quinta-feira, 11 de outubro de 2012

CTIM 70

Cheguei a Macau nos princípios de Outubro de 1968, como alferes miliciano de Cavalaria com a especialidade de Polícia Militar e incorporando a Companhia de Polícia Militar 2428, comandada pelo então capitão Fernando Governo dos Santos Maia, que ficou no aquartelamento da fortaleza de Mong-Há.
À nossa espera estava o capitão e chefe do Estado Maior Bacela Begonha. Pelo que nos foi dito o pelotão de Polícia Militar, sediado no quartel da Flora, no centro da cidade, continuaria com as rondas e policiamentos à cidade. À companhia de Polícia Militar, competiriam as guardas de honra, as possíveis dispersões de motins, policiamentos extraordinários e a guarda, manutenção e policiamento ao paiol de Cacilhas.
O capitão Maia, e muito bem, teve de organizar acções para ocupar os tempos mortos do pessoal. O alferes Carlos Peixoto Malheiro, já falecido e genro do insigne advogado macaense, o ilustre doutor Senna Fernandes, ficou encarregue da feitura e respectivo lançamento da revista mensal da Companhia que sairia como “Lanceiros do Oriente”, aberta a todos os elementos que compunham a Companhia; ao alferes Pereira da Silva foi-lhe distribuído o desporto; ao alferes Rui Coentro a legislação militar de Macau e o ensino para quem quisesse seguir os estudos e a mim o lazer dos soldados.
Eu, depois de procurar na Companhia e no Pelotão da Flora, consegui organizar um grupo de Fados que era utilizado pela Delegação de Turismo, aquando da recepção de grupos de agentes de viagens. Mais tarde, foi organizado um grupo de teatro e um outro de declamação de poesia, que actuavam mais pela altura do Natal ou épocas festivas. O pior que havia para um militar era o... tédio.
Em Julho, Agosto ou Setembro do ano de 1969, chegou ao Território o Capitão de Cavalaria Casquilho, que foi ocupar o lugar de comandante do Esquadrão de Cavalaria, que era ocupado interinamente pelo capitão de Cavalaria Fernando Ramos, por saída do capitão Fernandes Thomaz para ir integrar o “staff” do general Spínola. Este passou para chefe da 2a Repartição do Q.G.. O capitão Ramos foi sempre um amante da difusão da voz (já o conhecia do Regimento de Lanceiros, ou não fosse ele o responsável pelas transmissões entre os veículos de ronda e entre estes e a central), e, um dia, no Clube Militar confidenciou-me que gostaria de realizar um programa radiofónico para os militares, que no futuro, poderia transmitir música pedida pelos familiares dos militares que se encontravam na Europa. Respondi-lhe que poderia contar comigo e com o furriel Carolino (tinha uma boa voz) e era tudo uma questão de organização e depois expor o assunto ao Chefe de Estado Maior, para levar a pretensão ao senhor Comandante José Póvoas Janeiro. Se a resposta fosse negativa, tinha tentado... caso fosse afirmativa, haveria uma maior pressão sobre a Rádio Macau, e se eu não estivesse muito enganado...até seria do agrado do próprio Governador, o senhor General Nobre de Carvalho.

O projecto do capitão Ramos foi aprovado, mas este só conseguiu uma hora semanal, ao domingo e só a partir de Janeiro do ano seguinte. O programa foi denominado pelo capitão como “A voz Militar de Macau”. No entanto, o comando não concordou, sugerindo um nome relacionado com o Comando Territorial. Eu e o capitão Ramos, uma noite no Hotel Estoril, chegámos ao nome do futuro programa: CTIM 70! C de Comando, T de Territorial, I de Independente e M de Macau e 70 por, o primeiro programa ir para o ar no primeiro domingo do ano de 1970. O nome foi aceite e ficou como sendo o marco e o princípio para muitos programas, mesmo depois da nossa saída de Macau.
Os primeiros programas (muito apoiados pelo senhor Alberto Alecrim e com a sempre presença do senhor director Luís Gonzaga) foram apresentados pelo capitão Ramos e pelo furriel Carolino. Eu era o responsável pela música, de acordo com o guião, tendo mais tarde passado também a apresentar e a fazer reportagens. Recordo-me especialmente de uma feita ao Eusébio, aquando da primeira visita oficial do Sport Lisboa e Benfica ao Território de Macau. Por esta altura, já se tinha mais colaboradores entre oficiais, sargentos e soldados.
O alferes miliciano de Infantaria Telmo da Fonseca, da Companhia de Caçadores 2424, sediada no aquartelamento da Ilha Verde, só teve intervenção no programa radiofónico militar CTIM 70 quando, ao fazer-me uma maqueta de um programa de aniversário, da saída da CPM 2428 de Lisboa também... quis fazer um para a sua companhia.
Depois de ter terminado a Comissão, o capitão Fernando Ramos, foi substituído na supervisão do programa pelo Chefe de Estado Maior, o Major Maia Gonçalves, ficando eu responsável pela parte operacional, a quem transmiti o desejo do alferes Telmo, o que lhe foi concedido, até porque o programa radiofónico era de todos os militares para todos os militares. O programa do Telmo Fonseca saiu muito bem, não tenho a certeza, mas parece-me que o alferes Telmo da Fonseca só voltou a fazer mais um programa... Antes do meu regresso à metrópole, que foi em Dezembro de 1970, julgo que em finais de Agosto ou de Setembro, que o senhor major Maia Gonçalves informou que o programa tinha terminado.
Resumindo, se há pessoa merecedora de elogios pelo programa radiofónico CTIM 70, essa pessoa é o seu criador, mentor e trabalhador, o capitão de Cavalaria Fernando Ramos, hoje em dia coronel reformado.
A CPM 2428 possui um site: www.cpm2428.com, onde poderá ter acesso a todos os números da revista Lanceiros do Oriente.
Texto de Mário Caetano Silvestre 2012

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