sábado, 5 de abril de 2014

A revolução a mais de dez mil quilómetros de distância

O 25 de Abril apanhou Macau "de surpresa",  com o Governo local, a mais de dez mil quilómetros de Lisboa, a reconhecer a nova situação política em Portugal apenas quatro dias depois do golpe. Hoje coronel na reserva, Manuel Geraldes era, aos 23 anos, um jovem alferes, quando na madrugada de 25 de abril de 1974 participou na tomada dos estúdios da RTP, em Lisboa, sob o comando do capitão Teófilo da Silva Bento.  "É quase como se nos saísse a taluda: uma pessoa ter o privilégio de participar num acontecimento desses", disse Manuel Geraldes à agência Lusa em Macau, onde reside desde o final dos anos 1980.   
Palácio do Governo em 1973. Foto W.L.
Aquela que "foi uma noite especial" para Manuel Geraldes terá sido um dia normal para António Dias Azedo, então "um jovem estudante, no quinto ou sexto ano do Liceu Nacional Infante D. Henrique" de Macau. "Deve ter sido o meu pai - ele era polícia - que nos disse quando voltou do serviço", recordou António Dias Azedo, sem conseguir precisar o momento da notícia da revolução.   Mas a sua primeira reação foi de receio: "Falavam num golpe, numa revolução, depois é viemos a saber que era a revolução dos cravos, com poucas mortes."
 Advogado em Macau, António Dias Azedo estava em abril de 1974, "na fase do cabelotugal é reconhecida pelo Governo de Macau a 29 de abril de 1974, o mesmo dia em que, segundo relata a Gazeta Macaense, o arquiteto José Maneiras declamou a "liberdade" de Manuel Alegre na Assembleia Legislativa onde era vogal. "No meu país há uma palavra proibida/ Mil vezes a prenderam mil vezes cresceu/ E pulsa em nós como o pulsar da própria vida", bradou José Maneiras, jubiloso por o poema conter já "verdades do passado".    
Molhe no Porto Exterior: ao fundo o hotel Lisboa e o edifício residencial dos CTT
(de Manuel Vicente - já demolido)
Em "Macau nos Anos da Revolução Portuguesa 1974-1979", Garcia Leandro escreve que a Revolução dos Cravos apanha Macau de surpresa e deixa uma população portuguesa - europeia e macaense - dividida. "Os mais velhos, com maiores responsabilidades e interesses locais, sentiram-se quase perdidos, levantando muitas interrogações quanto ao futuro. Os mais novos aderiram rapidamente à revolução", sustenta aquele que viria a ser o primeiro governador de Macau no pós-revolução, sucedendo a Nobre de Carvalho. No seu livro, Garcia Leandro recorda a nova realidade de Macau com o fim da censura nos jornais em língua portuguesa - a chinesa nunca terá estado sob o lápis azul, segundo o autor - e a formação de movimentos associativos ligados a partidos políticos em Portugal. 
Mas para estudantes como António Dias Azedo, a Revolução dos Cravos trouxe o fim das "paradas enfadonhas" da Mocidade Portuguesa e mais alunos de Portugal para os bancos das escolas de Macau, com mais liberdade "no vestir, no estar e no pensar".  "Os rapazes começaram a fumar mais e as meninas subiram um bocado as saias. As festas duravam até à meia-noite. O pessoal e os professores começaram a ter mais barba, mais bigode, mais cabelo, não é?", atirou, entre risos.   
No 25 de Abril, António Dias Azedo tinha 16 anos, os mesmos com que Manuel Geraldes assistiu, pela televisão, a comemorações do Estado Novo, realizadas em Braga, sem saber que viria a participar na viragem do regime quase uma década depois.  "Eram umas comemorações de uma formalidade tremenda, e de pessoas velhas, mas hoje, ver a juventude participar espontaneamente nas celebrações do 25 de Abril? De facto, não pode haver melhor para nos sentirmos felizes e compensados por algum risco da nossa participação na revolução", afirmou Manuel Geraldes.  "Valeu a pena, sem dúvida", rematou. 
Artigo da agência Lusa (FV/NS/PJA) de 3.4.2014  
Baía da Praia Grande em 1973/74 com destaque para o Liceu e os hotéis Lisboa e Sintra (ainda em construção)
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