segunda-feira, 1 de outubro de 2012

A revolução republicana chinesa

Neste dia assinalam-se aos 101 anos da revolução republicana e a figura de Sun Yat-sen, o primeiro Presidente provisório, eleito a 29 de Dezembro de 1911. A China iniciava-se na era moderna e as décadas que se seguiriam até 1949 (RPC) mostram que por esta transição todos pagaram um preço elevado. Para além dos fortes conflitos internos, acrescente-se a guerra sino-japonesa. Recordo a este propósito alguns excertos de uma comunicação da autoria do prof. António Vasconcelos de Saldanha, catedrático do ISCSP-UTL, intitulada “Sun Yat-sen e a fundação da República Chinesa vista de Portugal — Uma aproximação política e diplomática”. O título já deixa antever que é um olhar distante, mas simultaneamente próximo e com Macau no contexto como não poderia deixar de ser...
Porto (Interior) de Macau nas primeiras décadas do séc. XX
“O estado de desagregação e insatisfação generalizada não só permitiu que a maioria das guarnições imperiais do centro e do Sul se unissem aos revoltosos de Wuchang, mas que inclusivamente, em 20 de Outubro, fosse constituído um governo republicano provisório. Xangai iria também aderir, mercê de uma revolta popular que neutralizou as tropas e a administração imperial. Seguiu-se Hunan, através da quase pacífica acção dos notáveis da Assembleia provincial, e depois Cantão, onde, também por acção da Assembleia local, foi colocado à frente de um governo provisório Hu Hanmin, um velho companheiro de Sun Yat-sen. E assim, se em finais de Outubro de 1911, para terror e espanto do Governo Imperial, dois terços da China já apoiavam abertamente a República, a queda de Nanquim em 2 de Dezembro consolidou definitivamente o poder revolucionário.”
O Cônsul de Portugal em Cantão era Carlos d´Assumpção que foi dando conta do que se ia passando.
“Não é demais sublinhar o importante papel catalizador da actividade revolucionária cantonense em todo o processo que conduziu à fundação da República. Tinha sido em Cantão que, enquanto Sun Yat-sen partia para o Ocidente em busca de apoios, o Tongmenghui se reorganizara e continuara a promover uma série de acções subversivas. De facto, a metrópole do Sul, era por excelência um centro de oposição aos Manchús, onde qualquer actividade subversiva levada nesse sentido poderia contar com o apoio das sociedades secretas legitimistas e com o sustento de vastas camadas tanto de uma burguesia como de uma ‘intelligentsia’, revigoradas numa cidade aberta havia cem anos ao contacto com os estrangeiros, economicamente próspera e intelectualmente avançada. À frente das operações e na ausência de Sun Yat-sen, encontrava-se Hu Hanmin, um revolucionário cantonense da 1.ª linha, que, nas palavras do Cônsul de Portugal em Cantão, ‘mais de uma vez deu provas do seu heroísmo e acrisolado patriotismo e que tomou parte em dois assaltos temidos e arriscados: um contra o palácio imperial de Pequim, e outro contra o palácio da vice-realeza de Cantão. O partido político do qual ele é chefe compõe-se de filhos de famílias ricas que cursaram os seus estudos no estrangeiro e que são, como o seu chefe, destemidos e decididos a jogar a vida para levarem avante o seu ideal...’.”
Correio registado 1913 (selo república): Portugal e China 'aderiram' quase em simultâneo à 'República'.
O que se passava na China naqueles anos não deixou indiferente o mundo...
“Apesar das garantias prontamente dadas aos diplomatas estrangeiros que a ordem pública não sofreria alterações, era-lhes difícil abstrair de todos os rumores que anunciavam a rebelião final para dali a poucos dias. Por uma questão de prudência, logo no dia 26 fundeavam no porto de Cantão oito canhoneiras estrangeiras, sendo 2 inglesas, 2 francesas, 2 americanas e 2 japonesas; a 27, a pedido do Cônsul de Portugal e com a concordância do Governador de Macau, arrancava também do território rumo a Cantão a lancha-canhoneira Macau, uma presença que se pretendia servisse, explicava Carlos d’Assumpção, ‘para incutir no ânimo dos Chins a impressão de que Portugal tem também interesses a defender e proteger na China’.Num ambiente da maior tensão, os boatos redobravam de intensidade. Esses boatos — explicará depois o Cônsul — propalados pelos revolucionários, com o fim de ‘incutir na massa popular o espírito da independência, eram a dado passo destruídos pela ameaça das forças tártaras, que a nada cediam e que deixavam bem a descoberto o seu inveterado ódio contra os Chineses, os quais, por seu turno, queriam à viva força sacudir o jugo tártaro, de maneira que tudo fazia prever que entre as tropas fiéis ao Império e as que se uniram aos revolucionários abririam pelejas em que aquelas levariam a vantagem por estarem bem preparadas e na posse das fábricas de pólvora e do depósito de munições, ao passo que as últimas nem de armas nem de munições dispunham por terem sido bem cedo desprovidas do que lhes era preciso para a luta’. Contudo, as sucessivas derrotas sofridas pelas tropas imperiais no vale do Yangtze, a paralisação das transacções comerciais ocasionada pelo êxodo de Cantão para Macau e Hong Kong, e a acção devastadora dos bandos de malfeitores no delta do Rio do Oeste, tanto eram factores de encorajamento para o redobro dos esforços dos revolucionários, como de erosão da ‘tenacidade das tropas imperiais, nas quais, insensivelmente, se criava e aumentava o desânimo’.”
Largo do Senado. ca. 1900-10
Tal como em Portugal os tempos que se seguiram à implantação da República na China foram marcados por muita instabilidade. Sun Yat-sen seria eleito Presidente provisório da nova República, mas ficaria no poder durante muito pouco tempo, surgindo na política Yuan Shikai que seria eleito Presidente a 14 de Fevereiro de 1912, um dia após Sun ter resignado ao cargo e dois dias depois de assinado o edito imperial anunciando a abdicação formal do Imperador.

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