sexta-feira, 25 de setembro de 2009

Macau e a Guerra do Ópio: As Memórias de John Elliot Bingham

O tenente inglês John Elliot Bingham participa na Guerra do Ópio a bordo da corveta HMS Modeste e permanece em Macau durante a mesma altura que o famoso capitão Charles Elliot. Bingham entra ao serviço da Marinha inglesa em 1820 e é promovido a comandante em 1841, sendo autor da obra Narrative of the Expedition to China from the Commencent of the War to its Termination in 1842 with Sketches of the Manners and Customs of that Singular and Hitherto Almost Unknown Country (2 vols., 1841) que descreve a captura de Cantão e inúmeras batalhas navais, bem como, no capítulo 4, Macau, onde o militar inglês permanece algum tempo.
O autor começa por descrever a posição geográfica da península, a chegada dos portugueses à mesma e o seu estabelecimento, sobretudo a construção da muralha das Portas do Cerco. O viajante, contextualizando um dos episódios bélicos entre ingleses e chineses, afirma que a Taipa e os restantes ancoradouros do território foram, até aos conflitos sino-britânicos, considerados neutrais, e descreve o uso que os chineses fazem do enclave durante a Guerra do Ópio. São ainda descritos o poder e a vigilância dos chineses (Mandarim da Casa Branca) na cidade, podendo os portugueses apenas governar os seus compatriotas e os demais residentes ocidentais através do governador e do Senado, cujas funções, direitos e deveres são igualmente apresentados. As casas, algumas das quais ao longo da “Praya Grande”, são descritas como robustas, cobertas de cimento branco, ladeadas por estreitas ruas com pavimentos horríveis, perguntando-se o viajante: “Em que outra cidade portuguesa não é assim?”.
A urbe é considerada a mais europeia do Oriente português, contando com cinco fortes inexpugnáveis e treze igrejas onde reina o fanatismo dos padres, tratando-se de um olhar protestante sobre Macau que descreve igualmente o espaço chinês, com o seu confuso labirinto de vielas em que se acumulam uma corrente de comerciantes e compradores.Os passeios a pé e a cavalo dos ingleses, o comércio decadente, as rendas elevadas cobradas aos estrangeiros são também referidos, bem como a população (trinta e cinco mil habitantes, dos quais apenas cinco mil são súbditos portugueses, que se casam com chinesas), concluindo o visitante que o comércio de Macau beneficiou com a Guerra do Ópio, pois os vendedores de Cantão abriram lojas no enclave: “O novo estabelecimento de Hong Kong, em crescimento, retirará brevemente a Macau a sua última esperança comercial, e a cidade tornar-se-á apenas uma recordação daquilo que já foi.”Bingham transcreve ainda frases em Chinese Pidgin English proferidas por comerciantes chineses (“Can sendee, then catchee tolha”), adensando assim a cor local da sua descrição através do registo linguístico. Entre muitos outros militares referidos pelo viajante, encontra-se o capitão Sir Edward Belcher (1799-1877), comandante de uma expedição da Marinha Real inglesa ao Sul da China em Dezembro de 1840, durante a Guerra do Ópio.
Já após a fundação de Hong Kong, as tripulações inglesas descansam em Macau, que serve de “hospital” e local de descanso para os residentes ingleses de Hong Kong, pois, como Bingham afirma na sua narrativa, fora alugado na cidade um edifício amplo para ser convertido em hospital naval, existindo ainda um outro hospital financiado por subscrição pública da Medical Missionary Society e que assiste ocidentais e chineses. Dignos de menção são ainda as várias construções do Templo de A-Má e a Gruta de Camões, visitados por todos os estrangeiros, sendo o aspecto deste último monumento criticado e longamente descrito. Breves apontamentos etnográficos familiarizam ainda o leitor/futuro visitante com a cultura das tancareiras (caso o primeiro queira fazer um passeio fluvial marcado pela presença feminina), com o Ano Novo Chinês, com o vestuário dos nativos, o jogo, o teatro chinês, os guarda-nocturnos, os diversos vendedores ambulantes, os produtos comercializados e as formas de os vender, os pedintes e os malabaristas que constituem o quadro humano descrito e que marcam presença em muitas outras descrições inglesas de Macau.
Texto de Rogério Puga no jornal Hoje Macau 23-06-2009

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