interesting or more lovely spot along the coast of China than Macao"

Every visitor to Hong kong endeavours to make at least two excursions by steamer the one to Macao the other to the far famed Chinese city of Canton. Macao is an old Portuguese settlement upon a peninsula belonging to an island of the same name lying thirty miles south west of Hong kong.
Steamers run daily in four hours and the passage is very pleasant and mainly amidst rocky and picturesque islands. Approaching the settlement from the sea the view is delightful, and the bare mountains have a look of being sprinkled with snow. We were landed at a wooden pier, in a small and shallow harbour, and came in sedan-chairs to the Macao Hotel, commanding, from a large bow-window, looking east, a fine sea view. It was now the end of November and the climate felt like an Aruugust day at Sandown in the Isle of Wight.
The settlement dates from the year 1563 and was for many years the centre of Eastern commerce. The Portuguese do not own the peninsula. They have simply the right of residence there and there is a large Chinese population governed by Chinese law. But the town, in its present quiet and decay, is full of interest.
Starting upon our day's sight seeing in chairs borne by Chinese coolies, we first visited the cathedral where were about fifty women with black veils of silk over their heads kneeling before a large image of the Virgin, surrounded with the motto Causa nostrae laetitiae.
Passing through the new public garden and the barrack, we visited the hospital, commanding a fine airy situation, but close and uncleanly within. The poor wan fever patients (Portuguese) looked as if they would be better outside with the pure air and sunshine for the doctors.
The lighthouse, which we next visited, is the oldest on the coast of China and commands a view of the whole sea-girt town.
An old monster arch erected upon the isthmus of sand, which joins Macao to the main island, forms the barrier of Chinese territory, and is jealously guarded by Chinese soldiers.
We were next conveyed to the two most interesting spots in the settlement, Camoens Grotto and Garden, and the of the graves of the Morrisons.
The garden covers about four acres and is a charming spot for shady walks and bowers, old trees, and large rocky hillocks crowned with seats and summer houses and commanding lovely sea-views. Here the poet Camoens, the Homer of Portugal, author of the Lusiad spent the years of his exile (circa 1570) when neglected by an ungrateful country; and here appropriately has been erected a monument to his memory with three inscriptions consisting of stanzas from his own poem, lines by Bowring, a French poet, and Latin verses by Mr Davis, an American.
Close by Camoen's Garden, indeed under the shadow of its old walls, is a small English cemetery, grown with grass and weeds, where we found the tombs of Dr Robert Morrison - first Protestant missionary to China 1807-1834, author of the Chinese Dictionary and translator into Chinese of portions of the Scriptures - of his devoted wife and of his son. What would this pioneer of Chinese missions feel and say were he now to rise from his grave and behold the marvellous advance which the work he began half a century ago has made, in the up of China to missionary effort, and in the multiplication of agencies of various societies, English and American, for the evangelization of the empire. Yet, after the lapse of half a century, the work still only in its infancy and hardly more than the edge of the vast population is influenced by Christian missions.
We visited two other buildings of interest Macao, which presented strange and striking analogies, the ruin of St Paul's, once a Romish church, with a noble façade ornamented with statues saints and dragons and lions not unlike those adorning the Buddhist temple which stands about mile away, and which, unlike the church, is not a ruin but a thoroughfare of worshippers and abounding with tawdry images.
Near the Bar fort, at the entrance to the western harbour, there has been erected a new and very curious joss house, with several Buddhist altars up the hill, witness to the vitality of Chinese Buddhism triumphing over the Portuguese Romanism. In these headquarters of the Papacy for three centuries one beholds only the decay of Romanism on the hand, confronted by the vitality of Buddhism on the other.
Our day's sight-seeing in this little peninsula, which is only two miles long by half a mile wide, was crowned by the view of a gorgeous sunset from the parapet of the old church on Penha hill. We did not see a more interesting or more lovely spot along the coast of China than Macao.
Excerto de Incidents of a Journey Round the World, Rev. William Urwick, publicado no jornal The Sunday at Home - A Family Magazine for Sabbath Reading, (Londres) durante o ano de 1880. O reverendo britânico visitou Macau em 1879.
A fotografia não faz parte da edição referida; serve para ajudar o leitor a localizar alguns dos locais que o autor do texto visitou em Macau.
1. Sé Catedral 2. Baía da Praia Grande onde ficava o Macao Hotel* 3. Jardim Público (S. Francisco) 4. Fortaleza/Ermida e Farol da Guia 5. Hospital S. Januário 6. Quartel de S. Francisco, Grémio Militar e Bateria 1º de Dezembro

Tradução
Quem visitar Hong Kong deve esforçar-se para fazer pelo menos duas excursões de vapor, uma para Macau e outra para a famosa cidade chinesa de Cantão. Macau é um antigo povoado português numa península pertencente a uma ilha com o mesmo nome, situada a trinta milhas a sudoeste de Hong Kong.
Os vapores circulam diariamente numa viagem de quatro horas e o passeio é muito agradável, principalmente entre ilhas rochosas e pitorescas. Aproximando-se do assentamento pelo mar, a vista é encantadora, e as montanhas nuas parecem salpicadas de neve. Desembarcamos num cais de madeira, num porto pequeno e raso, e chegámos em cadeirinhas ao Hotel Macau, onde de uma grande janela em proa, virada para nascente, temos uma bela vista do mar. Estávamos no final de Novembro e o clima parecia um dia de agosto em Sandown, na ilha de Wight.
A povoação data do ano de 1563 e foi durante muitos anos o centro do comércio oriental. Os portugueses não são donos da península. Eles têm simplesmente o direito de residência lá e há uma grande população chinesa governada pela lei chinesa. Mas a cidade, na sua actual calma e decadência, está cheia de interesse.
Começamos o nosso dia de passeios em cadeiras transportadas por cules chineses, visitando a catedral onde estavam cerca de cinquenta mulheres com véus negros de seda sobre a cabeça ajoelhadas diante de uma grande imagem da Virgem, cercada com o lema Causa nostrae laetitiae.
Passando pelo novo jardim público e pelo quartel, visitamos o hospital, com uma localização bem arejada, mas suja por dentro. Os pobres doentes de febre pálida (portugueses) pareciam estar melhor do lado de fora com o ar puro e sol para os médicos.
O farol, que visitamos a seguir, é o mais antigo da costa da China e tem vista para toda a cidade cercada de mar.
Um antigo arco monstruoso erguido sobre o istmo de areia, que une Macau à ilha principal, forma a barreira do território chinês e é zelosamente guardado por soldados chineses.
Em seguida, fomos conduzidos aos dois lugares mais interessantes do assentamento, a Gruta e o Jardim de Camões, e as sepulturas dos Morrison.
O jardim cobre cerca de quatro hectares e é um local encantador para caminhadas com sombra e caramanchões, árvores antigas e grandes, colinas rochosas coroadas com assentos, casas de veraneio e vistas encantadoras do mar. Aqui o poeta Camões, o Homero de Portugal, autor dos Lusíadas passou os anos do seu exílio (cerca de 1570) quando  foi negligenciado por um país ingrato; e aqui apropriadamente foi erguido um monumento à sua memória com três inscrições que consistem em estrofes do seu próprio poema, versos de Bowring, um poeta francês, e versos latinos de Mr. Davis, um americano.
Perto do Jardim de Camões, na verdade sob a sombra das suas antigas muralhas, há um pequeno cemitério inglês, repleto de grama e ervas daninhas, onde encontramos os túmulos do Dr. Robert Morrison - primeiro missionário protestante na China 1807-1834, autor do Dicionário de Chinês e tradutor para chinês de parte das Escrituras - da sua devotada mulher e do seu filho. O que este pioneiro das missões chinesas sentiria e diria se ele agora levantasse do túmulo e contemplasse o maravilhoso avanço que o trabalho que ele começou há meio século fez, na ascensão da China ao esforço missionário e na multiplicação de missões de várias sociedades, inglesas e americanas, para a evangelização do império. No entanto, passado meio século, a obra ainda está apenas no começo e pouco mais do que uma pequena franja da vasta população é influenciada pelas missões cristãs.
Visitamos outros dois edifícios de interesse em Macau, que apresentavam estranhas e marcantes analogias, a ruína de São Paulo, outrora igreja romana, com uma fachada nobre ornamentada com estátuas de santos, dragões e leões, não muito diferentes das que adornam o templo budista que fica a cerca de 1 km de distância, e que, ao contrário da igreja, não é uma ruína, mas uma via de adoradores e repleta de imagens de mau gosto.
Perto do forte da Barra, à entrada do porto ocidental, foi erguido um novo e muito curioso templo, com vários altares budistas na colina, testemunhando a vitalidade do budismo chinês triunfando sobre o cristianismo português. Nestas sedes do Papado por três séculos, vê-se apenas a decadência do cristianismo por um lado, confrontado com a vitalidade do budismo por outro.
O passeio do um dia nesta pequena península, que tem apenas três quilômetros de comprimento por meia milha de largura, foi coroado com a vista de um lindo pôr do sol do parapeito da antiga igreja no morro da Penha. Não vimos local mais interessante ou mais encantador ao longo da costa da China do que Macau.
* nesta altura o hotel ainda se denominava Hing Kee Hotel

sexta-feira, 25 de março de 2022

Macau no mapa do distrito de Xiangshan: 1685

Na imagem temos um mapa do distrito de Xiangshan, incluído no "Guangdong Guangzhoufu Yutu", ou seja, Atlas da Prefeitura de Cantão. Estamos portanto perante um documento de origem chinesa. Aqui pode ver-se outro exemplo.
Trata-se de uma pintura a cores datada de 1685. O território de Macau surge identificado como Haojing Aoshan / Hau King Ou, o equivalente a Monte ou Ilha da Baía da Vieira.
Na reprodução a preto e branco destaquei a localização de Macau. Na parte superior da ilha de Xiangshan pode ver-se a cidade da capital de distrito no interior de um perímetro murado. Frente a Macau pode ver-se representado o posto militar de Qianshan, também conhecido por Casa Branca. Na península de Macau destaque ainda para a representação de edifícios de carácter civil e religioso (igrejas e templos), bem como uma porta na parte mais estreita do istmo... a Porta do Cerco.

quarta-feira, 9 de fevereiro de 2022

"Barrier Gate" por George Chinnery

Datam de 1838 estes esboços de George Chinnery (1774-1852) e onde se pode ver a estrutura primitiva da Porta do Cerco que, ao que tudo indica, seria feita de madeira e bambu. As primeiras referências a esta 'porta' feita pelos chineses remontam a meados do século 16. A actual 'porta' remonta a 1871. Algumas peças da anterior versão podem ser vistas no interior do Leal Senado (actual IAM).
Para contextualizar as imagens seleccionei um pequeno excerto escrito por Andreas Everardus van Braam Houckgeest (1739-1801), um comerciante holandês-americano que viveu em Macau e Cantão entre 1758 e 1773 - era o responsável máximo em Cantão da feitoria da Companhia Holandesa das Índias Orientais - e que regressaria no final desse século a Macau e à China integrado numa embaixada holandesa à corte chinesa.
"The city of Macao which the Chinese call Oumoun (fine port) is situated in 22 degrees 20 min of North latitude in an advantageous and agreeable position about tirthy leagues South of Canton upon the point of an island.
About half a league to the North of the city is the wall separation about the middle of which there is a gate and an edifice designed for the abode of the commandant from which there is a view on all sides. To the north of this gate there is a Chinese guard under the command of an officer or a mandarine for the purpose of preventing any Euro from going out and especially to take care left any priest or missionary should go into the Chinese territory.
This wall is regarded as a real barrier because it is the key of Macao with which the Chinese lubdue this city and compel its government to comply with their will.
Such the situation of the place that all manner of provisions must be brought into Macao from without by the Chinese: to that, the mandarins, upon the least disturbance to shut this gate and starve the city; and it has been proved by many examples that they were able to execute their threats. It is in this manner that the Chinese obtain all they please to demand or even hint at. There are more Chinese than Portuguese at present in this city. (...)"
In "Voyage de l’ambassade de la Compagnie des Indes Orientales hollandaises vers l’empereur de la Chine, dans les années 1794 et 1795. Le tout tiré du Journal d’André Everard Van Braam Houckgeest". Publicado em 1798 em francês teve ainda uma edição em inglês.

Os esboços não fazem parte da obra referida. Segue-se uma tradução que fiz do excerto...
"A cidade de Macau, que os chineses chamam de Oumoun (bom porto), está situada a 22 graus e 20 minutos de latitude norte, numa posição vantajosa e agradável a cerca de trinta léguas ao sul de Cantão, na ponta de uma ilha.
A cerca de meia légua, no lado norte da cidade está um muro de separação onde, a meio, há um portão e um edifício destinado à morada do comandante, do qual se tem uma perspectiva panorâmica. A norte deste portão há um guarda chinês sob o comando de um oficial ou um mandarim com o objectivo de impedir a saída de qualquer europeu e principalmente evitar que qualquer padre ou missionário entre no território chinês.
Esta muralha é considerada uma verdadeira barreira porque é a chave de Macau com a qual os chineses lubrificam esta cidade e obrigam o seu governo a cumprir a sua vontade.
Como todo tipo de provisões são trazidos de fora para Macau pelos chineses, os mandarins, ao menor distúrbio, fecham este portão e fazem a cidade passar fome; e já por muitas vezes exemplos que eles foram capazes de executar as ameaças. É dessa maneira que os chineses obtêm tudo o que desejam. Há mais chineses do que portugueses neste momento nesta cidade. (...)"

domingo, 17 de outubro de 2021

La Ciudad de Macao situada en una península...

Antes de llegar á Macao pasamos por la Isla de Sanchon célebre por la muerte de San Francisco Xavier. 
La Ciudad de Macao situada en una península á la desembocadura del rio Canton es solamente nombrada por el fuerte que hicieron los Portugueses para su comercio y que en breve se hizo una ciudad floreciente obtuvieron el terreno por algunos servicios hechos á los Chinos pero hoy está muy decaida de su antiguo esplendor. 
Hay allí mayor número de Chinos que de Portugueses éstos como son los mas pobres son tambien los mas de biles. Sin embargo les es permitido exercer su comercio en Canton dos veces al año.
Tienen un Gobernador y los Chinos un Mandarin del qual depende todo el pais. Los habitantes quando le piden alguna gracia van en quadrillas á su palacio el Magistrado responde por escrito en estos términos. Esta nacion bárbara y brutal me pide tal gracia y la concedo ó la niego. Los Portugueses tienen una corta guarnicion en Macao por no poder mantener allí muchas tropas. Pagan á los Chinos un tributo por el terreno de las casas y de las iglesias estas casas están construidas á la Europea pero son muy baxas. 
Sobre la lengua de tierra que une á Macao con el Continente se ha construido un muro de separacion para impedir la comunicacion de los habitantes con la China. Este muro tiene una abertura en el centro donde se mantiene una centinela continua. Algunas veces se concede licencia á los Chinos que moran en la ciudad para penetrar en el pais pero este permiso se niega casi siempre á los Portugueses. Esta puerta se abre solamente en ciertos dias para que los habitantes compren sus provisiones y los Chinos que se las venden ponen un precio arbitrario.
in El viagero universal ó Noticia del mundo antiguo y nuevo (Tomo V), de 1796. Neste volume dedicado à China surge La Description de Macao.

Tradução
Antes de chegar a Macau passamos pela Ilha de Sanchon, famosa pela morte de San Francisco Xavier. A cidade de Macau situada numa península na foz do rio Cantão só tem nome graças ao forte que os portugueses construíram para o seu comércio e que cedo se tornou uma cidade próspera. Obtiveram o terreno para alguns serviços prestados aos chineses, mas hoje está muito deteriorado e longe do antigo esplendor. Há mais chineses do que portugueses, porque são os mais pobres e são também os mais fracos. Os portugueses podem fazer negócios em Cantão duas vezes por ano. 
Têm um governador e os chineses têm um mandarim do qual todo o país depende. Quando os habitantes lhe pedem alguma graça, vão em grupos ao seu palácio, o Magistrado responde por escrito nestes termos. Esta nação bárbara e brutal me pede tal graça e eu concedo ou nego. Os portugueses têm uma pequena guarnição em Macau porque não podem manter muitas tropas. Pagam um tributo aos chineses pelo terreno, pelas casas e igrejas, que são construídas à maneira europeia, mas são muito baixas. 
Na faixa de terreno que une Macau ao Continente, foi erguido um muro de separação para impedir os habitantes de comunicarem com a China. Este muro tem uma abertura no centro onde é mantida uma sentinela contínua. Às vezes, é concedida licença aos chineses que vivem na cidade para entrar no país, mas essa permissão é quase sempre negada aos portugueses. Esta porta só se abre em certos dias para os habitantes comprarem as suas provisões e os chineses que as vendem fixam um preço arbitrário.
Mapa de meados do século 18 não incluído no livro aqui referido

sábado, 20 de fevereiro de 2021

Macau no "Giro del Mondo" de Giovanni Careri: 1ª parte

Amante de viagens, o advogado italiano Giovanni Francesco Gemelli Careri (1651-1725), depois das muitas viagens que já tinha feito pela Europa, em 1693, com 42 anos, decide partir de Nápoles para uma volta ao mundo que iria durar cinco anos e cinco meses e que seria depois relatada numa obra de seis volumes intitulada "Giro del Mondo", publicada entre 1699 e 1700, logo após o fim da viagem.
Retrato de Giovanni Careri com 48 anos incluído na edição de "Giro del Mondo" em 1699

Macau surge no volume 4 intitulado "Nella Cina" (Na China): "Fondazione del cittá di Macau e sue fortezze" e "Ritorno dell’Autore a Macao" são os capítulos.
Careri chega a Macau em Agosto de 1695 (partira de Goa, portuguesa, onde se encontrou com o vice-rei da Índia) e pouco tempo depois segue numa missão de jesuítas até Pequim tendo estado com o imperador Kangxi em Novembro desse ano. 
Regressa depois a Macau e ruma em Abril de 1696 em direcção às Filipinas num regresso a casa, a Nápoles, onde chega em Dezembro de 1698.
​Entre as muitas obras que o italiano cita destaco - no que à China diz respeito - a de ​Gabriel de Magalhães​, intitulada "​Nouvelle Relation de la Chine​" publicada em Paris em 1688 (chega a fazer longas transcrições sem as citar).​ Mas também recorreu às obras de António de Andrade e Álvaro Semedo sobre o império celeste.
Outro dado curioso da obra de Careri são as ilustrações de que não se sabe com certeza quem foi o autor (publico uma da china). 
Certo é que o seu relato de Macau - onde fica hospedado nos aposentos cedidos pelos religiosos - na última década do século 17 é riquíssimo a todos os níveis.
Aqui fica um excerto do relato de Gemelli da versão inglesa a que acrescentei uma tradução.

Of the first Foundation of the City of Macao and its Forts
I am now at length come to enter the vast Empire of China and could wish my stile and language were suitable to the greatness of the subject that I might give the curious reader such a draught and description as it deserves; but that being above my capacity, he must be forced to take up and be satisfy with my unpolish way of delivery. Therefore to begin at one of the Ports of this Empire, that is Macao, which was the first place I came to, it is to be observed, that Macao, in the Chinese language, signifies a Port and is otherwise called Amagao, a name given it from an idol so intitled which was adored in that place. 
It is feated in 141 degrees of Longitude and 22 of Latitude. On the point of an Island called Haichu, in the Province of Canton. The shape of it is like an Arm, encompased on all sides by the Sea, except where it joins to the shoulder. The ground it stands on is uneven, being hill, vale and plain. The houses are well built after the manner of Europe; the churches very fine for that country, especially that of the jesuits college which has a noble front adorned with beautiful pillars. In this church is preserved that most precious relick of St Francis Xaverius, being the bone of the arm from the shoulder to the elbow.
Next the Churches of the Augustins of St Francis, St Lawrence, the Misericordia and the Nuns are decently built and adorned.
Da Fundação da Cidade de Macau e seus Fortes 
Estou finalmente entrando no vasto Império da China e gostaria que o meu estilo e linguagem fossem adequados à grandeza do assunto para poder dar ao leitor curioso o esboço e a descrição que ele merece; mas estando isso acima de minha capacidade, ele deve ser forçado a assumir e satisfazer-se com minha forma de o fazer. Portanto, vamos começar por um dos portos deste Império, isto é, Macau, que foi o primeiro local a que vim. É de notar que Macau, na língua chinesa, significa Porto e é por outro lado denominado Amagao, um nome dado a um ídolo (deusa) que era adorado naquele lugar. 
Está localizado a 141 graus de longitude e 22 de latitude. Na ponta de uma Ilha chamada Haichu, na província de Cantão. A forma dele é como um braço, cercado por todos os lados pelo mar, excepto onde se junta ao ombro. O terreno em que se encontra é acidentado, sendo colina, vale e planície. As casas são bem construídas à maneira da Europa; as igrejas muito belas, especialmente a do Colégio dos Jesuítas que tem uma fachada nobre adornada com belos pilares. Nesta igreja está preservada a relíquia mais preciosa de São Francisco Xavier, sendo o osso do braço, do ombro ao cotovelo. Em seguida, as Igrejas dos Agostinhos de São Francisco, São Lourenço, da Misericórdia e das Freiras são decentemente construídas e adornadas.

The streets of the city are all paved because there is no want of stone. There are in it 5000 souls of Portugueses, or better, and above 15000 Chineses. It is above 110 years since this place was founded by the Portugueses, for they coming from Malaca and India, to trade with the Chineses, and being overtaken by the bad weather, some ships miserably perishd for want of a secure harbour in the islands about Macao, which made them ask for place of safety to winter in till the season would allow them to return home and the Chineses for their own advantage gave them this spot of rocky land, then inhabited by robbers, that they might expel them as they did. At first they were permitted to build thatched houses but afterwards having bribed the Mandarines they not only erected substantial structures but made forts. (1695)
One of these is at the Mouth of the Harbour called the Fort of the Bar, whose wall up wards terminates at the Rock called Penha, which is an Hermitage of the Fathers of the Order of St Augustin, on the Hill. The other being the biggest is called the Fort of the Mountain, because seated on the very top of a Hill. There is also another high Fort called Nossa Senhora da Guia or our Lady of Guidance.

As ruas da cidade são todas pavimentadas porque não há falta de pedra. Nele estão 5.000 almas de portugueses, ou mais, e acima de 15.000 chineses. Passaram mais de 110 anos desde que este local foi fundado pelos portugueses, vindos de Malaca e da Índia, para fazer comércio com os chineses, e sendo atingidos ​​pelo mau tempo, alguns navios naufragaram miseravelmente por falta de porto seguro nas ilhas vizinhas de Macau, o que os fez pedir um lugar seguro para o inverno até a estação permitir-lhes voltar para casa e os chineses para seu próprio proveito, deram-lhes este pedaço de terreno rochoso, então habitado por ladrões, para que os expulsassem como o fizeram. No início, eles tiveram permissão para construir casas de palha, mas depois, tendo subornado os mandarins, não apenas ergueram estruturas substanciais, como também construíram fortes. Um delas encontra-se na Foz do Porto denominado Forte da Barra, cuja muralha saliente termina na Colina da Penha, onde está uma Ermida dos padres da Ordem de Santo Agostinho. O outro, sendo o maior, chama-se Forte do Monte, por estar situado no topo de uma colina. Existe também um outro forte, num ponto elevado, denominado Nossa Senhora da Guia.

Edição original em italiano da obra "Giro del Mondo"

Philip Ferrarius was much mistaken when in his Geographical Dictionary he said that this City had belonged to the King of Portugal and that in the year 1668 it was taken by the Emperor of China and made Subject to his Dominion; for from its first Foundation it never suffered any Revolution, being a Colony of Portugueses by antient Grant of the Emperor to whom they pay, not only a yearly tribute, but Custom for goods and a duty upon every vessel proportionable to its bulk, tho it be not loaded; after the same manner as those of the Moors and English do, nor can any boat go in or out, without eave from the Chineses who guard the mouth of the harbour.
This little rocky enclosure of three miles has not provisions to subsist a day but all is brought to it from the towns of the Chineses who have hut up the Portugueses as it were in a prison having secured that, narrow Neck of Land which lies between the main Sea, and little Arm of it next the Continent with a Wall and Gate, which they lock up when they please, and starve the inhabitants as often as they will; the Country of China is so plentiful that the value of a piece of eight in bread (which is the best in the World) will keep a Man half a Year.

Filipe Ferrarius* enganou-se muito quando disse no seu Geographical Dictionary que esta cidade tinha pertencido ao Rei de Portugal e que no ano de 1668 foi tomada pelo Imperador da China e submetida ao seu domínio; pois desde a sua primeira fundação nunca sofreu qualquer revolução, sendo uma colónia dos portugueses por antiga outorga do imperador a quem pagam, não só um tributo anual, mas alfandegário pelas mercadorias e uma taxa sobre cada embarcação proporcional ao seu volume; da mesma maneira que os mouros e ingleses, não pode entrar ou sair qualquer barco, sem o consentimento dos chineses que guardam a foz do porto. 
Este pequeno recinto rochoso de três milhas não tem provisões para subsistir um dia, mas tudo é trazido das cidades dos chineses que abrigaram os portugueses como se estivessem numa prisão tendo assegurado aquele estreito pescoço de terra que fica entre o mar principal e o seu pequeno braço próximo ao continente, com uma muralha e um portão**, que eles trancam quando querem, e deixam os habitantes famintos tão frequentemente quanto eles desejam; o país da China é tão abundante que o valor de um pedaço de pão de oito (que é o melhor do mundo) manterá um homem alimentado meio ano.

The Chineses allow the Portuguese the Government of the City of Macao as far as relates to the administration of Justice and for this privilege they pay a yearly imposition of 600 Taels, each of which is worth fifteen Carlines of Naples, which is about a Noble Sterling. Besides the Customs received by a Mandarine, whom they call Opu, and the duty, as was said before, upon every vessel proportionable to its bulk, the least of which pays no less than 1000 Taels, that is, so many nobles. The city chooses a Judge or supreme Magistrate, who has the management of civil and criminal affairs. (...)
The political government is in a General appointed by the King of Portugal and the spiritual in a Bishop. All these Officers and Commanders are maintained by the City which allows the Captain General a piece of eight a day and 3000 every three years; 500 to the Bishop, 150 to the Captains and proportionably to the Soldiers; (...)
All the income and revenue of the city and inhabitants of Macao depends upon the uncertainty of the sea. (...)
When the Trade of Japan flourished this city was so rich that it could have paved the streets with silver but after the slaughter of so many christians the trade of Nangasache was quite lost to the Portugueses it being death for any of them to be seen in that Port. Thus for want of that trade the inhabitants of Macao are fallen into that poverty they now labour under, having but five ships left of their own to maintain all the city and these do not bring home returns of 300 per cent as Japan afforded. (...)

Os chineses autorizam os portugueses ao Governo da Cidade de Macau no que se refere à administração da Justiça e por este privilégio pagam uma renda anual de 600 taéis, o que equivale a quinze Carlines de Nápoles, o que corresponde a cerca de uma Esterlina Nobre. Além dos direitos alfandegários arrecadados por um Mandarim, a quem chamam de Opu, e o imposto, como foi dito antes,  pago por cada navio proporcional ao seu volume, o menor dos quais não paga menos que 1000 taéis, ou seja, tantos nobres. A cidade escolhe um juiz ou magistrado supremo, que tem a gestão dos assuntos civis e criminais. (...) O governo político está num Capitão-Geral nomeado pelo Rei de Portugal e o espiritual num Bispo. Todos esses Oficiais e Comandantes são mantidos pelo Senado, o que permite ao Capitão-Geral receber uma peça de oito por dia e 3.000 a cada três anos; 500 para o Bispo, 150 para os Capitães e, nas devidas proporções para os Soldados; (...) Todas as receitas e proveitos da cidade e dos  habitantes de Macau dependem da incerteza do mar. (...) Quando o comércio do Japão floresceu, esta cidade era tão rica que podiam ter pavimentado as ruas com prata, mas após a matança de tantos cristãos, o comércio de Nagasaki foi completamente perdido. Assim, por falta desse comércio, os habitantes de Macau caíram na pobreza, tendo agora apenas cinco navios próprios para manter toda a cidade e estes não trazem para casa os rendimentos com lucros de 300 por cento como o comércio com o Japão permitiu. (...)

* Trata-se do monge italiano Phillippus Ferrarius que em 1605 publicou na cidade suíça de Zurique a obra "Epitome Geographicus in Quattuor Libros Divisum". 
** Porta do Cerco.
continua...

sábado, 6 de fevereiro de 2021

Datas no Arco da Porta do Cerco

A primeira Porta do Limite ou Porta do Cerco remonta ao século 16, mas a mais conhecida, porque ainda hoje existe, foi construída na segunda metade do séc. 19.
Dedicado à memória do Governador João Maria Ferreira do Amaral, bem como à tomada do forte de Passaleão por Vicente Nicolau de Mesquita, no Arco da Porta do Cerco encontram-se quatro lápides, duas no exterior e outras duas no interior. As duas primeiras evocam as datas do assassinato de Ferreira do Amaral - 22 de Agosto de 1849 - e a tomada do forte de Passaleão - 25 de Agosto de 1849. Nas outras duas encontram-se gravadas as datas de 22 de Agosto de 1870 e 31 de Outubro de 1871, respectivamente, a data do início da construção e a data da inauguração.
Na década 1980
O Brasão que entretanto 'desapareceu'
Séc. 21 

No topo está gravado o lema da marinha portuguesa: 
Excerto do Boletim da Província de Macau e Timor, 31.5.1873
"Arco das Portas do Cerco. Obra construida segundo o plano que achamos delineado tendo sido inaugurado o seu acabamento por ordem do governo da colonia no dia 31 de outubro anniversario natalicio de Sua Magestade Fidelissima El Rei o sr D Luiz I. Este arco construido no caminho principal que de Macau segue a varias povoações chinas é dedicado à memoria do benemerito ex governador João Maria Ferreira do Amaral e á tomada do forte de Passaleão conforme se acha publicado no Boletim Official do governo nº 44 de 30 do referido mez (1871)".

quarta-feira, 24 de junho de 2020

A última bandeira da porta do Cerco

Esta foi a última bandeira de portugal a ser hasteada na Porto do Cerco, fronteira terrestre com a China, em Dezembro de 1999. 

Dimensões: 128 cm x 204 cm. Faz parte do espólio do Museu de Macau. 
Seria substituída pela bandeira da República Popular da China e pela bandeira da RAEM. 

domingo, 19 de abril de 2020

The Directory & Chronicle for China... 1904

Para o posto de hoje seleccionei um pequeno texto publicado num jornal impresso na China nos primeiros anos do século 20 com um 'retrato' resumido do que era o território...
Macao is situated in 22 deg 11 min 30 sec N latitude and 113 deg 32 min 30 sec E longitude on a rocky peninsula renowned long before the Portuguese settled on it for it safe harbour for junks and small vessels. The Portuguese who had already settled on the island of Lampacao and frequented for trading purposes Chin chew Lianpo Tamao and San choan St John's Island where Francis Xavier the celebrate missionary died, first took up their residence at Macao in 1557. 
Shortly after their arrival pirates and adventurers from the neighbouring islands commenced to molest them. The Chinese authorities were powerless to cope with these marauders who went so far as to blockade the port of Canton. The Portuguese manned and armed a few vessels and succeeded in raising the blockade of Canton and clearing the seas. The town of Macao soon afterwards began to rise and during the eighteenth century trade flourished there the difficulty of residence at Canton greatly contributing towards it.
The East India Company and the Dutch Compan festablishments in Macao. Historians are divided in opinion as to whether the possession of Macao by the Portuguese was originally due to Imperial bounty or to conquest. There can be no doubt however that it was held at a rental of 500 taels a year until Governor Ferreira do Amaral in 1848 refused to pay the rental any longer and forcibly drove out the Chinese Custom house and with it every vestige of Chinese authority. This bold stroke cost him his life on 22nd August 1849 for he was waylaid and barbarously murdered near the Barrier of Porta Cerco and his head was taken to Canton. The sovereignty of Portugal over the peninsula was however formally recognised by China in the Treaty signed with Portugal in 1887. The colony is separated from the large island of Heang shan by an arch built in the year 1870 at the end of the narrow connecting sandy isthmus.

Two principal ranges of hills one running from south to north the other from east to west may be considered as forming an angle the base of which leans upon the river or anchorin place. The public and private buildings a cathedral and several churches are rais on the declivities skirts and heights of hillocks. On the lofty mount eastward called Charil is a fort enclosing the hermitage of Na Sra de Guia and westward is Lillau on the top of which stands the hermitage of Na Sra da Penha entering a wide semicircular bay which faces the east on the right hand stands the fort San Francisco and on the left that of N Sra de Bom Parto.
Seen from the roads or from any of the forts crowning the several low hills Macao is extremely picturesque. The public and private buildings are gaily painted and the streets kept very clean In the town there are several places of interest apart from the fan tan or gambling saloons. The Gardens and Grotto of Camóes once the resort of the celebra poet Camóes are worth seeing as also the noble façade of the ancient Jesuit church of San Paulo burnt in 1835 and the Avenida Vasco da Gama.
The Cathedral is a large plain structure having no architectural pretensions and the various parish churches are stucco edifices ugly without and tawdry within. Pleasant excursions can be made to the Hot Springs of Yô mak about sixteen miles from Macao accessible by steam launch. In winter snipe are to be found in the neighbourhood and afford good sport. 
After the cession of Hongkong to the British the trade of Macao declined rapidly and the coolie traffic subsequently developed there gave it a certain notoriety. This traffic pregnant with abuses was abolished in 1874. Tea continues to be an article of export also fire crackers tobacco and preserves essential oils are also export to some extent. There is likewise some trade in opium, silk filature brick and cement works and other factories have also been established.


The commercial activity of the place however so far as the Portuguese are concerned is a thing of the past is still a fair native trade carried on the value of which according to the Chinese Customs returns from Lappa in 1902 reached Tls 16,898,378 as compared with Tls 14,606,412 in 1901. As the harbour is fast silting up however most of the native trade will soon desert the place unless efficient dredging operations are inaugurated.
Some work has recently been done in this direction but the operations have been on a small scale. The Home Government have however approved of an extensive scheme for the improvements of the harbour but full details up to the time of publication have not been announced.
Owing to its being open to the south west breezes and the quietude always prevailing Macao has become a frequent retreat of invalids and business men from Hongkong and other neighbouring ports conducted hotels the Boa Vista, the Macao Hotel and the Hotel Internacional.
The Hongkong Canton and Macao Steamboat Company runs a daily steamer, sundays except between Macao and Hongkong leaving the former port at 8'o clock am and Hongkong at 2 pm. Another company runs a regular steamer daily between Hongkong and Macao. Between Macao and & Canton there is a daily steam service, sundays excepted. The distance from Macao to Hongkong is 40 miles and to Canton 88 miles. Macao is connected with Hongkong by telegraph. 
The population of Macao with its dependencies of Taipa and Colouan according to returns made in 1896 was Chinese 74,568 Portuguese 3,898 other nationalities 161 or a total of 78,627. Of the Portuguese 3,106 were natives of Macao, 615 natives of Portugal and 177 natives of other Portuguese possessions. Of the foreigners 80 were natives of Great Britain. In November 1901 an Envoy Extraordinary arrived from Portugal his mission being to arrange with the Chinese Government for a delimitation of the boundary of the Colony. The line of demarcation submitted by the Envoy included certain islands which the Chinese Government refused to acknowledge as being part of the Portuguese colony and the Envoy while not successful in gaining this point secured a concession for a railway from Macao to Canton. Since the Boxer trouble Macao has been garrisoned with European Portuguese troops.
in The Directory & Chronicle for China, Japan, Corea, Indo-China, Straits... 1904.