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quarta-feira, 9 de setembro de 2026

"Batalha de Flôres" em 1918

A fotografia retrata uma carruagem frente ao Palácio do Governo em 1918. 
"Carro do governador da provincia de Macau, capitão tenente sr. Vieira de Matos, com sua esposa a sr. D. Raquel Swart Vieira de Matos, promotora da festa e sua filha."

A decoração exuberante da carruagem remete directamente para uma manifestação cultural muito popular na viragem do século - a chamada Belle Époque - de origem europeia. A tradição de ornamentar carruagens com arranjos florais teve origem no Carnaval de Nice, em França, espalhando-se rapidamente um pouco por todo o mundo. Nestas celebrações - muitas vezes associadas a efemérides locais/nacionais - a alta sociedade desfilava em carruagens exibindo trajes formais - como os chapéus de aba larga visíveis nas senhoras e os fatos claros dos cavaleiros - enquanto os participantes arremessavam pétalas e botões de flores entre si.
O evento foi notícia na edição nº 642 (10.6.1918) da Illustração Portugueza que dedicou duas páginas profusamente ilustradas à "Batalha de flôres em Macau"...

"Tambem os nossos compatriotas residentes em Macau quizeram testemunhar o seu acendrado patriotismo e patentear o preito que dedicam aos soldados portuguezes que, em luta com os inimigos da cívilisação, honram as gloriosas tradições herdadas.
Por iniciativa da sr.ª D. Raquel de Matos, esposa do distinto capitão tenente sr. Vieira de Matos, governador interino d'aquela florescente colonia, realisaram-se ali varias festas a favor dos nossos mobilisados e da indigencia local, entre elas uma batalha de flores, em que tomaram parte 60 carros, ornamentados com fino gosto, e a que acorreu quanto ha de mais distinto na nossa provincia ultramarina do Extremo-Oriente.
O produto d'estas festas, que, levadas a efeito com manifesto entusiasmo, decorreram com grande brilhantismo, atingiu uma soma consideravel, para o que contribuiu devéras o muito prestigio de que gosa o sr. Vieira de Matos, cujas excelentes qualidades de caracter e esclarecida inteligencia, são justamente apreciadas por todos que anceiam o desenvolvimento d'aquela nossa possessão, no que ele se acha devéras empenhado.
Sua esposa, que com grande devotamento se desobrigou da espinhosa missão, a que se propoz, de minorar a sorte dos nossos soldados e dos que o infortunio avassala, tem recebido inumeros testemunhos de homenagem e de gratidão. E, nunca foram melhor e mais justificadamente merecidos."
Algumas das legendas das fotografias:
Um aspéto da Avenida Vasco da Gama*, onde se realisou a batalha de flôres, vendo-se no primeiro plano a nau S. «Gabriel».
Na Avenida Vasco da Gama onde se realisou a festa, alguns dos carros que n'ela tomaram parte. No primeiro plano o submarino «23», de Mr. Gellion, tripulado por senhoras de sua familia, vestidas de oficiaes de marinha, vendo-se entre elas Mrs. Gellion, trajando um vestido que simbolisava a Inglaterra.
Carro do sr. dr. Americo de Sousa, juiz de direito, e sua familia.
Carro de Madame Ricou.

* inaugurada em 1898 - tendo na altura decorrido também uma "Batalha de Flores" - corresponde a parte do que é hoje a Av. Sidónio Pais.

terça-feira, 8 de setembro de 2026

Pavilhão de Auto-china ca. 1910 / 澳门的一个粤剧剧场,约1910年

A imagem mostra um teatro de ópera cantonense (粤剧) ca. de 1910 em Macau. A estrutura, normalmente de carácter temporário, era feita de bambú e o telhado coberto com palha ou colmo, típico de pavilhões de espetáculos tradicionais da época. 
Entre a comunidade portuguesa/macaense este tipo de espectáculos denominava-se "Auto-China".
A palavra "auto" deriva muito provavelmente do teatro clássico português (como os famosos autos de Gil Vicente). Os portugueses em Macau usavam-na porque, tal como os autos europeus, a ópera chinesa misturava numa só peça elementos dramáticos, líricos, cómicos, sagrados e profanos. Na verdade fundia literatura, artes marciais, dança, acrobacia e malabarismo.

segunda-feira, 27 de julho de 2026

Conselho de Guerra no julgamento de piratas em 1910

Um monumento que existe em Coloane frente à igreja não passa despercebido mas imagino que a maioria das pessoas que por ali passa desconhece a sua origem. Remonta a 1910 quando ainda havia ataques de piratas...
O monumento da vitória sobre os piratas
fotografia da década 1950

Foto de Luís Almeida Pinto. 2025
A fundo a Igreja de S. Francisco Xavier
ainda não existia quando o monumento foi construído no final de 1910

A 5 de Maio de 1910 um grupo de piratas assaltou uma escola na aldeia de Tong-Hang, distrito de San-Neng, (perto de Macau) raptaram 17 alunos e um ajudante de cozinheiro e levaram-nos para Coloane, exigindo $35.000.00 de resgate. Perante o conhecimento dos factos - já em Julho - e apelos dos familiares dos sequestrados, o governador Eduardo Marques ordenou uma força militar atacar os piratas e libertar as crianças.
É assim que começa a operação militar na Ilha de Coloane. Após um contingente inicial ter sido repelido a tiro, foi mobilizada uma força composta por polícias europeus, tropas chinesas, indianas e paquistanesas, marinheiros e as lanchas-canhoneiras Pátria e Macau. 
Lancha canhoneira "Macau" na década 1910

Os combates tiveram início a 14 de Julho com o bombardeamento da orla de Coloane, prolongando-se por vários dias devido à dificuldade em diferenciar a população dos piratas e em localizar os reféns. A 19 de Julho, as tropas descobriram a primeira caverna, resgatando 11 crianças e detendo sete piratas. Nos dias seguintes, recorrendo ao uso de enxofre para forçar a saída dos ocupantes, foram invadidas outras cavernas, como a da praia de Hác-Sá, o que permitiu libertar mais crianças e capturar dezenas de meliantes.
No total, foram capturados cerca de 300 piratas e a maioria das crianças regressou para junto dos pais, enquanto as não reclamadas foram assistidas pela Santa Casa da Misericórdia e pelo Hospital de S. Rafael, acabando algumas por ser adoptadas na comunidade. 

jornal A Verdade 8.9.1910

O desfecho deu-se a 30 de Agosto de 1910 com o julgamento em Conselho de Guerra no Quartel de S. Francisco - processo que contou com a participação do jurista e poeta Camilo Pessanha -, culminando na condenação de oito cabecilhas a 28 anos de degredo em Moçambique. 
1910年路環島打擊海盜行動中逮捕的海盜

Esta fotografia mostra cinco dos piratas presentes ao Conselho de Guerra no que parece ser o pátio do Quartel de S. Francisco em Agosto de 1910. Têm de cada lado dois militares do exército português de serviço em Macau.

domingo, 26 de julho de 2026

Uma caso de polícia em 1910

Prisão importante
Foi preso na tarde de domingo findo, em Macau, Antoine Rogazzacci, que dizem ser subdito francez, acusado de, por meio de ameaça á mão armada, ter obrigado o gerente do hotel Boa Vista, o sr. A. Vernon, a passar-lhe um vale na importancia de $10.000, pagavel á vista em Hongkong.
Sobre o caso forneceu-nos um dos empregados do hotel Boa Vista os seguintes informes:
Na noite de 18 de agosto findo, dois dias depois de se alojar no hotel, Rogazzacci, tendo entrado, de revolver em punho, no quarto do sr. Vernon, exigiu que este lhe passasse um vale na importancia de $10.000, cobravel na missão franceza de Hongkong.
Munido d’esse documento, seguiu Rogazzacci na manhã imediata para Hongkong, sem, comtudo, ter ali conseguido resultado algum, porquanto o sr. Vernon tinha telegrafado para a missão franceza, recomendando que se não efectuasse o pagamento; embarcando de tarde para aquella colonia, afim de ratificar pessoalmente o seu telegrama e narrar pormenorizadamente o sucedido.
Rogazzacci voltou no dia 19 de agosto a esta cidade, e, como não tivesse encontrado o sr. Vernon, embarcou novamente no dia imediato para Hongkong, d'onde, á mesma hora da manhã, regressava o sr. Vernon.
Irritado e contrafeito por esse desencontro, Rogazzacci escreveu ao sr. Vernon, dizendo que o seu revolver, que não tinha sido usado na noite de 18, serviria na primeira oportunidade em que elle, sr. Vernon, fosse encontrado.
Informada a policia do caso, foi por muitos dias vigiada a chegada de todos os vapores da carreira, vindo finalmente Rogazzacci a ser preso, na tarde do ultimo domingo, 4 do corrente, proximo da estação da Rua da Felicidade, a requisição do sr. Xavier, runner do referido hotel, depois de o mesmo Rogazzacci ter desembarcado do vapor Hoi-sang, da carreira de Cantão.
Ao efectuar-se a prisão, foi encontrado em poder do preso um revolver.
Rogazzacci foi remetido na terça-feira ao tribunal judicial, onde se está preparando o competente processo crime.
in jornal A Verdade 8.9.1910

sexta-feira, 24 de julho de 2026

Uma mansão na Rua do Hospital

A Igreja Batista de Macau ( 澳門浸信教會), também conhecida como Primeira Igreja Batista de Macau, é a igreja batista chinesa mais antiga de Macau e está localizada na Rua de Pedro Nolasco da Silva, nº 41.
Legenda: "John and Lillian Galloway Mission House Macao (1935)"

As origens remontam a Dezembro de 1903 quando o reverendo Charlton Todd e a mulher foram enviados a Macau pela Convenção Batista do Sul dos Estados Unidos para realizarem trabalho missionário. Em 1904 há registo de terem baptizado cinco pessoas e, em 1905, o número de membros tinha crescido para vinte e cinco. A igreja foi formalmente estabelecida nesse ano como "Igreja Fé e Bênção", a antecessora da atual Igreja Batista de Macau. Inicialmente, alugaram uma casa de três andares na Rua do Campo para reuniões e trabalho missionário.
Em 1908, o Rev. Charlton Todd morreu vítima de doença enquanto regressava aos Estados Unidos para um relatório missionário. No mesmo ano, a igreja americana enviou o Reverendo John Galloway para assumir o cargo que, juntamente com Lilian Lamont Reeves Todd Galloway, a viúva do Rev. Charlton Todd, desenvolveu o trabalho missionário em Macau. Mais de uma década depois os dois viriam a casar.
A Igreja Batista de Macau estabeleceu sucessivamente a "Escola Primária Pui Chi", a "Escola Secundária Pui Ching" (1908-24) e a "Escola de Orientação Espiritual para Meninas" (1913-31). Também adquiriram embarcações para ajudar os filhos dos pescadores a aprender a ler e para transportar alimentos e mantimentos para hospitais de leprosos.
Em 1927, utilizando uma doação da mãe do Reverendo Charlton Todd, a igreja adquiriu o terreno da actual 'sede' da igreja e que na época chamava-se "Todd Memorial Hall" (Salão Memorial Todd). Assim nasce a mansão no então nº 9 da Rua do Hospital (referência ao Hospital S. Rafael), o actual nº 41 da Rua Pedro Nolasco da Silva onde fica a Igreja Baptista de Macau.
A fotografia faz parte do livro "Like A Tree Planted By Streams of Water" da autoria de R. Lawrence Ballew, publicado em 2020.

sexta-feira, 3 de julho de 2026

"Viúvo macaense" procura "solteira ou viúva não menos de 25 anos"

Na edição de 1 de Novembro de 1919 do jornal O Macaense é publicado este anúncio:
VIUVO MACAENSE, empregado no commercio em Shanghai, salario $350 mensais, achando-se inabilitado de visitar Macau, deseja corresponder com uma solteira ou viuva não menos de 25 anos de idade, natural de Macau, com o fim de matrimonio. Dirigir-se inclusando fotografia a “VIUVO” c/o. British P. O. Box 162, Shanghai.
Na época o "casamento por correspondência" (antecessor dos modernos sites de encontros) era uma ferramenta legítima e comum para quem queria casar dentro do seu grupo étnico/cultural mas vivia longe da terra natal.
Em Xangai existia uma importante comunidade macaense: empregados no comércio, tradutores, escriturários, bancários, etc... O valor do salário era considerado bastante acima da média na época.

quarta-feira, 17 de junho de 2026

Loja "A Portugueza" na Rua do Campo

No final do século 19 e início do século 20 a Rua do Campo e a Rua Central eram as principais artérias comerciais da cidade. Refiro-me aos negócios pertencentes a ocidentais, nomeadamente portugueses, já que a zona do bazar era onde se concentrava a maioria do comércio, deste caso dominado pelos chineses. 
No caso da Rua do Campo imperavam as mercearias e botequins onde os principais atractivos eram a venda de produtos portugueses, nomeadamente vinhos correntes, licorosos e enlatados.
Na imagem acima a "Loja A Portugueza" no número 50 da Rua do Campo. Em baixo um anúncio de Abril de 1911 publicado no jornal A Pátria.

Atenção !
LOJA "A Portugueza"
RUA DO CAMPO N.º 50, MACAU.
—+:0:+—
Achando-se o proprietario d'este estabelecimento em condições de competir com qualquer outro do mesmo genero, convida o respeitavel publico a não fazer qualquer acquisição sem primeiro confrontar as qualidades e preços dos generos porque aqui se vendem.
N'este estabelecimento se encontra á venda um grande sortimento de artigos tanto nacionaes como extrangeiros.
— PREÇOS SEM RIVAL —
Francisco dos Santos Ferreira.

Na Rua do Campo havia ainda no início do século 20 - entre outros estabelecimentos - a "Loja Alto Douro" (no número 22), propriedade de António Martins da Silva que garantia que "n'esta rua não há quem venda mais barato" e o "Novo Botequim Portugal" (no número 36) de João José Pedro.

PS: Note-se que a Av. de Almeida Ribeiro só ficou concluída cerca de 1918 e só a partir de então passou a constituir-se com principal artéria comercial de Macau, pela sua extensão e pelo facto de ter comércio dos dois lados da avenida.

quinta-feira, 4 de junho de 2026

Aspectos do Cais dos Vapores no primeiro quartel do século 20

Nesta fotografia dos primeiros anos do século 20 o antigo Largo da Caldeira já surge ocupado nomeadamente por um edifício onde na fachada está uma anúncio de grandes dimensões:
"COLGATE & CO. / NEW YORK / U.S.A. / ESTABLISHED 1806"
A azáfama neste troço da Rua das Lorchas é notória, nomeadamente o elevado número de jerinxás. Entre os vários elementos arquitectónicos visíveis destaco uma vista parcial da torre Prestamista na Rua do Bocage.

O topónimo Largo da Caldeira já não existe mas ficaram a Rua e a Travessa da Caldeira que permite situar este local nos dias de hoje. O prédio do anúncio da Colgate corresponde à actual Travessa 5 de Outubro.
Sendo uma zona de muito movimento em redor existiam vários restaurantes, casas de chá, hospedarias, pensões, hotéis, etc...
Junto ao muro inúmeras sampanas, pequenas embarcações vitais para a vida comercial e o transporte de mercadorias no porto interior

sexta-feira, 29 de maio de 2026

"Macao Ice Company"

OLHAE BEM
A "MACAO ICE COMPANY" participa ao respeitavel publico que acaba de estabelecer um deposito para a venda de gêlo, na Rua dos Mercadores n.º 51.
O gêlo é feito na nova fabrica, na AREIA PRETA, com agua de fonte distillada e pelos systêmas mais modernos; sendo portanto a sua salubridade e pureza garantidas.
O proprietario d'esta fabrica convida o publico de Macau a visitar a dita fabrica para assim verificar pessoalmente a limpeza com que o gelo é feito.
O preço por libra é de um avo de pataca; havendo preço especial para a venda em grande quantidade.
Os livretes para a compra do gelo podem ser pedidos nas officinas da mesma; Rua da Sé, n.º 10.
PEDRO L. HINGKEE,
Proprietario.
Este anúncio foi publicado em Abril de 1909 no jornal Vida Nova. Poucos anos antes, em 1903, Pedro Leong Hing Kee vendera o hotel que tinha na Praia Grande e nesta altura dedicava-se a uma novo negócio - uma fábrica de gelo - que seria seguido pelo filho. Este por sua vez também se iria dedicar à venda de automóveis.

quinta-feira, 21 de maio de 2026

"Copia de parte da carta das alfandegas chinezas de Cantão"

Datada de 20 de Abril de 1908 esta "Carta das Alfândegas Chinesas de Cantão" faz parte do espólio do Arquivo Municipal de Ponte de Lima e tem uma nota manuscrita da autoria de João Feliciano Marques Pereira (1863-1909). Aliás, todas as anotações são dessa data feitas por JFMP.
Segundo ele trata-se de uma "Copia de parte da carta das alfandegas chinezas de Cantão, intitulada "Sketch map of the Chu-kiang or Pearl River, etc, by Thomas Marsh Brown, Imperial Customs, Canton station."
E acrescenta:
"Este mappa é importantissimo para a questão da delimitação das fronteiras de Macau, na parte relativa á ilha da Lapa, visto que, a-pezar de limitar a nossa linha de limites para oeste do meridiano das Nove Ilhas e de pôr fóra da nossa jurisdicção uma parte da costa meridional da Ilha da Taipa, Grande parte das de Colo-an, Tai-vong-cam (Montanha) e Sio-vong-cam (D. João), mette dentro da nossa jurisdicção a margem e a vertente da ilha da Lapa fronteira á cidade de Macau.A copia é fiel da carta chineza, que possuo, levando a mais só, em côr verde, as indicações que accrescentei, como esclarecimento.

Da Legenda ou "References" convêm extrahir o seguinte:
🔴 ...... "denotes villages, large and small"
🚩 ...... "points out those places, on this map, where H.E. the Superintendent of Customs has stations."
✡️ ...... "denotes those stations round Hongkong and Macao where there are war junks, or steamers stationed to collect the duty and war tax on opium—also shows the shore stations"

João Feliciano Marques Pereira nasceu em Macau a 17 de Maio de 1863, filho de Belarmina Inocência de Miranda, natural de Macau, e de António Feliciano Marques Pereira, natural de Lisboa. 
Ainda jovem, foi para Lisboa onde prosseguiu os estudos no Colégio Luso-Brasileiro e depois no Curso Superior de Letras. Ali, foi discípulo do prestigiado Adolfo Coelho e concluiu o doutoramento com distinção. 
A sua trajectória profissional foi marcada pelo serviço ao Estado. Começou por desempenhar funções no Ministério dos Negócios Estrangeiros, transitando em 1888 para o Ministério da Marinha e Ultramar. Em 1897 tornou-se secretário particular do Conselheiro Barros Gomes, então Ministro da Marinha. No campo político, representou o círculo de Macau como Deputado no Parlamento português. 
Morreu a 7 de Junho de 1909, com apenas 46 anos, enquanto ainda exercia o seu mandato legislativo. 
Seguindo os passos do pai, João Feliciano foi uma figura central na preservação da memória histórica luso-chinesa. Em 1899, fundou a revista “Ta-Ssi-Yang-Kuo: Archivos e Annaes do Extremo-Oriente Português” (publicada até 1903), cujo título homenageava a publicação homónima fundada pelo seu progenitor no ano do seu nascimento. Como jornalista e cronista, utilizou o pseudónimo Fernão Lopes para assinar crónicas ultramarinas no Jornal do Comércio. Colaborou também activamente com a Revista Colonial e Marítima e dirigiu diversas outras publicações técnicas e literárias. Em 1906, com a criação da Escola Colonial, assumiu a cátedra como professor efetivo de Legislação e Administração Ultramarinas. 
O seu mérito intelectual foi amplamente reconhecido através de diversas honrarias: 
Oficial da Ordem de S. Tiago: Pelo seu contributo científico, literário e artístico.
Sociedades Científicas: Foi membro honorário da Real Sociedade Asiática de Paris, vogal da Real Associação de Arquitectos e Arqueólogos Portugueses e sócio correspondente do Instituto Arqueológico e Geográfico Pernambucano.
Comissões Técnicas: Em 1904, integrou a comissão oficial responsável por estudar o regime fiscal e de monopólios de Macau.

sexta-feira, 15 de maio de 2026

Um "comício" em 1909

Resultado do Comício
Hontem, cerca das 4 horas e um quarto, nos Paços do Concelho d'esta cidade, realisou-se o anunciado comicio publico para versar questões momentosas relativas á salvação de Macau e para se pedirem urgentes providencias ao governo da metropole.
Por proposta do sr. Fernando de Menezes, foi eleito por acclamação o sr. dr. Luiz Nolasco para presidente, o qual escolheu o sr. Francisco da Silva para secretario.
Constituida a meza, o sr. dr. Luiz Nolasco expoz, em rapidas palavras, o fim da reunião e convidou os presentes a usarem da palavra.
O primeiro a inscrever-se foi o sr. Pedro Nolasco da Silva, que se demorou cêrca de meia hora a explanar as suas ideias em defeza da seguinte moção:
Encarregar o presidente do comicio de mandar um telegramma ao ministro do ultramar pedindo o seguinte:
A vinda urgente do commissario da delimitação.
Conceder ao governador plenos poderes para remodelar a administração local com execução immediata.
Ultimar as negociações do caminho de ferro de Macau a Cantão.
Ratificar o tratado luzo-chinez de 1904.
Dar começo immediato ás obras do porto.
Findo o que, recebeu uma salva de palmas.
Seguiu-se-lhe o sr. dr. Manuel da Silva Mendes, que empolgou o auditorio com a sua voz sonora e argumentação cerrada, concluindo por secundar as ideias e a moção do sr. Pedro Nolasco.
Falou depois o sr. Sio-tang, um dos maiores capitalistas chinas de Macau, o qual teceu largas considerações sobre a decadencia de Macau e terminou por secundar a ideia do sr. Pedro Nolasco de se pedir ao governo da metropole para conceder ao governador da provincia amplos poderes para reformar os serviços publicos d'esta colonia.
O discurso d'este orador foi em seguida habilmente traduzido pelo sr. Carlos d'Assumpção.
in Jornal Vida Nova 2.5.1909
Largo do Senado e Leal Senado ca. 1900


quinta-feira, 11 de dezembro de 2025

Carta registada de 1904

Carta registada em Macau a 11 de Outubro de 1904. A franquia no total de 36 avos, foi feita por um selo de 18 reis sobre 80 reis D. Luis e outro selo de 18 reis sobre 200 reis, D. Luis. Seguiu pelos vapores alemães (German Mail) para Bombaim, tendo feito trânsito em Hong Kong a 11 Outubro - no mesmo dia em que saiu de Macau - e chegado à Índia a 27 de Outubro de 1904. Tem ainda a indicação do que parece ser o navio que transportou a carta de Macau para Hong Kong.

terça-feira, 9 de dezembro de 2025

Poço público no Largo do Senado

Até meados do século 20 as fontes e os poços (públicos e privados) foram cruciais para garantir o abastecimento de água potável. Num relatório de 1905 informa-se que na freguesia de Santo António havia 59 poços públicos e particulares, na da Sé 50 poços públicos e 407 particulares e em S. Lourenço 19 poços públicos e 121 particulares.
" (...) a água para consumo é fornecida na sua maior parte por pôços, espalhados um pouco por toda a cidade e dentro das habitações, e que, segundo um estudo recentemente feito, deveriam ser quasi todos atulhados por inconvenientes para a saude publica."
Álvaro de Melo Machado in Coisas de Macau, 1913
Nas imagens o poço público localizado no Largo do Senado que existiu até ao primeiro quartel do século 20 sendo substituído por um fontanário.
“Não há em Macau nenhum curso d´agua. Todas as aguas do consumo provem dos poços, mais ou menos profundos, que existem em grande profusão e em toda a parte. As fontes da Inveja, da Flora e Solidão, provenientes da infiltracção das chuvas na colina da Guia, e a Bica de Lilau, situada na base da Penha, fornecem agua potavel a um numero limitado de habitantes. Na estiagem o povo serve-se da agua da Lapa trazida em barcaças.”
J. Antonio Filipe de Moraes Palha in Macau e a Saúde Pública: elementos historicotopograficos, climaticos, demograficos e nosograficos, 1917

Curiosidade: 
Existiam também inúmeros poços privados. Para facilitar a tarefa dos bombeiros em caso de incêndio na entrada dos edifícios privados que tinham poço, ao lado do número de polícia, tinha de ser colocado também o símbolo - P. 井- (poço em português e em chinês). Ainda hoje podem ser vistos...

segunda-feira, 8 de dezembro de 2025

"The most idyllic and peaceful place in the Far East"

Hermann Graf Keyserling (1880-1946) foi um escritor e filósofo alemão. Cursou as Universidades de Genebra, Tartu, Heidelberga e Viena. Viajou pelo mundo em 1911 e dessa viagem resultou um de seus livros mais conhecidos Das Reisetagebuch eines Philosophen" / "Diário de Viagem de um Filósofo", publicado em 1919.
A edição em inglês surgiu em 1925 sob o título "The Travel Diary of a Philosopher". Macau surge no Vol. 2 - "To the Far East - China - Japan - To the New World - America", pág. 42 a 51. 

Excertos:
"Macau
I have escaped from the busy turmoil of Canton into the most idyllic and peaceful place which exists in the Far East. I have reached the delightfully situated Macau where Camoëns completed his Lusiadas. To what a remarkable extent the atmosphere of China has taken possession of me. As a matter of course the reaction against city life expresses itself in my soul by quietistic thoughts à la Laotse and Djuang Tse for there can be no doubt that the extreme form of the quietism of these men must be understood as a reaction against the extremes of sociability and bustle which characterised China even in their day.
When I re read their writings here then I feel as if I were listening to the echo of my own self. The same moods in Indian or European colouring would strike me as heterogeneous nay even as tactless. What is it which gives its special character to Chinese mysticism? Certainly not its meanings, its substance in this direction it agrees with the wisdom of all peoples of all time. It is partially its method of expression. I will not expand further on this subject as it is a direct function of the Chinese system of writing. In just the same way Taoistic philosophy does not express definite thoughts so much as their ultimate significance. And since this significance alone partakes of immortality whereas all conceptual embodiments must pass away sooner or later this fact brings about an absolute superiority of the Chinese expressions of supreme truth they alone will continue to live as they stand that which can be said of other literatures only in the case of some rare sentences applies in principle to all the expressions of Chinese wisdom.
But I am not concerned to day with these objective things I am too tired after Canton too needful of rest. And then Macau is much too beautiful for me to enjoy the examination of abstract (...)
"Praya Grande, Macao" Postal ca. 1910 M. Sternberg

I like the Chinese here ever so much more than I did those of Canton. The tradesmen of course cheat me with equal success here as there but that is not the point in the Chinese quarter of Macau; the same atmosphere predominates which is so homely and attractive in the style of Kung Fu Tse it is the atmosphere of a cheerful bourgeois existence possessing an extreme sense of form. (...)
At night time I occasionally visit one of the famous gambling hells and amuse myself with the fan-tan. There can hardly be anything more calm and peaceful than such a hell Gamblers almost always look earnest and professional, but I have never observed anywhere such cheerful equanimity as in Macau. The game in itself is infinitely dull; the player at best can only win very little; the bank must in all circumstances win a great deal. The Chinaman however goes home calmly and placidly after he has played away his daily wage. He rocks himself at most if he has lost too much in sweet opium dreams to comfort himself. (...)

domingo, 23 de novembro de 2025

O "Sui-An" da "Hong Kong-Macao Line"

Um dos navios que no início do século 20 assegurava a ligação entre Macau e Hong Kong.
Um testemunho de um viajante no Sui An pode ser lido aqui.
 




domingo, 9 de novembro de 2025

Postal do "Boa Vista Hotel, Macao" circulado em 1910

Postal do "Boa Vista Hotel, Macao" impresso em Hong Kong. De acordo com os carimbos, foi enviado de Macau a 7.11.1910. Chegou a Lisboa um mês depois, a 8.12.1910, e ao destinatário em Montalegre, dois dias depois, a 12.10.1910.

sexta-feira, 7 de novembro de 2025

Foto-legenda: Correios e Hotel na Praia Grande início séc. 20

A fotografia - colorida com recurso a IA - mostra uma vista parcial da Praia Grande no início do século 20. Corresponde à zona que actualmente vai do Hotel Metrópole ao Banco da China (cruzamento da Praia Grande com a Av. Almeida Ribeiro, frente ao BNU). 
O edifício à esquerda albergava na altura o serviço de Correios (construído em 1881 e demolido em 1916) e onde está actualmente o Hotel Metrópole. A palavra Correios em português e chinês está inscrita ao centro desta forma -邮 Correios 局, logo abaixo do símbolo da monarquia portuguesa. 
No edifício à direita funcionou desde a segunda metade do século 19 um hotel que ao longo dos tempos foi tendo vários nomes: Hing Kee Hotel, Macao Hotel (desde 1903), New Macao Hotel (desde 1914) e Hotel Riviera (desde 1928). Encerrou em 1969 e foi demolido em 1971. Por cima de uma das arcadas no piso térreo pode ver-se a placa que identifica o hotel.

 

PS: Em breve publicarei imagens inéditas e exclusivas de Pedro Leong Hing Kee, o homem que mais tempo esteve à frente dos destinos deste hotel, cerca de 25 anos entre o final do seculo 19 e os primeiros anos do século 20.

domingo, 27 de julho de 2025

Anúncio "Lições de Pintura"

Este anúncio de "Lições de Pintura para damas e cavalheiros" foi publicado em 1919. É o ano da chegada a Macau de Manuel Antunes Amor. Um homem de muitos talentos. Foi professor - chegou a Macau nessa qualidade com a missão de reformular o sistema de ensino local - fotógrafo, pintor e cineasta. 
PS: por razões técnicas não foi possível disponibilizar este post ontem. 

segunda-feira, 14 de julho de 2025

"Praya Grande": the "chief promenade"

O postal dos início do século 20 retrata um amplo passeio arborizado que ladeia a Baía da Praia Grande. A presença de um muro baixo a separar o passeio da água e o aspecto geral de uma via pública, incluindo os bancos de jardim, estão perfeitamente alinhados com a caracterização da Praia Grande como o "principal passeio" de Macau no século XIX.
The postcard from early 20th century depicts a wide, tree-lined promenade running alongside Praia Grande Bay. The presence of a low wall separating the walkway from the water, and the general appearance of a public thoroughfare, including the garden benches, aligns perfectly with the report's characterization of Praia Grande as the "chief promenade" of 19th-century Macau.
Duas impressões - a cores e a preto e branco - para a mesma imagem, uma vista parcial da baía da Praia Grande - zona central - junto a um fortim (S. Pedro).

Two prints - color and black and white - for the same image, a partial view (central area) of Praia Grande bay next to a small fort (S. Pedro).