quinta-feira, 24 de setembro de 2009

Um Jornalista Inglês em Macau: Sir Henry Norman (1858-1939)


O jornalista inglês Sir Henry Norman (1858-1939) participa em diversas comissões internacionais de pesquisa sobre o desenvolvimento das emissões radiofónicas transoceânicas e desempenha funções nas direcções editoriais das publicações Pall Mall Gazette, News Chronicle e London Daily Chronicle, abandonando o jornalismo em 1899.
Norman viaja pelo Norte da América e pelo Oriente e torna-se membro do Parlamento inglês, pelo Partido Liberal (1900-1923), funda o World’s Work, em 1902, e desempenha ainda funções relacionadas com as telecomunicações (director do War Office Committee on Wireless Telegraphy, 1912), publicando obras como The Preservation of Niagara Falls (1882), The Peoples and Politics of the Far East (1895) e The Real Japan (1902), entre outras.
Na narrativa The Peoples and Politics of the Far East: Travels and Studies in the British, French, Spanish and Portuguese Colonies, Siberia, China, Japan, Korea, Siam and Malaya (edição ilustrada com fotos do autor e com mapas, Londres, 1895) o viajante descreve Macau (cap. XII), “o farrapo lusitano”, como uma cidade decadente, onde até a filha do rei de Portugal apenas permanece doze horas, preferindo voltar para Hong Kong. Mas de acordo com o autor, a cidade não é um local “assim tão mau”, referindo a Praia Grande, os fortes portugueses, os montes que parecem formar um anfiteatro, a catedral “pitoresca”, o hospital militar e as casas caiadas com venezianas verdes, elementos que o levam a comprara Macau a uma vila espanhola ou italiana.
O viajante descreve ainda as embarcações que se encontram ao largo da cidade e as sessões musicais da banda filarmónica nos jardins públicos, afirmando que Macau é um pequeno paraíso para o atarefado corretor ou comerciante de Hong Kong, “onde o ar é fresco, os montes são verdes” e o jogo (fan-tan) um passatempo quotidiano O texto refere ainda o glorioso passado do enclave, os “mestiços” que agora emigram para Hong Kong, a lotaria, o comércio do chá adulterado, os impostos portuários, a fábrica de cimento, a venda de selos de correio procurados por filatelistas de todo o mundo, bem como os problemas económicos e sociais que o território enfrenta. Um “memorial” clássico, a Gruta de Camões, poderá salvar Macau do esquecimento total, apesar de não se encontrar na cidade à venda um único exemplar da epopeia, que de acordo com o autor, fora aí parcialmente redigida.
O viajante conclui que a cidade é o Mónaco do Oriente, pagando a associação dos proprietários chineses ao governo português 150 mil dólares anuais pelo monopólio do jogo, pois o chinês é “o maior jogador do mundo”. Norman transcreve ainda uns versos da autoria de S.[oares] de Passos, gravados em mármore sobre uma arcada e que exortam a nação portuguesa a acordar e a caminhar rumo ao futuro, tal como fizera anteriormente, apelo que o jornalista considera tardio, pois Portugal já teve a sua glória oriental e Macau, ofuscada pela vizinha Hong Kong, não é um monumento digno da memória e glória lusas. O jornalista inglês apresenta, portanto, uma imagem subjectiva, porque pessoal, e negativa do enclave.
Texto de Rogério Puga - o capítulo sobre Macau (XII) intitula-se The Lusitanian Thule e tem 7 páginas.

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