sexta-feira, 26 de outubro de 2018

Raúl Maria Xavier (1894-1964): o notável escultor macaense

Numa notícia de um jornal de Macau em Setembro de 1925 pode ler-se: "Regressou a Lisboa o afamado escultor macaense Raul Xavier, autor de numerosas esculturas que embelezam os principais edifícios e lugares públicos do continente, depois de ter servido, durante algum tempo na Repartição das Obras Públicas desta cidade”. De facto, pouco se conhece desta passagem por Macau de Raúl Xavier enquanto colaborador das Obras Públicas naquilo que foi um regresso à terra onde nasceu.
Escultor, medalhista, desenhador e aguarelista Raúl Xavier é um dos casos em que a obra se sobrepõe, e muito, ao nome do autor. Mas se o seu nome é pouco conhecido o mesmo já não se pode dizer sobre a sua obra, de tão vasta que é, estando em muitos dos casos patente no espaço público e em museus de referência. Atente-se por exemplo nos leões colocados na escadaria da Assembleia da República, em Lisboa, ou no baixo-relevo de Aljubarrota. Ou ainda no espólio do Museu Nacional de Arte Contemporânea (Chiado). Mas a lista é extensa...
De entre os seus trabalhos - assinava RX e RXavier- destaca-se ainda a estátua de São Vicente (exibida na Exposição do Mundo Português, em 1940), a escultura de Santo António (Igreja de Nossa Senhora de Fátima, Lisboa), as alegorias à Ciência e à Arte (Pavilhão dos Desportos, Parque Eduardo VII, Lisboa), a estátua de Vasco da Gama (Aquário Vasco da Gama, Lisboa), a escultura de Nossa Senhora de Fátima (Palácio Nacional de Queluz), e os bustos do Coronel Aboim Ascenção (Museu Militar, Lisboa), de Camões (Universidade da Califórnia, E.U.A), de Rafael Bordalo Pinheiro (Museu deste artista, no Campo Grande, em Lisboa),  de Florbela Espanca (Vila Viçosa), etc.

Nascido em Macau a 23 de Março de 1894, Raúl Maria Xavier é filho de Francisco Xavier da Silva  que foi soldado n.º 63 da Companhia Policial de Macau e de Filomena do Rosário. 
Vai para Portugal ainda em criança tendo revelado sensibilidade artística na escola primária. Esse facto leva o seu professor, Palyart Pinto Correia, a aconselhar-lhe  que prossiga os estudos na Escola de Belas-Artes de Lisboa.
Frequenta o curso geral de Desenho, matriculando-se posteriormente no curso de Escultura, onde tem aulas com Ernesto Condeixa e Costa Mota, seu tio. É deste escultor que recolhe os maiores ensinamentos passando a ser presença assídua no seu atelier. Desenvolve então a escultura em talhe directo, técnica na qual viria a revelar-se um notável executante. Escreve Oldemiro César em 1942 que o seu mestre "reparara com particular atenção o aluno, no canteiro ponteador a desbastar no mármore a obra que o escultor haveria depois de retocar. Começava a despontar-lhe o interesse pelo talha directo, em que hoje é exímio, e a que tantos outros se furtam por comodidade de manejar apenas os teques no barro ou no gesso, bem mais leves que os cinzéis, as macetas e as goivas, consoante a ferramenta tem de atacar a pedra rija ou a madeira mais maçia (...). Desconhecia a tortura da execução. Trabalho feito aos jactos, em arrancos de talento e confiança nos nervos e nas mãos privilegiadas".
O Leão e a Estátua da Prudência: duas obras de Raúl Xavier em 1941
frente ao Palácio de S. Bento (Parlamento)
Interrompe os estudos académicos para realizar um estágio em Itália com recurso a uma bolsa do Estado português onde estuda escultura religiosa.
De acordo com os especialistas na matéria, a obra de Raúl Xavier é "essencialmente de feição clássica e caracteriza-se pelo tratamento formal depurado". Produziu imenso durante  o período do Estado Novo. "Sucedem-se decorações para jardins e palacetes, pagas a preços irrisórios regateados centavo a centavo, medalhões, bustos, estatuetas, imagens religiosas, trabalhos de fôlego para monumentos..."
Luis Chaves, escreve em 1946: "É serena a Arte de Raúl Xavier. Impressiona sobretudo pela serenidade. (...) A impressão de calma, sugerida pelo artista, mantém-se nas almas, as nossas e a dele, como pluma no vácuo. Há na obra de Raúl Xavier a alucinação da Arte, que se sublimou na serenidade contemplativa. A alucinação do movimento opõe-se, embora não destruindo a essência, a alucinação estática. A vertigem do movimento tem paralelo na tontura do sossego."

Ainda no início da carreira de Raúl Xavier (tinha 25 anos), o crítico de arte Manuel de Sousa Pinto escreve em 1919 na revista Atlântida a propósito de uma exposição de escultura de Raúl Xavier que se tratavam de "alguns trabalhos modestos dum moço escultor de pouco vôo." O futuro viria a provar que o escultor se estava a preparar para muitos e altos vôos vindo a gravar através da sua obra o seu nome na galeria de ilustres macaenses.

Xavier dedicou-se especialmente ao retrato, em busto (Rafael Bordalo Pinheiro, 1921; Coronel Mesquita, 1942) ou em corpo inteiro (Pio XII, 1957), tendo ainda executado baixos-relevos (Monumento à Batalha de Aljubarrota, 1959), estatuária pública (S. Vicente, concebido para a Exposição do Mundo Português em 1940; alegorias Arte e Ciência, 1945) e esculturas de temática sacra (Santo António, 1938).
Uma assinatura do autor em 1949
Monumento a Nuno Álvares Pereira/Batalha (1959): baixo-relevo monumental de inspiração clássica e de grandes dimensões é considerado uma das obras mais emblemáticas do artista macaense.

R. Xavier participou em Salões da SNBA tendo recebido o primeiro prémio da Sociedade Nacional de Belas-Artes de Lisboa em 1940/41), e teve ainda participações nas Exposições de Artes Plásticas, Grupo Silva Porto (1945-58). Teve ainda colaborações em publicações como a segunda série da revista «Alma Nova» (1915-1918) e exerceu o ensino como mestre de cantaria artística na Escola Industrial de António Arroio.
Raúl Xavier está representado em diversos museus nacionais e estrangeiros e instituições públicas e privadas: Arte Contemporânea, Etnológico de Belém, Militar, Marinha, Caldas da Rainha, Grão Vasco (Viseu), Soares dos Reis (Porto), Tomar, Aveiro, Sociedade de Geografia,  Câmara Municipal de Lisboa, Liceu Gil Vicente, CGD, Califórnia (EUA), Tokushima (Japão), Estação do Cais do Sodré, Pavilhão Carlos Lopes (Lisboa), etc. 
Raúl Xavier foi ainda sócio correspondente da Sociedade Martins Sarmento (fundada em 1888) à qual legou grande parte da sua obra. Nomeado Cavaleiro da Ordem de Santiago de Espada e Comendador da Ordem Equestre de São Silvestre. Morreu em Lisboa a 1 de Janeiro de 1964.      Em 1942 Raúl Xavier produziu um busto em gesso pintado (assinado e datado) com a figura do Coronel Vicente Nicolau de Mesquita nas dimensões de 37x21x22. A obra foi oferecida pelo autor a 22 de Janeiro de 1961 ao Museu Arqueológico da Sociedade Martins Sarmento (Guimarães) onde está patente ao público.
Outra das obras esculpidas por Raúl Xavier relacionada com Macau, em 1929, foi uma escultura de gesso patinado com a figura de Wenceslau de Morais e outra em terracota com a figura de Camilo Pessanha.

Para saber mais mais sobre sobre este ilustre artista macaense aconselho a leitura de: "Raúl Xavier Escultor", de Oldemiro César (1942), "Raul Xavier Sculpteur Portugais" de Émile Schaub-Koch (1957); "Raúl Xavier Escultor Estatuário", de Luís Chaves (1946) e Revista de Cultura nº38 Abril 2011.



Homenagens


Em 1994, no centenário do nascimento de Raúl Xavier, a Sociedade Martins Sarmento, em colaboração com a Missão de Macau em Lisboa e a Câmara Municipal de Guimarães realizou uma exposição com dezenas de obras do escultor.
Em 2009 o Museu Municipal Santos Rocha, Figueira da Foz, realizou uma exposição de trabalhos de sua autoria. Grande amante da Figueira, Raúl Xavier foi igualmente um dos mais relevantes benfeitores do museu daquela cidade que reúne actualmente mais de uma centena de trabalhos de sua autoria, doados entre as décadas de 50 e 60 pelo próprio artista, pelos seus familiares e amigos.
Em Março de 2017 num congresso internacional de filosofia e literatura que juntou académicos de vários territórios lusófonos, Maria Leonor Xavier discorreu sobre “Raul Xavier: Um Macaense que Abraçou a Cultura Portuguesa”.

As esculturas denominadas «Arte» e «Ciência», localizadas na parte da frente do Pavilhão dos Desportos/Carlos Lopes foram executadas pelo escultor Raul Xavier em 1945. Trata-se de duas esculturas em lioz de grandes dimensões.
Ao lado a imagem da Estátua de São Vicente, no Largo das Portas do Sol, em Lisboa.
Os primeiros estudos para esta estátua de homenagem a São Vicente foram realizados por Raul Xavier em Junho de 1949. 

A passagem da peça ao material definitivo, a pedra, só ocorreu entre 1965 e 1967, pelas mãos de seu filho, o arquitecto Luís Xavier, que acompanhou esta obra até ser inaugurada em 25 de Outubro de 1970.

Menos conhecido do público em geral, mas igualmente notório, foi o trabalho na área da medalhística: 6º centenário de Frei Nuno Álvares Pereira (1960), Camilo Castelo Branco (1954), Amato Lusitano (1955), Damião de Góis (1955), José Leite de Vasconcelos (1948), IV Centenário S. Francisco Xavier (1952), V centenário do infante D. Henrique (1960), António Soares dos Reis (1955), Wenceslau de Moraes (1954), são apenas alguns exemplos dos mais de 40 trabalhos da autoria de Raúl Xavier.


Cabeça
Adquirido pelo Estado Português em 1938 a "Cabeça" é um trabalho feito em calcário. Faz parte do espólio do Museu Nacional de Arte Contemporânea (Chiado). Segundo Maria Aires Silveira trata-se de "um rosto de mulher expressivamente duro e definido em planos de linhas esquemáticas. Um curioso gosto decorativo revela-se no entrançado do cabelo ou nos tracejados gravados por toda a peça, num entendimento do arabesco como forma de dinamização plástica das superfícies lisas. Este tratamento é influenciado talvez pela prática de trabalho em madeira, mais frequente na produção do escultor, e, provavelmente, das lembranças da sua origem macaense. Deste cruzamento de referências, o retrato, pretexto para a análise sintética e decorativa de uma face, sugere uma imagem construída numa volumetria de máscara."
Artigo da autoria de JB também publicado na newsletter A Voz - Macau, Setembro 2018.

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