sábado, 14 de dezembro de 2019

Charles Boxer: soldado, historiador, professor, coleccionador e viajante

Já aqui escrevi várias vezes sobre o britânico Charles Boxer (1904-2000), mas nunca é demais recordar aquele que é considerado o maior historiador estrangeiro da expansão portuguesa. Boxer começou tarde nesta actividade. Tinha 43 anos. Antes estivera na carreira militar ao serviço de sua Magestade (desde 1924). 
Em 1963, então professor da Cátedra Camões no King's College London, com 59 anos, publicou um livro que causou furor em Portugal, numa altura em que emergiam os movimentos nacionalistas contra o domínio colonial português. 
Trata-se da obra "Race relations in the Portuguese Colonial Empire, 1415-1825". Seria apenas traduzida para português em 1977: “Relações Raciais no Império Colonial Português 1415-1825” e aborda o período que vai desde o início da expansão até à independência do Brasil.
A obra foi o resultado de três conferências proferidas na Universidade da Virgínia, (EUA), em Novembro de 1962: "Morocco and West Africa", "Moçambique and India" e "Brazil and Maranhão". 
Nesses ensaios, Boxer que era  considerado um historiador moderado, empirista, distante das teses marxistas em voga na época, diz na prática que o não racismo na história  do colonialismo português era um mito. Escreve ele: "Os portugueses não eram anjos nem diabos; eram seres humanos e agiam como tais; sua conduta variava muito de acordo com o tempo, lugar e espaço." Era bem relacionado nos círculos intelectuais portugueses mas esta posição faria como fosse posto à margem durante muitos anos.
Curiosamente Macau não faz parte da obra, um território cuja história nesta altura já Boxer conhecia muitíssimo bem, tendo publicado vários livros. A razão é simples. Para Boxer o processo histórico macaense era único, pelo que deveria ser estudado fora do âmbito colonial.


Charles Ralph Boxer nasceu na ilha de Wight em 1904, descendente de uma família com grandes tradições militares, do lado paterno. Ele e o irmão frequentaram as academias militares de Wellington e Sandhurst. Foi Oficial ao serviço da Coroa na Irlanda do Norte, e segue para o Japão em 1930, uma viagem marcante.
Admira e partilha a estrita disciplina dos soldados japoneses, inicia-se na filosofia zen e pratica artes marciais.
Em 1936 está estacionado em Hong Kong e aproveita para viajar pela região, investigando fontes, pesquisando em bibliotecas, comprando livros, coleccionando moedas e outras antiguidades. É nesta altura que vai a Macau.
Torna-se amigo do padre Manuel Teixeira, uma das figuras incontornáveis da história de Macau, dirá dele o seguinte:
"Um dia perguntei-lhe qual era a sua religião. Ele respondeu-me: 'Do pescoço para cima sou episcopaliano, mas do pescoço para baixo sou mórmon!"
Tinha muita facilidade na aprendizagem das línguas. Dominava o japonês, o português, o holandês, o espanhol, o alemão e o italiano.
Quando o Japão invade Hong Kong em Dezembro de 1941 (faz agora 78 anos) Boxer está à frente dos serviços secretos da então colónia britânica. É gravemente ferido em combate e torna-se prisioneiro de guerra.
Desiste da carreira militar como major em 1947 - quando lhe é oferecida a cátedra de Camões em Londres - e passa a dedicar-se em exclusivo à história.



Em cima um dos muitos livros sobre Macau - The Great Ship from Amacon (1959)  - da autoria de Boxer, e ainda a sua assinatura e ex-libris.
Sugestão de leitura: 
Charles Boxer, an Uncommon Life: soldier, historian, teacher, collector, traveller"
de Dauril Alden, James S. Cummins e Michael Cooper.
Edição F. O., 2001
Desde o início Boxer sempre se perguntou como é que um pequeno reino na cauda da Europa tinha sido capaz de construir e manter um império durante tantos séculos? 
Macau foi uma das primeiras 'parcelas' desse império e a de maior longevidade (até Dezembro de 1999).
Quando deixou de escrever, em 1984, Charles Boxer era autor de mais de 350 livros e artigos. Muitos deles sobre Macau.
Morreu no ano 2000 com 96 anos.
Algumas das obras sobre Macau:
- Um memorial da cidade de Macau há trezentos anos, Escola Tipográfica do Orfanato, 1937 
- A derrota dos Holandeses em Macau no ano de 1622: subsídios inéditos, pontos controversos, informações novas, Escola Tipográfica de Orfanato, 1938 
- A propósito dum livrinho xilográfico dos Jesuítas de Pequim, século XVIII: ensaio histórico, Imprensa Nacional, 1947
- The Great Ship from Amacon: Annals of Macao and Old Japan Trade, 1555-1640, Centro de Estudos Históricos Ultramarinos, 1959

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