segunda-feira, 22 de outubro de 2018

Relações de Portugal com a China anteriores ao estabelecimento de Macau: 3ª parte


Terceira Fase - A normalização das relações e o prelúdio de Macau (c. 1550-1554)
Ficou a dever-se a Leonel de Sousa, capitão da marinha portuguesa no Oriente, a negociação com os chineses, mediante a aceitação de pagamento e impostos, que permitiria o desenvolvimento do comércio. Foi o «Assentamento» de 1554. Na carta que depois, em Cochim, Leonel de Sousa escreveu ao Infante D. Luís, irmão de D. João lII, com data de 15 de Janeiro de 1556, lê-se: «... e aprouve a Nosso Senhor que mandaram cometer paz, e que assentasse direitos como estavam em costume [ ... ] », E mais adiante: «desta maneira fiz paz; e os negócios na China com que todos fizeram suas fazendas e proveitos, seguramente foram muitos portugueses à cidade de Cantão, e outros lugares por onde andaram folgando alguns dias e negociando suas fazendas à sua vontade sem receberem agravo nem pagarem mais direitos dos que atrás digo...». No ano seguinte ao do «Assentamento», em 1555 portanto, já os documentos atestam a tão importante alteração do estado de coisas, o comércio que os portugueses podiam fazer legalmente em Cantão e noutras cidades. E passados uns meses, um ano talvez, «nascia» Macau. Com o «Assentamento» de Leonel de Sousa, Portugal e a China subscreviam o primeiro acordo no plano jurídico convencional, criavam as condições mutuamente benéficas para o incremento do comércio, cuja expressão mais concreta foi Macau. Concluía-se assim, auspiciosamente, depois de tantas dificuldades, o primeiro período das relações de Portugal com a China.
Relance Bibliográfico
A sinologia assenta os seus alicerces nos escritos dos pioneiros e cronistas do séc. XVI, a maioria dos quais foram portugueses, e nos escritos e cartas da primeira geração de Jesuítas que penetraram no Império do Meio a partir do último quartel daquele século. Mas no período a que nos reportamos, até 1554, as fontes cingem-se, portanto, ao primeiro grupo.
Não pretendo ser exaustivo neste relance bibliográfico, nem é essa a intenção. Tão-só uma referência ao que me parece ser mais importante, sem que daí advenha qualquer juízo de valor em relação a escritos não referidos. Os nossos cronistas - Barros, Castanheda, Gaspar Correia, outros - foram, no que toca ao período em apreço, os compiladores do que ouviram ou leram acerca dos factos narrados, a proximidade no tempo emprestando-lhes a autoridade que acresce à probidade do historiador e qualidade do homem.
Fernão Mendes Pinto é indispensável desde que cotejado com outras fontes, mas sem desconfiança à partida quanto aos seus textos, como injustamente é frequente verificar-se; fundamentais as Cartas de Afonso de Albuquerque, o Tratado das Causas da China de Gaspar da Cruz, a Relação da Grande Monarquia da China de Álvaro Semedo, a Suma Oriental de Tomé Pires, a História del Gran Reino de la China de Juan Gonzales de Mendoza, e alguns outros.
Mas o «corpus» essencial é constituído pelas cartas e «enformações» daqueles pioneiros, hoje em parte já publicadas, outras certamente aguardando nos arquivos a sua divulgação. As cartas de Cristóvão Vieira e Vasco Calvo, companheiros de Tomé Pires na embaixada e depois no cativeiro em Cantão, de Galeote Pereira, de Afonso Ramiro, as «Enformações» de Amaro Pereira e Mateus de Brito, a carta de Leonel de Sousa sobre o «assentamento», são os textos onde em primeira mão, e mais pormenorizadamente, se encontra a mais viva - porque vivida - aproximação à realidade.
A partir do século passado surge a historiografia, em termos modernos, deste período: O Cardeal Saraiva publicando um texto desconhecido de Tomé Pires, Jordão de Freitas a carta de Leonel de Sousa; Voretzsch, C.Boxer, Eduardo Brazão, D. Ferguson, dão à estampa textos inéditos; Gabrieia d'Intino junta as cartas e «enformações» dos pioneiros, anotadas; refiram-se os curtos mas excelentes trabalhos de L. Keil sobre Jorge Álvares (o primeiro português na China) e Ronald B. Smith sobre vários pontos ainda em dúvida. De destacar o colossal trabalho do Padre Schurhammer sobre as fontes dos primeiros tempos e sobre a vida de S. Francisco Xavier; no período que antecede o estabelecimento de Macau, os trabalhos de Cordier, Kammerer, Padre Silva Rego, Eduardo Brazão, Padre Manuel Teixeira, Padre Videira Pires, Mendes da Luz, sobre os primeiros tempos das nossas relações com a China.
Em 1946 surge o livro importante de Armando Cortesão A Suma Oriental de Tomé Pires e o Livro de Francisco Rodrigues, dando à estampa textos inéditos por ele descobertos. Para os estudos deste período é obviamente necessário o recurso às fontes e aos textos chineses. Limitar-me-ei a mencionar alguns trabalhos em línguas ocidentais que deles se prevalecem. O recurso às fontes chinesas é utilizado em equilíbrio com as fontes ocidentais por Tien Tse Chang no «Sino-Portuguese Trade from 1514 to 1644», e por J. Braga no «Western Pionneers and their discovery of Macau», trabalhos que mantêm a sua actualidade e cuja leitura é imprescindível para o estudo deste período.
A culminar o que se escreveu sobre este tema, com apoio de fontes ocidentais e orientais, o artigo - no fundo um livro, pois tem 211 pp. – de Paul Pelliot, «Le Haja et le Sayyid Husain de I'Histoire des Ming». Publicado no mesmo número de T'oung Pao que contém o seu elogio fúnebre, Pelliot demonstra as suas extraordinárias qualidades de historiador e filólogo, juntando a erudição à inteligência com apoio em fabulosa memória e excepcional domínio das línguas.
Conclusão
O significado dos primeiros contactos de Portugal com a China transcende aquilo que possa ter representado no nosso ciclo histórico de expansão ultramarina. Foi com base nesses contactos que o Ocidente de então conheceu, pela primeira vez em tempos modernos, o mundo chinês. Os escritos dos nossos pioneiros c cronistas, acrescentados e desenvolvidos pelos textos dos Jesuítas meio século depois, constituíram os pilares da sinologia moderna e da influência tão grande que a estrutura sociopolítica, o pensamento e a arte chinesas tiveram no «Século das Luzes» europeu.
O conhecimento que o mundo antigo mediterrânico teve da Serica, os contactos dos confins a Leste do Império Romano com o Oeste chinês, a heresia Nestoriana propagada no coração da China a partir do séc. VII, as narrativas dos Pólos e do século Franciscano no Cataio da nossa Idade Média, não mais fizeram que dar algum colorido ao imaginário fantasmagórico do homem pré-renascentista. Mas a génese da clarificação e arrumação de ideias apoiadas na razão, e do conhecimento sistemático com base na experiência no tão vasto e antigo mundo chinês, ficou a dever-se aos pioneiros portugueses do séc. XVI. Aprendemos nós e aprendeu também a Europa cristã de então alguma medida de humildade filosófica e civilizacional, ao entrar em contacto com nações mais antigas e com civilizações tão elaboradas, pelo menos, como as europeias. O dogma da superioridade ético-religioso em que o Ocidente mergulhara durante o milénio medieval foi em parte desfeito pelo contacto com o Oriente, facilitando assim a dinâmica do renascimento.
Para este ressurgimento do Ocidente se fica a dever a Portugal, para além de tantos contributos noutras áreas, o conhecimento das civilizações da Ásia, da existência do «outro», da valorização, portanto, da Humanidade.


João de Deus Ramos in IDN - Revista Nação e Defesa Ano XV; Nº 53 Janeiro-Março 1990

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