terça-feira, 15 de janeiro de 2019

Arborização no século XIX

Segundo António Estácio, "De entre os botânicos ligados a Ordens Religiosas, merece destaque o Padre Jesuíta João de Loureiro (1710-91) que, vindo de Goa, aqui permaneceu durante quatro anos (1738-42), antes de seguir para a Cochinchina onde viveu trinta e seis anos e em que recolheu dados que lhe permitiram redigir a "Flora Cochinchinense", editada em Lisboa no ano de 1790. De entre as várias espécies da Flora de Macau que classificou, podemos mencionar, a título meramente exemplificativo, o Longane (Euphoria longan (Lour.) Steud.); o Vompi (Clausena lansium (Lour.) Skeels); a Tangerineira Anã (Fortunella marginata (Lour.) Swingle); a Árvore da Pata de Pato (Schefflera octophylla (Lour.) Harms); o Falso Castanheiro (Aleurites montana (Lour.) Wils.); etc., assim como o Alfenheiro da China (Ligustrum sinense Lour.) e a Laranja-Mandarim (Citrus nobilis Lour)"

Com o governador Coelho do Amaral (1863-66) dá-se a construção do Jardim de S. Francisco, o primeiro jardim público do território.
José Gomes da Silva, no Relatório anual relativo a 1870 realça a necessidade de árvores "não só na cidade, mas também nas encostas e cumes de alguns montes".
Entre 1877-79, com o governador Carlos Eugénio Corrêa da Silva, viriam a ser plantadas na cidade duas centenas de árvores.
Entre 1883 e 1887 foram mandadas plantar pelo Governador Tomás da Rosa 60.000 árvores em Macau. A tarefa esteve a cargo do agrónomo Tancredo Caldeira do Casal Ribeiro. Entre 1887 e 1893 foram plantadas na cidade cerca de 16.000 árvores. Ao todo, temos o equivalente a quase uma árvore por cada habitante de Macau na época. Vejamos alguns dados sobre o tema incluídos em relatórios da época publicados no Boletim do Governo...

Vista ca. 1880
1885 - “Uma cordilheira se estende e limita parte da cidade do lado L. [...] As encostas d’estes montes com uma enfezada vegetação n'uns pontos, escalvados n'outros, mostrando em vários sítios a natureza granítica do seu solo, apresentavam um aspecto desolador e triste ainda ha pouco, aspecto que actualmente vão já perdendo; e mais tarde serão formosissimos bosques, graças aos cuidados e interesse que sua Ex. a o Governador Roza tem tomado, em aformosear e beneficiar Macau com larga arborisação. 
(...) É limitada a peninsula ao SO por uma grande montanha, em cujo plateau assenta uma arruinada ermida -- monte da penha. A encosta da montanha que olha para a cidade é muito arborisada, produzindo encantadora vista; a que olha para o mar descae escabrosamente até à fortaleza denominada da Barra. O resto da cidade é quasi todo plano."

Augusto Pereira Tovar de Lemos - Relatório do Serviço Médico da Província de Macau e Timor, 1 de Fevereiro de 1886, in Boletim da Província de Macau e Timor.

Por esta altura uma das zonas verdes de grande dimensão no território era o Jardim Luís de Camões. O processo para aquisição do jardim foi iniciado pelo antigo Capitão do Porto de Macau, João Eduardo Scarnichia, quando deputado no Parlamento de Lisboa, em Maio de 1880, mas só em 1885 o governador Tomás de Souza Roza telegrafou ao Ministro da Marinha e Ultramar, Manuel Pinheiro Chagas e, depois de autorizado, comprou a propriedade à família Marques.


1885 - "A utilidade que resulta da arborisação, o elevadíssimo papel que ella assume na hygiene publica é tão conhecido e demonstrado que me abstenho de demorar, repetindo o que já é do dominio publico. Basta que diga que breve se devem sentir os beneficos efeitos da cultura emprehendida pelo Ex. mo Sr. Governador. O arvoredo que, tirado d'um viveiro da quinta da Flora cuidadosamente tratado foi transplantado para varios pontos da cidade e em especial para a cordilheira que por E circunda o grande largo denominado Flora, já hoje se apresenta viçoso e bonito. A cultura é em larga escala, e entre os cinco ou seis annos lucrarão a hygiene e o aformoseamento da cidade. Aquelles montes que pela sua nudez, pelo seu granito, e rochas em pontos a descoberto impressionavam tristemente o viajante, aqueles montes que pela sua natureza mais convidavam a trabalhos de dynamite, e mais pareciam proprios a fornecer pedra para construção de casas, do que para alimentar em seu seio um vegetal qualquer, converter-se-ão em formosos cerrados bosques. O estrangeiro que visitar Macau receberá as mais gratas impressões. 
Segundo se vê no relatorio feito pelo agronomo o Ex. mo Sr. Tancredo do Casal Ribeiro, plantaram-se por duas vezes em julho de 1883 e março de 1884 as seguintes especies. 
Pinus sinensis..................... 20,000 pés
Cupressus japonica.............. De cada uma 300 pés
Aleurites triloba..................
Ailanthus glandulosa..........
Poinciana pulcherrima........
Laurus camphora................
Ficus elastica......................
Erytrina...............................
Morus alba..........................3,000 pés
Já depois d'isso mais alguns milhares se tem posto, e actualmente em grande actividade se continua no mesmo trabalho."

Augusto Pereira Tovar de Lemos - Relatório do Serviço Médico da Província de Macau e Timor, 1 de Fevereiro de 1886, in Boletim da Província de Macau e Timor.
Monte da Guia em 1895
1885 - "Mostrar aqui quaes as muitas vantagens da arborisação, indicar quanto lucrará a cidade de Macau, quando as suas montanhas aridas e escalvadas ha pouco, se apresentarem cobertas com um luxuriante tapete de verdura, patentear os beneficos resultados, que a hygiene, a salubridade e o aformoseamento da cidade alcançarão, quando a arborisação, assás e devidamente desenvolvida e espalhada, transformar esta terra calida e ardente, n'um ameno e ridente bosque de arvoredo, não é intento meu, porque são bem conhecidas estas vantagens, e em toda a parte, e por todos, é recomendada a arborização, como um dos meios mais efficazes, para conseguir o saneamento do solo e das camadas atmosphericas. (...)

E é bom de notar que, além d'estas, muitas outras, simplesmentte de adorno, foram collocadas nos differentes jardins, e muitos milhares de pinheiros, que foram dispersamente semeados por todas as montanhas de Macau, já hoje apresentam um satisfactorio estado de desenvolvimento, e em breve farão desapparecer a aridêz d'aquellas regiões graniticas.
No anno findo, a que mais especialmente me devo referir, foram plantadas em varios pontos 5344 arvores, e no viveiro da Flora, cujos canteiros foram destinados, uns á reproducção por meio de estaca, e outros ás diversas sementeiras (...)"

José Maria de Sousa Horta e Costa, Director das O. P. - Relatório da Direcção das Obras Públicas da Província de Macau e Timor, 1 de Julho de 1886, in Boletim da Província de Macau e Timor, de 14 de Setembro de 1886

1886 - "Relativamente á arborisação continuou este serviço em grande escala. Plantaram-se, como se vê no mappa junto, 6/813 arvores, isto é mais 1469 do que no anno anterior, e no viveiro da Flora cujos canteiros são destinados uns á reproducção por estaca outros a sementeiras existem actualmente para serem plantadas no futuro as seguintes arvores (...)"
José Maria de Sousa Horta e Costa, Director das O. P. -  Relatório Sobre Obras Públicas, in Boletim da Província de Macau e Timor, 3 de Novembro de 1887.
Mapa relativo a 1886
1887 - O grande promotor das zonas verdes em Macau foi o governador Tomás de Sousa Rosa (1883-1886). 
Adolpho Loureiro no livro No Oriente De Nápoles à China, refere-se assim ao caso numa visita ocorrida em 1883 aos viveiros da Flora: 
"Aqui estivemos examinando os viveiros e as sementeiras florestais, para as quais o meu bom amigo Rosa teve muitas vezes de empunhar a enxada para ensinar os chins como qualquer saloio dos arredores de Lisboa sabe fazer os alfobres, os machos e as regadeiras. A arborização daquelas encostas vai auspiciosa, e grande serviço presta o Governador ocupando-se de tão grande melhoramento. Como aqueles sítios serão bonitos, quando os terrenos esbranquiçados, cortados de sulcos abertos pelas águas das chuvas, áridos e secos, estiverem vestidos de verdura!..." 
O Conde de Arnoso, que foi com Tomás da Rosa para Macau em 1887, refere-se assim ao tema no livro Jornadas pelo Mundo: 
"A península de Macau, cercada de ilhas, pequena como é, com a sua várzea fertilíssima e as suas seis colinas dum relevo gracioso -- Guia, Penha de França, Mong-Ha, D. Maria e Gruta de Camões é tudo quanto se possa imaginar de mais pitoresco. Quando daqui a alguns anos as sessenta mil árvores, criadas e mandadas plantar por Tomás Rosa, e que parecem vingadas, cobrirem com a sua sombra aquelas encostas, Macau será um verdadeiro paraíso e concorridíssima estação de Verão do Extremo Oriente. Já agora os habitantes de Hong-Kong procuram, no clima natural de Macau, um refúgio aos excessivos calores desta quadra. É com verdadeiro prazer que um português se encontra em Macau mesmo depois de ter visitado Aden, Colombo, Singapura, Saigão e Hong-Kong, onde os ingleses e franceses, a peso de ouro, têm criado estabelecimentos de primeira ordem. Nada nos envergonha".
Mapa relativo a 1887
1888 - "Tem progredido o serviço d'arborisação geral como se pode inferir do mappa n. ° 3 onde tambem está mencionada a sua importancia. A ausencia de tufões durante estes ultimos annos deu logar a que as arvores dispostas n'uma orientação adequada e beneficiadas pela natureza do terreno se tenham desenvolvido, concorrendo poderosamente para o aformoseamento e para a hygiene da cidade. (...)" Amancio de Álpoim de Cerqueira Borges Cabral - Director das O. P - Relatório Sobre as Obras Públicas relativo ao ano económico de 1888 a 1889, 1 de Julho de 1889,  in B. P. M. T., de 3 de Dezembro de 1889.
Mapa de 1889
Podemos verificar a consciência ecológica no final do século XIX nas normas introduzidas no Código das Posturas Municipais relativas aos jardins públicos:
Art. ° 72. ° É prohibido cortar, ou arrancar flores, ou outras quaesquer plantas dos jardins publicos, sob pena de $1 de multa.
Art. ° 73. ° É prohibida a entrada nos jardins publicos a maltrapilhos, mendigos, ou pessoas trajadas indecentemente, embriagados, ou que por qualquer circumstancia offendam a moral publica, sob pena de $2 de multa.

 Avenida Vasco da Gama (e Coreto) ca. 1898
Em 1898, por ocasião da Comemoração dos Quatrocentos Anos do Descobrimento do Caminho Marítimo para a Índia, foi inaugurada a Avenida/Alameda Vasco da Gama. Tinha 65 metros de largura e 500 metros de comprimento, ocupando uma área de, aproximadamente três hectares, incluindo um vasto jardim.

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