sábado, 29 de novembro de 2014

Figuras de Jade: os portugueses no extremo oriente

É curioso verificar que a publicação do livro Figuras de Jade – Os Portugueses no Extremo Oriente, de António Aresta, com a chancela do Instituto Internacional de Macau, acabou por acontecer no ano em que se assinala o centésimo aniversário do nascimento de Armando Martins Janeira (1914-1983), um dos diplomatas de maior prestígio do século XX português.1 E porquê essa ‘curiosidade’, perguntar-se-á. Porque é muito verosímil que António Aresta (AA), um dos investigadores que mais escreve sobre a nossa História a Oriente, escolheu Figuras de Jade para título – perfeito, pela imediata associação que fazemos entre jade e China – porventura inspirado (ele, que é um bibliófilo e conhece praticamente tudo o que se refere ao orientalismo português) no título Figuras de Silêncio, de Armando Martins Janeira. Paralelismo duplamente interessante: Martins Janeira resgata do esquecimento aqueles portugueses de outrora que deixaram inscrito no Japão o nome de Portugal, como o do escritor Wenceslau de Moraes, o senhor ‘Portugaru’ da ilha de Tokushima, que tão empenhadamente deu a conhecer o arquipélago nipónico no nosso país 2. António Aresta faz o mesmo, privilegiando as «Figuras de Jade» de Macau, mas incluindo, com toda a justeza, o nome e a obra do grande embaixador Armando Martins Janeira.
Cumprida esta ‘nota prévia’, vamos então ao conteúdo de Figuras de Jade – Os Portugueses no Extremo Oriente.
São 39 as figuras desta galeria de ilustres3, em que o autor concilia passado e contemporaneidade, cultura erudita e cultura popular, sinologia e missionação, educação e ensino, política e História, língua portuguesa e ‘crioulo maquista’, romance e poesia. Sendo injusto individualizá-las, porque todas deram precioso contributo para a afirmação da presença portuguesa, havendo mesmo algumas por quem nutro profundo respeito e admiração, porque as conheci pessoalmente (caso de, por ordem alfabética, Benjamim Videira Pires, Carlos D’Assumpção, Graciete Batalha, Henrique de Senna Fernandes, José dos Santos Ferreira, José Silveira Machado, Manuel Teixeira), uma há que gostaria de apontar, por ter sido a única que nunca chegou a pisar solo macaense: Eça de Queirós (1855-1900), o nosso romancista por excelência, que do Oriente só conheceu mesmo o Próximo, por ocasião da inauguração do Canal de Suez, no Egipto, país que percorreu (além da Palestina e parte da Síria) entre Outubro de 1869 e Janeiro de 1870.
Dele, diz-nos António Aresta:
[Eça de Queirós] «revelou-se um estudioso atento da cultura chinesa e japonesa, acompanhando as então mais recentes tendências de opinião dos intelectuais franceses, que desde Voltaire e Montesquieu mantinham acesa uma sinofilia de grande envergadura teórica e com intervenção política. Procura, dirigindo-se ao comum dos leitores, desfazer a imagem estereotipada do chinês, veiculada pelo jornalismo e pela literatura: Mas esses povos da Extrema Ásia, por ora só os conhecemos pelos lados exteriores e excessivos do seu exotismo. Com certos traços estranhos de figura e trajo, observados em gravuras, com detalhes de costumes e cerimónias, aprendidos nos jornais (artigo ‘variedades’) e sobretudo com o que vemos da sua arte, toda caricatural ou quimérica – é que nós formamos a nossa impressão concisa e definitiva da sociedade chinesa e japonesa. Para o Europeu, o Chinês é ainda um ratão amarelo, de olhos oblíquos, de comprido rabicho, com unhas de três polegadas, muito antiquado, muito pueril, cheio de manias caturras, exalando um aroma de sândalo e de ópio, que come vertiginosamente montanhas de arroz com dois pauzinhos e passa a vida por entre lanternas de papel, fazendo vénias4
O que Eça de Queirós quis dizer – a nós, ocidentais – é que é fácil resvalar para o anedótico, para o superficial, para a espuma do ser, para o que julgamos inferior civilizacionalmente. Denunciar essa apressada e preconceituosa visão do Outro, foi uma das razões que levou António Aresta a incluí-lo na sua galeria de figuras de jade, num propósito que muito tem a ver com aquilo que Guilherme Valente (GV), outro intelectual bem conhecido de Macau, tem vindo a realçar em palestras e artigos que vai escrevendo. Num desses artigos, GV citou Goethe – que afirmava não se deslocar a lugar nenhum fora do seu país que não fosse para descobrir as particularidades de cada cultura e chegar através delas ao universal humano que existe espalhado pela Terra inteira – e Confúcio: «A natureza dos homens é a mesma. São os seus hábitos que os separam». Eça e Aresta comungam desta mesma visão.
O autor escolheu figuras que pertencem já ao domínio da história, com excepção de Agustina Bessa-Luís. O peso intelectual, o lugar que ocupa na literatura portuguesa e o facto de ser natural do Norte (nasceu em Vila Meã e vive no Porto), como o autor (natural de Marco de Canavezes, reside com a família em Penafiel), justificam a quebra da regra. Por feliz coincidência, a editora Guimarães prepara-se para assinalar com um conjunto de iniciativas os 60 anos da publicação de Sibila, a saga que a colocou no justo patamar que tem no panorama literário português. A Quinta Essência, o romance que Agustina escreveu sobre o triângulo Portugal, Macau e China, depois de uma visita que fez ao Território em 1999, devia ser, nas palavras do autor, “de leitura recomendada para todos quantos se interessam pela dimensão histórico-cultural e social de Macau. Os grandes romances têm essa força sublime de ensinar a cogitar e a conjugar as paixões da alma”.
Um aspecto que ressalta deste livro é o seu oportuno didactismo, que resulta do facto de o seu autor ser também Professor e de haver nos seus escritos uma fortíssima componente pedagógica. António Aresta, que viveu os últimos anos de administração portuguesa em Macau, é licenciado em Filosofia, mestre em Filosofia e doutorando em Filosofia, com uma extensa obra publicada sobre História de Macau, História das Ideias, História da Educação, sinologia e cultura em sentido geral. Macau (e o Oriente) está sempre presente nos seus estudos de cariz mais intelectual, em artigos publicados em revista de especialidade ou em jornais, em conferências e palestras, ou quando nos revela personalidades ou aspectos do passado de Macau que vai descobrindo nas suas pesquisas. E assim contribui de forma sistemática e generosa para a preservação dessa ‘memória comum’ de Macau. Nos dias de hoje, em que, com a força avassaladora de casinos e de migrações, se corre o risco de apagamento dos sinais de uma História multissecular, a preservação dessa ‘memória comum’ a todos responsabiliza: ao Governo da RAEM, ao Governo Central da RPC, ao Governo da República Portuguesa, à Universidade de Macau, ao Instituto Politécnico de Macau, às Universidades Portuguesas, às instituições culturais de Macau e suas congéneres portuguesas, à Escola Portuguesa Macau (esta última, que tem feito um grande esforço para situar os alunos no correcto lugar histórico do chão que pisam, deveria fazer da leitura do livro uma proposta para trabalhos escolares. Fica a sugestão). E, claro, a todos os investigadores, de cá e de lá, que amam Macau e a particularidade da sua existência e admiram quem, como estas ‘figuras’, tornou maior o exíguo território.
Obra informativa, sistematizada, bem escrita e, por tudo isto, de agradável leitura, com um inegável valor pedagógico, muito gostaria que Figuras de Jade fosse o primeiro tomo de um conjunto mais vasto de personalidades a destacar. Porque não há presente com sentido sem o apoio da memória. Ora, como investigador compulsivo que é, sempre actualizado em matérias bibliográficas, será de esperar que António Aresta nos venha a surpreender com mais Figuras de Jade. E de novo com o apoio do Instituto Internacional de Macau, instituição que, como o nome sugere, pretende continuar a fazer de Macau aquilo que constitui verdadeiramente o seu ADN natural: uma antecâmara onde materializações de pólos civilizacionais diferentes sempre se encontra(ra)m e enriquece(ra)m mutuamente.
Notas:
1-Armando Martins Janeira, homenageado a 27 de Setembro no Centro Cultural de Cascais, deixou-nos um extenso legado bibliográfico. Figuras de Silêncio é um livro que resgata do esquecimento os portugueses que, pela sua inteligência, cultura, capacidade diplomática, domínio da língua japonesa e dedicação ao arquipélago, se tornaram personalidades preponderantes da nossa história no Extremo Oriente.
2-Assinala-se este ano o 160º aniversário do nascimento de Wenceslau de Moraes (1854-2014).
3- Agustina Bessa-Luís, Almerindo Lessa. Álvaro Semedo, Armando Martins Janeira, Benjamim Videira Pires, Camilo Pessanha, Carlos Assumpção, Charles Boxer, Eça de Queirós, Eugénio de Andrade, Fernando Lara Reis, Francisco Rondina, Gabriel de Magalhães, Graciete Batalha, Henrique de Senna Fernandes, João Gomes Ferreira, João Rodrigues, Joaquim Guerra, Joaquim Afonso Gonçalves, José dos Santos Ferreira, José Gomes da Silva, José Horta e Costa, José Joaquim Monteiro, José (Jack) Maria Braga, José Miranda e Lima, José Silveira Machado, Leôncio Alfredo Ferreira, Luís de Almeida, Luís Fróis, Luís Gonzaga Gomes, Manuel da Silva Mendes, Manuel Teixeira, Maria Anna Acciaioli Tamagnini, Maria Ondina Braga, Martinho Montenegro, Pedro Nolasco da Silva, Vicente Nicolau de Mesquita, Wenceslau de Moraes.
4-Figuras de Jade, p.39.
Artigo da autoria de Celina Veiga de Oliveira publicado no JTM de 26.11.2014

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