sábado, 29 de fevereiro de 2020

Manoel Tavares Bocarro Afez a 1627

Inscrições usadas em alguns dos canhões fundidos por Manoel Tavares Bocarro em Macau incluindo o brasão de armas de Macau, "Da Cidade do Nome de Deus Da China".
Antes da inscrição acima tb era usual surgir a expressão: "Por ordem do capitão geral de Macao".
A reprodução acima é do Museu de Macau localizado na antiga Fortaleza do Monte (foto em baixo) onde existem vários exemplares de canhões.


Existem pelo menos 4 canhões feitos por Bocarro nos museus de artilharia da Grã-Bretanha. No Rotunda Museum, em Woolwich, um denomina-se St. Anthony (Santo António) e o outro St. Michael (S.Miguel). Mais canhões podem ser encontrados na London Tower e em Fort Nelson (St. Lawrence e St. Ildefonso). São provenientes de Cantão na China. A razão é simples. Conhecedores do quanto os chineses apreciavam as qualidades das armas portuguesa, em 1717, o Senado de Macau decidiu oferecer ao imperador da China, através do vice-rei do cantão, dois canhões que estavam da fortaleza de São Tiago da Barra. Uma lista de canhões nesta fortaleza incluía os canhões S. Lourenço e S. Ildefonso. Portanto, alguns dos canhões que estão no Reino Unido muito provavelmente são alguns das oferendas de 1717. Outros serão fruto dos saques registados nas várias tentativas holandesas de conquistar Macau. Na descrição de um navio português de Macau, tomado pelos holandeses em 1637, havia um canhão com o nome de São Lourenço.
Informações adicionais em: C.R. Boxer, 'Expedições militares portuguesas em auxíilio dos Mings contra os Manchus (1621-44), in Boletim Eclesiástico da Diocese de Macau, Março de 1940.

There are at least 4 cannons made by Bocarro at Great Britain artillery museums. At Rotunda Museum, in Woolwich, one is named St. Anthony  (Santo António) and the other is named St. Michael (S.Miguel). More cannons can be found in London Tower and in Fort Nelson  (St. Lawrence and St. Ildefonso)

They came from Canton in China. The reason is simple. It can be explained by the Chinese liking for qualities of the Portuguese designed guns. In 1717 the Macao Council (Senado/Senate) agreed to present the Emperor of China, through the Viceroy of Canton, with two cannon from the fortress of St. Tiago da Barra. A list of cannon in this fortress included two named St. Lawrence and St. Ildefonso. Therefore, most probably this cannons are from the 1717 gifts. However, Portuguese cannon often bore these saints' names and there were earlier consignments of guns to the Ming Emperors between 1627 and 1644. In the description of a Portuguese ship from Macao taken by the Dutch in 1637 was a cannon with the name of St Lawrence. 
More info: C.R. Boxer, 'Expedições militares portuguesas em auxíilio dos Mings contra os Manchus (1621-44), in Boletim Eclesiástico da Diocese de Macau, Março de 1940.





sexta-feira, 28 de fevereiro de 2020

法文字漢 / Arte China (1829) de J. A. Gonçalves

Arte china constante de alphabeto e grammatica comprehendendo modelos das differentes composiçoens composta por J. A. Gonçalves Sacerdote da Congregação da Missão - Impressa com licença regia no Real Collegio de S. Jose - Macao - Anno de 1829
Trata-se de uma obra fundamental para o ensino-aprendizagem do chinês no Macau de inícios do século XIX, da autoria de Joaquim Affonso Gonçalves, que explica no prólogo o seu método:
Sendo o meu intento dar ao Estudante da Lingua China todos os meios, para entrar no seu conhecimento, e pratica, tanto na falla, como na escrita; foi-me necessario fazer tres differentes volumes que devem andar juntos, por fazer hum todo combinado, e necessario: combinado, para não engrossar os volumes: necessario; porque ficão as suas partes dependentes, e o Estudante nam obtera o seu fim sem a posse de todas ellas: assim he, que a Arte he necessaria tanto por ensinar a ler, traduzir, e compor, como por dar ideas, que facilitam o uso, e intelligencia dos Diccionarios: o Diccionario China-Portuguez he necessario ao Portuguez-China para a pronuncia, e uso das letras neste indicadas.
Já depois da sua morte (1841) foi publicado este pequeno texto que resume a sua vida.
Presbytero da Congregação da Missão, e Professor no collegio de S. Joseph de Macau, onde passou os ultimos trinta annos de sua vida. Além dos conhecimentos que possuia na Theologia e Mathematica, e na arte da Musica, foi tido por habil mestre, não só das linguas europeas, mas do intrincado e difficilimo idioma chinez, a cujo estudo se applicára ex professo, com incansavel trabalho, em beneficio das missões do seu instituto. Da sciencia que adquiriu por este estudo deu provas exuberantes nas obras que escreveu, e que vão descriptas no presente artigo. Foi Membro da Real Sociedade Asiatica, e eleito Socio Correspondente da Academia R. das Sciencias de Lisboa, em 18 de Novembro de 1840, cujo diploma não chegou a receber, bem como o de Cavalleiro da Ordem de N. S. da Conceição de Villa-viçosa, que o Governo lhe conferira em attenção ao seu merecimento. – Foi natural do Tojal, no concelho de Serva, da provincia de Traz-os-montes, e m. no sobredito collegio de Macau, de febre maligna, a 3 de Outubro de 1841. – A sua necrologia sahiu no Diario do Governo, n.º 20, de 24 de Janeiro de 1842
Jean-Pierre Abel-Rémusat, o fundador da Escola de Sinologia francesa, escreveu sobre o seguinte no Journal des Savans, em Setembro de 1831, colocando-o a par de precursores como Robert Morrison (1782-1834), o primeiro missionário protestante na China:
Le P. Gonçalvez, prêtre de la congrégation de Macao, et auteur du second ouvrage dont nous avons inscrit le titre au commencement de cet article [a primeira é a Notitia linguae sinicae, manuscrito de Prémare de 1828, editado em 1831], s’ est proposé le même objet en publiant en portugais son Arte china.
Pour donner aux étudians tous les moyens d’ entrer dans la connoissance pratique de la langue chinoise tant parlée qu’ écrite, il a cru nécessaire de composer trois différens volumes qui feront suite l’ un à l’ autre; une grammaire, un dictionnaire chinois-portugais, et un dictionnaire portugais-chinois (...) il seroit injuste de n’ y pas reconnoître l’ oeuvre d’ un littérateur très-versé dans le sujet qu’ il traite, bien qu’ on ait lieu de penser qu’ il ignore absolument l’ existence de tout travail antérieur relatif à ce sujet; et l’ on doit avouer que son premier volume, qui sera vraisemblablement suivi des deux autres qu’ il annonce, suffit pour lui assurer une place honorable à côté de Varo, de Prémare, et des docteurs Marsleman et Morrison. (...)
Biografia
Joaquim Afonso Gonçalves (1781-1834) nasceu em Cerva (Tojal - Trás-os-Montes) a 23 de Março de 1781. Entrou no Seminário de Rilhafoles, Lisboa a 17 de Maio de 1799 e tomou os votos em 18 de Maio de 1801. Partiu de Lisboa em 1812 com o objectivo de fundar o Observatório Astronómico de Pequim. chegada a Macau a 28 de Junho de 1813, e devido à conjuntura politica na corte imperial, não pode prosseguir, permanecendo no território (lazarista).
Entrando no Real Colégio de São José, destinado somente para alunos chinas, visto não haver nenhuma escola pública que desse continuidade ao ensino, e onde apenas falavam  um mau português, o padre Joaquim contribuiu para que se abrisse o ensino gratuito a toda mocidade. No colégio ensinou as gramáticas, portuguesa, latina, francesa e inglesa, retórica, lógica e teologia para os eclesiásticos; aritmética, álgebra e geometria, com vantagem para os que se destinavam à arte da navegação. Dominando as duas línguas, ensinava português aos chineses e chinês aos portugueses.
Foi membro da Real Sociedade Asiática de Calcutá, da Academia de Ciências de Lisboa e também Cavaleiro da Ordem de Nossa Senhora da Conceição de Vila Viçosa. 
Morreu em 1841 sendo o seu corpo sepultado no cemitério de S. Paulo e depois transladado para um túmulo na Igreja de S. José, que ostenta um epitáfio latino: 
tradução: “A Deus Óptimo e Máximo. Aqui Jaz o Reverendo Sr. Joaquim Afonso Gonçalves, Português, Sacerdote da Congregação da Missão, exímio professor Real Colégio de São José, membro estrangeiro da Real Sociedade Asiática. Solicito pelo bem das missões chinesas, compôs e publicou obras muito úteis nas línguas sínica, latina e portuguesa; foi de costumes irrepreensíveis e exímios pela doutrina, sendo de vida ilibada; cheio de dias, descansou no Senhor, em 3 de Outubro de 1841, aos 60 anos de idade. Os seus amigos e discípulos dedicaram esta lápide em memória de tão ilustre Varão”.
Obras publicadas:
- Grammatica Latina Ad Usum Juvenum, 1828
- Arte China Constante Alphabeto e Grammática, 1829
- Diccionario Portuguez-China No estilo vulgar Mandarim e Classico Geral, 1831
- Diccionario China-Portuguez, 1833
- Vocabularium Latino-Sinicum, 1837
- Lexicon Manuale Latino-Sinicum, 1839
- Lexicon Magnum Latino-Sinicum, 1841
- Versão do Novo Testamento em Língua China

quinta-feira, 27 de fevereiro de 2020

Escola Cantorum

Foto de 1933 frente à igreja de S. Lourenço. Agradecimentos: Jorge Robarts
A ‘Schola Cantorum’ funcionava na Igreja de São Lourenço sob a orientação do padre açoriano Mateus das Neves.

quarta-feira, 26 de fevereiro de 2020

"Espirou o Carnaval": 1869

Espirou o carnaval. Com a chegada das temporas desappareceu no silencio o borborinho do entrudo, d'esta festa que permitte até que os homens de juiso corram durante tres dias como doidos um para outro lado. O theatro de D Pedro V não foi indifferente como suppunha ás influencias carnavalescas suas portas abriram se na terça feira e os seus salões receberam o bom tom da cidade. A iniciativa de um socio provou que tudo se consegue quando ha boa vontade e decisăo. A subscripção promovida por cavalheiro na vespera do baile foi acolhida com tal enthusiasmo que foi maravilhosa surpresa presenciar o alegre e animado baile de mascaras que teve lugar este anno no club portuguez de Macau.
Boletim da Província de Macao e Timor, 15 Fevereiro 1869

terça-feira, 25 de fevereiro de 2020

Inauguração da Estrada Macau-Shekki (1928)

No início da década de 1920 após o final da primeira guerra mundial e a implantação dos regimes republicanos em Portugal e na China no início da década anterior, a vida social e política nos dois países acalmou o suficiente para os dirigentes políticos pensarem em incrementar as relações económicas. De uma forma simples é este o contexto que introduzo post de hoje...
A 18 de Maio de 1928 foi inaugurada uma estrada entre Macau e a cidade chinesa de Seak Kei / Shekki, no distrito de Chung Shan/Zongshan, através da Porta do Cerco. O feito mereceu destaque na imprensa da época, e não foi somente em Macau. 
O The straits Times de 21 de Março refere-se à obra poucos dias antes da inauguração que ocorreu ainda com a estrada por terminar. A infraestrutura ligava as duas cidades que distavam entre si cerca de 30 milhas uma distância que demorava entre 12 a 24 horas a ser percorrida. Com a nova estrada a ligação de carro passava a fazer-se em pouco mais de 2,5 horas.
Na inauguração estiveram presentes o governador de Hong Kong, sir Cecil Clementi, o governador de Macau, Artur Tamagnini Barbosa e altas individualidades chinesas.
Aspecto da estrada já do lado da China, perto da Porta do Cerco
Logo em 1929 Jaime do Inso escreve sobre a importância desta obra para Macau.
"(...) de todas as medidas para ressurgimento ultimamente levadas a efeito, a mais importante e que servirá talvez para marcar como que uma nova era na vida de Macau, foi a abertura da estrada para Seac-Ki, cuja inauguração se efectuou em 18 de Março de 1928, com grande pompa e regozijo do povo chinês.
Há mais de trezentos anos que Macau vivia como que isolada da china por uma muralha na provisoria fronteira terrestre. Para além das Portas do Cerco, no istmo da península, ficava a «terra China», agreste e mal servida por uma estrada primitiva, estreito caminho lageado a serpentear por entre um vasto cemitério chinês, onde tudo éra mistério e, por vezes, perigo. Quando chegamos à colónia, vai para três anos, a nossa guarda de landins quasi que vivia num alerta constante! Do outro lado das portas do Cerco, a algumas dezenas de metros de distancia, os celebres «piquetes», em barracas sórdidas, cobravam impostos a seu belo prazer e de vez em quando, despertavam as sentinelas com tiros isolados.
Hoje, tudo isso acabou; e, em lugar daquele aspecto de pé de guerra, vê-se uma magníficas estrada por onde se caminha livremente, e os nossos africanos, o maior trabalho que têm, é a contagem paciente das pessoas que entram e saem pelas celebres portas. (...)"
A cidade de Shekki na época da inauguração da estrada

segunda-feira, 24 de fevereiro de 2020

domingo, 23 de fevereiro de 2020

O Carnaval na década 1930

"Tudo isto ficou, em breve esquecido com as festas de Carnaval, talvez as mais brilhantes e as mais animadas da década dos 30. Duas semanas antes do Sábado Gordo (10 de Fevereiro), realizaram-se os mais famosos “assaltos” da quadra, com tunas – eram três – a percorrer as ruas do velho burgo macaense. Os “assaltos” de que nos lembramos foram às residências de Abílio Basto, de Edmundo de Senna Fernandes, de Júlio Eugénio da Silva, da família Remédios, que vivia na casa onde reside hoje o Meretíssimo Juíz da Comarca. Também não esquecemos os “assaltos” à residência do Prof. Fernando de Lara Reis e a de António Ferreira Batalha.

Éramos garotos, mas recordamo-nos de tudo, da esfusiante alegria, das tunas a tocar continuamente, das brincadeiras carnavalescas, das máscaras falando o patois e dos pares, muitos pares a dançar fox-trots, blues, quick-steps, valsas e marchas portuguesas, até alta madrugada.
A direcção do Clube de Macau decidira, nesse ano, ornamentar o salão de baile com motivos regionais portugueses. Um mês antes, ensaiou-se a garotada para se exibir na matinée de Domingo, com danças folclóricas nacionais. Adultos entusiasmados também quiseram aprender e formavam grupos à parte. Em todas as bocas se cantaram “Ora bate Padeirinha, ora põe o pé no chão” e “Rapazes, vamos ao vira, ai, que o vira é coisa boa”.
O Carnaval de 1934 iniciou-se com a soirée mas-quée, o baile tradicional do Clube de Macau. Houve muito poucos trajes carnavalescos, mas imensas casacas, smokings e jaquetinhas de cavalheiros e lindos evenings de senhoras. Madame Lebon, para tal acontecimento, fizera uma pequena fortuna. Todo este rigor e cerimonial era por causa da presença do Governador. Mais animado e popular, foi o baile que nessa mesma ocasião, se realizava no Clube de Sargentos, como era conhecido o Clube Recreativo 1° de Junho, onde não havia preocupações de protocolo e onde se estava mais à vontade. Tão divertida foi a festa do Clube de Sargentos que os sócios do Clube de Macau, mal terminaram a ceia, partiram para aquele Clube.
O Domingo Gordo, realizaram-se as matinées para os filhos dos sócios do Clube de Macau e do Clube de Sargentos. À noite, foi o baile na União Recreativa, com exibição das tunas e centenas de mascarados. Na Segunda, foi a vez do baile tradicional do Grémio Militar, mas também muito protocolar, nas primeiras horas, mas animadíssimo, depois da ceia. Na Terça-Feira, a rematar de novo, no Clube de Macau e no Clube de Sargentos, ambas as festas divertidíssimas, esquecendo-se todos que no dia seguinte era dia de trabalho e Quarta-Feira de Cinzas.
Outro acontecimento que merece menção nessa longínqua Primavera, foi a soirée-cotillon, realizada pelas alturas do “Micareme”, no belo edifício da União Recreativa, à Areia Preta. Foi o último baile no seu género, em Macau. Ali se marcou a quadrilha, com rigor palaciano, bailaram-se os “lanceiros” e as “polcas” dos tempos idos e exibiram-se outras danças próprias dum cotillon.”

Henrique de Senna Fernandes

sexta-feira, 21 de fevereiro de 2020

Information for passengers...


Esta brochura do início da década de 1920 era oferecida aos passageiros da Canadian Pacific e servia como guia para os mesmos nos portos de escala dos navios a vapor da empresa canadiana. Macau não era porto de escala mas surge na brochura por ser um ponto de passagem quase obrigatório para os viajantes que faziam escala em Hong Kong durante vários dias. A curta distância (40 milhas) entre Macau e Hong Kong - a viagem de barco demorava cerca de 4 horas - e a pequena dimensão de Macau, faziam com que os turistas pudessem visitar o território em apenas um dia.
"Is a picturesque Portuguese colony, with interesting ruins, temples, churches and factories of opium, tobbaco and firecrackers"... pode ler-se na brochura que destaca como locais a visitar as ruínas de S. Paulo, o jardim e a gruta de Camões, as fábricas de ópio "situadas na Praia Grande" e as casas de jogo. Macau é apelidado como "Monte Carlo do Extremo-Oriente" onde as casas de jogo de fantan "estão abertas de noite e de dia e são de facto interessantes". O "New Macao Hotel" é o único estabelecimento hoteleiro referido.

As informações prestadas sobre Macau são bastante sucintas: 85 mil habitantes, preços dos jirinxás, e locais de interesse para os turistas...

Oferta da Canadian Pacific para o Oriente: "Os maiores, mais rápidos e mais luxuosos vapores" ligavam o Canadá à China em apenas 14 dias e o Japão em 10 dias.

quinta-feira, 20 de fevereiro de 2020

O jesuíta João Rodrigues Girão e as "Cartas Anuas"

O padre João Rodrigues Girão (1559-1633), entrou na Companhia de Jesus em 1576 e recebeu a ordenação sacerdotal em 1585, já na Índia. No ano seguinte desembarcou no Japão, onde trabalharia ininterruptamente durante 28 anos - onde aprendeu japonês -, até seguir para Macau. 
Será ele a redigir as cartas anuais que resumem os principais acontecimentos da missão que incluía Japão, china e Conchichina. São dele as cartas de 1604, de 1606 a 1612, 1617, 1618, 1621, 1622, 1625 e 1626.
Em 1620 imprime em Macau a sua obra "Arte Breve da Língua Japôa", no Collegio da Madre de Deos. (ver imagem abaixo). O original é de 1604 e foi impresso no Japão.
A partir de 1604 redigiu muitas vezes a "carta anua" da missão jesuítica japonesa; depois da de 1604 escreveu as de 1606 a 1612, e mais tarde, reunindo os elementos que lhe chegavam dos companheiros que permaneciam clandestinamente sob o Sol Nascente, compilou pelo menos as cartas referentes aos anos de 1617, 1618,1621, 1622, 1625 e 1626.
Em 1624 o Colégio de Macau era tb conhecido como Seminário das Missões do Japão, China e Cochinchina, tendo como residentes 86 da Companhia, 47 sacerdotes e 36 irmãos.



Assina como Joam Roiz Giram e na tradução para italiano surge como Giovanni Roiz Giram.
Excerto da Carta anua de 1604 escrita em Nagasaki a 23 de Novembro desse ano:
X Christi. Larga matéria pêra a presente annua me dava a gloriosa morte que em Dezembro do anno passado de 1603 padecerão per nossa santa fee no Reyno de Fingo dous soldados nobres com suas molheres, may de hú delles, e hu filho mortos todos seis per mandado de Canzuyedono Senhor daquelle reyno; mas per que esta se tem escrito dififusamente a Vossa Paternidade este Março passado per via das Philippinas, escreverey agora somente as mais cousas que socederão neste Japão depois da que se escreveo a V. P.^ em outubro do dito anno per hu navio que deste porto de Nangasaqi partio pêra Macao, que o Padre Visitador Alexandre Valignano a elle mandou com a triste nova da tomada da nao de Japão na barra do mesmo Macao; esta nova tam sentida de todos foy nosso Senhor servido, que temperaçemos com a vinda tam desejada, e tam prospera da que este anno entrou neste porto com tanta alegria nossa, e dos christãos, e ainda dos gentios de todo Japão e muy particularmente do Senhor Universal delle. Nella alem de algu socorro temporal, vierão dezoito de nossa Companhia sete Padres e onze Irmãos, dos quais 4 com hum Padre, do mesmo numero se tornão logo na mesma nao pêra a China ordenados sacerdotes, pêra o que os mandou o Padre Visitador, por ategora não ter chegado a Macao o Bispo daquella cidade, os mais ficão neste Japão pêra ajudarem na christandade, e conversão de tantas almas, quantas nelle ha. (...)
Arte Breve da Lingoa Japoa (...) pello padre Joam Todriguez (...) dividida em 3 livros (...)
em Amacao no Collegio de Madre de Deos da companhia de Jesus. Anno 1620.
João Rodrigues embarcou com destino à Índia com 14 anos. Pouco depois da chegada ao Japão em 1577 dedicou-se ao ensino da gramática e do latim e à aprendizagem da língua japonesa e alguns anos mais tarde concluiu os estudos em teologia em Nagasaki.
No Japão, onde se tornou comerciante, diplomata, político e intérprete entre os japoneses e os navegadores estrangeiros. A sua fluência no idioma oriental mereceu-lhe uma relação especial com os principais líderes japoneses durante o período de guerra civil e da consolidação do xogunato de Tokugawa Ieyasu. Nesta época também testemunharia à expansão da presença portuguesa nesta nação e à chegada do primeiro inglês, William Adams.
Durante este período, teve a oportunidade de escrever as suas observações sobre a vida japonesa, incluindo eventos políticos da emergência do xogunato e uma descrição detalhada da cerimónia do chá (ainda hoje uma referência na matéria). 
João Rodrigues seria expulso do Japão no ano de 1610, como consequência de um incidente com o navio português Madre de Deus. Este navio tinha estado envolvido em um conflito em Macau em 1609, no qual foram mortos marinheiros japoneses. Ao voltar a Nagasaki, as autoridades japonesas tentaram abordar e prender o capitão André Pessoa. Na escaramuça, o navio foi incendiado e afundou ao tentar sair do porto da cidade e, em retaliação pelo incidente diplomático, os missionários cristãos foram expulsos do país.
Regressando a Macau, dedicou-se à investigação das origens das comunidades cristãs estabelecidas no local desde o século XIII. Morreu a 1 de Agosto de 1633, tendo ficado sepultado na então igreja de São Paulo, hoje Ruínas de São Paulo.

quarta-feira, 19 de fevereiro de 2020

Ruínas de S. Paulo vistas da Fortaleza do Monte

Década 1930/40
"É mui formosa a fronttaria da igreja de S Paulo única parte que resta deste nobre edifício que pelos Jesuitas foi erigido em 1662 segundo a inscripcão existente na parte Occidental da fachada. A igreja e collegio foram consumidos pelo fogo em Janeiro de 1834 e o dito frontispício serve hoje de entrada para o cemitério publico: é todo de granito e de elegante architectura grega; na parte inferior tem 10 columnas da ordem jónica e outras 10 da ordem corinthia numa fileira sobreposta ás primeiras havendo entre todas differentes nichos com boas estatuas. Existia ainda ha poucos annos um relógio de torre que foi presente de Luiz XIV de França a este Collegio de Jesuitas que outrora muito floresceo chegando a ter 90 collegiaes, 2 cadeiras de latim, 2 de theologia, 2 de philosophia e 1 de bellas letras com grande livraria, gabinete astronómico, etc. Foi um dos principaes focos de ínstrucçao no Oriente. Pela bellesa da architectura e boa execução do trabalho é o monumento referido a única cousa digna de attenção que neste género existe em Macáo. O cemitério está bem arranjado tendo arcadas e túmulos lateraes e sepulturas rasas no pavimento da antiga igreja."
Década 1950
Década 1980
Década 1990

terça-feira, 18 de fevereiro de 2020

Mapa de Portugal Ilhas e Colónias: Edição Popular

Mapa de Portugal Ilhas e Colónias: Edição Popular
Autor: J. R. Silva
Edição: Litografia Costa e Valério, Lisboa, 1952
Inclui em diferentes escalas 14 mapas: "Guiné", "Açores", "Cabo Verde", "S. João Baptista de Ajudá"*, "Portugal", "Diu", "Macau", "Moçambique", "S. Tomé e Príncipe", "Damão", "Angola", "Timor", "Madeira", "Goa".
*São João Baptista d'Ajuda - no actual Benim - era na altura um pequeno enclave colonial português com cerca de 4,5 quilómetros quadrados, constituído por uma feitoria e os seus arredores, onde a autoridade era exercida pelo feitor. Era o menor território colonial do mundo.
Na representação da península de Macau são destacados os fortes e fortalezas: 
D. Maria II, Guia, S. Francisco, S. Tiago da Barra, etc...
Ilhas: Lapa, Macarira ou D. João, Montanha, Taipa e Coloane. A designação "Mar de Macau" é uma 'invenção' em termos geográficos. Trata-se do Mar da China.

segunda-feira, 17 de fevereiro de 2020

"Macao ou Amacao quer dizer Porta do Mar"

Macao he hum pedaço de terra em fórma de Península a respeito da Ilha de Ançao na qual toca com huma lingua de largura de hum tiro de pedra. Neste pedaço està situada a Cidade em vinte e dous graos e meyo da parte do Norte com o porto aberto ao Sueste. Macao ou Amacao quer dizer Porta do mar. 
Terá meya legoa de comprimento, e de largura hum tiro de peça. Da banda do Norte he murada de Leste a Oeste e pela outra cercada de rio. Dentro na Cidade tem a fortaleza de nossa Senhora do Monte, a Fortaleza da barra de Santiago, o Forte do Bom Porto*, o Forte de S Pedro, o Forte de S Francisco. 
Fóra dos nuros tem a Fortaleza de nossa Senhora da Guia e a Fortaleza do monte. Defronta com a terra firme de Cantaõ, Província da China. Da sua Christandade, e piedade saõ provas as muitas Igrejas e Conventos de Religiosos que sustenta só com o seu commercio, porque naõ tem bens de raiz, nem hum só palmo de terra fóra do curso da sua artelharia.
Tem Sé Matriz com seu Bispo, tres Freguesias, Casa de Misericordia, Hospital de S. Lazaro, fóra dos muros. e huma Ermida de nossa Senhora da Penha. Os Conventos saõ quatro, tres de Religiosos, de S .Francisco, S. Domingos, Santo Agostinho, e hum de Freiras Capuchas de Santa Clara. O Collegio da Companhia de Jesus he da invocaçaõ da Madre de Deos e nelle se ensina Grammatica e ha liçaõ de casos de consciencia e até o anno de mil seiscentos e dezaseis houve quasi sempre Curso de Artes e Theologia.
As familias Portuguezas seraõ hoje cento e cincoenta, o numero de todas as almas Christãs dezanove mil e quinhentas, das quaes as dezaseis mil saõ mulheres, vivem dentro da Cidade mil Chinas Gentios, oficiaes e mercadores. Os barcos da India partem em Mayo, chegaõ a Macao nos fins de Julho, e voltando em Dezembro até Janeiro, chegaõ a Goa em Março."
In Vocabulario Portuguez e Latino, obra de 8 volumes, da autoria de Rafael Bluteau, publicado em 1728.
Nota: Este artigo baseia-se num texto publicado na obra "Oriente Conquistado", de 1710.

* leia-se Bom Parto
 

domingo, 16 de fevereiro de 2020

“Casa-Forte da Taipa”

Os primórdios da presença portuguesa na ilha da Taipa remontam a 1847, ano da construção de uma "casa-forte" na ilha.


A construção da fortificação determinada pelo então Governador Ferreira do Amaral. Tinha como função a defesa do canal entre esta ilha e a de D. João. As obras ficaram a cargo do Tenente Pedro José da Silva Loureiro. Os mandarins chineses opuseram-se à obra, nomeadamente o Vice-Rei de Cantão, pelo que Ferreira do Amaral esclareceu-lhe, por ofício, que se tratava de uma obra visando libertar a ilha dos piratas que então ali se acoitavam, afugentando o comércio de Macau, o que prejudicava portugueses e chineses.
Ainda assim o Vice-Rei pediu a suspensão imediata da obra, mas Ferreira do Amaral  acabaria por convencê-lo, recordando que estava a corresponder ao pedido expresso pelos habitantes da ilha.
A 9 de Setembro de 1847 a bandeira portuguesa foi hasteada pela primeira vez naquele forte e ilha. A esta anexação seguiu-se a da ilha de Coloane, ocupada militarmente pelos portugueses em 1864. A par do forte, a segurança era complementada por uma embarcação que fazia a ronda durante a noite.


Em 1848/49, o oficial comandante do Posto da Taipa, Januário Agostinho de Almeida, redigiu as primeiras normas sobre a administração local.
Notícia do "Forte da Taipa" informando do "começo da illuminação pública das ruas da Taipa com notável regozijo da parte dos habitantes" em Maio de 1868.
Quinta feira ultima S. Exa. o Governador visitou a fortaleza da Taipa, a povoação respectiva bem como a de Colovan. S. Exa foi no vapor Camões acompanhado dos officiaes do seu estado maior e do sr commandante do batalhão de linha. Nestas povoações chinezas dependencias de Macau foi S Exa o Almirante recebido com as mais distinctas provas de affeição, cortezia e respeito. Os bons chinas da Taipa e Colovan fizeram tudo quanto lhes foi possivel para provarem a veneração que consagram á autoridade portugueza que os governa e defende. Em ambas as povoações nos caes de desembarque a S Ex a os maioraes ou conselhos municipaes, e os habitantes corriam ao encontro de S. Exa. queimando panchões e dando salvas de pequenos mosquetes. Sabemos que S. Exa. ficou mui captivado pelo recebimento espontaneo que lhe fizeram estes povos sob sua guarda e não menos satisfeito da ordem aceio nos satisfeito da ordem, aceio e prosperidade que observou nestas florescentes povoações. O commandante do forte que é ao mesmo tempo o administra dor daquelles concelhos e mui estimado dos seus habitantes acompanhou a S. Exa. nesta visita apresentando por esta occasião a S. Exa. alguns pedidos justos dos seus administrados os quaes nos consta que S. Exa. attendeu com a benevolencia que lhe é caracteristica. (...) In Boletim da Província de Macau e Timor, 26 Outubro 1868
Por decreto de 1869 seria criado o Conselho Municipal das Ilhas, sendo destacada uma nova guarnição militar para a protecção contra os ataques de malfeitores que constantemente ameaçavam as embarcações e as populações.

sábado, 15 de fevereiro de 2020

Equívoco na emissão filatélica "Motivos Locais" de 1950

Até à década de 1980 as emissões filatélicas de Macau em concebidas em Portugal. Em 1950, a Imprensa Nacional da Casa da Moeda produziu um selo onde figura a Porta do Cerco - desenho de Alberto Souza - no âmbito da Emissão "Motivos Locais". Com valor facial de 1 pataca, em tons de azul, o selo nunca chegou a circular em Macau, ao que consta "devido a um equívoco de natureza cultural". A tonalidade da cor com que o selo foi impresso é considerada pouco auspiciosa na cultura chinesa e o selo acabou por ser mais tarde substituído por um selo idêntico, mas de tonalidade castanha, como se pode ver na imagem abaixo. 

sexta-feira, 14 de fevereiro de 2020

Travessa da Chupa

É mais uma exemplo de uma artéria cujo nome em português nada tem a ver com o nome em chinês. Esta Travessa da Chupa tem pouco mais de 4 metros de extensão - a mais curta do território - e fica localizada à entrada do Porto Interior na zona da Barra, a cerca de 200 metros do Templo de A-Ma.
O nome em chinês significa a "Terceira travessa a partir do templo de A-Ma". Está lá o  caracter chinês referente ao número 3 - o segundo a contar de baixo: 媽閣第三巷
O nome em português remete para a botânica, já que chupa é uma árvore de citrinos conhecida também por árvore-bola ou árvore chupa-chupa.

quinta-feira, 13 de fevereiro de 2020

Pousada Macau - Macau Inn


A Pousada de Macau - Macau Inn, nos números 1 e 3 da Travessa do Padre Narciso (ao lado do Palácio do Governo) é um símbolo dos estabelecimentos hoteleiros de charme das décadas de 1950 a 1980 em Macau. Começou por se chamar hotel Carmen
Francisco de Carvalho e Rêgo menciona-o num livro editado em 1950 intitulado "Macau: mapa turístico": "O pequeno hotel Carmen, surge então com sua aparência modesta, e, continuando na mesma direcção, depara-se com o Parque Infantil, abrigado pela espessa e alta muralha da Fortaleza do Bom Parto."
 No Anuário do Governo de 1952 surge como estando na "Travessa do Padre Narciso; Telefone n.° 3637; Hotel moderno e nas melhores condições; A cozinha, como o serviço de quarto, são dos melhores no género".

Início da década 1960
Num anúncio em inglês de 1956 afirmava-se como tendo "five double rooms" (5 quartos duplos) e "the place of good food and good Portuguese wines" /"O local da boa comida e bons vinhos portugueses".

Num guia turístico de 1958, em inglês, "All the best in Japan, with Manila, Hong Kong, and Macao", o autor, Sidney Clark, destaca: "Breakfast and lunch are usually had at the charming Pousada de Macau, a small seaside inn owned by the Nolasco firm."
No Anuário de 1964 um anúncio destaca os "quartos com ar condicionado", a "vista agradável sobre o mar" e o "restaurante que melhor serve especialidades portuguesas e estrangeiras". Ao todo tinha 5 quartos, singles (28 patacas) e duplos (35 patacas), todos com casa de banho. O ar condicionado era um extra que custava 10 patacas.
Edifício já bastante degradado na segunda metade da década 1980
Ainda surge no Anuário do Governo de Macau referente a 1978 e em guias turísticos estrangeiros dos primeiros anos da década de 1980. Encerrou em meados da década de 1980. O edifício foi posteriormente demolido.

quarta-feira, 12 de fevereiro de 2020

A Epidemia de Peste Bubónica em Macau em 1895

No final do século XIX Macau foi assolada por uma epidemia de peste bubónica. José Gomes da Silva, chefe do Serviço de Saúde Pública do território, fará um relatório sobre a epidemia que grassou entre Abril e Julho de 1895 causando 1200 mortos "todos chineses". É desse documento que a seguir publico alguns excertos.
"Corria normalmente o primeiro trimestre de 1894, quando em fins de março recebi uma carta particular do digno cônsul de Portugal em Cantão, D. Cinatti, convidando-me a ir alli observar uma doença excessivamente curiosa, que havia cerca de um mez grassava sob a forma epideraica em Cantao e seus arredores, acoinmettendo exclusivamente os chinas... e os ratos. A doença, no dizer do illustrado funccionario, caracterisava-se principalmente por uma temperatura elevada, que ás vezes bastava a matar o doente, e pela manifestação de bubões no pescoço, na axilla ou nas verilhas, com pouca tendência á suppuração. Pouco depois, espalhavam-se também em Macau boatos de que a mortalidade subira sensivelmente na população chineza a visinha colónia de Hongkong, sendo a doença dominante uma espécie de febre typhoide, sob este nome diagnosticada pelos médicos inglezes, e produzindo uma percentagem de mortalidade pouco commum, ainda nas mais severas epidemias conhecidas. Era grave o assumpto e era grave também a coincidência. Installada a epidemia, fosse ella qual fosse, em Hongkong e Cantão, como isolar Macau d'aquelles dois portos, por onde esta cidade communica normalmente com o resto do mundo? como substituir todos os elementos imprescindiveis de vida individual e commercial que estti colónia recebe d'aquellas duas cidades? (...)
Fundamentados ou não, é certo que os boatos continuavam a circular entre os habitantes de Macau e referiam que nâo só a mortalidade crescia, quer em Hongkong, quer em Cantão, mas que o augmento de mortalidade era devido essencial e exclusivamente ao predominio da peste bubonica. Era conveniente portanto, se nao urgente, ir pondo em prática algumas medidas hygienicas, d'aquellas que não alarmam ninguém e que, pouco espalhafatosas, teem todavia uma efficacia incontestável. Assim, os administradores do concelho receberam iustrucçôes para não permittirem a agglomeração de individues em casas d'habitaçfio, sobretudo se esses individues eram pouco respeita- dores da hygiene - e era essa a regra para a communidade chineza. - Ao mesmo tempo, era-lhes indicado que fechassem os poços tendo communicação apparente ou provável com latrinas visinhas ou quaesquer outras origens d'infecção. Alem d'isso, irrigações frequentes dos canos das vias públicas com agua do mar por bombas a vapor deviam ser dirigidas pelas referidas auctoridades. A capitania do porto foi incumbida do fornecimento d'agua potável ao público, nao só para attenuar os eflfeitos da sécca anómala que affligia então estas regiões, mas para compensar a deficiência d'agua, resultante de se fecharem alguns poços, suspeitos inquinados. Demais, a capitania ficou incumbida de, pelos seus guardas, evitar que desembarcasse em Macau qualquer china suspeito de doença, quer detendo o passageiro até que um medico viesse examinal-o, quer ordenando-lhe o regresso para fóra das aguas de Macau, se o passageiro se oppuzesse à detenção e exame. (...)
Todas estas medidas porém eram tomadas em silencio, sem o apparato das portarias, que poderiam, por injustificáveis, ferir a susceptibilidade dos nossos visinhos ou alarmar indevidamente a colónia. No dia 10 de maio, a junta de saúde de Hongkong declarou aquelle porto infeccionado de peste bubonica. Em virtude desta declaração, confirmada officialmente pelo governo local, appareceram successivamente no Boletim Oficial de Macau as portarias provinciaes n.° 113, de 15 de maio, e n.° 117, de 1 de junho, determinando as medidas prophjlactícas a tomar, para evitar que o flagello attingisse os habitantes d'esta cidade. (...)
Mapa de 1889
Entre as medidas profiláticas então tomadas contam-se:
Lavar com fortes jactos d'agua salgada e chlorada os canos d'esgoto; Limpar os poços sujos e inutilisar os que não pudessem limpar-se; Fornecer em abundância agua potável ao público. (...)
A peste bubonica, em todos os pontos do sul da China em que foi observada e descripta, começa invariavelmente por uma febre de typo typhoide, com raríssimas remissões absolutas e com tendência rápida para subir de ponto. Mais tarde, se o individuo consegue resistir á elevação de temperatura, começam a manifestar-se ostensivamente os bubões do pescoço, da axilla ou das verilhas. D'aqui uma indicação prophylactica: prohibir a entrada em Macau a indivíduos com febre. A execução d'esta medida não era porém tão fácil como o seu enunciado, desde que em Macau entravam diariamente, procedentes dos portos infeccionados, uma média de 500 chinas por via marítima e mais de 1.000 por via fluvial e terrestre. 
Conseguia-se todavia o seguinte. Os passageiros dos vapores de Hongkong e Cantão eram, antes do desembarque, sujeitos a uma inspecção medica, que consistia essencialmente no exame do pulso, da temperatura e da língua. Se o resultado do exame era satisfactorio, o passageiro tinha livre prática; se a lingua se mostrava saburrosa ou fuliginosa ou afilada, se a temperatura era anormal, se o pulso era pathologico, o passageiro era detido e vigiado pela policia, até que saissem todos os passageiros insuspeitos. (...)
Propostas de Gomes da Silva para melhorar a higiéne pública em Macau:
I. Obstruir todos os becos e pateos existentes em Macau, primeiro os do bairro europeu, depois os dos bairros chinezes. 
II. Reduzir o numero de latrinas públicas na cidade, não se permittindo a installação d'ellas senão em local farto de luz e ar, em condições hygienicas de limpeza e desinfecção. 
III. Ordenar a remoção diária ou, pelo menos, em dias alternados dos dejectos accumulados nas latrinas públicas e particulares. 
IV. Tomar obrigatório o systema de fossas moveis ou, provisoriamente apenas, o de vasos de loiça vidrada em todas as casas d'habitação, á excepção d'aquellas em que se esteja empregando ou se possa empregar com vantagem o systema de latrinas de syphão e canos d'esgôto. 
V. Prohibir a accumulação de individues em numero superior aos que comporte a cubagem da casa em que vivam esses indivíduos. 
VI. Fechar e inutilisar todos os poços visinhos de latrinas ou recebendo aguas inquinadas. VII. Prestar grande attenção ao problema do abastecimento d'agua potável em quantidade sufficiente á população da cidade. 
VIII. Eliminar e substituir os mercados de S. Domingos e da Ponta da Rede; ou apeal-os e reedifical-os era condições toleráveis de hygiene e esthetica. 
IX. Aterrar a horta de S. Paulo, transformando-a em num novo bairro hygienico para gente pobre. 
X. Completar o canal de San-kiu até ao porto interior.
José Gomes da Silva, "A epidemia de peste bubónica em Macau: relatório 1895"

terça-feira, 11 de fevereiro de 2020

segunda-feira, 10 de fevereiro de 2020

Macau num mapa chinês da dinastia Qing

Chinese map from early 19th century (anonymous) showing the 14 counties of Canton Fu (now Guangzhou) during the Qing Dynasty (1644-1912) in traditional Chinese painting style. Macao Peninsula, righ side below, is illustrated with three buildings: from north to south, the Border/Barrier Gate, Mater Dei church (St. Paul ruins) and A-Ma Temple, this one labelled ‘Macau’.
Former Xiangshan County, is also spelled Hsiangshan, Siangshan, Heungsan, and Heungshan.
Neste mapa de origem chinesa e autor anónimo do início do século 19 podem ver-se os 14 condados de Cantão Fu (actual Guangdong) durante a dinastia Qing (1644-1912). 
A Península de Macau, de norte para sul, está ilustrada com três edifícios: a Porta do Cerco, a Igreja de Mater Dei (Ruínas S. Paulo) e o Templo de A-Ma (Barra) com a inscrição em caracteres chineses 'Macau'.
O antigo condado de Xiangshan também é conhecido pelos seguintes nomes: Hsiangshan, Siangshan, Heungsan e Heungshan.

sábado, 8 de fevereiro de 2020

Foto-legenda: Rickshaw on the 'praya' in Macao

O "Palácio das Repartições" é onde hoje se situa o edifício dos antigos tribunais (frente à estátua de Jorge Álvares) enquanto o edifício dos Correios corresponde ao local onde está actualmente o hotel Metrópole.
clicar na imagem para ver em tamanho maior
Esta foto dos primeiros anos da década de 1920 tem como legenda "Rickshaw on the 'praia' in Macao", ou seja, destaca o primeiro plano da imagem onde se pode ver um meio de transporte comum na época.

sexta-feira, 7 de fevereiro de 2020

Macau no "Sheraton-Dallas Hotel"

O "Sheraton-Dallas hotel" (EUA) foi construído em 1958 e na época era o mais alto daquele estado norte-americano.

Para este post escolhi um menu - Dinner at Ports O' Call; Sheraton-Dallas Hotel by Stephen Crane Associates - que inclui receitas dos vários locais "Our Ports of Call" / "Os nosso portos de escala". Macau é uma dessas escalas - há ainda Singapura, Saigão, etc... - tendo sido seleccionados "Bife português marinado", "Galinha à Moçambique" e "Salada de Camarão à Pousada" com molho do chefe Ângelo - "Macao Salad With Prawns And Crabmeat Pousada Inn Angelo Sauce".
No 37º piso do hotel existia um restaurante constituído por cinco salas de refeição temáticas. Uma delas chamava-se "Macao". Funcionou entre 1960 e 1978 sob a direcção de Stephen Crane.

Anúncio da década de 1960


Em cima e ao lado, a frente e verso de um postal ilustrado alusivo ao restaurante "Macao": 
"One of four exotic moorings at Ports o' Call Restaurante in the penthouse at Southland Center, Dallas, Texas. All the fascinations of foreign sorcery beguile you in this harbor of mystery where the rare sweet meats of Cathay tempt even the most sophisticated palate. Dine in the gaze of a noble Ming dynasty Kwan-Yin…delight in the lavish ebony and mother-of-pearl furnishings. You’ll be bewitched!"
Em 1960 Stephen Crane contou ao jornal Dallas Morning News que a ideia surgiu-lhe quando assistiu aos Jogos Olímpicos de 1936 na Alemanha. “There was a restaurant in Munich called The Four Seasons which had 4 rooms,” disse, acrescentando que, “each decorated to represent a season of the year. It gave me the idea for a Ports O’ Call, which would be four restaurants in one-each specializing in a certain kind of food.”
Crane viria a criar restaurantes similares, os Kon Tiki Ports, em Chicago e Boston.

Anúncio de 1968

Panfleto com um pequeno texto sobre a história de Macau "O misterioso oriente".