sexta-feira, 13 de dezembro de 2019

O Ópio em Macau e a Sociedade das Nações

Na sequência do final da primeira guerra mundial (1914-1918), a 10 de Janeiro de 1920 entra em vigor o Pacto da Sociedade das Nações simultaneamente com o Tratado de Paz de Versailles. Portugal foi membro fundador da Sociedade das Nações (SDN), tendo assinado o Pacto em Sèvres em 10 de Agosto de 1920.

Uma das questões de maior relevo para a política ultramarina portuguesa no âmbito da Sociedade das Nações foi a realização das conferências sobre o ópio, cujo consumo mundial atingira proporções que justificavam a internacionalização da discussão sobre o tráfico. Assistiu-se à pressão de alguns Estados (a China e os EUA, sobretudo) como da própria opinião pública, razão pela qual a SDN se tornou palco para tentar encontrar soluções para o problema. Em 11 de Janeiro e 19 de Fevereiro de 1925 foram assinadas duas convenções sobre ópio preparado, ópio bruto e outros estupefacientes, respectivamente para controlar o contrabando de ópio.
Aquando da aprovação das convenções, Portugal foi acusado de assumir uma posição dúbia relativamente ao consumo de drogas, sobretudo quando se tratava de Macau.
A acusação foi considerada injusta e infundada pelo governo português. Na sequência dos compromissos assumidos internacionalmente e no início de 1929 foi feito um levantamento de dados sobre o consumo de drogas em todos os territórios portugueses, os quais, foram posteriormente enviados para a SDN.
Sobre este tema publico abaixo um artigo de 1925, da autoria de Artur Tamagnini de Sousa Barbosa (1880-1940), que foi governador de Macau por três vezes: entre 1918 e 1919, de 1926 a 1930 e entre 1937 e 1940.
O Ópio em Macau e a Sociedade das Nações
"O convénio, que nos garantiu a importação do opio da India Ingleza em Macau, terminou em Julho de 1923. A receita proveniente do opio a esta colonia que, no ano de 1918, em arrematação, quasi alcançou sete milhões de patacas, foi, desde que deixámos o governo, diminuindo extraordinariamente: em Dezembro de 1919 não chegou a alcançar em praça seis milhões; em Agosto de 1920, apezar de não atingir quatro milhões, não poude o arrematante manter a venda por muito tempo, alegando, entre outras, as dificuldades derivadas, especialmente, do contrabando sahido das colónias francezas vizinhas, que o impedia, pelo preço e quantidade, de continuar a fabricar em Macau o opio importado da lodia. O facto trouxe como consequencia ainda uma nova diminuição desta receita; e agora, do importante rendimento chegado a cobrar em 1918, não aufere a Colonia dois milhões de patacas!
D'aqui resulta que o orçamento de Macau, a continuar este decrescimento, terá de produzir um deficit, que não sabemos até onde poderá ir. É indispensável, pois, que Macau possa continuar contando com a receita proveniente do opio para os seus melhoramento,, sem que o seu orçamento entre num regime não deficitário. Entretanto, irá provando que é excelente a aplicação dada á tão discutida imoralidade portugueza do extremo oriente. E todas essas injustiças que se levantam contra nós apertando-nos numa cadeia, cada vez maior, de dificuldades para administrarmos o que é nosso e que conquistámos, não á custa de golpes de mão ou de subtilezas diplomáticas, mas de muito valor e e muito sangue perdido na repressão da pirataria, todas essas injustiças, dizíamos, forçoso é que desapareçam, despertando-se a consciência dos que se arvoram em nossos julgadores. 
Se sob muitos pontos de vista é necessário que a nossa diplomacia na S. D. N. triunfe, neste, que respeita ao problema do opio, é essencialíssimo. Vamos novamente encontrar uma oposição tenaz ao desejo de conservarmos a maior receita desta província de além-mar. Pois é razoável que todas as facilidades, neste sentido, nos sejam garantidas, pelo menos, durante mais doze anos, tempo reputado indispensável para Macau modificar completamente a sua vida. Se examinarmos os orçamentos das Nações e Colónias estrangeiras do extremo-oriente, interessadas na questão do opio, verificaremos que todas conseguem, pelo menos, equilibrar os seus orçamentos com receitas provenientes do opio. Portanto é justo supor que não irão pronunciar-se na S. D. N. pela formal condenação do opio, porque isso lhes traria um prejuízo considerável nas suas finanças. 
A própria China, que mais se salientou defendendo na Conferencia de Genebra a abolição da produção, fabrico e venda do opio, consome mais de um milhão de contos desta droga e cultiva a papoila em quasi todo o seu enorme território, sendo celebres os campos desta planta nas províncias de Kweichoro e Sbansi, onde há dois anos, se deu uma colisão entre militares e agricultores, de que resultou estes levarem a melhor e manterem as suas produções. O Dr. Aspland, secretário da International Society of Peking, diz, no seu relatorio de 1923, que a cultura da papoila na China is rapidly increasing (...), E acrescenta: Pouco ou nada se tem feito para limitar a produção, a despeito dos protestos do governo. Em Foochow uma das secções da International Anti-Opium Association informou os cônsules estrangeiros que em dois distritos do sul de Fúkien, as autoridades militares aplicam aos produtores de opio taxas que somam anualmente uma renda não inferior a quinze milhões de patacas! Seria inútil, pois, ao Dr. Szé representante da China na ultima conferencia, pretender provar que não é o seu paiz o principal responsável por este estado de coisas.
Os sentimentos humanitários, que levaram mais de 60 plenipotenciários a Genebra para libertarem a China do terrível veneno que contamina os seus milhões de habitantes, não devem ser superior aos da própria China; e se ela não quer ter a virtude da abstinência não sacrifique inutilmente os interesses alheios. Para a China a questão é mais de interesse nacional do que de virtude. Tendo sido interrompida a primeira conferencia em vista do desacordo provocado pela proposta americana, que pedia fosse abolida a importação de opio em 10 anos, por uma restrição anual de 10 º Lord Robert Cecil, na segunda conferencia, deu a conhecer a opinião do seu governo expressa nos seguintes termos: Aceita que o habito de fumar opio seja abolido nos territórios britânicos do Extremo-oriente num período de 15 anos a partir do momento em que se tornem eficazes as medidas tomadas para impedir o contrabando chinez. Escusado dizer que tais medidas não se poderão tomar eficazmente: o contrabando far-se-á através a extensíssima fronteira chinesa, e, daí, o opio nos territórios britânicos nunca será abolido. Quanto à França, a pretexto de ser indispensável equilibrar o orçamento da Indo-China, não dispensará o rendimento do opio e seguirá na esteira da Inglaterra.
Porque há de ser Portugal prejudicado, nos interesses daquela sua colónia, onde a grande parte dos rendimentos tem tido a mais salutar aplicação - em beneficio principalmente da população chineza - no saneamento de bairros e no combate de epidemias, a ponto de se ter tomado Macau a mais higiénica cidade europeia do Extremo-Oriente, como o provam os boletins de Saúde? E agora, porque se prepara o seu porto em condições de, por si só, dar todas as garantias de vida para a Colónia, é que se pretende eliminar um rendimento tão necessário para o seu orçamento?
Argumenta-se que tem havido ilícitos feitos á custa do opio. É possível; mas a repressão de tais delitos há de o Governo Português saber fazê-la e será um facto dentro em pouco. O interesse que toda a imprensa do nosso País está votando ás questões Coloniais, à sua administração e fiscalização, é também um penhor certo de que os delinquentes serão chamados á responsabilidade. Há quem tenha enriquecido ludibriando ou abusando da boa fé do Estado? A imprensa desvendará tudo e, aqui ou no Parlamento, garantimos, serão conhecidos os nomes dos que ostentam uma riqueza que lhes não pertence, por mais alto que tenham chegado.
Preciso é honrar o nosso património colonial, para que nos julguem bem no conceito das Nações. É quasi certo que a questão do opio volta a ser discutida agora na S. D. N. Como será colocada? Afigura-se-nos insolúvel o problema, embora a China continue a pedir a abolição do tratado de Napier; mas, se de qualquer modo os governos interessados chegarem a um acordo, isto é, se, sobretudo a Inglaterra, a França e a China conseguirem entender-se, que os nossos interesses no Extremo-Oriente mereçam ás grandes potencias particular carinho, por tudo quanto de útil representa para o Comercio do mundo a estrada que até ao Japão lhes abrimos, noutras eras, e os sacrifícios de sangue e de haveres, que nos esgotaram. 
Artigo da autoria de Artur T. Barbosa publicado na Gazeta das Colónia, 10.9.1925

quinta-feira, 12 de dezembro de 2019

Curiosidades sobre o Boletim Oficial: segunda metade século 19

Trata-se de um documento precioso para entender a história do território desde o século XIX. A sua origem remonta a 1836 quando em Portugal foi decretado que nas províncias ultramarinas se imprimisse um Boletim, cuja redacção ficasse a cargo do secretário do governo. Em Macau essa ‘ordem’ foi cumprida somente a partir de 5 de Setembro de 1838.
Ao longo do século XIX o Boletim Oficial do Governo de Macau teve diferentes designações - consoante Macau esteve ou não 'ligado' a Timor - e 12 diferentes 'cabeçalhos'.
Na imagem acima temos a primeira página do "Boletim Official do Governo de Macao" de 12 de Setembro de 1838. Composto por duas páginas incluía o relato dos assuntos mais importantes relativos à administração do território. Na primeira página surgiam os denominados assuntos oficiais. No caso, a adopção em Portugal e sua implicação para os territórios ultramarinos do novo texto constitucional aprovado pelas "Cortes" a 4 de Abril de 1838: Constituição Política da Monarquia Portuguesa. Na segunda página, reservada aos aspectos "não officiais" eram apresentados os "preços correntes" das mais diversas mercadorias: ouro, ópio, cânfora, canela, arroz, seda, etc.; a movimentação de embarcações nacionais e estrangeiras (a maioria brigues).
Nesta altura o Boletim ainda não tinha uma parte em língua chinesa como veio a acontecer a partir de Fevereiro de 1879 por ordem do Governador Carlos Eugénio Correia da Silva.
Voltando aos anos 30 do século XVII. O Boletim era impresso na "Typografia Macaense" e a redacção ficava na "Casa do Redactor" (M. M. D. Pegado) no Largo do Senado. Na verdade, a tipografia pertencia ao Dr. Wells Williams, mas para ser conforme a lei era o nome de Pegado que surgia. A subscrição pelo período de um ano custava 10 patacas "pagas addiantadamente".
É um documento repleto de curiosidades. Na segunda metade do século XIX tinha quatro páginas e era publicado ao sábado. A impressão era feita na "Typographia de J. da Silva" (que era também uma loja). O boletim era composto por uma "parte official" e outra "não official". Nesta última 'cabia' de tudo a um pouco, desde notícias de Portugal a pequenos contos e outros textos de índole literária. Também aqui se incluíam "toda a espécie de correspondencias, contanto que seja respeitada a moral publica e o Governo, e que não ataquem a vida privada de pessoa alguma, e que não dem lugar apolémicas desagradaveis e enfadonhas". Eram ainda admitidos "todos os avisos, editaes e noticias relativas a compras e vendas..."
A edição de "sabbado 22 de Fevereiro de 1862", por exemplo, corresponde ao nº 12 do Vol. VIII. A "assignatura por um anno" custava 8 patacas. A "seis mezes" custava 5 e a "três mezes" 3 patacas. Os chamados "avisos" (anúncios) tinham um custo de 1 pataca até 10 linhas. Caso excedesse estas 10 linhas, seriam cobrados 10 avos por cada linha adicional.

quarta-feira, 11 de dezembro de 2019

Illustrations of China and its People: 1873

"Illustrations of China and its People" - A Series of Two Hundred Photographs é o título de uma obra editada em 4 volumes em Londres em 1873 e 1874 por John Thomson
O primeiro volume é quase todo dedicado a Hong Kong e Cantão embora tenha também algumas páginas sobre Macau.
A passagem de Thomson por Macau deu-se por volta de 1868/1870. Tal como outros fotógrafos (e pintores...) do final do século XIX, Thomson optou por registar a zona considerada 'postal ilustrado' do território, a Baía da Praia Grande. Para isso tomou posição na zona da Penha, perto da ermida. Apesar de ter sido esta a fotografia seleccionada para este livro, não foi a única tirada por John Thomson em Macau.

Publicado no final do séc. XIX, o álbum foi feito através da técnica da calotipia, compreendendo mais de 200 fotografias obtidas por colódio húmido, tiradas em Macau, Hong Kong, Guangzhou, Shantou, Fuzhou, Xiamen, Taiwan, Shanghai, Ningbo, Nanjing, Sichuan, Tianjin, Beijing e Pequim, entre outros locais. 
Os negativos de vidro de Thomson seriam comprados em 1921 por Sir Henry Wellcome.


A calotipia, também conhecida por talbotipia (foi criada pelo inglês William Henry Fox-Talbot) baseava-se no principio do negativo-positivo. Ou seja, a partir de uma imagem negativa produzida pela câmara fotográfica produziam-se as cópias positivas da mesma.
Esta não era a técnica de impressão tradicional da época, mas foi a solução adoptada por Thomson. Era o método de impressão mais avançado na altura, capaz de produzir imagens de elevada resolução. Fontes da época garantem que para garantir uma boa impressão, era o próprio Thomson que supervisionava todo o processo conhecido como “impressão por chapa de vidro”.

A "Praya Grande" por Thomson. Ao fundo, do lado direito, a zona do Jardim de S. Francisco. A qualidade da fotografia é de tal ordem que se pode ver com muito detalhe o final da construção do Grémio Militar, inaugurado a 20 de Abril de 1870.
Excerto do texto (um resumo da história do território) que acompanha a fotografia da baía da Praia Grande:
(...) Macao was in its most flourishing condition shortly before the conclusion of the war with great Britain and the establishment of our colony at Hong-Kong.  It was just prior to these events that the best houses were erected, and the place gradually assumed its present picutresque appearance. The principal residences front the bay, round wich runs a broad carriage-drive, known as the Praya Grande, shown in the illustration. the inner harbour is on the north-west side of the peninsula, and here the oldest part of the town is to be found. A number of narrow dingy lanes lead from the Praya to the main streets in the upper part of the town; and here the houses wear an interesting, anique appearence, greatly marred, however, by a variety of bright colours with wich the owners daub their dwellings, alike regardless of simmetry and harmony of combination. To a European the effect is as distasteful as a glowing patch of carmine on the shrunken cheeks of a faded beauty. (...)"

terça-feira, 10 de dezembro de 2019

"Esquisse de la ville de Macao"

Numa edição de 1809 o "Journal général de la littérature de France" faz um recensão de uma obra "Voyages a Péking, Manille et L'iIe de France" da autoria de M. de Guignes e publicado um ano antes em vários volumes e incluindo várias gravuras e mapas (alguns usados neste post). Destaco a parte do texto em que se refere a passagem por Macau (vol. 2) nas viagens efectuadas entre 1784 e 1801.
"Carte de l'entre de Macao avec la route des vaisseaux pour se rendre à Wampou
et celle des bateaux du pays pour aller à Quanton"

Vista parcial do mapa acima mencionado 

"(...) Avant de donner le tableau de la Chine M de Guignes trace une légère mais suffisante esquisse de la ville de Macao qu il a si longtemps habitée. Cette ville de peu d étendue est défendue par quelques forls i par une muraille. Cent cinquante ripaies seulement en forment la garnison et elle suffit aux Portugais qui sont en paix avec les Chinois. Ces derniers qui en assez grand nombre habitent. Macao sont sous l'inspection d'un mandarin ce qui occasionne un conflit de juridiction très embarassant pour le gouverneur poriugais obligé à de grands mé nagemens par la dépendance où la circonscription du territoire de Macao le met du territoire Chinois doù l'on est obligé de tirer presque tout ce qui est nécessaire à la consommation journalière des habitans.
Les étrangers résident une partie de l'année dans cette ville et y répandent une assez grande quantité d argent surtout pour le loyer de leurs maisons Ils entretiennent peu de liaisons avec les Portugais et n out affaire qu au gouverneur et au procureur de la ville Les seuls plaisir à Macao sont ceux de la table lu jeu et de la promenade. Les Anglais comme y faisant le plus de commerce dépensent beaucoup et les autres Européens s efforcent de rivaliser dans ce genre avec eux. Tous quittent Macao en avril et septembre époque de l'arrivée des navires d Europe et se rendent à Quanton par l intérieurdu pays en suivant le cours dela rivière. (...)
Chrétien-Louis-Joseph de Guignes (1759-1845) - nasceu e morreu em Paris, França - tal como o pai, foi um orientalista/sinólogo. Entre as várias obras que escreveu contam-se dicionários: mandarim, latim e francês. 
Foi nomeado residente francês na China e cônsul entre 1783 e 1787. Dez anos depois, em 1794-95, foi intérprete da embaixada holandesa em Pequim.
No total viveu 17 anos na China, muitos deles em Macau. Existe registo de uma carta dele enviada de Macau logo em 1788.
Este livro é um relato bastante abrangente da estadia na China entre o final do século 18 e o início do século 19 e aborda os mais diversos assuntos: hábitos, indústria, negócios, profissões, comércio, etc...
No livro escreve assim sobre Macau:
(...) Macao n est pas d une grande étendue: la ville est défendue par quelques forts et par une muraille; cent cinquante Cipays servent de garnison et ce petit nombre est suffisant puisque les Portugais sont en paix et vivent tranquillement avec les Chinois.
Une assez grande quantité de ces derniers habitent Macao et sont sous l inspection d un mandarin ce qui occasionne un conflit de juridiction qui rend la place d un gouverneur Portugais très embarrassante et il faut beaucoup de prudence pour tenir un juste milieu avec des gens sur tout dont on dépend entièrement car le territoire de Macao est si circonscrit qu il ne peut fournir à la consommation journalière des habitans et que presque tout s y apporte du dehors.
Il ya à Macao plusieurs églises et quelques couvens dont un de femmes on s'étonne d'en trouver autant dans un espace aussi borné mais le zèle l'emporte sur les moyens. Les églises sont grandes simples et peu décorées car on ne peut parler des mauvais tableaux qui en couvrent les murailles.
Les Portugais s y rendent assidûment tous les dimanches pour entendre l'office et sur tout pour voir passer les femmes celles ci sont vêtues de noir et portent suivant leurs moyens la mante le sarace ou le dos ces deux derniers habillemens qui ressemblent à des espèces de manteaux couvrent absolument le corps.
Sous l'un de ces trois vêtemens une femme peut aller où bon lui semble sans crainte d être reconnue même par son mari. Les Portugaises de distinction se font porter en palanquin et mettent la mante mais celles dont la fortune est bornée se contentent d un coffre presque carré et peu élevé qu on nomme dans le pays Cayola cage à poufe.
J'avois de la peine à concevoir dans les commencemens que j'étois à Macao comment une personne pouvoit entrer dans une pareille voiture mais je remarquai qu avec l'habitude où sont les femmes en Asie de croiser leurs jambes elles pouvoient s'y placer facilement et même deux ensemble.
Les femmes portent communément des chapelets la plupart les ont en or et toutes se font suivre par un nombre plus ou moins grand de servantes.
Les Portugais se fréquentent entre eux et communiquent peu avec les étrangers les femmes vivent très retirées l'instruction est foible pour les hommes et bien davantage pour Ie sexe . Les habitans sont basanés ceux qui arrivent d'Europe ou qui descendent de particuliers venus de Lisbonne ont le teint plus clair en général le peuple n'est pas bien de figure c'est un mélange de Chinois d'Indiens et de Malays.
On rencontre dans les rues de Macao plusieurs femmes Chinoises elles portent presque toutes un parasol à moitié fermé qui sert à les garantir du soleil et des yeux importuns mais ces parasols se lèvent souvent sur tout; lorsque la femme Chinoise est jeune et jolie ou du moins croit l'être. II faut du temps pour s'accoutumer à leurs traits rien ne paroît plus extraordinaire en effet que de voir une femme avec des yeux étroits et alongés un nez retroussé mais peu saillant des pieds très petits y et marchant en chancelant.
Les hommes ont la même figure mais leur teint est plus rembruni. Les étrangers résident une partie de l'année à Macao et y répandent une assez grande quantité d argent sur tout pour les loyers de leurs maisons ils ont peu de liaisons avec les Portugais et n ont affaire qu au gouverneur et au procureur de la ville.
Pagode da Barra. Legenda original: "Pagode chinês situado à entrada do Porto (interior) de Macau"
Les seuls plaisirs à Macao sont ceux de la table du jeu et de la promenade. Les Anglois qui font le plus de commerce étant par conséquent les plus riches dépensent beaucoup et comme il est ordinaire à l'homme de croire que la richesse donne seule de la considération les autres Européens font des efforts pour imiter les Anglois et tâchent de ne leur céder en rien. Les étrangers quittent Macao en août et septembre, époque de l arrivée des navires d Europe et se rendent à Quanton par l intérieur en suivant le cours de la rivière. (...)

segunda-feira, 9 de dezembro de 2019

Venda de Tabaco oriundo de Macau: 1814


"No dia 5 do próximo mez de Setembro do corrente anno na Casa da Praça do Commercio ás horas costumadas, os Contractadores do Real Contracto do Tabaco hão de pôr em venda publica o Navio Triunfo vindo ultimamente de Macau pertencente ao mesmo Real Contracto; está defronte da Boa Vista prompto para se examinar; e o hão de mandar arrematar no dia 7 do mesmo mez, pelo seu Inventario, que está a bordo, e na sobredita Casa da Praça."

in Gazeta de Lisboa, 18 Agosto 1814

domingo, 8 de dezembro de 2019

Macaenses prisioneiros de guerra

Depois da invasão japonesa de Hong Kong (foto acima) a 8 de Dezembro de 1941 - poucas horas depois do ataque a Pearl Harbour - muitos portugueses/macaenses (luso-descendentes oriundos de Macau)  que tinha ali uma importante comunidade - lutaram e morreram na defesa da colónia britânica incorporados na Hong Kong Volunteer Defence Corps - Companhias nº 5 e 6 com um total de 200 homens - no que ficou conhecido como a Batalha de Hong Kong. Os que se tornaram prisioneiros de guerra - p.o.w., num total de 7000 de diferentes nacionalidades - foram internados em campos de concentração não só em Hong Kong (Sham Shui Po and Stanley) como também no Japão onde foram usados como mão de obra escrava.
A rendição de Hong Kong no dia de Natal, 25 de Dezembro de 1941, e ficou conhecida como "Black Christmas".
Grupo de prisioneiros - das companhias 5 e 6 acima referidas - fotografados a 28 de Agosto de 1945 no Campo de Prisioneiros de Sendai (Japão), quase duas semanas depois da rendição japonesa.

Postal do Serviço de Prisioneiros de Guerra da Cruz Vermelha Portuguesa - Delegação de Macau. Data de 1944 e foi enviado de Macau para Hong Kong. O postal tem como destinatário um campo de prisioneiros de guerra em Hong Kong (Camp N), colónia britânica invadida pelos japoneses no início de Dezembro de 1941. 
Carmelina Rodrigues, refugiada em Macau oriunda de Hong Kong, recorreu aos serviços da Cruz Vermelha Portuguesa - Serviço de Prisioneiros de Guerra para fazer chegar notícias a um familiar, muito provavelmente o marido, capitão José S. Rodrigues.
Panorâmica de Macau na década 1940: 
ao centro o Hospital de S. Rafael, actual consulado de Portugal em Macau.
Sugestão de leitura: "Macau 1937-1945: os anos da guerra", João F. O. Botas, IIM, 2012

sábado, 7 de dezembro de 2019

"Jóia das Terras do Oriente"

Em Abril de 1942 a revista "Panorama" (nº 8) publica um artigo sobre Macau assinado pelo "Comandante Jaime do Inso" intitulado "Macau Jóia das Terras do Oriente". É o que reproduzo neste post bem como as imagens que ilustram o artigo.

 Macau, a cidade Santa, a jóia das Terras do Oriente é um mimo de paisagem e um mimo de tradição. Ali se abriga um pedaço da China milenária, imbuído da alma prodigiosa da gente de Portugal, que desde séculos criou fundas raízes de simpatia entre os filhos do ex-celeste Império. 
O Oriente é, por excelência, a terra dos imponderáveis, e daquele contacto, único na história dos europeus no Extremo-Oriente, das psicologias opostas, como são as das duas civilizações, a ocidental e a chinesa, resultaram também aspectos únicos no campo material, como são aqueles que nos oferece Macau, diferentes de tudo quanto a expansão europeia criou em terras de Catai. 
Macau, com as suas ruas e calçadas tão tipicamente portuguesas, como se não vê em mais colónia alguma do Oriente; com as suas casinhas de côres garridas, como num cenário, espalhadas pelos montes; com as suas vielas e becos nos velhos bairros e edifícios modernos nas novas avenidas, os seus miradoiros, as suas ruínas, muralhas e templos com os sinos a dobrar, aparece-nos como um presépio encantador, em dias de primavera, evocando a maior saudade de Portugal! ´
Macau, com seu bairro china ou Bazar, onde fervilha o formigueiro chinês, num vai-vém constante, por entre os Cou-laus ou restaurantes, as cozinhas ambulantes, os gerinshás e as notas garridas das Pi-pá-chai; com os seus inúmeros Pagodes, onde, na sombra, se divisa Buda por entre as volutas do sândalo queimado; Macau, onde se respira a atmosfera calma e perturbante da China que nos atrai e embriaga, que se detesta e se repele, só para mais nos cingir e dominar, Macau é, ainda, um símbolo do encantamento da China que, quanto mab nos martiriza, mais nos prende e lhe faz querer. 
Macau, janela aberta sôbre a vastidão infinda da Terra Amarela, é um oasis de placidez, estação de repouso inegualável, preciosa e bela, jóia lusitana encastoada nas longínquas costas da China, onde tantos estrangeiros iam respira r uma atmosfera de estranha quietitude no meio da vertiginosa vida do Oriente, naquela mística embaladora que lhe empresta a pátina do tempo, numa evocação nostálgica das aventuras doutras eras. Mas não é uma cidade morta, longe disso! Tanto em terra como no mar, tem uma vida própria, inconfundível, e conhecemos-lhe dias duma palpitação febril e feliz, tanto entre a multidão chinesa como na comunidade europeia. 
O europeu, assim que chega - ou chegava - ao Oriente, como que sobe, domina, sente-se mais alguém, abrem-se-lhe novos horizontes e, em contrapartida, quando regressa ou regressava ao Ocidente, volta ao nível anterior, numa descida tão brusca e desastrada, que não era raro sentir-se ferido... Era assim a vida na China, fácil, faustuosa, servindo-nos vários criados, como o meio impõe, decorrendo num turbilhão constante em que um ano vale por três, durante os quais, numa vida intensa, tôdas as agruras que a China nos reserva, e não só a China como os europeus que lá vivem, como que se esbatem e apagam num sonho de sêdas, num mistério opiante...
Mas, voltemos à paisagem de Macau, recordemos um pouco. A Avenida Almeida Ribeiro, o coração da cidade, regorgita de gente, naquele cenario típico das casas cobrindo os passeios, com arcadas, as paredes revestidas de taboletas, bandeiras e lanternas, ostentando tudo aquela ornamentação tão característica e caprichosa dos extravagantes caracteres chineses, tão decorativos como enigmáticos. Dir-se-ia uma amostra da colmeia da China imensa, asfixiante, onde a custo se divisa um europeu ou eurasiano, como os ingleses chamam aos descendentes de europeus com sangue asiático. Pululam os ric-shós, passam chinas carregando cestos pendentes de bambus, açodados; chineses de calças e cabaia, outras já envergando as nossas saias, acotovelam-se nos passeios, enquanto o moço A-tai, o nosso chauffeur habitual, aparece, calmo e cuidadoso, conduzindo o carro, e vamos encetar o passeio que nunca cansa, tão variados e típicos sfo os panoramas da minúscula e encantadora Macau. Já corremos pelo Patane, bairro excêntrico e marítimo, ao fundo do Pôrto Interior, para contornar os novos atêrros e o antigo Campo de Corridas, subúrbios, por assim dizer, se tal nome se pode aplicar a Macau, e ei-nos na região paradisíaca do Jardim da Flora, pelas estradas assombreadas que vão à Montanha Russa, até começarmos a ascenção da Guia, onde a cada volta da encosta a vista se deleita num variar incessante da paisagem que, vista uma vez, não esquece mais. Oêste lado, é o casario polícromo de Macau que se estende até ao nível da água, com manchas de verdura, como o Jardim da Gruta de Camões emergindo por entre um xadrez de velhos telhados que fazem lembrar Alfama, ou as tôrres dispersas dos templos cristãos; do outro, é a paisagem da Rada, como que mergulhada num sonambulismo fatídico, onde as águas mortas estão salpicadas das sombras das lorchas, embarcações estranhas, típicas, de velas de esteira amarela, que se abrem como braços presos a um destino de séculos sem fim, mergulhados muna tristeza indisível, imensa, que constitui um encanto pungente, um veneno, uma traição da China obcecante ... 
Mas eis que já se divisa, numa volta da estrada, o alto da Penha, com seu templo antigo, hoje restaurado - um monumento - onde os nossos marinheiros de antanho iam depôr suas promessas à chegada a Macau, como que tecendo um fio de religiosidade entre a barra do Tejo e as distanciadas paragens, daquelas partes da China, como então se chamava. O panorama é soberbo! A nossos pés, estende-se um mapa em relêvo, rico de côres e de contrastes, em recortes caprichosos no arrendado da costa, uma paisagem preciosa e insuspeitada em Portugal. 
Em cima e já perto de nós, eleva-se o primeiro farol que iluminou as costas da China - o da Guia - e vamos agora na descida vertiginosa, deixando o cemitério dos Parses, em alcandorada vertente sôbre a Rada, para penetrarmos de novo na cidade, onde, àquela hora, nos hotéis europeus e chineses, se rende o tradicional culto ao chá.
Mas não é para nenhum daqueles pontos de reunião, tão apreciados no Oriente, que nos dirigimos agora, mas sim para um recinto delicioso, discreto e bordado de verdura, fora do bulício da cidade: o Ténis dos Estrangeiros. Tarde encantadora, quási ao pôr do Sol, o céu deslumbrante de côres, como as dos poentes orientais. A assistência cosmopolita e requintada, toilletes vaporosas, um serviço de chá primoroso, capaz de satisfazer a um sonho de gulosos... Aquele entardecer tem qualquer coisa de subtil beleza e encantamento, soa-nos como uma música suave e exótica, aparece-nos como uma visão de terra de fadas, que se fixa uma vez e não mais se apaga. - Play - e a voz duma inglesa, arremeçando a bola, solta-se, em nota sonora, a chamar-nos ao nosso mundo... 
É manhã. Estamos a bordo da velha Pátria, filha da alma generosa dos portugueses do Brasil, no Pôrto Exterior de Macau, já com pressão nas caldeiras. Na modorra duma neblina que envolve tudo, como visco pardacento, naquela tão característica paisagem da China que pesa como chumbo e nos embota os nervos, toca à faina, subimos à ponte e damos a ordem: -Larga! - o navio deixa a bóia e vamos tateando pelo canal, Rada fora, rumo à ilha de Coloane, donde, em 1910, expulsámos os piratas, para ali fazermos exercícios de artilharia, segundo as ordens do Chefe. Colocam-se as bóias, servindo de balizas, fundeam-se os alvos, inicia-se o tiro com o navio a navegar, só com intervalo para as refeições, e a atmosfera torna-se enervante, aquece, custa a respirar. 'É que, ao largo, há dias que anda um tufão que parece exitante, pára e avança lentamente, e mal termina a faina do dia, recebe-se um aviso de tufão dizendo que êste, quási parado, caminha agora, ràpidamente, em direcção à Colónia Interrompe-se o descanço, recolhe-se tudo a bordo e, ferro em cima, regressamos a Macau, desta vez ao Pôrto Interior para, com maior segurança, recebermos a indesejável visita da tempestade devastadora.
Pelo estreito canal que leva à Ilha Verde, onde o navio se recolhe, era como se a Pátria fôsse navegando pela rua marginal, tão chegada ia à terra. Pegou-se na bóia, as amarras dobradas, máquinas prontas, e aguentámos na ponte, durante dez horas, a espantosa violência do temporal, sem que pudessemos valer a naufragos que passavam perto - tanto era o vento que nem deixava falar! O tufão passou, sombrio e terrível, um dilúvio de água, um inferno de vento, naufrágios, mortes, desastres, um cataclismo de horrores, até que volta a bonança e se reganha a vida que estivera paralizada. O formigueiro humano recrudesce - dir-se-ia, com mais fôrça, - após estes cataclismos que periódicamente assolam a China. Voltam os dias de primavera, volta a sorrir a terra, volta a animar-se o mar, reaparecem as sêdas e as silhuetas das Pi-pa-chai, a vida espraia-se de novo naquele ondear incessante e bonançoso que é a característica da China nos intervalos das procelas. É manhã, um sol doirado ilumina os telhados. Tocam os sinos para a missa e, na velha Fortaleza do Monte tremula, há quatro séculos, a bandeira de Portugal! É assim Macau - A Cidade Santa, a jóia das Terras do Oriente!


Jaime do Inso (1880-1967) foi um oficial da marinha Portuguesa que serviu em Macau e Timor na primeira metade do século XX.  Pertenceu à chamada geração de orientalistas portugueses, juntamente com nomes como Wenceslau de Moraes, Alberto Osório de Castro e Camilo Pessanha. Escreveu várias obras sobre a China e Macau que podem ser vistas aqui no blogue.

Biografia resumida
Jaime Correia de Inso nasceu a 12 de Outubro de 1880 em Nisa. Aos 18 anos assentou praça no regimento da Infantaria 22 e integrou, no ano seguinte, o corpo de alunos da Armada. Em 1903 é promovido a guarda-marinha e três anos depois a segundo-tenente. Ao longo da carreira ascendeu ainda à posição de capitão-tenente e capitão-de-fragata, cargo no qual passou à reserva em 1938.
Em Macau, terra à qual dedicou praticamente toda a sua obra literária, serviu na Estação Naval e também na Marinha Colonial, tendo comandado a canhoeira “Pátria” entre 1926 e 1929, altura em que esta se encontrava em serviço no Mar da China. Durante o período em que esteve em comissão de serviço no Extremo Oriente manteve uma colaboração com o semanário de Macau “A Pátria”. Já em Portugal, os seus contributos para a imprensa estenderam-se entre outros, ao jornal “Diário de Notícias”.
Em 1932 e 1933 Jaime do Inso publica duas edições de autor, respectivamente, “O Caminho do Oriente” e “Visões da China”. 
Sobre o primeiro, o conde de Penha Garcia, que assina o prefácio da obra, escreve: "O autor conhece bem esse maravilhoso caminho, elaborou através de um enredo simples uma série de descrições de viagem palpitantes de vida, que terminam com um pequeno drama sentimental vivido em Macau.” 
Ao longo da carreira militar dirigiu a Escola Prática de Artilharia Naval e prestou serviço na Direcção Naval do Atlântico-Sul, no Corpo de Marinheiros, na Majoria General da Armada, na Intendência do Arsenal e no Estado-Maior Naval, tendo ainda desempenhado funções de defensor oficioso no Tribunal da Marinha. Já no fim da carreira teve a seu cargo a direcção da Biblioteca e do Museu da Marinha, ao qual legou alguns objectos seus e um espólio fotográfico. Morreu em Lisboa a 7 de Outubro de 1967.

sexta-feira, 6 de dezembro de 2019

A Loteria da Santa Casa Misericórdia

Ainda antes do Governo de Macau fazer concursos para a concessão da exploração de jogos chineses mediante pagamento de uma renda fixa, foram introduzidas em Macau em 1810 lotarias do tipo ocidental, as primeiras do género em toda a Ásia. Surgiram na sequência de uma Carta Régia de Junho de 1810 que autorizou as instituições de beneficência a emitir lotaria anualmente, com vista a “manter as instituições assistenciais em funcionamento”. Esta norma foi depois aplicada pelo Senado em Macau - Alvará de 5 de Julho de 1810 - e manteve-se até pelo menos à década de 1960.
Eram uma forma de angariação directa de fundos para fins altruísticos: para comprar roupa, comida ou medicamentos aos mais necessitados; para ajudar na construção de escolas; etc... sendo que entre 10 a 15% dos lucros revertiam para o governo que depois os canalizava para o Leal Senado sendo usados em obras públicas.
A exploração destas lotarias esteve 'entregue' durante mais de um século à Santa Casa da Misericórdia de Macau, instituição criada em 1569.

Na imagem ao lado: Bilhetes no valor de 50 avos cada de uma extracção da Lotaria da Santa Casa da Misericórdia de Macau em Setembro de 1900

No Artigo 94.° dos Estatutos da Irmandade pode ler-se:
"O amanuense extraordinário para o serviço da loteria terá a seu cargo todo e qualquer expediente referente á loteria que lhe  fôr incumbido, e escripturará especialmente o livro de registo dos bilhetes premiados, divididos em decimas, com as descargas respectivas que costumam ser feitas á medida que os concessionários da revenda dos bilhetes apresentarem os bilhetes premiado para serem inutilisados."
Os bilhetes das lotarias da Santa Casa da Misericórdia foram emitidos nos termos de regulamento específico. Na fase inicial chamavam-se "loterias" e a Santa Casa era directamente responsável pela emissão, havendo quatro a seis sorteios por ano sob a superintendência da autoridade competente da Administração Portuguesa de Macau. A partir de 1833, a Repartição Superior da Fazenda da Província de Macau começou a organizar concursos públicos para propostas em carta fechada para a arrematação da revenda em  exclusivo dos bilhetes de lotaria. A exploração seria arrematada a quem oferecesse o prémio mais elevado e a validade do contrato de concessão a celebrar seria de um ano, com vista a promover a eficiência da exploração das lotarias. Os bilhetes de lotarias eram emitidos até um limite determinado, sendo os lucros apurados após o pagamento dos prémios, rendimento do vendedor e demais custos inerentes ao seu lançamento, revertidos para a Santa Casa da Misericórdia. Os limites dos bilhetes, sem valor total e valor facial variavam de ano para ano. 

in Boletim do Governo: 1864
O auge das receitas desta lotaria registou-se entre 1890 e 1910. Chegaram a realizar-se sorteiros todos os meses. Em 1895 registaram-se alguns problemas nestas emissões; o governador ordenou um inquérito e o director da fazenda (finanças) e o provedor da sanrta Casa seriam demitidos e enviados para Lisboa.
Em 1898 foram lançados 10 000 bilhetes de valor facial de 4 patacas, sendo o valor total 40 mil patacas, enquanto à Santa Casa da Misercórdia foram entregues 3 200 patacas.
Em 1902 foi introduzida legislação específica emanada de Lisboa. "Attendendo ao desenvolvimento que tem attingido a loteria da Santa Casa da Misericórdia de Macau e á necessidade de fixar n'um diploma legal as condições de existência da mesma loteria e a partilha dos respectivos lucros"... enunciava o despacho do Ministério da Marinha e Ultramar para ditar como lei:
1.° Fica legalisado o estabelecido para a loteria da Santa Casa da Misericórdia de Macau, com as seguintes modificações:  1.° A adjudicação será feita em praça publica, com as necessárias solemnidades e garantias estabelecidas pela lei. 2.° A percentagem a pagar pelo adjudicatário não será inferior a 8 por cento nem superior a 10 por cento da importância dos bilhetes emittidos. 3.° O praso da adjudicação não será inferior a cinco annos nem superior a 8 annos. 4.° Os lucros líquidos serão divididos da seguinte forma:  50 por cento pertencerão ao Estado, dando entrada no cofre da Fazenda Provincial. D'esta parte será separada importância não inferior a um quinto, para ser transferida para o reino como subsidio ao Instituto Ultramarino; 15 por cento entrarão no cofre do Leal Senado, para terem á applicação em obras de utilidade geral;  35 por cento serão reservados para a Santa Casa da Misericórdia, a fim de serem empregados, por esta, em obras de beneficência publica." Assina O Ministro e Secretario de Estado dos Negócios da Marinha e Ultramar, no Paço, em 28 de junho de 1902 - Rei - Antonio Teixeira de Souza.
A Santa Casa estava tão dependente deste tipo de financiamento que só assim se percebe esta disposição legal:  O diploma legislativo n.º 20, de 18 de Junho de 1925, concede, provisoriamente, à Santa Casa da Misericórdia um subsídio anual de $6.000,00 sempre que esteja suspenso o exclusivo da renda de bilhetes da lotaria da mesma Santa Casa.
Em 1963, década em que terminou este tipo de lotarias, o limite da emissão foi de 4 000 bilhetes com o valor facial de 2 patacas cada, sendo o valor total de 8000 patacas. Ao longo do ano, houve 4 séries de lotarias cujos sorteios se realizaram em datas predeterminadas em cada estação do ano. E para cada série, o limite de bilhetes lançados era de 1000, os quais eram premiados 120 com valores diferentes.
Uma emissão de 1903 (cima) e outra de 1933 (baixo) 
Curiosidades:
O Governo de Macau autorizou lotarias de forma pontual para outras instituições...
Em 1852 o Senado foi autorizado a emitir lotarias cujas receitas se destinavam a financiar as escolas a cargo da instituição.
Em Janeiro de 1862, a“Nova Escola Macaense”, fruto da iniciativa privada - tinha uma secção de ensino secundário e outra de ensino primário, admitindo estudantes do sexo feminino e com isenção de propinas para os pobres - foi financiada com a emissão de uma única série de bilhetes de lotaria, com vista a obter fundos no valor de 1200 patacas.
Em Junho de 1862 o Procurador do Leal Senado de Macau, Lourenço Marques, apresentou uma proposta para a construção de um monumento no Jardim da Vitória, em memória da felicíssima vitoria contra os holandeses em 1622. A deliberação tomada foi no sentido de que as despesas inerentes àquele monumento seriam satisfeitas por meio de uma lotaria, para além de subscrições pessoais.
Em 1927, a emissão conjunta de bilhetes de uma lotaria especial por parte da Santa Casa da Misericórdia e do Hospital Kiang Wu com vista a angariar fundos destinados às acções filantrópicas. No âmbito desta série de lotaria, foi prevista a emissão de 22 000 bilhetes de valor de 10 patacas, sendo o valor total  220 mil patacas. As receitas foram distribuídas da seguinte forma: 70% ou 154 mil patacas destinadas a prémios; 7,5% para os vendedores; 1% para instituições ultramarinas; os restantes 21,5% são repartidos em partes iguais pela Santa Casa e pelo Hospital Kiang Wu, depois de deduzidas as despesas inerentes.

quinta-feira, 5 de dezembro de 2019

Histoire Populaire de Macao

Eudore de Colomban é o autor de "Histoire Populaire de Macao" publicado pela Diocese de Macau em 1924.
  

Trata-se de um estudo monográfico em língua francesa, original e na sua primeira edição profusamente ilustrado. 
O estudo teve origem num concurso oficial aberto pelo Governador de Macau Rodrigo José Rodrigues em 1923 para a publicação de uma monografia destinada à divulgação e ao ensino da história de Macau.
Eudore Colomban é na verdade o pseudónimo do padre Régis Gervaix (1873-1940), missionário francês - chegou à China em 1898 - na Diocese de Macau entre 1916 e 1925 e professor do Seminário. 

A partir de 1925 foi para Pequim convidado para professor de literatura francesa na Universidade local. Esta história de Macau foi primeiramente publicada em capítulos no Boletim Eclesiástico da Diocese sob o título "Histoire populaire de Macao" onde o autor também publicou artigos como o "Expedição de Fernão Peres de Andrade de Cantão (1517)".

Obras publicadas:
- Silhouettes portugaises d'Asie, 
Tipografia dos Padres Salesianos, Macau, 1921.
- Histoire populaire de Macao, Sep. do Boletim Eclesiástico da Diocese de Macau, Ano XXIII, n.º 266-267, Macau, 1925.
- Resumo da História de Macau, edição de Jacinto José do Nascimento Moura, Macau, 1927. (várias edições posteriores).
- Hommes et choses d'Extrême-Occident (2 séries), Orfanato Imaculada conceição, Macau, 1919
- Zéphyrin Guillemin: évèque de Cybistra, préfet apostolique de Canton (1814-1886), Macau, 1919.
- Grisailles (3 séries), Imprimerie de la Politique de Pékin, 1924.
- Brimborions (2 vol.), Imprimerie de la Politique de Pékin, 1927.
- Esquisses jaunes, Pékin: Impr. de la Politique de Pékin, 1928.
- Histoire abrégée de Macao (2 vol.). Impr. de la Politique de Pekin, 1928. (imagem ao lado)

quarta-feira, 4 de dezembro de 2019

O primeiro hospital do tipo ocidental na Ásia

As primeiras instituições de Macau foram a Misericórdia, o Hospital de S. Rafael*, o Senado da Câmara, o Colégio de São Paulo e a Diocese de Macau.
O Hospital de São Rafael, o primeiro do tipo ocidental na Ásia, foi fundado em 1569 pelo Bispo D. Belchior Carneiro, ficando a ser administrado pela Santa Casa da Misericórdia. A população local chamava-lhe I Yan Miu - Templo da Cura.

Configuração anterior à reconstrução de 1939
*Começou por se chamar Hospital dos Pobres e só no final do século 18 assumiu o nome de S. Rafael.
A actual configuração do edifício remonta a 1939. O hospital seria encerrado em 1975. Foi sede da Autoridade Monetária e Cambial de Macau na década de 90 e tornou-se Consulado Geral de Portugal em Macau em 1999.

terça-feira, 3 de dezembro de 2019

"Chegaram os primeiros refugiados portugueses de Xangai"

O primeiro período da diáspora macaense ocorreu em meados do século XIX e os principais destinos foram Hong Kong (a nascer na altura) e Xangai. Em 1877 já existiam 300 portugueses em Xangai e em 1883 passam para o dobro. Entre 1880 e 1952 foram perto de 5 mil.
Os movimentos migratórios macaenses seriam marcados pela invasão japonesa a partir de 1937, a II Guerra Mundial e a Guerra Civil na China, que obrigou milhares de macaenses residentes em Xangai a regressarem a Macau. 
Sobre este último conflito, o jornal Notícias de Macau dá conta da chegada do primeiro grupo de "refugiados portugueses de Xangai" a Macau a 19 Maio de 1949.
Primeira página do jornal Notícias de Macau. Edição de 19 de Maio de 1949
Na década de 1940 na cidade chinesa de Xangai estavam registados no consulado português 1214 portugueses/macaenses. Com a guerra civil chinesa regressaram a Macau e em 1950 já eram apenas 61 os registados em Xangai (iriam depois para o Japão).
Entre 1949 e 1951 Macau acolheu perto de 500 refugiados oriundos de Xangai. Muitos deles já eram portugueses/macaenses de segunda geração, ou seja, nascidos nas cidades que os pais escolheram para viver. A partir do território, que mais uma vez mostrava a sua solidariedade, estes macaenses partiriam para uma nova diáspora e espalharam-se por cinco continentes estabelecendo-se em países como Brasil, Austrália, EUA, Canadá e Portugal, entre outros. O padre Lancelote Rodrigues iria destacar-se no apoio aos refugiados em Macau.

Sugestão de leitura: Romance "A Mãe" de Rodrigo Leal de Carvalho.
Este romance inspira-se em factos reais e narra a saga de Natasha Korbachenko. Nascida na Sibéria, exilada para a Manchúria devido à revolução bolchevista, Natasha parte depois para Xangai, onde sobrevive dedicando-se à prostituição. Ali conhece um estudante russo judeu (Vassili Yakovitch) com quem casa e tem cinco filhos. No momento em que Vassili se torna professor numa instituição de ensino superior em Xangai, eclode a guerra do Pacífico, sendo Xangai ocupada pelos japoneses, que iniciam uma perseguição aos judeus. A família Yakovitch foge para Macau onde irá viver enquanto aguarda a chegada de um visto de entrada nos Estados Unidos. No final da guerra, todos os vistos para entrada da família nos EUA são aprovados, menos o do filho Ivan, por ser deficiente mental. São então assolados pelo terrível dilema entre desistir do sonho americano ou abandonar o filho em Macau.
Excertos:
 “Macau estava cheia de refugiados das mais variadas províncias da China, de países do Sueste Asiático e outros, fugidos às fomes e à guerra, europeus de múltiplas nacionalidades, de Hong Kong e de Xangai, todos à procura de abrigo”. (...) 
“Mas para ela e para a família que não tinham passaporte? E quem não tem passaporte, não tem pátria. Sem papéis, não se é ninguém, não se existe. (...) ”

segunda-feira, 2 de dezembro de 2019

Jerinxás e Riquexós


Hoje em dia ainda podemos ver alguns riquexós - bicicletas de três rodas/triciclos - atravessando becos estreitos, incluindo ruas de paralelepípedos e avenidas ladeadas por arranha-céus em Macau. Meio de transporte histórico, eles sobreviveram ao tempo e continuam sendo parte integrante da vida na cidade. Inventados no Japão em meados do século 19, surgiram pouco depois. Originalmente tinham duas rodas e eram puxados pelo motorista a pé, com os passageiros sentados atrás. Eram conhecidos como jerinxás. 




Nowadays we can still see some rickshaws - tri-wheels bicycle - traversing narrow alleyways, including cobblestone streets and skyscraper-lined avenues in Macau. An historic mode of transport, they have survived time and remain an integral part of city living.
Invented in Japan in mid 19th century, they appeared in China at the end of the 19th century; originally they had two wheels and were pulled by their driver on foot, with passengers seated at the back. They were known as jerinxás. 

Jerinxá em Macau - décadas 1920 e 1950

domingo, 1 de dezembro de 2019

Travessa dos Algibebes

A Travessa dos Algibebes fica entre a Rua dos Mercadores e a Rua da Palha, a zona onde se concentravam as lojas desta antiga profissão.
Durante muito tempo, havia uma diferença entre alfaiates e algibebes. O alfaiate fazia fatos enquanto o algibebe (do árabe al-gebabb) vendia roupa já feita, nova ou usada. 
Na toponímia ficou o registo dessas duas profissões distintas antigamente mas desde o início do século 20 restou apenas a expressão alfaiate, que curiosamente também dá nome a uma travessa em Macau.
Década 1970 vs 2013
Este pequeno altar fica junto à Rua de S. Paulo