segunda-feira, 11 de maio de 2009

Gago Coutinho e Sacadura Cabral


Em 1922 Gago Coutinho e Sacadura Cabral alcançaram o Brasil, por via aérea, pilotando o hidrovião Fairey III-D “Lusitânia”. A viagem ficou para a história como a “Primeira Travessia Aérea do Atlântico Sul”. E o que é que isso tem a ver com Macau estarão a pensar? Tudo, ora leiam.
Estes aviadores propuseram-se fazer logo a seguir uma volta ao mundo (só não terá sido consumada porque Sacadura Cabral faleceu em 1924) mas para isso era preciso dinheiro, muito dinheiro. O feito conseguido grangeou-lhes muita fama e estima junto dos portugueses a ponto de terem surgido diversos movimentos de subscrição de apoios junto dos portugueses para financiar a aventura. Macau não foi excepção.
Eis o teor de um folheto emitido em Macau:
“O semanário “A Patria” toma a iniciativa de abrir uma subscrição entre todos os portugueses de Macau e as comunidades macaenses dispersas pelos Portos da China e do Japão, a fim de auxiliar a viagem aérea em volta do mundo, projectada, pelos nossos distintos aviadores,
Sacadura e Coutinho. Trata-se de duma empresa, em cuja efectivação estão empenhados o nome e prestígio do País.Foi um Português o primeiro que circunnavegou o Globo; portugueses devem ser os primeiros a circum-aéronavegá-lo. Poderá, pois, algum compatriota nosso desinteressar-se da arrojada tentativa, cujo exito está de antemão assegurado pelos nomes gloriosos que nela figuram? Alguem que a não acompanhe com imenso carinho e simpatia e não lhe preste todo o seu apoio e concurso?
Certamente que não! Conhecemos bem os sentimentos patrioticos dos portugueses do Extremo-Oriente, para afirmarmos que nenhum deixará de acorrer ao apêlo, que lhe dirigimos. Os portugueses residentes no estrangeiro, em especial os nossos compatriotas do Brasil e dos Estados-Unidos, vibram de entusiasmo ao pensamento de que sejam portugueses os primeiros a fazer a viagem aérea em volta do Planeta. Por toda a parte, onde palpite um coração de português, se olha com enternecido orgulho para o feito grandioso, que ha-de cobrir de gloria o nome de Portugal. E só nós ficaremos indiferentes? Só nós cruzaremos os braços? Seremos nós a nota discordante no meio desta harmonia de pensar e sentir? Não pode ser! Não há-de ser!
Macau, esta jóia portuguesa lapidada pelos nossos maiores e conservada através das gerações pela fé e patriotismo de seus filhos, esta terra coberta de tantas tradições, que estão a apregoar o vigor daquela Raça de herois e de santos tão conhecidos do mundo inteiro, tem a obrigação moral de secundar os esforços, que neste momento todo o País emprega, para que Gago Coutinho e Sacadura Cabral – dois nomes que a história já registou numa página de ouro – consigam realizar o seu plano arrojado, já tentado em vão por outros povos.
Macau – e dizer Macau é abranger todas as comunidades portuguesas do Extremo-Oriente, que são um prolongamento desta linda terra – Macau deve, pois, associar-se a este movimento geral de entusiasmo, que lavra por toda a terra portuguesa. Trata-se duma obra nacional e, portanto, duma obra que tambem é nossa. E’ nossa pelos liames estreitos que nos prendem à Mãe-pátria, pela identidade de interesses entre todos os portugueses, pela gloria que dela ha-de vir para o nome honrado de Portugal. Gao Coutinho e Sacadura Cabral são o simbolo do valor da Raça. O prestígio dos seus nomes é o nosso prestígio; da gloria do seu feito compartilharemos nós. Não são dois indivíduos que vão empreender a viagem aérea. É todo o Portugal. É toda a alma da Patria. É todo o sentir dum povo.
Que nenhum compatriota nosso se esqueça, pois, do dever que o País lhe impõe nesta ocasião, em que o mundo inteiro tem os olhos sobre nós. Sois pobres? Dai pouco, mas dai. Sois ricos? Contribuí para esta obra. Fazei uma afirmação do amor, que consagrais ao vosso País. Mostrai que o patriotismo não é uma palavra vã, mas qualquer cousa que vibra dentro de nós e se exemplifica em actos, todas as vezes que é posto à prova.
Para vós, pois, apelamos! Temos a certeza antecipada de que todas as listas, que vamos enviar para os pontos onde residem portugueses, se cobrirão de assinaturas. Está aberta a subscrição. Houveram por bem patrociná-la distintas individualidades da Colonia, a quem apresentamos os nossos devotados agradecimentos, por se terem dignado apoiar a iniciativa de “ A Patria”.
São elas que constituem a seguinte Comissão
Dr. Rodrigo José Rodrigues – Governador de Macau – D. José da Costa Nunes – Bispo de Macau – General Manuel de Oliveira Gomes da Costa – Almirante Hugo de Lacerda Castelo Branco – Capitão de Fragata Luis António de Magalhães Corrêa – Dr. Alvaro Cesar Corrêa Mendes, Juiz de Direito – Dr. Alfredo Rodrigues dos Santos, Secretário Geral – Dr. Carlos Borges Delgado, Presidente do Leal Senado – Manuel Monteiro Lopes, Gerente do Banco Nacional Ultramarino e Tesoureiro da Comissão.
Em Macau, foram conseguidos 1794,21 dólares depositados no BNU numa conta especialmente aberta para aquele fim. O que terá sido feito ao dinheiro... ainda não descobri. Mas por certo o jornal A Pátria, publicado na época em Macau, deverá ter publicado a explicação.

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