segunda-feira, 3 de novembro de 2014

Graciete Batalha, a Professora

Monsenhor Manuel Teixeira tinha uma coluna cativa, intitulada ‘Grãozinhos de Bom Senso’, no antigo jornal ‘Gazeta Macaense’ e, a propósito do falecimento de Graciete Batalha, escreveu estas linhas, na edição de 7 de Outubro de 1992 : “com a morte da Drª. Graciete Nogueira Batalha, esta terra perdeu alguém que amava Macau, conhecia Macau, vivia para Macau, trabalhava por Macau e honrou Macau”. Dificilmente se poderia qualificar melhor o espírito de doação cívica, o perfil ético e deontológico e a dimensão científica e pedagógica de uma personalidade como Graciete Batalha.
Escrevi, num pequeno livro, editado pelo Instituto Internacional de Macau (2010), que Graciete Batalha “insere-se na linhagem dos grandes professores que serviram no Liceu de Macau, gente de cultura, de educação, com intervenção cívica, obra publicada e uma enorme profissionalidade, uma tradição que remonta a Manuel da Silva Mendes, ele próprio professor no Liceu, pensador e intelectual com múltiplos interesses e grande coleccionador de arte chinesa. Foram professores como esses que ajudaram a forjar uma poderosa identidade portuguesa em Macau, num contexto de um cadinho étnico multi-cultural, identidade essa cimentada numa velha amizade luso-chinesa, com cumplicidades, respeito, entendimento e tolerância que a sabedoria dos anos manteve e manterá como energia vital”.
A viver em Macau desde 1949, teve a oportunidade de assistir a profundas mudanças na geopolítica regional, sobrelevando entre as demais, a ruptura diplomática entre o novel regime político comunista continental e o Portugal de Salazar. Macau, para sobreviver tinha de se transformar numa ponte entre esses dois interesses antagónicos. E foi o que, habilidosamente, fez, com o sucesso que sabemos.
A carreira docente iniciou-se na Escola Primária Oficial dado que não existiam vagas no Liceu para esta licenciada em filologia clássica. Mas, foi este longo tirocínio, que duraria até meados de 1957, no ensino primário, que lhe terá despertado o interesse, a curiosidade e a motivação para estudar o dialecto e a sintaxe macaense.
A pergunta que colocou, é muito pertinente: “Qual é, pois, nesta Babel, a ‘língua de Macau’? Por ‘língua de Macau’, ‘língua macaísta’ ou ‘patoá’ designa-se na terra o velho dialecto crioulo, isto é, um dialecto colonial que se enraizou aqui e foi transmitido de pais a filhos durante 300 anos, até ao século passado, tendo sido usado como linguagem familiar mesmo nas casas mais distintas. Foi usado também pelos chineses na comunicação diária com os macaenses, e ainda pelos escravos africanos e asiáticos de vária procedência trazidos no séquito dos pioneiros, e depois por seus filhos aqui nascidos pelos tempos fora”.
O Liceu Nacional Infante D.Henrique foi o palco principal da sua carreira profissional docente, sem esquecer que também foi leitora de português na Universidade de Hong Kong, professora e directora da Escola do Magistério Primário de Macau. Os seus trabalhos de investigação revelaram-se muito importantes para o conhecimento da ‘língua’ de Macau, por exemplo, “Língua de Macau – o que foi e o que é” (1974) , “Glossário do Dialecto Macaense” (1988, reedição) e o “Suplemento ao Glossário do Dialecto Macaense” (1988).
A sobrevivência da língua portuguesa no oriente foi objecto de vários estudos : “Língua e Cultura Portuguesas em Goa – estado actual” (1982), “Malaca: o Chão de Padre e seus moradores portugueses” (1986), ou “O Futuro da Língua Portuguesa no Extremo Oriente” (1986). Dispersou a sua atenção por outros interesses (“Presença de Cabo Verde no Folclore de Macau”, 1962; “Este Nome de Macau”, 1988), mas , é verdadeiramente como Professora que se realiza na sua plenitude. Uma Professora estimada e recordada pelos alunos, que lhe reconheciam invulgares qualidades pedagógicas , humanismo e lealdade nas relações humanas. Apesar de ser precedida da fama de severa….
Desabafa, por entre tantas solicitações “já nem quero falar do que eu desejaria escrever em Macau ou sobre Macau, sonhos sempre adiados por causa de trabalhos que os outros consideram mais urgentes. Agora, por exemplo, gostaria de me empenhar na organização duma antologia de literatura macaense, um antigo desejo meu trazido ao de cima por um pedido expresso do Governador. Mas os dias passam sem que possa dedicar-me a esse assunto”.
Nesse diário magnífico, “Bom Dia, S’tora!”, publicado em 1991 e logo distinguido com o Prémio Camilo Pessanha, concedido pelo IPOR, vamos encontrar um roteiro de vida que se inicia em Novembro de 1969 e termina em Maio de 1986. É um livro que deveria ser lido por todos os aspirantes ao professorado, mas não só. Aí vamos encontrar a vida real de Macau, com as suas grandezas e misérias, o ensino, a cultura, as escolas, a política e, claro, Portugal e a China. O “carácter de motim no tristemente famoso ‘1,2,3’ “não fica esquecido: “Impediu-se durante uns dias que os táxis e autocarros, todos de companhias chinesas, transportassem portugueses. Contudo os táxis exibiam no vidro de trás o seguinte letreiro: 'proibido transportar portugueses, excepto médicos, padres e professores'."
Tempos difíceis que ninguém , de um lado e do outro, deseja recordar, sequer reavivar. No Conselho Consultivo do Governador e na Assembleia Legislativa de Macau desempenhou as funções que lhe foram cometidas, com sentido patriótico e com verticalidade. Vale a pena recordar esta atitude frontal e corajosa: “Senhor Governador, peço licença para explicar a minha atitude. Eu não tenho nada contra a Junta de Salvação Nacional; mas termos mandado há cinco dias um telegrama a apoiar a política do Primeiro Ministro Marcelo Caetano e mandarmos hoje outro apoiando uma política completamente oposta, é contra a minha maneira de ser”. Era assim a Drª. Graciete Batalha. Foi agraciada com a Ordem do Império, em 1973, e com a Medalha de Mérito Cultural, em 1984. Perdura a sua obra literária e linguística, sobretudo o exemplo de uma Grande Professora que honrou Portugal em Macau.
Artigo da autoria de António Aresta, docente e investigador; ex-residente em Macau; publicado no Jornal Tribuna de Macau a 25-11-2010
Vol. 7. 1973

Sugestão de leitura:
A obra dedicada a Graciete Batalha integrada na colecção “Mosaico”, do Instituto Internacional de Macau e da autoria de António Aresta, professor e investigador, com importantes estudos publicados e exemplares prestações de serviço em Macau e em Moçambique. Para o autor Graciete Batalha insere-se “na linhagem dos grandes professores que serviram no Liceu de Macau (gente de cultura, de educação, com intervenção cívica, obra publicada e uma enorme profissionalidade), uma tradição que remonta a Manuel da Silva Mendes, ele próprio professor no Liceu, pensador e intelectual, com múltiplos interesses e grande coleccionador de arte chinesa. Foram professores como esses que ajudaram a forjar uma poderosa identidade portuguesa em Macau, no contexto de um cadinho étnico multicultural, identidade essa cimentada numa velha amizade luso-chinesa, com cumplicidades, respeito, entendimento e tolerância que a sabedoria dos anos manteve e manterá como energia vital”.  Para Celina Veiga de Oliveira: “Graciete Batalha, no panorama de Macau, constitui uma referência inultrapassável, pela verticalidade com que assumiu as suas ideias políticas no Conselho Legislativo, pelo pioneirismo na investigação linguística e literária e pelas qualidades excepcionais como Professora que formou gerações sucessivas que ainda a recordam, com aqueles sentimentos indefectíveis de ternura e gratidão que se dedicam aos verdadeiros Mestres. São pessoas como Graciete Batalha, com o seu carácter e a sua integridade, que contribuem para que a ética e o desenvolvimento social e pessoal não sejam atropelados pelo mercantilismo hoje dominante na vida e nos valores”.Graciete Agostinho Nogueira Batalha nasceu em Leiria a 30 de Janeiro de 1925. Licenciou-se em Filologia Clássica em 1949, ano em que se consorciou com José Marcos Batalha, jovem médico macaense, também formado em Coimbra. Rumaram, então, os dois a Macau. Aqui, de 1949 a 1957, foi professora da Escola Primária Oficial, por não haver vaga no seu grupo de docência no Liceu. Na Universidade de Hong Kong regeu a disciplina de Língua Portuguesa, em 1958-1959. Desenvolveu depois a sua actividade docente no Liceu Nacional Infante D. Henrique, terminando a carreira no dia 15 de Julho de 1985. Leccionou igualmente na Escola do Magistério Primário de Macau, de que foi directora de 1967 a 1969.
Professora e pedagoga, conferencista, investigadora e ensaísta, é reconhecida como “uma das personalidades mais marcantes no panorama da cultura contemporânea de Macau”.
Foi membro do Conselho Legislativo de Macau, da Assembleia Legislativa de Macau e do Conselho Consultivo do Governador de Macau. Foi também membro da Sociedade de Geografia de Lisboa e membro fundador do Cenáculo Luís Gonzaga Gomes. Agraciada com a Ordem do Império (grau de Oficial), em 1973, e com a Medalha de Mérito Cultural, em 1984, recebeu também outras distinções, como o Prémio Camilo Pessanha, em 1991, atribuído pelo Instituto Português do Oriente.
Morreu em 1992, deixando importante obra publicada, entre artigos, estudos, crónicas e ensaios. Colaborou em publicações de Macau (Notícias de Macau, O Clarim, revista Mosaico, Boletim do Instituto Luís de Camões, Comércio de Macau, Revista da Educação, Revista de Cultura, Confluência, revista Macau, Jornal de Macau e Boletim Eclesiástico da Diocese de Macau), e de Portugal (Biblos, Revista Portuguesa de Filologia, Diário de Notícias, Diário Popular e O Mensageiro) e publicou os seguintes trabalhos: “Relembrando Velhas Trovas Medievais” (1950), “Homenagem a Teixeira de Pascoaes” (1951), “Aspectos do Vocabulário Macaense” (1953), “Aspectos da Sintaxe Macaense” (1953), “As Inspiradoras da Lírica Camoniana à Luz da Crítica Moderna” (1954), “A Mulher na Obra de Júlio Dinis” (1956), “Para uma Interpretação do Topónimo Macau” (1958), “Língua de Macau: O que Foi e o que É” (1958), “Estado Actual do Dialecto Macaense” (1959), “A Escritora Han Suyin e o Euroasiático Intelectual” (1961), “Coincidência com o Dialecto de Macau em Dialectos Espanhóis das Ilhas Filipinas” (1961), “Instantâneos do Japão” (1963), “A Contribuição Malaia para o Dialecto Macaense” (1965), “Aspectos do Folclore de Macau” (1968), “A Instrução Literária e a Experiência Humana em Gil Vicente” (1969), “Camões Satírico” (1972), “Glossário do Dialecto Macaense” (1977), “Instantâneos de Manila” (1978), “Presença Actual de Camões em Goa” (1980), “O Inquérito Linguístico Boléo em Malaca” (1980), “O Chão de Padre e seus Moradores Portugueses” (1981), “Língua e Cultura Portuguesas em Goa: estado actual” (1982), “Situação e Perspectivas do Português e dos Crioulos de Origem Portuguesa na Ásia Oriental: Macau, Hong Kong, Malaca, Singapura, Indonésia” (1985), “Malaca: O Chão de Padre e seus Moradores Portugueses” (1986), “Sabedoria dos Jovens” (1986), “O Futuro da Língua Portuguesa no Extremo Oriente” (1986), “Este Nome de Macau” (1987), “Poesia Tradicional de Macau” (1987), “Suplemento ao Glossário do Dialecto Macaense” (1988), “Presença Portuguesa no ‘Mandó’ de Goa” (1988), “Bom Dia S’tora! Diário de uma Professora em Macau” (1991), talvez o seu livro mais lido e apreciado, “A Viragem do Século e o Escritor em Macau” (1991) e “Culinária Macaense: Um Retorno às Origens” (1992). Alguns destes estudos encontram-se vertidos nas línguas chinesa e inglesa e sobre a sua obra existe um catálogo bibliográfico editado pelo Instituto Cultural de Macau/Biblioteca Central de Macau, em 1995.
Graciete Batalha também prefaciou e promoveu a edição de obras várias, interveio em programas radiofónicos e televisivos e organizou abundantes actividades escolares, na forma de récitas, concursos, representações teatrais, visitas de estudo e outras.
Para mais informações consultar este post: 

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