segunda-feira, 29 de outubro de 2018

“Descrição da Cidade do Nome de Deos da China” (1635)

Transcrição de alguns trechos (no português escrito no século 17) da “Descrição da Cidade do Nome de Deos da China” incluída no Livro das Plantas de todas as "Fortalezas, Cidades e povoações do Estado da India Oriental" de António Bocarro e que faz uma síntese da história de Macau até 1634. Neste livro está incluída a planta de Macau feita por Pedro de Resende (imagem abaixo) num total de 52 gravuras. O original está na Biblioteca Pública de Évora.
Pedro Barreto de Resende, foi funcionário da Matrícula Geral de Goa e secretário pessoal do vice-rei D. Miguel de Noronha. Esta planta foi concebida para ilustrar o "Livro das Plantas de todas as Fortalezas, Cidades, e Povoaçoens do Estado da India Oriental" (título original), que o cronista da Índia António Bocarro compilou em 1635 a pedido do rei Filipe III de Portugal (IV de Espanha).Existem várias variantes deste modelo (designado de "Pedro de Resende") que foram sendo feitas ao longo dos tempos. A título de exemplo, refira-se que este, a original, serviu de base à planta intitulada “Demonstração da Cidade de Machao” incluída no exemplar do "Livro do Estado da India Oriental" (1636) de Pedro Barreto de Resende, à guarda da Bibliothèque Nationale de Paris.
Planta de Macau (Séc. XVII) de Pedro Barreto de Resende. In "Livro das Plantas de todas as Fortalezas, Cidades e Povoaçȯes do Estado da Índia Oriental". (1634, António Bocarro)
“Descripção da Cidade do Nome de Deos da China” 
“A cidade no Nome de Deos está em altura de vinte e dous graos e meyo da banda do norte, sita na ponta austral duma pininsula, na costa do reino da China, à fralda do mar, na provincia de Quantão, húa das quinze em que se divide este grande reino do estado de Noanxan. Esta ponta da dita pininsula he chamada pellos nossos e pellos naturais Machao. Tem a pininsula hũa legoa de comprido e, no mais largo, quatrocentos paços. A cidade fica tendo meya legoa de comprimento e, onde mais estreita, sincoenta paços e, onde mais larga, trezentos e sincoenta. Fica participando de dous mares, do levante e ponente. He hũa das mais nobres cidades do Oriente, por seu rico e noblicimo trato pera todas as partes de toda a sorte de riquezas e couzas preciozas em grande abundancia, e de mais número de cazados e mais ricos que nenhuns que aja neste Estado. (...)
Do anno de mil quinhentos e dezoito, em que os portuguezes a primeira ves vierão a China, com hũa embaixada do serenissimo rey Dom Manoel, contratarão em varios portos deste reino e finalmente no porto e ilha de Sancheu, onde
esta cidade tomou seu primeiro principio e onde, no anno de mil quinhentos sincoenta e dous, faleceo Sam Francisco Xavier, segundo Apostolo da India e padroeiro desta cidade.
E, no anno de mil quinhentos sincoenta e sinco, se passou o trato a ilha de Lampacao. E, no de mil quinhentos sincoenta e sete, se passou pera este porto de Machao onde, com o trato e comercio, se foi fazendo hũa populoza povoação. E, no de mil quinhentos oitanta e sinco, sendo Vizo-Rey da India Dom Francisco Mascarenhas, foi feita cidade por Sua Magestade, com titolo do Nome de Deos, dando-lhe por armas a Crus de Christo e outras liberdades, de que goza com previlegios da cidade de Evora. He porta por onde veyo da India à China por mar o Apostolo Sam Thome e por onde, nestes tempos, o Sancto Evangelho, levado pellos relegiozos da Companhia de Jezu, entrou nestes reinos e no de Japão e Cochimchina, com grande gloria sua e aumento de sua Igreja. (...)
Os cazados que tem esta cidade são oitocentos sincoenta portuguezes e seus filhos, que são muito mais bem despostos e robustos que nenhuns que aja neste Oriente, os quaes todos tem, huns por outros, seis escravos d'armas, de que os mais e milhores são cafres e outras nações, com que se concidera que, assim como tem balões que elles remão, pequenos, em que vão a recrear-ce por aquellas ilhas, seus amos poderão também ter manchuas mayores, que lhe sirvarão pera muitas couzas de sua concervação e serviço de Sua Magestade. (...)
Alem deste numero de cazados portuguezes tem mais esta cidade outros tantos cazados, entre naturais da terra, chinas christãos, que chamão Jurubassas, de que são os mais, e outras nações, todos christãos. E, assy os portuguezes como estes, tem suas armas muy boas, de espingardas, lanças e outras sortes dellas, e raro he o portuguezes que não tem hum cabide de seis ou doze mosquetes e pederneiras e outras tantas lanças, porque os fazem dourados, que juntamente lhe servem de ornamento das cazas. (...)
Tem alem disto esta cidade muitos marinheiros, pilotos e mestres portuguezes (os mais delles cazados no reino, outros solteiros), que andão nas viagens de Japão, Manilha, Solor, Macassa, Cochimchina. Destes, mais de cento e sincoenta (e alguns são de groços cabedais, de mais de sincoenta mil xerafins), que por nenhum modo querem passar a Goa, por não lançarem mão delles ou as justiças por algum crime ou os Vizo-Reys pera serviço de Sua Magestade. E assy tambem muitos mercadores solteiros, muito ricos, em que militão as mesmas razões. (...)
Tem mais esta cidade capitão-geral, que governa as couzas de guerra, com cento e sincoenta soldados, em que entrão dous capitães de infanteria e outros tantos alferes e sargentos e cabos de esquadra e hum ajudante, hum ouvidor e hum meirinho, que administra justiça. Vence o ouvidor cem mil res de ordenado, consinados na alfandiga de Malaca. (...) E ministros ecleziasticos tem hum Bispo, que oje he morto e ainda não está
provido, que vence dous mil xerafins de ordenado, pagos n'alfandiga de Malaca. (...)
PS: Num próximo post publicarei a descrição das fortalezas.

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