sexta-feira, 25 de setembro de 2009

Um Retrato Caleidoscópico de Macau (séc. 19) por Jules Dumont d'Urvillle

O contra-almirante francês Jules Sébastien César Dumont d'Urvillle (1790-1842) começa a sua carreira como botânico e linguista e em 1807 integra a tripulação do L'Aquillon, onde inicia a sua formação profissional como 'noviço' até se tornar aspirante em 1809. Em 1821, sendo já tenente, planeia, juntamente com Louis Isadore Duperrey, uma expedição científica nos oceanos Atlântico e Pacífico, que vem a acontecer a bordo da corveta Coquille, comandada por este último, sendo d'Urville segundo-comandante.
A viagem inicia-se em Agosto de 1822 e dura três anos, chegando a Marselha em Janeiro de 1825. D'Urville parte de novo, em Abril de 1826, encarregue de encontrar o paradeiro da expedição do conde de Lapérouse, desaparecido há cerca de 38 anos durante a sua circum-navegação. A Coquille é rebaptizada de l'Astrolabe em honra do barco de Lapérouse, descobrindo d’Urville os destroços da embarcação que dera nome à sua num recife das ilhas Vanikoro, regressando a Marselha em 25 de Março de 1829. A narrativa da viagem é paga pelo Ministro da Marinha, sendo publicada em Paris no ano de 1835: Voyage de la corvette l'Astrolabe éxécuté par ordre du roi, pendant les années 1826, 1827, 1828, 1829 (13 vols.). Aos 50 anos, e após a sua última viagem, em 1840, o já contra-almirante d'Urville recebe, da Sociedade de Geografia francesa, uma medalha de ouro.
Na obra Voyage pittoresque autour du monde. Resumé Général des voyages de découvertes publié sous la direction de M. Dumont d'Urville, o navegador resume a sua estada em Macau, começando, tal como muitos outros visitantes, por descrever a população marítima e fluvial que observa à chegada ao enclave, onde avista desde logo os conventos, os fortes, acabando, com um certo pendor lírico, por personificar as casas de Macau que descem até, onde banham os pés. O viajante descreve posteriormente, tal como a maioria dos visitantes franceses que se devem influenciar entre si nos relatos de viagem, o ancoradouro da Taipa, a localização e o relevo da península, bem como a história do estabelecimento dos portugueses dentro da muralha com que os chineses delimitam o espaço luso de comércio e residência no Império do Meio. Desconhecendo o final do comércio da nau de trato, d'Urville, tal como muitos outros seus compatriotas que visitaram o enclave, apresenta como causa da decadência do comércio português local apenas a chegada dos rivais norte-europeus a Cantão, afirmando que os energéticos e empreendedores chineses construíram Macau. É também abordado o poder das autoridades mandarínicas que podem isolar a cidade, suspendendo o comércio e a entrada de víveres na mesma, poder esse que exercem sobre os portugueses. Mal desembarca, a tripulação pede guarida a um comerciante norte-americano e passeia pela Praia Grande, descrita no texto, tal como as construções de prestígio avistadas. No dia seguinte, a tripulação almoça com um inglês num local que “cheira a perfume de poesia antiga”, o quiosque ou pequeno observatório no Jardim da Gruta de Camões e visita as fortalezas. A narrativa descreve a guarnição militar do território, as lojas e os cemitérios chineses, a lei chinesa em caso de homicídio, algumas igrejas, os hospitais, as sinuosas e estreitas ruas do enclave, São Paulo, abordando o autor temas como a missionação francesa e a arte de enganar o cliente demonstrada pelos vendedores do mercado chinês.
O viajante descreve os portugueses que habitam as feitorias “fundadas por Albuquerque e Andrade, a miscigenação, o vestuário e a tez e a fisionomia dos homens e das mulheres da urbe, estas últimas antipáticas e reservadas, encontrando-se na rua cobertas por um véu transparente. D'Urville, tal como muitos outros visitantes estrangeiros, também enumera os pássaros do aviário de Thomas Beale, antes de descrever um passeio até à Taipa e uma festa chinesa por entre tambores, bandeirolas, templos, capelas e marinheiros que prestam culto às suas divindades. O texto refere ainda as chinesas aportuguesadas (“chinoises portugaisées”) e o facto de os chineses venderem as suas filhas aos portugueses, acabando as mestiças por trabalhar nos opiários. A importância do comércio do ópio para Macau é também referida, bem como os seus elevados lucros financeiros. O autor descreve igualmente o parco comércio português, a actividade das alfândegas portuguesa e chinesa, bem como a actividade do mandarim da Casa Branca e do governo português do território. Uma outra presença observada no enclave são os mercadores europeus e norte-americanos, que se estabelecem em Macau entre as 'épocas comerciais' de Cantão e que constroem e alugam luxuosas moradias. O retrato que d’Uberville nos apresenta de Macau é, portanto, caleidoscópico e de todo o interesse no que diz respeito ao estudo da vida social e do quotidiano da urbe oitocentista.
Texto de Rogério Puga

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