sábado, 27 de outubro de 2012

Rumores em 1606

A expansão dos boatos que chegaram a sugerir, no início do século XVII, que a Espanha pensava invadir a China servindo-se de Macau como base das operações teve repercussões em Cantão. Durante o ano de 1606, altura em que se desenrolou todo este episódio, que nos últimos artigos vimos abordando, “em Cantão houve consequências desse ridículo boato já que, foi publicada uma ordem de prisão contra qualquer estrangeiro, sobretudo contra os Wo-seong (sacerdotes católicos); vigias dia e noite; encerramento de alguns portos; distribuição de armas ao povo; demolição de mais de 800 casas fora das muralhas de Cantão. O resultado de tudo isto foi a morte brutal que deram ao Irmão leigo Francisco Martins, S.J., que chegara de Siu-chau a Cantão, para conduzir a Pequim o padre visitador Alexandre Valignamo S.J.”.
Ilha Verde em 1844 por George West
O P. Mateus Ricci dá-nos mais uma achega sobre a questão: "Tinham os nossos tomado também uma ilha deserta, chamada Ilha Verde para construir uma capela e para recreio dos Padres, na qual se quiseram meter os mandarins, não permitindo que fizéssemos aqui casa grande. E enquanto tratavam de acomodá-la ao belprazer dos mandarins, um deles (segundo Pasquale D’Elia, era o doutor Ciamtascien (Chan Ta-hsien) de apelido Yun-cheng encarregado de Heong-sán de 1601 a 1605) que era de raça proveniente dos sarracenos ou maometanos, um dia em que todos os portugueses estavam na igreja numa grande festa, foi à ilha com os seus soldados e pôs fogo à casa, rasgando uma imagem de S. Miguel que lá estava. Estava lá um nosso Irmão (Ir André, japonês de Chikugo, encarregado da ilha Verde) que teve mão nalguns japoneses da nossa casa que vigiavam a ilha; quando não, teriam facilmente massacrado os chineses e até o seu capitão sarraceno. Mas, voltando o Irmão com a imagem rota à cidade, parecendo aos criados da nossa casa e a outros que isto era uma grande desonra à cristandade, lançaram-se com grande ímpeto sobre o mandarim que regressava como vitorioso a sua casa, deram-lhe muitas bastonadas, fazendo fugir todos os chineses, e danificaram todo o seu palácio, conduzindo o mandarim sarraceno, preso, a nossa casa, querendo-lhe meter medo, a fim de não ousar ser tão perverso para a outra vez. E vindo a nossa casa o Capitão de Macau (D. Diogo de Vasconcelos, capitão-mor de Macau entre 1605 e 1606) e os outros que governam a Cidade (os Vereadores do Senado) a interceder por ele, deixaram-no ir para sua casa. E depois, tratando com o Governador da cidade de Ansão (actual cidade de Zhongshan), a quem estava sujeita a região de Macau, compôs-se tudo com satisfação. Pasquale M. D’Elia, S. J., Fonti Ricciane.”
Penha por G. Chinnery 1842
Quando o Vice-Rei de Cantão teve conhecimento do que tinha acontecido “suspendeu toda a comunicação com Macau sob penalidades pesadas, e transmitiu o ocorrido ao imperador Wan-li; entretanto deu ordem para sitiar Macau por mar e por terra, invadir a cidade e destruí-la. Mas o comandante encarregado de executar estas ordens, antes de começar uma empresa dessa magnitude tratou de averiguar a verdade ou falsidade dessa acusação. Os seus espiões informaram-lhe que em Macau não se pensava em hostilidades, mas que os habitantes andavam enraivecidos uns com os outros por causa de disputas particulares. Depois, um mandarim que viveu em termos íntimos com os jesuítas em Pequim e uma reputação de cidadãos respeitáveis, enviada a Shan-chung-fu, obliteraram da imaginação do vice-rei toda a suspeita de malícia e foi concedida permissão aos chineses para viver em Macau e negociar com os portugueses.”
Os tormentos do padre jesuíta Francisco Martins são contados pelo P. Fernão Guerreiro: “Era chegado nesta conjunção, que viera das residências da terra dentro, um irmão nosso chamado Francisco Miz, de grandes prendas e virtudes, que vinha negociar o necessário para o padre Visitador Alexandre Valignano poder entrar na China, como determinava, a visitar os padres que lá por dentro estão; para o que este irmão trazia chapas dos mandarins de Nanquim, em que mandavam que por onde quer que passasse o padre, não só lhe não pusessem impedimento ou estorvo algum, mas lhe dessem todo o favor e ajuda para seu caminho. Porém foi nosso Senhor servido levá-lo antes disto em Macau a melhor vida, para lhe dar o prémio de suas muitas virtudes e santidade, e dos insignes serviços que lhe tinha feito, e trabalhos que tinha padecido por espaço de trinta anos naquelas partes da Índia, Japão e China, em promover a conversão dos gentios e o aumento de sua santa fé. O que sabendo o irmão em chegando a Cantão, e que já para esta entrada do padre não tinha que negociar, se ficou na mesma cidade negociando as coisas necessárias para as residências, como costumava cada ano fazer por ter nisto muita experiência, e saber muito bem a língua. Porém estando aqui e nesta conjunção, em que toda a cidade andava revoltada e posta em armas pelas mentiras que se tinham levantado por palavra e cartas contra os padres e o capitão de Macau D. Diogo Vasconcelos, e sendo conhecido por discípulo do padre Lázaro Catâneo, foi logo acusado e preso por mandado dos mandarins, nos finais de Março de 1606, juntamente com outros quatro cristãos e com o dono da casa em que poisava. Foram logo todos apresentados diante de um mandarim grande, o qual por mais razão que o irmão lhe deu de si, não quis crer, mas com muito grande fereza e crueldade o mandou pôr a tormentos nos pés e mãos, mandando-lhe meter canas agudos por entre as unhas; e depois disto açoitar com os bambus que são umas canas grossas, com que o costumam fazer, e que é um cruelíssimo tormento. E logo, acabado isto, o remeteu a outro mandarim inferior, o qual o examinou com muito rigor, opondo-lhe que era espia, e que vinha comprar armas e outras coisas para entregar o reino aos estrangeiros. 

S. Lázaro por G. Chinnery em 1832
A todas estas calúnias respondeu o irmão com muita constância, dizendo como tudo aquilo eram falsidades e calúnias que os inimigos dos padres levantaram; e que ele não andava neste trato, senão que era cristão e irmão da Companhia de Jesus. Sem embargo de tudo isto, o tornou a mandar açoitar com os bambus; e como o tormento era o que dissemos, cruelíssimo, que poucos açoites destes bastam para matar um homem, tal ficou o bom irmão dele, junto com o outro dos pés e das mãos, e com andar doente que em cinco dias acabou esta vida dentro no cárcere onde o tinham, entrando no céu com morte gloriosa e tendo padecido tão inocentemente.”
Artigo da autoria de José Simões Morais publicado no JTM de 17-8-2011

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