terça-feira, 15 de setembro de 2009

A diplomacia dos relógios: séc. XVI

Em 1581, o vice-rei de Cantão, pretendendo obter algumas das mercadorias chegadas da Europa, ordenou que o bispo de Macau, D. Leonardo de Sá, e o capitão-mor da cidade, D. João de Almeida, se apresentassem perante o seu tribunal em Zhaoqin – capital dos dois Guangs: Guangdond e Guangxi. Os cidadãos de Macau, não achando conveniente a ida das duas autoridades da cidade, enviaram em sua substituição o ouvidor Matias Panela e o jesuíta Michelle Ruggieri, que estava a aprender a língua chinesa com o propósito de se introduzir na China.
Entre os presentes que estes delegados de Macau levaram ao vice-rei constava um «relógio de rodas» que deixou maravilhado o mandarim. Este, por sua vez, entregou aos representantes de Macau uma certa quantia de prata para que lhe comprassem alguns objectos europeus que desejava possuir, mas quando chegou a altura de lhe levar a encomenda, o padre jesuíta encontrava-se muito doente, pelo que se encarregou o ouvidor de ir sozinho entregar as mercadorias.
Chegado à presença do vice-rei, o delegado de Macau explicou a ausência do padre Ruggieri e anunciou a presença em Macau de um outro padre (Matteo Ricci) que tinha trazido da Europa um relógio maravilhoso que tocava todas as horas. Foi o suficiente para que o vice-rei mandasse que o padre Ruggieri o fosse visitar assim que pudesse e levasse consigo o famoso contador de horas que tinha chegado da Europa. No dia 27 de Dezembro de 1582, Ruggieri e o seu confrade Passio chegaram à presença do vice-rei que, encantado com o relógio, os autorizou a construírem uma casa em Zhaoqin. Perante este sucesso, o mesmo padre Ruggieri pediu aos superiores-gerais que lhe enviassem de Roma «um relógio de ferro daqueles que têm os contrapesos dentro, que são do tamanho dum palmo, doirado, que será presente para dar ao rei da China».
Para vencer os obstáculos que, entre 1594 e 1601, se foram colocando às tentativas feitas por Matteo Ricci para entrar em Pequim e ser admitido na presença do imperador, este arranjou maneira de, em Junho de 1600, fazer chegar ao mesmo imperador um memorial em que, entre outros assuntos, lhe anunciava que levava vários relógios de diferentes tamanhos para lhe oferecer. Passados sete meses, o imperador ordenou que levassem à sua presença o estrangeiro que trazia consigo os sinos que tocavam sozinhos. Ricci, que passara esse tempo retido, perto da capital, sem poder entrar na cidade, pôde, no dia 24 de Janeiro de 1601, ser conduzido à corte imperial e apresentar os seus relógios. Como os Chineses não conheciam o funcionamento de tais máquinas, o imperador ordenou que Ricci ficasse na corte para ensinar os eunucos a conservarem tão preciosos objectos. Consta que a fama de Ricci como relojoeiro era tanta que, na China, a sua efígie, em forma de Buda, se encontrava exposta nas relojoarias.
Manuel Teixeira, Macau e a sua Diocese. A Missão da China, 1977
Mapa mundo feito por Ricci na China

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